
Dominicus
Nossa Senhora, na terceira aparição em Fátima, em 13 de julho de 1917, falou pela primeira vez sobre a consagração da Rússia e a comunhão reparadora. Nestes termos ela oferecia o único remédio decisivo e eficaz contra os males do mundo atual:
Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior [...]. Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.
Nossa Senhora retornou anos mais tarde, conforme havia prometido, a fim de pedir a consagração da Rússia. Aconteceu o retorno em 13 de junho de 1929, em Tui, na Espanha, no convento das Irmãs Doroteias, onde Lúcia ingressara:
É chegado o momento em que Deus pede ao Santo Padre fazer, em união com todos os bispos do mundo, a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio. São tantas as almas que a Justiça de Deus condena por pecados contra Mim cometidos, que venho pedir reparação; sacrifica-te por esta intenção e ora.
A Santíssima Virgem é clara na indicação de que se não deve consagrar nem o mundo nem outro país qualquer ao Seu Imaculado Coração, mas tão-somente a Rússia.
Não existe outro pedido explícito de consagração nas mensagens de Fátima, Pontevedra e Tui, recebidas entre 1917 e 1929 por Irmã Lúcia, a qual tem absoluta certeza de haver transmitido com fidelidade as palavras de Nossa Senhora. Atesta-o Pe. Alonso, o grande especialista oficial de Fátima:
De fato, Lúcia, em 1917, desconhecia a realidade político-geográfica da Rússia, desconhecia até mesmo o nome do país. Interrogada por seu diretor, o Pe. Gonçalves, para que esclarecesse como chegou ao conhecimento da Rússia ou porque se recordara do nome da Rússia, e para que transmitisse o que Nossa Senhora lhe pedira na aparição de julho, respondeu Lúcia: “Até então, só tinha ouvido falar dos galegos e dos espanhóis, não sabia o nome de nenhum país. Mas o que percebíamos durante as aparições de Nossa Senhora ficava de tal modo gravado em nós que nunca esqueceríamos. Por isso é que eu sei bem, e com certeza, que Nossa Senhora falou expressamente da Rússia em julho de 1917” (Por eso es que yo sé bien, y con certeza, que Nuestra Señora hablo expresamente de Rusia, en julio de 1917)[1].
Nos escritos acerca da consagração, Irmã Lúcia menciona apenas a Rússia. Veja-se por ex. a carta que ela[2] enviou ao Papa Pio XI em março de 1937, em que ademais vinculava a consagração da Rússia à devoção reparadora dos primeiros sábados:
O bom Deus promete terminar a perseguição na Rússia, se Vossa Santidade se dignar fazer e mandar que o façam igualmente os Bispos do mundo católico, um solene e público ato de reparação e consagração da Rússia aos Santíssimos Corações de Jesus e de Maria, e aprovar e recomendar a prática da devoção reparadora[3].
Por que a Rússia?
A Rússia é o maior país do mundo, contando atualmente com 17 milhões de quilômetros quadrados e 140 milhões de habitantes. Distâncias inauditas separam os pontos extremos do território: dez mil quilômetros entre Vladvostok a leste e a fronteira polonesa a oeste (onze fusos horários); dois mil, de norte a sul. Dezenas de povos de línguas diferentes o habitam e constituem um como epítome da humanidade. Em suma, é lícito afirmar que a Rússia é o maior império do mundo em continuidade territorial[4].
Já no séc. XIX escrevia Dom Guéranger:
A cada dia aumenta o poderio dos eslavos separados da Igreja Católica. Emancipadas do jugo muçulmano, formaram-se jovens nações naquela espécie de arquipélago, que são os Balcãs, [...] a direção moral e religiosa dessas nações ressuscitadas pertence à Rússia. Aproveitando as vantagens com a useira habilidade, ela estende cada vez mais sua influência no Oriente. Na Ásia seus progressos são ainda mais prodigiosos. O tzar, que no fim do séc. XVII comandava apenas 30 milhões de homens, hoje em dia governa 125 milhões; e com a só progressão normal duma população fecundíssima, em menos de 50 anos contará o império com mais de 200 milhões de súditos.
Para infelicidade da Rússia e da Igreja, tal força se deixa guiar por superstições[5].
Força é ainda não esquecer a cismática Igreja russa de Moscou, que se julga a si a terceira Roma. Já declarava o metropolitano Zózimo (1462-1533), no cânon pascal de 1492: “Cairam duas Romas[6], Moscou há de ser a terceira, e quarta não haverá”. Desde então vem se fortalecendo a idéia da terceira Roma. Em 1512 o monge Filotéio de Pskov, em A História do Mundo, dava ao cap. XII do Apocalipse esta interpretação espantosa:
A mulher vestida de sol [...] abandonará a velha Roma, por causa dos ázimos[7]. [...] Ela foge para a nova Roma, mas lá também não encontrará a paz[8]; foge então para a terceira Roma, que se localiza na grande e nova Rússia; agora a Igreja una e apostólica resplende por todo o universo, mais brilhante que o sol, e somente o tzar a guia e protege.
Ivan III o Grande (1462-1533) e Ivan IV o Terrível (1533-1584) estimularam bastante essa idéia[9].
Por isso não é acaso que o inimigo do gênero humano tenha escolhido a Rússia como ponto de partida para “disseminar sobre o planeta as instituições e os costumes do ateísmo[10]”.
Mas Deus, como de costume, voltará contra satã o plano diabólico: o instrumento de nossa infelicidade, depois da conversão, tornar-se-á instrumento de catolicização no mundo inteiro. Novamente Dom Guéranger:
A Rússia católica é o fim do islã e o triunfo definitivo da Cruz no Bósforo, sem riscos para a Europa; é o Império Cristão do Oriente elevado a um esplendor e poder inauditos; é a Ásia evangelizada, não mais por curas pobres e isolados, mas secundados por uma autoridade superior a de Carlos Magno. Enfim, trata-se da grande família eslava reconciliada na unidade de fé e aspirações de grandeza. Esta transformação será o maior acontecimento do século que há-de testemunhá-lo e mudará a face da terra[11].
Depois de o Papa consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria em união com os bispos do mundo inteiro, a Virgem Maria encarregar-se-á pessoalmente da conversão da Rússia[12].
Alcance teológico da consagração da Rússia
Numa carta ao diretor espiritual, de 18 de maio de 1936, escrevia Irmã Lúcia as linhas seguintes:
Intimamente, tenho falado com Nosso Senhor sobre o assunto [da consagração da Rússia]; e há pouco perguntava-Lhe por que não convertia a Rússia sem que Sua Santidade fizesse essa consagração. “Porque quero que toda a minha Igreja reconheça essa consagração[13] como um triunfo do Imaculado Coração de Maria, para depois estender o seu culto e pôr, ao lado da devoção do meu Divino Coração, a devoção deste Imaculado Coração.” Mas, meu Deus, o Santo Padre não me há-de crer, se Vós mesmo não o moveis com uma inspiração especial. “O Santo Padre! Ora muito pelo Santo Padre! Ele há de fazê-la, mas será tarde! No entanto, o Imaculado Coração de Maria há-de salvar a Rússia. Está-Lhe confiada[14].
Deus quer a espetacular conversão da Rússia mediante a Consagração ao Imaculado Coração de Maria, para que se estabeleça no mundo esta devoção de par com a devoção ao Sacratíssimo Coração de Jesus. Demais a mais, Nossa Senhora reiterara tal vontade em 13 de maio de 1917 ([“Jesus”] quer estabelecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração”.) e em 13 de julho do mesmo ano (“Deus quer estabelecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração.”)
Nosso Senhor almeja glorificar aos olhos do mundo Aquela com quem Ele se associou para o cumprimento da obra da salvação: eis o sentido da devoção reparadora dos primeiros sábados, cujo objetivo é reparar os pecados cometidos contra o Coração de Maria; eis também o sentido da consagração da Rússia e do poder atribuido ao Imaculado Coração para alcançar a vitória final: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará.”
O Coração por que se deu o primeiro passo da salvação (o Fiat de Maria no dia da Anunciação) é agora a última oportunidade de salvação que se oferece à humanidade.
Caso os homens respondam ao triplo chamado de Fátima (conversão pessoal, devoção reparadora e consagração da Rússia), a justiça divina, que hoje pune o mundo com guerras, calamidades e toda casta de perseguições contra a Igreja, dará lugar à misericórdia que num átimo acabará com tais provações e concederá algum tempo de paz. Enquanto os homens continuem surdos aos chamados do Céu, as desgraças hão de continuar e aumentar.
A comunhão reparadora e a consagração da Rússia lograrão uma prodigiosa efusão da misericórdia divina, comparável às bênçãos agregadas às indulgências[15]: os atos que Nossa Senhora nos pediu são como que condições, cujo cumprimento nos alcança uma indulgência de dimensões mundiais.
A consagração da Rússia se remete à teologia da Aliança: “Se guardardes a minha Aliança, disse Iavé aos Hebreus, [...] vós sereis para mim um povo de sacerdotes e uma nação consagrada” (Ex 19, 5-6). Nosso Senhor, no momento de oferecer-se ao Pai no sacrifício da Nova Aliança, disse aos discípulos: “Por eles, eu me santifico a mim, a fim de que sejam santificados na verdade” (Jo 17, 19). Consagrar e santificar são sinônimos. Quem consagra a Deus, santifica; a consagração oferece a Deus um objeto, comparticipando-o de Sua santidade. Ao consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, e por este a Nosso Senhor, o Papa confiá-la-ia à ação da Misericórdia redentora, e recolocaria o triste país nos trilhos da conversão e da santificação. Compreende-se que a Rússia – outrora símbolo da independência em face de Deus, instrumento ativo e primeira vítima do processo de ateisação do mundo moderno – necessite, para que se cure, duma consagração especial que a reporá nos trilhos da dependência, de que nunca deveria ter saído. Como a consagração estará aos cuidados de Maria, esse ato também será a reafirmação solene da mediação universal de Nossa Senhora – mediação esta que é objeto da zombaria dos modernistas (e esta não é nem de longe a pior blasfêmia dirigida à Virgem).
Mas é lícito uma pessoa consagrar outrem a Deus? Não pressupõe a consagração o livre assentimento? Entende-se a objeção, mas Leão XIII a contestou na encíclica Annum Sacrum, de 25 de maio de 1899, que anunciava a consagração do mundo inteiro ao Sacratíssimo Coração de Jesus:
A sua autoridade não se estende somente aos povos que professam a fé católica e àqueles que, validamente batizados, pertencem por direito à Igreja (ainda que os erros doutrinais os mantenham afastados dela ou dissensões infrinjam os vínculos da caridade). [...] Nós ocupamos no lugar daquele que veio salvar o que estava perdido e deu o seu sangue pela salvação de todos os homens. Eis porque nossa solicitude está continuamente dirigida àqueles que ainda jazem na sombra da morte [...] comovidos pelo seu destino, recomendamo-los vivamente ao Sacratíssimo Coração de Jesus e, no que nos diz respeito, consagramo-los a ele[16].
Em primeiro lugar, a consagração é reconhecimento de pertença: consagrar algo ou alguém a Deus é reconhecer o domínio soberano de Deus sobre a pessoa ou coisa. O compromisso assumido no ato é apenas consequência desta pertença. No caso da consagração da Rússia, quem se compromete em nome do país consagrado é o responsável por sua salvação eterna – o Papa. Nossa Senhora solicita um ato solene, realizado em união com os bispos do mundo inteiro, que desta sorte reconhecerão a primazia e o poder supremo do soberano pontífice.
A mediação de Maria, pela qual se há de fazer a consagração, traz à lembrança que agora o homem está chamado a cooperar na efusão da misericórdia divina; foi o Imaculado Coração de Maria a resposta mais perfeita que uma criatura já deu ao plano da salvação inaugurado por Deus, e é este Coração o modelo perfeitíssimo da correspondência às graças que Deus quer derramar sobre a pobre Rússia para salvá-la[17].
Infelizmente os sucessores de São Pedro se mostraram mui reticentes ao cumprimento deste plano.
A Recusa de Pio XI
Entre setembro de 1930 e agosto de 1931, certamente Pio XI tomou conhecimento dos pedidos celestes sobre a devoção e a consagração da Rússia[18].
Todavia, o Papa Pio XI, ao lado das democracias ocidentais, estava comprometido desde 1922 com a política de abertura do leste, já esboçada por Bento XV[19]. Ademais o Papa fez esta declaração assustadora: “Quando se trata de salvar alguma alma e impedir os grandes males que as põem a perder, Nós sentimos coragem de discutir com o diabo em pessoa[20].” Entretanto este não foi o pedido de Nossa Senhora.
A resposta ao pedido da Consagração da Rússia foi o silêncio; a partir de 1930-31, o Papa calou até mesmo as alusões aos acontecimentos de Fátima.
Depois da recusa do Papa Pio XI, Nosso Senhor disse à Irmã Lúcia, numa comunicação íntima em agosto de 1931, em Rianjo[21]:
Participa aos Meus ministros que, dado seguirem o exemplo do rei de França na demora em executar o Meu mandato, tal como a ele aconteceu, assim o seguirão na aflição [22].
Empreendeu-se nova tentativa no final de março de 1937: Mons. Corrêa da Silva, bispo de Leiria-Fátima, escreveu diretamente ao Papa, que acabava de lançar a magnífica encíclica Divini Redemptoris (de 19 de março de 1937). Parece que esclarecido pelos fracassos nas negociações com o que chamava de “o triângulo terrível”, il terribile triangolo[23], o Papa mudava de atitude e declarava com firmeza:
O comunismo é intrinsecamente perverso e não se pode admitir em campo nenhum a colaboração com ele, da parte de quem quer que deseje salvar a civilização cristã [24].
O momento parecia favorável à consagração da Rússia, mas a única resposta foi um silêncio semelhante ao de 1930-1931.
Se o Papa houvesse obedecido aos pedidos celestes, certamente a Rússia converter-se-ia e não aconteceriam a II Guerra Mundial nem a assustadora expansão do comunismo.
Bem ao contrário, foi no pontificado de Pio XI que Moscou começara a instruir os partidos comunistas para que enviassem militantes aos seminários católicos, a fim de infiltrar a Igreja e miná-la por dentro[25].
É perigoso ignorar os planos celestes de salvação e as manobras do inimigo.
As consagrações incompletas de Pio XII
Pio XI morreu em 10 de fevereiro de 1939.
Em 21 de janeiro de 1940 Irmã Lúcia propôs ao confessor, o Pe. Gonçalves, renovasse ante a Santa Sé o pedido de Consagração da Rússia. Em abril de 1940 transmitiram o recado a Pio XII. Pensava Pe. Gonçalves que o Papa realizaria a consagração em maio; era lícito esperar tal atitude do novo pontífice, pois que ele era mui devoto da Santíssima Virgem e benevolente às aparições de Fátima. Mas não houve reação em Roma.
A consagração do mundo de 1942
Por iniciativa do Mons. Manuel Ferreira, bispo titular de Gurza, decidiram os diretores espirituais de Lúcia em setembro e outubro de 1940 intentar um novo esforço perante o Santo Padre, apresentando-lhe um requerimento mais factível: a consagração do mundo, com especial menção à Rússia[26]. Mons. Ferreira ordenou Lúcia a escrever ao Papa Pio XII e formular este novo pedido que, sendo diferente do de Nossa Senhora, mergulhou-a em grande perplexidade. Em busca de nova luz Irmã Lúcia recorreu instante à oração. Eis a narração do fato:
22 de outubro de 1940. Recebi uma carta do Pe. Gonçalves e do bispo de Gurza, ordenando-me a escrever a Sua Santidade... Neste sentido, passei duas horas diante de Nosso Senhor exposto [e recebi a seguinte revelação]:
“Reza pelo Santo Padre, sacrifica-te para que o coração dele não sucumba sob a amargura que o oprime. A tribulação continuará e aumentará. Eu punirei os crimes das nações com a guerra, a fome e a perseguição à minha Igreja, que pesará especialmente sobre meu Vigário sobre a terra. Sua Santidade conseguirá que esses dias de tribulação sejam abreviados se ele obedecer aos meus desígnios e fazer o ato de consagração do mundo inteiro, com especial menção à Rússia, ao Imaculado Coração de Maria[27].
A revelação de outubro de 1940 e as dirigidas a Alexandrina Maria da Costa aparecem como o derradeiro instrumento de resgate que apresentou a misericórdia divina ante a persistente desobediência da autoridade suprema da Igreja à mensagem de Fátima. Para este pedido novo e secundário promete-se novo fruto, mui inferior àquele do pedido principal: a abreviação da grande calamidade que Nossa Senhora anunciou em 13 de julho de 1917 – a II Guerra Mundial.
Em 31 de outubro de 1942 o Papa Pio XII realizou a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria e renovou-a em 8 de dezembro de 1942. O texto não fazia menção explícita à Rússia, tão-só uma alusão velada, mas de suficiente transparência, à pobre nação:
A Vós, ao vosso Coração Imaculado, nesta hora trágica da história humana, confiamos, entregamos, consagramos não só a Santa Igreja, corpo místico de vosso Jesus, [...] mas também todo o mundo, dilacerado por exiciais discórdias, abrasado em incêndios de ódio, vítima de suas próprias iniqüidades.
Comovam-Vos tantas ruínas materiais e morais; tantas dores, tantas agonias dos pais, das mães, dos esposos, dos irmãos, das criancinhas inocentes; tantas vidas ceifadas em flor; tantos corpos despedaçados numa horrenda carnificina; tantas almas torturadas e agonizantes, tantas em perigo de se perderem eternamente!
Vós, Mãe de misericórdia, impetrai-nos de Deus a paz! e primeiro as graças que podem num momento converter os humanos corações, as graças que preparam, conciliam, asseguram a paz! Rainha da paz, rogai por nós e dai ao mundo em guerra a paz por que os povos suspiram, a paz na verdade, na justiça, na caridade de Cristo. Dai-lhe a paz das armas e das almas, para que na tranquilidade da ordem se dilate o Reino de Deus.
Estendei a vossa protecção aos infiéis e a quantos jazem ainda nas sombras da morte; dai-lhes a paz e fazei que lhes raie o Sol da verdade, e possam conosco, diante do único Salvador do mundo, repetir: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade! (Luc. 2, 14).
Aos povos pelo erro ou pela discórdia separados, nomeadamente àqueles que Vos professam singular devoção, onde não havia casa que não ostentasse a vossa veneranda ícone (hoje talvez escondida e reservada para melhores dias), dai-lhes a paz e reconduzi-os ao único redil de Cristo, sob o único e verdadeiro Pastor. [28]
Para reavivar a lembrança da consagração, o Papa Pio XII mais tarde fixaria a celebração do Imaculado Coração de Maria em 22 de agosto, conferindo a ela a dignidade de festa de segunda classe[29].
A misericórdia divina outorgou o prometido fruto da consagração: mostra-nos o exame objetivo da história que, em todas as frentes de batalha, houve uma reviravolta decisiva em favor dos Aliados nos meses finais de 1942 e iniciais de 1943; decerto tal reviravolta permitiu a abreviação da duração da II Guerra Mundial.
Entretanto Irmã Lúcia não se iludia quanto aos efeitos da consagração de 1942:
“O Bom Deus tinha-me mostrado já o Seu contentamento pelo ato, ainda que incompleto, segundo o Seu desejo, do Santo Padre e de vários Bispos. Em troca, promete acabar breve a guerra. A conversão da Rússia não será já[30].
Os acordos de Ialta (4 de fevereiro de 1945) consolidaram o poder comunista em nível internacional.
É preciso recordar que, em 1941, Pio XII – sob a pressão de Roosevelt, que ansiava ingressar na guerra ao lado da Inglaterra e também de Stalin – admitiu que a hierarquia católica calasse a perversidade intrínseca do comunismo e a impossibilidade de colaborar com ele. Em câmbio prometeu-se convocar a Igreja para participar do esforço de reconstrução do pós-guerra[31]. Certamente o silêncio de Pio XII facilitou em muito o trabalho da maçonaria na organização da nova ordem, que previa entregar todo o leste europeu ao comunismo, o qual fortalecido em sua nova posição avançaria mais tarde em direção à Ásia: China, Vietnã, Camboja, etc[32].
A encíclica Sacro Vergente Anno de 1952
Neste ínterim o céu manifestava-se ao Papa: nos dias 30 e 31 de outubro e 1º e 8 de novembro (dias circumpostos à data da definição solene do dogma da Assunção), o Santo Padre viu dos jardins do Vaticano a renovação do milagre do sol de 13 de outubro de 1917, mas Pio XII nada fez.
Em maio de 1952 apareceu Nossa Senhora novamente à Irmã Lúcia:
Faz saber ao Santo Padre que Eu ainda estou à espera da Consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração. Sem a Consagração da Rússia, a Rússia não poderá converter-se e o mundo não terá paz[33].
Sem dúvida, após aquela mensagem e de concerto com o movimento dos católicos russos, que anelavam o cumprimento dos pedidos de Nossa Senhora, Pio XII escreve uma Carta Apostólica aos Povos da Rússia, em que declara:
Nós consagramos e de uma forma mais especial confiamos todos os povos da Rússia a este Imaculado Coração [34].
“Estou triste de que [a consagração da Rússia] não foi feita tal como Nossa Senhora pediu”, escrevia Irmã Lúcia no verão[35].
Desta vez faltou ao ato a devida solenidade: nomeou-se a Rússia, mas não houve nenhuma cerimônia em particular, nem foram os bispos do mundo inteiro conclamados a unir-se nesta intenção.
No ano seguinte, em Siracusa na Sicília, uma estátua de gesso do Imaculado Coração de Maria desatou a chorar e a operar milagres que abalaram o mundo[36]. Ao que parece Pio XII não associou este acontecimento à Fátima.
Ao contrário, após Sacro Vergente Anno, o Santo Padre quase já não falava de Fátima. Os adversários da aparição, por seu turno, à imitação do Pe. Dhanis, exerciam cada vez mais influência, bem como os que se opunham à doutrina de Maria Medianeira[37]. A partir de então se restringiram as visitas à Irmã Lúcia: “O Papa decidiu que somente pessoas que já a houvessem visitado poderiam vê-la sem autorização expressa da Santa Sé[38].” Começava-se a impor o silêncio à mensageira do céu.
No entanto convém precisar um ponto importante: se por interesses da política americana Pio XII teve por bem calar a Divini Redemptoris – com as consequências incalculáveis que tal silêncio acarretou –, ele rejeitava qualquer tipo de colaboração com Moscou.
Qual não foi a sua dor quando, em outubro de 1954, provou-se que Mons. Montini, o futuro Paulo VI, então secretário substituto da Secretaria de Estado, mantinha à socapa conversações secretas com o Kremlin[39]. Pio XII decidiu afastar logo Montini, mas como sempre estivesse disposto a refrear o falatório, elevou-o a um cargo honorífico – arcebispo de Milão – sem contudo nomeá-lo cardeal. Desta forma excluía-se Mons. Montini do próximo conclave, mas infelizmente ele foi alçado a um posto bem conveniente ao que lhe reservava o futuro.
Depois de Pio XII a situação complicou-se, à medida que os papas de espírito liberal e modernista ocuparam a Sé de Pedro; mais que nunca iria concretizar-se o alerta de Nosso Senhor:
Participa aos Meus ministros que, dado seguirem o exemplo do rei de França na demora em executar o Meu mandato, tal como a ele aconteceu, assim o seguirão na aflição [Nosso Senhor à Irmã Lúcia, em agosto de 1931.]
A Igreja entrava numa crise sem precedentes na história[40], e a sua finalidade era a punição da hierarquia.
Imbuidos dos ideais modernos, os novos papas ficaram muito pouco à vontade com a mensagem catolicíssima da Virgem Maria em Fátima.
João XXIII e os acordos entre Roma e Moscou
Ao passo que a abrangência mundial do comunismo se tornava cada vez mais alarmante, em razão das recusas em atender aos pedidos de Nossa Senhora, o Papa João XXIII resolveu assinalar seu pontificado com o sinal do otimismo, sem levar em nenhuma conta as advertências celestes nem as dos inúmeros colaboradores que o cercavam. Sabe-se bem o que disse ele no discurso de abertura do Concílio Vaticano II:
Parece-nos que devemos discordar desses profetas da desventura, que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se estivesse iminente o fim do mundo.[41]
Soam estranhas tais palavras, se as comparam com os apelos da Virgem Santíssima em Fátima. Em agosto de 1959, ao tomar conhecimento do terceiro segredo de Fátima, o Papa decidiu não publicá-lo, decisão esta que caiu como um balde d’água fria sobre o grande fervor pela devoção de Nossa Senhora de Fátima, que aumentava sobremodo às portas dos anos 1960. A partir de 1959 João XXIII começou a diligenciar para que não fosse mais possível visitar Irmã Lúcia sem licença de Roma[42].
Nesse contexto entende-se porque nunca exigiram a consagração da Rússia durante o pontificado de João XXIII; bem ao contrário, João XXIII, na intenção de que se autorizasse o envio de dois representantes da igreja cismática da Rússia ao Concílio Vaticano II, negociou com Kruschev, por intermédio do Mons. Willebrands e do Card. Tisserant, e se comprometeu a não condenar o comunismo. Sobre o acordo disse Mons. Roche:
A decisão de convidar os observadores ortodoxos russos para o Concílio Vaticano II partiu de Sua Santidade em pessoa, encorajado pelo Cardeal Montini, que na época em que era arcebispo de Milão fora o conselheiro do patriarca de Veneza. Ou melhor, era o Card. Montini que conduzia em segredo a política da Secretaria de Estado durante a primeira sessão do Concílio, a partir do escritório clandestino que o Papa lhe arrumou na famosa Torre de São João, dentro dos muros da Cidade do Vaticano.
O Card. Tisserant recebeu ordens formais de negociar o acordo e cuidar de sua aplicação rigorosa durante o Concílio. Por isso, cada vez que um bispo começava a discutir o problema do comunismo, o cardeal, da mesa do conselho de presidência, intervinha e recordava a recomendação de silêncio, segundo a vontade do Papa[43].
O comedimento nas relações com Moscou não surtiu nenhum efeito na atenuação das perseguições: Kruschev continuou a deter os padres e multiplicou o número de igrejas fechadas. Não se deve comer com o diabo, mesmo com uma colher de cabo longo.
Paulo VI e a Ostpolitik
O Concílio não condena o comunismo
João XXIII morreu antes do fim do Concílio; coube a Paulo VI levá-lo a termo e confirmar os acordos entre Roma e Moscou: não havia razão de desautorizar uma política de que, desde 1962, era ele um dos principais promotores.
Assim, quando em outubro de 1965 Mons. Léfèbvre remeteu ao Secretário do Concílio uma súplica, redigida por Mons. Carli e assinada por 454 bispos, em que se impetrava a inserção duma condenação ao comunismo na constituição Gaudium et Spes, que versava sobre a Igreja no mundo – a petição não foi levada em consideração. Escutemos Mons Léfèbvre narrando os fatos:
É algo absolutamente inaudito na história da Igreja. Reuniu-se um concílio pastoral, ou que se dizia pastoral, i .e., destinado ao cuidado das almas e à salvação dos fiéis e do mundo; contudo, ao maior dos males, ao mais ignóbil e dissolvente para a sociedade, a pessoa humana e a liberdade – que é o comunismo –, afirmam: “- Não o condenaremos durante o Concílio.”
Pessoalmente conheço algo sobre o assunto. Eu, junto com Mons. Sigaud, reunimos 450 assinaturas em favor da condenação do comunismo. Eu mesmo as levei ao secretariado do Concílio. Mas foram engavetadas! Ainda tentaram veicular que nunca houve tal manifestação no Concílio. Eu mesmo levei os documentos em pessoa, e guardei a lista dos bispos que pediam a condenação. É de fato inacreditável. Fui testemunha disso. Levantei-me para protestar. Desmentiram a apresentação das 450 assinaturas, depois disseram que haviam chegado tarde demais e já não sabiam onde estavam. Na verdade, eles decidiram que não se condenaria o comunismo, para que viessem os delegados de Moscou[44].
A reunião dum concílio universal em meio ao séc. XX seria a ocasião providencial de se consagrar a Rússia de forma solene ao Imaculado Coração de Maria, tal como Nossa Senhora pediu. Os acordos entre Roma e Moscou impossibilitaram um ato desse quilate e se constituíram no principal obstáculo à paz oriunda dos céus. Mais ainda, o requerimento que Mons. de Proença apresentou, assinado por 510 bispos de 78 nações, em que se instava renovasse o Concílio a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria com especial menção à Rússia, teve destino semelhante àquele de condenação ao comunismo[45].
O Desprezo por Fátima
Paulo VI não escondia o desprezo por Fátima – e nesta afirmação não há nenhum exagero. Em 13 de maio de 1967 ele se dirigiu à Cova da Iria para o cinquentenário das aparições, mas se limitou a fazer uma viagem de ida e volta. Lá celebrou apenas uma missa chã em português, na presença de um milhão de peregrinos, recusou a entrevista que Irmã Lúcia lhe requereu e não rezou na Capelinha, como previa o programa da visita. No sermão exortou a humanidade ao esforço de paz, mas não aludiu à mensagem de Nossa Senhora. Escreveu Robert Serrou que Paulo VI foi até Fátima, pois “estava certo de encontrar ali uma das mais extraordinárias tribunas do mundo, donde sua voz ecoaria em toda a superfície da terra[46].” Contudo pregara ali a paz só humana, como fizera na ONU, uma vez que seus planos não coincidiam com os do Céu[47].
Além disso, na reforma litúrgica, Paulo VI rebaixou a festa do Imaculado Coração de Maria, que Pio XII elevara à dignidade de festa de segunda classe, a uma simples memória[48].
Desenvolvimento da Ostpolitik
Escutemos o Cardeal Sodano, secretário de estado, resumir a política de Paulo VI ante Moscou, cujo artífice foi Mons. Cassaroli:
Durante o pontificado de Paulo VI se desenvolve a primeira e a mais árdua fase da Ostpolitik, i. e., a negociação sobre o Cardeal Mindszenty e a possibilidade de nomear bispos na Hungria; as conversações extenuantes e intermináveis com o governo tcheco, que iriam continuar até a queda de Mur; o acordo de Belgrado com o governo de Tito; e finalmente as conversas com o governo polonês. [...] Registre-se a recusa que o governo polonês contrapôs a uma viagem de Paulo VI, ainda que brevíssima, a Czestochowa, e a visita de Mons. Caseroli às dioceses polonesas em 1967, que o levou até a Cracóvia, para um encontro cordial e importante com o Cardeal Wojtyla.
No pontificado de Paulo VI, a experiência multilateral da Santa Sé toma impulso na Conferência de Helsinque (1973-1975), ocasião em que a delegação vaticana obtém o reconhecimento explícito da liberdade religiosa (sétimo princípio da Ata de Encerramento), que dá legitimação formal aos requerimentos da Igreja nas negociações bilaterais em face de cada governo. Terminaria o pontificado com o pedido do Papa ao corpo diplomático, em janeiro de 1978, para que os católicos e crentes de todas as confissões “se beneficiassem” do espaço de liberdade que se devia à fé em suas expressões pessoais e comunitárias. Este requerimento solene parece que tem o valor profético dum conselho moral de Paulo VI a seu sucessor[49].
Aprofundavam-se assim as negociações com o demônio; como tais acordos não estavam nos planos do Céu, não haveriam de terminar bem. O arcebispo tcheco Mons. Hnilica juntou coragem e deu uma resposta vigorosa ao livro de Casaroli: realmente mereceria o cardeal o título de mártir da paciência, que os editores conferiram em sua honra?
Parece-me inapropriado e injusto usar a palavra mártir em honra de certas pessoas, que não foram mártires e que, por via de ações diplomáticas sofisticadas e no caso improváveis, contribuiram de facto ao agravamento notável do verdadeiro martirio dos verdadeiros mártires. [...] Neste ponto de vista, é singular o testemunho dos verdadeiros mártires. Segundo eles, seus sofrimentos cresceram sobremaneira em decorrência da ação daqueles de quem esperavam apoio e sustento[50].
João Paulo I
O pontificado de 33 dias de João Paulo I não lhe deu tempo hábil para responder aos pedidos de Nossa Senhora.
Quando era arcebispo de Veneza, ele manifestou interesse e devotamento aos acontecimentos de Fátima, e chegou mesmo a travar uma longa conversa com Irmã Lúcia, em 11 de julho de 1977, durante uma peregrinação diocesana[51].
Sublinhe-se ainda que João Paulo I aceitara totalmente o Concílio. Sobre a liberdade religiosa dizia: “Por anos ensinei a tese que aprendi no curso de direito público ministrado pelo Cardeal Ottaviani, segundo a qual só a verdade gozava de direitos. Estudei o problema a fundo e no fim me convenci de que estávamos enganados[52].” Aludindo aos tradicionalistas afirmava: “Alguns abusos na liturgia talvez favorecessem reações e atitudes que levaram à tomada de posições insustentáveis e contrárias ao Evangelho[53].”
Ele haveria segredado a um de seus conselheiros: “Se eu viver, retornarei à Fátima e consagrarei o mundo, em particular os povos da Rússia, à Santa Virgem, conforme as indicações que ela deu à Irmã Lúcia[54].”
Mas a consagração não se limita à recitação duma simples oração: antes, tal ato significaria a renúncia total à política que João XXIII e Paulo VI praticaram até então. Teria João Paulo I a força e sobretudo as convicções necessárias para realizá-la?
Nada autoriza afirmá-lo, uma vez que sua alcunha papal era a combinação das de seus predecessores imediatos; além disso, ele estava comprometido com as diretivas do Vaticano II e da reforma litúrgica.
João Paulo II prossegue a Ostpolitik
Assentado à Sé de Pedro, João Paulo II prosseguiu com a política de abertura do leste, em continuação a Paulo VI. Retornemos à conferência do Cardeal Sodano:
Em outubro de 1978, a eleição do Papa João Paulo II introduziu novidades importantíssimas nas relações com o leste: 1) a experiência pessoal dum pastor que suportara a opressão e as injustiças cometidas contra seu povo; 2) a afirmação inscrita na encíclica Redemptor Hominis, de que os direitos do homem e as liberdades fundamentais têm sua raiz única na dignidade da pessoa e constituem o critério de verificação da legitimidade dos regimes de qualquer país; 3) o orgulho da nação polonesa que reivindicava a restituição de sua dignidade cristã.
Este foi um amplo desafio que o Papa do leste lançou à URSS e aos demais regimes comunistas, enquanto as negociações prosseguiam com maior impulso sob a condução do Cardeal Caseroli, agora secretário de estado. [...As conversações] almejavam a recuperação dos espaços de oração, a possibilidade da formação para a catequese, a difusão de idéias quais a dignidade da pessoa e a liberdade de consciência, que contraditavam a ideologia e a organização do mundo comunista. Deste modo a ação paciente e infatigável contribuira, durante muito tempo [...] para que se operasse a erosão do sistema dos regimes comunistas, atingindo-os justamente no que consideravam essencial à sua ideologia – o controle das mentes[55].
Os homens da Igreja não diligenciavam pelo reino de Jesus e de Maria, fruto da consagração da Rússia, mas pela difusão dos Direitos Humanos e da liberdade de consciência; de fato este plano não veio do Céu.
Além disso, no começo de seu pontificado, João Paulo II era indiferente à Fátima; contudo a tentativa de assassinato de 13 de maio de 1981 atraiu-lhe de súbito a atenção à mensagem de Nossa Senhora, quiçá devido a remorsos de consciência. Decidiu-se pois a fazer alguma coisa.
Tentativas de consagração
Quando se publicou o terceiro segredo de Fátima em 2000, Mons. Bertone, secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, relatou as tentativas de consagração que João Paulo II intentou. Aqui a versão oficial do Vaticano.
Reagrupamos as consagrações de 1981 e 1982, pois os textos são idênticos.
Após o atentado de 13 de maio de 1981, João Paulo II pediu a sobrecarta em que estava a terceira parte do “segredo”. [...]
Como se sabe, o Papa João Paulo II logo pensou na consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria e chegou a compor uma oração para o que definia como “um ato de consagração” a celebrar-se na basílica de Santa Maria Maior, em 7 de junho de 1981, na solenidade de Pentecostes, em dia escolhido para comemorar o 1600º aniversário do I Concílio de Constantinopla e o 1550º aniversário do Concílio de Éfeso. Estando o Papa ausente, por força das circunstâncias[56], transmitiu-se a alocução em gravação. Aqui oferecemos o texto que se refere exatamente ao ato de consagração:
“Ó Mãe dos homens e dos povos, Tu[57] conheces todos os seus sofrimentos e as suas esperanças, Tu sentes maternalmente todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas que agitam o mundo — acolhe o nosso grito dirigido no Espírito Santo, diretamente ao Teu coração e abraça com o amor da Mãe e da Serva do Senhor os povos que mais esperam este abraço, e ao mesmo tempo os povos cuja consagração Tu também esperas de modo particular. Toma debaixo da tua proteção maternal a família humana inteira que, com afetuoso transporte, a Ti, ó Mãe, nós confiamos. Aproxime-se para todos o tempo da paz e da liberdade, o tempo da verdade, da justiça e da esperança.” [58]
Esta cerimônia não é a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria em união com os bispos do mundo inteiro, mas antes a entrega, mediada pelo Papa, da “família humana inteira” às mãos da “Mãe dos Homens e dos Povos”.
Não se nomeou claramente o Imaculado Coração de Maria: o texto menciona “coração” sem mais precisões.
O Papa renovará o ato em 13 de maio de 1982, em Fátima.
A Irmã Lúcia reagiu imediatamente, remetendo o seguinte texto ao Mons. Portalupi, núncio apostólico em Portugal:
No ato de oferecimento de 13 de maio de 1982, a Rússia não apareceu claramente como o objeto da consagração. Os bispos não organizaram em suas dioceses cerimônias públicas e solenes de reparação e de consagração da Rússia. O Papa João Paulo II simplesmente renovou a consagração do mundo feita por Pio XII em 31 de outubro de 1942. Podem-se esperar alguns benefícios, mas não a conversão da Rússia[59].
E conclui ela:
A consagração da Rússia não foi feita como Nossa Senhora pediu. Eu não pude fazer esta declaração até agora porque não tinha autorização da Santa Sé[60].
A consagração de 25 de março de 1984
Prossigamos com o texto de Mons. Bertone:
A fim de responder com plenitude aos pedidos de “Nossa Senhora[61]”, quisera o Santo Padre explicitar, no curso do Ano Santo da Redenção, o ato de consagração de 7 de junho de 1981, repetido em Fátima em 13 de maio de 1982. Em 25 de março de 1984, na praça de São Pedro, em união espiritual com todos os bispos do mundo – “convocados” previamente – e à evocação do fiat de Maria no momento da Anunciação, o Papa consagrou ao Imaculado Coração de Maria os homens e os povos, com inflexões que recordam as palavras comoventes de 1981:
“Ó Mãe dos Homens e dos povos, Vós que conheceis todos os seus sofrimentos e as suas esperanças, Vós que sentis maternalmente todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, que abalam o nosso mundo contemporâneo, acolhei o nosso clamor que, movidos pelo Espírito Santo, elevamos diretamente ao Vosso Coração; e abraçai, com o amor da Mãe e da Serva do Senhor, este nosso mundo humano, que Vos confiamos e consagramos, cheios de inquietude pela sorte terrena e eterna dos homens e dos povos.”
“De modo especial Vos entregamos e consagramos aqueles homens e aquelas nações, que desta entrega e desta consagração têm particularmente necessidade.”
“‘À Vossa proteção nos acolhemos Santa Mãe de Deus!’ Não desprezeis as nossas súplicas que a Vós elevamos, nós que estamos em provação!”
“Encontrando-nos hoje diante de Vós, Mãe de Cristo, diante do Vosso Coração Imaculado, desejamos, juntamente com toda a Igreja, unir-nos com a consagração que, por nosso amor, o Vosso Filho fez de Si mesmo ao Pai: “Por eles eu consagro-me a Mim mesmo – foram as suas palavras – para eles serem também consagrados na verdade (Jo. 17,19).”
“Queremos unir-nos ao nosso Redentor, nesta consagração pelo mundo e pelos homens, a qual, no seu Coração divino, tem o poder de alcançar o perdão e de conseguir a reparação.”
“A força desta consagração permanece por todos os tempos e abrange todos os homens, os povos e as nações; e supera todo o mal, que o espírito das trevas é capaz de despertar no coração do homem e na sua história, e que, de fato, despertou nos nossos tempos.”
Oh! quão profundamente sentimos a necessidade de consagração, pela humanidade e pelo mundo: pelo nosso mundo contemporâneo, em união com o próprio Cristo! Na realidade, a obra redentora de Cristo deve ser pelo mundo participada por meio da Igreja. [...]
“Ajudai-nos[62] a viver na verdade da consagração de Cristo pela inteira família humana do mundo contemporâneo.”
“Confiando-Vos, ó Mãe, o mundo, todos os homens e todos os povos, nós vos confiamos também a própria consagração do mundo, depositando-a no Vosso Coração materno[63].”
Seria esta a consagração que Nossa Senhora pediu?
Antes do mais, João Paulo II, em união com os bispos, consagrou o mundo; chega até a repeti-lo diversas vezes, sem alusões – ainda que veladas – à Rússia[64]. Na homilia da missa da manhã, celebrada em Roma, o Papa declara sua intenção:
Cumprir duma vez por todas o que meus predecessores já fizeram: confiar o mundo ao Coração de Maria.
Todo o mundo sabe que seus predecessores