Heu! sputa, alapae, verbera, vulnera,
Clavi, fel, aloe, spongia, lancea,
Spitis, spina, cruor, quam varia pium
Cor pressere tyrannide!
(Hino de Matinas do OfĂcio das
Sete Dores de Nossa Senhora)
ANTĂŤFONA
Volvo o rosto para o teu afago,
Vendo o consolo dos teus olhares...
SĂŞ propĂcia para mim que trago
Os olhos mortos de chorar pesares.
A minha Alma, pobre ave que se assusta,
Veio Encontrar o derradeiro asilo
No teu olhar de Imperatriz augusta,
Cheio de mar e de céu tranqüilo.
Olhos piedosos, palmas de exĂlios,
Vasos de goivos, macerados vasos!
Venho pousar Ă sombra dos teus cĂlios,
Que se fecham sobre dois ocasos.
Volvo o peito para as tuas Dores
E o coração para as Sete Espadas...
Dá-me, Senhora, para os teus louvores,
A paz das Almas bem-aventuradas.
Dá-me, Senhora, a unção que nunca morre
Nos pobres lábios de quem espera:
SĂŞ propĂcia para mim, socorre
Quem te adorara, se adorar pudera!
Mas eu, a poeira que o vento espalha,
O homem de carne vil, cheio de assombros,
O esqueleto que busca uma mortalha,
Pedir o manto que te envolve os ombros!
Adorar-te, Senhora, se eu pudesse
Subir tĂŁo alto na hora da agonia!
SĂŞ propĂcia para a minha prece.
MĂŁe dos aflitos...
Ave, Maria.
PRIMEIRA DOR
Et tuam ipsius animam pertransibit glaudius...
S. LUC. II, 35.
- I -
Nossa Senhora vai... Céu de esperança
Coroando-lhe o perfil judaico e fino...
E um raio de ouro que lhe beija a trança
É como um grande esplendor divino.
O teu olhar, tão cheio de ondas, lança
Clarões longĂnquos de astro vespertino.
Sob a túnica azul uma alva Criança
Chora: Ă© o vagido de Jesus Menino.
Entram no Templo. Um hino do Céu tomba.
Sobre eles paira o EspĂrito celeste
Na forma etĂ©rea de invisĂvel Pomba.
Diz-lhe o velho SimeĂŁo: "Por uma Espada,
Já que Ele te foi dado e que O quiseste,
A Alma terás, Senhora, traspassada...
- ĂŹI -
Sofrer por Ele! E pálida, ofegante,
Nossa-Senhora aperta-O contra o seio.
E nas linhas tranqĂĽilas do semblante
Descem-lhe nuvens de magoado anseio.
Sofrer por Quem! Ventura semelhante,
SĂł a um peito como o seu de estrelas cheio...
Sofrer por Esse que do Céu distante
Na voz do Arcanjo do Senhor lhe veio...
Que lhe importavam lágrimas sem brilho,
Nessas horas de paz erma e saudosa,
Se ela chorava por seu prĂłprio Filho...
Sofrer pela amargura dessa Boca,
E aos Pés depor-lhe a vida desditosa,
Vida que eterna ainda seria pouca!
- III -
Que lhe importavam lágrimas? Chorasse
Desde o nascer do sol até o sol posto;
Tivesse prantos quando a lua nasce,
Quando, entre nuvens, ela esconde o rosto.
Junto ao seu Berço, a contemplar-lhe a Face,
De MĂŁe Divina no sublime posto,
Temendo que uma estrela O despertasse,
Gozo teria no maior desgosto.
Por Ele toda a mágoa sofreria...
Ah! corresse-lhe em fonte ardente o pranto
Na paz da noite e nos clarões do dia.
Sofrer por Ele... Sim. Tudo por Esse
A quem beijava os Olhos, mas contanto
Que Ele, o seu Filho amado, nĂŁo sofresse!
- IV -
E as palavras do Velho em tom celeste
Murmuraram-lhe assim: "Por uma Espada,
Já que Ele te foi dado e que O quiseste,
A Alma terás, Senhora, traspassada..."
Chorou. "GuardiĂŁo do Templo, que disseste?"
E a ansiedade passou-lhe contristada
Pela Alma, como a sombra de um cipreste
Plantado Ă beira de uma encruzilhada.
Talvez que toda aquela noite espessa
Profetizada pelo Velho, triste
Viesse envolver de luto outra Cabeça...
Sim! Pois vĂŞ-Lo sofrer era por certo
Ter em meio do peito a lança em riste,
E em chaga viva o coração aberto.
- V -
Pudesse ela poupar-lhe o sofrimento,
Adivinhar-lhe as dores e os pesares,
Ter poeiras de astros para o mal sedento,
Ter bons olhares para os maus olhares...
De repente, num rĂştilo momento,
Na Alma surgiu-lhe uma visĂŁo de altares:
Era a grandeza do seu Nascimento
No Lar eleito em meio de outros lares...
Mas que fizera para tanta glĂłria,
Sentir a Deus chamá-la Mãe querida,
Ela, mulher, como as demais corpĂłrea?
E a aparição daquele Arcanjo etéreo,
Que lhe anunciara a nova prometida,
Engrinaldou-lhe a fronte de mistério...
- VI -
De luar vestido, o fĂşlgido semblante
Entre bastos cabelos irisados,
E sobre o flanco a tĂşnica irradiante
Que eram nesgas de céus nunca sonhados:
Os seus olhos de poente e de levante
Em silĂŞncios de luz ilimitados;
Era o celeste Cavaleiro andante,
Anunciador de mĂsticos Noivados...
E que Noivado o seu! Nuvens radiosas
Cercando o Mensageiro altivo e doce,
Debaixo de amplo céu de seda e rosas...
E dentro das olheiras cor-de-goivo,
O olhar da Virgem santa eternizou-se:
O EspĂrito de Deus era o seu Noivo...
- VII -
Em teu louvor, Senhora, estes meus versos,
E a minha Alma aos teus pés para cantar-te,
E os meus olhos mortais, em dor imersos,
Para seguir-lhe o vulto em toda a parte.
Tu que habitas os brancos universos,
Envolve-me de luz para adorar-te,
Pois evitando os corações perversos
Todo o meu ser para o teu seio parte.
Que é necessário para que eu resuma
As Sete Dores dos teus olhos calmos?
Fé, Esperança, Caridade, em suma.
Que me chegue em breve o passo derradeiro:
Oh! dá-me para o corpo os Sete Palmos,
Para a Alma, que não morre, o Céu inteiro!
SEGUNDA DOR
...Angelus Domini apparuit in somnis Joseph...
Qui consurgens accepit puerum et matrem ejus
nocte, et seccessit in Aegyptum.
S. MATTH. II, 13, 14.
- I -
Eram pastores rudes e pastoras
Que o sol do Oriente em beijos enrubesce,
E transforma em visões encantadoras
Na suavidade da alva que amanhece:
Eram bandos de velhos, e de louras
Crianças gentis, as mãos postas em prece,
Frontes humildes, Almas sonhadoras,
Por onde a benção do Senhor floresce:
Era a sublime adoração do povo,
Ă€ luz daquele celestial Presepe,
Diante do leito de um menino novo:
Diante do leito em que Ele adormecia,
Hoje de flores, amanhĂŁ de crepe,
Berço de Deus, Santo-Sepulcro um dia...
- ĂŹI -
Fora uma estrela de fulgor imenso
Que os guiara, em noite deserta, ao Lugar-Santo...
Mirra trouxera Belthesar: incenso,
Gaspar: Melchior, o ouro que fulge tanto.
Eram vales e montes, e era o denso
Bosque, e o campo espraiado em verde manto:
E ao luar, todo de jaspe, e ao sol intenso,
Seguiam na asa de celeste encanto.
Quando se viram sob o mesmo teto
Que abrigara a FamĂlia imaculada,
Brotou-lhes na Alma a flor do etéreo Afeto.
E os Reis Magos, olhar humilde e terno,
Os Diademas tiraram, poeira e nada,
Diante dAquele que era o Verbo eterno...
- III -
Sagrada adoração dos três Reis Magos,
Genuflexão piedosa aos pés de Cristo,
Que nuvens augurais e que pressagos,
Ventos te guiaram para o Lar benquisto!
O insĂłlito clamor dos teus afagos,
E a mesma prece em que hoje me contristo,
Despertam do Tetrarca os Ăłdios vagos...
E as AngĂşstias chegaram depois disto.
Hás de ir, Senhora, para a terra adusta
Onde a grande Pirâmide singela
De veloz tempo os passos tolhe e susta.
Volve para Ele os olhos tristemente:
Deixa a Judéia como te revela
A estranha adoração dos Reis do Oriente.
- IV -
José, filho de Reis, o Carpinteiro
Descendente da Casa do Salmista,
Acorda em plena noite, e o corpo inteiro
Treme-lhe, e um raio lhe perturba a vista.
Alvo Kerub ideal, de olhar guerreiro,
Com uns heráldicos sables de conquista,
Surge por entre nimbos, e o nevoeiro
Que faz a grande luz Ă treva mista.
Num pantaclo estelar estava escrito:
"Ele Ă© o Filho de Deus. Acolhe-o, Esposo,
Ao solo ardente do abrasado Egito."
"Meu Deus!" exclama o Santo, e mudo espia
A áurea face do Arcanjo luminoso:
Uma fonte de lágrimas corria.
- V -
O jumento abre os olhos compassivos,
E montanhas e rios atravessa.
E a MĂŁe aflita, e o Esposo, apenas vivos,
Fazem gestos de angĂşstias e de pressa.
As horas de pavor e os aflitivos
Dias, ei-los: a Dor cedo começa.
Surgem na treva espectros redivivos:
E o pesadelo trágico não cessa...
Seguem-se dias claros, noites quentes,
E o céu, que é uma turquesa de luar cheia,
Enubla-se de lágrimas dolentes.
E parece que se ouve o leve passo
Da lua, pobre morta que passeia
Nos castelos hieráticos do espaço...
- VI -
MĂŁos que os lĂrios invejam, mĂŁos eleitas
Para aliviar de Cristo os sofrimentos,
Cujas veias azuis parecem feitas
Da mesma essĂŞncia astral dos olhos bentos:
Mãos de sonho e de crença, mãos afeitas
A guiar do moribundo os passos lentos,
E em séculos de fé, rosas desfeitas
Em hinos sobre as torres dos conventos:
Mãos a bordar o santo Escapulário,
Que revelaste para quem padece
O inefável consolo do Rosário:
MĂŁos ungidas no sangue da Coroa,
Deixai tombar sobre a minha Alma em prece
A benção que redime e que perdoa!
- VII -
Doce consolação dos infelizes,
Primeiro e Ăşltimo amparo de quem chora,
Oh! dá-me alĂvio, dá-me cicatrizes
Para estas chagas que te mostro agora.
Dá-me dias de luz, horas felizes,
Toda a inocĂŞncia das manhĂŁs de outrora:
As colunas de nuvens em que pises
Transformam-se em clarões de fim de aurora.
Tu que és Rosa branca entre os espinhos,
Estrela no alto mar e torre forte,
Vem mostrar-me, Senhora, os bons caminhos.
Que ao meditar as tuas Sete Dores,
Eu sinto na minha alma a dor de morte
Dos meus pecados e dos meus terrores...
TERCEIRA DOR
Fili, quid fecisti nobis sic? Ecce pater tuus et
ego dolentes quaerebamus te.
S. LUC. II, 48.
- I -
Fé, Esperança, Caridade, — hinário
De lausperenes e de misereres, —
Canto de paz em tempo solitário,
Fazeis sonhar em pálidas mulheres.
Fé! ter os olhos fitos no Calvário...
E a Esperança que diz: "Tudo que esperes
Virá por entre as dobras do sudário..."
E a Caridade, as Almas esmoleres!
Trindade augusta que me segue, vozes
Que vĂŞm do InacessĂvel, e coluna
Erguida em frente aos temporais atrozes:
Santas virtudes primitivas, ponde
Bênçãos nesta Alma para que ela se una
A Deus, e vá, sabendo bem por onde...
- ĂŹI -
Foi a primeira dElas que me veio,
No exĂlio do meu pávido abandono,
Aconchegar, rezando, contra o seio,
Quando longe de mim estava o outono.
Da primavera ao delicioso enleio
Florescia a minha Alma como um trono:
De lĂrios o jardim estava cheio...
Era a delĂcia do primeiro sono.
Depois, tantas serpentes pela estrada,
Ao sol, que me cegava o olhar de outrora,
E sob o luar da noite constelada...
E entre nimbos de rĂştilos altares,
O Anjo da fé, num resplendor de aurora,
Baixava as grandes asas tutelares.
- III -
A Segunda das trĂŞs IrmĂŁs, um dia,
Vendo-me Ă beira de um abismo: "Espera!"
Veio dizer-me, e pálida sorria...
De mim bem longe estava a primavera.
O meu imoto olhar de esfinge erguia
Luares de morte ao Céu, que já não era
O mesmo azul em ondas de harmonia,
Mistério ascensional que eu bendissera.
Abrindo as grandes asas fulgurantes,
A Esperança tomou-me os braços hirtos...
E o Céu ficava azul como era dantes.
Os meus olhos de mar em noite calma,
Entre festões de rosas e de mirtos,
Tombavam sobre o luto da minh'Alma.
- IV -
E foi entĂŁo que a Virgem de olhos castos,
TĂŁo branca e macerada como os cĂrios,
Surgiu em frente dos satĂŁs nefastos
Que o coração me enchiam de delĂrios.
Sobre a noite dos seus cabelos bastos
O luar resplende: as mĂŁos curam martĂrios,
E os pés flordelisados deixam rastos
De fulgor estrelar por entre lĂrios...
Uma fonte lustral de preces corre
Daqueles olhos, onde, suavemente,
A noite nasce e o dia, ao longe, morre.
— Virgem da Caridade, eu vou contigo!
E entĂŁo, pela primeira vez, ao poente,
Rezei trindade, eu, Poeta e mendigo...
- V -
Mendigo mas do teu Amor sublime,
Que ao pungente fulgor das Sete Espadas
Vem relembrar o inolvidável crime,
Através das esferas consteladas...
Fé, Esperança, Caridade, ungi-me,
Ó bênçãos da maior das Bem-Amadas!
Que eu me eleve a esse Amor que nos redime,
Ao clarĂŁo das virtudes consagradas...
Como a estrela de Efrata na sombria
Degolação dos Santos Inocentes,
Olhos, chorai as Dores de Maria.
E se dado vos for chorá-las, tanto
Que em lágrimas cegueis, mudas e crentes,
Bendita seja a noite desse pranto!
- VI -
É Sião que dorme ao luar. Vozes diletas
Modulam salmos de visões contritas...
E a sombra sacrossanta dos Profetas
Melacoliza o canto dos levitas.
As torres brancas, terminando em setas,
Onde velam, nas noites infinitas,
Mil guerreiros sombrios como ascetas,
Erguem ao Céu as cúpulas benditas.
As virgens de Israel as negras comas
Aromalizam com os ungĂĽentos brancos
Dos nigromantes de mortais aromas...
Jerusalém, em meio às Doze Portas,
Dorme: e o luar que lhe vem beijar os flancos
Evoca ruĂnas de cidades mortas.
- VII -
Foi por aquelas ruas circulares
Que O perdeste, Senhora, e que O nĂŁo viste,
Sorrindo sob a luz dos seus olhares,
Ele, o Cordeiro amargurado e triste...
Quem pudera chorar os teus pesares,
Quem, na angĂşstia a que o peito nĂŁo resiste,
Te guiara em via-sacra pelos lares,
Sentindo toda a mágoa que sentiste!
Três dias procuraste, em mágoa imensa,
Sofrendo a multidĂŁo dos hebreus rudes,
Do Filho eterno a celestial Presença...
(Fé, Esperança, Caridade, hinário
De alĂvio Ă MĂŁe aflita, áureas Virtudes
Que haveis de segui-la até o Calvário!)
Janeiro de 1897
QUARTA DOR
Et bajulans sibi crucem, exivit in eum qui
dicitur Calvariae locum...
S. JOAN. XIX, 17.
- I -
Pontius Pilatus olha-O. Quieto e fundo
Olhar mau que talvez de Ăłdio nĂŁo fosse;
De Ăłdio, nĂŁo, mas de dĂşvidas fecundo...
E Cristo era de pé, sereno e doce.
Depois, aquele olhar, que de profundo
Se fizera de escárnio, iluminou-se:
— "És o Rei dos Judeus?" Que deste mundo
O seu Reino nĂŁo era. E a Voz calou-se.
— "És Rei?" — "Disseste-o". E a multidão oprime
A Pilatus. No entanto para a turba
Ele fala: — "Não lhe acho nenhum crime.
"Ei-los, Jesus e Barabás precito:
Qual Ă morte votais?" (A dor pertuba
O Céu de amplo clamor...) — "Jesus"! foi dito.
- ĂŹI -
E Barabás era um ladrão. Perdoado
Foi da morte naquela Páscoa, e o Justo
Sofreu o atroz suplĂcio inolvidado,
Braços abertos no Madeiro augusto.
Na solidĂŁo do Monte descalvado
O vento ulula, trĂŞmulo de susto:
No Céu, que lança à terra o olhar magoado,
É sangue o luar, é sangue o sol adusto.
Soa dorida a Hora marcada. CĂrios
Em pranto, além, no Céu. Que negras noites
Estendem vĂ©us de luto aos seus MartĂrios...
Que Alma de penha quem não soluçasse
Ao ver impressa ao sangue dos açoites
A VerĂ´nica real da sua Face
- III -
Densas nuvens sem luz, como flabelos,
Velando o sol, que de pesar se ofusca,
Surgem por entre os lĂmpidos castelos,
Numa dolĂŞncia desolada e fusca.
Cristo fita no Céu os olhos belos,
Como quem meigo olhar amado busca:
E começa o martĂrio dos flagelos...
A tarde faz-se parda, a noite brusca.
Sempre-divino, o imáculo Cordeiro
Sob os golpes em fĂşria cruel parece
Que vai soltar o alento derradeiro.
mais uma vez o Azul sagrado fita,
E baixa os olhos, Ăşmidos de prece,
Ele a ClemĂŞncia, o Amor, a Paz bendita...
- IV -
Nossa Senhora encontra-O... Se nĂŁo fora
O eterno sopro que do Céu lhe vinha,
Diante dessa visĂŁo contristadora,
Certo caĂra a pálida Rainha.
É Ele, o seu Filho amado: a luz que doura
O seu cabelo, Ă© sangue: linha a linha,
É sangue o rosto: e a barba, que entre loura
E negra está, clarões de sangue tinha.
Verga-lhe as Pernas o Madeiro: os braços
A sua MĂŁe estende-lhe, chorando,
Ante a incerteza dos seus pobres Passos.
Sob irrisórios aparatos régios,
Tudo se apronta para o mais nefando,
Para o mais infernal dos sacrilégios...
- V -
Se puderas, Senhora, nesse instante
Tomar-lhe a Cruz que os Ombros lhe crucia,
E levando-a, seguir agonizante
Pela santa montanha da agonia...
Com que sorriso excelso no semblante,
Por entre sombras de melancolia,
Das nuvens sob o pálio suavizante,
A tua Alma de mĂŁe nĂŁo seguiria!
Oh Porta celestial do ParaĂso,
Ante a esperança dos teus olhos venho
Mover-te Ă compaixĂŁo de que preciso.
Possa eu, Poeta da morte, Alma de assombros,
Um dia carregar o santo Lenho
Sobre o esqueleto dos meus frágeis ombros!
- VI -
Magnificat anima mea Dominum...
"Bendita sois entre as mulheres!" Puras
Irradiações de salmos encantados
De glĂłria a ti, Senhora, nas alturas,
Por séculos de séculos sagrados.
Vejo, no entanto, as tuas Amarguras...
Senhora, que há de ser dos desgraçados,
Se tu, a mais feliz das criaturas,
Tens os olhos em lágrimas banhados?
Feliz, bem sei, pois és quem Deus mais ama...
"Donde me vem que a MĂŁe do Verbo eterno
Me venha a mim?" Santa Isabel exclama.
Passa-te na Alma a inspiração sublime:
E dos teus lábios desce o brando e terno
Hino que a glĂłria da tua Alma exprime...
- VII -
Se a Alma que aos pés vós tendes, vos parece
Indigna de chorar as vossas Dores,
Por nĂŁo poder a fervorosa prece
De um pecador subir a tais louvores:
Se a Alma que esta Coroa astral vos tece
Humildemente, com tĂŁo pobres flores,
NĂŁo devera ascender a quem nĂŁo desce
De um sĂłlio de celeste resplendores:
Se por dizer o que vos digo, e creio,
Ponho o meu triste coração aberto
Ao desamor do Imaculado Seio:
Perdoai-me o zelo fiel que me consome,
Que estes meus versos valerĂŁo por certo,
Porque neles fulgura o Vosso Nome...
QUINTA DOR
Ubi crucifixerunt eum, et cum eo alios duos
hinc et hinc, medium autem Jesum.
S. JOAN. XIX, 18.
- I -
Senhor Jesus, que sois toda a bondade,
Muitas vezes faz frio e a mágoa é intensa
Na minha Alma, e esta angĂşstia que me invade
Clama só pela vossa real Presença...
Amparai-me com a vossa caridade:
Vindo, como virá, da luz imensa
Da vossa MĂŁo (de toda a eternidade),
Há de ser grande sempre a recompensa.
Seja um sinal apenas de conforto,
Um gesto simples que, tombando do Alto,
Possa animar-me o coração já morto.
Fujam de mim as tentações do Inferno:
Que Ă© o momento de contemplar o assalto
Contra a glĂłria do vosso Corpo eterno.
- ĂŹI -
E tu, Senhora, cujo olhar tranqĂĽilo
De nuvens brancas a minha Alma veste,
Olhar sublime que foi tudo aquilo
Que no Céu encontrei de mais celeste:
Tu, ermida sagrada onde me exilo,
Longe da fome, e sede, e guerra, e peste,
A mostrar-me no Céu, para segui-lo,
Todo o luar da esperança que me deste:
MĂŁe dolorosa! num momento incerto
Virás abrir-me os rútilos sacrários
De tua Alma que está de Deus tão perto...
Virás, talvez, e então, por certo, as minhas
Mãos de sombra debulharão rosários
Para a maior de todas as Rainhas...
- III -
De mim piedade vĂłs tereis. Bem ledes
Que espero o que jamais me será dado...
Mas a minha Alma Ă© um templo sem paredes
Em que penetra o sol de cada lado.
Com os vossos olhos sinto que vĂłs vedes
A desgraça em que vivo encastelado...
Oh as sedes siderais! Eternas sedes
Suavizadas no mundo constelado.
Mas com que amor cheio de unção e glória
Convosco chorarei as vossas Dores
Na outra vida e na vida transitĂłria...
E possa eu ver-vos, na hora das Trindades,
Tendo aos pés, em etéreos resplendores,
Tronos, Dominações e Potestades...
- IV -
Pois sede teve o vosso FIlho na hora
Em que Vós, e Elas, a seus Pés vos vistes,
Certo coroadas por suprema aurora,
Mas todas três tão pálidas, tão tristes...
O seu Olhar, cheio de dor, nĂŁo chora,
Resignado ante as Dores que sentistes,
VĂłs, torre de marfim, santa Senhora,
Alma que em pranto astral vos diluĂstes!
E então secos os Lábios, a Garganta
Em fogo, Ă© o instante do cruel martĂrio:
"Sede"! geme-lhe a Voz que se quebranta.
Na ponta de uma lança ergue-se a Esponja:
Mais se enlanguesce a vossa cor de lĂrio,
E esse perfil que predizia a monja...
- V -
Iam Maria mais José e o Infante
Louro na fuga para o Egito. RuĂdos
Soam: a tarde vai caindo, e diante
Deles surgem, velozes, dois bandidos.
— "Somos pobres!" e a voz é um sonho errante.
Gestas assalta os Pais entristecidos;
Dimas a Criança toma, e o seu semblante
É outro; sente harpas de Anjos nos ouvidos...
E faz Gestas abandoná-los. Ora,
Esses ladrões, os Dois, crucificados
Com aquele mesmo Infante estĂŁo agora.
DEle se lembra Dimas, indeciso:
— "Vós, Senhor!" e Jesus (... Lábios sagrados!)
— "Serás hoje comigo em ParaĂso."
- VI -
Junto da Cruz, em pé, Maria estava,
E perto dela, JoĂŁo. Jesus, que os via,
Para os dois entes celestiais olhava,
Olhos saudosos de melancolia.
— "Eis teu filho, Mulher." E João chorava.
E a mesma Voz dulcĂssima dizia
Ao discĂpulo que Jesus amava:
— "Eis tua mãe." Pouco depois, morria.
Sobre-humanas delĂcias nunca vistas
Vieram, brancas, beijar a Alma tĂŁo pura
Do mais suave dos Quatro Evangelistas.
Meio S. JoĂŁo! fado de glĂłrias pĂ´s-te
A mĂŁo de Deus: que Ă© a maior ventura
Ser amado de Cristo como foste.
- VII -
VĂŞ-Lo nĂŁo vos bastava, doce Dama,
Longe dos vossos maternais carinhos;
Sentir que a plebe vil, que ruge e clama,
Viesse em fúria assaltá-Lo nos caminhos:
Escarros que tombavam como lama
Sobre Quem Ă© mais alvo que os arminhos:
E a Fronte real, em radiações de flama,
Cingida pelas pontas dos Espinhos:
Açoites, bofetadas, Cravos, Chagas,
E a Esponja, e a Lança, e o Fel, e a Sede estranha,
E o Sangue santo que corria em bagas:
Tudo era pouco para as vossas Dores...
Que ainda havĂeis de vĂŞ-Lo na Montanha,
Expirando entre dois salteadores!
Abril de 1898
SEXTA DOR
Joseph autem mercatus sindonem, et deponens
eum involvit sindone...
S. MARC. XV,46.
- I -
Branco cĂrio de luz nunca apagado,
Que entre orações velais eternamente,
VĂłs floristes de azul o meu passado,
E sois a flor de lis do meu presente.
Quantas vezes, Senhora, eu que transviado
Vivia, como quem nĂŁo vĂŞ nem sente,
Nem ouve, e até de vós desmemoriado,
Tive o auxĂlio do vosso amor clemente!
o vosso nome há de cantá-lo em verso
Terso, e mavioso, o Poeta miserando
Que nos seus hinos castos vive imerso:
Alma coroada de coroas verdes
E de ramos dominicais, orando,
Vereis, se os olhos para mim volverdes...
- ĂŹI -
O teu nome, Senhora, Ă© a estrela da alva
Que entre alfombras de nuvens irradia:
Salmo de amor, canto de alĂvio, e salva
De palmas a saudar a luz do dia...
Pela primeira vez, quando a veste alva
A mĂŁo do Sacerdote me vestia,
Ouvi-o: e na hora batismal, oh! salva
A alma que o santo nome repetia...
Foram-se os anos... e sonho que me segue
A doçura infinita dos teus olhos
Que me dĂŁo luzes para que eu nĂŁo cegue:
Doce clarĂŁo de estrela em fins da tarde,
Que há de encontrar-me trêmulo, de giolhos,
Com remorsos de te adorar tĂŁo tarde...
- III -
Ela Ă© o asilo da mendicidade:
Ei-los que vĂŞm, os mĂseros pedintes...
(Musa, não lhe dirás a suavidade,
Por mais suaves as cores com que a pintes!)
Maio! SĂŁo rezas virginais. Invade
O templo a humilde multidĂŁo de ouvintes.
Quem acompanha o mĂŞs, quanta saudade
Não guardará nas épocas seguintes!
O Altar é todo branco: arde o Santo-Óleo
Em frente ao Filho eterno, e Ela, magoada,
Mais resplandece no sagrado SĂłlio...
Reza por mim, Senhora! Ah quem me dera
Sentir no peito, agora, a mesma Espada
Aguda e funda que te dilacera...
- IV -
E recebeste-O nos teus braços. Vinha
Do alto do Lenho onde estivera exposto
Ao Ămpio olhar, tĂŁo Ămpio! da mesquinha
MultidĂŁo que insultava o santo Rosto...
Sangue o Peito suavĂssimo continha,
Num resplandor de raios de sol posto...
Oh! Vinha do Senhor, excelsa Vinha
Em cachos siderais de etéreo mosto!
Sangue que se derrama em ondas, sangue
Que para a salvação dos homens, corre
Purpureamente brand, e O deixa exangue...
E que correndo como entĂŁo corria,
Por toda a eternidade nos socorre
No mistério eternal da Eucaristia...
- V -
Morto... mas vivo em todos nĂłs, em cada
Alma que O queira receber em prece,
Pois Ele Ă© a casta flor desabrochada
Que nas santas PartĂculas floresce...
Vive dentro de nĂłs como a alvorada
No Céu: bem longa seja a noite, a messe
De astros longĂnquos morre, e a doce fada
Que fia os raios de ouro, resplandece...
Tem lábios que consolam, Mãos tão finas
Que dĂŁo carĂcias Ă Alma que O procura,
Cante o sol, chorem horas vespertinas...
E sempre ao pé de nós, anda nos ermos
Enchendo céus e terra com a ventura
Que envia aos corações que estão enfermos...
- VI -
Ora José de Arimatéia viera
Tomar o Corpo de Jesus. Mais cedo
Nicodemos no GĂłlgota estivera,
E com mirra voltara. E tinham medo.
Pois cada um destes homens puros era
Do bom Senhor discĂpulo em segredo,
Por temor dos judeus. Logo o soubera
O Sinedrim judaico, injusto e tredo.
Junto ao lugar do SacrifĂcio, um horto
Havia, e nele um monumento aberto
Onde nunca pousara nenhum morto.
Sepultaram-No, e a lápide fechou-se.
Viu-se depois o tĂşmulo deserto:
Voara ao Céu Quem o Céu consigo trouxe.
- VII -
Eu sei cantar o sofrimento: basta,
Para cantá-lo bem, já ter sofrido...
Pois a musa que pelo chĂŁo se arrasta
Sobre às vezes ao Céu como um balido.
Mas canto e sempre-humana dor. A vasta
DolĂŞncia angelical, o almo gemido
Que vem pungir-vos a Alma pura e casta,
Oh! nĂŁo... Que para tal nĂŁo fui nascido.
Nem pretendo, Senhora (fora um sonho)
Dizer toda a agonia que sofrestes
Nos versos que ante vĂłs, humilde, ponho.
Por mais nobre que seja, Ă© sempre tosco,
tem sempre versos pálidos como estes
O Poeta que quiser chorar convosco.
SÉTIMA DOR
... et posuit eum in monumento quod erat
excisum de petra.
S. MARC. XV,46.
- I -
SĂł! e ao redor de ti, Senhora, olhaste:
Gemia a solidĂŁo de extremo a extremo.
E o infinito silĂŞncio interrogaste
Com a clemĂŞncia do teu olhar supremo.
Goivos tristes penderam, suaves, da haste,
Orvalhados na dor do pranto extremo,
Os mesmos olhos com que tu choraste
Quando ouviste rugir o Ăłdio blasfemo.
Asas de cisne, além, pairava, incerto,
O ermo clarĂŁo do luar sobre o deserto,
Indefinido e irial, dos olhos teus...
Virgem da Soledade, ancila triste,
Ah! quem dissera a mágoa que sentiste:
Ser do Céu e viver longe de Deus!
- ĂŹI -
Só... e cheio de estrelas era o espaço,
E sorria aos teus pés a terra em flores;
O Céu, abrindo o celestial regaço,
Queria consolar as tuas Dores.
Vias, em sonho, o Olhar já morto e baço
Que perdoara os satânicos furores,
E trilhavas, chorando, Passo a Passo.
A Rua dos pungentes Amargores.
Ele era a fonte branca da Virtude,
O cordeiro sagrado que se imola,
Cheio de paz, e amor, e mansuetude...
Sempre tranqĂĽilo em frente aos inimigos,
Era o consolo extremo, a santa esmola,
Neste mundo de sombras e mendigos...
- III -
SĂł... Mas quem te fizera companhia,
Neste mundo, depois de Ele a ter feito?
Quem, Senhora dolente, poderia
Conter o mesmo amor daquele Peito?
Viesse-te Ele buscar naquele dia
Em que te abandonara, o Olhar desfeito
Em astros: e a tua Alma vagaria
Nas barbacas e torres do seu Preito...
As harmonias célicas, suaves,
Para saudar-te, oh santa Bem-Amada,
Gorjeariam como um bando de aves.
E novo som nas harpas, novo brilho
Nas esferas da mĂstica Morada,
Quando chegasses junto com o teu Filho...
- IV -
Portas do Céu que dais para a outra vida,
Diante de mim, de par em par, abri-vos...
E a oblação da minha alma entristecida
Chegue ao limiar dos tronos primitivos.
ErmitĂŁo que procura a quieta ermida,
Isolada dos mortos e dos vivos,
Evoco a luz da terra prometida...
Falazes sonhos meus contemplativos!
Vagueando pela vastidĂŁo cerĂşlea,
Minha Alma Ă© como um hino que se expanda
Em louvores de sempiterna dĂşlia...
Exaude, Virgem branca, intemerata,
A fervorosa prece miseranda,
— Rosário que entre os astros se desata...
- V -
Havias, pois, de vĂŞ-Lo, muito em breve,
Na suprema hierarquia do infinito,
No trono de ouro nacarado em neve,
Sublime e santo, como estava escrito.
Mas, agora, choravas. E que leve
Véu te enublava o olhar nos astros fito:
A lembrança cruel da Parasceve
Vinha magoar-te o coração bendito.
Ei-Lo embaixo da Cruz pesada e amara,
Que envilecera a tantos, mas que santa,
Por-Lhe haver dado a morte, se tornara.
Sobe, gemendo, as infernais escarpas:
Na eternidade um coro se alevanta
De violinos, de cĂtaras e de harpas...
- VI -
Entorna sobre mim as soberanas
Inspirações que brotam dos Altares,
Oh carisma de amor que tudo irmanas,
Serva de Deus, Esposa dos Cantares.
São matinas e vésperas... Hosanas
E aleluias a ti por sobre os mares,
A ti, branca açucena que dimanas
Dos celestes jardins que nĂŁo tĂŞm pares.
Aleluias a ti por sobre a terra:
O espĂrito do mal, imundo e sevo,
Como um fluido incoercĂvel, nos aterra...
Ah! Senhora, que sempre tu me prezes
Como a um filho: eis a prece que te elevo
Em meio ao temporal dos meus reveses.
- VII -
Doce MĂŁe de Jesus, se vos nĂŁo pude
Engrandecer por toda a eternidade,
Se o meu estilo, Ă s vezes, fraco e rude,
Bem longe está da vossa ideal bondade:
Se a minha musa edĂŞnica se ilude,
Quando julga rezar com suavidade,
Quando cheia de zelo e de virtude
Vem falar-vos de vĂłs com tal saudade:
Perdoai-me, vĂłs que engrinaldais com flores
Castas as liras, feitas para a prece,
De tantos macerados trovadores...
Estes versos sĂŁo como um lausperene:
Mais fizera, Senhora, se eu pudesse
Oficiar no Mosteiro de Verlaine.
Maio de 1898