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Revista Permanência 273

  Tempo da Quaresma- 273
 
 

Crítica à crítica da civilização científica

Recebi, de uns amigos em São Paulo, um número do "Boletim da Santa Casa" em que estava assinalado, para minha atenção, um longo artigo do sr. Paulo de Almeida Toledo, intitulado "Crítica da Civilização Científica". Li-o rapidamente, para ter uma primeira impressão do tom e das posições do autor. Julguei ter lido mal, porque não logrei atinar com o que procurava. Li novamente, agora devagar, com máxima atenção e tomando notas. E cheguei ao termo dessa segunda leitura com a mesma perplexidade.

 

O artigo compõe-se de três partes, como as sonatas, com a diferença de estar o allegro na segunda, e de terminar com uma espécie de melancólico adágio. Mas, onde menos se parece com uma sonata, é na falta de unidade. As três partes que o compõe não formam um todo, e por conseguinte não podem corretamente ser tratadas como partes.

 

É perfeitamente admissível que se faça um artigo em três partes; é lícito que de uma para outra varie o andamento e o tom, que o autor explore os variados registros de seu instrumento, que se ria aqui, que chore acolá, e que torne a encontrar no fim, com lágrimas mal enxutas, o júbilo de seus primeiros acordes. A variedade é sempre admissível. A modulação, a variação, a deflexão, a digressão, tudo enfim que signifique riqueza e agilidade: mas o que é inadmissível é que as três partes de um trabalho não formem um todo, e sejam entre si tão alheias como se fossem feitas por três autores distintos.

 

Dada essa descontinuidade, e dada a profusão material de fatos e nomes que atravancam o artigo, eu não pude escolher melhor método de crítica senão este, em que passo a supor que são três os artigos e três os autores. Dirigir-me-ei, pois, sucessivamente aos srs. Toledo I, Toledo II e Toledo III, com a esquisita impressão de quem estivesse a discutir com toda uma dinastia.

 

* * *

 

Contra o sr. Toledo I eu defendo os direitos da razão e o valor da ciência, que esse articulista espezinha, apresentando a evolução do pensamento humano como um movimento de sucessivas catástrofes e sucessivas reparações. Diz, por exemplo: "A remodelação contínua dos conhecimentos médicos, com subversão completa de valores e noções, em lapsos de tempo extraordinariamente curtos, que nos impele (...) a considerar antiquadas e errôneas noções tidas como definitivas e irrefutáveis, levou alguns espíritos, com certo grau de humor, a proclamar que "em medicina o progresso consiste em provar, hoje, que tudo aquilo que tínhamos ontem por certo está errado."

 

Logo a seguir, e sem nenhum espírito de humor, o sr. Toledo (I) acha que somos irresistivelmente levados a ver que a moda e a voga desempenham um grande papel em medicina.

 

Ora, começo logo por dizer que quem está errado é o que diz que os seus antecessores estavam errados. Chamar de errôneo o que era apenas imperfeito é um erro, e revela uma deficiência de espírito filosófico. Um conhecimento pode ser imperfeito sem deixar de ser verdadeiro. Uma conquista científica não deixa de ser definitiva por lhe ser alguma coisa acrescentada. O progresso científico não deixa de ser realmente progressivo pelo fato de haver certos conhecimentos que acidentalmente se desviam da linha mestra de uma determinada ciência. Houve erros, em física, em astronomia, e em biologia, mas seria um grave erro filosófico supor que não houve uma enorme soma de conhecimentos verdadeiros, embora imperfeitos, na história de cada ciência. O faro do verdadeiro cientista não se mede propriamente pelo valor objetivo do resultado, e sim pelo pressentimento da linha verdadeira. E, nesse sentido, pode-se dizer de Laennec (e até de algum outro obscuro antecessor medieval), que ele foi mais cientista, e aderiu mais fortemente à verdade em suas pesquisas, do que a maioria dos anatomistas ou fisiologistas de nosso tempo.

 

Quanto à idéia de moda ou voga, pode ser que ela esteja nos médicos, nos cartazes, nas conversas, nos receituários, mas é uma injúria ao valor próprio da ciência supor que ela esteja na medicina.

 

Diz também o sr. Toledo (I) que as gerações vindouras hão de olhar para os nossos pobres triunfos como nós mesmos olhamos Broussais com seu bisturi. É claro que temos alguns bons motivos para sorrir daquele personagem que foi um trapalhão da medicina, mas duvido que alguém possa sorrir de Servet, de Laennec, de Pasteur e de Koch. Como duvido que se possa um dia achar graça em Newton ou Grauss. Como não lembra a ninguém ridicularizar Thales ou Euclides.

 

"Depois — diz o autor — insensivelmente, a dúvida levantada sobre a legitimidade e o valor das medidas terapêuticas atuais se estende às concepções sobre a origem, o mecanismo e a significação das doenças." E depois "a mesma incredulidade se espraia e se insinua, contaminando a ciência em geral, a sociologia, a política e as artes." E finalmente nós nos sentimos "flutuar num oceano de concepções vagas, de sensações indefiníveis, sem poder com certeza afirmar de que lado está a verdade, se é que existe alguma verdade."

 

Se o sr. Toledo (I) quisesse dizer que a cultura-cientificista nos deixa tontos e insatisfeitos em relação a verdades de outra ordem (a existência de Deus, por exemplo) eu estaria pronto a simpatizar; e em boa fraternidade de armas convidá-lo-ia agora mesmo a tomar parte comigo no combate contra nosso adversário comum, o sr. Toledo II, que virá nos dizer que a ciência destronou a divindade e que a descoberta de um bacilo é a prova do erro do cristianismo.

 

Mas agora, aqui neste tópico, não é esta a atitude do sr. Toledo (I). Ele sente vertigens no próprio domínio de cada ciência. Na sua náusea de mal habituado viajante, ele põe em dúvida a capacidade real de conhecer alguma coisa em algum domínio. E, neste injusto combate, estou contra ele em defesa da ciência e da razão. Mas não é ao cientificista Toledo II que eu pediria armas e munições, e sim a Aristóteles, a Santo Tomás de Aquino, a Jacques Maritain, que sempre nos ensinaram que há graus de saber, e que um conhecimento pode ser imperfeito sem deixar de ser verdadeiro.

 

Eu conheço a mesa em que escrevo, conheço minha mulher e minhas filhas. Às vezes não consigo achar um lápis, uma raspadeira, na confusão de minha mesa; às vezes não consigo entender muito bem as razões de minha mulher; às vezes me engano sobre o que querem de mim as minhas filhas. Mas, com todos esses insucessos não poderei dizer, em grande estilo cético, que não conheço minha mesa, minha mulher e minhas filhas.

 

Os filósofos que o sr. Toledo II tentará demolir, a golpes de bacilos e de elétrons, nos ensinam que nós conhecemos a essência das coisas, mas não conhecemos essencialmente, isto é, a fundo, de um modo total, que apreenda o mistério total de cada ser. E que, mesmo o que nos é acessível nos seres, nos é dado progressivamente.

 

É claro que a história das ciências tem pilhérias, como as de Broussais, Bouchard e Pidoux; e como a de Haeckel que o cientificista Toledo II considera com tanta seriedade; mas também é fora de dúvida que tem inesquecíveis e dramáticos momentos de que só é possível fazer pilhéria no espírito dessas que se fazem com a maternidade, com a traição e com a morte. Se o sr. Toledo, ou alguém mais, pensa que os católicos devem simpatizar com essa mentalidade que põe em ridícula debandada as conquistas da física e da biologia, está profundamente enganado. Não é só o dogma que nos defendemos; é também a razão, é também a ciência; é também o progresso da física e da biologia. Não é só a memória dos santos que nós honramos; é também, proporções guardadas, a de todos os homens que fizeram alguma coisa verídica.

 

O sr. Toledo (I) mostra-se perplexo, estonteado, com a vaga impressão de que reina enorme confusão no domínio das ciências. Que reine nas cidades e nas vidas, isto é outra história em que poderíamos nos entender. Mas, para que nos entendamos será preciso que o sr. Toledo consinta em rever a idéia que tem do progresso científico. Realmente, a idéia que o sr. Toledo demonstra em seu artigo é a de quem se perde na consideração da enorme variedade de coisas que a ciência moderna contém. Mas a ciência moderna, ao contrário do que insinua o autor paulista, tem em quase todos os domínios maior unidade do que a ciência do século passado. Aliás, só pode haver real progresso científico onde a diversidade de fatos se enquadrar em unidade de doutrina mais forte.

 

Não há pois motivos para essa angústia do sr. Toledo (I). Pasteur nunca se perturbou, certamente, com a esdrúxula idéia de que seu trabalho estaria brevemente tão fora de moda quanto o figurino de sua avó. Bem sabia que cedo ou tarde seria superado, mas também sabia que há sempre alguma coisa de genuíno, de verdadeiro, de duradouro em cada modesto trabalho que fazemos em qualquer domínio do conhecimento. E melhor do que ninguém, por virtude cristã, ele sabia o que aos antigos devia; e poderia ser sua a frase de um outro grande cientista: "Eu vi um pouco mais longe porque subi em ombros de gigante".

 

Ora, estávamos nós nesta altura do combate quando, anunciado por um toque de clarim, como nas óperas de Wagner, entrou em cena o campeão cientificista Toledo II que começa por dizer: "Quanto à civilização moderna, o que a caracteriza, quase até nossos dias é o predomínio da razão contra a fé, da ciência sobre o misticismo e a crença."

 

É neste ponto, e não onde o autor o demarcou, que começa a 2a. parte do artigo. É aqui que o personagem anterior, espécie de Hamlet desencantado, cede lugar ao otimista que nos vem fascinar com histórias de descobertas e invenções maravilhosas.

E agora, contra o sr. Toledo II, tomo a defesa da Fé, continuando ainda, em oblíquo, com golpes de proteção e cobertura, a defender a mesma Razão que está a sofrer outra espécie de injúria, talvez pior do que a primeira.

 

Em certa altura se define o pensamento do autor: "Na antiguidade e até o fim da idade média as epidemias, as pestes, as pragas, refletiam a cólera de um deus onipotente contra os erros da humanidade. Séculos de pesquisas e de experiências foram necessários para provar que atrás da divindade poderosa se esconde apenas um bacilo virulento. Onde a melhor lógica impunha antes penitências e procissões, impõe hoje profilaxia e higiene."

 

É verdade que os homens religiosos (em todos os tempos) pensam que a dor é uma conseqüência do pecado, e que nas épocas de sofrimento é muito útil para a alma a penitência, e que é recomendável organizar procissões. Tudo isso é verdade. Mas o que é falso, o que tresanda má fé, é imaginar que em algum tempo, hoje ou na Idade Média, os homens religiosos desconheceram o fato elementar das causas segundas, o fato de uma doença ter causas no corpo, o fato de uma sova de pau ter causa no pau.

Se um medieval apanhasse um coice de égua, pensa acaso o sr. Toledo que aquele crédulo julgava que tivesse apanhado um coice de anjo? Ou então, imagina o sr. Toledo que descoberta a causa, isto é, a égua, ficava destruída a idéia de pecado e inutilizado o propósito de penitência? Ou então, pensa que o medieval, uma vez evidenciado o pau, a pedra ou a besta, já não poderia crer em Deus onipotente? Ou ainda, quer insinuar que o contemporâneo de Solicetti, cônscio do castigo divino dispensava as aplicações dos bálsamos?

 

A única coisa certa que vejo em tudo isto é que o sr. Toledo II, se fosse ele o piedoso que levasse um coice de égua, perderia a fé ao perceber a causa de sua dor, porque havendo égua não há Deus. O que me parece evidente é que, para o sr. Toledo II, há uma diferença essencial entre a descoberta de uma égua e a descoberta de um bacilo. Diria até que há uma diferença essencial entre os dois bichos, e que o coice do bacilo é algo de científico, enquanto o coice de égua é algo de comum, de rasteiro, de vulgar, que escapa àquela luz verde e mágica — a luz médica — que banhava o consultório do dr. Knock.

 

Além disso cumpre notar que os descobridores do bacilo não perderam a fé.

 

Adiante, depois de se referir ao obscurantismo medieval, que se opunha à pesquisa e à observação, o autor acha notável o gesto de Lutero queimando em praça pública os textos consagrados (?) em sinal de rebeldia. Por quê? Sim, por que, neste tópico, nesta ordem de idéias acha notável o gesto de Lutero? Se julga que Lutero queimava o que impedia o progresso, o sr. Toledo está completamente enganado. Se é verdade que Lutero queimou a Suma Teológica é preciso dizer os motivos; e esses motivos são exatamente opostos àqueles que poderiam merecer a admiração do sr. Toledo (II).

 

Na verdade, Lutero queimava os textos medievais porque queria ficar só com a Bíblia. Queimava-os para voltar atrás. Destruía-os suspeitando que Santo Tomás de Aquino desse excessivo valor à razão. Paracelso, se é verdade o fato, queimou também alguns textos, mas por motivos opostos aos de Lutero. Ambos queimaram, mas o que importa é distinguir os motivos de cada um.

 

A idéia que o sr. Toledo (II) tem da idade média é errada no todo e no detalhe; na tendência geral do obscurantismo que lhe empresta e nos fatos que cita. Zomba de Aristóteles ao mesmo tempo que exalta (como novidade) o princípio de causalidade. Zomba de Santo Tomás por ser anticientífico e acha notável o gesto de Lutero que achava Tomás de Aquino científico demais. Repete os lugares-comuns da intolerância medieval, e do apriorismo que pretendia tirar da Bíblia as ciências da natureza, ignorando — de modo imperdoável para quem se abalança a tratar desses assuntos — que o gênio da Idade Média, Santo Tomás, lutou a vida inteira para deixar bem claramente afirmado os direitos da razão.

 

Bastava-lhe abrir uma história da medicina para ouvir um Guglielmo Salicetti dizer aos discípulos há mais de setecentos anos que nenhum livro pode dispensar a observação direta dos fatos; ou para ver um Lanfranc ensinando a dissecação e a anatomia a centenas de alunos na Universidade de Paris, no mesmo século de Santo Tomás.

 

Num curioso comunicado dirigido ao Congresso de Artes e Ciências na exposição de S. Luis, em 1904, o professor Allbutt, regente da cátedra de física em Cambridge, fez uma notável apologia à "Cirurgia Magna" desse mesmo Lanfranc. E Guy de Chaubiac que com razão já tem sido chamado mestre de Ambroise Paré e pai da cirurgia? E Peregrinus que nos deixou o mais remoto trabalho sobre ferro-magnetismo, numa "Epístola" (hoje diríamos uma monografia) com a descrição de um aparelho para medir azimutes? Será possível pensar que os vinte mil ou mais estudantes que contava Paris no tempo de Santo Tomás, e que se distribuíam pelas diversas escolas, desde a teologia até a anatomia, pensavam que seria a fé a observação direta dos fenômenos?

 

Ao contrário, o que certamente se depreende do espírito medieval, por menos que se estude, é uma certa claridade, um gosto pela reflexão e um gosto pela observação, um equilíbrio de tendências que raramente se encontra na história. E dificilmente poderíamos imaginar um Alberto Magno a dizer, diante das descobertas de seu tempo, que já não se sabe mais onde está a verdade se é que a verdade existe. Esse grande escolástico tinha certamente mais confiança na ciência do que a que nos provou há pouco o sr. Toledo I. Mas sabia também que a existência de Deus não estava à mercê de um bacilo.

 

Aliás, já que falamos de Alberto Magno não resistimos ao gosto de citar um trecho de um artigo publicado pelo dr. Fernando Carneiro no jornal "Fronteiras", de Recife, em 1937.

 

"F. M. Barbado, na Revue Thomiste, a propósito do centenário de mestre Alberto, confronta as descrições modernas de Pende dos quatro temperamentos humanos — o hipertiroideu, o hipo-supra-renálico, o hipotiroideu, e o hiper-supra-renálico — com os temperamentos que Santo Alberto denominava o colérico, o melancólico, o fleumático e o sanguíneo. A esse respeito Hamilton Nogueira fez uma brilhante conferência no Centro D. Vital."

 

A seguir o dr. Fernando Carneiro transcrevia em confronto as descrições do mestre da moderna endocrinologia (tiradas das obras Debolezze di constituzione e Endocrinologia) e do antigo mestre Alberto Magno, tirados do livro De Animalibus LXX, fr. I, CII, ed. Munster i. W, pag. 1.304.

 

O sr. Toledo poderá verificar por si mesmo que é absurdo e mesmo ridículo falar no apriorismo dos sábios medievais e na sua suposta aversão pela observação dos fenômenos.

 

O que evidentemente prejudica a unidade, e por conseguinte, a clareza do artigo do sr. Toledo é a preocupação que tem o autor de falar de tudo. Para dar um exemplo percorramos juntos uma pequena parte de seu trabalho, a começar pela 2a. coluna da página 18 e terminando na 1a. coluna da página 19. Vejamos as citações. Fala de Darwin, e logo passa de Darwin para Woehler; de Woehler, em quatro linhas, passa para Claude Bernard; de Claude Bernard, com um passo está em Pavlov e Vogt; de Vogt volta a Mendel; de Mendel cai em Augusto Comte; de Augusto Comte afunda-se em Haeckel ressurgindo logo após com o manifesto de Marx e Engels na mão; de Marx e Engels, mediante um salto inacreditável, passa ao pintor Courbet; do pintor pula para o romancista Flaubert; de Flaubert desliza para Zola, que julga ser um escritor de primeira classe; de Zola pula para Manet e Monet equiparando o impressionismo ao realismo (!); de Monet passa para Leconte de Lisle e Heredia, atribuindo ao parnasianismo o termo "exótico" (!); de Heredia vai para Eça de Queirós e daí chega a Manuel de Macedo, da "Moreninha", e aflora de leve os lábios de mel de Iracema. Depois, num salto mortal inteiramente imprevisto volta a Renan e conclui o allegro de sua sonata com a dissecação da figura humana do Cristo!!

 

Mas vejamos alguns detalhes: a propósito de Darwin diz que, no curto espaço de 20 anos, quebra o tabu da humanidade como criação privilegiada e centro do universo. Em primeiro lugar o darwinismo não está hoje na tranqüila posição que parecia desfrutar há cinqüenta anos; em segundo lugar eu pergunto — admitindo provado todo o darwinismo — em que se modifica o privilégio do homem, cuja racionalidade continua intacta?

 

Noutro ponto cita Haeckel. Ora, essa citação é indigna de um cientista. Haeckel é uma figura de embusteiro sem o menor valor científico. Citá-lo, num artigo sobre a civilização científica, é o mesmo que citar os discursos do sr. Ademar de Barros quando se está falando em Rui Barbosa e Joaquim Nabuco.

 

* * *

 

Em resumo, a idéia central, se alguma existe, nesta parte do artigo que atribuímos ao sr. Toledo II, é que a ciência da natureza só começou a desenvolver-se rapidamente quando os homens perderam a fé, e se desvencilharam do obscurantismo da Idade Média. E por que não teria sido, ao contrário, o crescimento científico que levou o homem a perder a fé? Por que não será a causa o que o sr. Toledo apresenta como efeito?

 

Nós podemos perfeitamente defender a seguinte tese: o renascimento e o surto científico só foi possível na cristandade porque era uma cristandade, e porque o forte espírito filosófico e científico da Idade Média permitiu essa frutificação. os homens da renascença são filhos dos medievais. Beneficiaram de uma herança. Mas depois esqueceram o que deviam e orgulharam-se com o que tinham conquistado. E, orgulhando-se, tentaram inaugurar uma civilização centrada no homem, e afastada da fé.

 

A favor dessa tese temos um fato de mediana claridade: a ciência tem o seu maior surto nas civilizações mais fortemente cristianizadas. Se a sombra da Igreja fosse a venenosa mancenilha descrita pelo sr. Toledo II, era de esperar que a física, a química, a astronomia se desenvolvessem na China, na Índia, no Afeganistão, e não na França de S. Luís, na Itália de S. Pedro, na Inglaterra de Santo Eduardo.

 

É impossível que o sr. Toledo ignore que certos rapazes, criados em famílias cristãs, perdem a Fé na crise de adolescência. Há filhos que adotam um processo sui-generis de afirmar a maioridade esbofeteando ritualmente o pai e a mãe. Ora, não seria possível aplicar à história da humanidade a famosa lei biogenética?

 

Mas esse esquema, que equipara o orgulho renascentista a uma crise de adolescência (que se prolonga até nossos dias), embora mais lógico do que o esquema do sr. Toledo, é ainda simples e rígido demais. Se houve uma apostasia cultural, por assim dizer, não houve, nos homens que maior impulso deram à ciência a apostasia individual. Com raríssimas exceções, e não falando dos tipos de segunda ordem como Haeckel, os verdadeiros cientistas dos últimos séculos não seriam capazes de dizer o que disse o sr. Toledo II. Lausac, Servet, Paré, Laennec, Mendel, Pasteur e Darwin ficariam espantadíssimos se alguém, à custa de um dom especial de profecia, lhes recitasse o artigo do sr. Toledo. Eram homens religiosos, e alguns — como Pasteur — homens de vida de piedade. Pascal, Newton, Descartes, Leibniz, eram também homens de fé. E tantos outros.

 

 É verdade que Galileu sofreu perseguições de autoridades eclesiásticas, embora por motivos diferentes dos que são geralmente apresentados; mas é também verdade que seus trabalhos científicos foram encorajados e custeados pelas autoridades eclesiásticas. Aliás, pensa o sr. Toledo que foi só a Galileu e à sua luneta astronômica que certas autoridades eclesiásticas perseguiram? Pois está enganado. Com maior vigor ainda autoridades eclesiásticas perseguiram Santo Tomás e impugnaram o aristotelismo que lhes parecia suspeito por causa dos árabes. E com muitíssimo mais vigor perseguiram Santa Joana d'Arc.

 

[Recomendamos a leitura do livro de Gustavo Corção, O Século do Nada, Record, Rio de Janeiro, 1973, onde Corção desenvolve melhor o que aconteceu entre Galileu e as autoridades religiosas - nota de Permanência]

 

* * *

 

Vejamos agora a 3a. parte do artigo, que atribuo ao sr. Toledo III e que começa na página 21, depois de um longo parentese em que se delineia um autor intermediário entre o II e o III, não conseguindo todavia uma transição lógica, porque Toledo III se opõe a Toledo II. 

 

Nesta terceira parte retomo frontalmente a defesa da razão, continuando ainda em oblíquo a defesa da fé.

 

Aqui, voltando ao tom da primeira parte, o autor demonstra um agravado enjôo diante da vertiginosa diversidade de coisas e de resultados que a ciência moderna apresenta. E, perdendo a robusta confiança que tinha em sua anterior encarnação, começa a ver penumbras e fantasmas nos cantos dos laboratórios. A matéria se desvanece, o elétron se torna inquietante, e a física (no seu dizer) perde o contato com a realidade sensível (!!!) — e até o pobre número imaginário aparece como qualquer coisa que tangencia o misticismo.

 

De tanto abordar tantos assuntos — desde os lábios de mel de Iracema até o número i — o sr. Toledo se deixa comprometer em detalhes indignos de sua cultura, e passa a ver na raiz-de-menos-um (i) algo de misterioso que serve como ponte entre o visível e o invisível! "E essa ponte, Einstein a transpôs com intuição genial."

 

Ora, qualquer estudante de matemática e física sabe que esse número i é muito mais pacato do que o sr. Toledo imagina, e de emprego na física muito anterior a Einstein. Em eletricidade, por exemplo, o número i serve para exprimir o fato concretíssimo de estar a corrente defasada um quarto de ciclo da tensão num circuito contendo reatância capacitiva. A idéia de que esse número i, impropriamente chamado imaginativo, seja uma ponte entre o visível e o invisível conduz a crer numa ciência esotérica, em que já não se sabe mais onde se demite a razão para ceder lugar a não sei qual instinto do misterioso e do invisível.

 

Mais adiante, cada vez mais melancólico e desencantado de sua aventura cientificista diz o sr. Toledo III: "A ciência é feita com a elaboração intelectual, lógica, dos dados apreendidos conscientemente pelos sentidos. A vida porém é vivida um pouco consciente mas muito mais inconscientemente. Daí o conflito, o fracasso da civilização científica."

 

Está desfraldada a bandeira do vitalismo, do instintivismo, do existencialismo, em guerra contra a razão! E logo a seguir: "E todas as artes, desde a escultura até a poesia, sofreram com a passagem do século uma tremenda reviravolta, do consciente, claro, objetivo, materialista, para o inconsciente, vago, espiritualista." E termina seu artigo, depois de uma série de imprecações convencionais contra os tempos modernos, lamentando essa onda de materialismo e desejando um tipo novo de cultura com menos progresso e mais alma, "uma cultura mais mística, mais artística, mais serena, mais lenta, e sobretudo mais sincera."

 

* * *

 

A primeira vista dir-se-ia que o sr. Toledo III, desencantado daquele mesmo progresso e daquele mesmo racionalismo com que se deliciava o seu predecessor, está aqui esboçando um comovente apelo na direção do espiritualismo; e que, sendo assim, nós deveríamos correr ao seu encontro de braços abertos.

 

Mas nós somos mais exigentes. O espírito, para nós, não está na direção do confuso, do indeterminado, do instintivo, do inconsciente. O espírito, para nós, é na clara direção da razão que se encontra. Quanto mais racional, mais espiritual. o racionalismo cientificista não consiste propriamente numa superavaliação da inteligência, e sim numa subavaliação do ser; e, por conseqüência, numa subavaliação da própria razão. Se é verdade que a razão conhece seus limites, e às vezes se deixa ofuscar pelo mistério das coisas, e sobretudo pelo mistério de Deus, não é na linha do desencantamento e do irracionalismo que encontramos o fulgor do mistério. Para nós o mistério excede a razão, mas não a destrói. Excede a razão, mas supõe a razão.

 

Se o sr. Toledo não tivesse caído no cientificismo há dez minutos, não precisaria agora recorrer ao anticientificismo. É exato que haja uma crise no mundo moderno. Um dos motivos é exatamente essa alternativa entre o cientificismo insolente e o melancólico e noturno irracionalismo. Todo erro gera o seu contrário. Na vida dos povos e das pessoas, é visível esse fenômeno de ação e reação pelo qual os erros produzem antinomias. mas raramente — digo-o satisfeito, como um clínico que descobre um belo caso — se apresenta esse fenômeno tão bem caracterizado como no caso dos srs. Toledos.

 

O leitor compreenderá, com essa explicação, por que motivo não me alegro muito quando um ex-materialista se põe a desejar uma cultura com mais mística do que progresso.

 

É possível — Deus o permita — que o sr. Toledo esteja realmente procurando o absoluto, no meio do que julga ser o caos do pensamento contemporâneo. É possível — Deus queira — que aquele artigo, apesar de abstruso, seja um primeiro movimento de Fé. É possível — Deus o ouça — que um gemido, um começo de temor, esteja batendo em seu coração. Nós quereríamos ajudar. Quereríamos facilitar, no que nos estivesse ao alcance, os primeiros passos de filho pródigo.

 

Mas não podemos ver com bons olhos o itinerário subterrâneo que escolheu. Não nos agrada que a Fé perdida por causa do bacilo seja procurada no mistério do número i. A nossa Fé não se nutre dos estrumes da razão apodrecida. A nossa Igreja não cativa seus filhos pela obscuridade dos instintos. A nossa vida espiritual só progride se caminhamos de claridade em claridade.

 

Eu, se pudesse, correria ao encontro do sr. Toledo, esquecendo que são três, querendo a amizade e a fraternidade de um só, e gritaria para preveni-lo:

 

— Por aí não! Por aí não, meu amigo! Não é esta a porta... alguém lhe informou mal. A porta é acolá, é por aqui, venha, venha, faça o favor. É aquela, acolá, a porta de nossa Igreja. Veja como é larga. Veja como são mansas as duas sentinelas que lhe montam guarda como chapéu na mão estendida. Venha... por aqui, faça o favor, não tenha receio que o chão do adro é de pedra. Entremos. lá no fundo, o que o amigo vê é um cofre. O cofre de nossa verdade. De pedra também. E, em cima dessa arca de pedra estão pousadas, trêmulas e vivas, duas asas de luz — o melhor símbolo da casa de Deus.

 

 

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