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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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A Permanência no centenário de Fátima

Dom Lourenço Fleichman, OSB

Em 1987, ao se completarem os 70 anos das aparições de Nossa Senhora em Fátima, Portugal, Dom Marcel Lefebvre reuniu a sua Fraternidade Sacerdotal São Pio X no local das aparições, numa peregrinação internacional de padres, seminaristas e religiosos, juntamente com alguns poucos milhares de fiéis, sobretudo da França e Alemanha.

Nessa ocasião o bispo de Ecône fez uma solene consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, sem querer, de modo algum, usurpar um papel de chefia que não era o seu, mas desejando, por outro lado, cumprir a ordem dada pela Mãe de Deus, quando da aparição a irmã Lúcia, em Tuy, na Espanha, em 1929.

Se os papas se recusaram a consagrá-la, ou se o fizeram sempre de modo parcial, eu pelo menos – pensava o santo bispo – cumprirei a minha parte. Eis o trecho da consagração relativo à Rússia, feita por Dom Marcel Lefebvre, diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima, na Cova da Iria:

... na intenção de frear os castigos que anunciastes, vos tornastes a mensageira do Altíssimo, para pedir ao Vigário de Jesus Cristo, unido a todos os bispos do mundo, a consagração da Rússia ao vosso Imaculado Coração. É com pesar que vemos que ainda não deram resposta a vossos pedidos.

Por esta razão, a fim de antecipar o feliz dia em que o Soberano Pontífice realizará os pedidos de vosso divino Filho, sem nos atribuir uma autoridade que não nos pertence, mas por uma humilde súplica dirigida ao vosso Coração Imaculado, em nossa condição de bispo católico, penetrados de solicitude pela sorte da Igreja universal, e unidos a todos os bispos, padres e fiéis católicos, Nós resolvemos responder, por Nossa parte, aos pedidos do Céu. (...)

E Dom Lefebvre continua com mais detalhes:

Em segundo lugar, damos, entregamos e consagramos, na medida em que isso está em nosso poder, a Rússia, ao vosso Imaculado Coração: nós vos suplicamos, na vossa maternal misericórdia, de tomar esta nação sob vossa poderosa proteção, de fazer dela vosso domínio onde reinais como Rainha, de fazer dessa terra de perseguições uma terra de eleição e de bênção. 

Nós vos conjuramos a submeter tão inteiramente essa nação a vós, que, convertida de sua impiedade legal, torne-se um novo reino para Nosso Senhor Jesus Cristo, nova herança para vosso doce cetro. Do mesmo modo, tendo abandonado seu antigo cisma, que ela retorne à unidade do único rebanho do Pastor eterno, e que, submetida assim ao Vigário de vosso divino Filho, ela torne-se um ardente apóstolo do Reino social de Nosso Senhor Jesus Cristo em todas as nações da Terra.

Como fica claro no texto dessa bela consagração, a Rússia jazia ainda sob a escravidão da União Soviética. Quem poderá dizer qual a influência desse ato nos acontecimentos que viriam? Quantas mudanças após o fim da Cortina de ferro e as vicissitudes sofridas pelo povo russo após 70 anos de comunismo.

Em duas ocasiões a consagração realizada por Dom Marcel Lefebvre foi renovada pelos bispos da Fraternidade São Pio X: 1997 e 2005. E agora, no último dia 19 e 20 de agosto do ano corrente de 2017, realizou-se a terceira renovação dessa mesma consagração. O contexto não poderia ser mais grandioso: reuniu-se em Fátima uma multidão de cerca de nove mil fiéis, 200 religiosas, entre irmãs da Fraternidade, dominicanas, hospitalares e outas. Entre os seminaristas, sacerdotes e religiosos eram mais de 300. Todo esse mundo rezando em torno dos três bispos da Fraternidade São Pio X num evento de grande porte.

A peregrinação organizada pela Permanência e nossas Capelas atravessou o mar salgado com fiéis da Capela São Miguel (Rio de Janeiro), da Capela Nossa Senhora da Conceição (Niterói), da Capela N. Sra da Assunção (Fortaleza), de Florianópolis e de São Paulo. Os 33 peregrinos se juntavam a cerca de 50 outros do Priorado de S. Paulo, além de alguns que foram por conta própria. Ao todo os brasileiros beiravam uma centena. Bela representação se pensarmos na distância e na situação de grave crise por que passa nosso país.

O dia 19 de agosto marcava o centenário da 4ª aparição de Nossa Senhora. De fato, no dia 13 desse mês, em 1917, as três crianças estavam na prisão e não puderam comparecer ao encontro marcado pela Mãe do Céu. Foram surpreendidas pela aparição da Virgem Maria quando, já libertadas da prisão, se dirigiam à Cova da Iria, no local chamado Valinhos, poucas centenas de metros após se deixar Aljustrel, o vilarejo onde moravam. Hoje há um oratório com uma bela imagem de Nossa Senhora.

A Fé sobrenatural é um dom de Deus que se aloja na nossa inteligência e esclarece nossa razão, realizando em nós o ato de crer, e dando-nos motivos e forças para agirmos segundo a vontade de Deus, na Caridade. Essencialmente, a Fé não necessita de apoio sensível e é capaz de agir sobre nós, mesmo em condições adversas, como no meio de uma guerra, ou num leito de hospital. No entanto, a prática da Igreja e o exemplo dos santos mostram uma relação muito íntima entre a realização sobrenatural e interior da Fé e as coisas físicas que sempre acompanham a vida sensível dos homens. É assim que estar de joelhos no meio das pedras, diante do lugar em que o corpo glorioso da Virgem Maria encostou nessa terra; estar ali rezando o Rosário no dia mesmo em que se completam 100 anos dessa aparição, é algo que move os céus, que espalha de modo mais abundante as graças de conversão, de santificação, de adoração e louvor.

Não se trata de “sentir” alguma coisa, uma emoção, ou banhar-se em lágrimas para, por assim dizer, confirmar a graça invisível. Ao contrário, é como se a graça invisível nos levasse pela mão, nos conduzisse à sublime presença do Céu tocando a Terra, sem abandonar o que em nós há de humano, dual, corpo e alma, espírito e sensibilidade. 

Foi assim que no sábado 19, após a missa cantada às 15:00 de uma tarde quente e ensolarada, com os milhares de fiéis tentando se esconder do sol de 38º sob as poucas árvores do parque em que se montaram as tendas do altar, seguimos em procissão rezando o Terço, pelas trilhas do campo, entre as oliveiras e carvalhos. A multidão de padres e fiéis compactou-se em torno da imagem de Nossa Senhora nos 100 anos dessa aparição, quando Nossa Senhora insistiu muito sobre o aspecto sobrenatural da oração constante.

Essa multidão já mudara o ambiente da pequena cidade. Por toda parte encontrávamos padres e religiosas da Tradição. Os franceses dominavam a cidade, tendo vindo aos milhares. Ouvia-se igualmente por toda parte o inglês de muitos americanos e o alemão. 

Os grupos iam e vinham, entre os túmulos de Francisco e Jacinta, dentro da Basílica, a Capelinha das aparições, construída no local mesmo em que Nossa Senhora tocou a Terra, o parque onde foram celebradas as missas do sábado e do domingo, e o vilarejo de Aljustrel, hoje transformado por um turismo religioso intenso, mas que preservou, restaurou e iluminou o lugar onde os três pastorinhos viveram a maior aventura ocorrida nos últimos cem anos. 

O mundo se transformou, a Revolução tomou conta das sociedades e expulsou a fé da vida dos homens; passamos por duas guerras mundiais, o Concílio Vaticano II destruiu o obstáculo ao reino do Anticristo, o homem pisou na Lua, dominou os semi-condutores e aplicou-lhes os algoritmos da programação mais avançada. Mudaram-se os costumes sociais, os costumes religiosos, a política dos povos. E nada disso chega perto da grandeza e da importância de Fátima.

Se pensarmos no conjunto de graças recebidas pelas três crianças, desde a intensa preparação feita pelo Anjo de Portugal, em 1916, passando pela maternal presença da Virgem Maria nas seis aparições de 1917, na heróica comunhão das crianças com o sofrimento das almas dos pecadores, nos atos de reparação, nas orações pelo papa, na gravíssima responsabilidade que a Mãe do Céu punha em seus tão pequeninos ombros mostrando-lhes o Inferno, e exigindo delas a mais filial e plena união reparadora ao Imaculado Coração; se imaginarmos a alma de três crianças sabendo que o castigo terrível da guerra iria se abater sobre a humanidade e que cabia a elas anunciarem ao mundo o remédio oferecido por Nosso Senhor, de recorrer à Mãe de Deus no amor puríssimo do seu Imaculado Coração; enfim, se pensarmos em tantos outros detalhes que não podemos aqui enumerar, decididamente estamos diante do maior evento acontecido sobre a Terra nesses tempos de apostasia e de calamidade. 

Por isso tudo era importante atender ao chamado de Dom Bernard Fellay e termos uma representação aos pés do trono da graça, como cantamos no introito da missa do Imaculado Coração, celebrada no domingo, ali pertinho do lugar em que esse mesmo Coração foi mostrado aos homens pela primeira vez, na palma da mão de Nossa Senhora:

Adeamus cum fidúcia ad thronum gratiae” – avancemos com confiança ao trono da graça, ao trono do amor maternal, ao trono do socorro nos dias de tribulação, em que só o coração da Mãe pode vir em auxílio aos seus filhos aflitos e famintos.

Assim foi a missa do domingo 20 de agosto, em Fátima. Para que se tenha uma idéia da grandeza da reunião, cerca de 25 sacerdotes distribuíram a Comunhão aos nove mil peregrinos reunidos. Mesmo assim ultrapassou os 20 minutos o tempo necessário para que todos comungassem. 

No final da missa os três bispos reunidos renovaram a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Ao citar esta questão no sermão da missa, Dom Bernard Fellay lembrou que a conversão da imensa nação eslava não significa apenas o fim do comunismo. Após tantos séculos de cisma, de uma ruptura que se iniciou pela recusa da autoridade do papa como sucessor de Pedro e chefe da Igreja universal e que levou o povo russo também à heresia, ao recusar todos os dogmas solene e infalivelmente pronunciados pela Igreja ao longo dos últimos séculos, não faz sentido imaginarmos que a Rússia possa ser agraciada por um milagre que a livrasse da escravidão soviética sem que a levasse à única Fé, à única verdade proclamada e ensinada com toda a autoridade de Cristo pela Igreja Católica Romana.

E falamos de Igreja Romana! Logo surge outra questão aflitiva: como imaginar uma conversão da Rússia à fé da Igreja Romana sem pensar na conversão das autoridades da Igreja, o papa e os bispos do mundo inteiro, à verdadeira fé ensinada ao longo de dois mil anos e rechaçada pelo Concílio Vaticano II. Este é o drama que vivemos. Ele só faz aumentar nossas obrigações espirituais, nossa necessidade de praticar oração e penitência, o terço diário e o estudo do verdadeiro catecismo.

O fato é que, malgrado os 70 anos de regime ateu e perseguidor da fé, a Rússia parece ser o único país capaz de manter certas exigências morais já desaparecidas do Ocidente. Qualquer coisa de religioso se conserva mesmo na estrutura governamental e apesar dos seus governantes, o que significa que no dia em que o papa resolver obedecer à ordem do Céu e consagrar a Rússia, junto com todos os bispos do mundo, ao Imaculado Coração de Maria, mesmo sendo tarde, algo de portentoso, de espetacular poderia suceder, e nós veríamos uma reviravolta na situação atual, em que o liberalismo tomou conta de todo o mundo ocidental, que só fala e só raciocina em termos de total liberdade para tudo e para todos os que não são católicos. 

Na Espanha, mais uma vez os homens responderam aos ataques islâmicos no coração da Europa proclamando as liberdades e a democracia. Foi assim em Paris, em Nice, na Alemanha. Enquanto a cegueira tomar conta dos governantes, políticos, artistas, jornalistas etc. os inimigos da Fé católica, os inimigos da Civilização Cristã crescerão e nos ameaçarão dentro de nossas casas, em nossas cidades. A Europa já caiu diante dos milhões e milhões de islâmicos que a invadiram encontrando os portões abertos. Muitos sofrimentos foram preditos pela Virgem Maria em Fátima, e todos se realizaram ou estão se realizando: o fim da 1ª Grande Guerra, o início da 2ª Guerra ainda no pontificado de Pio XI, a Rússia espalhando seus erros pelo mundo, o desaparecimento de muitas nações etc.

Muito antes do Concílio Vaticano II abrir as portas da Igreja ao mundo liberal já se constatava uma política equivocada diante das nações. Conhecemos alguns desastres provocados pela política e pela diplomacia do Papa Pio XI, tais como o massacre dos Cristeros, no México, ou a condenação da Action Française, de Charles Maurras. Ora, as aparições de Fátima, e em particular o pedido de consagração da Rússia, contrariavam os desejos da política do Vaticano na época de Pio XI. Apesar de ter mostrado até certo ponto crer na veracidade das aparições, este papa preferiu não realizar a consagração. 

Por isso, Nosso Senhor se lamentou com a irmã Lúcia, numa comunicação espiritual que esta teve em Rianjo, na Espanha, e sobre a qual ela escreve:

“Numa ocasião em que eu pedia a Deus a conversão da Rússia, da Espanha e de Portugal, pareceu-me que Sua Divina Majestade me dizia: “Me consolas muito pedindo a conversão dessas pobres nações. Pede-a também à minha Mãe dizendo-lhe sempre: “Doce Coração de Maria, sede a salvação da Rússia, da Espanha e de Portugal, da Europa e do mundo todo”. (...) E em outra ocasião: “Avise aos meus ministros que, como eles seguem o exemplo do rei da França, retardando a execução do meu pedido, eles o seguirão nas dores. Jamais será tarde demais para recorrer a Jesus e a Maria”.

E ao Pe. Gonçalves, seu confessor: “... Nosso Senhor me disse se lamentando: “Não quiseram ouvir meu pedido. Como o rei de França, eles se arrependerão e o farão, mas será tarde. A Rússia terá espalhado seus erros pelo mundo, provocando guerras e perseguições contra a Igreja. O Santo Padre terá muito a sofrer”.

Diante desse contexto, a reunião de cerca de dez mil pessoas em Fátima, no ano do centenário, as missas, os terços rezados, as penitências realizadas pela multidão e, sobretudo, a renovação da Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria fortalecem a nossa Fé católica, nos anima no combate, nos exige atitudes verdadeiras e fortes dentro de nossas famílias, em nossas Capelas, suplicando à Virgem Maria que sopre em nossos corações o seu espírito de fé sobrenatural, de sabedoria, de amor pelos pobres pecadores e pela conversão do papa e dos bispos, para que, enfim, assumam o seu papel de confessores da Fé diante de um mundo apóstata.

(Revista Permanência 287)

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