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A mesa e a cruz

 

À primeira vista parece que não precisa da especial comemoração da Quinta-feira Santa quem todos os dias se acerca da Mesa do Senhor com a familiaridade da doce monotonia. Precisa tanto e talvez mais do que os menos assíduos. A vida religiosa é principalmente trabalho de Deus em nós, mas também é, logo depois, trabalho nosso, colaboração de obediência que consiste, principalmente, em nos desnaturalizarmos deste velho mundo cuja figura vai passando, para nos sobrenaturalizarmos no mundo novo, na única verdadeira e eterna novidade que Jesus nos trouxe. Daí a necessidade de uma contínua e monótona perseverança combinada com a singularidade dos atos extraordinários; ou daí a necessidade de certos choques, de excepcionais descargas para quem já vive aquela perseverança.
 
A Semana Santa faz reavivar em nós aqueles dias benditos e únicos em que Jesus, o filho do carpinteiro, deixou-nos bem talhadas, e para sempre lavradas, as esquadrias da Mesa e as esquadrias da Cruz.
 
Volvamos nossa devota memória e nossa agradecida lembrança para aquelas cenas únicas que a Santa Liturgia realça. Na Quinta-feira, Jesus reúne seus discípulos em torno da mesa pascal e em tom festivo anuncia sua Paixão: “Muito desejei comer convosco esta páscoa antes de padecer.” E então, pela primeira vez na história e no mundo, celebrou-se a Santa Missa: Jesus é a vítima oferecida ao Pai, mas, agora, oculta sob o mistério do Sacramento graças ao qual a festa recobre o sacrifício cruento. Mais tarde, depois do Calvário e da Cruz, cada Missa repetirá o mesmo sacrifício incruento, mas então tanto a Vítima como o Sacerdote estarão encobertos sem estarem menos presentes do que estiveram no dia da Mesa e no dia da Cruz. Ceia, Calvário, Missa são o mesmo e único Sacrifício latrêutico, eucarístico, propiciatório e impetratório.
 
Na Quinta-feira Santa a Igreja rememora mais vivamente a Ceia e a ardente amizade divina com que Jesus se despede dos doze. Observemos desde logo que esta primeira Missa do mundo tem algo de reservado e de fechado, a par da solenidade dos aprestos, e da maravilhosa improvisação do Lava-Pés. Não é para o Povo de Deus que Jesus Cristo celebra esta primeira Missa. Já nesse tempo passava da centena o número flutuante de seguidores de Cristo, mas não é para todos, para o Povo de Deus que a Ceia é oferecida, embora desde então se destinassem a todos os frutos da Ceia. Cristo instituiu o Sacramento da Eucaristia, e deixou formado o núcleo do sacrifício incruento das futuras missas, na presença dos doze, para que eles depois repetissem até o fim do mundo: “Isto é o meu corpo que será entregue por vós; fazei isto para celebrar a minha memória”. Insistamos em dois pontos para bem assinalar a ordem, a hierarquização tão fortemente marcada na Ceia do Senhor: primeiro, a absoluta e infinita prevalência de Jesus, um só celebrante; segundo, a seleção dos doze como primeiros coletores e como inventariantes do tesouro legado por Jesus. A hora do povo virá depois, e caberá a cada um dos descendentes dos apóstolos reunir em torno de seu báculo as ovelhas de Cristo.
 
Houve depois do Concílio muitos abusos doutrinários tendentes a mostrar a Missa de baixo para cima, e tendentes a derivar a Missa diretamente da Ceia, com esquecimento do caráter sacrifical, e conseguintemente com desapreço do Sangue preciosíssimo por nós derramado. Pode-se, sem dúvida, dizer que, na linha da causalidade formal, a Missa deriva diretamente da Ceia, e o Altar deriva da Mesa; mas, na linha da causalidade eficiente, ambas, a Ceia e a Missa, derivam do Sacrifício da Cruz que é para nós usina das energias espirituais que precisamos para realizar a desnaturalização do novo mundo que já aqui e agora começou para nós pelos trabalhos de Jesus.
 
Sirva-nos esta Quinta-feira Santa para plantar em nossa alma esta idéia fecundíssima: quando pisamos os degraus da Igreja e nos acercamos do Altar, nós, efetivamente, realíssimamente, saímos do velho mundo, e entramos nos átrios da Pátria verdadeira onde Jesus, no seu tabernáculo, a cada um de nós saúda com palavras de abismal ternura: “Desejei tanto que viesses comer comigo esta páscoa ...”
 
E sirva-nos esta Sexta-feira Santa para nos relembrar com novo fulgor que é na Cruz, e só na Cruz, que convém gloriarmo-nos. Desde muitos séculos, até os astrônomos, que são homens inclinados a vadiações especiais e a certo desdém pelo planeta Terra, tiveram a idéia de representar nosso planeta por uma esfera com uma cruz cravada em seu pólo. O mundo moderno fez o possível para extirpar esta esquisita excrescência que lembra tantas transcendências, e que anuncia a espantosa novidade que é o Cristo Jesus, diante da qual todas as novidades do velho mundo exausto têm cor de cinza e gosto de palha.
 
E para ainda mais nos espantar, foi nos próprios meios eclesiásticos, hoje transformados em coudelarias dos cavalos de Tróia, que surgiu a contestação da Cruz. Traga-nos Deus, nesta Sexta-feira Santa, um novo ânimo sobrenatural para adorarmos o santo lenho de onde pendeu nossa Salvação.
 
O GLOBO Quinta-feira, 23/3/78

 

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