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Category: Pe. Félix Sardá y SalvanyConteúdo sindicalizado

28. Se há ou pode haver na Igreja ministros de Deus atacados do horrível contágio do liberalismo

Por desgraça, é muito comum que se encontrem eclesiásticos contaminados de liberalismo, o qual se favorece em grande medida deste fato. Nestes casos, a singular teologia de certa gente converte em argumento de grande peso a opinião ou os atos de tal ou qual eclesiástico; disto tivemos experiências deploráveis em todos os tempos na Espanha católica. Convém, pois, tratar deste ponto ressalvando todos os respeitos, e perguntar com sinceridade o seguinte: Pode haver ministros da Igreja manchados de liberalismo?

Sim, amigo leitor, sim, infelizmente pode haver também ministros da Igreja que sejam liberais exaltados, liberais moderados ou eivados de liberalismo, exatamente como entre os leigos. Não está isento o ministro de Deus de pagar o miserável tributo à fraqueza humana, e por conseguinte, várias vezes o tem pago ao erro contra a fé.

E que tem isto de extraordinário, se não houve jamais uma única heresia na Igreja de Deus que não tenha sido criada ou propagada por um eclesiástico? Mais ainda, é historicamente certo que, se desde o começo não houvesse clérigos a seu serviço, em nenhum século as heresias teriam causado problemas ou se desenvolvido.

O clérigo apóstata é o primeiro fator que busca o diabo para realizar sua obra de rebelião. Necessita apresentá-la com aparência de autoridade aos olhos dos incautos, e para isso nada lhe serve tanto como a firma de um ministro da Igreja. E como infelizmente nunca faltam nela clérigos corrompidos em seus costumes, corrupção por onde mais comumente a heresia caminha; ou cegos de soberba, causa também muito freqüente de todo erro; daí que a este último, sob todas as formas e em todas as manifestações, nunca lhe tenham faltado apóstolos e fautores eclesiásticos.

Judas, que começou em seu próprio apostolado a murmurar e a semear suspeitas contra o Salvador, e acabou por vendê-lo a seus inimigos, é o primeiro tipo do sacerdote apóstata e semeador de cizânia entre seus irmãos. Ora, notai bem, Judas foi um dos doze primeiros sacerdotes ordenados pelo próprio Redentor.

A seita dos Nicolaítas originou-se com o diácono Nicolau, um dos sete primeiro diáconos ordenados pelos Apóstolos para o serviço da Igreja, e companheiro de Santo Estêvão, protomártir.

Paulo de Samosata, grande heresiarca do século III, foi bispo de Antioquia.

Novaciano, padre de Roma, foi o pai e fundador do cisma dos Novacianos, que tanto perturbou a Igreja universal.

Melécio, Bispo de Tebaida, foi autor e chefe do cisma dos Melecianos.

Tertuliano, também sacerdote e eloqüente apologista, cai na heresia dos Montanistas e nela morre.

Entre os Priscilianistas espanhóis, que causaram tanto escândalo em nossa pátria no século IV, figuram os nomes de Instâncio e Salviano, dois bispos, desmascarados e combatidos por Higínio, e condenados em um concílio reunido em Saragoça.

De todos os heresiarcas que teve a Igreja, Ário talvez tenha sido o principal. O Arianismo chegou a arrastar consigo tantos reinos como o Luteranismo o fez hoje; Ário era um padre de Alexandria, ressentido de não ter alcançado a dignidade episcopal. Esta seita teve um clero tão numeroso que por muito tempo, em grande parte do mundo, não houve outros bispos e sacerdotes senão os arianos. 

Nestório, outro famoso herege dos primeiros séculos da Igreja, foi monge, padre, bispo de Constantinopla e grande pregador. Dele procedeu o Nestorianismo.

Eutiques, autor do Eutiquianismo, era padre e abade de um monastério de Constantinopla.

Vigilâncio, o herege taberneiro tão elegantemente satirizado por São Jerônimo, fora ordenado sacerdote em Barcelona.

Pelágio, autor do Pelagianismo, objeto de quase todas as polêmicas de Santo Agostinho, era monge, e doutrinado nos erros sobre a graça por Teodoro, bispo de Mopsuesta.

O grande cisma dos Donatistas chegou a contar com grande número de clérigos e bispos. Deles diz um historiador moderno (Amat, Hist. de la Iglesia de J. C.): “Todos imitaram logo a altivez de seu chefe Donato. Possuídos de uma espécie de fanatismo de amor-próprio, não houve evidência, nem obséquio, nem ameaça que pudesse apartá-los do seu ditame. Os bispos acreditavam-se infalíveis e impecáveis; e os fiéis que seguiam estas idéias se imaginavam seguros, seguindo os seus bispos mesmo contra toda evidência.”

Sérgio, Patriarca de Constantinopla, foi o pai e doutor dos hereges Monotelistas.

Félix, bispo de Urgel, foi dos Adopcianos. 

Constantino, bispo de Natólia; Tomás, bispo de Claudiópolis e outros prelados combatidos por São Germano, patriarca de Constantinopla, caíram na seita dos Iconoclastas.

Do grande cisma do Oriente não precisamos nomear os autores, pois é sabido que o foram Fócio, patriarca de Constantinopla, e seus bispos sufragâneos.

Berengário, o perverso detrator da Sagrada Escritura, foi arcediago da Catedral de Angers.

Wicliffe, um dos precursores de Lutero, era pároco na Inglaterra.

João Huss, seu companheiro de heresia, era também pároco na Boêmia. Os dois foram condenados e executados como chefes dos Wiclefitas e Hussitas.

De Lutero basta recordar que foi monge agostinho de Wittemberg.

De Zuínglio, que foi pároco de Zurique.

De Jansênio, bispo de Iprés, que foi autor do maldito Jansenismo.

O cisma anglicano, promovido pela luxúria de Henrique VIII, foi principalmente apoiado pelo seu favorito, o arcebispo Cranmer.

Na Revolução francesa, os mais graves escândalos na Igreja de Deus foram dados pelos padres e bispos revolucionários. As apostasias que afligiram os homens de bem naqueles tristíssimos tempos causam espanto e horror, e a Assembléia Francesa testemunhou cenas que o leitor pode ler em Henrion ou qualquer outro historiador.

O mesmo sucedeu depois na Itália. Conhecidas são as apostasias públicas de Gioberto, de frei Pantaleão, de Passaglia, e do Cardeal Andrea.

Na Espanha, houve padres nos clubes da primeira época constitucional; padres nos incêndios dos conventos; padres ímpios nas Cortes; padres nas barricadas; padres entre os primeiros introdutores do protestantismo depois de 1869. Sob o reino de Carlos III, houve bispos jansenistas em abundância (veja-se sobre isto o tomo III dos Heterodoxos de Menéndez Pelayo). Muitos deles pediram em suas cartas pastorais a iníqua expulsão da Companhia de Jesus, e muitos a aplaudiram. Hoje mesmo, em várias dioceses espanholas, são conhecidos publicamente alguns padres apóstatas e casados após sua apostasia, como é lógico e natural.

Está portanto constatado que, desde Judas até o ex-padre Jacinto, a raça dos ministros da Igreja traidores de seu Chefe e vendidos à heresia se sucede sem interrupção; que, ao lado e diante da tradição da verdade, há também na sociedade cristã a tradição do erro; que, em contraste com a sucessão apostólica dos ministros bons, o inferno possui uma sucessão diabólica dos ministros pervertidos, o que não deve escandalizar ninguém. Recorde-se a este propósito a sentença do Apóstolo, que não se esqueceu de prevenir-nos: É preciso que haja heresias, para que se manifeste quem são entre vós os verdadeiros fiéis.

27. Terminando a tão oportuna e decisiva citação de “La Civiltá Cattolica”

”Temos defendido, prossegue a Civiltá, contra os liberais, a nossa maneira especial de escrever, demonstrando sua perfeita conformidade com a caridade que tão constantemente nos recomendam. E visto que até aqui falávamos a liberais, ninguém se surpreenderá com o tom irônico que temos empregado com eles, e convencidos estamos de que não é excesso de crueldade opor com algumas poucas figuras retóricas os ditos e feitos do liberalismo. Mas já que tocamos hoje neste assunto, não será talvez ocioso que, mudando de estilo e repetindo agora o que já noutra ocasião escrevemos com o mesmo propósito, terminemos este artigo com algumas palavras dirigidas seriamente e com todo o respeito aos que, não sendo de modo algum liberais, mas antes firmes adversários do liberalismo, possam todavia crer que jamais é lícito, escreva-se contra quem quer que seja, sair de certas formas de respeito e caridade, às quais julguem não estarem talvez suficientemente submetidos nossos escritos.

 

“Querendo responder a esta censura, tanto pelo respeito devido a essas pessoas, como pelo interesse de nossa própria defesa. E cremos não o poder fazer melhor, do que brevemente resumindo aqui o que o Pe. Mamachi, da ordem do Pregadores, diz de si mesmo na introdução ao livro III de sua doutíssima obra, Do livre direito da Igreja de adquirir e possuir bens temporais:

 

“Alguns, diz, embora confessem estar convencidos de nossas razões, declaram-nos contudo amigavelmente que teriam preferido mais moderação nas respostas que damos a nossos adversários. Não temos combatido por nós, mas pela causa de Nosso Senhor e da Igreja, e por mais que nos ataquem com manifestas mentiras e atrozes imposturas, jamais quisemos sair em defesa de nossa própria pessoa. Se empregamos, pois, alguma expressão que possa parecer a alguém áspera ou exagerada, que não se faça a injustiça de pensar que isso provenha de nosso mau coração ou do rancor que tenhamos aos escritores que combatemos; deles não recebemos injúrias, nem sequer os conhecemos ou com eles temos relações. O zelo que devemos ter pela causa de Deus é que nos colocou na situação de gritar e levantar a nossa voz como voz de trompeta.

 

“Mas, e o decoro do homem honrado? E as leis da caridade? E as máximas e exemplos dos santos? E os preceitos dos apóstolos? E o espírito de Jesus Cristo?

 

“Calma, aos poucos chegaremos lá. É verdade que os homens pervertidos e enganados devem ser tratados com caridade, mas apenas quando haja fundada esperança de os conduzir à verdade com tal procedimento. Se não há tal esperança, e sobretudo se está provado por experiência que calar-nos e não revelar publicamente a têmpera e o caráter de quem espalha erros redunda em gravíssimo dano aos povos, seria crueldade não levantar com toda a liberdade o grito contra o propagandista, e deixar de lhe dirigir frontalmente as invectivas que bem merece.

 

“Os Santos Padres, por certo, tinham conhecimento muito claro das leis da caridade cristã. Por isso, o Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino, no princípio de seu célebre opúsculo Contra os impugnadores da Religião, apresenta Guilherme e seus sequazes (que com certeza não estavam ainda condenados pela Igreja) como ‘inimigos de Deus, ministros do diabo, membros do Anticristo, inimigos da salvação do gênero humano, difamadores, semeadores de blasfêmias, réprobos, perversos, ignorantes, imitadores de Faraós piores que Joviniano e Vigilâncio. Por acaso temos nós chegado a tanto?

 

“Contemporâneo de Santo Tomás foi São Boaventura, que entendeu dever increpar com a maior dureza a Geraldo, chamando-o de insolente, caluniador, louco, ímpio, asno chapado, fraudulento, envenenador, ignorante, embusteiro, malvado, insensato, pérfido. Alguma vez chamamos assim a nossos adversários?

 

“Muito justamente — prossegue o Pe. Mamachi — é chamado melífluo São Bernardo. Não nos deteremos a copiar aqui o que escreveu durissimamente contra Abelardo. Contentaremo-nos em citar o que escreve contra Arnaldo de Bréscia, pois havendo este levantado bandeira contra o clero, querendo privá-lo de seus bens, foi um dos precursores dos políticos de nossos tempos. Trata-o, pois, o santo doutor de desordenado, vagabundo, impostor, vaso de ignomínia, escorpião vomitado de Bréscia, visto com horror em Roma e abominação na Alemanha, desdenhado do Sumo Pontífice, glorificado pelo diabo, artífice de iniqüidade, devorador do povo, boca cheia de maldição, semeador de discórdias, fabricador de cismas, lobo feroz’.

 

“São Gregório Magno, repreendendo João, bispo de Constantinopla, lança-lhe à face seu ‘profano e nefando orgulho, sua soberba de Lúcifer, suas néscias palavras, sua vaidade, seu curto talento’.

 

“Do mesmo modo falaram São Fulgêncio, São Próspero, São Jerônimo, o papa São Sirício, São João Crisóstomo, Santo Ambrósio, São Gregório Nazianzeno, São Basílio, Santo Hilário, Santo Atanásio, Santo Alexandre, bispo de Alexandria, os santos mártires Cornélio e Cipriano, Atenágoras, Irineu, Policarpo, Inácio de Antioquia, Clemente, todos os Padres enfim, que nos melhores tempos da Igreja se distinguiram por sua heróica caridade.

 

“Omitirei os cautérios aplicados por alguns destes aos sofistas do seu tempo, ainda que menos delirantes do que os dos nossos, e agitados de menos ardentes paixões políticas.

 

“Citarei apenas algumas passagens de Santo Agostinho, que observou ‘que os hereges são tão mais insolentes quanto menos repreensão sofrem; e que muitos, dirigem àqueles que os repreendem os epítetos de brigões e provocadores’. E depois acrescenta: ‘que alguns extraviados devem ser tratados com uma caridosa aspereza’. Vejamos agora como colocava em prática as regras traçadas por ele mesmo. A vários chama sedutores, malvados, cegos, tontos, inchados de soberba, caluniadores; a outros, impostores de cujas bocas só saem monstruosas mentiras, perversos, maledicentes, delirantes, néscios estúpidos, furiosos, frenéticos, espíritos das trevas, rostos desavergonhados, línguas insolentes. E a Juliano lhe dizia: ‘Ou tu calunias de propósito, inventando tais coisas, ou não sabes o que dizes, acreditando em embusteiros’; e noutro lugar o chama de ‘enganador, mentiroso, de juízo insano, caluniador, néscio’.

 

“Respondam agora nossos acusadores: temos dito alguma vez coisa parecida? E não estamos muito abaixo disto?

 

“Mas basta já desse extrato, em que não pusemos palavra nossa, apesar de termos omitido algumas do Pe. Mamachi, como a indicação da fonte nas obras dos Santos Padres, com intuito de abreviar. Igualmente, não transcrevemos a parte da defesa, em que o mesmo Padre tira do Evangelho iguais exemplos de caridosa aspereza.

 

“De tais exemplos, pois, nossos amáveis censores bem podem deduzir que a sua crítica, qualquer que seja o motivo, quer se baseie em um princípio moral ou em regras de conveniência social e literária, encontra-se plenamente refutada pelo exemplo de tantos santos, dos quais alguns foram excelentes literatos, ou, pelo menos que ela fica muito desautorizada e reduzida a um valor muito incerto.

 

“E se agora, à autoridade dos exemplos quisermos reunir à das razões, muito breve e claramente as expôs o Cardeal Pallavicini, no capítulo II do livro I de sua História do Concílio de Trento. Neste capítulo, antes de começar a provar como Sarpi foi ’perverso, de notória malícia, falsário, réu de enormes traições, depreciador de toda religião, ímpio e apóstata‘, o sábio cardeal diz, entre outras coisas, que ’assim como é caridade não perdoar a vida a um malfeitor, para salvar muitos inocentes, assim é caridade não perdoar a fama de um ímpio, para salvar a honra de muitos bons‘. Toda a lei permite que, para defender um cliente de uma falsa testemunha, se mostre em juízo e se prove tudo o que pode infamar esta última, ato que, em outras circunstâncias, seria castigado com gravíssima pena. Por isso eu, que defendo neste tribunal do mundo, não um cliente particular, mas toda a Igreja Católica, seria vil prevaricador, se não estampasse no rosto das testemunhas falsas as nódoas de infâmia que anulem, ou ao menos enfrequeçam o seu testemunho.

 

“Se, pois, todos julgariam prevaricador o advogado que, podendo demonstrar que quem acusa seu cliente é um caluniador, não o fizesse por razões de caridade, por que então acusar de ter violado a caridade quem cumpriu seu dever contra os perseguidores de toda espécie de inocência? Seria desconhecer a instrução que dá São Francisco de Sales em sua Filotéia, no final do capítulo XX da 2ª parte: “Faço exceção dos inimigos declarados de Deus e de sua Igreja, os quais devem ser difamados tanto quanto possível (sem faltar com a verdade), sendo grande obra de caridade gritar: ‘o lobo!’, quando está entre o rebanho, ou visível onde quer que se encontre.”

 

 

Assim se exprime La Civiltá Cattolica (vol. I, série V, página 27), cujo artigo tem a força de sua elevada e respeitabilíssima origem; a força das razões irrefutáveis que aduz; a força, por fim, dos gloriosos testemunhos que apresenta. Parece-nos que muito menos era preciso para convencer quem não seja liberal, ou miseravelmente contaminado de liberalismo.

26. Continua a bela e contundente citação da Civiltá cattolica

O famoso artigo da Civiltá Cattolica e nossa oportuníssima citação continuam assim: 

”Se os liberais nos pedem a verdadeira caridade, a única que lhes convém e que nós, como redatores da Civiltá Cattolica, lhes podemos e devemos dar, tão longe estamos de querer negá-la que, ao contrário, julgamos tê-la prodigado bastante até agora, senão segundo todas as suas necessidades, ao menos segundo a nossa possibilidade.

 

“Os liberais cometem um intolerável abuso de palavras dizendo que nós não usamos de caridade para com eles. A caridade, una em seu princípio, é variada e multiforme em suas obras. Muitas vezes, o pai que bate fortemente em seu filho, tanto usa de caridade como o que o cobre de beijos. E ocorre freqüentemente que a caridade do pai que beija seu filho seja inferior à do pai que o castiga.

 

“Nós batemos nos liberais, não negamos, e batemos neles com muita freqüência (com palavras, é claro), mas quem poderá concluir deste fato que nós não os amamos, que não temos caridade para com eles? Isto poderia ser dito antes daqueles que, malgrado as prescrições da caridade, interpretam mal as intenções do próximo. No que nos diz respeito, tudo o que os liberais poderão dizer é que nossa caridade para com eles não é a caridade que desejam. Mas nem por isso deixa de ser caridade, sim senhor, e grande caridade; e visto que são eles que pedem caridade, e nós os que lha concedemos em vão, bem poderiam recordar aqui o velho provérbio: ’A cavalo dado não se olhe para o pelo’.

 

“A caridade que queriam de nós, seria a de os louvar, admirar, apoiar, ou de ao menos os deixar agir à vontade. Nós, ao contrário, não queremos fazer-lhes senão a caridade de gritar-lhes, repreendê-los, exortá-los por mil modos a sair do seu mau caminho. Quando dizem uma mentira, semeiam uma calúnia ou pilham os bens alheios, os liberais gostariam que lhes encobríssemos estes e outros pecados veniais com o manto da caridade. Nós, ao contrário, os apostrofamos de ladrões, embusteiros, caluniadores, exercendo assim para com eles a caridade mais excelente de todas, a de não adular nem enganar aqueles a quem queremos bem. Quando lhes escapa algum disparate gramatical, de ortografia, de linguagem, ou simplesmente de lógica, gostariam que fizéssemos vista grossa; e choram, e lamentam-se quando os advertimos em público, queixando-se de que faltamos com caridade. Nós, ao contrário, fazemos-lhe uma boa obra obrigando-os a apalpar com suas próprias mãos uma coisa que não devem ignorar, a saber: que não somente não são mestres, como pensam, mas que não passam de estudantes medíocres. Deste modo contribuímos, na medida de nossas forças, à cultura das belas artes na Itália, e ao exercício da humildade cristã no coração desses liberais que têm, como se sabe, grande necessidade dela. 

 

“Os senhores liberais gostariam sobretudo que fossem tomados sempre muito a sério, estimados, reverenciados, obsequiados, e tratados como figuras importantes. Resignar-se-iam a que os refutássemos, sim, contanto que o fizéssemos de chapéu em mão, corpo inclinado e cabeça baixa em reverente e humilde atitude. Daí vêm suas queixas, quando às vezes são caricaturados, isto é, quando se zomba deles. Deles! Os pais da pátria, os verdadeiros italianos, a própria Itália, como costumam dizer de si mesmos! Quem tem, pois, a culpa, se é tão ridícula essa pretensão que ao próprio Heráclito faria soltar uma gargalhada?

 

“Pois bem! Devemos, para o seu agrado, passar a vida reprimir todo movimento natural de riso? Deixar-nos rir quando certamente não se pode deixar de o fazer é também obra de misericórdia, que os liberais poderiam outorgar-nos de boa vontade, já que por sua parte não custa muito. Todos compreendem muito bem que, assim como fazer rir honestamente, à custa do vício e dos viciosos, é em si coisa muito boa, segundo o dito castigat ridendo mores, e aquele outro ridendo dicere verum, quid vetat?, assim, fazer rir uma e outra vez os nossos leitores, à custa dos liberais, é verdadeira obra de misericórdia e caridade para os mesmos leitores, que certamente não hão de estar sempre sérios e rigorosos, enquanto lêem o jornal. E afinal os mesmos liberais, se bem considerarem, ganham muito em que os outros riam à sua custa, porquanto deste modo todo mundo vem a conhecer que nem todos os seus feitos são tão horríveis e espantosos, como podem parecer, já que normalmente só costumam provocar o riso as deformidades inofensivas.

 

“Não nos agradecerão nunca o caráter ingênuo com que procuramos apresentar algumas de suas picardias? Como não percebem que não há meio mais eficaz para conseguir que se corrijam delas, do que a chacota e o riso daqueles que as vêem por nós expostas em sua devida luz? E como não vêem que não têm direito algum de acusar-nos, quando assim o fazemos, de não obrar com eles como manda a caridade?

 

“Se tivessem lido a vida do seu grande Victor Alfieri, escrita por ele mesmo, saberiam que, quando pequeno, sua mãe que o queria muito bem educado costumava, quando o apanhava em alguma travessura, mandar-lhe ir à missa com a gorra de dormir. E conta Alfieri que este castigo, que não era senão expô-lo um pouco ao ridículo, de tal maneira o afligiu uma vez, que por mais de três meses se portou do modo mais impecável. “Depois disto, diz ele, quando, ao primeiro sinal de travessura, ameaçavam-me com a terrível gorra de dormir, imediatamente eu entrava tremendo na linha de meus deveres. Um dia, tendo caído em certo pecadilho, disse à senhora minha mãe uma solene mentira para desculpá-lo, e por isto fui de novo sentenciado a levar em público a gorra de dormir. Chegou a hora; a gorra fora colocada em minha cabeça, eu chorava e gritava em vão. Meu aio pegou-me pela mão para sairmos e um criado me empurrava por detrás.” Porém por mais que ele chorasse, gritasse e pedisse caridade, a mãe que queria o seu bem, permaneceu inexorável. E qual foi o resultado? “Foi, continua Alfieri, que por muito tempo não me atrevi a dizer outra mentira. E quem sabe se àquela bendita gorra de dormir não devo o haver-me tornado um dos homens mais inimigos da mentira!” Nesta última frase mostra-se de passagem o fariseu, que sempre costuma ter-se por melhor que os outros homens. Nós, portanto, que devemos supor que todos os liberais têm em alta conta os elevados sentimentos do seu grande Alfieri, por que razão não esparíamos nós corrigi-los do vício vergonhoso de dizer mentiras, ou pelo menos impedir de publicá-las, enviando-os com a gorra de dormir malgrado seus gritos, esperneios e apelos à caridade... não à missa, que isso é impossível, mas a dar uma volta pela Itália, e isso nem sempre que lhes escape uma mentira, pois que seria demasiado freqüente, mas ao menos todas as vezes que imprimam um milhar delas de uma só vez?

 

“Não insistam, pois, os liberais na queixa de que não os tratamos com caridade. Digam antes, se quiserem, que a caridade que lhes damos, esta não a recebem de boa vontade. Já o sabíamos. Mas isso só prova que, por seu estragado gosto, precisam ser tratados com a sábia caridade que empregam os cirurgiões com seu doentes, ou os médicos do manicômio com seus loucos, ou as boas mães com seus filhos mentirosos.

 

“Mas ainda que fosse verdade que não tratamos com caridade os liberais, e que os tais nada disso hão de agradecer-nos, nem por isso teriam direito algum a queixar-se de nós. É sabido que nem a todo mundo é possível fazer caridade. Nossas faculdades são muito escassas: fazemos caridade segundo a medida delas, preferindo, como é nosso dever, aqueles que a mesma lei de caridade bem ordenada manda preferir.

 

“Dizemos (entenda-se bem) que fazemos aos liberais toda a caridade que podemos, e cremos tê-lo demonstrado. Mas na suposição de que não a fazemos, insistimos ainda que nem por isso devem fatigar-nos com queixas os liberais.

 

“Eis um fato semelhante que vem muito ao caso. Um assassino de punhal na mão está agarrado a um pobre inocente para cravá-lo em sua garganta. Acontece passar na ocasião alguém que leva na mão um bom taco, e dá no assassino uma forte tacada na cabeça; deixa-o inconsciente, o amarra e entrega à justiça, livrando assim, por sua boa estrela, da morte a um inocente, e de um malfeitor a sociedade.

 

“Faltou este terceiro com caridade em algum ponto? Se escutarmos o assassino, para quem naturalmente lhe dói o golpe, dirá que sim. Discorrerá talvez que, contra a chamada norma inculpatae tutelae, o golpe foi forte demais, e com menos força teria bastado. Mas, à exceção do assassino, todos louvarão o passageiro, e dirão que praticou um ato não só de valor, mas ainda de caridade, não certamente em favor do assassino, mas da vítima; e que se para salvar este, teve de abrir a cabeça do outro sem ter muito tempo para medir escrupulosamente a força do golpe, não foi certamente por falta de caridade, mas porque a urgência da situação era tal que não se podia usar de caridade para com um, sem sacudir bem o outro. Teria ele tempo para demorar-se em sutilezas sobre o mais ou o menos da inculpata tutela.

 

“Apliquemos a parábola. Publica-se, por exemplo, um folheto maledicente, calunioso e escandaloso contra a Igreja, contra o papa, contra o clero, contra qualquer coisa boa. Muitos crêem que tudo naquele folheto é pura verdade, já que seu autor é um célebre, distinto e honrado escritor, qualquer que seja. Se, para defender os caluniados e livrar os leitores do erro, alguém dá umas tantas pauladas no desavergonhado autor, terá faltado com a caridade?

 

“Não poderão agora negar os liberais, eles se encontram mais freqüentemente na situação de salteadores do que na de vítimas. Que haverá de espantoso, portanto, que levem por isto uma paulada? Que haverá de estranho se queixarem de que não são tratados com caridade? Parem de comportar-se como desordeiros e arruaceiros; acostumem-se a respeitar os bens e a honra dos outros; não contem tanta mentira; não levantem tanta calúnia; pensem um pouco antes de falar sobre qualquer coisa; tenham em maior conta as leis da lógica e da gramática; sejam sobretudo honrados, como há pouco aconselhou o barão de Ricasoli, com pouca esperança de bom êxito, apesar da autoridade e exemplos de tal conselheiro, e poderão então queixar-se com razão se não são tratados com o respeito de que, como aquele da liberdade, pretendem ser os absolutos monopolizadores.

 

“Mas já que agem tão mal como escrevem; já que andam sempre com o punhal na garganta da verdade e da inocência, assassinos de uma e da outra com seus feitos e com seus livros, tenham paciência se não podemos em nossos jornais prodigar-lhes outra caridade que aquela algo dura, que cremos, embora contra seu parecer, seja a mais proveitosa, tanto para eles como para a causa dos homens de bem.”

25. Confirmação do que ultimamente disse um ponderadíssimo artigo de La Civiltá Cattolica

Duvidamos que se encontre uma saída a este argumento, porque simplesmente não há. Mas como a questão é da mais alta importância e tem sido nestes últimos tempos objeto de uma acalorada controvérsia, sendo além disso escassa e de pouco peso a nossa autoridade para falar definitivamente sobre ela, pedimos a nossos leitores permissão de reproduzir, em favor de nossa doutrina, um voto de mais reconhecida, para não dizer incontestável e incontestada, competência.

É o da Civiltá Cattolica, o primeiro jornal religioso do mundo, senão oficial em sua redação, ao menos em sua origem, pois foi fundado por um Breve especial de Pio IX, e por ele confiado aos Padres da Companhia de Jesus. Este jornal cujos artigos, ora em forma séria, ora em sátira, não deixam sossegar os liberais italianos, viu-se várias vezes repreendido pelos mesmos liberais por falta de caridade. Para responder a essas farisaicas homilias sobre a moderação e a caridade, a Civiltá Cattolica publicou um graciosíssimo artigo, tão pleno de humor como de profunda filosofia.

Vamos reproduzi-lo aqui para consolação de nossos liberais e desengano de tantos pobres católicos contaminados de liberalismo, que fazem coro com eles, escandalizando-se a todas as horas de nossa tão anatematizada falta de moderação. O artigo se intitula: "Um pouco de caridade!", é como se segue:

”De Maistre diz que a Igreja e os papas nunca pediram para sua causa mais do que a verdade e a justiça. Ao contrário dos liberais, os quais por um respeitoso horror que naturalmente professam à verdade e sobretudo à justiça, não fazem senão pedir-nos a caridade a todas as horas.
 

“Há cerca de doze anos que, por nossa parte, estamos assistindo a este curioso espetáculo dado pelos liberais italianos, que não cessam um segundo de mendigar, com lágrimas, a nossa caridade, suplicando-nos, de braços cruzados, em prosa e em verso, em folhetos e em jornais, em cartas públicas e privadas, anônimas e pseudônimas, direta ou indiretamente, que por amor de Deus tenhamos com eles um pouco de caridade; que não mais nos permitamos fazer o próximo rir à sua custa; que não nos entretenhamos em examinar tão detalhada e minuciosamente os seus sublimes escritos; que não sejamos tão pertinazes em trazer ao público suas gloriosas façanhas; que façamos vista grossa e ouvidos surdos aos seus descuidos, solecismos, mentiras, calúnias e mistificações; que, numa palavra, os deixemos viver em paz.
 

“Pois em última análise, caridade é caridade; e que os liberais não a tenham, é natural e compreende-se bem, mas que não a usem os escritores, como os da Civiltá Cattolica, isso é outra história.
 

“Justo castigo de Deus é que os liberais, que tanto aborreceram a mendicidade pública, a ponto de a proibirem em muitos países sob pena de prisão, se vejam agora forçados a tornar-se mendicantes públicos, pedindo em nome do céu, como ardilosos reacionários... um pouco de caridade!
 

“Com esta edificante conversão ao amor da mendicância, os liberais imitaram aquela outra não menos célebre e edificante, a do rico avarento à virtude da esmola. Este, tendo assistido uma vez ao sermão e ouvido uma exortação muito fervorosa à prática da esmola, de tal modo se comoveu, que chegou a ter-se por verdadeiramente convertido. Em verdade, fora tão fortemente tocado pelo sermão, que dizia ao sair da Igreja: É impossível que esses bons cristãos que o ouviram não me dêem de vez em quando alguma coisa por caridade.

Assim os nossos sempre estupendos liberalaços, depois de haverem demonstrado (cada um segundo os seus meios), por atos e escritos, que têm à caridade o mesmo amor que o diabo tem à água benta; quando depois, ouvindo falar em caridade, voltam a si e se recordam que há no mundo algo que se chama a virtude da caridade e que esta pode em certas ocasiões ser-lhes proveitosa, mostram-se de repente furiosamente enamorados dela e vão pedi-la com gritos ao papa, aos bispos, ao clero, aos frades, aos jornalistas, a todos... até aos redatores da la Civiltá!

“E é preciso ouvir as belas razões que sabem aduzir em seu favor! Se neles crermos, teríamos de pensar que não falam por interesse próprio. Santo Deus, não! Se assim falam, é com o interesse de nossa santíssima religião, que eles têm no íntimo do coração e que por certo sairá muito prejudicada de nossa maneira tão pouco caridosa de defendê-la. Falam no interesse dos próprios reacionários e, especialmente (quem o acreditará?) em nosso próprio interesse, no interesse dos redatores da Civiltá Cattolica.
 

“Que necessidade tendes — dizem, em tom confidencial — de meter-vos nessas querelas? Não tendes já bastantes hostilidades para enfrentar? Sede tolerantes e vossos adversários o serão convosco. Que ganhais com esse triste ofício de cães ululando sempre aos ladrões? E se no final saís batidos e golpeados, a quem dareis a culpa, senão a vós mesmos e a esta indomável obstinação que tendes em procurar as pancadas?
 

“Sábia e desinteressada maneira de discorrer, cujo único defeito é o de assemelhar-se muito àquela que o comissário de polícia recomenda a Renzo Tramaglino no romance Os noivos, quando tentava levá-lo à prisão persuadindo-o, presumindo que, se usasse de força, o jovem não se deixaria conduzir. ’Creia-me, dizia Renzo, tenho prática nessas coisas. Caminha devagarinho e sempre adiante, sem ir de um lado para o outro, e sem que o notem. Assim, ninguém nos reparará, ninguém advertirá o que se passa, e conservarás portanto tua reputação.’ Mas aqui observa Manzoni1 que Renzo não acreditava em nenhuma de suas belas razões. Não podia acreditar que o comissário o estimasse, que se interessasse por sua honra e reputação, ou tivesse verdadeira intenção de favorecê-lo. De sorte que tais exortações só serviram para confirmá-lo no desígnio já pré-concebido de portar-se inteiramente ao contrário do que lhe foi aconselhado.”
 

“Este desígnio, falando com franqueza, nós também estamos muito tentados a formá-lo; porque não podemos persuadir-nos de que os liberais se importem pouco ou muito com o dano que possamos causar à religião, ou que se preocupem com o que possa nos convir. Cremos, ao contrário, que se os liberais julgassem verdadeiramente que o nosso modo de agir prejudicava à religião ou pelo menos a nós mesmos, não somente se guardariam de nos advertir, porém ainda nos incentivariam com aplausos.
 

“Consideremos que mostrarem-se zelosos conosco, rogar-nos que modifiquemos o nosso estilo, são sinais claros de que a religião nada perde com isso, e que os nossos escritos têm alguns leitores, o que para um escritor não deixa de ser sempre uma consolação.
 

“No que diz respeito a nossos interesses e ao princípio utilitário, visto que os liberais têm sido com justa razão considerados sempre como mestres neste ponto, e têm fama de haver aplicado sempre este princípio muito mais em proveito próprio do que em nosso favor, é preciso que nos permitam crer, como temos crido até hoje, que em toda controvérsia sobre nosso modo de escrever contra eles, não somos nós os que saem mais prejudicados, nem tampouco é a religião.
 

“Por conseguinte, havendo manifestado esta nossa pobre opinião, e supondo que as razões que poderíamos chamar intrínsecas e independentes do princípio utilitário, que alegam os liberais em favor próprio e contra nosso modo de escrever, têm sido já muitas vezes refutadas nas séries passadas da Civiltá Cattolica, só nos restaria aqui despedir com bons modos esses mendigos de nova espécie, aconselhando-os que cumpram daqui em diante o seu ofício de advogados em causa própria, melhor do que faziam com Renzo aqueles esbirros do século XVII.
 

“Mas, porque muitos entre eles continuam a mendigar, e recentemente publicaram em Perusa um opúsculo intitulado: Que é o partido chamado católico?, que consagraram inteiramente a mendigar à Civiltá Cattolica um pouco de caridade, não será inútil repetir mais uma vez, no princípio desta quinta série, as mesmas antigas respostas contra as mesmas antigas objeções. E será isto também grande caridade, não certamente aquela que os liberais imploram de nós, mas outra bastante meritória: a caridade de escutá-los com paciência pela centésima vez.
 

Do resto, o tom humilde e queixoso com que, desde algum tempo, eles andam nos pedindo um pouco de caridade, não merece menos.”

  1. 1. Autor italiano do romance em questão (1785-1873).

24. Resposta a uma objeção, à primeira vista grave, contra a doutrina dos dois capítulos precedentes

Uma dificuldade, à primeira vista gravíssima, podem os nossos adversários opor à doutrina estabelecida nos capítulos anteriores. Convém-nos, antes de avançar, deixar nosso caminho livre e desembaraçado de escrúpulos ou outros obstáculos dessa natureza.

O papa, dizem, e é certo, tem recomendado várias vezes aos jornalistas católicos a temperança, a moderação, o respeito e a caridade nas formas de polêmica. Quer que se evitem as maneiras agressivas, os epítetos depreciativos e as invectivas injuriosas. Ora, dirão agora, a doutrina que acabais de expor é diametralmente oposta às recomendações pontifícias.

Com ajuda de Deus, vamos demonstrar que não há contradição entre nossas indicações e os sábios conselhos do papa. E não nos custará, por felicidade, dar a prova evidente.

Com efeito, a quem se dirigiu o Santo Padre nas suas reiteradas exortações? Sempre à imprensa católica, sempre aos jornalistas católicos, supondo-os que o são. Por conseguinte, é evidente que, ao dar esses conselhos de moderação e temperança, o Santo Padre dirigiu-se a católicos que tratavam de questões livres com outros católicos, e não a católicos que travavam contra anti-católicos declarados o feroz combate da fé.

É evidente que não aludiu às incessantes batalhas entre católicos e liberais; porque diante do fato de que o catolicismo é a verdade e o liberalismo a heresia, as batalhas travadas entre seus representantes devem considerar-se, em boa lógica, como batalhas entre católicos e hereges.

É claríssimo que o papa quis que se aplicassem os seus conselhos só em relação com nossas dissidências de família, infelizmente muito comuns, e não pretendeu que com os inimigos da Igreja e da fé lutássemos com espadas sem fio e sem ponta, usadas só em justas e torneios.

Por conseguinte, não há oposição entre a doutrina por nós exposta e a contida nos Breves e Alocuções de Sua Santidade, porque a oposição, em boa lógica, deve ser ejusdem, de eodem et secundum idem, o que não ocorre aqui. E como poderia a palavra do papa interpretar-se corretamente de outra maneira? É uma regra de sã exegese que um texto da Sagrada Escritura deve ser interpretado em sentido literal, quando este sentido não se opõe ao contexto; e só deve recorrer-se ao sentido livre ou figurado quando esta oposição se apresenta. Igualmente, podemos seguir a mesma regra ao tratar da interpretação dos documentos pontifícios.

Poderá supor-se o papa em contradição com toda a tradição católica, desde Jesus Cristo até os nossos dias?

Poderão crer-se condenados por um risco de pena o estilo e a maneira dos mais célebres apologetas e polemistas da Igreja, desde São Paulo até São Francisco de Sales?

É evidente que não. E é evidente que assim seria, se tais conselhos de moderação e temperança devessem ser entendidos no sentido em que (para conveniência de sua causa) os interpreta o critério liberal. Por conseguinte, a única conclusão admissível é que os conselhos do papa, que todo bom católico deve considerar como ordens, não se referiu às polêmicas entre católicos e inimigos do catolicismo, como são os liberais, mas às dos bons católicos, entre si, em suas dissidências e diferenças.

Não, não pode ser de outra maneira, o próprio senso comum o diz. Nunca em batalha alguma o capitão proibiu seus soldados de ferirem gravemente o adversário; nunca lhes recomendou brandura para com eles; nunca afagos nem atenções. Guerra é guerra, e nunca foi feita de outra maneira senão causando danos. É suspeito de traidor quem, no fragor do combate, anda gritando entre as filas dos combatentes: "Cuidado para não incomodar o inimigo! não lhe ataque no coração!".

Que mais dizer? O próprio Papa Pio IX nos deu a interpretação autêntica de suas santas palavras, e mostrou de que maneira seus conselhos de temperança e moderação devem aplicar-se. Aos sectários da Comuna, numa ocasião memorável, chamou demônios, e aos sectários do catolicismo-liberal 1 chamou piores do que aqueles demônios. Esta frase correu o mundo, e saída dos lábios mansíssimos do papa, permanece gravada na testa do liberalismo como estigma de eterna execração. Quem depois dela temerá exceder-se na dureza dos qualificativos?

As próprias palavras da Encíclica Cum multa, de que tanto abusou contra os mais firmes católicos a impiedade liberal, são as mesmas palavras com que nosso Santíssimo Padre Leão XIII recomenda aos escritores católicos que “evitem o tom de violência na defesa dos direitos sagrados da Igreja e recorram de preferência às armas mais dignas da moderação, de sorte que o peso das razões mais que a aspereza e violência do estilo, deem a vitória ao escritor.” É evidente que o Santo Padre não fala aqui senão de polêmicas entre católicos e católicos sobre o melhor modo de servir a sua causa comum, e não das polêmicas entre católicos e inimigos declarados do catolicismo, tais como os sectários formais e conscientes do liberalismo.

A prova está à vista de qualquer um, basta olhar o contexto da admirável encíclica citada.

O papa a termina exortando para que se mantenham unidas as associações e os indivíduos católicos. E depois de ponderar as vantagens desta união, assinala como meio principal de conservá-la, essa moderação e temperança no estilo, que acabamos de indicar.

Daqui deduzimos um argumento que não tem contestação.

O papa recomenda a suavidade do estilo aos escritores católicos, para que esta os ajude a conservar a paz e a mútua união. Esta paz e mútua união, o papa não pode, evidentemente, querê-la senão entre católicos e católicos, e não entre católicos e inimigos do catolicismo. Logo, a suavidade e moderação que o papa recomenda aos escritores só se referem às polêmicas dos católicos entre si, e nunca às que existem entre católicos e sectários do erro liberal.

Ainda mais claro: O papa ordena esta moderação e temperança como meio de alcançar como fim a união. Este meio deve, por conseguinte, caracterizar-se por este fim a que está ordenado. Ora, este fim é puramente a união entre católicos, e nunca (quia absurdum) entre católicos e inimigos do catolicismo. Logo, aquela moderação não pode entender-se aplicada a outra esfera.

  1. 1. Em 18 de junho de 1871, à deputação francesa que foi a Roma festejar o 25º aniversário de seu pontificado, Pio IX declarava: “Meus queridos filhos, é preciso que minhas palavras vos digam bem aquilo que trago no coração. O que aflige vosso país e o impede de merecer as bênçãos de Deus, é a mescla de princípios. Direi a palavra, e não a calarei: o que temo, não são todos esses miseráveis da Comuna de Paris, verdadeiros demônios do inferno que passeiam pela terra. Não, não é isso; o que temo, é esta infeliz política, esse liberalismo católico que é o verdadeiro flagelo. Disse-o mais de quarenta vezes; e vos repito, por causa do amor que vos tenho. Sim, é este jogo... Como se diz em francês? Em italiano chamamo-lo altalena... Sim, justamente, esse jogo de básculo que destruiria a religião. É preciso sem dúvida praticar a caridade, fazer o possível para reunir os que estão dispersos: mas para isso não é necessário compartilhar de suas opiniões.”

22. Da caridade nas chamadas “formas de polêmica”, e se têm nisto razão os liberais contra os apologistas católicos

Mas não é este último principalmente o terreno em que o liberalismo coloca a questão, porque sabe que no campo dos princípios seria irremediavelmente vencido. Ele prefere, em sua propaganda, acusar os católicos de pouca caridade, e é neste ponto que, como temos dito, certos católicos, bons no fundo, mas influenciados da maldita peste liberal, costumam especialmente insistir. O que há, pois, sobre este particular?

Há o seguinte: Que nós, os católicos, temos razão nisto como no mais, e que os liberais não têm nem sombra dela. Fixemo-nos para isto nos seguintes pontos:

1° Pode claramente o católico dizer a seu adversário liberal que é de fato um liberal. Ninguém porá em dúvida esta proposição. Se um autor, jornalista ou deputado começa a jactar-se de liberalismo, e não oculta nem pouco nem muito suas idéias ou afeições liberais, que injúria se faz em chamá-lo de liberal? É um princípio do direito: Si palam res est, repetitio injuriam non est: “Não é injúria repetir o que está à vista de todos”. Muito menos em dizer do próximo o que ele diz de si mesmo a todas as horas. Quantos liberais, no entanto, particularmente os do grupo dos mansos ou moderados, tomam como grande injúria que um adversário católico os chame de liberais ou amigos do liberalismo?

2° Dado que o liberalismo é coisa má, não é falta de caridade chamar maus os defensores públicos e conscientes do liberalismo.

Isto é, em substância, aplicar ao caso presente a lei de justiça que foi aplicada em todos os séculos. Nós, os católicos de hoje, não fazemos inovação neste ponto, nos atemos à prática constante da antigüidade. Os propagadores e fautores de heresias foram em todos os tempos chamados hereges, como os seus autores. E como a heresia foi sempre considerada na Igreja como mal gravíssimo, tais fautores e propagadores foram chamados sempre pela Igreja maus e malvados. Consultai as coleções dos autores eclesiásticos. Vede como os Apóstolos trataram os primeiros heresiarcas e como seguiram tratando-os os Santos Padres e depois os controversistas modernos e a própria Igreja em sua linguagem oficial. Não há, pois, falta de caridade em chamar ao mau, mau; aos autores, fautores e seguidores do mal, malvados; e ao conjunto de todos seus atos, palavras e escritos, iniqüidade, maldade e perversidade. O lobo foi sempre chamado lobo e nada mais, e nunca se acreditou que, ao chamá-lo assim, se fizesse obra má ao rebanho nem a seu dono. 

3° Se a propaganda do bem e a necessidade de atacar o mal exigem o emprego de frases duras contra os erros e seus reconhecidos corifeus, seu emprego nada tem contrário à caridade. É um corolário ou conseqüência do princípio anterior. É preciso tornar o mal detestável e odioso; e não se pode fazer isto senão denunciando-o como mau, perverso e desprezível. A oratória cristã de todos os séculos autoriza o emprego das figuras retóricas mais violentas contra a impiedade. Nos escritos dos grandes atletas do cristianismo é contínuo o uso da ironia, da imprecação, da execração, dos epítetos depreciativos. A lei de tudo isto deve ser unicamente a oportunidade e a verdade.

Há ainda outra razão. A propaganda e apologética popular (e a religiosa é sempre popular) não pode guardar as formas sofisticadas e sóbrias da academia e da escola. Não se convence o povo senão falando-lhe ao coração e à imaginação, que só se emocionam com a literatura calorosa, inflamada e apaixonada. A paixão produzida pela santa paixão da verdade não é má. As chamadas intemperanças do moderno jornalismo ultramontano, além de muito leves se comparadas com as do jornalismo liberal (temos exemplos recentes por aí a cada passo), estão plenamente justificadas, basta abrir em qualquer página as obras dos grandes polemistas católicos dos melhores tempos.

São João Batista começou por chamar aos fariseus “raça de víboras”. Jesus Cristo Nosso Senhor não se absteve de lançar-lhes os epítetos de “hipócritas”, “sepulcros caiados”, “geração perversa e adúltera", sem que com isso cresse manchar a santidade de sua mansíssima pregação. São Paulo dizia, dos cismáticos de Creta, que “eram mentirosos, bestas más, ventres preguiçosos”1. Ao sedutor Elimas, o mago, chama o mesmo Apóstolo “homem cheio de toda fraude e embuste, filho do diabo, inimigo de toda verdade e justiça”.

Se abrimos as coleções dos Padres, encontramos por toda parte tratos desta natureza, que não hesitaram empregar a cada passo em sua eterna polêmica com os hereges. Citaremos apenas um ou outro dos princiapais: São Jerônimo, disputando com o herege Vigilâncio, lança-lhe em rosto sua antiga profissão de taberneiro e lhe diz: “Outras coisas aprendeste (e não teologia) desde tenra idade; a outros estudos te dediscaste. Averiguar ao mesmo tempo o valor das moedas e o dos textos da Escritura; provar os vinhos e ter a inteligência dos profetas e dos apóstolos certamente não são coisas que um mesmo homem possa bem executar”. E vê-se que o santo controversista tinha afeição a esta maneira de desautorizar o adversário, pois em outra ocasião, atacando o mesmo Vigilâncio, que negava a excelência da virgindade e do jejum, pergunta-lhe com muita graça “se pregava assim para não perder o consumo de sua taverna”. Oh! Quantas queixas teria feito um crítico liberal, se tivesse escrito isto um de nossos controversistas contra um herege de hoje!

Que diremos de São João Crisóstomo na sua famosa invectiva contra Eutrópio, cujo caráter pessoal e agressivo só tem comparação com as cruéis invectivas de Cícero contra Catilina ou contra Verres? O melífluo São Bernardo não era certamente de mel ao tratar com os inimigos da fé. Chama Arnaldo de Bréscia, o grande agitador liberal de sua época, com todas as letras de “sedutor, vaso de injúrias, escorpião, lobo cruel”.

O pacífico Santo Tomás de Aquino esquece a calma de seus frios silogismos para lançar contra seu adversário Guilherme de Saint-Amour e seus discípulos, as violentas apóstrofes de “inimigos de Deus, ministros do diabo, membros do Anticristo, ignorantes, perversos, réprobos”. Nunca disse tanto o ilustre Louis Veuillot. O seráfico São Boaventura, tão cheio de doçura, dirige increpções a Geraldo com os epítetos de “imprudente, caluniador, espírito maléfico, ímpio, impudico, ignorante, embusteiro, malfeitor, pérfido e insensato”. Ao chegar a época moderna, vemos aparecer a figura encantadora de São Francisco de Sales, que, por sua distinta delicadeza e mansidão, mereceu ser chamado a imagem viva do Salvador. Credes que ele mostrou alguma consideração pelos hereges de seu tempo e país? Vamos então! Perdoou-lhes as injúrias, cobriu-os de benefícios, procurou até salvar a vida a quem tinha atentado contra a sua. Chegou a dizer para um rival: “Se me arrancasses um olho, não deixaria com o outro de olhar-te como irmão”. Pois bem; com os inimigos da sua fé não mostrava nenhum tipo de comedimento e consideração. Perguntando por um católico se podia dizer mal de um herege, que espalhava suas venenosas doutrinas, respondeu: “Sim, podeis, contanto que não digais dele coisa contrária à verdade, e só pelo sabeis da sua má conduta, falando do que é duvidoso como duvidoso, e segundo o grau maior ou menor de dúvida que sobre isto tenhais”.

Em sua Filotéia, livro tão precioso como popular, ele se exprime ainda mais claro: “Os inimigos declarados de Deus e da Igreja devem ser culpados e condenados com toda força possível. A caridade obriga a todos a gritar: ‘o lobo!’, quando este se introduzir no rebanho, e até em qualquer lugar em que se encontre.”

Haverá necessidade de dar a nossos inimigos um curso prático de retórica e de crítica literária? Em resumo, acabamos de dizer tudo o que há sobre a tão decantada questão das formas agressivas usadas pelo escritores ultramontanos, vulgo católicos verdadeiros. A caridade nos proíbe fazer aos outros o que razoavelmente não queremos para nós mesmos. Note-se o advérbio razoavelmente, no qual está todo o quid da questão.

A diferença essencial entre o nosso modo de ver e o dos liberais neste assunto, é que estes senhores consideram os apóstolos do erro como simples cidadãos livres, que, no uso do seu perfeito direito, opinam em matéria de religião diferentemente de nós. Por conseguinte, se crêem obrigados a respeitar essa opinião e não contradizê-la, senão nos termos de uma discussão livre. Nós, ao contrário, não vemos neles senão inimigos declarados da fé que estamos obrigados a defender, e em seus erros não vemos livres opiniões, mas heresias formais e culpáveis, tal como ensina a lei de Deus. Com razão, pois, diz um grande historiador católico aos inimigos do catolicismo: “Fazei-vos infames com vossas ações; pois bem, eu acabarei de vos cobrir de infâmia com meus escritos”. E com igual teor a lei das Doze Tábuas ensinava a viril geração romana dos primeiros tempos de Roma: Adversus hostem aeterna auctoritas esto, que se pode traduzir “contra os inimigos, guerra sem tréguas”.

 

  1. 1. Tito, 1, 12.

21. Da sã intransigência católica em oposição à falsa caridade liberal

Intransigente! Intransigência! Assim ouço exclamar uma parte de meus leitores mais ou menos eivados de liberalismo, após a leitura do capítulo anterior.

Que modo pouco cristão de resolver a questão!, dizem eles. São os liberais ou não nossos próximos, como quaiquer outros? Onde vamos parar com essas idéias? Como tão descaradamente se recomenda contra eles o desprezo da caridade?

“Lá vêm eles!”, exclamaremos por nossa vez. Já lançam em nossa face a “falta de caridade”. Vamos, pois, responder também a esta crítica, que é para alguns o verdadeiro cavalo de batalha da questão. Se não o é, serve ao menos como verdadeiro parapeito contra nossos inimigos, os quais, como muito a propósito disse um autor, forçam gentilmente a caridade a servir como barricada contra a verdade.

 

Vejamos, antes de tudo, o que significa a palavra caridade.

A teologia católica nos dá a definição pelo órgão mais autorizado da propaganda popular, o catecismo, tão pleno de sabedoria e filosofia. Define-a assim: A caridade é uma virtude sobrenatural que nos inclina a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos por amor de Deus. Desta definição, depois da parte que se refere a Deus, resulta que devemos amar o próximo como a nós mesmos, e isto não de qualquer maneira, mas em ordem e com sujeição à lei de Deus e por amor de Deus.

Pois bem, o que é amar? Amare est velle bonum, diz a filosofia: “Amar é querer bem a quem se ama”. E a quem diz a caridade que se há de amar ou querer bem? Ao próximo, isto é, não a tal ou qual homem somente, mas a todos os homens. E qual é o bem que se há de querer, para que dele resulte o verdadeiro amor? Primeiramente, o bem supremo, que é o bem sobrenatural; logo depois, os demais bens de ordem natural, que não são incompatíveis com aquele. E tudo vem a resumir-se naquela frase “por amor de Deus”, e em mil outras de análogo sentido.

Segue-se, pois, que se pode amar e querer bem ao próximo (e muito) desgostando-o, contrariando-o, prejudicando-o materialmente, e até privando-o da vida em certas ocasiões. Tudo se reduz a examinar se naquilo que o desgosta, o contraria, ou o mortifica, age-se ou não para seu próprio bem, para o bem de alguém cujos direitos são superiores aos seus, ou simplesmente para o maior serviço de Deus.

1° - Para o seu próprio bem. Se claramente se demonstra que, desgostando e ofendendo o próximo, age-se para o seu bem, é evidente que neste caso ele é amado, mesmos nas contrariedades e desgostos que lhe sejam impostos. Por exemplo: ama-se o doente queimando-o com o cautério, ou cortando sua gangrena com o bisturi; ama-se o mau corrigindo-o com repreensões ou castigos etc. Tudo isto é excelente caridade.

2° - Para o bem de outro cujos direitos são superiores. Muitas vezes é necessário contrariar alguém, não para seu próprio bem, mas para livrar de um mal a outrem que aquele lhe queira causar. Neste caso, é uma obrigação de caridade defender o agredido da violência injusta do agressor; e pode-se fazer ao agressor tanto mal quanto seja preciso ou conveniente para defesa do agredido. Assim sucede quando, em defesa de um passageiro, se mata o ladrão que o ataca. E então matar o injusto agressor, feri-lo, neutralizá-lo de qualquer modo, é ato de verdadeira caridade.

3.º - Para o serviço devido a Deus. O bem de todos os bens é a glória divina, assim como Deus é para todo homem o próximo de todos os próximos. Por conseguinte, o amor devido aos homens como próximos, deve estar sempre subordinado ao que todos nós devemos a nosso comum Senhor. Para seu amor e serviço, pois, deve-se (se necessário) desgostar os homens, feri-los e até (sempre se necessário) matá-los. Atente-se para a importância dos parênteses (se necessário); eles indicam claramente o único caso em que o serviço de Deus exige tais sacrifícios. Assim como numa guerra justa os homens se ferem e matam pelo serviço da pátria, assim pode-se também ferir e matar pelo serviço de Deus. E assim como, em cumprimento da lei, pode-se executar homens por suas infrações ao Código humano; tem-se o direito, numa sociedade catolicamente organizada, de justiçar os homens por infrações ao Código divino, naquilo que ele obriga exteriormente. Assim se justifica plenamente a criticada Inquisição. Todos esses atos (quando são justos e necessários) são atos de virtude e podem ser mandados pela caridade.

Não a entende assim o liberalismo moderno, e portanto a entende mal. Por isso, ele possui e dá aos seus adeptos uma falsa noção de caridade, e desconcerta os católicos mais firmes com suas censuras e acusações banais de intolerância e intransigência, renovadas sem cessar. Nossa fórmula é muito clara e concreta. É a seguinte: a suma intransigência católica não é senão a suma caridade católica. Esta caridade se exerce em benefício do próximo quando, para o seu próprio bem, ela o confunde, o envergonha, o ofende e o castiga. Ela se exerce em benefício de um terceiro quando, para livrá-lo do erro e de seu contágio, desmascara seus autores e fautores, chamando-os pelo verdadeiro nome, de maus, perversos, tornando-os odiáveis e desprezíveis como devem ser, denunciando-os à execração pública, e, se possível, ao zelo da autoridade social encarregada de os reprimir e castigar. Ela se exerce, finalmente, dirigida a Deus, quando por sua glória e serviço faz-se necessário impor silêncio a todas as considerações humanas, saltar todos os obstáculos, afrontar todo respeito humano, ferir todos os interesses, expor a própria vida e todas as vidas cujo sacrifício seja necessário para tão alto fim.  

E tudo isto é pura intransigência no verdadeiro amor, e por isso, é suma caridade. Os tipos dessa intransigência são os heróis mais sublimes da caridade, como entende a verdadeira religião. E porque hoje há poucos intransigentes, há também pouca gente verdadeiramente caridosa. A caridade liberal, hoje em moda é, na forma, condescendente, afetuosa, e mesmo tenra, porém no fundo é o desprezo essencial dos verdadeiros bens do homem e dos supremos interesses da verdade e de Deus.

20. Sobre a necessidade de precaver-se contra as leituras liberais

Se esta conduta convém observar com as pessoas, muito mais conveniente, e por sorte muito mais fácil, é observá-la com as leituras.

O liberalismo é sistema completo, como o catolicismo, ainda que em sentido contrário. Tem, pois, suas artes, suas ciências, suas letras, sua economia, sua moral, ou seja, um organismo inteiramente próprio e seu, animado por seu espírito, marcado com seu selo e sua fisionomia. Também o tiveram as mais poderosas heresias, como por exemplo, o arianismo na antiguidade e o jansenismo nos tempos modernos. Há, pois, não só jornais liberais, mas livros liberais, ou contaminados de liberalismo; são abundantes e, triste é dizê-lo, deles se nutre principalmente a geração atual, motivo por que mesmo sem saberem ou suspeitarem, são tantos os que se encontram miseravelmente contaminados.

Que regras dar neste caso? Regras análogas ou quase idênticas às que demos com relação às pessoas. Leia-se o que dissemos há pouco, e aplique-se aos livros o que se disse dos indivíduos. Não é trabalho difícil e popupará, a nós e aos leitores, o incômodo da repetição.

Daremos aqui apenas uma advertência, especialmente em relação aos livros. É que nós devemos nos guardar de desfazer-nos em elogios a livros liberais, seja qual for seu mérito científico ou literário, a menos que o façamos com grandíssimas reservas e ressalvando sempre a reprovação que merecem por seu espírito ou sabor liberal.

Insistamos um pouco neste ponto. Muitos católicos ingênuos (mesmo no jornalismo católico), querem ser considerados imparciais, e dar-se um verniz de saber sempre lisonjeiro. Deste modo, tocam bombo e sopram a trombeta da fama em favor de qualquer obra científica ou literária vinda do campo liberal. Dizem que assim agem para provar que aos católicos não custa reconhecer o mérito, onde quer que se encontre (maldito sistema de atração, que acaba por tornar-se o jogo de ganha-perde, pois, sem sentir, somos nós os atraídos); e que, finalmente, não há perigo algum nisto, mas sim notório espírito de eqüidade.

Que pena nos deu há poucos meses ler num jornal fervorosamente católico repetidos elogios e recomendações de um poeta célebre que escreveu, em ódio à Igreja, poemas como Visão de Pe. Martinho e A Última Lamentação de Lorde Byron! Que importa seja grande ou não o seu mérito literário, se serve para assassinar as almas que devemos salvar? Seria o mesmo que ter consideração para com o bandido pelo brilho da espada com que nos ataca, ou pelos belos entalhes que adornam o fuzil com que dispara contra nós. A heresia envolvida nos artificiosos afagos de uma rica poesia é mil vezes mais mortífera do que a revestida de silogismo escolástico, árido e fastidioso. A grande propaganda herética de quase todos os séculos foi sempre ajudada por versos sonoros. Os arianos tiveram seus poetas de propaganda; tiveram-nos também os luteranos, entre os quais muitos se prezavam, com seu Erasmo, de cultos humanistas. Quanto à escola jansenista de Arnauld, de Nicole e de Pascal, é desnecessário dizer que foi essencialmente literária. Todos sabem a que Voltaire deveu o começo e a duração de sua espantosa popularidade. Como é possível, pois, que nós, os católicos, nos façamos cúmplices de tais sirenes do inferno, dando-lhes nome e fama, e ajudando-os em sua obra de fascinação e corrupção da juventude? O que lê em nossos jornais que tal ou qual poeta é um admirável poeta, ainda que liberal, vai e compra na livraria aquele admirável poeta, ainda que liberal; e o devora avidamente, ainda que liberal; assimila-o e envenena com ele o seu sangue, tornando-se por fim tão liberal como seu poeta favorito. Quantas inteligências e corações foram perdidas pelo infeliz Espronceda! Quantas, o ímpio Larra! Quantas, há pouco, o malfadado Bécquer! Sem falar dos vivos, que poderíamos citar às dezenas. Por que temos de fazer à Revolução o serviço de pregar suas glórias funestas? Para que fim? Para parecer imparcial? Não, a imparcialidade não é permitida quando ofende a verdade, cujos direitos são imprescritíveis. Uma mulher de má vida é infame por bela que seja, e quanto mais bela, mais perigosa é. Seria por gratidão? Não, porque os liberais, mais prudentes que nós, não recomendam nossas obras, ainda que sejam tão belas quanto as suas; ao contrário, antes procuram desacreditá-las pela crítica, ou enterrá-las pelo silêncio.

Santo Inácio de Loyola, diz seu ilustre biógrafo, o Pe. Ribadeneyra, era tão zeloso neste ponto, que nunca permitiu se lesse em suas aulas obra alguma do famoso humanista de sua época, Erasmo de Roterdã. E o motivo é que, embora muitos de seus elegantes escritos não se referissem à religião, a maior parte deles tinha sabor protestante.

Do Pe. Faber1, que ninguém acusará de pouco letrado, inserimos aqui um precioso trecho a propósito de seus famosos compatriotas Milton e Byron. Dizia assim o grande escritor inglês, em uma de suas belíssimas cartas:

“Não compreendo a estranha anomalia das gentes do mundo, que citam com elogio homens como Milton e Byron, manifestando ao mesmo tempo que amam a Cristo e põem n'Ele toda a esperança de salvação. Se amam a Cristo e à Igreja, por que louvam na sociedade os que blasfemam da Igreja e de Cristo? Bradam contra a impureza como coisa odiosa a Deus, mas exaltam um autor cuja vida e obras estão saturadas deste vício. Não posso compreender a distinção entre o homem e o poeta, entre as passagens puras e as passagens impuras. Se alguém ofende o objeto de meu amor, não posso receber dele consolo nem prazer, e não posso conceber que alguém, tendo amor ardente e delicado a nosso Salvador, possa gostar das obras de seus inimigos. A inteligência admite distinções, o coração não. Milton (maldita seja a memória do blasfemo!) passou grande parte de sua vida escrevendo contra a divindade de meu Senhor, minha única esperança e meu único amor. Este pensamento me exaspera! Byron, esquecendo os seus deveres para com a pátria e todos os afetos naturais, rebaixou-se vergonhosamente, vestindo com formosos versos o crime e a incredulidade. O monstro que colocou (ousarei dizê-lo?) Jesus Cristo no nível e como companheiro de Júpiter e de Maomé, não é para mim outra coisa que uma besta feroz, mesmo em suas passagens mais puras, e nunca me arrependi de ter lançado no fogo, em Oxford, uma bela edição de suas obras em quatro volumes... A Inglaterra não precisa de Milton. Como pode meu país necessitar de uma política, de um mérito, de um talento ou de qualquer outra coisa amaldiçoada por Deus? E como pode o Pai Eterno abençoar o espírito e a obra de quem, em prosa e em verso, renegou, ridicularizou e blasfemou da divindade de seu Filho? Si quis non amat Dominum Nostrum Jesum Christum, sit anathema, dizia São Paulo.”

Nestes termos escrevia o grande literato católico inglês, um dos maiores nomes da literatura inglesa moderna. E escrevia antes de ter feito a sua abjuração completa do protestantismo. Assim discorreu sempre a sã intransigência católica, assim falou sempre o bom senso da fé.

Espanto-me de que tenha havido tantas discussões e polêmicas sobre se convinha à juventude a educação clássica, baseada no estudo dos autores gregos e latinos da antiguidade pagã, embora atenuada em seus efeitos pela distância dos séculos, pela diferença das idéias e diversidade das línguas, e que quase nada se tenha dito sobre o veneno mortal da educação revolucionária, que muitos católicos dão ou toleram sem escrúpulo a seus filhos.

  1. 1. Nascido em 24 de junho de 1814 numa família calvinista refugiada na Inglaterra, converteu-se ao catolicismo em 1845 e se tornou padre. Morreu em 26 de setembro de 1863, com 49 anos.

19. Principais regras de prudência cristã que o bom católico deve observar no trato com os liberais

E não obstante, caro leitor, com os liberais exaltados, os liberais moderados e com os católicos miseravelmente eivados de liberalismo temos de viver no século presente, como com os arianos se viveu no século quarto, com os pelagianos no quinto, com os jansenistas no décimo sétimo. E não é possível deixar de conviver com eles, porque os encontramos em toda parte: nos negócios, nas diversões, nas visitas, talvez até nas igrejas e na própria família.

Como deverá, pois, se portar o bom católico em suas relações com esses empestados? Como prevenir e evitar, ou diminuir pelo menos, o constante risco de contaminação?

É dificílimo indicar regras precisas para cada caso, mas é possível indicar as máximas gerais de conduta, deixando à prudência de cada um o cuidado de aplicá-las no que lhe diz respeito individualmente.

Parece-nos que, antes de tudo, convém distinguir três classes de relações possíveis entre um católico e o liberalismo, ou melhor, entre um católico e um liberal. Dizemos assim porque as idéias, na prática, não se podem considerar como separadas das pessoas que as professam e sustentam. O liberalismo ideológico é um puro conceito intelectual; o liberalismo real e prático são as instituições, as pessoas, os livros e os jornais liberais. Três classes, pois, de relações se podem supor entre um católico e um liberal:

- Relações necessárias.

- Relações úteis.

- Relações de pura afeição ou prazer.

 

1° - Relações necessárias. As relações necessárias são impostas a cada um por seu estado ou posição particular: não se pode evitá-las. São as que existem entre filhos e pais, marido e mulher, irmãos e irmãs, subordinados e superiores, patrões e empregados, discípulos e professores etc. É claro que, se um bom filho tem a infelicidade de seu pai ser liberal, não deve abandoná-lo por isso, nem a mulher ao marido, nem o irmão ou parente a outros da família, a não ser nos casos em que o liberalismo destes chegasse a exigir de seus respectivos subalternos atos essencialmente contrários à religião, induzindo-os à apostasia formal. Não, quando somente se impedisse a liberdade de cumprir os preceitos da Igreja, pois é sabido que a Igreja não pretende obrigar ninguém sub gravi incommodo1.

Em todos esses casos, o católico deve suportar com paciência sua dura situação e rodear-se de todas as precauções para evitar o contágio do mau exemplo. Como se aconselha em todos os livros que tratam das ocasiões próximas necessárias, o católico deve ter o coração elevado a Deus, e rogar todo dia pela sua própria salvação e pela das infelizes vítimas do erro; fugir sempre que possível de conversações e discussões sobre tais matérias, e não entrar nelas senão bem munido de armas ofensivas e defensivas; estas armas lhe serão fornecidas na leitura de bons livros e jornais, aprovados por um diretor prudente; contrabalançar a inevitável influência de  pessoas contaminadas de tais erros pela freqüentação de outras pessoas de ciência e autoridade, que estejam em posse clara da sã doutrina; obedecer a seu superior em tudo que não se oponha à fé e à moral católica, porém renovar cada dia o firme propósito de negar obediência a quem quer que seja, em tudo que seja direta ou indiretamente oposto à integridade do catolicismo. E não desanime quem se encontra nessa situação. Deus, que observa suas lutas, não faltará com o auxílio conveniente.

Convém observar aqui que os bons católicos de países liberais e de famílias liberais costumam distinguir-se, quando são verdadeiramente bons, por seu especial vigor e têmpera de espírito. É este o constante proceder da graça de Deus, que auxilia com mais firmeza aí onde mais urgente e apertada vê a necessidade.

 

2° - Relações úteis. Outras relações há que não são absolutamente indispensáveis, mas que o são moralmente, porque sem elas não é possível a vida social, que se baseia toda numa troca mútua de serviços. Tais são as relações de comércio, as do patrão e seus empregados, as do artista com seus clientes etc. Nestas não há a estrita sujeição das relações do grupo anterior; pode-se, pois, agir com mais independência. A regra fundamental é não por-se em contato com tal gente, senão quando o exige a engrenagem da máquina social. Se és comerciante, não traves outras relações que as de comércio; se és empregado, limita-te às que exige o serviço; se és artesão, contenta-te ao “entregue” e ao “recebido” relativos à tua profissão.

Guardando esta prudência, e considerando as precauções gerais recomendadas no grupo anterior, pode-se viver sem prejuízo da fé, mesmo em meio a um povo de judeus; sem esquecer que neste caso não pode haver razão alguma de vassalagem, e que a independência católica tem o dever de manifestar-se com freqüência para impor respeito aos que crêem poder aniquilar-nos com seu liberalismo indecente. E no caso de uma imposição arbitrária, deve-se repeli-la com toda a franqueza, e erguer-se ante a desfaçatez do sectário com toda a nobre e firme intrepidez de um discípulo da fé.

 

3° - Relações de mera afeição. Estas são as que contraímos e mantemos por gosto ou inclinação e que podemos romper livremente, bastando querê-lo. Com liberais devemos abster-nos delas como de verdadeiros perigos para a nossa salvação. Aqui tem pleno lugar a sentença do Salvador: “Quem ama o perigo perecerá nele” (Eclo 3, 27). Custa? Rompa-se o laço perigoso, ainda que muito custe. Tenhamos presente as seguintes considerações, que certamente nos convencerão, ou pelo menos nos confundirão, se não nos convencem. Se certa pessoa estivesse atacada de uma moléstia contagiosa, terias contato com ela? Sem dúvida não. Se tuas relações com ela comprometessem tua reputação, as manteria? É certo que não. Por acaso a visitaria, se professasse idéias injuriosas com respeito à tua família? Também não. Pois bem, nesta questão que toca à honra de Deus e à salvação espiritual, façamos o que a prudência humana nos aconselha fazer pelo nosso interesse material e nossa honra humana.

Sobre este ponto, lembramo-nos ter ouvido uma pessoa de alta hierarquia hoje na Igreja dizer: "Nada com os liberais; não freqüenteis suas casas, não cultiveis suas amizades!" O Apóstolo São Paulo já antes havia dito a seus contemporâneos: Ne commiscemini: "Não vos relacioneis com eles" (1Cor 5, 9) Cum hujusmodi nec cibum sumere: "Com eles nem sentar-se à mesa." (1Cor 5, 11).

Horror, pois, à heresia que é o mal acima de todo mal! Em país empestado, o que primeiro se procura é isolar-se. Quem nos dera poder estabelecer hoje um cordão sanitário absoluto entre os católicos e os sectários do liberalismo!

  1. 1. Se disso se resultasse um grave inconveniente .

18. Sinais mais comuns para reconhecer se um livro, jornal ou pessoa está infectado ou somente manchado de liberalismo

Nesta variedade, ou melhor, confusão de matizes e meias-tintas que oferece a diversificada família do liberalismo, haverá sinais ou notas características com que se pode distinguir facilmente o liberal do não liberal? Eis outra questão também muito prática para o católico de hoje, e que de um modo ou de outro o teólogo moralista tem de resolver freqüentemente.

Para facilitar a solução, dividiremos os liberais (pessoas ou escritos) em três classes.

1° Liberais exaltados.

2° Liberais moderados.

3° Liberais impropriamente ditos, ou apenas eivados de liberalismo.

Ensaiemos uma descrição semi-fisiológica de cada um desses tipos. É um estudo que não carece de interesse.

O liberal exaltado se conhece de imediato, porque não trata de negar nem encobrir sua maldade. É inimigo formal do papa, dos padres, de toda gente da Igreja; basta que qualquer coisa seja sagrada para excitar seu ódio implacável. Dentre os jornais, procura os mais incendiários; vota nos candidatos mais abertamente ímpios; e de seu funesto sistema aceita até as últimas conseqüências. Glorifica-se de viver sem prática alguma de religião, e a duras penas a tolera em sua mulher e filhos. Costuma pertencer às seitas secretas, e quase sempre morre sem nenhum socorro da Igreja.

O liberal moderado costuma ser tão mau como o precedente, mas cuida bastante de não o parecer. As boas formas e as conveniências sociais são tudo para ele; salvo este ponto, o resto pouco lhe importa. Incendiar um convento parece demais para ele; apoderar-se do solar do convento incendiado, parece-lhe coisa muito mais normal e tolerável. Que um jornaleco qualquer, desses de bordel, venda suas blasfêmias em prosa, verso ou gravura a dez réis o exemplar, é um excesso que ele proibiria e até lamenta que um governo conservador não proíba; porém, que se digam absolutamente as mesmas coisas em frases cultas, em um livro bem impresso, ou em um drama de sonoros versos, sobretudo se o autor é acadêmico ou coisa semelhante, já não o acha inconveniente. Ouvir falar de clubes1 lhe dá calafrios e febre, porque ali, diz ele, se seduzem as massas e se subvertem os fundamentos da ordem social; mas, segundo ele, pode-se muito bem consentir na abertura de escolas livres; afinal, quem condenará a discussão científica dos problemas sociais? Escolas sem catecismo são um insulto à nação católica que paga por elas; mas uma universidade católica, ou seja, uma universidade inteiramente sujeita ao catecismo, ou mais exatamente ao critério da fé, devem ser relegadas aos tempos da Inquisição. O liberal moderado não detesta o papa; só desaprova certas pretensões da Cúria Romana e certos exageros do ultramontanismo2, que não condizem bem com as idéias de hoje. Ele gosta dos padres, sobretudo dos "esclarecidos", ou seja, dos que pensam à maneira moderna, como ele. Quanto aos fanáticos e reacionários, ele os evita ou deles se compadece. Vai à Igreja, e por vezes até mesmo se aproxima dos sacramentos; porém a sua máxima é que na Igreja se deve viver como cristão, mas fora dela convém viver conforme o século em que se nasceu e não se obstinar em remar contra a corrente. Navega assim entre duas águas, e costuma morrer com o sacerdote ao lado, porém com a biblioteca cheia de livros proibidos.

O católico simplesmente eivado de liberalismo se reconhece assim: Homem de bem e de práticas sinceramente religiosas, ele exala, não obstante, um odor de liberalismo em tudo o que diz, escreve, ou traz entre as mãos. Poderia dizer a seu modo, como Madame de Sevigné: "Não sou a rosa, mas estive perto dela, e peguei algo de seu perfume". Este bom homem fala e age como um liberal sem que se dê conta. O seu forte é a caridade, ele é a caridade em pessoa. Como detesta os exageros da imprensa ultramontana! Chamar mau um homem que difunde más idéias parece, aos olhos desse singular teólogo, pecado contra o Espírito Santo. Para ele não há senão extraviados. Não se deve resistir nem combater; o que se deve procurar sempre é atrair. "Afogar o mal com a abundância do bem", é sua fórmula favorita, que leu um dia em Balmes por acaso, e foi a única coisa que do grande filósofo catalão lhe ficou na memória. Do Evangelho, cita apenas os textos a sabor de açúcar e mel. Explica as terríveis invectivas contra o farisaísmo como excesso de gênio ou de zelo do divino Salvador. O que não o impede de se servir delas, e muito violentamente, contra os insuportáveis ultramontanos, que com seus exageros comprometem a cada dia a causa de uma religião que é toda paz e amor. Contra estes, o contaminado de liberalismo, normalmente tão doce, mostra-se acerbo e violento. Contra estes seu zelo é amargo, sua polêmica ácida, e sua caridade agressiva. A respeito dele exclamou o Pe. Félix, num discurso célebre a propósito das acusações de que era objeto a pessoa do grande Louis Veuillot: "Senhores, amemos e respeitemos até os nossos amigos". Mas não, nosso homem eivado de liberalismo não faz assim; guarda todos os tesouros da tolerância e da caridade liberal para os inimigos jurados da fé! É claro, de que outra maneira o infeliz os atrairá? Em troca, só tem o sarcasmo e a intolerância cruel para os mais heróicos defensores dessa mesma fé.

Em suma, o eivado de liberalismo não consegue compreender a oposição per diametrum3 de que fala Santo Inácio em seus Exercícios Espirituais. Não conhece outra tática senão a de atacar pelos flancos, tática que, em religião, costuma ser a mais cômoda, porém não a mais decisiva. Bem quisera ele vencer, mas à condição de não ferir o inimigo, nem lhe causar mortificação ou enfado. A palavra "guerra" irrita-lhe os nervos, mas ele se acomoda à discussão pacífica. Está pelos círculos liberais, onde se discursa e delibera, e não pelas associações ultramontanas, onde se dogmatiza e censura. Numa palavra, se pelos frutos se reconhece o liberal exaltado e o liberal moderado, é pelas afeições, principalmente, que se reconhecerá o eivado de liberalismo .

Por esses traços mal delineados, que não chegam a desenho ou esboço, e muito menos a verdadeiro e acabado retrato, será fácil discernir prontamente qualquer um dos tipos da família liberal, em suas diversas gradações.

Para resumir em poucas palavras o traço mais característico da fisionomia de cada um: o liberal exaltado ruge seu liberalismo; o liberal moderado o discursa; o pobre liberal eivado o suspira e o geme.

“Todos são maus”, como dizia dos seus pais aquele velhaco da fábula; porém, é preciso reconhecer que ao primeiro paraliza-o  muitas vezes seu próprio furor; ao terceiro a sua condição híbrida, por natureza estéril e infecunda. O segundo é o tipo satânico por excelência, o que em nossos tempos é verdadeira causa da devastação liberal.

  1. 1. Hoje diríamos, por exemplo, “grupos terroristas”.
  2. 2. No século XIX, essa corrente de pensamento representava os defensores do papa, que recusavam todo compromisso com o mundo saído da Revolução Francesa.
  3. 3. Diametralmente oposta.
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