PERMANÊNCIA

"Permanecei em mim e eu permanecerei em vós."

Sermão do Quarto Domingo da Quaresma

 

Exórdio. Sermão aos pregadores.
 
1.            Com cinco pães e dois peixes saciou o Senhor cinco mil homens etc[fn]Breviário Romano, Antífona de Tércia deste domingo. Cf. Jo 6, 1-15.[/fn].
 
Aos pregadores fala Salomão no Eclesiastes[fn]Ecle 11, 1.[/fn]: Lança o teu pão sobre as águas que passam, e depois de muito tempo o acharás. As águas que passam são os povos a correr para a morte[fn]Cf. GREG., Moralium XIX 6, 9, PL 76, 101.[/fn]. Por isso, diz a mulher de Técua no segundo livro dos Reis[fn]Cf. 2Reis 14, 14.[/fn]: Todos corremos como água. Escreve Isaías[fn]Is 8, 6. A palavra Face é tirada da Gossa Int., ibidem.[/fn]: Este povo rejeitou as águas de Siloé, que correm em silêncio, e preferiu apoiar-se em Rasim e em Face, filho de Romélia. Siloé interpreta-se enviado; portanto, as águas de Siloé são a doutrina de Jesus Cristo[fn]Cf. Glo. Ord., Is 1 c. e Jo 8, 6-7.[/fn], enviado do Pai. Rejeitam esta água os que se perdem em desejos terrenos e se apóiam em Rasim, isto é, no espírito soberbo, e em Face, ou seja, na imundície da luxúria. E por esta razão correm como água para o profundo da Geena. Portanto, sobre as águas que passam, ó pregador, lança o teu pão, o pão da palavra de Deus, do qual se diz: Não só de pão[fn]Mt 4, 4.[/fn] etc. E Isaías[fn]Is 33, 16.[/fn]: Foi-lhe, isto é, ao justo, dado o pão; depois de muito tempo, no dia do juízo, achá-lo-ás, ou seja,encontrarás o que te dará em troca dele. Em nome do Senhor, lançarei o pão sobre as águas, compondo por vosso amor, sobre os cinco pães e dois peixes, um pequeno sermão.
 
 
Os cinco pães e os dois peixes.
 
2.            Digamos, portanto: Com cinco pães e dois peixes etc. Os cinco pães são os cinco livros de Moisés[fn]Glo. Ord., Jo 6, 9.[/fn], em que se encontram as cinco refeições da alma. O primeiro pão é detestar o pecado na contrição; o segundo é revelá-lo na confissão; o terceiro é a miséria e humilhação de si mesmo na satisfação; o quarto é o zelo das almas na pregação; o quinto é a doçura da pátria celeste na contemplação.
 
Acerca do primeiro pão lê-se no primeiro livro, no Gênesis[fn]Cf. Gen 38, 20.[/fn], que Judá mandou um cabrito a Tamar pelo seu pastor Odalamita. Judá interpreta-se o que se confessa e significa o penitente[fn]Cf. Glo. Ord., Gen 38, 12.[/fn], que deve enviar o cabrito, isto é, a detestação do pecado[fn]Glo. Int., 38, 17-20.[/fn]. Tamar, que se interpreta amarga, trocada, palmeira[fn]JERÓN., De. nom. hebr., PL 23, 829.[/fn], é a alma penitente[fn]Cf. Glo. Ord., Gen 38, 12.[/fn], em cuja tripla interpretação se designa o triplo estado dos penitentes. Chama-se amarga relativamente ao estado dos incipientes; trocada, dos proficientes; palmeira, dos perfeitos. Odolamita interpreta-se testemunho pela água[fn]Glo. Ord., 38, 1.[/fn] e significa a compunção das lágrimas pelas quais o penitente testemunha que detesta o pecado e promete não voltar a cometê-lo. E assim desta Tamar, como diz S. Mateus[fn]Cf. Mt 1, 3.[/fn], poderá Judá gerar Farés e Zara. Farés interpreta-se divisão; Zara, oriente[fn]Glo. Ord., Gen 38, 29-30.[/fn]. O penitente deve antes separar-se do pecado e depois tender à iluminação das boas obras. Declina, diz o Profeta[fn]Sl 36, 27.[/fn], do mal: eis Farés; e faz o bem: Eis Zara.
 
Acerca do segundo pão lê-se no segundo livro de Moisés, no Êxodo[fn]Ex 2, 21 (Vg... abscondit sabulo).[/fn], que Moisés escondeu debaixo da areia o egípcio morto. Moisés interpreta-se aquático[fn]Cf. Ex 2, 10.[/fn] e significa o penitente, flutuando nas água da compunção. Ele deve matar o egípcio, isto é, o pecado mortal, na contrição, e escondê-lo debaixo da areia na confissão. Escreve, pois, S. Agostinho[fn]Cf. AGOST., Enarr. in Ps. 31, 11, 9, 12, PL 36, 264, 266.[/fn]: Se tu te descobres, Deus cobre-te; se tu te cobres, Deus descobre-te. Esconde, portanto, o egípcio quem descobre o seu pecado. Esconde-o para Deus e descobre-o ao sacerdote. Daí o dizer-se no Gênesis[fn]Cf. Gen 31, 34.[/fn] que Raquel escondeu os ídolos de Labão. Raquel interpreta-se ovelha. Esta é a alma penitente, que deve esconder os ídolos, isto é, os pecados mortais, de Labão, ou seja, do diabo. Bem-aventurados aqueles, diz o Profeta[fn]Cf. Glo. Ord., Gen 31, 23.[/fn], cujos pecados foram cobertos.
 
Acerca do terceiro pão lê-se no terceiro livro de Moisés, no Levítico[fn]Cf. Lev 1, 16.[/fn], onde se manda aos sacerdotes: O papo e as penas lançá-los-ás no lugar das cinzas para o lado do Oriente. O papo simboliza o ardor e a sede da avareza, da qual escreve Job[fn]Job 18, 9.[/fn]: Uma sede ardente atormentará o avarento. A pena designa a leveza da soberba[fn]Glo. Int., Lev 1 c.[/fn]. A pena, escreve Job[fn]Job 39, 13 e Glo. Ord., ibi.[/fn], do avestruz, isto é, do hipócrita, é semelhante às penas da cegonha e do falcão, isto é, do varão contemplativo[fn]Cf. Glo. Ord., ibidem.[/fn]. São lançadas no lugar das cinzas quando pensamos de coração compungido na palavra da maldição: És cinza, e à cinza hás-de voltar[fn]Gen 3, 19 (Vg. muda).[/fn]. O lado do Oriente é a vida eterna, da qual nos separamos por causa dos primeiros pais[fn]Cf. Glo. Ord., Lev 1 c.[/fn]. Humilha-se, portanto, o penitente na satisfação e lança fora de si o papo da avareza e a pena da soberba quando traz à memória o eulógio[fn]Eulógio quer dizer sentença judicial. Está por elógio, testificação, certificado. Cf. A. CALEPINO, Latinae Linguae Dicionarium.[/fn] da primeira maldição e geme todos os dias, prostrado diante dos olhos de Deus.
 
Acerca do quarto pão lê-se no quarto livro, o dos Números[fn]Cf. Num 25, 7-8.[/fn], que Finéias, tomando um punhal, atravessou os dois fornicadores pelas partes genitais. Finéias é o pregador, que tomando o punhal, isto é, a palavra da pregação, deve atravessar os fornicadores nas partes genitais, para que, descoberta e como que lançada em rosto a sua torpeza, se envergonhem do crime cometido[fn]Cf. AMB., In Ps. 118, sermo 18, 11, PL 15, 1532.[/fn]. Revelarei, diz o Senhor por boca do seu Profeta[fn]Naum 3, 5 (Vg... in facie tua).[/fn], diante da tua face as partes vergonhosas. Cobre os seus rostos de ignomínia, diz David[fn]Sl 82, 17.[/fn].
 
Acerca do quinto pão lê-se no quinto livro, o Deuteronômio[fn]Cf. Deut 34, 1.5.[/fn], que Moisés subiu das planícies do Moab ao monte Abarim e aí morreu diante de Deus. Moisés é o penitente. Sobe das planícies de Moab, que se interpreta do pai[fn]Glo .Ord. e Int., Gen 19, 37.[/fn]. Quer dizer, deve deixar a vida dos carnais, provenientes do pai diabo, e subir ao monte Abarim, que se interpreta passagem[fn]Glo. Ord., Deut 32, 49.[/fn], ou seja, a excelência da contemplação, para que passe deste mundo ao Pai[fn]Jo 13, 1 (Vg... ex hoc mundo...).[/fn].
 
Estes são os cinco pães de que se diz: Com cinco pães e dois peixes.
 
3.            Estes são os cinco côvados da mirra. Escreve Solino[fn]Cf. SOLINO, Polihistor, 46.[/fn] que na Arábia há uma árvore chamada mirra, de cinco côvados de altura. Arábia interpreta-se sagrada[fn]SOLINO, ibidem; ISID., Etym. XIV, 3, 15, PL 82, 498.[/fn] e significa a santa Igreja, na qual há a mirra da penitência que eleva o homem das coisas terrenas cinco côvados, que são os cinco pães evangélicos. Estes são os cinco irmãos de Judá, a respeito dos quais diz Jacob no Gênesis[fn]Gen 49, 8 (Vg... te laudehunt...).[/fn]: Judá, louvar-te-ão os teus irmãos; são eles: Ruben, Simeão, Levi, Issacar, Zabulão. Ruben interpreta-se vidente; Simeão, audição; Levi, ajuntado; Issacar, recompensa; Zabulão, casa de fortaleza[fn]Cf. Glo. Int., Gen cc. 29-30.[/fn].
 
Tenha, portanto, Judá um irmão chamado Ruben, para que veja na contrição com aqueles sete olhos a que se refere Zacarias[fn]Cf. Zac 3, 9.[/fn]: Numa só pedra, ou seja, no penitente, que deve ser pedra pela constância e um só pela unidade da fé, havia sete olhos. Com o primeiro deles deve ver o passado, para o chorar; com o segundo, o futuro, para dele se acautelar; com o terceiro, as coisas prósperas, para não o ensoberbecerem; com o quarto, as adversas, para não o deprimirem; com o quinto, as coisas superiores, para as saborear; com o sexto, as inferiores, para as tornar insípidas; com o sétimo, as interiores, para se comprazer em Deus.
 
Tenha, portanto, um segundo irmão de nome Simeão ao confessar-se, para que o Senhor ouça a sua voz, como diz Moisés no Deuteronômio[fn]Deut 3, 7.[/fn]: Ouve, Senhor, a voz de Judá. Dela se lê nos Cânticos[fn]Cant 2, 14 (Vg... voz enim...).[/fn]: Ressoe a tua voz aos meus ouvidos, pois que a tua voz é doce.
 
À contrição e à confusão se ajunte o terceiro irmão, Levi, na satisfação, a fim de que a medida da pena corresponda à culpa[fn]Cf. Glo. Int., Lc 3, 8; Mt 3, 8; P. LOMB., Sent. IV, dist. 16, 2, p. 840.[/fn]. Fazei, diz, dignos frutos de penitência[fn]Lc 3, 8; Mt 3, 8.[/fn]. No Sinai, de fato, que se interpreta medida[fn]Glo. Ord. e Int., Ex 24, 16.[/fn], foi dada a lei. A lei da graça é dada àquele cuja penitência se mede de conformidade à culpa.
 
Tenha ainda um quarto irmão, Issacar, para que, incendiado pelo zelo das almas, receba a recompensa da eterna felicidade. Mas o tronco inútil, a ocupar terreno, e o fátuo idiota, a entravar um lugar na Igreja, receba, não a recompensa da vida eterna, mas a amargura da morte eterna.
 
Todavia, por favor, tenha um quinto irmão, Zebulão, para que, habitando na casa da contemplação, juntamente com o simples Jacob[fn]Cf. Gen 25, 27.[/fn], mereça tomar gosto à doçura celeste.
 
Estes são os cinco pães, de que diz: Com cinco pães e dois peixes etc.
 
4.            Os dois peixes representam a inteligência e a memória, que devem servir de condimento aos cinco livros de Moisés, para que entendas o que lês e confies ao tesouro da memória o que entendes. Ou então, os dois peixes, tirados da profundeza do mar para a mesa do rei, são Moisés e Pedro. O nome Moisés vem da água de que fora tirado[fn]Cf. Ex 2, 10.[/fn]; e Pedro o pescador é elevado à dignidade de Apóstolo. A Sinagoga foi encomendada àquele; a Igreja, a este. A Sinagoga e a Igreja são Sara e Agar, das quais se escreve na Epístola[fn]Gal 4, 22 (Vg. ajunta).[/fn] de hoje:Está escrito que Abraão teve dois filhos etc. A escrava Agar, que se interpreta solene, significa a Sinagoga, que se gloriava na observância da lei, como se foram coisas solenes. Sara, que se interpreta carvão, significa a santa Igreja[fn]Cf. Glo. Ord., Gen 16, 2.[/fn], inflamada no dia de Pentecostes pelo fogo do Espírito Santo. O filho de Agar é o povo judeu, que luta com o filho de Sara, o povo dos crentes[fn]Cf. Glo. Int., Gen 16, 12.[/fn].
 
Por outras palavras, Sara, que se interpreta princesa[fn]Glo. Ord. e Int., Gen 17, 15.[/fn], é a parte superior da razão, que deve comandar, como a senhora manda na escrava. A escrava é a sensualidade, representada por Agar, que se interpreta abutre[fn]A interpretação habitual deste nome é estrangeira ou convertida. Cf. JERÓN., De nom. hebr., PL 23, 819.[/fn]. Com efeito, a sensualidade, qual abutre, segue os cadáveres dos desejos carnais. O filho de Agar, isto é, o movimento da carne, persegie o filho de Sara, ou seja, o movimento da razão. E isto é o que diz o Apóstolo[fn]Cf. Gal 5, 17.[/fn]: A carne deseja contra o espírito e o espírito contra a carne, de forma a pô-la fora juntamente com o seu filho. Por isso, diz-se: Põe fora a escrava e o seu filho[fn]Gal 4, 10.[/fn]. Efetivamente, a carne, carregada com os bens da natureza e opulenta com as vantagens temporais, insurge-se contra a senhora. Sucede então o que diz Salomão nas Parábolas[fn]Prov 30, 21-23 (Vg. muda)[/fn]: A terra estremece com três coisas e uma quarta não a pode suportar: com um escravo que chega a reinar; com um insensato farto de alimento, com uma mulher odiosa que um homem desposou, e com uma escrava que se torna herdeira de sua senhora. O escravo que chega a reinar é o corpo recalcitrante. O insensato farto de alimento é a alma inebriada de delícias. A mulher odiosa são as más obras; é recebida em matrimônio quando o pecador cai na cilada do mai hábito. E desta forma a escrava Agar, a sensualidade, torna-se herdeira da sua senhora, a razão. Mas para que este domínio infeliz acabe, com cinco pães e dois peixes saciou o Senhor cinco mil homens.
 
5.            Acerca deste assunto há concordância no Intróito da missa: Alegra-te, Jerusalém, e reuni-vos[fn]Cf. Is 66, 10-11.[/fn] etc. Nota que para o número de cinco mil homens há cinco reuniões. A primeira foi celebrada no céu; a segunda, no paraíso; a terceira, no monte das Oliveiras; a quarta, em Jerusalém; a quinta, em Corinto.
 
Na primeira reunião nasceu a discórdia. Com efeito, o primeiro anjo, antes monge branco, depois monge negro, porque primeiro lúcifer, depois tenebrífero, semeou a cizânia da discórdia nas fileiras dos seus irmãos. No corro da concórdia, de fato, começou a cantar a antífona da soberba, partindo do mais alto, em vez do mais baixo. Subirei, diz, ao céu, para aí ser igual ao Pai, e serei semelhante ao Altíssimo[fn]Cf. Is 14, 13-14.[/fn], isto é, ao Filho. E enquanto desta forma cantava altaneiramente e entumecia as veias do coração, caiu irrecuperavelmente: o firmamento não pôde suster a sua soberba[fn]Para os antigo, o firmanento é como o sobrado do céu. Ele cedeu no lugar em que Lúcifer se abateu e o deixou cair no abismo. Esta passagem lembra o teatro religioso da Idade Média.[/fn].
 
Na segunda reunião do paraíso nasceu a desobediência, por causa da qual os protoparentes foram lançados à miséria deste exílio.
 
Na terceira, nasceu a simonia. Consiste ela em comprar ou vender o espiritual ou o que é anexo ao espiritual[fn]Cf. GRACIANO, Se adhuc obiicitur (Prologus Gratiani), C. 1, q. 3, PL 187, 546; P. LOMB., Sent. IV, dist. 25, 2-4, pp. 909-910.[/fn]. Ora, que coisa mais espiritual e mais santa do que Cristo? Cremos que Judas, ao vendê-lo, incorreu no pecado de simonia, e por isso, suspenso dum laço rebentou o ventre. Assim todo o simoníaco, se não se sujeitar e fazer verdadeira penitência, suspenso do laço da eterna condenação, arrebentará o ventre pelo meio[fn]Cf. Atos 1, 18.[/fn].
 
Na quarta reunião, a pobreza foi desonrada, quando Ananias e Safira subtraíram para eles parte do preço do campo vendido, mentido ao Espírito Santo[fn]Cf. Atos 5, 1-10.[/fn]. E por isso imediatamente sofreram a sentença do manifesto ultraje. Desta maneira, se os que tiverem renunciado aos próprios bens, marcando-se com o selo da santa pobreza, quiserem reedificar a Jericó destruída[fn]Jos 6, 26.[/fn], sofrerão eternamente o impropério da maldição.
 
Na quinta, foi lesada a castidade. Lê-se na epístola aos Coríntios[fn]Cf. 1Cor 5, 1-5.[/fn] que Paulo não duvidou ferir, para morte da carne, com a sentença de excomunhão aquele fornicador que tomara a mulher do pai.
 
Vós, porém, membros da Igreja, cidadãos da Jerusalém celeste, fazei uma reunião dividida em cinco partes, de que serão banidos estes cinco crimes: a cizânia da discórdia, a loucura da desobediência, a concupiscência da simonia, a lepra da avareza e a imundície da luxúria. Assim merecereis ser saciados com cinco pães e dois peixes entre cinco mil homens e gozar da perfeição do número milenário. Ajude-nos aquele que é bendito por séculos de séculos. Assim seja.
 
 
Fonte: SANTO ANTÔNIO DE LISBOA. Obras Completas. Sermões Dominicais e Festivos (Vol. I)
Introdução, tradução e notas por Henrique Pinto Rema.
Lello e Irmão Editores, Porto, 1987; págs 217-226.