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Cap.6 As relações internacionais no Medievo

 Tal como existia, a Idade Média corria o risco de nunca conhecer o caos e a decomposição. Nascida de um império arrasado e das vagas de invasões sucessivas, formado por povos diversos, cada um com seus costumes, seu ambiente, sua ordem social diferente, quando não eram opostas, e tendo também, quase todos, um senso muito vivo de castas, de sua superioridade de vencedores, ela deveria ter apresentado, e de fato, no seu início, apresentou, um inconcebível esfacelamento.

 
 
No entanto constata-se que essa Europa tão dividida, tão conturbada no seu nascimento, apresenta nos séculos XII e XIII um entendimento e uma união que jamais havia conhecido e que talvez não volte a conhecer ao longo dos séculos. Vemos na primeira Cruzada príncipes sacrificarem seus bens e seus interesses, esquecer suas disputas para tomarem juntos a Cruz – os mais diversos povos se reunirem numa só armada, a Europa toda se emocionar ao chamado de Urbano II, de Pedro Eremita e, mais tarde, de um São Bernardo ou de Foulques de Neuilly. Vemos monarcas preferindo a arbitragem à guerra, se inclinarem ao julgamento do Papa ou de um rei estrangeiro para acertar suas dissenções. Fato impressionante, essa Europa organizada; não é um império, não é uma federação. Ela é: a Cristandade.
 
É preciso reconhecer aqui o papel que teve a Igreja e o Papado na ordem européia. Ela foi, de fato, um fator essencial na unidade. Muitas vezes a diocese, a paróquia, se confundia com o domínio familiar, sendo na Alta Idade Média, época de decomposição, as células vivas a partir das quais se recompos a nação. As grandes datas que deviam, para sempre, marcar a Europa, são as da conversão de Clóvis e a coroação de Carlosmagno, a primeira assegurando ao ocidente a vitória da hierarquia e da doutrina católica sobre a heresia ariana, a segunda, realizada pelo Papa Estevão II, consagrando a doutrina dos dois gládios, o espiritual e o temporal, cuja união formará a base da Cristandade medieval.
 
É preciso levar em consideração, de modo mais geral, a influência do dogma católico que ensina que todos os filhos da Igreja são membros de um mesmo corpo, como lembram os versos de Rutebeuf:
 
Tous sont un corps en Jésus-Christ 
Dont je vous montre par l'écrit  
Que li uns est membre de l'autre  
Todos são um corpo em Jesus Cristo
E isso vos mostro por escrito
Que uns são membros dos outros.
 
A unidade doutrinária, tão viva na época, ajudava na união dos povos. Carlosmagno compreendeu tão bem isso que, para conquistar a Saxe enviou primeiro os missionários, antes dos exércitos, e não por ambição, mas por convicção. A história se repete no Império Germânico, na dinastia dos Othos.
 
Na prática a Cristandade pode se definir a «universalidade» dos príncipes e dos povos cristãos obedecendo a uma mesma doutrina, animados de uma mesma fé, e reconhecendo por isso um mesmo magistério espiritual.
 
Esta comunidade de fé traduzia-se por uma ordem européia que deixa tonto um cérebro moderno, tanto ela é complexa nas suas ramificações, grandiosa no seu conjunto. A paz na Idade Média foi exatamente, segundo a bela definição de santo Agostinho, a «tranqüilidade da ordem»1, desta ordem.
 
Um ponto central permanece fixo, o Papado, centro da vida espiritual. Mas seu relacionamento com os diferentes Estados é muito diversificado. Alguns estão ligados à Santa Sé por títulos especiais de dependência: tal é o caso do Império Romano-germânico, cujo chefe, apesar de não ser vassalo do Papa, como se acreditou, deve ser escolhido ou ao  menos confirmado por ele. Isso se explica se nos lembrarmos das circunstâncias que presidiram à sua fundação e a parte essencial que teve o Papado nisso. O Papa, aliás, só faz lhe conceder o título e julgar os casos possíveis de deposição.
 
Outros reinos são feudos da Santa Sé, porque pediram, em dado momento de sua história, a proteção dos Papas. Eles lhe entregaram solenemente suas coroas, como fez o rei da Hungria, ou pediram que o Papa autentificasse seus direitos, como fizeram os reis da Inglaterra, da Polônia ou de Aragão, para que o selo de São Pedro ratificasse e preservasse suas liberdades.
Outros, em fim, e neste número está a França, não têm nenhum laço  de dependência temporal com a Santa Sé, mas aceitam naturalmente suas decisões em matéria de consciência e se submetem também de boa vontade às suas determinações quanto árbitro.
 
Estas são as grandes linhas do edifício da Cristandade, como expôs Inocêncio III numa época onde ela já estava realizada, na prática, há muitos séculos. Ela baseia-se essencialmente num entendimento de ordem sobrenatural 2  entre os povos. Quando admiramos esta base sólida da paz medieval, não podemos deixar de achar pobre a nova base estabelecida pelos tratados de Westphalia (1648), que substitui a antiga harmonia pela frágil agulha de balança das nacionalidades.
 
Foi muito desprezado este tipo de relacionamento entre a Igreja e os Estados. Estamos habituados a ver na autoridade espiritual e na autoridade temporal dois poderes nitidamente distintos, e essa «intrusão» do Papa nos negócios dos príncipes foi vista como intolerável. Tudo se esclarece se nos colocarmos dentro da mentalidade da época: não é a Santa Sé que impõe seu poder aos príncipes e aos povos, mas estes príncipes e estes povos, católicos, recorrem naturalmente ao magistério espiritual, seja para fortalecer suas autoridades ou fazer respeitar seus direitos, seja para pedir o arbítrio imparcial para julgar suas disputas. Assim escreve Gregório X: «Si é dever daqueles que dirigem os Estados de proteger os direitos e a independência da Igreja, é também do dever dos que possuem o governo eclesiástico de tudo fazer para que os reis e os príncipes possuam a plenitude de sua autoridade». Os dois poderes, em vez de se ignorar e combater, se reforçam mutuamente.
 
O que pode trazer confusão é que, na Idade Média, era geral manifestar maior respeito pela autoridade religiosa que pela autoridade civil, de julgar uma superior à outra, segundo a célebre palavra de Inocêncio III, «como a alma é para o corpo, como o sol é para a lua»: hierarquia de valores que não acarretava necessariamente uma subordinação de fato.3
 
Além disso, não devemos esquecer que a Igreja, guardiã da fé, é também juiz no foro interno e depositária dos juramentos. Ninguém na Idade Média sonharia em contestar isso. Quando um escândalo público era cometido, ela tinha o direito e o dever de pronunciar uma sentença, de expulsar o culpado ou de absolver o arrependido. Ela faz apenas usar um magistério que lhe é universalmente reconhecido quando excomunga um Roberto o Piedoso ou um Raimundo de Tolosa. Igualmente quando, após conduta repreensível ou exageros de Philippe-Augusto ou do imperador Henrique IV, ela libera seus súditos do juramento de fidelidade, ela exerce apenas uma de suas funções soberanas, pois, na Idade Média, todo juramento toma Deus por testemunha, e em consequência a Igreja, que tem o poder de ligar e desligar.
 
Que tenha havido abusos da parte da Santa Sé como da  parte do poder temporal, é incontestável, a história das disputas entre o Papado e o Império comprova. Mas no conjunto pode-se dizer que esta tentativa audaciosa de unir os dois gládios, o espiritual e o temporal, pelo bem comum, foi um sucesso. Era garantia de paz e de  justiça, este poder moral que não se podia contrariar sem correr perigos bem determinados, entre os quais a perda de sua própria autoridade e da estima de seus súditos: enquanto Henrique II, rei da Inglaterra, luta contra Thomas Beckett, não se sabe qual dos dois vencerá; mas no dia que o rei decide se desfazer do prelado pelo assassinato, é ele o derrotado. A reprovação moral e as penas que lhe são aplicadas têm mais eficácia que a força material. Para um príncipe marcado com a interdição a vida não é mais tolerável: os sinos silenciosos quando o rei passa, seus súditos fugindo quando se  aproxima, tudo compõe uma atmosfera à qual, mesmo os temperamentos mais fortes, não resistem. Mesmo um Philippe-Augusto acaba se submetendo, quando nenhuma força material teria conseguido impedi-lo de deixar a infeliz Ingeburge gemendo na prisão.4
 
Durante a maior parte da Idade Média o direito de guerra privada é visto como inviolável pelo poder civil e pela mentalidade geral. Era portanto difícil manter a paz entre os barões e os Estados, e se não fosse a concepção da Cristandade, a Europa teria sido um enorme campo de batalha. Mas o sistema em vigor permitia  colocar uma série de obstáculos ao exercício da vingança privada. Antes de tudo, a lei feudal impedia que um vassalo que tivesse jurado fidelidade ao seu senhor o atacasse. Houve faltas neste sentido, é claro, mas o juramento de fidelidade estava longe de ser pura teoria ou simulação. Já vimos como o rei de França Luiz VII, que tinha ido ao socorro do conde Raimundo V, ameaçado por Henrique II da Inglaterra, na cidade de Tolosa, este último, apesar de ter forças muito superiores e certo da vitória, se retira, declarando que não pode sitiar um lugar onde se acha seu suzerano. Nesta ocasião o laço feudal tirou a França de um momento de grande perigo.
 
Por outro lado, o sistema feudal realiza uma série de arbítrios naturais: um vassalo pode fazer apelo, contra seu senhor, ao suzerano deste; o rei, à medida que sua autoridade se extende, exerce cada vez mais o papel de mediador; o Papa, enfim, é o árbitro supremo. Bastava a reputação de justiça ou de santidade de um grande personagem para que se fizesse apelo a ele; são vários os exemplos na história da França. Luiz VII é o  protetor de São Tomas Beckett e seu intermediário nos conflitos com Henrique II. São Luiz  se impõe diante da Cristandade quando publica o famoso Dit d'Amiens, que apaziguava  as disputas entre Henrique III da Inglaterra e seus barões.
 
Mas qualquer nobre podia, por vingança ou por ambição, invadir as terras de seu vizinho, e o poder central não era bastante poderoso para impor sempre sua justiça, sem falar das guerras possíveis entre os Estados. A Idade Média não procurou resolver o problema da guerra em geral, mas por suas soluções práticas e medidas aplicadas ao conjunto da Cristandade, ela restringiu o domínio da guerra, suas crueldades, e mesmo seu tempo. Assim, por leis precisas, edificou-se a Cristandade pacífica.
 
A primeira dessas medidas foi a Paz de Deus, instaurada desde o fim do século X 5: é a primeira distinção feita na história do mundo entre o fraco e o forte, entre o guerreiro e a população civil. Desde a data de 1023, o bispo de Beauvais faz jurar ao rei Roberto o Piedoso o juramento da Paz. Proibição de maltratar as mulheres, as crianças, os camponeses e os clérigos; as casas dos cultivadores são, como as igrejas, declaradas invioláveis. Reserva-se a guerra aos que têm equipamentos para o combate. Esta é a origem da distinção moderna entre objetivos militares e monumentos civis – noção totalmente ignorada do mundo pagão. Essa proibição não foi sempre respeitada, mas quem a transgredia sabia estar sujeito à penas seríssimas, tanto temporais como espirituais.
 
Depois vem a Trégua de Deus, inaugurada desde o início do século XI, ela também pelo imperador Henrique II, o rei da França Roberto o Piedoso, e o Papa Bento VIII. Os Concílios de Perpignan e de Elne, datando de 1041 e 1059 já a tinham renovado quando o Papa Urbano II, de passagem  por Clermont, em 1095, a define e proclama solenemente, durante o mesmo Concílio que esteve na origem das Cruzadas. A Trégua de Deus reduz a guerra na sua duração, como a Paz a reduzia no seu objeto: por ordem da Igreja, todo ato de guerra é proibido desde o primeiro domingo do Advento até a oitava da Epifania (Tempo do Natal), desde o primeiro domingo da Quaresma até a oitava da Ascensão, e no tempo que sobrava, da quarta-feira à noite até a segunda-feira de manhã. Podemos imaginar o que eram essas guerras fragmentadas, ciscadas, que não podiam durar mais de três dias seguidos? Havia, ainda aqui, os infratores, mas era seu o risco e o perigo, e também a vergonha. Quando Oto de Brunswick é posto em fuga, na Batalha de Bouvines, apesar de sua superioridade, pelo exército muito inferior de Philippe-Augusto, foi considerado como castigo àquele que ousara romper a Trégua e atacar num domingo.
 
Às vezes os príncipes cristãos tomam iniciativas que completam e ajudam as da Igreja. Philippe-Augusto, por exemplo, instituiu a Quarentena do rei, um intervalo de quarenta dias deve obrigatoriamente passar entre a ofensa feita, e devidamente reconhecida pelo ofendido, e a abertura de hostilidades. Sábia medida, que ajuda a refletir e a encontrar um acordo amigável. Este mesmo intervalo de quarenta dias é dado aos habitantes de uma cidade inimiga, para que voltem para suas casas e coloquem em segurança suas coisas quando estoura uma guerra. Não havia como se criar, na Idade Média, campos de concentração ou seqüestros.
 
Mas a grande glória da Idade Média foi de ter feito a educação do soldado, de ter transformado um brutamontes em cavaleiro. Aquele que lutava por amor das grandes proezas, da violência ou da pilhagem, virou o defensor dos fracos. Ela transformou sua brutalidade numa força útil, seu gosto pelo perigo em coragem consciente, sua turbulência em atividade fecunda; seu ardor ganhou vida e disciplina ao mesmo tempo. O soldado tem doravante um papel a cumprir, e os inimigos que ele é convidado a combater são, justamente, aqueles em quem subsiste o desejo pagão do massacre, de orgia e de pilhagem. A Ordem da Cavalaria foi a instituição medieval que mais se incrustou na lembrança, e é justo, pois nunca se teve concepção mais nobre do título de guerreiro.  Tal como a encontramos instituída desde o início do século XII, ela é realmente uma Ordem religiosa, e quase um sacramento. Ao contrário do que se costuma pensar, ela não é dada apenas para nobres: «Ninguém nasce cavaleiro», diz o provérbio. Camponeses, mesmo servos, a recebem, enquanto que muitos nobres não a recebem. Mas ser armado Cavaleiro é tornar-se nobre, e entre as máximas do tempo uma diz que «para se fazer nobre sem declarações deve-se ser cavaleiro».
 
Do futuro cavaleiro são exigidas qualidades especiais, traduzidas no simbolismo das cerimônias que lhe conferem o título. Deve ser piedoso, devoto à Igreja, respeitar suas leis: sua iniciação começa com uma noite de vigília, em oração, diante do altar sobre o qual descansa a espada que cingirá: é a vigília de armas, depois da qual, em sinal de pureza, toma um banho para assistir à Missa e comungar. Recebe então, solenemente, a espada e as esporas, e lhe lembram os deveres do seu ofício: ajudar o pobre e o fraco, respeitar a mulher, ser corajoso e generoso; sua divisa será «Vaillance et largesse», coragem e generosidade. Ele veste a armadura leve e recebe a espada sobre seu ombro: em nome de São Miguel e de São Jorge ele é feito cavaleiro.
 
Para bem cumprir seu dever ele deve ser ágil e bravo: a cerimônia prossegue então com uma série de provas físicas, verdadeiros testes para provar seu valor. Ele vai para a arena courir une quintaine, ou seja, derrubar um boneco atacando-o com o cavalo a galope, ou derrubar do cavalo os adversários que virão desafia-lo. O dia em que são feitos novos cavaleiros são dias de festa, onde cada um rivaliza em proezas, sob os olhos dos castelãs, da mesnie senhorial e da população concentrada em volta do terreno dos torneios. Agilidade e  vigor físico, bondade e generosidade, o cavaleiro representa um tipo de homem completo, onde a perfeição do corpo é acompanhada das mais atrativas virtudes: 
 
Tant est prud'homme si comme semble
Qui a ces deux choses ensemble: 
Valeur du corps et bonté d'âme.
O homem valente é o que aparece
Que duas coisas traz em conjunto
Do corpo o valor, da alma a bondade.
 
O que se espera dele não é, como no ideal da antigüidade, um equilíbrio, uma justa medida, mens sana in corpore sano, mas um máximo, onde ele é chamado a vencer a si mesmo, ser ao mesmo tempo o mais belo e o melhor pondo sua pessoa à serviço de outra. Esses romances onde os heróis da Távola Redonda partem incessantemente à procura de um feito maravilhoso traduz o ideal exaltante oferecido a quem possui a vocação das armas. Nada mais dinâmico, para usar uma expressão moderna, que o tipo do bom cavaleiro.
 
O título de cavaleiro pode ser perdido, assim como deve ser merecido: quem falta a seu dever é degradado publicamente, corta-se suas esporas de ouro junto ao tornozelo, em sinal de infâmia. «Honni soit hardement où il n'a gentillesse — Seja bem desprezado quem não tem honestidade», dizia-se significando que o puro valor guerreiro de nada valia sem a nobreza da alma.
 
Por isso a cavalaria foi a grande vibração da Idade Média, deixando na língua francesa a palavrachevaleresque, que traduz fielmente o conjunto de qualidades que arrancavam admiração. Basta percorrer a literatura, contemplar as obras de arte que nos deixaram, para vê-lo em toda parte, nos romances, nas poesias, nos quadros, nas esculturas, nas iluminuras dos manuscritos, este cavaleiro cuja bela estátua da catedral de Bamberg representa um perfeito modelo. Por outro lado, basta ler nossos cronistas para perceber que este tipo de homem não existiu apenas nos romances, e que a encarnação do perfeito cavaleiro, realizada sobre o trono de França na pessoa de São Luiz, teve nesta época uma multidão de outros exemplos.
 
Nessas condições, podemos representar como podia ser uma guerra medieval: estritamente localizada, ela se reduz muitas vezes a um simples passeio militar, a tomada de uma cidade ou de um castelo. Os meios de defesa são, nesta época, muito maiores que os meios de ataque: os muros, as fossas de uma fortaleza garantem a segurança dos sitiados; uma corrente esticada na entrada de um porto constitui uma segurança ao menos provisória. Para o ataque, usa-se quase que exclusivamente as armas de mão: a espada e a  lança. Se um belo corpo à corpo arranca exclamações admiradas dos cronistas, eles só manifestam desprezo pelas armas dos fracos que são o arco ou a besta, que diminuem o risco mas também os grandes feitos. Para sitiar um lugar usa-se catapultas de diversos tipos, trincheiras camufladas, ou ainda a demolição das muralhas pela base, mas conta-se principalmente com a fome e a duração do sítio para acabar com os resistentes. As fortalezas devem contar por isso com enormes provisões de cereais em suas vastas criptas, cuja lenda dos românticos transformou em jaulas para prisioneiros6, e procura-se sempre ter um poço ou cisterna no interior da praça. Quando uma máquina de guerra é por demais mortífera, a Igreja proíbe seu uso. A pólvora para canhões, conhecida desde o século XIII,  só começa a se espalhar quando a autoridade da Igreja não tem mais a mesma força e os princípios da Cristandade começam a se esfacelar. Enfim, como escreve Orderic  Vital, «pelo temor de Deus, por cavalaria, procurava-se aprisionar mais do que matar. Os guerreiros cristãos não tinham sede de derramar  sangue». É comum ver, no campo de batalha, o vencedor fazer graça ao derrotado que lhe grita um obrigado. Cita-se como exemplo a batalha de Andelys, empreendida por Luiz VI em 1119, na qual houve três mortos sobre novecentos combatentes.
 
Criticaram os princípios da Cristandade como prejudiciais ao patriotismo. Durante muito tempo acreditou-se que a idéia de pátria começou com Joana d'Arc (sec.XV). Mas tudo contradiz essa idéia. A expressão «France la douce – a doce França» encontra-se na Canção de Roland, e nunca se concebeu mais amorosa para qualificar nosso país. Os  poetas nunca deixaram de usa-la deste modo, como lemos em Andrieu contredit:
 
Des pays est douce France la fleur     
Doce França é a flor dos países
E no Roman de  Fauvel:
Le beau jardin de grâces plein  
Où Dieu, par spéciauté,   
Planta les lys de royauté...      
Et d'autres fleurs à grand plenté: 
Fleur de paix et fleur de justice,   
Fleur de foi e fleur de franchise,  
Fleur d'amour et fleur épanie    
De sens et de chevalerie...
C'est le jardin de douce France...  
Belo jardim de muita graça
Onde Deus especialmente
Plantou os lírios de realeza...
E outras flores também plantou:
Flor de paz e de justiça
Flor de fé, de sinceridade
Flor de amor, flor desabrochada
De sentimentos, de cavalaria...
É o jardim da doce França...
 
É impossível pensar em sua pátria com mais carinho. E se passamos a examinar os fatos, achamos, desde a longínqua data de 1124, a prova mais convincente da existência do sentimento nacional: trata-se dessa tentativa de invasão da França pelos exércitos do Imperador Henrique V, dirigidas contra nosso país pelas estradas seculares dos invasores, a nordeste da França, em direção de Reims. Assiste-se então a uma tomada de armas geral de todo o reino. Os barões mais turbulentos, como um Thibaut de Chartres, então em plena revolta, esquecem suas querelas para se agruparem sob o estandarte real, famosa flâmula rubra de franjas verdes que Luiz VI havia tomado sobre o altar de Saint-Denis. A tal ponto foi a mobilização que, diante desse exército de guerreiros surgido espontaneamente de todo o país, o imperador não ousou continuar e deu meia volta. A noção de pátria era bastante viva, já nesta época, para provocar uma coalizão geral, e através da diversidade e multiplicidade dos feudos, havia a consciência de fazer parte de um todo. Esta noção devia se afirmar novamente com brilho, um século mais tarde, na  batalha des Bouvines, e a explosão de alegria em Paris e em todo o reino, quando se anunciou a vitória real, é prova suficiente. O patriotismo, nesta época, apoia-se numa base sólida, o amor da terra, o apego ao solo, mas não deixa de se manifestar pela França inteira, pelo «jardin de douce France».
 
[Lumière du Moyen Age, Editions B. Grasset, Paris, 1944,cap. 6. Tradução PERMANÊNCIA]
  1. 1. [N. da P.] A definição não é de santo Agostinho, apesar deste santo doutor tê-la usado. Ela é de Aristóteles, 300 anos antes de Cristo.
  2. 2. [N. da P.] O autor usa o termo místico, mas hoje ele tem várias interpretações. Entenda-se por entendimento sobrenatural um relacionamento baseado na Caridade, estabelecido pelo amor de Deus, comum entre os povos católicos.
  3. 3. [N. da P.] Resumindo rapidamente a doutrina católica do dois gládios: A sociedade civil tem como finalidade o fim natural do homem que é a felicidade temporal, ou seja, bem estar, paz, prosperidade, etc. A sociedade religiosa tem como finalidade o fim sobrenatural do homem, seu fim último, a salvação eterna. As duas sociedades são independentes no seu campo próprio, mas como o fim último é superior ao fim natural, o poder civil não pode contrariar o fim eterno, havendo assim, naturalmente, subordinação do civil ao espiritual. O materialismo crescente, a partir da Renascença até nossos dias, levou a humanidade a separar as duas sociedades, (separação da Igreja e do Estado), recusando essa subordinação, subvertendo a ordem natural da vida social e criando o caos em que vivemos hoje. Mas essa doutrina não é particular à Idade Média.
  4. 4. [N. da P.] Depois de se casar com Ingeburge, irmã do rei da Dinamarca, em 1193, Philippe-Augusto a repudiou e a prendeu num mosteiro. A rainha apelou a Roma. Os legados papais enviados por Celestino III foram presos em Clairvaux. O rei casou-se com outra. Assim que foi eleito papa, Inocêncio III escreveu protestando: «A Santa Sé não pode deixar sem defesa as mulheres perseguidas. A dignidade real não o coloca acima dos deveres de um cristão». Não dando resultado, o Papa lançou a interdição sobre a França (14/1/1200). Depois de tentar anulá-la, o rei acaba capitulando e se submetendo no Concílio de Soissons.
  5. 5. O Concílio de Charroux, em 989, lança o anátema contra quem entrar por força numa igreja para roubar, contra quem roubar os bens de um camponês ou dos pobres, suas ovelhas, bois ou burros. (nota do autor).
  6. 6. O engano é ainda mais surpreendente pelo fato de que, ainda hoje, em alguns países como a Algéria, usa-se esse  tipo de reserva de grãos, porões com um buraco circular no alto pelo qual se descia um  cesto para recolher os grãos. (nota do autor).
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