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Missa Nova (16)

Dossiê: a Missa de Paulo VI

Pe. François-Marie Chautard

 

 

A missa é o que há de mais belo e melhor na Igreja [...] Assim, o diabo sempre procurou,
através dos hereges, privar o mundo da missa.

Santo Afonso de Ligorio

 

 

A despeito de tal pensamento, Lutero não mascarou sua vigorosa rejeição da Missa: "Quando a Missa for destruída, penso que teremos derrubado o papado! Pois é sobre a missa, como sobre uma rocha, que todo o papado descansa, com seus mosteiros, seus bispados, suas universidades, seus altares, seus ministros e sua doutrina ... Tudo ruirá quando ruir essa missa sacrílega e abominável."1

Para além da virulência da intenção, é evidente o abismo que separa a concepção luterana e a doutrina católica sobre a missa.

Esta oposição parece ter sido consideravelmente diminuída com a reforma do Missal Romano operada por Paulo VI, em abril de 1969. Já em maio de 1969, o protestante Max Thurian, da comunidade de Taizé, afirmava placidamente: "Com a nova liturgia, as comunidades não-católicas poderão celebrar a Ceia do Senhor com as mesmas orações que a Igreja Católica. Teologicamente, é possível.”

Como explicar tal mudança? O novo rito estaria mais próximo da posição protestante? Ou foram os protestantes que mudaram? Duas opiniões, uma, de um católico, outra, um de protestante, favorecem a primeira interpretação. 

Monsenhor Bugnini, principal arquiteto da reforma litúrgica, admitiu com surpreendente simplicidade: "[na reforma litúrgica] a Igreja foi guiada pelo amor das almas e pelo desejo de fazer tudo para facilitar aos nossos irmãos separados o caminho da união, removendo qualquer pedra que pudesse constituir sequer uma sombra de risco de tropeço ou desagrado."2

Os termos utilizados são reveladores: "fazer tudo", "sombra de risco", "tropeço ou desagrado". Para evitar essa “sombra de risco”, Monsenhor Bugnini não negligenciou nada. Seis pastores protestantes foram chamados para ajudá-lo a projetar a nova missa. 

A segunda opinião vem de um protestante. Em 1984, após o indulto do Papa João Paulo II autorizando a celebração da Missa de São Pio V sob certas condições, o jornal Le Monde publicou o seguinte texto, assinado pelo pastor Viot 3

"A reintrodução da Missa de São Pio V (...) é muito mais do que uma questão de linguagem: é uma questão doutrinal da mais alta importância, no centro dos debates entre católicos e protestantes, debates que, da minha parte, julgava felizmente estarem encerrados (...) Muitos dos nossos antepassados ​​na fé reformada de acordo com a Palavra de Deus preferiram ir à fogueira ao invés de assistir esse tipo de missa que o Papa Pio V tornou oficial contra a Reforma. Ficamos, portanto, encantados com as decisões do Vaticano II sobre o assunto e a firmeza de Roma em relação àqueles que não quiseram se submeter ao Concílio e continuaram a usar uma missa que, aos nossos olhos, contraria o Evangelho.”

O pensamento é claro, a linguagem é direta: a irredutibilidade da doutrina protestante e da Missa tradicional permanece. 

A mudança de posição não vem, portanto, dos protestantes, mas do rito católico. Eis a conclusão que precisamos fundamentar em bases sólidas. 

O estudo da missa de Paulo VI não é, pois, de interesse trivial. Esclarecemos, para evitar qualquer mal-entendido, que o exame desse rito cobrirá apenas o texto oficial de 1962, e não as adaptações inacreditáveis, mas infelizmente recorrentes.

Para abordar a reforma do missal litúrgico, procederemos da seguinte maneira [CLIQUE NO LINK PARA LER]: 

1 - Alguns lembretes sobre a doutrina católica. 

2 - O paralelo com a missa de Lutero. 

3 - Deficiências doutrinais da missa de Paulo VI. 

4 - Seus autores. 

5 - O delicado problema de sua validade. 

6 - Consequências morais no comparecimento à missa de Paulo VI.

  1. 1. Citado por Cristiani, Du luthéranisme au protestantisme, 1910.
  2. 2. Todas essas citações foram tiradas de La messe a-t-elle une histoire? , éd du MJCF, 2002, p. 134.
  3. 3. Retornou desde então à Igreja Católica e foi ordenado padre.

Conclusão: nossa atitude em face da nova missa

Pe. François-Marie Chautard

 

Se juntarmos as diversas peças deste dossiê, poderemos constatar sobretudo:

- A existência de uma clara protestantização do novo rito da missa com uma desagregação da fé: “se nós considerarmos as inovações sugeridas ou dadas por definitivo, as quais podem naturalmente serem avaliadas de diferentes modos, o Novo Ordinário representa, tanto em seu todo como nos detalhes, uma nova orientação teológica da Missa, diferente daquela que foi formulada na Sessão XXII do Concílio de Trento.”1 Essa missa protestantizada engendra naturalmente, naqueles que a assistem regularmente, uma perda do senso de fé2 

- Um risco de invalidade.

 

Esses dois defeitos levam a duas conclusões:

  • Uma missa que afasta as almas da fé não pode vir do Espírito Santo e até mesmo se pode dizer que se opõe a Ele. Não se trata de uma missa católica; 
  • Assim sendo, não se deve participar dela, não apenas para não se deixar gangrenar, mas mesmo para não cooperar com um rito que destrói a fé na Igreja, e para não participar de uma profissão de fé equívoca. “Esta missa está envenenada. Esta missa é má, ela conduz à perda da fé pouco a pouco, logo, nós nos vemos obrigados a recusá-la.”3

“No tocante à missa nova, afastemos logo essa idéia absurda: se a missa nova é válida, podemos participar dela. A Igreja sempre proibiu assistirmos as missas dos cismáticos e dos hereges, mesmo se fossem válidas. É evidente que não se pode participar de missas sacrílegas, nem a missas que põem a fé em perigo.”4

 

Consequência prática

“Os católicos fiéis devem fazer de tudo para guardar a fé católica intacta e íntegra: logo, assistir a missa de sempre quando acessível, ainda que fosse uma vez por mês; oferecer sua colaboração ativa para ajudar os padres fiéis na celebração dessas missas de sempre, com os sacramentos segundo os antigos ritos e o catecismo tradicional.

Aqueles que estiverem impossibilitados de assistir a missa, rezem o missal aos domingos em família se possível, como fazem os católicos em terras de missão, que não tem a visita do padre por mais de duas ou três vezes no ano, às vezes, uma única vez no ano!

Essas instruções são dadas afim de que cada um possa adotar a linha de conduta mais favorável para a preservação da fé. É claro que o preceito dominical obriga quando a missa de sempre é normalmente acessível.

É a época do heroísmo; não é uma graça de Deus viver nesses tempos conturbados, afim de reencontrar a Cruz de Jesus, seu sacrifício redentor, estimar em seu valor justo essa fonte de santidade da Igreja, de recolocar em honra, de melhor apreciar a grandeza do sacerdócio? Melhor compreender a Cruz de Jesus é elevar-se no Céu e aprofundar a verdadeira espiritualidade católica do sacrifício, do sentido de sofrimento, de penitência, de humildade e de morte.”5

  1. 1. Breve exame crítico, no. 1.
  2. 2. Isto se perceber notadamente na concepção ecumênica e salvífica da salvação. Para aqueles que, habitualmente, seguem a missa nova, as almas podem continuar a praticar qualquer religião, ainda que fosse melhor se converter. Aconteça o que acontecer, irão para o céu, como a grande maioria das almas.
  3. 3. Dom Marcel Lefebvre, Conferência espiritual, Écône, 21 de janeiro de 1982.
  4. 4. Dom Marcel Lefebvre, 8 de novembrode 1979. Nota sobre o NOM e o papa.
  5. 5. Dom Marcel Lefebvre, 20 de janeiro de 1978.

Intenção e validade do novo rito

Pe. François-Marie Chautard

Um sacramento pode ser inválido se falta a matéria (por exemplo, usando-se arroz ao invés de pão), a forma (por exemplo, ao dizer: «este é o corpo de Cristo») ou o ministro (um leigo ao invés de um padre), ou ainda se a intenção do ministro for falsa.

Para que a intenção do ministro baste para a validade de um sacramento, ele tem de ter a intenção de fazer o que a Igreja faz. Ora, o que faz a Igreja na missa tradicional é sem nenhuma ambiguidade: de toda evidência, a Igreja oferece um sacrifício propiciatório. Mas, todo o problema do novo rito, é que ele significa, de uma maneira ambígua a presença real, bem como a oferenda de um sacrifício, isso sob uma clara influência protestante. Os protestantes assinalaram: o novo rito é tão ambivalente, que é possível lhe atribuir tanto um sentido protestante como um católico. 1

Dito de outro modo, a intenção expressa pelo NOM é dúbia. Tudo dependerá, portanto, da intenção subjetiva do celebrante, uma vez que faz falta a intenção objetiva do rito.

“É pelo ofertório que o padre exprime claramente a sua intenção. Ora, isso não existe mais no novus ordo. A nova missa pode, portanto, ser válida ou inválida segundo a intenção do celebrante, enquanto que, na missa antiga, é impossível para alguém que tem a fé não ter a intenção precisa de fazer o sacrifício e de fazê-lo segundo os fins previstos pela santa Igreja.”2

Isso coloca um novo problema: a deformação do clero é tamanha, as heresias se difundiram a tal ponto pela Igreja, que há uma dúvida sobre a intenção autenticamente católicas dos padres que celebram a missa. Quando se vê, por exemplo, a leviandade com que muitos padres tratam as hóstias “consagradas”, podemos duvidar da sua fé na presença real e, portanto, da sua intenção católica ao celebrar a “eucaristia".

“Todas essas mudanças do novo rito são realmente perigosas, porque, pouco a pouco, sobretudo para os jovens padres que não tem mais a idéia de sacrifício, de presença real, de transubstanciação e para os quais tudo isso não significa mais nada, esses jovens padres perdem a intenção de fazer o que a Igreja faz e não dizem mais missas válidas. Claro, os padres idosos, quando celebram segundo o novo rito, ainda tem a fé de sempre. Eles rezaram o rito antigo durante tanto tempo, guardam as mesmas intenções, podemos crer que sua missa seja válida. Mas, na medida em que estas intenções desaparecem, as missas não são mais válidas.”3

É também esse o sentido da crítica dirigida ao Papa Paulo VI pelos Cardeais Ottaviani e Bacci em 1969: “Da forma como aparecem no contexto do Novus Ordo, as palavras da consagração poderiam ser válidas em virtude das intenções do padre. Mas, uma vez que sua validade não advém mais da força das próprias palavras sacramentais (ex vi verborum) – ou mais precisamente, do significado que o antigo rito da Missa conferia à fórmula – as palavras de consagração no Novo Ordinário da Missa poderiam também não ser válidas. No futuro os padres que não receberem formação tradicional e que confiarem no Novus Ordo para a intenção de “fazer o que a Igreja faz” farão consagrações válidas na Missa? Pode-se duvidar disto.”

É portanto abusivo dizer que a missa de Paulo VI é válida. Ela é em si mesma duvidosa. Ela só é válida se a intenção subjetiva do ministro for católica. E, infelizmente, isso nem sempre ocorre. 

 

 

 

 

  1. 1. Em 1973, o Consistório Superior da Igreja da Confissão de Ausburgo da Alsácia e Lorena publicou uma Declaração oficial na qual figuravam as seguintes linhas:

    “Dadas as formas atuais da celebração eucarística na Igreja Católica e em razão das convergências teológicas presentes, muitos obstáculos que impediriam um protestante de participar na sua celebração eucarística parecem atualmente em vias de desaparição. Hoje parece possível a um protestante reconhecer na celebração eucarística a ceia instituída pelo Senhor [quer dizer, a ceia protestante]… Nós apoiamos a utilização das novas orações litúrgicas, nas quais nós nos reconhecemos, e que tem a vantagem de mitigar a teologia do sacrifício que sempre atribuímos ao catolicismo.”

  2. 2. Conferência espiritual, Écône, 28 de fevereiro de 1975.
  3. 3. Conferência de 15 de fevereiro de 1975, La Messe de Luther, Éditions Saint-Gabriel, p. 10.

Os autores da Missa Nova

Pe. François-Marie Chautard

 

1) Paulo VI

A chamada missa de Paulo VI leva seu nome. Apesar de todas as pressões possíveis, o NOM foi assinado por Paulo VI, e data do pontificado de Paulo VI. Ele é o primeiro responsável, ele é seu verdadeiro autor. Devemos também rejeitar a idéia de que Paulo VI teria assinado às cegas os textos sobre a reforma litúrgica. 

"Para mostrar que a reforma litúrgica foi conduzida em estreita colaboração com Paulo VI, Monsenhor Bugnini afirmou: 

"Quantas horas da noite passei com ele, estudando juntos os muitos e volumosos dossiês empilhados sobre sua mesa! Ele os lia e examinava, linha por linha, palavra por palavra, anotando tudo em preto, vermelho ou azul, criticando, se necessário, com sua dialética, capaz de formular dez perguntas sobre um mesmo ponto.

"Mas essa descrição vale sobretudo para os anos 1968-1969, depois da partida de Lercaro e durante a fase mais intensa da preparação do Novus Ordo Missæ.”1

 

2) Arcebispo Bugnini 

A pedra angular da "reforma" do Missal Romano foi, entretanto, Monsenhor Hannibal Bugnini como nos lembra Monsenhor Lefebvre: "A reforma litúrgica foi, como sabemos, obra de um pai bem conhecido: Padre Bugnini, que a vinha preparando há muito tempo. Já em 1955, ele fizera traduzir textos protestantes por Monsenhor Pintonello (...) que me disse que traduzira livros litúrgicos protestantes para o padre Bugnini, que nessa época era apenas um membro modesto de uma comissão litúrgica. Ele não era nada. Depois, tornou-se professor de liturgia em Latrão. O Papa João XXIII o tirou de lá por causa de seu modernismo, seu progressismo. Pois bem, ele acabou presidindo a Comissão de Reforma da Liturgia! Inacreditável! Tive a oportunidade de ver por mim mesmo a influência do padre Bugnini. É estarrecedor que algo assim possa ter acontecido em Roma.”2

 

Apresentação da nova missa por Monsenhor Bugnini 

"Nessa época, logo após o Concílio, eu era Superior Geral da Congregação dos Padres do Espírito Santo, e houve em Roma uma reunião dos Superiores Gerais. Pedimos ao padre Bugnini que nos explicasse sua nova missa, porque, no fim das contas, aquilo não era um evento qualquer. (…) Então pedimos que o Padre Bugnini explicasse aos oitenta e quatro Superiores Gerais ali reunidos, entre os quais eu estava, sua missa. 

"O padre Bugnini, com muita bonomia, explicou-nos o que era a missa normativa. Vamos mudar isso, vamos mudar aquilo, vamos colocar outro ofertório, vai ser possível escolher os Cânones, reduzir as orações da comunhão, haverá vários padrões para o início da missa, será possível dizer a missa em vernáculo.

Olhamo-nos uns para os outros como que dizendo: ”Não é possível!” Ele falava como se antes dele jamais tivesse existido uma missa na Igreja. Ele falou de sua missa normativa como uma nova invenção. Pessoalmente, fiquei tão perplexo, que eu, que tão facilmente tomo a palavra para me opor àqueles com quem não concordo, permaneci em silêncio. Eu não conseguia dizer palavra. 

"Não é possível que tenha sido a este homem que estava diante de mim que toda a reforma da liturgia católica tenha sido confiada, a reforma do santo sacrifício da missa, dos sacramentos, do breviário, de todas as nossas orações. 

"Para onde estamos indo? Para onde vai a Igreja? Dois Superiores Gerais tiveram a coragem de se levantar. Um deles questionou o padre Bugnini: - "É uma participação ativa, é uma participação corporal, isto é, orações vocais, ou é a participação espiritual? Em todo caso, o senhor falou tanto sobre a participação dos fiéis, que parece que já não se justifica a missa sem fiéis, já que toda a sua missa foi feita em função da participação dos fiéis. Nós, Beneditinos celebramos nossas missas sem fiéis. Devemos então continuar a dizer nossas missas privadas, já que não temos fiéis que participem delas?” 

"Eu repito exatamente o que o padre Bugnini disse, eu ainda tenho suas palavras em meus ouvidos pelo tanto que me chocaram : -- "Na verdade, nós não pensamos nisso!", foi o que ele disse. 

"Depois, outro se levantou e disse: - "Meu Reverendo Padre, o senhor falou: nós vamos suprimir isto, suprimir aquilo, substituir tal coisa por outra, e sempre por orações mais curtas, que eu tenho a impressão que sua nova missa será dita em dez, doze minutos, um quarto de hora, e isso não é razoável, não é respeitoso. Pois bem! Ele respondeu: - "Podemos sempre adicionar alguma coisa". Isso pode ser sério? Mas eu mesmo ouvi. Se alguém tivesse me dito, mal teria acreditado, mas eu mesmo ouvi.”3

 

3) Os outros especialistas

À Bugnini, muitos outros especialistas se juntaram: Dom Botte e Dom Beauduin OSB. Os jesuítas Doncoeur e Daniélou. Padre Bouyer, do Oratório. Padre Gy, OP. E ainda o Monsenhor Dwyer, membro do Consilium de Liturgia, Arcebispo de Birmingham, que reconheceu a importância de tal reforma (Conferência de imprensa, 23 de outubro de 1967): "é a liturgia que forma o caráter, a mentalidade dos homens para enfrentar os problemas ... A reforma litúrgica é, em certo sentido, a chave para o aggiornamento, não se engane, é aqui que a revolução começa.”4

 

4) Os especialistas protestantes

Além de Monsenhor Bugnini e dos especialistas católicos do Consilium, seis pastores protestantes participaram da "reforma", como comprova a foto publicada  no número 1562, de 03 de maio de 1970, de Documentation Catholique

Segundo Dom Baum, responsável pelos assuntos ecumênicos da Conferência Episcopal do México, esses pastores "... não eram apenas observadores, mas também consultores. Eles participaram plenamente das discussões sobre a renovação litúrgica católica. Não faria muito sentido se eles apenas ouvissem, eles também contribuíram.”5

Além disso, falando a todos os membros do Consilium (com os pastores presentes), o Papa Paulo VI dirigiu sua declaração final, em 10 de abril, em que disse o seguinte: "Nós os agradecemos vivamente por todo o trabalho feito nos últimos anos. De fato, os senhores  diligentemente e com competência realizaram uma tarefa complexa e muito difícil sem esperar por qualquer outra recompensa além de saber que estar trabalhando para o bem da Igreja.”6

 

Epílogo 

Uma lamentável anedota sobre a redação de novos textos litúrgicos permite imaginar o profissionalismo dos “reformadores” e sua devoção pelo tesouro da Igreja.

"Monsenhor Bugnini reconheceu que as novas orações eucarísticas  (que se seguem à IV Oração Eucarística) foram feitas às pressas, quase em "marcha forçada”.  Um dos consultores da Subcomissão, o padre Bouyer, disse o mesmo, não sem humor e ironia, sobre a elaboração da II oração Eucaristica, que ele redigiu junto com Dom Botte, grande especialista em Santo Hipólito. Ele a compôs em ritmo de urgência, em 24 horas: 

“Em meio aos fanáticos arqueologizantes - que gostariam de banir as orações eucarísticas do Sanctus e as intercessões, tomando ao pé da letra a Eucaristia de Hipólito - e outros que pouco se importavam com sua suposta tradição apostólica, mas desejavam apenas uma missa rápida, Dom Botte e eu nos encarregamos de retocar seu texto, de modo a nele introduzir esses elementos, certamente mais antigos, para o dia seguinte! Por acaso, descobri  num texto, senão do próprio Santo Hipólito, ao menos ao seu estilo, uma fórmula feliz sobre o Espírito Santo que poderia fazer uma transição, do tipo Vere Sanctus, para a breve epiclese.  Botte, por sua vez, fabricou uma intercessão mais digna de Paulo Reboux e de seu “ao modo de…” que da sua própria ciência. Mas não posso reler esta composição insólita sem lembrar o terraço do bistrô em Trastevere onde tivemos de ajustar nosso pensum, em tempo hábil para nos apresentarmos na porta de Bronze no momento fixado por nossos diretores!” 7

 

 

  1. 1. Yves Chiron, Mgr Bugnini (1912-1982), Réformateur de la liturgie, Desclée de Brouwer, 2016, p. 120-121.
  2. 2. L’Église infiltrée par le modernisme, p. 31.
  3. 3. L’Église infiltrée par le modernisme, pp. 32-34.
  4. 4. Citado por Dom Marcel Lefebvre na sua Carta ao Cardeal Seper, 26 de fevereiro de 1978.
  5. 5. Citado em La messe a-t-elle une histoire? p. 91.
  6. 6. D. C. 1970, no. 1562, p. 416.
  7. 7. Yves Chiron, Mgr Bugnini (1912-1982), Réformateur de la liturgie, Desclée de Brouwer, 2016, pp. 146-147.

Deficiências doutrinais da Missa de Paulo VI

Pe. François-Marie Chautard

A maior das recriminações feitas ao missa de Paulo VI é a que se refere à fé católica. O rito mesmo, nos seus gestos e palavras, no conjunto como no detalhe, altera a nossa fé. Ele não a contradiz frontalmente, mas a escamoteia, silencia, oculta. 

 

1) Quanto ao mistério católico

O rito tem a tarefa de instruir padres e fiéis e de lhes dispôr ao culto de Deus lembrando-lhes as verdades da fé. Ora, o novo rito é acompanhado de um considerável empobrecimento dessas recordações. Numerosas verdades foram alteradas e dissimuladas por meio da supressão de orações:

O pecado: O NOM 1 não mais contém as orações da Indulgentiam, do Aufer a nobis, do Oramus te, do Deus qui humanae, do suscipe sancte Pater que, todas, recordavam ao homem a sua condição de pecador. 

O desprezo das coisas desse mundo: "Todas as orações que falavam do desprezo das coisas desse mundo para nos mover às coisas do céu foram mudadas. Que idéia passou na cabeça de quem mudou essas coisas? Pensou que os bens celestes não valem tanto assim para desprezarmos as coisas terrestres, que são para nós ocasião de pecado?”2

O combate espiritual: “Suprimiram nas orações tudo o que indicava luta, combate espiritual. Os termos “perseguidores”, “inimigos”, tudo isso foi suprimido sem razão. Por exemplo, São João de Capistrano: “[Ó Deus que…] fizeste triunfar [vossos fiéis] sobre os inimigos da Cruz (…) fazei, nós vos rogamos, que por vossa intercessão, possamos vencer as armadilhas  de nossos inimigos espirituais”.3

O mistério da Redenção: fala-se de “salvação" de modo muito vago.

A virgindade perpétua da Virgem Maria: no NOM é possível (conforme a escolha das orações propostas) não falar da Virgem Maria. Ora, sabemos que a virgindade perpétua de Nossa Senhora é uma pedra de tropeço para os protestantes… De resto, as palavras “Sempre Virgem” só aparecem em uma só das quatro orações eucarísticas. O antigo rito, ao contrário, repetia este dogma ao menos cinco vezes.

A Realeza de Cristo Rei: “No que se refere ao Cristo Rei, foram suprimidas duas estrofes que falavam do Reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo.”4

Os novíssimos: “O rito dos defuntos foi modificado. A palavra anima frequentemente desaparece das muitas orações para os defuntos, porque as novas filosofias questionam a realidade da distinção entre a alma e o corpo. Então, não se deve falar da alma. É inacreditável, inimaginável! Não há mais devoção pelos mortos, não há mais o sentido de Purgatório.”5

 

2) Quanto ao aspecto sagrado dos mistérios

As rubricas mesmas do missal institucionalizam esta perda de sentido do sobrenatural por meio da mutabilidade permanente do rito e de um relaxamento litúrgico geral.

A mutabilidade permanente do rito corrompe o caráter sagrado. É o que ocorre com a diversidade de missas: a primeira parte da mesma possui três fórmulas, a segunda, outras três, e o cânon, quatro fórmulas. Pode-se então construir uma missa personalizada segundo 3x3x4 possibilidades. Isso limitando-se às palavras, sem falar dos gestos e de outras cerimônias que podem ser inventadas e acrescentadas à liturgia segundo o gosto dos conselhos paroquiais. Dar ao padre e ao seu conselho paroquial uma liberdade de gestos quase total e conceder uma parte larguíssima à inciativa coletiva no tocante aos textos da missa, engendra automaticamente uma perda do respeito devido ao próprio rito. É raro que a imaginação ou a fantasia se acompanhem de senso de respeito.

Ao contrário, a utilização de um rito estabilizado há uns quinze séculos e codificado em detalhe engendra um profundo respeito da parte do padre e dos fiéis. A primeira regra para ensinar o caráter sagrado de um objeto, é não colocá-lo nas mãos de todos e proibir que o transformem à bel prazer.

Um relaxamento litúrgico geral engendrado pelo abandono e pela supressão de grande parte das marcas de respeito, em particular: 

  • A obrigação da Pedra da Ara, assim como do caráter precioso dos vasos sagrados, das três toalhas do altar ou ainda de certos ornamentos (o manípulo, o amito, o cíngulo, o véu do cálice e a bolsa ou a própria casula) 
  • As genuflexões, cujo número cai de 12 para 2; o sinal-da-cruz, que de 47 no rito tridentino passam para 7-8.
  • O número de orações, que reduzem a duração da Missa em até 10/12 minutos.

Dom Marcel Lefebvre observava com lucidez: 

“A dessacralização já começa com o uso do vernáculo. A supressão da língua sagrada, que era o latim, de certo modo transformou a santa missa em algo de profano, fez dela qualquer coisa que não é mais verdadeiramente sagrada.

"Pela pronunciação desta tradução em voz alta durante toda a santa missa -- Não há mais momentos de silêncio, não há mais palavras ditas em voz baixa pelo padre (…) que convidam à meditação sobre o grande mistério que se realiza.

"Pela introdução da mesa ao invés do altar (…)

"Pela posição do padre. A missa voltada para os fiéis não convida absolutamente ao recolhimento em face do mistério que se desenrola. O próprio padre se distrai pelas pessoas que tem diante de si. E os fiéis se distraem pelo padre, sobretudo se ele age de modo mais impetuoso, desordenado ou desrespeitoso (…)

"Pela distribuição da Eucaristia pelos fiéis”6.

 

3) Supressão do aspecto sacrificial 

“A missa não é um sacrifício… chamemo-la de benção, eucaristia, ceia do Senhor… demos a ela qualquer outro título que se queira, mas não a manchemos com o nome de sacrifício. Esta abominação […] que chamamos Ofertório. É praticamente daí que tudo ressoa a sacrifício” (Lutero)7

O NOM desviou-se do sentido de um sacrifício para o de uma ceia. Esta evolução se deu de quatro maneiras:

a) Pela supressão do Ofertório. Na doutrina católica o ofertório tem por finalidade precisar o fim sacrificial da missa, a saber, a oferenda do Corpo e do Sangue em expiação dos nossos pecados. O ofertório é, assim, antecipação do sacrifício (1) do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo (2) feita a Deus Pai (3), apresentada pelo padre (4) em expiação de nossos pecados (5). É por isso que o ofertório tradicional desenvolve esses cinco pontos sem nenhum equívoco possível. Não é mais o caso do novo ofertório que não é a oferenda antecipada do corpo e do sangue de Cristo, mas uma oração concebida a partir de um benedicite judáico 8

b) Pela supressão da menção ao sacrifício propiciatório. “As orações que exprimiam explicitamente a idéia de propiciação, como as do ofertório e as pronunciadas pelo padre antes da comunhão, foram suprimidas.”9 O termo “sacrifício” está inteiramente ausente do cânon no. 2, dito de santo Hipólito.”10

c) Pelo estilo narrativo da consagração, que mais remete a uma narração comemorativa do  que a uma ação litúrgica.

d) Pelos próprios gestos litúrgicos.

“Por outro lado, para analisar o novo rito, penso que não devemos considerar apenas os textos, mas é preciso levar em conta igualmente todas as atitudes, os gestos novos que são comandados: as genuflexões, o sinal-da-cruz, as inclinações (…) e mesmo a alteração dos objetos.”11 “Tudo foi transformado! Não há mais genuflexões, não há mais o sinal-da-cruz! É abominável! O sinal da cruz mostrava que se tratava do sacrifício da Cruz. Não se diga que são detalhes. Não são detalhes. São gestos que tem o seu significado, que tem o seu valor.”12

 

4) Diminuição da fé na presença real

“… É impossível ignorar como os gestos e costumes rituais que expressam a fé na Presença real foram abolidos ou modificados. O Novus Ordo elimina:

  • As genuflexões. Não mais do que três permanecem para o padre, e (com certas exceções) uma para os fiéis no momento da Consagração.
  • A purificação dos dedos do padre sobre o cálice;
  • A preservação dos dedos do padre de todo contato profano após a consagração;
  • A purificação dos recipientes sagrados, que não precisa ser feita imediatamente e pode ser feita fora do corporal;
  • A pala que protegia o cálice;
  • O ouro no interior dos recipientes sagrados.
  • A consagração solene para altares móveis.
  • As três toalhas no altar, reduzidas a uma. 
  • A ação de graças para a Eucaristia feita ajoelhada, agora substituída pela grotesca prática do padre e do povo sentando-se para fazer a ação de graças — uma consequência bastante lógica do ato de receber a comunhão em pé;
  • Todas as antigas prescrições a serem observadas no caso de uma hóstia que caía no chão, as quais agora se reduzem a uma única e quase sarcástica instrução: “Ela deve ser recolhida de forma reverente”.

Todas estas supressões somente enfatizam a maneira ultrajante que a fé no dogma da Presença Real é implicitamente repudiada.13

 

5) Diminuição do sacerdócio

Este empobrecimento doutrinal — em particular, o enfraquecimento da noção de missa-sacrifício em proveito da idéia de uma missa-refeição — conduz logicamente a uma diminuição do papel do padre. A missa se torna uma reunião presidida por um padre que é menos sacrificador do que animador de uma assembléia que se reuniu para, por meio de uma refeição simbólica, realizar um ato de rememorização. Essa nova dissimulação manifesta-se pela:

  • Supressão das orações feitas unicamente pelo padre, ou em nome do padre, como o confiteor que passa a ser recitado em comum. Do mesmo modo, as orações formuladas com “eu" desapareceram ou foram modificadas.
  • Supressão das orações feitas em voz baixa pelo padre. Tudo é rezado em voz alta, significando assim que o povo deve poder ouvir o que diz o padre afim de fazer esta oferenda juntamente com ele. Ora, isso era precisamente o que pretendiam os protestantes, posto que esses últimos negam o caráter próprio do padre e insistem sobre a oferenda comunitária da ceia.

De modo hábil, a distinção não é negada, mas silenciada. A longo prazo, isso conduz a ocultar a distinção essencial entre padre e fiel.

 

6) Uma nova definição

Um dos aspectos  mais reveladores da nova orientação doutrinal da Missa de Paulo VI é a primeira definição da mesma, que encontramos na apresentação geral do novo missal, no no. 7:

“a ceia do Senhor, ou a missa, é uma sinaxe sagrada, ou seja, a reunião do povo de Deus sob a presidência do padre, para celebrar o memorial do Senhor. É por isso que a reunião da Santa Igreja em dado local realiza de modo eminente a promessa de Cristo: ‘Onde se acham dois ou três congregados em meu nome, aí estou eu no meio deles’"

Pode-se ver que:

  • Não se faz nenhuma menção do sacrifício, mas se fala de uma ceia e de uma “reunião do povo de Deus” e de um memorial; 
  • O padre é apresentado como o presidente da assembléia, e não como sacrificador: “sob a presidência do padre”;
  • A presença de Cristo é uma presença espiritual, como a de uma simples oração comum: “a reunião… realiza de modo eminente a promessa de Cristo: ‘Onde se acham dois ou três congregados em meu nome, aí estou eu no meio deles’”;
  • Esta definição corresponde de modo muito preciso ao novo rito.

Falando da Institutio Generalis, ou seja, da apresentação geral da nova instituição litúrgica, Bugnini declarou que este documento constituía “uma ampla exposição teológica, pastoral, catequética e litúrgica, uma introdução à compreensão e à celebração da missa”14. Quanto ao Cardeal Villot, falando em nome de Paulo VI, ele via nela “uma síntese dos princípios teológicos, ascéticos e pastorais indispensáveis, tanto para a divina doutrina, como para a celebração, catequese e pastoral da missa.”15

Este texto desencadeou, no entanto, uma tal avalanche de críticas que a definição foi modificada, sem que o sentido fosse verdadeiramente satisfatório.

“Mons. Bugnini, que era o seu autor disse: ‘— Quiseram nos fazer mudar alguma coisa da definição da missa. Alguns protestaram contra a definição. Ridículo. Esta definição não era absolutamente protestante’. Monsenhor Bugnini tentou se justificar: ‘— A nova definição feita não muda nada quanto ao essencial’16

 

Conclusão

Em suma, é o conjunto das grandes verdades de fé que são diminuídas, ocultadas, escamoteadas no novo rito da missa; o mistério da Redenção, o pecado, a imortalidade da alma, a Virgindade de Maria, o sacerdócio, a necessidade da expiação, tudo isso é alterado pelo novo rito.

Não é, pois, exagerado concluir que esta nova missa é corrosiva para a fé dos padres que a celebram e para a fé dos fiéis que a assistem, como infelizmente cinquenta anos de reforma litúrgica manifestam fartamente. 

  1. 1. Novus Ordo Missae, ou seja, o novo rito da Missa. Utilizaremos essa abreviação ao longo do nosso texto.
  2. 2. Dom Marcel Lefebvre, Mantes-la-Jolie, 2 de julho de 1977.
  3. 3. Dom Marcel Lefebve, Conferência espiritual, Écône, 25 de junho de 1981.
  4. 4. Ibidem.
  5. 5. Ibidem
  6. 6. 1o. de outubro de 1979
  7. 7. Formulae missae et communionis, 1523.
  8. 8. Trata-se da famosa oração: “Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo pão que recebemos de Vossa bondade. Fruto da Terra e do trabalho humano” etc.
  9. 9. Dom Marcel Lefebvre, Conferência espiritual, Écône, 26 de outubro de 1979.
  10. 10. O NOM deixa a escolha entre quatro cânones, entre os quais o dito de Santo Hipólito. Dom Marcel Lefebvre, Carta aberta aos católicos perplexos, p. 33.
  11. 11. Dom Marcel Lefebvre, Conferência espiritual, Écône, 25 de junho de 1981.
  12. 12. Dom Marcel Lefebvre, Retiro, Avrillé, 18 de outubro de 1989.
  13. 13. Breve exame crítico do NOM dos cardeais Bacci e Ottaviani.
  14. 14. Conferência geral do episcopado latino-americano, 30 de agosto de 1968.
  15. 15. D.C. 1594, p. 866.
  16. 16. ”Posto que foi dito e redito oficialmente que não se encontrou nenhum erro doutrinal na redação original e que as mudanças introduzidas não visavam mais do que cortar pela raiz algumas dificuldades inúteis, podemos continuar a nos apoiar no texto de 1969. Ele representa o pensamento da Institutio generalis em estado puro, para além dos compromissos ‘impostos'”. Jean-Marie R. Tillard, “A reforma litúrgica e a reaproximação das Igrejas”, in Liturgia opera divina e umana, Studi sulla riforma liturgica offerti a S. E. Mgr. Annibale Bugnini, Edizioni Liturgiche, 1982, p. 223.

O paralelo com a missa de Lutero

Pe. François-Marie Chautard

 

Zeloso defensor da missa tradicional, Dom Marcel Lefebvre não hesitou em chamar o Novus Ordo Missae (NOM) de "Missa de Lutero". Exagero retórico ou realidade doutrinal? Um rápido paralelo entre as duas responderá a pergunta.

 

 

1) A Doutrina Protestante

A doutrina protestante da "Missa" baseia-se em três princípios-chaves: a transubstanciação, o sacerdócio ministerial (do padre) e o sacrifício da missa são invenções, se não do diabo, ao menos dos homens.  

  • A presença real: na hóstia, há uma presença real, mas puramente espiritual. Não há transubstanciação, isto é, a conversão do pão em um corpo, sem que nada reste do pão a não ser a aparência; ao contrário, o pão permanece pão e Jesus Cristo vem espiritualmente pela fé dos fiéis e permanece apenas durante a Ceia do Senhor;
  • O sacerdócio católico é uma pretensão injustificada. Todo batizado é padre. Aquele que desempenha o papel de sacerdote tem, no máximo, o papel de presidente de assembléia, para oferecer um sacrifício de louvor, isto é, uma oração, com ordem e dignidade.
  • O sacrifício da missa é uma abominação. A ceia ou eucaristia é um memorial puro, um louvor a Deus e uma pregação aos homens, mas não um sacrifício onde Cristo seria imolado a fortiori em expiação pelos nossos pecados. O ofertório que expressa essa dimensão sacrificial e expiatória é, portanto, a primeira oração a ser suprimida.

 

2) A tática de Lutero

Querendo erradicar das almas alemãs o significado da missa, Lutero entendeu que era preciso agir com habilidade.

 "Para alcançar o objetivo com mais segurança", disse ele, "é necessário preservar algumas cerimônias da antiga missa por conta dos fracos que poderiam se escandalizar com a mudança abrupta". 

Como resultado, Lutero manteve algumas orações, algumas canções (Kyriale) para conduzir docemente os fiéis à heresia. 

Conselho que não foi esquecido pelo padre Mortimart, uma das peças-chave do suposto progresso litúrgica: "Se nos decidirmos por mudanças mais radicais, poderíamos manter os velhos usos, os antigos cantos e fórmulas que encantam nosso sacerdócio, nos mosteiros e em algumas igrejas, que, por suas características, não são freqüentados pelo grande público; a Capela Sistina e as abadias não são acessíveis senão a uma elite sensível às obras-primas da oração e da arte."1

Em suma, uma missa para os estetas e outra para o povo! Para conseguir isso, foi necessário proceder metodicamente, dosando as várias eliminações e acréscimos, que encontramos na massa de Paulo VI.

 

3) Supressões da Ceia Protestante idênticas às do NOM 2

  • A menção da virgindade perpétua da Virgem Maria.
  • A menção aos santos.
  • A genuflexão antes da consagração, enquanto a seguida foi mantida. Com efeito, para os protestantes, é a fé dos fiéis que faz a presença de acordo com a palavra de Cristo: "Quando dois ou três se reunirem em meu nome, eu estarei entre eles”. Assim, Cristo está presente apenas quando a hóstia é mostrada ao povo, mas não antes. Na NOM, o padre faz uma genuflexão somente depois de levantar a hóstia;
  • O ofertório.
  • O cânon.
  • O tabernáculo etc.

 

4) Adições da Ceia protestante idênticas às do NOM

  •  A oração universal.
  • O aumento da "liturgia da palavra". "O culto antes se dirigia a Deus, como uma homenagem", dizia Lutero, "Agora, se dirige ao homem para consolá-lo e iluminá-lo. O sacrifício ocupava o primeiro lugar, o sermão veio suplantá-lo.” 3
  • A aclamação depois do Pater.
  • A dupla comunhão.
  • A apresentação em voz alta dos Oblatos e do Cânon.
  • O uso da língua vernacular.
  • A celebração voltada para o povo etc. 

Eis aqui, para terminar, uma descrição de uma ceia protestante nos tempos de Lutero: 

"A maior anarquia reinava entre os sacerdotes. Cada um agora recitava a missa ao seu gosto. O Conselho, não cabendo em si, resolveu fixar uma nova liturgia destinada a restaurar a ordem, consolidando as reformas. Regulava-se o modo de dizer missa. O Intróito, o Gloria, a Epístola, o Evangelho, o Sanctus foram preservados, e seguidos de uma pregação. O Ofertório e o Cânon foram suprimidos. O padre simplesmente recitava a Instituição da Ceia, dizendo em voz alta e em alemão as palavras da Consagração, e dava a comunhão sob ambas as espécies. Com o canto do Agnus Dei, da Comunhão e do Benedicamus Domino terminava o serviço. 

"Lutero estava preocupado em criar novos cânticos. (...) Lutero dosava as transições. Ele mantém as cerimônias antigas o quanto possível. Ele se limita a mudar o sentido. A missa mantém em grande parte seu aparato exterior. As pessoas acham nas igrejas o mesmo cenário, os mesmos ritos, com alterações feitas para agradá-las, porque a partir de agora no dirigimos a elas muito mais do que antes. O povo está mais consciente de servir para alguma coisa  durante o culto, participando mais ativamente do canto e da oração em voz alta. Pouco a pouco, o latim dá lugar ao alemão. A consagração será cantada em alemão. Está escrita nestes termos: “a noite em que ia ser entregue, ele tomou o pão, deu graças, e o partiu e deu a seus discípulos, dizendo: Tomai, todos, e comei: isto é o meu corpo, que será entregue por vós. Do mesmo modo, ao fim da ceia, ele tomou o cálice em suas mãos, deu graças novamente, e o deu a seus discípulos, dizendo: tomai, todos, e bebei: este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós para a remissão dos pecados. Fazei isto em memória de mim."

Assim são acrescentadas as palavras “quod pro vobis” ("que será derramado por vós”), e suprimidas “mysterium fidei” e “pro multis” na consagração do vinho."4

Compreende-se o que o Pe. Calmel escrevia acerca dos procedimentos dos modernistas: 

“O modo direto, próprio de todo reformador combativo e fanático, mas leal, repugna ao seu caráter tão impregnado de mentiras. Seu jogo é, ao contrário, sutil. Ele sabe muito bem que, para mudar a Igreja, é sobretudo necessário mudar a missa. Mas também é necessário, numa empreitada desse porte, evitar ao máximo chamar atenção. A dificuldade será resolvida se alcançar-se forjar uma Missa que, por um lado, seja ainda aceitável para aqueles que não mudaram na fé católica e apostólica, e, por outro, não seja repugnante àqueles que têm uma fé "mais ampla"; isto é, àqueles que não têm fé alguma. 

Na verdade, a dificuldade dos modernistas para forjar uma Missa que ainda pudesse ser uma Missa, embora  equívoca, e que tendesse à própria abolição, enfim, a dificuldade de mentir com uma habilidade suprema, foi finalmente resolvida. . (...) Que meios são usados ​​para arruinar o Cânon Romano, para fazer reinar a ambigüidade e a indecência em uma ordem ritual que até agora era apenas verdade e piedade? Esses meios são as reorganizações, as adições, e especialmente o silêncio intencional. (...)

Digamos, para concluir esse breve exame das novas preces, que nada foi deixado ao acaso. Tudo é calculado. Tudo é dirigido numa direção precisa."5 

O próprio Paulo VI reconheceu o aspecto "pedagógico" da reforma litúrgica: 

"... a nova pedagogia religiosa, que a atual renovação litúrgica quer estabelecer, foi inserida para ser o motor central do grande movimento inscrito nos princípios fundamentais da Igreja de Deu.” 6

  1. 1. Citado em A Missa tem uma história? ed. da MJCF, p.84.
  2. 2. Novus Ordo Missæ, isto é, o novo rito da missa. Usaremos essa abreviação no restante do nosso documento.
  3. 3. Leon Cristiani, Do Luteranismo ao Protestantismo, p. 312.
  4. 4. Dom Marcel Lefebvre, La messe de Luther dans la messe traditionnelle, Trésor de l’Église, p.33-34.
  5. 5. Fideliter Se conhecesses o dom de Deus ..., T.1 missa, NEL, 2007, p. 95-96, 98, 114-115, 118.
  6. 6. Pe. Didier Bonneterre, O Movimento Litúrgico.

Algumas notas de Doutrina Católica

Antes de considerar o rito de Paulo VI, convém apresentar algumas notas sobre a doutrina da missa e do sacerdócio, os ritos dos sacramentos e, finalmente, a heresia.

 

1) A doutrina da missa e do sacerdócio

A doutrina tradicional da missa é: 

  • A missa é um verdadeiro e autêntico sacrifício.
  • O propósito do sacrifício é quádruplo: latrêutico (dar glória a Deus), eucarístico (agradecer-lhe), impetratório (pedir-lhe graças) e propiciatório (expiar nossos pecados).
  • Cristo está presente verdadeiramente, realmente e substancialmente sob as espécies do pão e do vinho.
  • Esta presença é realizada pela transubstanciação. 

Quanto ao padre:

  • Ele age na missa primeiramente in persona Christi, isto é, como  no lugar de Cristo e não representando os fiéis.
  • Seu sacerdócio é de natureza diferente do sacerdócio dos fiéis.

 

2) Os ritos dos sacramentos

Todo ritual sacramental é constituído de duas partes: uma parte essencial e uma parte acidental. 

A parte essencial causa diretamente o efeito sacramental. Sem ela, não poderia haver sacramento (na missa, é a consagração; no batismo, é a ablução da água com a pronúncia da fórmula: "Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo"). 

A parte acidental reveste a parte essencial e destina-se a:

  • aumentar a solenidade do culto prestado a Deus, 
  • tornar clara a intenção do ministro,
  • dispor as almas dos fiéis a participar bem da adoração e a colher os frutos espirituais dela.

Esta preparação dos fiéis destina-se especialmente a formar a sua fé e excitar sua devoção. Por exemplo, o Confiteor no início da Missa ajuda o sacerdote e os fiéis a assumir as disposições necessárias para assistir à missa. A gravidade dos gestos impostos ao sacerdote no momento em que ele pronuncia as palavras da consagração indica claramente que não se trata de mera recitação, mas de uma ação litúrgica. 

O ensinamento dado pelo rito da Missa é muito importante para os fiéis porque sua fé é conservada, instruída ou deformada pela liturgia, como disse o Cardeal Journet : "A liturgia e a catequese são como os dois braços da tenaz com que resgatamos a fé".

Imaginemos por um instante um rito que não fizesse qualquer menção do pecado e da reparação a que ele nos obriga, nenhuma alusão à penitência necessária, nenhum gesto de penitência (como bater no peito no Confiteor): depois de anos assistindo tal rito, a idéia de pecado correria forte risco de ser relegada ao fundo de uma consciência jamais despertada ou tomada de inquietação. 

Inversamente, se o rito exige dos fiéis (sacerdotes e leigos) que se ajoelhem diante do tabernáculo, ajoelhem-se para receber a hóstia das mãos de um sacerdote, que mantém os polegares e os indicadores unidos depois de recitar as palavras da consagração, tais fiéis serão capazes de compreender e seguir o ensinamento da Igreja sobre a presença real.

 

Lex orandi, lex credendi

Esta relação entre rito e fé é tão verdadeira que na Antiguidade o Papa São Celestino I usou uma expressão que ganharia notoriedade multisecular e que muitos outros papas repetirão (Bento XIV, Leão XIII Pio XI, Pio XII): "Legem credendi statuat lex supplicandi, lex credendi legem statuat supplicandi", que pode ser traduzido assim: "a lei da oração determina a lei da fé, a lei da fé determina a lei da oração" fórmula cuja síntese é: Lex orandi, lex credendi

Em outras palavras, a liturgia é o veículo da doutrina. Por isso, a melhor maneira de se mudar a doutrina de um povo é mudar a sua liturgia.

Este ponto é essencial, pois todo sacramento constitui assim uma profissão pública de fé 1. Assistir à missa católica é uma profissão desta fé, assistir a uma missa equívoca é garantia de uma duvidosa profissão de fé.

 

A licitude da mudança

A Igreja recebeu do Salvador certa liberdade quanto aos ritos dos sacramentos. Ela é livre para criar um rito acidental e mais ou menos livre para tocar nos pontos essenciais. 

No entanto, a mudança litúrgica deve levar ao progresso da expressão da fé, da solenidade do culto, ou da piedade dos fiéis, e certamente não ao empobrecimento da adoração ou da fé dos fiéis. 

Dom Marcel Lefebvre dizia: 

"Nunca recusamos certas mudanças, certas adaptações que atestam a vitalidade da Igreja. Em questões litúrgicas, não é a primeira reforma assistida por homens da minha idade: eu acabara de nascer quando São Pio X estava preocupado em fazer melhorias, especialmente dando mais importância ao ciclo temporal, avançando a idade da primeira comunhão para as crianças e restaurando o canto litúrgico que conhecera um certo obscurecimento.

"Pio XII, mais adiante, reduziu a duração do jejum eucarístico devido às dificuldades inerentes à vida moderna, permitiu pela mesma razão da celebração da Missa à tarde (...) João XXIII fez ele próprio algumas alterações, antes do Concílio, ao rito de São Pio V. Mas nada disso sequer se aproxima do que aconteceu em 1969, isto é, de uma nova concepção da missa."2 

E o grande artífice da nova missa, Monsenhor Bugnini, reconheceu: "Não se trata apenas de retocar uma obra de arte de grande valor, mas às vezes é necessário dar novas estruturas a ritos inteiros (sic). Trata-se de uma restauração fundamental; quase diria, de um redesenho e, em alguns pontos, de uma nova criação."3

 

3) Heresia

Existem dois tipos de heresias: a positiva e a negativa, a franca e a sorrateira. 

A heresia positiva consiste em negar abertamente uma verdade da fé. Por exemplo, o protestante que claramente ensina que o sacrifício da missa não é um sacrifício propiciatório. 

A heresia negativa, que é mais precisamente o caminho rumo à heresia positiva ou caracterizada, consiste primeiro em silenciar intencionalmente uma verdade da fé sem contradizê-la abertamente para que caia gradualmente no esquecimento. 

Pio VI condenou, por isso, a proposta de um "sínodo" da Assembléia dos Jansenistas, feita pelo bispo de Pistóia, em 1794, pela simples razão de que deixou de mencionar a palavra "transubstanciação". 4

Essa maneira sorrateira de induzir à heresia também consiste em orientar os espíritos na direção contrária à fé. Assim, ao beijar o Alcorão, o papa João Paulo II claramente encorajou os católicos a considerarem o Alcorão como um livro sagrado e nada contrário à fé católica. Essa negação emudece os Mistérios, e essa nova orientação doutrinal, baseada em “silêncios intencionais”, são claros na missa de Paulo VI quando a comparamos com a Ceia Luterana.

  1. 1. “Assim como os antigos Padres foram salvos pela fé no Cristo vindouro, assim somos salvos pela fé em Cristo, que agora nasceu e sofreu. Os sacramentos são sinais que professam essa fé que justifica.” IIIa, 61, 4, c.
  2. 2. Marcel Lefebvre, Carta aos Católicos Perplexos, 1984, pp. 45-46.
  3. 3. A. Bugnini, coletiva de imprensa de 4 de janeiro de 1967, citado em Missa, tem uma história? p.131, nota 1.
  4. 4. Bula Auctorem Fidei, 28 de agosto de 1794, Dz 2629.

À margem da polêmica renovada sobre o missal de Paulo VI

Agosto 26, 2018 escrito por admin

A revista paulina para "agentes de pastoral" (Vita pastorale, no. 6/1997), na rubrica Cartas recebidas, publica uma carta (verdadeira?) dum leitor alarmado, que pede à revista paulina uma "resposta tranqüilizadora" a respeito das declarações do cardeal Ratzinger na sua autobiografia (Minha vida -- pp. 105-115) "sobre o trágico erro cometido por Paulo VI com a interdição do uso do Missa de Pio V e a aprovação do "novo" Missa que teria rompido com a tradição litúrgica da Igreja"

Rinaldo Falsini o.f.m. (conselheiro da Congregação para o Culto Divino) escreve, entre outras coisas: "Paulo VI teve de abolir o uso do Missal de Pio V [...], reduzido a um filete d´água quase seco, incapaz de dessedentar e de nutrir a fé e a piedade do povo cristão".

O Ordo Missae, chamado de Missa de São Pio V, um filete de água quase seco? E que dizer então do mini-Ordo de Paulo VI? E por qual mágica o rito de São Pio V se tornaria "incapaz de dessedentar e de nutrir a fé e a piedade do povo cristão", após ter dessedentado e nutrido notavelmente, durante séculos e séculos, inclusive os Santos hoje canonizados? Porque o Missal dito de São Pio V não é absolutamente de São Pio V: é o rito romano tradicional, ou seja, a Missa tal qual foi substancialmente celebrada em Roma desde os tempos apostólicos, mesmo se foi lentamente enriquecida (e não bruscamente empobrecida) de ritos e orações (v. Enciclopédia Cattolica verbete Missa col. 792 seg.).
  
O cardeal Ratzinger, por outro lado, explica bem na sua autobiografia: "eu ficava estupefato pela interdição do antigo missal, no momento que "jamais se tinha verificado uma coisa semelhante em toda a história da liturgia. Deram a impressão de que tudo isto era absolutamente normal. O missal precedente tinha sido composto por Pio V em 1570, em seguida ao Concílio de Trento; era portanto normal que, após quatrocentos anos e um novo Concílio, um novo papa publicasse um novo Missal. Mas a verdade histórica é diferente. Pio V se limitara a fazer elaborar de novo o missal romano então em uso, como no decurso da vida da história isto havia sempre sucedido no transcorrer os séculos. E muitos dos seus sucessores, do mesmo modo que ele, tinham elaborado novamente este missal, sem jamais opor um missal a um outro. Tratava-se sempre dum processo contínuo, a continuidade nunca era destruída. Um missal de Pio que teria sido criado por ele não existe. Há somente nova elaboração ordenada por ele, como fase dum longo processo de crescimento histórico.
   
"O fato novo, após o concílio de Trento, foi de outra natureza: a irrupção da reforma protestante se fez, sobretudo, sob a modalidade de "reformas" litúrgicas [...] tão bem que os limites entre o que era ainda católico e o que não, eram freqüentemente difíceis de definir. Nesta situação de confusão, tornada possível pela ausência de normas litúrgicas e pelo pluralismo litúrgico herdado da Idade Média, o Papa decidiu que o Missale Romanum, o texto litúrgico da cidade de Roma, enquanto certamente católico, devia ser introduzido em toda a parte onde não se pudesse apelar para uma liturgia que remontasse pelo menos a dois séculos antes. Lá onde isto se verificava, s epodia manter a liturgia precedente, dado que o seu caráter católico podia ser considerado como certo". (J. Ratzinger, La mia vitta - "Minha vida" - pp. 111-112, os negritos são nossos).

Portanto, São Pio V não fez nada mais do que estender a todo o Ocidente a Missa romana tradicional como barreira contra o protestantismo. Mas Falsini (Vita Pastorale) escreve: "Pio V aboliu todos os Missais que não datavam de 200 anos. Paulo VI teve de [sic] abolir o uso do Missal de Pio V, tanto mais por ser totalmente inadequado às finalidades pastorais do Concílio e ainda porque o conteúdo do Eucológio [exato! somente o conteúdo] e a estrutura [somente o esqueleto] da celebração se fundam no novo". A comparação entre São Pio V e Paulo VI não subsiste.
  
Paulo VI "teve de" abolir o rito romano tradicional porque as autodenominadas finalidades "pastorais" do Concílio não se referiam, como deveriam, aos católicos, mas aos... protestantes. Sem oposição ao Breve exame crítico dos cardeais Ottaviani e Bacci, que denunciaram no Novus Ordo de Paulo VI um "impressionante afastamento da teologica católica da Santa Missa", citaremos aqui uma fonte ainda mais autorizada e insuspeita: "A oração da Igreja não deve ser um estorvo para ninguém" escrevia no Osservatore Romano de 19 de maio de 1965 Mons. Bugnini, e, como se não fosse inevitável que a "oração da Igreja" choque aqueles que não têm a fé da Igreja, ele continuava dizendo ser portanto necessário "remover todas as pedras que pudessem constituir mesmo uma sombra de risco de obstáculo ou [até] de desagrado para os nossos irmãos separados". E o Osservatore Romano de 13 de outubro de 1967 anunciava com satisfação que a operação poderia ser considerada como bem sucedida; "a reforma litúrgica deu um passo notável para a frente [sic!] e houve uma aproximação das formas da Igreja luterana". Portanto, a comparação de Falsini não é válida; São Pio V aboliu, não o rito romano tradicional, mas todos os outros ritos que não remontavam a 200 anos e ele os aboliu por estarem poluídos de protestantismo, ou ao menos suspeitos de infiltrações protestantes, estendendo a todo o Ocidente o Missal Romano, porque "certamente católico". Paulo VI, ao contrário, aboliu o rito romano tradicional, e o fez porque ste era muito católico, promulgando um novo missal protestantizado. A diferença não é pequena.
  
A seguir, que Paulo VI tenha realmente abolido o uso do Missal de Pio V, fica ainda por demonstrar, como também cabe totalmente demonstrar se ele tinha o direito de abolir o rito mais venerável da Igreja latina, e isto sem outro motivo que o de agradar aos protestantes.
  
Na constituição Missale Romanum de Paulo VI, de fato, não se lê a fórmula solene abrogatória e imperativa que se lê na Quo Primum de São Pio V (v. Sim Sim Não Não, ano I, no. 9, p. 5), mas simplesmente:

 

"Ad extremum ex iis quae hactenus de novo Missali Romano exposuimus quiddam nunc cogere et efficere placet" que mesmo um aluno aplicado do liceu, ajudado por um bom dicionário, é capaz de traduzir: "Enfim, do que expusemos até agora sobre o novo Missal nos apraz tirar algumas conclusões".
  
"Falsários" interessados (cf. uma carta do conhecido latinista prof. Heitor Paratore a Luís Salleron) apressaram-se entretanto a traduzir muito livremente: "Enfim queremos dar força de lei [sic] ao [sic] que expusemos até agora sobre o novo Missal Romano" (e assim de maneira mais ou menos equivalente em todas as outras línguas); tradução que absolutamente não corresponde ao texto latino (v. Sì Sì No No ano II, no. 4, p. 2 Uma notinha filológica à margem de algumas traduções da "Missale Romanum" de Paulo VI).
  
De resto, ficou tão pouco claro que Paulo VI, ao promulgar o Novus Ordo, tenha abolido o uso do Missal de São Pio V, que chegaram interpelações à Santa Sé do mundo inteiro sobre esse assunto, como atesta um dos principais artífices do Novus Ordo Missae, Mons. Aníbal Bugnini em La riforma liturgica (CLV - Edizioni Liturgiche, Roma, 1983).
  
É ainda mais duvidoso que Paulo VI tivesse o direito de abolir um rito essencialmente de origem apostólica, e isto sem outro motivo além do de agradar aos protestantes. Na Santa Igreja de Deus, menos ainda que alhures, o direito não se identifica com o arbítrio. Donde a questão posta por um perito em liturgia (não "lefebvrista") Mons. Klaus Gamber, diretor, na época (1979) do Instituto das Ciências Litúrgicas de Ratisbona e membro honorário da Academia Pontificia Litúrgica de Roma: "O Papa tem o direito de mudar um rito que remonta à Tradição Apostólica?" (A reforma da Liturgia Romana - antecedentes e problemática). A história -- escreve ele -- nos diz que jamais qualquer papa o fez: "as mudanças efetuadas no Missal Romano, no decurso de quase 1400 anos não afetaram o rito da Missa: tratou-se, pelo contrário, apenas de um enriquecimento com o acréscimo de Festas, Próprios de Missas e de simples orações" (ibid). E hoje o cardeal Ratzinger lhe faz eco: "jamais se verificou uma coisa semelhante em toda a história da liturgia" (La mia vita cit).
  
Para encontrar algo de semelhante à "reforma litúrgica" de Paulo VI, deve-se sair do domínio católico e, então, encontrar um precedente, certamente não honroso para o papa Montini, na "reforma litúrgica" de Lutero, que "destruiu a Missa romana, conservando algumas formas exteriores", inclusive o canto gregoriano (K. Gamber, loc. cit). Mesmo se "o conteúdo" e o esqueleto -- perdão! -- "a estrutura" do rito romano tradicional estivessem "fundidos" no novo, isto não seria bastante: "Não basta que algumas partes do antigo Missal se tenham transferido para o novo -- já escrevera Mons. Gamber -- [...] para que se possa falar de continuidade do Rito romano" (op. cit). E hoje o cardeal Ratzinger lhe faz eco: com a "reforma litúrgica" de Paulo VI "acontece alguma coisa a mais" do que uma simples "revisão" do Missal precedente: "desfizeram em pedaços o antigo edifício, e se construiu um outro, mesmo se foi com o material de que se fizera o antigo edifício e utilizando a planta precedente" (La mia vita, p. 112). Estamos assim felizes com poder estar nisto de acordo com o cardeal Prefeito da Congregação da Fé.
  
É certo que Suarez, com outros insignes teólogos, entre os quais Caetano, dá como exemplo de papa cismático um papa que chega "ao ponto de mudar todos os Ritos da Igreja consolidados pela tradição apostólica": "si vellet omnes ecclesiasticas caeremonias apostolica traditione evertere" (De Charitate disput. 12, 1). Portanto Suarez, com os outros insignes teólogos, não reconhece ao papa esta autoridade que Paulo VI, na sua obstinação "ecumênica", se atribuiu assim tão facilmente. E, como quer que seja, é certo que a autoridade do papa, como acima de qualquer outra autoridade na Igreja, existe para edificar e não para demolir.
  
 

Gorgonius

Uma preciosa contribuição à história da "Reforma Litúrgica" de Paulo VI

Agosto 12, 2018 escrito por admin

Um testemunho direto

“Il card. Ferdinando Antonelli e gli sviluppi della riforma litúrgica dal 1948 al 1970” [O cardeal Ferdinando Antonelli e os desenvolvimentos da reforma litúrgica de 1948 a 1970] de Nicola Giampietro O. F. M. Cap. (ed. Studia Anselmiana, Roma) é uma preciosa contribuição à história da “reforma litúrgica” de Paulo VI.

Relator geral da “Seção Histórica” dos Ritos, criada por Pio VI, membro da Comissão Pontifícia para a Reforma Litúrgica, instituída por Pio XII, de 1948 a 1960, Promotor Geral da Fé a partir de 1959, na Sagrada Congregação dos Ritos, perito e secretário da Comissão da S. Liturgia no Concílio Vaticano II, enfim membro do Consilium ad exsequendam constitutionem de Sacra Liturgia, o Pe. Antonelli, O.F.M. Cap. É uma testemunha direta desta sadia renovação litúrgica que estreou sob o reinado de Pio XII, mas já estava na mira de São Pio X e de Pio XI.

Peça mestra, no governo de Pio XII, do restabelecimento da Vigília Pascal (1951) e da reforma litúrgica da Semana Santa (1955), o Pe. Antonelli nutriu, logo de início, a ilusão de que o Concílio iria conduzir felizmente ao porto esta prudente reforma litúrgica que havia dado seus primeiros bons frutos no tempo de Pio XII, o qual parecia ter endireitado com a encíclica Mediator Dei a barra do “movimento litúrgico”, corrigindo os seus desvios e disciplinando as suas tendências aberrantes (v. Enciclopédia Cattolica, verbete Mediator Dei).

Quando Paulo VI, a 4 de dezembro de 1963, promulgou a constituição conciliar sobre a liturgia, o Pe. Antonelli escreveu na sua agenda: “Os ossos de São Pio X devem ter exultado. A Constituição da Liturgia não é outra coisa que o fruto precioso duma pequena semente que ele lançou” (op. cit., p. 204).

 

As primeira dúvidas

Numa conferência de 8 de dezembro de 1964, contudo, o Pe. Antonelli já parecia perplexo: ele se pergunta se este momento histórico representa uma ocasião favorável para a realização da reforma litúrgica e responde: "Eu não sei... talvez algumas coisas precisavam de mais maturação" (p. 208). Entrementes, a aplicação da Constituição conciliar foi confiada ao famoso Consilium. A 3 de março de 1964, após uma conversa com o cardeal Larraona, prefeito da Sagrada Congregação dos Ritos, o Pe. Antonelli anota na sua agenda a perplexidade comum deles: "A aplicação da Constituição litúrgica é entregue ao "Consilium ad exsequendam Constitutionem". Ora, até se provar o contrário, a Congregação [dos Ritos] é o órgão de governo: se se cria um outro órgão de governo, daí resultará uma confusão" (p. 227, nota 12).

 

O "método de trabalho" do "Consilium"

Após a primeira reunião do Consilium, escreve o Pe. Antonelli "grandes programas, mas a realização não será tão fácil" (p. 228). Ele crê ainda que se trata de trabalhar com ponderação, no respeito prudente da tradição litúrgica, como outrora no tempo de Pio XII, mas bem depressa ele perceberá que não é mais assim. 

"Não estou entusiasmado com os trabalhos ― escreve ele depois da Segunda reunião dos consultores ― ... um grupo de pessoas muito incompetentes, e mais ainda, avançadas nas trilhas das novidades. Discussões inteiramente de vanguarda, à base de impressões, desejos caóticos. O que mais me desagrada é que as atas do que é exposto e as questões correspondentes estão sempre numa linha avançada e freqüentemente numa forma sugestiva. Direção fraca" (p. 229).

Esta primeira impressão negativa se confirma na Segunda reunião do "Consilium". "Entretanto, todas as coisas avançadas aqui passam ― escreve o Pe. Antonelli ― porque nisto está o clima do "Consilium"; há, em seguida, uma grande pressa de se atirar para a frente e não se dá tempo para refletir; [...] Não deveria haver tanta pressa. Mas os espíritos estão excitados e querem atirar-se para a frente" (p. 229).

Dúvidas apoderam-se novamente do Pe. Antonelli, por exemplo, sobre a concelebração (p. 230) e, após a terceira assembléia do "Consilium", retorna a dúvida radical sobre a oportunidade duma reforma litúrgica neste momento histórico particular: "Não gosto do espírito demasiadamente novidadeiro, nem o tom das discussões, muito expeditivas, e às vezes tumultuosas; não me agrada o fato de o Presidente [Lercaro] não fazer todos os participantes falarem, pedindo a cada um o seu parecer. Em conclusão, as coisas que devem ser levadas a seu termo são importantes e eu não sei se a hora é oportuna" (p. 230).

Após a Quinta sessão ou assembléia, o Pe. Antonelli se mostra seriamente "preocupado" com o "espírito inovador" dos membros do Consilium:

"Foi uma sessão construtiva. Mas o espírito não me agrada. Há um espírito de crítica e intolerância para com a Santa Sé que não pode conduzir a bom termo. E, ademais, um estudo muito acentuado de racionalidade na liturgia, e nenhuma preocupação com a verdadeira piedade. Temo que num dia se deva dizer de toda esta reforma [...]: "a liturgia tomou tudo e a devoção se afastou"" (p.234).

 

Preocupações doutrinais

Mas não é somente a devoção que está em jogo. Quando, na sétima assembléia, se discute sobre o rito das ordenações sacerdotais, o Pe. Antonelli "nota com surpresa que, entre os deveres dos sacerdotes, não está mencionado o seu compromisso principal: sacrificium eucharisticum offerre" (p. 236).

No mesmo momento o retém um acidente, devido à incompetência do "corpo judiciário" e à "pressa em avançar". Mas o discurso de Paulo VI, a 19 de abri de 1967, o obriga a reflexões mais graves sobre as responsabilidades deste Papa: "Paulo VI se declarou contristado porque se faziam experiências caprichosas na Liturgia e mais aflito ainda por certas tendências para uma dessacralização da Liturgia. Contudo, ele reconfirmou a sua confiança no "Consilium". E o Papa não percebe que todas as desgraças vêm da maneira com que se organizaram as coisas nesta reforma pelo "Consilium" (p. 237, seg) e apesar disto ― notou logo no início o Pe. Antonelli ― "é certo que Paulo VI seguia atentamente os trabalhos deste "Consilium"" (ibid). O método de trabalho, ou antes, a ausência de todo método de trabalho no "Consilium", não cessa de espantar o Pe. Antonelli. A 23 de abril de 1967, ele anota na sua agenda: 

"... os esquemas se multiplicam sem chegar a uma forma verdadeiramente pensada... O cardeal Lercaro não é homem para dirigir uma discussão. O Pe. Bugnini só se interessa por uma coisa: atirar-se para a frente e acabar. O sistema de votação é pior. Ordinariamente os votos são dados com a mão levantada, mas ninguém conta quem levanta a mão e quem não o faz; ninguém diz: tantos aprovam e tantos não. Uma verdadeira vergonha. Em segundo lugar, jamais se pode saber, e a questão foi posta muitas vezes, que maioria era necessária: maioria de dois terços ou maioria absoluta [...] Um outro defeito grave é a ausência de processo verbal das sessões, ao menos nunca se falou dele e certamente jamais foi lido".

 

Uma "continuação do Concílio" ou ainda o Concílio permanente

Finalmente, depois de três anos de anarquia, ou antes, de ditadura do Pe. Bugnini, o "Consilium" pensa em se dar "Estatutos" e o seu esboço é apresentado a Paulo VI, o qual, por sua vez, o passa, para se fazerem observações eventuais ao Pe. Antonelli. Este que, além de seu mandato de membro do "Consilium", é também o Secretário da Congregação para os Ritos, submete as suas "Observações" ao cardeal Larraona, prefeito desta Congregação, e depois as remete a Paulo VI. Nas suas "Observações gerais", o Pe. Antonelli sublinha que "uma inquietude notável a respeito destas mutações contínuas está muito espalhada numa grande parte do clero e dos fiéis" e que "este estado de instabilidade e de incerteza sobre o futuro, favorece os abusos e diminui sempre mais o santo respeito das leis litúrgicas". Além disso, ele realça a anomalia de "dois órgãos da Santa Sé que se ocupam da vida litúrgica, a Sagrada Congregação dos Ritos e o "Consilium"". Nas "observações particulares", em seguida, o Pe. Antonelli nota que, segundo os estatutos, os membros do "Consilium", "inclusive os Cardeais", serão nomeados na percentagem de 4/5 pela Presidência e somente 1/5 pelo Papa, e isto é inadmissível; "este sistema ― escreve o Pe. Antonelli ― é absolutamente novo e não é outro senão uma continuação do Concílio, coisa sem precedente na história, porque ― mesmo depois dos Concílios de Trento e do Vaticano I, uma vez terminado o Concílio foi a Santa Sé que recuperou sua plena autoridade.

O Pe. Antonelli pede também nas suas observações que se fixe finalmente o sistema de escrutínio, porque ― escreve ele ― "até agora... bastava que um certo número levantasse a mão para se ir adiante, sem que ninguém contasse quantos aprovam ou não. E durante este tempo se faz freqüentemente apelo a um voto afirmativo, sem que ninguém possa provar que ele tenha sido verdadeiramente afirmativo".   

Após as observações do Pe. Antonelli, a questão do "Estatuto" se atola. Paulo VI optará, como veremos, por uma solução diferente, que privará o Pe. Antonelli da reforma litúrgica e deixará as mãos livres a Bugnini. No mesmo tempo, portanto, Antonelli deve sofrer a violenta reação de Bugnini, que ele acaba de descobrir, portanto, a par desta consulta que Paulo VI, pelo contrário, chamará "estritamente reservada" (p. 242).

 

O Pe. Antonelli começa a ver claro

Estamos no fim de 1967 e o Pe. Antonelli escreve na sua agenda: "Confusão. Ninguém possui mais o sentido sagrado e coercitivo da lei litúrgica... nos estudos em maior escala continua o trabalho de dessacralização, que se chama agora secularização; donde se vê que a questão litúrgica [...] se insere [...] num problema muito mais vasto e de fundo doutrinal; a grande crise, portanto, é a crise da doutrina tradicional e do magistério".

A venda começa a cair dos olhos do Pe. Antonelli; não se trata só de incompetência, duma espantosa superficialidade de trabalho "a toda a pressa"; trata-se dum fato muito mais grave: a reforma litúrgica é um instrumento nas mãos dos "inovadores" triunfantes (do mesmo modo que já tinha sido, em parte, o movimento litúrgico nas mãos dos "modernistas em declive").

A 23 de julho de 1968, o Pe. Antonelli revela ao cardeal Benelli as suas "preocupações sobre a reforma litúrgica que se torna sempre mais aberrante. Eu notava, em particular:

1. A lei litúrgica, que até o Concílio era uma coisa santa, não existe mais para muitos. Cada um se considera autorizado a fazer o que quer [...]

2. A Missa sobretudo, é o ponto crucial [...] agora começa a ação desagregadora em torno da confissão;

4. [...]

5. No "Consilium" há poucos Bispos que tenham uma preparação litúrgica, muitos poucos que sejam verdadeiramente teólogos [...]. E este é um lado perigoso. Na liturgia, cada palavra, cada gesto traduz uma idéia que é uma idéia teológica. Dado que atualmente toda a teologia está em discussão, as teorias correntes entre os teólogos avançados desmoronam sobre a fórmula e o rito: com esta gravíssima conseqüência que, enquanto a discussão teológica se mantém no nível elevado dos homens de cultura, uma vez descida na fórmula e no rito, ela toma caminho para a sua divulgação no povo" (p. 257, seg.).

 

Autodemolição da Igreja

Tudo isto é, com a conivência de Paulo VI, o malogro de toda a sã renovação litúrgica. A liturgia é sujeita à demolição doutrinal. O Pe. Antonelli dora em diante está consciente disto e testemunha o seu sofrimento. "O que, contudo, é triste [...], é um elemento profundo, uma atitude mental, uma posição preestabelecida, a saber, que muitos do que têm uma influência na reforma [...] e outros não têm nenhum amor, nenhuma veneração por aquilo que nos foi transmitido. Eles desprezam, logo de início, tudo o que existe atualmente. Uma mentalidade negativa, injusta e nociva. Infelizmente, mesmo o papa Paulo VI está um pouco deste lado. Todos eles terão as melhores intenções, mas com estas intenções, mas com esta mentalidade eles são levados a demolir e não a restaurar" (p. 258).

A 10 de fevereiro de 1969, a propósito do rito do Batismo, Antonelli escreve: "No fim do capítulo doutrinal, eu pergunto: como sucede que em todo o capítulo se fala do batismo para remissão dos pecados mas não se faz alusão ao pecado original?". E a 20 de fevereiro: "nesta manhã mesma tocou-me observar que até lá onde se esperava uma alusão clara ao pecado original, como numa pequena homilia de caráter catequético, parece que se evita falar dele. É esta nova mentalidade teológica que se degrada e não me agrada" (p. 224). Lembramos aqui que, precisamente com a negação do pecado original no célebre texto de São Paulo (Rm 5, 12-21), se tinha aberto o "novo curso" do Instituto Pontifício Bíblico, ou ainda o triunfo da exegese neomodernista, tenazmente combatida pelo saudoso Mons. Spadafora.

As observações do Pe. Antonelli são sempre mais graves e preocupantes. A propósito da discussão sobre os Proenotanda da Confirmação, ele escreve: "Eu me pergunto como se pode dar um parecer sobre estas questões das quais umas são muito graves, com um texto mudado no último momento e apresentado no decorrer da sessão? Não é uma coisa séria." E ainda: "Pessoalmente, eu me pergunto que autoridade e que preparação nós temos aqui para discutir questões muito mescladas de teologia?" (p. 246)

A questão do "Novus Ordo"

Em 1969, estoura a "questão do 'Ordo Missae'". O Pe. Antonelli fala a este respeito no seu Diário, mas também nas suas Notas pessoais sobre a reforma litúrgica. Sigamo-lo.

A 31 de outubro de 1969, ele anota na sua agenda: "Há alguns dias, o Pe. Sticker, salesiano, me diz que o cardeal Ottaviani tinha preparado uma crítica doutrinal do "Ordo Missae" e da "Instructio" anexa. Depois a notícia aparece nos jornais. Mons Laboa me disse que o Papa tinha escrito uma carta de 2 páginas ao cardeal Seper para este examinar a questão. O cardeal Seper, alarmado, tinha falado dela ao cardeal Gut, o qual - muito impressionado - falara da mesma ao Pe. Bugnini. Ontem de manhã, ele me disse que o cardeal Villot tinha escrito  há alguns dias  ao Pe. Bugnini para obstar a qualquer observação relativa ao "Ordo Missae". Mons. Laboa viu esta carta. Depois houve a publicação imprevista da "Instructio" [...] para matar no nascedouro a campanha da imprensa. A seguir, nessa tarde, 31 de outubro, o comunicado da C. E. I. (Conferência Episcopal Italiana, n.d..r), segundo a qual, a 30 de novembro, a versão italiana seria publicada e entraria em vigor na Itália; ao passo que a C.E.I tinha já dito que isto não seria possível. Estamos no reino da confusão. Eu lamento o fato, pois as suas conseqüências serão tristes" (p. 259).

O Pe. Antonelli, pessoalmente, é do parecer que não há "heresias", nem na Instructio nem no Ordo Missae, "mesmo se não se pode negar que as disposições da "Instructio" são confusas e que a sua própria formulação é tudo, menos clara e límpida" (p. 26). Em particular ― admite ele ― "a insistência sobre a idéia de refeição (ceia) que parece estar em detrimento da idéia de sacrifício", à qual se faz alusão "indireta, enquanto que a idéia de refeição volta freqüentemente e de modo direto... Ademais, certas omissões não serviram à clareza" (p. 260) e este foi também o caso da "formulação imprudente do no. 7" (p. 261). Mas, ainda uma vez, o Pe. Antonelli fica estupefato com a maneira de tratar da questão. A 31 de outubro de 1969, ele escreve: "Estou preocupado com a questão do Ordo Missae. Não compreendo por que se inquietam tanto com as críticas do cardeal Ottaviani e, em seguida, quando a imprensa começou a fazer barulho, quando se quis reagir com a publicação da "Instructio"... e o Comunicado da C. E. I com a ordem de pôr tudo em vigor para 30 de novembro, quando os textos não existem ainda e no-los prometem para 15 de novembro. Como se pode preparar uma transformação desta medida em 10 dias?" (p. 259)

Estamos, portanto, nas últimas réplicas. Já em 8 de maio de 1969, Paulo VI, com a Constituição Apostólica Sacrorum Rituum Congregatio dividiu a Sagrada Congregação para os ritos em duas: a Congregação para os Santos e a Congregação do Culto Divino. Bugnini foi nomeado Secretário da nova Congregação para o Culto Divino e Antonelli, secretário da Congregação para os Santos (p. 264). A última sessão do "Consilium" (9 de abril de 1970) coincide com a primeira sessão da nova Congregação do Culto Divino que ― precisa o cardeal Gut ― "é uma continuação do Consilium" (p. 244). Assim, o Pe. Antonelli sai ou talvez, mais exatamente, é excluído da cena da "reforma litúrgica".

 

Um julgamento do qual não podemos partilhar

O autor do livro que, não obstante, quer reivindicar o valor e a obra do "liturgista Antonelli" escreve: "É pena que Antonelli entre tão mal no trabalho da reforma, sobretudo após a supressão da sua Congregação dos Ritos. Portanto, ele permanece amargo. É talvez o destino dos pioneiros: eles abrem o caminho e outros vão adiante, deixando os pioneiros de lado" (p. 247).

Não. O Pe. Antonelli não é "amargo". Ele teria bom motivos para o ser, mas ele não o é: suas notas jamais têm o sabor dum ressentimento pessoal. Por exemplo, quando Paulo VI exclui o Prefeito da Congregação dos Ritos, o "conservador" cardeal Larraona, da "reforma litúrgica", confiando esta última ao "Consilium" presidido pelo cardeal "progressista" Lercaro, ladeado por Bugnini, somente o Pe. Antonelli parece preocupado ― e por justo motivo ― com a "diarquia" e os conflitos inevitáveis que surgirão entre dois organismos, ambos competentes na mesma matéria. Igualmente, quando Paulo VI o exclui também da "reforma litúrgica" preferindo-lhe Bugnini, o Pe. Antonelli se contenta com escrever: "Eu podia dizer muita coisa deste homem. Devo acrescentar que ele foi sempre apoiado por Paulo VI. Não me quereria enganar, mas a lacuna mais importante no Pe. Bugnini é a falta de formação e de sensibilidade teológicas. Tenho a impressão de que se concedeu muito, sobretudo em matéria de sacramentos, à mentalidade protestante. Não que seja o Pe. Bugnini que se tenha criado para si mesmo estas concessões. Absolutamente não foi ele que as criou. Ele se serviu de muitas pessoas e, não sei por que, introduziu neste "trabalho" pessoas hábeis, mas de colorações teológicas progressistas". E, muito generosamente, o Pe. Antonelli acrescenta: "E, ou ele não se deu conta dos fatos, ou então não resistiu, como se não se pudesse resistir [?], a certas tendências" (p. 264).

O julgamento do Pe. Antonelli sobre a "falta de formação e de sensibilidade teológicas" do Pe. Annibale Bugnini coincide, substancialmente com o seguinte julgamento, que, em termos jocosos, mas bem mais pesados, deixou sobre ele o abade D. Pietro Salvini O.S.B.: "No pequeno jornal da diocese de Pisa (no. 12, de 25/03/1973) li que o Bispo Bugnini... teria desejado substituir a homilia na Missa pela dança. Um hotentote desse gênero pode desejar isto e pior ainda" (Divagazioni di una lunga vita ― Divagações duma longa vida, ed. Stella del Mare, Livourne).

Quanto ao incrível "método de trabalho" dos autores da reforma litúrgica, basta reler o que escreve a respeito o prof. Romano Amerio, citando exemplos famosos da decadência da Cúria Romana e de seus organismos. (Iota Unum. Ed. Francesa, N.E.L., 1987), no. 74, p. 145: "a textos pontifícios que puderam gloriar-se durante séculos duma perfeição maravilhosa e duma irrepreensibilidade" corresponde hoje - observa ele - "um mau uso do latim" e uma "falta de rigor dos termos", "merecendo a Cúria ser inculpada pela falta de cultura subjacente em textos pontificais que se puderam gloriar durante séculos, duma perfeição maravilhosa e duma irrepreensibilidade."

Enfim, quanto às perplexidades manifestadas pelo Pe. Antonelli sobre Paulo VI e suas responsabilidades, bastará considerar que o Pe. Antonelli tem êxito em tomar à boa parte mesmo o discurso no qual o papa Montini diz aos membros do "Consilium" que a liturgia "é como uma árvore vigorosa que as suas raízes mantém no solo e sobre cujo tronco brotam novos ramos que cada ano se recobrem de novas folhas" (p. 200). O Pe. Antonelli se detém nestas "raízes" bem fixas no solo da Tradição e não colhe a novidade deste "tronco" "sobre o qual brotam novos ramos que se recobrem cada ano de novas folhas". Quando, então, isto teria acontecido na história bimilenar da liturgia? O cardeal Ottaviani havia vigorosamente sublinhado isto no Concílio, ao dizer: "Procuraremos suscitar o espanto, e até mesmo o escândalo, no povo cristão, introduzindo modificações num rito tão venerável, aprovado durante tantos séculos e que é agora tão familiar? Não convém tratar o rito da Santa Missa como se se tratasse dum pedaço de fazenda que se põe na moda, segundo a fantasia de cada geração". R. Wiltgen. (O Reno se lança no Tibre), 1976, p. 28.

Habituado, com Pio XII, a um trabalho sério e refletido, no respeito da tradição litúrgica, o Pe. Antonelli parece razoavelmente perplexo e depois, pouco a pouco, ele fica sempre mais preocupado com o andamento que a "reforma litúrgica" está a ponto de tomar: aqui, não se trata de "pioneiros" que "abrem o caminho e outros avançam", mas dum verdadeiro desvio da liturgia sujeita ao neomodernismo ― sob a etiqueta de "nova teologia" ― que, como bem compreendeu o Pe. Antonelli, "em regressão na fórmula e no rito, se dispõe a partir para a sua difusão no povo" (p. 257, cit).

Se se pode fazer uma censura ao Pe. Antonelli é de não ter sido "amargo", ao contrário, é de ter tido dificuldade em compreender, e talvez não ter compreendido plenamente a gravidade do que estava para acontecer. Mas é precisamente a sua confiança inicial e sua disponibilidade para uma renovação litúrgica sã que fazem dele uma testemunha preciosa contra a "feroz amputação litúrgica que se quis fazer passar por uma reforma" (G. Ceronetti, La Stampa, 18 de julho de 1990).

Martinus

A protestantização litúrgica

Agosto 10, 2018 escrito por admin

Em la Nostra Valle, publicação mensal interparoquial da diocese de Fano-Fossombrone (julho de 1997, pp. 4-5) lemos o título: "Menos missas para uma missa mais verdadeira" [sic!]

O articulista se alegra por "ter ouvido dizer" que "nossos bispos italianos deram normas concretas" para a celebração das missas: "por exemplo: numa mesma igreja, entre uma celebração e outra, interponha-se um espaço de tempo razoável determinado em uma hora e meia, ao menos" (embora o articulista não o precise, temos que supor ques e trata das missas dos dias festivos, dado que uma hora e meia de intervalo para a minimissa de Paulo VI, que não ultrapassa o quarto de hora nem mesmo no melhor dos casos, seria absolutamente incompreensível nos dias de trabalho).

Eis os motivos dessa disposição: "não acumular as celebrações..., pois ninguém deve sentir-se forçado a celebrar apressadamente uma liturgia para não invadir o tempo assinalado para a seguinte". Suposto isto, ainda que não seja verdade, não estaria mais em consonância com a fé limitar o tempo da homilia (geralmente tão prolixa e tão vazia, ou algo pior ainda), do que diminuir o número das missas? Isto porque uma diminuição ulterior do número das missas é a conseqüência inevitável do dispositivo supracitado. Daqui o lema lançado pelo artigo: "menos missas e mais missa", ou seja, "um menor número de missas para uma missa mais verdadeira". Sim, porque -- explica o articulista -- esta é a "razão fundamental" das disposições ditadas pelo episcopado italiano: "é pastoralmente oportuno, ou melhor, necessário diminuir o número de missas" (como se o seu número não tivesse já sido diminuído consideravelmente pelas "concelebrações", nas quais há muitos concelebrantes, porém uma só missa), dado que a sua multiplicação (em tempos passados, entenda-se) "não favoreceu o incremento da estima em que os fiéis tinham um ato tão divinamente grande como a celebração da Eucaristia (...). A multiplicação das missas ofuscou o seu valor, rebaixando a sua celebração ao nível do rotineiro, do obrigatório (preceito!) [sic!], do mero sufrágio pelos defuntos, do devocionismo; a celebração por excelência converteu-se na celebração para todas as circunstâncias... [e então? não o é?]. Eis aí os "Ofícios de missa" pelos mortos [horror!]: uma missa celebrada atrás da outra; eis aí as "festas", cuja solenidade se mede pelo número de suas missas...".

Médico, cura-te a ti mesmo!

Antes de tudo, é evidente que quem assim escreve (e fazemos votos de que não seja um sacerdote, como tememos) não tem a menor estima nem pela santa missa nem pela sua "divina grandeza", embora afirme esta e se levante como seu paladino.

O concílio de Trento definiu solenemente que Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu a santa Missa a fim de que a virtude salvífica de seu sacrifício cruento "se nos aplique para a remissão dos pecados que diariamente cometemos" (Denz. 938); e Pio XII escreve na Mediator Dei, ratificando este ensinamento solene: "o augusto sacrifício do altar é um insigne instrumento para a distribuição aos fiéis dos méritos derivados da Cruz do Divino Redentor": cada vez que se oferece este sacrifício, se realiza a obra da nossa Redenção" (1)

Em conclusão, diremos com o Pe. De Condren que "o sacrifício da cruz merece tudo, mas não aplica nada; o sacrifício da missa não merece nada, mas aplica tudo" (2).

Ora, posto que a Missa nos aplica todos os méritos do Calvário, é mister dizer com Santo Tomás: "o bem comum espiritual de toda a Igreja se encerra essencialmente no Sacramento da Eucaristia" (3), e "com mais Missas... se multiplica a oblação do sacrifício e, por isso, se multiplica o efeito do sacrifício" (4), multiplicar as Missas significa multiplicar a efusão sacramental do sangue de Cristo, e, por conseguinte, de toda a graça, sobre a Igreja e toda a humanidade.

Se o articulista de La nostra valle acreditasse, com a Igreja, que cada vez que se celebra uma Missa "se realiza a obra da nossa redenção", consideraria, com a Igreja, "pastoralmente oportuno, ou melhor, necessário" não diminuir, mas multiplicar o número das Missas.

O eco de Lutero

Digna de nota é a impressionante semelhança que prevalece entre os motivos pretextados pelo articulista de La nostra valle e as "razões" aduzidas por Lutero e seus colegas "reformadores".

Na Confissão Augustana que, embora redigida por Melanchton, exprime a "teologia" de Lutero e ainda hoje os protestantes a consideram "como a expressão oficial da fé da igreja luterana" (5), se lê: "é manifesto -- seja dito sem jactância -- que a Missa se celebra com mais recolhimento e seriedade entre nós [protestantes] que entre os inimigos da nossa causa [os católicos]" (6). Como se a disputa versasse sobre o fervor subjetivo, pessoal, e não sobre o valor intrínseco, objetivo, da Missa, sacrifício verdadeiro e próprio, e não comemoração pura e simples da Ceia e do Calvário!

Na Confissão Augustana - protestante - tudo se passa depois do ataque contra as "missas inúteis e supérfluas": do "erro abominável" da Missa como sacrifício "proveio a grande quantidade, a quantidade incalculável das Missas". Pretendia-se obter, assim, com tal ato, tudo o que era necessário. ao mesmo tempo, a fé em Cristo e o verdadeiro culto de Deus caíam no esquecimento" (7). Também os protestantes, portanto, pediam "menos Missas e mais Missa", ou seja "um menor número de Missas para uma Missa mais verdadeira".

Não obstante, os luteranos eram coerentes com a sua heresia: rechaçavam a práxis católica da multiplicação das Missas porque rejeitavam a doutrina católica da Missa como sacrifício; a troco de quê multiplicar um simples "memorial", uma "comemoração pura e simples" do sacrifício efetuado e concluído duma vez por todas?

Mas... e o articulista de "La nostra valle"? É um incoerente ou um outro herege?

Da Missa "protestantizada" a uma mentalidade protestantizante

Em Sì Sì No No (ed. italiana de 30 de novembro de 1996), na seção Semper infideles, escrevemos sobre outra "novidade" publicada por um boletim paroquial da diocese do Cardeal Carlo M. Martini, S. J.: a Missa sem comunidade "só da medo"; portanto, é "absolutamente" necessário reduzir o número das Missas nos dias de festa para ter "menos Missas" e "mais comunidade" (o pretexto é distinto, porém o alvo é o mesmo).

Este também é o eco dito "católico" da polêmica luterana contra as "Missas ditas num canto" (Winkelmess), isto é, "as Missas particulares, celebradas pelo sacerdote, sem a assistência dos fiéis" (8). Porém, também nisto os luteranos são coerentes com a sua heresia: com efeito, ao negar a Missa como sacrifício, negam o valor objetivo, intrínseco, da Santa Missa.

Mas os católicos, que sabem ter a Missa valor em si, independente do número dos presentes, ou melhor ainda: independente da própria presença dos fiéis, podem continuar, pergunta-se, a chamar-se católicos quando, como os protestantes, fazem depender o valor da Missa da assistência da comunidade, e duma comunidade numerosa?

Na Mediator Dei (1947), Pio XII, entre os desvios que então se propagavam subrepticiamente e "contaminam" a auspiciada "renovação litúrgica" com "erros concernentes à fé católica e à doutrina ascética", condena também o erro dos que "aproximando-se de erros já condenados ensinam (...) ser preferível que os sacerdotes "concelebrem" junto com o povo presente a oferecerem, na ausência deste, em particular, o "Sacrifício" e até "reprovam absolutamente as Missas celebradas em particular e sem a assistência do povo", ou afirmam também "que os sacerdotes não podem oferecer a Vítima divina em altares distintos ao mesmo tempo, porque, desta maneira, dissociam a comunidade e põem sua unidade em perigo".

Salta à vista que hoje triunfam os erros condenados por Pio XII, "erros relativos à fé católica", e, por detrás deles, triunfam "os já condenados", muito semelhantes aos de Martinho Lutero e demais heresiarcas do protestantismo. O Novus Ordo Missae nos deu um rito da Missa com o qual "se aproxima, substancialmente, da teologia protestante, que destruiu o Sacrifício da Missa" (9). Hoje colhemos os frutos da Missa "protestantizada": a presença de uma mentalidade cada vez mais protestantizante. E é inevitável: a lex orandi é inseparável da lex credendi; reza-se como se crê e crê-se como se reza: se se reza como os protestantes, acaba-se pensando como eles.

"Uma simples festa da unidade humana"

Até aqui o desprezo essencial que o articulista de La nostra valle mostra sentir pela Missa. Entretanto, relativamente aos fiéis, ele é assaltado por uma dúvida: a de que o seu menosprezo pela Missa não se deva à multiplicação das Missas, mas a fatores muito diversos, entre os quais se conta, embora não em último lugar, a subversão posta em marcha pelo Papa Montini sob a capa de "reforma litúrgica"

 A estima dos fiéis pela Missa não se consegue diminuindo o número delas, e sim restabelecendo aquele rito que é uma "contínua profissão de fé católica" (Pio XII, Mystici Corporis) com a dignidade que sempre teve e hoje não mais possui, e que simultaneamente alimentava a piedade pessoal ou subjetiva, tão denegrida hoje (também pelo articulista) como "devocionismo".

Na Mediator Dei, Pio XII também condenou o erro, que então já se prenunciava, de quantos "queriam abandonar ou atenuar 'a piedade subjetiva' ou 'pessoal', porque 'consideravam que se deviam abandonar as outras práticas religiosas não estritamente litúrgicas e realizadas fora do culto privado".

"É verdade -- escreve ele -- que os sacramentos e o Sacrifício do altar têm uma virtude intrínseca, enquanto são ações do próprio Cristo que comunica e difunde a graça da Cabeça divina nos membros do corpo místico; porém, para ter a devida eficácia, exigem boas disposições da nossa alma". E estas se adquirem recorrendo precisamente a "todos os preâmbulos e exercícios de piedade não estritamente litúrgicos", como "a meditação das realidades sobrenaturais", o exame de consciência e todas as demais "práticas espirituais" (hoje em desuso): "desta maneira, a ação individual e o esforço ascético, dirigido à purificação da alma, estimulam as energias dos fiéis e os dispõem para participarem, com melhores disposições, do augusto Sacrifício do altar; e assim tirarem melhor fruto da recepção dos Sacramentos, bem como a celebrarem os sagrados ritos de modo a saírem deles mais animados e formados na oração e abnegação cristã; e a cooperarem ativamente com as inspirações e convites da graça imitando sempre mais as virtudes do Redentor, não só em proveito próprio, mas também no de todo o corpo da Igreja; dessa igreja onde todo o bem que se realiza provém da virtude da Cabeça e redunda em benefício dos membros". Assim, da piedade pessoal, nasce a participação frutuosa, e, desta, a estima da Santa Missa.

"Por grandes motivos -- assinala Pio XII -- prescreve a Igreja aos ministros do altar e aos religiosos que, em tempos determinados, se dediquem à piedosa meditação, ao diligente exame e emenda da consciência e aos outros exercícios espirituais (cf. CIC, can. 125, 126, 565, 571, 595, 1397), visto estarem eles, de modo particular, destinados a cumprir as funções litúrgicas do Sacrifício e do louvor divino". E conclui: "sem dúvida, a prece litúrgica, por ser uma súplica oficial da inclita esposa de Jesus Cristo, tem uma dignidade maior que as orações particulares; mas esta superioridade não significa uma oposição ou contraste entre estes dois tipos de oração. Ambas se fundem e se harmonizam por estarem animadas por um único espírito: "Cristo é tudo em todos" (Col. 3, 11) e tem o mesmo objetivo: "ver Cristo formado em vós" (Gal 4, 19)".

Ora, o que aconteceu com a "piedade subjetiva" e com as "orações particulares" depois do Concílio? Deixemos que no-lo diga o Cardeal Siri, ao escrever em 1978: "experimenta-se um tipo de oração considerado válido somente se é feito em comunidade e em virtude dela. A oração particular, sobre ser negligenciada, é escarnecida, e daí não se reza, se falta um membro duma comunidade. Parece um simples erro de fato, mas, pelo contrário, não é assim. Debaixo dele se difundem erros veladamente, não percebidos diretamente, mas adquiridos inconscientemente mediante a práxis: quando cometidos conscientemente, constituirão as melhores mostras da raiva contra tudo o que é, que foi e que será. Eis os erros: negação da pessoa em proveito da comunidade (não é difícil ver nisto uma provável nota marxista); a supervalorização da comunidade, não tanto por amor dela (ou do gueto, talvez) quanto por causa da prioridade dada à base sobre o vértice, ou seja: invertem a instituição da Igreja e, portanto, a tornam agradável aos supostos protestantes (...)

"Não é difícil ver nisto o dedo dos que desejam retornar a Lutero. Mas, para cúmulo, há de permeio um Concílio Ecumênico Tridentino que creu fazer muitas dezenas de definições infalíveis no sentido estrito. A práxis inconsciente é o caminho do erro subversivo. A doutrina católica, magnificamente exposta e resumida na "Mediator Dei", concede à piedade e à oração particular o que lhes corresponde, como a princípios de verdade e diligência, (como preparação) para a oração pública e oficial. Aqueles que, nas igrejas, martelam continuamente nos ouvidos, não deixando instante algum para a concentração pessoal, estão, sem sabê-lo (assim o esperemos!) na parte não bem informada [eufemismo caridoso]" (10).

Ao mesmo tempo, quando se denegria e desanimava a piedade pessoal, se introduziam na Missa, reduzida a um rito pressuroso e ambíguo: "costumes estrambóticos e dignos de um circo -- continua o Cardeal Siri -- e com isto não é de admirar que a Eucaristia se torne para alguns uma simples festa da unidade humana" (12). Com a estima que merece "uma simples festa da unidade humana" -- acrescentamos nós.

Dois jubileus e o triunfo da "seita antilitúrgica"

E aqui está a exortação final do articulista de La nostra valle: "neste primeiro ano do triênio de preparação imediata para o jubileu do segundo milênio (...), a reflexão encaminhada para operar a nossa "conversão" deveria levar-nos a pôr a Eucaristia no centro do nosso trabalho de revisão e compromisso". Trabalho de "revisão", cuja primeira etapa se funda na diminuição ulterior do número de Missas, já notavelmente reduzido pelas concelebrações. Exatamente nos antípodas do "ano de Jesus Cristo" celebrado por Pio XI para comemorar o XIX Centenário da Redenção (1935). Naquela ocasião, se celebraram na gruta de Lourdes, ininterruptamente, por três dias e três noites, cento e quarenta Missas, em conclusão do "Jubileu da redenção humana", com sumo agrado de Pio XI, que aplaude "sem reservas" a iniciativa (imitada noutras dioceses) numa carta a D. Gerlier, bispo de Lourdes, na qual declara que o jubileu não se poderia concluir "mais digna e convenientemente". Hoje, a um jubileu concluído com a multiplicação das Missas se quer opor, ao que parece, um jubileu coroado pela... diminuição do número de Missas.

O que D. Guéranger escrevia sobre o que chamava "a seita antilitúrgica" tem todas as características de uma profecia. A propósito do sínodo de Pistóia, cujos erros derivam do protestantismo através do jansenismo, escreve D. Guéranger: "porém, voltando ao divino Sacrifício, vede quão insistentemente se repete esta verdade (em si mesma incontestável, mas da qual é tão fácil abusar nesta época de calvinismo mascarado): que o povo oferece (o Sacrifício) junto com o sacerdote (...). E não basta à seita poder insultar o Sacrifício católico, mas não aboli-lo. Por isso, todos o seu esforço tenderá a tornar menos freqüente a sua celebração (...). Vê-la-emos proibir a celebração simultânea das Missas numa mesma igreja; chegará até a reduzir o número dos altares a um só (...); achará um novo meio para limitar ulteriormente a oblação deste sacrifício a ela tão odioso: seria (é um pretexto!) o restabelecimento do uso da igreja primitiva segundo o qual todos os sacerdotes duma igreja concelebravam uma única Missa..." (13)

A partir da "reforma litúrgica" de Paulo VI, assistimos uma realização minuciosa deste programa de "autodemolição" litúrgica e, se as coisas andam como pressagia o articulista de La nostra valle, o jubileu do ano 2000 coroará, entre outras coisas, também o triundo da "seita antilitúrgica".

 

 

Notas:

(1) Missale Romanum, secreta do IX domingo depois de Pentecostes, citada também pelo Vaticano II no Decreto Presbyterorum Ordinis

(2) Cit. em Per meglio servire Dio, Ed. Paulinas, 1957

(3) S. T., II q. 65, a. 3 ad 1: "bonum commune spirituale totius Ecclesiae continetur substantialiter in ipso Eucharistiae sacramento". Cf. Concílio de Trento, seção de 17 de setembro de 1562: decreto sobre a Santa Missa.

(4) S. T., q. 79, a. 7 ad 3: "In pluribus vero missis multiplicatur sacrificii oblatio. Et ideo multiplicaur effectus Sacrificii" [certamente num número maior de Missas se multiplica a oblação do sacrifício, e por esta razão se multiplica o efeito do Sacrifício]

(5) Segundo Pierre Jundt na introdução à Confissão de Augsbourg (tradução da Aliança Nacional das Igrejas Luteranas da França, 1979)

(6) Ibidem

(7) Ibidem

(8) Ibidem

(9) Breve exame crítico do "Novus Ordo Missae", apresentado a Paulo VI pelos cardeais Ottaviani e Bacci

(10) Renovatio XIII (1978), fasc. 2, pp. 147-150.

(11) Rivista Diocesana Genovese, outubro de 1977, pp. 278-280.

(12) Renovatio VI (1970), fasc. 4, pp. 477-490.

(13) Dom Guéranger, Institutions liturgiques, Le Mans-Paris, 1841, t. II, pp. 607 e ss

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