1.Jesus tomou consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os a um monte muito alto etc.[fn]Cf. Mt 17, 1.[/fn]
Falou o Senhor a Moisés, dizendo no Êxodo[fn]Cf. Ex 24, 12.[/fn]: Sobe para mim ao monte e permanece aí; e eu te darei duas tábuas: a lei e os mandamentos, que eu escrevi, para os ensinares aos filhos de Israel. Moisés interpreta-se aquático[fn]Cf Ex 2, 10.[/fn], e significa o pregador que rega os espíritos dos fiéis com a água da doutrina que salta para a vida eterna[fn]Jo 4, 14.[/fn]. A este diz o Senhor: Sobe para mim ao monte. O monte, por causa da sua altitude, significa a excelência da vida santa[fn]Cf. Glo. Ord., Ex 24, 15.[/fn], em que o pregador, deixado o vale dos bens temporais, deve subir pela escada do amor divino, e aí encontrará o Senhor, pois que o Senhor se encontra na excelência da vida santa. Daí a afirmação no Gênesis[fn]Gen 22, 14.[/fn]: No monte o Senhor providenciará, isto é, na excelência da vida santa fará ver e entender quanto deve a Deus e ao próximo.
Dar-te-ei, diz, duas tábuas. As duas tábuas designam a ciência de cada um dos Testamentos, a única capaz de saber e de fazer sábios; só esta ciência ensina a amar a Deus, a desprezar o mundo, a sujeitar a carne. O pregador deve ensinar estas coisas aos filhos de Israel, dos quais depende toda a lei e os profetas[fn]Cf. Mt 22, 40.[/fn]. Mas onde se encontra esta tão preciosa ciência? De verdade, no monte: Sobe para mim ao monte e deixa-te estar ali, porque aí há a mudança da dextra do Excelso[fn]Sl 76, 11.[/fn], a transfiguração do Senhor, a contemplação do verdadeiro gozo. Por isso, do mesmo monte se diz no Evangelho de hoje: Tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João, etc.
2.Neste Evangelho observam-se cinco coisas muito notáveis: a subida de Jesus ao monte com os três Apóstolos, a sua transfiguração, o aparecimento a Moisés e a Elias, a nuvem resplandecente que os envolveu, e o testemunho da voz do Pai: Este é o meu Filho caríssimo. Vejamos o que significam, no sentido moral, estas cinco coisas, conforme Deus for servido nos inspirar, para sua honra e utilidade de nossas almas.
I – A subida de Jesus Cristo ao monte com três Apóstolos
3.Digamos, portanto: Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João. Estes três Apóstolos e especiais companheiros de Jesus Cristo significam as três virtudes da alma sem as quais ninguém pode subir ao monte da luz, isto é, à excelência da vida santa. Pedro interpreta-se o que reconhece, Tiago o que suplanta, João a graça do Senhor[fn]Glo. Int., Atos 1, 13.[/fn]. Tomou, portanto, Jesus consigo a Pedro etc. Toma também tu, que crês em Jesus e de Jesus esperas a salvação, a Pedro, isto é, o reconhecimento do teu pecado, que consiste em três coisas: na soberba do coração, na lascívia da carne, na avareza do mundo. Toma também contigo Tiago, isto é, a suplantação destes vícios, a fim de esmagares debaixo da planta da razão a soberba do teu espírito, e mortificares a lascívia da tua carne, reprimindo a vaidade do mundo enganador. Toma ainda contigo João, isto é, a graça do Senhor, que está à porta e bate[fn]Cf. Ap 3, 20.[/fn], para que te ilumine, faça reconhecer o mal que fizeste e te conserve no bem que começaste.
Estes são aqueles três homens, dos quais disse Samuel a Saul no primeiro livro dos Reis[fn]1Reis 10, 3 (Vg. muda).[/fn]: Ao chegares ao carvalho de Tabor, encontrar-te-ão aí três varões, que vão adorar a Deus em Betel, levando um três cabritos e outro três tortas de pão e outro um barril de vinho. O carvalho e o monte Tabor significam a excelência da vida santa, que bem se diz carvalho e monte Tabor: carvalho, porque é constante e inflexível pela perseverança final; monte, porque alta e sublime pela contemplação de Deus; Tabor, que se interpreta luz que vem[fn]Glo. Ord. e Int., Sl 88, 13.[/fn], pelo brilho do bom exemplo. Na excelência da vida santa requerem-se estes três predicados: constante em relação a si, contemplativo em relação a Deus, brilhante em relação ao próximo. Ao chegares, portanto, isto é, quando te dispuseres a vir ou subir ao carvalho ou monte Tabor, encontrar-te-ão aí três varões, que vão adorar a Deus em Betel. Estes três varões são Pedro, o que reconhece, Tiago, o que suplanta, e João, a graça do Senhor. Pedro leva três cabritos, Tiago três tortas de pão, João um barril de vinho.
Pedro, isto é, o que se reconhece pecador, leva três cabritos. No cabrito simboliza-se o fedor do pecado; nos três cabritos os três gêneros de pecados em que mais pecamos, a saber, na soberba do coração, na petulância da carne, na avareza do mundo. Quem, portanto, quiser subir ao monte da luz, deve levar estes três cabritos; isto é, reconhecer-se pecador nestas três coisas.
Tiago, isto é, o que suplanta os vícios da carne, leva três tortas de pão. O pão significa a suavidade do entendimento, que consiste na humildade do coração, na castidade do corpo, no amor da pobreza; ninguém poderá possuir esta suavidade se antes não suplantar os vícios. Portanto, leva três tortas de pão, isto é, a tríplice suavidade do entendimento, quem reprime a soberba do coração, refreia a petulância da carne e rejeita a avareza do mundo.
João, isto é, o que conserva fielmente e de ânimo perseverante tudo isto, com a graça proveniente e subseqüente do Senhor, verdadeiramente leva um barril de vinho. O vinho no barril é a graça do Espírito Santo na boa vontade.
Tomou, portanto, Jesus consigo Pedro, Tiago e João. Toma também tu estes três varões e sobe ao monte Tabor.
4.Mas, crede-me, a subida é difícil, porque o monte é alto. Queres, portanto, subir mais facilmente? Toma aquela escada de que se lê e canta na história do presente domingo: Viu Jacob em sonhos uma escada direita, posta sobre a terra, cujo cimo tocava o céu e os anjos de Deus subindo e descendo por ela, e o Senhor apoiado na escada[fn]Gen 28, 12-13 (Vg. Viditque in somnis...).[/fn]. Observa cada uma das palavras e aparecerá a concordância do Evangelho. Viu: eis o reconhecimento do pecado, de que diz S. Bernardo: Deus não me dê a ver outra visão que não seja o conhecimento dos meus pecados. Jacob tem a mesma interpretação de Tiago: eis a suplantação da carne. Dele disse Esaú: Eis que me suplantou outra vez[fn]Gen 27, 36 (Vg. muda, ajunta).[/fn]. Em sonhos: eis a graça do Senhor, que traz consigo o sono da quietude e da paz. O sono assim é descrito pelo Filósofo[fn]ARIST., De somno et vigilia, 3, e também em Ethicorum, c. 1.[/fn]: O sono é o repouso das virtudes animais com intensificação das naturais. Quando alguém dorme no sono da graça, nele as paixões carnais repousam das suas más obras e intensificam-se as faculdades espirituais; daí o dizer-se no Gênesis[fn]Gen 15, 12 (Vg. ajunta, muda).[/fn]: Depois de se ter posto o sol, veio um sono profundo a Abraão, e um horror grande o acometeu. Por sol entende-se aqui o prazer carnal[fn]Cf. GREG., Moralium IX, 45, 84, PL 85, 904.[/fn], que, ao sucumbir, um sono profundo, isto é, o êxtase da contemplação, vem sobre nós; e um horror grande nos invade a respeito dos pecados passados e das penas do inferno. Queres ouvir a intensificação das faculdades espirituais juntamente com o perdão das paixões carnais? Eu, diz a Esposa, durmo, isto é, repouso do amor dos bens temporais, e o coração vigia[fn]Cant 5, 2.[/fn] na contemplação das celestes. Com razão, portanto, se diz: Viu Jacob em sonhos uma escada, pela qual podes subir ao monte Tabor.
5.Nota que esta escada tem dois banzos e seus degraus, pelos quais se pode subir. Esta escada significa Jesus Cristo[fn]Glo. Ord. e Int., Gen 28, 12.[/fn]; os dois banzos são a natureza divina e humana; os seis degraus são a sua humildade e pobreza, a sabedoria e misericórdia, a paciência e obediência. Foi humilde ao tomar a nossa natureza, quando olhou para a humildade da sua serva[fn]Lc 1, 18.[/fn]. Pobre no seu nascimento, em que a Virgem pobrezinha, quando deu à luz o próprio Filho de Deus, não teve onde o reclinar, tendo de o envolver em panos e pôr em manjedoura de animais[fn]Cf. Lc 2, 7.[/fn]. Foi sábio na sua pregação, porque começou a obrar e ensinar[fn]Atos 1, 1 (Vg. coepit Iesus...).[/fn]. Foi misericordioso ao receber afavelmente os pecadores: Não vim, diz, chamar os justos mas os pecadores[fn]Mt 9, 13 (Vg. Non enim...).[/fn] à penitência. Foi paciente no meio dos flagelos, bofetadas e escarros: por isso, ele mesmo diz em Isaías[fn]Is 50, 7.[/fn]: Ofereci a minha face como uma pedra duríssima. Se se bate numa pedra, não se vinga nem murmura contra quem a quebra. Assim Cristo, quando o amaldiçoaram, não amaldiçoava; sofrendo, não ameaçava[fn]1Pd 2, 23.[/fn]. Foi ainda obediente até à morte e morte de cruz[fn]Fil 2, 8.[/fn]. Esta escada apoiava-se sobre a terra, quando Cristo se entregava à pregação e operava milagres; tocava o céu, quando pernoitava, como refere S. Lucas[fn]Cf. Lc 6, 12.[/fn], na oração do Senhor.
Eis que a escada é direita; porque, pois, não subis? Porque rastejais de mãos e pés sobre a terra? Subi, porque Jacob viu anjos a subir e a descer pela escada. Subi, portanto, ó anjos, ó prelados da Igreja, ó fiéis de Jesus Cristo; subi, digo, a contemplar quão suave é o Senhor[fn]Cf. Sl 33, 9.[/fn]; descei a socorrer, a aconselhar, porque disto precisa o próximo. Porque tentais subir por caminho diferente do da escada? Por onde quer que quiserdes subir, depara-se-vos um precipício. Ó estultos e tardos de coração, não digo para crer[fn]Cf. Lc 24, 25.[/fn], porque credes, e os demônios também crêem[fn]Cf. Tg 2, 19.[/fn], mas duros e de pedra para agir! Pensais poder subir por outro caminho ao monte Tabor, ao repouso da luz, à glória da felicidade celeste, sem ser pela escda da humildade, da pobreza, da Paixão do Senhor? Na verdade, não. A palavra do Senhor é clara: Quem quiser vir após de mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me[fn]Mt 16, 24 (Vg. Si quis...).[/fn]. E em Jeremias[fn]Jer 3, 19.[/fn]: Tu me chamarás pai, e não cessarás de andar após de mim. Como refere S. Agostinho[fn]AGOST., Enarratio in Os. 92, 3, PL 37, 1259.[/fn], o médico bebe primeiro a poção amarga, para que o doente não tenha medo de a beber. Por meio duma poção amarga, diz S. Gregório[fn]Cf. GREG., Moralium XXXI, 33, 70, PL 76, 612.[/fn], se chega ao gozo de saúde. Para salvar a vida, tens de parecer o ferro e o fogo[fn]OVÍDIO, Remedia amoris, 229; cf. H. WALTHER, Lateiniche Sprichwörter, n. 32348.[/fn]. Subi, portanto, não temais, porque o Senhor está apoiado à escada, preparado para receber os que sobem. Tomou, portanto, Jesus consigo Pedro, Tiago e João e subiu a um alto monte.
II – A transfiguração de Jesus Cristo.
6.Segue o segundo: E transfigurou-se diante deles[fn]Mt 17, 2.[/fn]. Imprimi-te, como cera mole, nesta figura, a fim de que possas receber a figura de Jesus Cristo, que foi assim: E o seu rosto ficou refulgente como o sol e as suas vestiduras tornaram-se brancas como a neve[fn]Mt 17, 2.[/fn]. Nesta sentença verificam-se quatro coisas: o rosto e o sol, as vestiduras e a neve. Vejamos o eu significam no sentido moral o rosto e o sol, as vestiduras e a neve.
Nota que na parte anterior da cabeça, chamada rosto do homem, há três sentidos ordenados por via e disposição sapientíssima: a vista, o olfato e o gosto. O olfato, na verdade, está colocado, semelhante a uma balança, entre a vista e o gosto[fn]Cf. ARIST., De part. an., 11, 10, 657a, 8-11.[/fn]. Igualmente no rosto da nossa alma há três sentidos espirituais, dispostos em reta ordem pela sabedoria do sumo artífice: a vista da fé, o olfato da discrição, o gosto da contemplação.
7.Acerca da vista lê-se no Êxodo[fn]Ex 24, 9-10 (Vg. muda, ajunta).[/fn] que Moisés e Aarão, Nadab e Abiu e setenta anciãos de Israel viram o Senhor de Israel; e debaixo de seus pés estava como que uma obra de pedra de safira, que se parecia com o céu quando está sereno. Nesta sentença descrevem-se todos aqueles que vêem e o que devem ver, isto é, crer, com a visão da fé. Moisés e Aarão, etc. Moisés interpreta-se aquático e significa todos os religiosos, que devem ser mergulhados nas águas das lágrimas. De fato, foram tirados do rio do Egito, com o fim de semearem, em lágrimas, nesta solidão horrível, e depois, em júbilo, ceifarem na terra da promissão. E o sumo pontífice Aarão, que se interpreta montanhês[fn]Glo. Int., Ex 4, 28.[/fn], significa todos os prelados maiores da Igreja, constituídos no monte da dignidade. Nadab, que se interpreta espontâneo[fn]JERON., De nom. hebr., PL 23, 833.[/fn], todos os súditos, que devem obedecer espontaneamente, não à força. Abiu, que se interpreta pai deles[fn]Glo. Ord., Mt 1, 12.[/fn], significa todos aqueles que, segundo o rito da Igreja, se uniram pelo matrimônio para serem pais de filhos. Os setenta anciãos de Israel significam todos os batizados que no batismo receberam o espírito da graça septiforme[fn]Cf. Glo. Int., Ex 24, 8.[/fn].
Todos estes vêem, isto é, crêem, e devem ver, isto é, crer no Deus de Israel. E debaixo de seus pés estava como que uma obra de pedra de safira, etc. Quando diz Senhor de Israel: eis a divindade; ao dizer debaixo de seus pés: eis a humanidade de Jesus Cristo, que devemos crer como verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Destes pés diz Moisés no Deuteronômio[fn]Deut 33, 3.[/fn]: Os que se aproximam de seus pés receberão da sua doutrina. Por isso, diz-se em S. Lucas[fn]Cf. Lc 10, 39.[/fn] que Maria estava sentada aos pés do Senhor e escutava a sua palavra. Portanto, debaixo dos pés do Senhor, isto é, depois da Encarnação de Jesus Cristo apareceu a obra do Senhor, como que de pedra de safira, que se parecia com o céu quando está sereno. A pedra de safira e o céu sereno são da mesma cor.
E nota que a safira tem quatro propriedades: ostenta em si uma estrela, dá cabo do antraz, é semelhante ao céu sereno, estanca o sangue. A pedra de safira significa a santa Igreja, começada depois da Encarnação de Cristo e que há-de durar até ao fim dos séculos. Esta divide-se em quatro ordens, a saber, apóstolos, mártires, confessores e virgens, que acertadamente entendemos nas quatro propriedades da pedra de safira.
A safira ostenta em si uma estrela, e nisto significa os apóstolos, que primeiro mostraram a estrela matutina da fé aos que jaziam nas trevas e na sombra da morte[fn]Lc 1, 79.[/fn]. a safira, com o seu contato, dá cabo do antraz, que é doença mortal[fn]Cf.ESCRIBÔNIO LARGO, Compositiones medicae, 25;chamam escaras às crostas dos olhos e antrazes aos carbúnculos.[/fn]; nisto significa os mártires, que destruíram com o seu martírio o antraz da idolatria. A safira, semelhante à cor celeste, significa os confessores, que, reputando todas as coisas temporais como esterco, se suspenderam na corda do amor divino para contemplar a celeste beatitude, dizendo com o Apóstolo[fn]Fil 3, 20 (Vg. Nostra autem...); cf. Glo. Ord. e Int., Is 54, 11.[/fn]: Somos cidadãos dos céus. Igualmente a safira estanca o sangue, e nisto significa as virgens, que por amor do celeste Esposo estancaram em si por completo o sangue da concupiscência carnal. Esta é a admirável obra da pedra de safira, que apareceu debaixo dos pés do Senhor. Eis claramente o que a tua alma deve ver e o que deve crer com a visão da fé.
8.Do olfato da discrição escreve-se no Cântico[fn]Cant 7, 4.[/fn] do amor: O teu nariz é como a torre do Líbano, que olha para Damasco. Nesta sentença há quatro palavras muito dignas de nota; o nariz, a torre, o Líbano e Damasco. No nariz designa-se a discrição, na torre a humildade, no Líbano, que se interpreta alvura[fn]Glo. Ord., Cant 4, 8.[/fn], a castidade, em Damasco, que se interpreta o que bebe sangue[fn]Glo. Int., Cant 7, 4.[/fn], a malícia do diabo[fn]Glo. Ord., ibidem.[/fn]. Portanto, o nariz da alma é a virtude da discrição, através da qual, como se fora nariz, deve discernir o bom do mal cheiro, o vício da virtude, e pressentir ainda as coisas postas ao longe, isto é, as futuras tentações do diabo[fn]Cf. Glo. Ord. e Int., ibidem.[/fn]. Por isso, diz Job[fn]Job 39, 25.[/fn]: Cheira de longe a batalha, a exortação dos capitães e a gritaria do exército. De fato, a alma fiel pressente pelo nariz, isto é, pela virtude da discrição, a batalha da carne e a exortação dos capitães, isto é, as sugestões da razão vã, que são compreendidas por meio dos capitães, para não cair no fosso do mal, sob pretexto de santidade; e a gritaria do exército, isto é, as tentações do demônio, que gritam como bestas, porque gritar é próprio de bestas.
Este nariz da esposa deve ser como a torre do Líbano, pois, na humildade de coração e castidade de corpo consiste sobretudo a virtude da discrição. E bem se diz humildade a torre da castidade, porque assim como a torre defende o castelo, assim a humildade do coração defende a castidade do corpo das setas da fornicação. Se tal for o nariz da esposa, bem poderá olhar para Damasco, isto é, para o diabo, desejoso de beber o sangue das nossas almas, descobrindo a malícia da sua sutileza.
9.Acerca do gozo da contemplação diz o Profeta[fn]Sl 33, 9.[/fn]: Experimentai e vede quão suave é o Senhor. Experimentai, isto é, esmagai com a garganta do vosso espírito e, esmagando, repensai na felicidade daquela Jerusalém celeste, na glorificação das almas santas, na glória inefável da dignidade angélica, na doçura perene da Trindade e Unidade; repensai também quanta será a glória de estar entre os coros dos anjos, louvar a Deus juntamente com eles com voz indefessa, contemplar face a face o rosto de Deus, ver o maná divino na urna de ouro da humanidade! Se saboreardes bem estas coisas, verdadeiramente, sim, vereis quão suave é o Senhor. Feliz aquela alma cujo rosto se adorna e se decora com tais sentimentos.
E nota que o olfato, qual balança, está colocado entre a vista da fé e o gosto da contemplação. Na fé, com efeito, a discrição é necessária, para que não pretendamos aproximar-nos e ver a sarça ardente[fn]Cf. Ex 3, 3.[/fn], desatar a correia do calçado[fn]Cf. Lc 3, 16.[/fn], isto é, desvendar o segredo a Encarnação do Senhor[fn]Glo. Ord., ibidem.[/fn]. Crê apenas, e basta. Não está em teu poder desatar a correia do calçado. O que quer sondar a majestade, diz Salomão[fn]Prov 25, 27 (Vg. Qui scrutator est...).[/fn], será oprimido pela sua glória. Portanto, acreditemos firmemente e confessemos com simplicidade.
Na contemplação também é necessária a discrição, para que não saibamos mais da sabedoria, de sabor celeste, do que importa saber[fn]Cf. Rom 12, 3.[/fn]. Donde Salomão nas Parábolas[fn]Prov 25, 16 (Vg. Mel invenisti; comede quod sufficit tibo...).[/fn]: Filho, achaste mel, isto é, a doçura da contemplação[fn]Cf. Glo. Int., ibidem.[/fn], come o que te basta, para que não suceda que depois de farto o vomites. Vomita o mel quem, não contenta com a graça que lhe foi dada gratuitamente, deseja indagar com a razão humana a doçura da contemplação, não atendendo àquilo que se diz no Gênesis[fn]Cf. Gen 35, 17-19.[/fn] que ao nascer Benjamim morreu Raquel. Por Benjamim designa-se a graça da contemplação, por Raquel a razão humana. Ao nascer, portanto, Benjamim, morre Raquel, porque, quando o entendimento, elevado acima de si mesmo na contemplação, divisa alguma coisa acerca da luz da divindade, toda a razão humana sucumbe. A morte de Raquel é a falta de razão. Por isso, disse alguém[fn]Cf. RICARDO DE SÃO VITOR, Beniamim minor, 73-74, PL 196, 52-53.[/fn]: Ninguém chega pela razão humana aonde S. Paulo foi arrebatado
Seja, portanto, o olfato da discrição como balança entre a vista da fé e o gosto da contemplação, para que o rosto da nossa alma resplandeça como o sol.
10.E nota que no sol há três propriedades: claridade, alvura e calor; e vê quão bem elas convêm aos três sobreditos sentidos da alma. A claridade do sol convém à vista da fé, que divisa e crê as coisas invisíveis pela claridade da sua luz. Alvura, isto é, a mundícia ou pureza, convém ao olfato da discrição; e com acerto, porque assim como fechamos e viramos o nariz dum objeto mal cheiroso, assim nos devemos afastar da imundícia do pecado com a virtude da discrição. Também o calor do sol convém ao gosto da contemplação, na qual verdadeiramente há o calor da caridade. Escreve S. Bernardo[fn]Não é de São Bernardo, nem de Guido Cartusiano, como chegou a afirmar-se e vem nos Editores, mas é de GUILHERME DE ST. THIERRY, Epistola ad fratres de Monte Dei, II, 3, 18. Cf. Actas 1981, p. 178, n. 30.[/fn]: É, de fato, impossível ver o sumo bem e não o amar, pois que o próprio Deus é caridade.
Atendei, portanto, caríssimos, e vede quão útil, quão salutar é tomar três companheiros e subir ao monte da luz, porque aí há verdadeira transfiguração da figura deste mundo, que passa[fn]Cf. 1Cor 7, 31.[/fn], na figura de Deus, que permanece por séculos de séculos. Dela se diz: O seu rosto resplandeceu como o sol. Resplandeça também o rosto da nossa alma como o sol, a fim de que transforme em obras o que vemos pela fé; e o bem que discernimos no interior, o executamos fora, na pureza da obra, com a virtude da discrição; e o que saboreamos na contemplação de Deus, se torne vida no amor do próximo; e desta maneira o nosso rosto resplandecerá como o sol.
11.Segue: E as suas vestiduras tornaram-se alvas como a neve[fn]Mt 17, 2.[/fn], quais um tintureiro não seria capaz neste mundo de o fazer[fn]Mt 9, 2 (Vg... super terra candida facere).[/fn]. As vestiduras da nossa alma são os membros do nosso corpo[fn]Cf. Glo. Int., Ecle 9, 8; Glo. Ord., Job 9, 31.[/fn], que devem ser cândidos. Daí Salomão[fn]Ecle 9, 8.[/fn]: As tuas vestiduras sejam cândidas em todo o tempo. Mas de qual candura? Como a neve. Por boca de Isaías[fn]Is 1, 18.[/fn] promete o Senhor aos pecadores convertidos: Se os vossos pecados forem como o escarlate, tornar-se-ão alvos como a neve. Nota aqui duas palavras: Escarlate e neve. Escarlate é um pano que possui a cor do fogo e do sangue[fn]Cf. ISID., Etym. XIX, 22, 10, PL 82. 685.[/fn]. A neve é fria e alva. O fogo designa o ardor do pecado; o sangue, a imundícia do mesmo; a frigidez da neve, a graça do Espírito Santo; a alvura, a pureza do entendimento[fn]Cf. JERÓN., Commentarium in Job, 9, 37, PL 26, 678-783.[/fn]. Diz, portanto, o Senhor: Se os vossos pecados forem como o escarlate etc. Como se dissesse: Se vos converterdes a mim, eu infundir-vos-ei a graça do Espírito Santo, que não só extinguirá o ardor do pecado, como também lavará a sua imundícia. Por isso, ele mesmo diz por Ezequiel[fn]Ez 36, 25.[/fn]: Derramarei sobre vós água limpa, e sereis limpos de todas as vossas iniqüidades. As vestiduras, portanto, isto é, os membros do nosso corpo, sejam alvas como a neve, para que frigidez da neve, isto é, a compunção do espírito, extinga o ardor do pecado, e a alvura duma vida santa lave a imundícia do pecado.
Por outras palavras, as vestiduras da nossa alma são as virtudes[fn]Cf. Glo. Int., Sl 44, 10.[/fn]. Vestida com elas, apareça gloriosa na presença do Senhor. Destes vestidos se diz na história do presente domingo que Rebeca vestiu Jacob de vestidos muito bons, que tinha consigo[fn]Cf. Gen 27, 15.[/fn]. Rebeca, isto é, a sabedoria de Deus Pai, vestiu Jacob, isto é, o justo, com os vestidos, isto é, com as virtudes boas, porque feitas com a mão e o artifício da sua sabedoria, as quais ele tem consigo guardadas no tesouro da sua glória. Tem-nas verdadeiramente, porque é o Senhor, dono de tudo; tem-nas verdadeiramente, porque as distribui a quem quer, quando quer e como quer. Estas vestiduras são cândidas, de fato, dado que fazem cândido o homem, não digo como a neve, mas branqueiam-no acima da neve. O tintureiro, isto é, o pregador, na calandra da sua pregação, não pode fazer assim tais vestiduras neste mundo.
III – A aparição a Moisés e a Elias.
12.Segue o terceiro: E Moisés e Elias apareceram a falar com ele[fn]Mt 17, 3.[/fn]. Moisés e Elias aparecem ao justo assim transfigurado,assim iluminado, assim vestido. Por Moisés, que era o mais manso de todos os homens que habitavam sobre a terra[fn]Cf. Num 12, 3.[/fn], cuja vista, como se diz no Deuteronômio[fn]Deut 34, 7 (Vg. non caligavit oculus...).[/fn], não diminuiu, nem os dentes se lhe abalaram, entende-se a mansidão da paciência e da misericórdia. Manso quer dizer acostumado à mão[fn]Cf. ISID., Etym. X, 169, PL 82, 385.[/fn]. Ele, na verdade, como filho, como animal manso, acostumou-se à mão da divina graça, cuja vista, isto é, a razão, não diminui com a fuligem do ódio nem se ofusca com a nuvem do rancor; os seus dentes não se abalam contra alguém pela murmuração. Nem mordem pela detração.
Por Elias, que, segundo se lê no terceiro livro dos Reis[fn]Cf. 3Reis 18, 30.[/fn], matou os profetas de Baal na torrente de Cisão, entende-se o zelo da justiça. Baal interpreta-se superior ou devorador[fn]Glo. Int., Jz 6, 25.[/fn]; Cisão, a dureza deles[fn]Glo. Ord., Sl 82, 10.[/fn]. Portanto, o que ferve verdadeiramente com o zelo da justiça, mata com a espada da pregação, da ameaça e da excomunhão os profetas e os escravos da soberba, – a qual se dirige sempre a coisas superiores – da gula e da luxúria, que tudo devoram, a fim de que, mortos ao vício, vivam para Deus[fn]Cf. Gal 2, 19.[/fn]. E pratica isto na torrente de Cisão, isto é, na abundância do seu coração duro. Por isso, entesouram ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus[fn]Cf. Rom 2, 5.[/fn].
Dela diz Deus a Ezequiel[fn]Ez 2, 4; 3, 7 (Vg. Filli dura facie... et duro corde).[/fn]: Aqueles a quem te envio são filhos de cerviz dura e de coração indomável. De fato, toda a casa de Israel é de cara desavergonhada e de dura cerviz. Possui cara desavergonhada quem, ao ser corrigido, não só despreza a correção, mas não se envergonha do pecado. a este impropera Jeremias[fn]Jer 3, 3 (Vg. ajunta).[/fn]: O descaramento duma mulher meretriz apoderou-se de ti; não quiseste ter vergonha. Moisés, portanto, e Elias, isto é, a mansidão da misericórdia e o zelo da justiça, devem aparecer justos com o justo, já transfigurado no monte da vida santa, a fim de que, à semelhança do Samaritano, derramem vinho e azeite nos cobertos de chagas. O acre do vinho exacerba a brandura do azeite, e abrandura do azeite suaviza o acre do vinho[fn]Cf. GREG., Moralium XX, 6, 14, PL 76, 143; Lc 10, 34.[/fn].
Daí o dizer-se em S. Mateus, do anjo que apareceu na ressurreição de Cristo, que o seu aspecto era como o raio e as suas vestiduras como a neve[fn]Cf. Mt 28, 3.[/fn]. o raio designa a severidade do juízo; o candor da neve, a brandura da mansidão[fn]Cf. Glo. Ord., ibidem.[/fn]. O anjo, isto é, o prelado, deve ter o aspecto do raio, para que as mulheres, isto é, os espíritos efeminados, temam o seu olhar ao considerarem a sua vida santa. Desta maneira procedeu Ester, de quem se diz no livro[fn]Ester 15, 10 (Vg. muda).[/fn] da mesma: Tendo o rei Assuero levantado o rosto e manifestado em seus olhos cintilantes o furor do peito, a rainha desmaiou, e, trocando-se a sua cor em palidez, deixou cair a cabeça vacilante sobre a criada. Mas o prelado, tal como procedeu Assuero, deve apresentar o báculo de ouro da benignidade[fn]Cf. Ester 15, 15.[/fn] e revestir-se das vestiduras de neve, para, com piedosa benignidade de mãe, consolar os que corrigiu com austeridade de pai[fn]Cf. GREG., Regula pastoralis, II, 6, PL 77, 38.[/fn]. Donde o dito: Tem azorragues de pai e peitos de mãe.
O prelado deve ser como o pelicano, o qual, segundo se conta, mata os seus filhos, mas depois extrai o sangue do próprio corpo e o derrama sobre os filhos mortos e desta forma os faz reviver[fn]Cf. Glo. Ord., Sl 101, 7; ISID., Etym. XII, 7, 26, PL 82, 162. Ambas as citações são colhidas de ST. AGOSTINHO, In Ps 101, sermo , 8, PL 37, 1 1299.[/fn]. Assim o prelado deve chamar os seus filhos, isto é, os seus súditos, os quais corrige com o flagelo da disciplina e mata com a espada da áspera reprimenda. Deve chamá-los, repito, à penitência, que é vida da alma, com o seu sangue, ou seja, com espírito compungido e com derramamento de lágrimas, sangue da alma, no dizer de S. Agostinho[fn]Cf. AGOST., Epistola 262, 11, PL 33, 1081; cf. Sermo 351, 4-7, PL 39, 1542.[/fn].
IV – O testemunho da voz do Pai: Este é o meu Filho muito amado.
13.E se estas três coisas, a subida ao monte, a transfiguração e o aparecimento a Elias e Moisés, precederam em ti, conseguirás a quarta, de que se acrescenta: eis que uma nuvem resplandecente os envolveu[fn]Mt 17, 5.[/fn]. Lê-se coisa semelhante no fim do Êxodo[fn]Ex 40, 31-32 (Vg. Postquam omnia perfecta sunt operuit nubes...).[/fn], onde se diz: Depois de acabadas todas estas coisas, uma nuvem cobriu o tabernáculo do testemunho e a glória do Senhor o encheu.
Nota que no tabernáculo do testemunho havia quatro objetos: o candelabro com sete lâmpadas, a mesa da proposição, a arca do testamento e o altar de ouro[fn]Ex 25, 31-37.[/fn]. O tabernáculo do testemunho é o justo. É tabernáculo, porque a sua vida é um combate sobre a terra[fn]Job 7, 1 (Vg. militia est vita hominis...).[/fn]. os soldados em armas costumam desde a sua tenda[fn]Em português não há seqüência de pensamento, como em latim, por tabernaculum ter de e traduzir no segundo lugar por tenda.[/fn] combater os inimigos e por estes ser combatidos. Também o justo, colocado na linha de batalha, enquanto combate é combatido; daí o dizer-se: O inimigo qye bem combate torna-te bom combatente[fn]OVÍDIO, Pont. 11, 3, 53.[/fn]. O justo é o tabernáculo do testemunho. Tem bom testemunho, não só dos de fora[fn]Cf. 1Tim 3, 7.[/fn], nem sempre verdadeiro, mas também de si mesmo. A sua glória é o testemunho da própria consciência[fn]Cf. 2Cor 1, 12.[/fn], não de língua alheia.
Neste tabernáculo do testemunho há o candelabro de ouro batido, com sete lâmpadas; é o áureo coração compungido do justo, batido por múltiplos suspiros, como se foram martelos. As sete lâmpadas deste candelabro são os três cabritos, as três tortas de pão e o barril de vinho, que os sobretidos três companheiros do justo levam. Há ainda no tabernáculo do justo a mesa da proposição, pela qual se entende a excelência da vida santa. Sobre ela devem pôr-se os pães da proposição, isto é, o alimento da palavra divina, que a todos se deve propor. Donde o Apóstolo: Sou devedor de Gregos e Bárbaros[fn]Rom 1, 14.[/fn]. Há também ali a arca do testamento, em que se guardava o maná e a vara. Na arca, isto é, no espírito dp justo, deve existir o maná da mansidão, para que seja Moisés, e a vara da correção, para que seja Elias. Há também aí um altar de ouro, pela qual se entende o firme propósito da perseverança final. Neste altar, todos os dias se oferece o incenso da compunção devota e os perfumes da oração odorífera.
14.Com razão, portanto, se diz: Depois de acabadas todas estas coisas, uma nuvem cobriu o tabernáculo do testemunho. Tal tabernáculo, em que são acabadas todas as coisas atinentes à perfeição, uma nuvem o cobre e a glória do Senhor o enche. Desta se escreve no Evangelho de hoje: E uma nuvem resplandecente os envolveu. A graça do Senhor, de fato, envolve o justo transfigurado no monte da luz, isto é, da vida santa, protegendo-o do ardor da prosperidade mundana, da chuva da concupiscência carnal, da tempestade da perseguição do demônio; e desta forma merecerá ouvir o cicio de tênue aura[fn]Cf. 3Reis 19, 12.[/fn], a doçura de Deus Pai: Este é o meu Filho caríssimo; ouvi-o[fn]Mt 17, 5 (Vg. muda, ajunta).[/fn]. Verdadeiramente é digno de se chamar Filho de Deus quem tomou consigo os três sobreditos companheiros, subiu ao monte, a si mesmo se transfigurou de figura do mundo em figura de Deus, teve por companheiros Moisés e Elias e mereceu ser envolvido por nuvem resplandecente.
Rogamos-te, portanto, Senhor Jesus, que nos faças subir deste vale de miséria ao monte duma vida santa, a fim de que impressos na figura da tua Paixão, fundados na mansidão da misericórdia e no zelo da justiça, mereçamos no dia do juízo ser envolvidos por nuvem transparente e ouvir a voz de gozo, alegria e exultação: Vinde, benditos de meu Pai, que vos abençoou no monte Tabor, recebei o reino que vos foi preparado desde o princípio do mundo[fn]Cf. Mt 25, 34.[/fn]. A este reino Ele mesmo se digne conduzir-nos. A Ele pertence a honra e glória, louvor e império, majestade e eternidade pelos séculos dos séculos. Diga todo espírito: Assim seja.
Fonte: SANTO ANTÔNIO DE LISBOA. Obras Completas. Sermões Dominicais e Festivos (Vol. I)
Introdução, tradução e notas por Henrique Pinto Rema.
Lello e Irmão Editores, Porto, 1987; págs 117-138.