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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Futurismo

"Laet é atualíssimo", diz-nos Leopoldo Aires. E eis outro artigo que o prova: mesmo tratando de notícias e filosofias relativas a seu tempo, este delicioso texto também se aplica com precisão à mentalidade de nossos dias.

 

 

Leio nas folhas a notícia da criação de mais uma filosofia, já exornada com o título que encima estas linhas.
 
O futurismo está sendo pregado na Europa por um Sr. Marinetti, trêfego advogado milanês, cuja doutrina, radicalmente oposta à de Augusto Comte, ensina que os mortos devem ser totalmente esquecidos e, portanto, condenados a não governar absolutamente os vivos.
 
As opiniões, como de ordinário acontece, têm-se dividido, aparecendo em frente dos sectários da novíssima seita alguns tradicionalistas, que ousam reclamar certa indulgência para com o passado, sustentando que o elemento histórico é um dos fatores da civilização, e ao menos como lição da experiência não convém que de todo seja desprezado.
 
No sentir do iconoclasta Marinetti, uma das condições para a marcha triunfal da humanidade é só olhar para a frente. Nada de vistas retrospectivas inúteis e até prejudiciais. O homem que se esteja fazendo, sairá errado quando se modele pelo homem que foi. Para progredir é preciso deslembrar, ou antes ignorar fundamentalmente o que tenha sido.
 
Eu não conheço o Sr. Marinetti; mas entendo que, se leva a peito a sua propaganda, só tem um caminho a seguir: tome um transatlântico e venha cá ao Brasil fazer conferências. Este conselho de um desconhecido poderá parecer exorbitante das boas normas: mas eu lho dou, ao já ilustre propagandista, com espírito de simpatia e para o bem dele e da sua novidade.
 
Realmente, não conheço país em que mais probabilidades de ótimo êxito se lhe possam deparar. Direi mais, sem contudo, nem de leve, apoucar a originalidade do Sr. Marinetti: nós, os brasileiros, somos os genuínos precursores da sua filosofia.
 
Há vinte anos, seguramente, não fazemos senão rasgar e queimar a História. Pode-se dizer que os anais desses últimos quatro lustros nada mais são do que um imenso auto-de-fé, em que arde a tradição. Venha para cá o Sr. Marinetti e, em vez de recalcitrantes discutidores, achará cordatos discípulos e talvez mesmo provados mestres.
 
Que era a nossa pátria na tarde de 14 de novembro de 1889? Uma Monarquia entre Repúblicas. Mas exatamente a isso devia o segredo da sua tranqüilidade e da sua integridade majestosa. O tradicionalismo, emperrado, fazia timbre em manter aquilo. Muito em boa hora um movimento, insuflado pelo civilista Rui Barbosa, espedaçou todo aquele organismo. E que pensa o Sr. Marinetti que, no dia imediato, fizeram os tradicionalistas? Bateram palmas ao tentame que, volvendo costas ao passado, encetava não trilhados caminhos.
 
Uma sentinela, à porta do Senado (nesse tempo havia só um) dispersou os senadores encantadíssimos com a inovação. O Supremo Tribunal, constituído por venerandos anciãos, compareceu exultante (tal o termo empregado) para felicitar os inovadores. E quando assim procediam os velhos — laudatores temporis acti, no dizer de Horácio — imagine-se o delírio da gente nova!
 
Não é só isto. No ensino público vazou-se um olho, ou antes vazaram-se os dois que olhavam para o passado: a Filosofia e a História. Atualmente, se a um Sr. bacharel em Ciências e Letras perguntarem quem foi Aristóteles, que é que escreveu, como influiu na mentalidade das muitas gerações que o leram, estudaram, meditaram e comentaram, o moço terá o direito de dizer que não o sabe, porque ao simples estudo da Lógica se resume o curso filosófico oficial. Não se pode, convenha o Sr. Marinetti, levar mais longe o ódio do passado.
 
A História ainda é objeto de algumas lições, mas já houve quem se propusesse suprimi-la de vez, substituindo-a por umas preleções sobre artes, com o devido acompanhamento de projeções luminosas, porque (está escrito em um relatório da Justiça e do Interior) é muito mais interessante para os rapazes conhecer a Vênus dos Médici (e mesmo a Calipígia) do que os sucessos dos merovíngios ou das Cruzadas.
 
A reforma em tal sentido não foi levada a efeito; mas é provável que ainda o seja, mais dia, menos dia; e, se tal acontecer, já vê o Sr. Marinetti que tem quase atingido o seu desideratum.
 
Há, em todas as nações, um patrimônio de glórias que elas se esforçam por guardar zelosamente. Aquelas que custam sangue, são de ordinário as mais preciosas. Estão, por assim dizer, santificadas pela morte e pelo heroísmo. Por isto as bandeiras tomadas ao inimigo são relíquias patrióticas; nem vai no conservá-las injúria alguma aos adversários vencidos. Entre nós, porém, o Sr. Marinetti, naturalmente infenso a estas opiniões, nada acharia que nos exprobar.
 
Mantivemos, efetivamente, renhida luta com o Paraguai, que, alucinado por um déspota, desacatara o Brasil, prendendo, sem declaração de guerra, o nosso Presidente de Mato Grosso e invadindo e talando duas de nossas províncias. O Paraguai era uma nação toda em armas; vencemo-lo em terra e água e, depois de o havermos subjugado, respeitando nele um povo de valentes, não lhe tomamos sequer uma polegada de terra, nem jamais o afligimos para que nos pagasse a contribuição de guerra. Pois bem! há brasileiros (como os Srs. positivistas ortodoxos) para quem o nosso desforço, a nossa defesa, a reivindicação dos nossos brios e direitos, foi uma guerra de que nos devemos envergonhar! E não faz muitos dias, outro patriota, o Sr. Medeiros e Albuquerque, declarava que a campanha do Paraguai, em seu conjunto, só para esta nação foi honrosa... Que mais desejara, em postergação do passado, o honrado Sr. Marinetti?
 
A catequese: eis outro capítulo longamente desenvolvido em nossa História. Nenhum país do mundo tem fatos que se assemelhem, de longe sequer, às maravilhas operadas pelo Anchieta, pelo Nóbrega e por seus companheiros. Delas, com mais razão do que tinha o Camões falando das proezas lusitanas, lícito nos fora repetir com ufania:
 
As verdadeiras nossas são tamanhas
Que excedem as sonhadas fabulosas.
[Os Lusíadas, I, 11, onde está vossas, e não nossas]  
 
Um povo que se embevecesse na História, que cultivasse a tradição, que amasse o passado, folgaria de relembrar esses feitos e tentaria continuá-los pela catequese católica, única eficaz para a redução do gentio, em toda a parte do mundo. Mas o marinetismo já entre nós tinha adeptos antes de brotar o Sr. marinetti. O que se procura fazer em catequese é o que nunca até hoje se tinha feito. Uma repartição leiga, e marinética também, há de vir aos bosques atrair os silvícolas, pregando-lhes, em vez do Evangelho, os relatórios de Agricultura. É sistema novo e completamente divorciado da História. Que encanto para o grande inimigo do passado!
 
Em geral, quando um sujeito leva uma tapona ou padece qualquer demonstração de hostilidade, ponderando este fato, e doendo-se dele, principalmente quando não é muito antigo, evita relações como proprietário dos cinco dedos ou da ponta do pé agressivos. Mas para o fazer é preciso ter memória, olha para o passado. Desde que, marineticamente, isto seja defeso, o que cumpre ao injuriado é tratar o ofensor como se nada tivesse havido; e até mesmo prodigalizar-lhe sinais de inequívoca deferência. Parece difícil de obter; mas não é tanto assim. Vou já dizer como. Digne-se de atender o Sr. Marinetti.
 
Na vizinha República Argentina um cidadão, de nome Zeballos, tomado de acerbos sentimentos para conosco, nenhum meio tem descurado de nos maltratar pela imprensa. É um sujeito que não se resigna ao seu papel de vencido na questão das Missões, onde aliás, após a sentença arbitral, tão cavalheirosa se mostrou a Argentina, respeitando o arbitramento que lhe foi desfavorável, assim como nós o teríamos acatado na hipótese contrária, e com efeito o fizemos em nosso litígio com a Inglaterra, na Guiana. Sabe-se tudo isto: mas o bem que revela completa eliminação destes dados históricos é que, ultimamente, em Buenos Aires, a uma conferência do Sr. Zeballos, detrator do Brasil, amavelmente compareceram personagens oficiais e representativas do nosso país. Se o Sr. Marinetti não se abarrota com esta postergação da História de ontem, bem difícil é de contentar!
 
Outra coisa: — Qual a grande, talvez a maior dificuldade em uma constituição política? Garantir a harmonia dos poderes públicos; evitar conflitos; dirimi-los, quando acaso se manifestem. É o que o finado Pena chamava lubrificar o sistema. Mas tudo isto são velharias do Direito Constitucional. Omitindo a lição do passado, a vigente Constituição não cura nem de evitar, nem de remover conflitos. Temos um Conselho Municipal não reconhecido pelo Prefeito. Possuímos duas Assembléias Estaduais Fluminenses, rivais, antagônicas irreconciliáveis, posto que politicamente não se distingam, porque ninguém sabe qual a política de uma e de outra. Que fazer? nada. É olhar para a frente. Siga o carro como e por onde puder. Desafio o Sr. Marinetti a encontrar mais cabal desprendimento dos usos, mais acentuado desprezo das tradições, mais valoroso espírito de inovação.
 
Uma das coisas que mais me entristecem é que, adotado entre nós o futurismo, seria preciso, talvez, fechar o Instituto Histórico: e que fazer, então, do pobre Secretário Perpétuo, Sr. Max Fleiuss? Verdade é que, para continuar no cargo, ajuizadamente ele poderia alegar que sempre mais curou do futuro.
 
Outra supressão perigosa: a dos aniversários natalícios. Mesas de chefes ornamentadas de flores e circundadas de funcionários disciplinados, gentilíssimos e dadivosos; charangas festivas, discursos pontuados de foguetes e declamados com voz umedecida por lágrimas; copos d'água improvisados na residência do aniversariante e homenageado, agradavelmente surpreso pela explosão de afeto dos seus subordinados  — fatalmente estaríeis fadados à eliminação, porque toda comemoração é um lance de vista ao passado e todo o passado é odioso...
 
Para que, porém, nos afligirmos antes do tempo? O que só pretendia mostrar é que, mais uma vez, a Europa tem de curvar-se diante do Brasil. O Sr. Marinetti criou o futurismo, mas nós o tínhamos adivinhado, como precursamos a navegação aerostática. Venha, repito, a estas plagas hospitaleiras e ansiosas de missões européias.
 
Nós já temos o patriotismo positivista, o zebalismo brasileiro, as duplicatas insanáveis e a catequese leiga. mais algumas lições e ficaremos mestres.
 
(Jornal do Brasil, 7-8-1910)

 

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