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Teologia (103)

Confraria dos Homens para a Castidade

Dom Lourenço Fleichman OSB
Capelão responsável

 

A Confraria dos Homens para a Castidade é uma iniciativa da Capela Nossa Senhora da Conceição, de propor a todos os homens católicos, jovens e adultos, solteiros, casados ou viúvos, um combate mais eficaz e duradouro contra a pornografia e os pecados de impureza que assolam a sociedade moderna de modo assustador. S. Excelência, Dom Alfonso de Galarreta aprovou oficialmente a criação da Confraria.

Oferecemos esta Confraria, este combate singular, aos homens e não às mulheres, por acreditarmos que os homens devem recuperar seu papel na sociedade familiar e na sociedade civil. Papel este deixado de lado por 200 anos de Liberalismo, de hedonismo e de decadência moral da humanidade. Se um homem recupera sua saúde espiritual e a fortaleza própria do seu estado, as mulheres de sua casa, sejam elas mãe, irmãs, esposa ou filhas, seguirão o exemplo dos homens fortes e castos. O resultado esperado é o restabelecimento da ordem da natureza na sociedade, com os homens sendo valorosos, fortes, virtuosos, e as mulheres se espelhando no belo exemplo dos soldados de Cristo para serem elas também santas e virtuosas.

Mas, por favor, não vejam nessa distinção nenhuma sombra de desprezo ou diminuição do papel das mulheres. Não se trata de nada disso, pois é uma questão de vida espiritual, e não de vida social. A espiritualidade masculina é diferente da espiritualidade feminina. A Confraria trabalha nos homens, para favorecer toda a sociedade. Os homens castos elevarão a casa e a cidade a uma vida sob o domínio da graça. Isso é o que importa. (Continue a ler)

A Igreja do Céu

Gustavo Corção

 

“Em mim reside toda a graça do caminho e da verdade, em mim toda a esperança da vida e da virtude. Sou como a roseira plantada à beira das águas”. Ofertório — Nossa Senhora do Rosário

Vale a pena, nestes meses de outubro e novembro, meditar muitas vêzes na Comunhão dos Santos, e especialmente na intercessão daqueles que povoam a Igreja do Céu; e vale a pena consagrar uma especial atenção ao culto de veneração que devemos à Virgem Santíssima, de cujas mãos recebemos as graças de seu Filho para nossa salvação.

Bem sabemos que os tempos são ingratos para esta forma de piedade, tão católica e tão comprovadamente boa. Quase devemos ter força de mártir se quisermos dizer alguma coisa sobre o nono artigo do Símbolo: “creio na Comunhão dos Santos”, e sobretudo se quisermos meditar aos pés de Nossa Senhora. Ai de nós!, o tempo em que vivemos gaba-se de ser comunitário em todos os sentidos, exceto neste que se refere à Comunhão dos Santos; e gaba-se de ser pacífico e fraterno em todos os sentidos, exceto neste que se refere à nossa Mãe. (Continue a ler)

A obrigação de buscar a perfeição da caridade

Pe. Garrigou-Lagrange, OP

Estado e dificuldade da questão: não se está tratando da perfeição ínfima, que exclui apenas os pecados mortais, nem tão-somente da perfeição média, que exclui os mortais e os veniais plenamente deliberados, mas da perfeição propriamente dita, que exclui imperfeições deliberadas e atos imperfeitos; logo, não é meramente o convite à perfeição propriamente dita pois, quanto a isso, não há dúvida: todos homens estão convidados à perfeição propriamente dita.

A questão versa sobre a existência de uma obrigação geral de todos católicos tenderem à perfeição da caridade. Não é, contudo, uma obrigação especial, cuja violação seria um pecado especial, como no estado religioso, mas de uma obrigação geral.

A dificuldade surge quando queremos conciliar certas sentenças de Nosso Senhor que, num primeiro momento, parecem contradizer-se.

Por um lado, Cristo aconselha o adolescente rico (Mt 19, 21): “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá aos pobres... e vem e segue-me”. Estas palavras – “Se queres ser perfeito” – parecem exprimir um conselho, não uma obrigação. Logo, todos os católicos não estão obrigados a buscar a perfeição; aparentemente, somente aqueles que já prometeram seguir os conselhos evangélicos estariam obrigados a buscar a perfeição 1

Por outro lado, declara Cristo a todos (Mt 5, 48): “Sede pois perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito”.  (continue a ler)

  1. 1. Sobre esta dificuldade, ver Suma Teológica IIa IIae, q. 184, a. 3 ad 1.

Encíclica Ad Diem Illum

Aos nossos Veneráveis Irmãos os Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e demais Ordinários em paz e comunhão com a Sé Apostólica: Sobre o Cinqüentenário da Proclamação do Dogma da Imaculada Conceição.

Veneráveis Irmãos, Saúde e Benção Apostólica

1. O curso do tempo nos levará, dentro em poucos meses, a esse dia de inigualável alegria no qual, circundado duma coroa magnífica de cardeais e bispos, há cinqüenta anos, Nosso Predecessor Pio IX, pontífice de santa memória, por virtude da autoridade do magistério infalível declarou e proclamou ser de revelação divina que Maria foi totalmente isenta da mácula original, desde o primeiro instante de sua conceição. E não há quem ignore que todos os fiéis do universo acolheram esta proclamação com tal disposição de ânimo, com arroubos tais de júbilo e entusiasmo que jamais houve, na memória de todos os tempos, manifestação de piedade tão grandiosa e tão unânime, quer para com a augusta Mãe de Deus, quer para com o Vigário de Jesus Cristo — Hoje, Veneráveis Irmãos, muito embora à distância de meio século, não podemos nós esperar que a lembrança reavivada da Virgem Imaculada desperte em nossas almas como que um eco dessas santas alegrias e renove as demonstrações grandiosas de fé e de amor à augusta Mãe de Deus que se manifestaram nesse passado já longínquo? Um sentimento, que sempre nutrimos em Nosso coração, de piedade para com a Bem-aventurada Virgem e de profunda gratidão por seus benefícios, no-lo faz desejar ardentemente. O que, entretanto, Nos dá segurança disto é o zelo dos católicos, sempre alerta e pronto a dar novas provas de honra e de amor à Virgem excelsa. Não queremos, contudo, dissimular algo que em Nós aviva grandemente este desejo: é que se Nos afigura, segundo um pressentimento secreto de Nosso coração, que podemos esperar, em um futuro pouco distante, a realização das grandes esperanças, por certo não temerárias, que a definição solene do dogma da Imaculada Conceição de Maria despertou em Nosso predecessor Pio IX e em todo o Episcopado católico.

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Pode a Igreja morrer?

Dom Lourenço Fleichman OSB

Muitas pessoas me pedem que atualize com mais freqüência o site. Confesso que não tenho conseguido me dedicar mais a este apostolado, levado pelo excesso de trabalho nas quatro capelas sob minha responsabilidade, nas revisões doutrinárias dos livros que editamos e na cura das almas. Estamos iniciando agora o projeto do Colégio São Bernardo, a primeira escola da Tradição no Brasil, sobre a qual falaremos a seu tempo.

Felizmente tenho a ajuda de uma equipe atuante no que toca a produção da Revista Permanência, de outra forma não conseguiria manter o ritmo dos lançamentos trimensais. Confesso que é um trabalho que nos traz muita satisfação.

Agora mesmo assistimos a mais um grave escândalo do ecumenismo desenfreado. A reunião promovida pelo papa Francisco I dentro do Vaticano, no domingo de Pentecostes é apenas um gemido naturalista, um grunhido da História, dentro da obra destruidora do Vaticano II.

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O sonho de Nabucodonosor

Conduzido para diante de Nabucodonosor, depois da promessa de narrar e interpretar a visão que o rei teve em sonho, disse Daniel estas palavras:

“O mistério cuja revelação o rei pede, respondeu Daniel ao rei, nem os sábios, nem os mágicos, nem os feiticeiros, nem os astrólogos são capazes de revelar-lhos. Mas no céu existe um Deus que desvenda os mistérios, o qual quis revelar ao rei Nabucodonosor o que deve suceder no decorrer dos tempos. Eis, portanto, teu sonho e as visões que se apresentaram a teu espírito quando estavas em teu leito. Senhor, os pensamentos que vieram ao teu espírito, enquanto estavas em teu leito, são previsões do futuro: aquele que revela os mistérios mostrou-te o futuro. Quanto a mim, se esse mistério me foi desvendado, não é que haja mais sabedoria em mim do que nos outros homens, mas para eu dar ao rei a interpretação, a fim de que se faça luz nos pensamentos do teu coração. Senhor: contemplavas, e eis que uma grande, uma enorme estátua erguia-se diante de ti; era de um magnífico esplendor, mas de aspecto aterrador. Sua cabeça era de fino ouro, seu peito e braços de prata, seu ventre e quadris de bronze, suas pernas de ferro, seus pés metade de ferro e metade de barro. Contemplavas (essa estátua) quando uma pedra se descolou da montanha, sem intervenção de mão alguma, veio bater nos pés, que eram de ferro e barro, e os triturou. Então o ferro, o barro, o bronze, a prata e o ouro foram com a mesma pancada reduzidos a migalhas, e, como a palha que voa da eira durante o verão, foram levados pelo vento sem deixar traço algum, enquanto que a pedra que havia batido na estátua tornou-se uma alta montanha, ocupando toda a região. Eis o sonho. Agora vamos dar ao rei a interpretação. Senhor: tu que és o rei dos reis, a quem o Deus dos céus deu realeza, poder, força e glória; a quem ele deu o domínio, onde quer que habitem, sobre os homens, os animais terrestres e os pássaros do céu, tu és a cabeça de ouro. Depois de ti surgirá um outro reino menor que o teu, depois um terceiro reino, o de bronze, que dominará toda a terra. Um quarto reino será forte como o ferro: do mesmo modo que o ferro esmaga e tritura tudo, da mesma maneira ele esmagará e pulverizará todos os outros. Os pés e os dedos, parte de terra argilosa de modelar, parte de ferro, indicam que esse reino será dividido: haverá nele algo da solidez do ferro, já que viste ferro misturado ao barro. Mas os dedos, metade de ferro e metade de barro, mostram que esse reino será ao mesmo tempo sólido e frágil. Se viste o ferro misturado ao barro, é que as duas partes se aliarão por casamentos, sem porém se fundirem inteiramente, tal como o ferro que não se amalgama com o barro. No tempo desses reis, o Deus dos céus suscitará um reino que jamais será destruído e cuja soberania jamais passará a outro povo: destruirá e aniquilará todos os outros, enquanto que ele subsistirá eternamente. Foi o que pudeste ver na pedra deslocando-se da montanha sem a intervenção de mão alguma, e reduzindo a migalhas o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro. Deus, que é grande, dá a conhecer ao rei a sucessão dos acontecimentos. O sonho é bem exato, e sua interpretação é digna de fé..” (Dn 2,27-45).

Aqui Daniel, cheio de espírito profético, expõe o encadeamento dos séculos e descreve os acontecimentos políticos futuros, de modo tal que se poderia acreditar tratar-se não do adivinho do porvir, mas do fiel historiador do passado demonstrando em pormenor seus conhecimentos sobre os monumentos de outrora. Vários elementos desse oráculo são dignos de atenção.

Em primeiro lugar, a sucessão dos quatro impérios, representados pela cabeça de ouro da estátua, pelo seio de prata, pelo ventre de bronze, pelas pernas e pés metade de ferro, metade de barro. São eles as quatro grandes monarquias que dominaram o mundo civilizado, a partir da época de Daniel: os caldeus, os persas, os gregos, e finalmente os romanos. Não é mister insistir nem se aplicar, visto que as lições deste capítulo da história são mais claras que o sol. Tu és a cabeça de ouro, disse ele. Assinalou-se aqui os babilônios, que de fato alcançaram com Nabucodosonor II o pináculo do esplendor e do poder. Por isso, é comparado ao ouro fino, pois que não havia quem fosse mais rico nem magnífico que Babilônia (cf. Is 14, 4 sq., Jr 60 inteiro teor, Dn 4, 17 sq. Etc.). Depois de ti surgirá um outro reino menor que o teu: um reino de prata, i. é, o dos medos e persas, fundados por Ciro. Quando desviaram as águas do Eufrates do leito, a grande Babilônia fiou-se na imponência de suas torres e na inexpugnabilidade de seus bastiões, mas foi tomada de assalto em uma noite, e o último de seus reis, Baltazar, assassinado. Apesar de sua vastidão, poder e riqueza, o império persa não igualou o esplendor nem a duração do império assírio-babilônico. Por isso, assemelha-se à prata que, comparada ao ouro, lhe é inferior. Depois um terceiro reino, o de bronze, que dominará toda a terra, é o de Alexandre e dos macedônios seus sucessores. Pode-se dizer com todas as letras que este é o de bronze, observa São Jerônimo, porque entre todos os metais o bronze é particularmente sonoro; ele possui um timbre argentino, e sonoridade de grande alcance e amplitude, de sorte que põe em relevo não apenas a celebridade e o poderio deste reino, mas também a eloqüência da língua grega. Um quarto reino será forte como o ferro; o ferro, dizia eu, que esmaga e triunfa sobre tudo, atribui-se sem dúvidas ao império romano. Suas limitações se representam nos pés e nos dedos, metade em ferro, metade em barro, pois que no começo ninguém lhe superava a força nem a solidez, mas no final ninguém fora tão frágil: quando das guerras civis e das guerras contra nações estrangeiras, os romanos empregavam os demais povos bárbaros como mercenários (São Jerônimo, Comentário sobre Daniel 2). Considerem-se pois esclarecidos e manifestos os fatos relativos à sucessão dos quatro impérios.

Agora, considerem que os quatro reinos representados no sonho místico, apesar de diferentes uns dos outros, cada qual com características próprias, pertencem todavia ao mesmo gênero, pois que estão unidos entre si como partes de uma só estátua, um único colosso. No capítulo sete do mesmo livro, tornamos a nos deparar com os mesmos impérios - antes figurados por cabeça de ouro, seio de prata, ventre de bronze e pernas e pés de ferro e barro - manifestados sob outras formas, a de bestas ferozes: o primeiro se identifica com o leão, o segundo com o urso, o terceiro com o leopardo, e o quarto com outra fera, inominada, mas superando as demais em ferocidade. Vi o que me apareceu na visão noturna, diz o profeta, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o mar imenso, e quatro enormes bestas surgiam do mar, cada qual na sua espécie (Dn 7, 2 sq.). Perguntou Daniel ao anjo a interpretação da visão, e este lhe respondeu: As quatro bestas enormes são os quatro reinos que se erguerão da terra, i. é, do mundo figurado pelo mar, cujas ondas representam os povos, e cujas tempestades as revoluções políticas. Notem bem a ordem, diz São Jerônimo: denomina-se leão aquele representado na imagem da cabeça de ouro. De fato, ao dizer que o primeiro é como um leão, e possui asas de águia, sublinha a ferocidade, a crueldade, a rapacidade e o orgulho do reino de Babilônia. E eis outra besta, semelhante ao urso. É a mesma que, na visão da estátua, figurava-se no seio de prata. Sabe-se que o urso não possui a majestade do leão, e sua dignidade é menor entre os animais. Além disso, não é caçador, como o leão, porém se provocado, torna-se terrível: assim os medos e os persas, se acreditamos em Xenofonte, habitavam pacificamente as montanhas escabrosas; mas logo que o rei dos assírios veio-lhes provocar, armaram-se até os dentes. Estes e outros fatos, os quais não relatarei, anunciam sem dúvida o segundo reino. Vi ainda um pouco mais, e eis outra besta, um como leopardo. O terceiro reino é o dos macedônios ou gregos, que reconhecemos na estátua sob a forma de ventre e de coxa de bronze. Aqui comparam-no ao leopardo, a mais veloz das bestas, que se precipita em direitura do sangue e que num salto voa para matar, como diz São Jerônimo. Nada fora tão avassalador quanto o triunfo de Alexandre, acumulando mais vitórias que combates, desde os mares Ilírico e Adriático até o Oceano Índico, e subjugando a Ásia inteira e parte da Europa em seis anos. Depois disso, vi uma quarta besta, aterradora e de força imensa; tinha dentes de ferro enormes, com os quais devorava e triturava, e o que sobrava fazia de escabelo para os pés – diferençava muito das outras feras que vi, e tinha dez chifres. Na estátua, representada nos pés de ferro, está a Roma pagã a devorar toda a terra. Difere muito dos precedentes pois Roma, ao devorar os demais reinos, primeiro sob a direção dos reis, depois dos tribunos, e finalmente dos ditadores e imperadores, assimilava-lhes a seiva, mas não se assemelhava a nenhuns deles; as influências não o abrandavam, mas ao contrário atiçava-lhe o instinto cruel acima das outras bestas feras. Observa assim São Jerônimo: “Admiro-me de que pudéssemos conhecer os três reinos no leão, no urso e no leopardo, mas que o império romano não fosse comparado a nenhuma besta conhecida; constrói-se uma besta terrificante, inominada, para que tudo quanto imaginemos de feraz nas demais bestas se compreenda como sendo os romanos”. Deste modo, as bestas e a estátua que representam os quatro grandes reinos são a mesma e única coisa, i. é, a civilização antiga que, no seio de diversas nações, uma após a outra, gozava do domínio e não obstante perdurava, conservando sua natureza, o mesmo estado de coisas, o mesmo gênero político sob a lei feroz e tirânica do príncipe das trevas, que o Evangelho denomina príncipe deste mundo. Por esta razão, mostram-se os reinos como levantados da terra, pois que eram puramente políticos e daí concebidos para conduzir e regrar a vida terrestre; mas conferiram-lhes a imagem de animais ferozes, porque inspirados não pelo espírito da verdadeira religião, mas pelo espírito bestial do falso culto dos demônios: culto da impiedade, do egoísmo, da crueldade, da luxúria, da impudicícia, do orgulho, da avareza e de tudo quanto o Apóstolo disse pertencer à escravidão da idolatria. Contempleis o imenso colosso, cuja aparição apavorou a alma de Nabucodonosor: ó rei, vós contempláveis uma estátua. A estátua era grande e sua aparência era extraordinária – ela postava-se diante de vós, e seu aspecto era terrificante (Dn 11, 31.)

Enquanto o colosso estava ali para ser reduzido à pó, anuncia-se um quinto império, como devendo nascer a partir dos precedentes. Vede-o, observai como a pedra que se desloca da montanha, sem intervenção de mão alguma, percute a estátua e esmigalha ao mesmo tempo ferro, barro, btonze, prata e ouro; e depois de reduzir a estátua em palha levada pelo vento de verão, a pedra transformou-se em grande montanha, e preencheu a terra. Não é espantoso que tal tenha se dado assim? Interrogai a ordem dos acontecimentos ilustres da história universal. Interrogai os monumentos, que por todo lado testemunham, no final do império romano, a renovação da face da terra. Ou ainda interrogai simplesmente os nomes dados às épocas e a cronologia que desde há muito está em uso no mundo civilizado. Interrogai-os todos, e vede se não modificam sua linguagem, se não apontam um ponto destacando-se no correr dos tempos e marcando, na sucessão dos séculos, o nascimento da nova ordem: esse instante não é a fundação de Roma, nem a instituição das Olimpíadas, tampouco o reino de Nabucodonosor ou de Ciro, rei dos persas, mas o fixado na profecia quando, sem intervenção de mão alguma, a pedra percuciente deslocou-se da montanha. “Que montanha é esta erigida da pedra que se deslocou, sem intervenção de mão alguma? É o reino dos judeus, adoradores do Deus único. Foi este Deus quem deslocou a pedra, que é Nosso Senhor... Esmagou todos os reinos da terra. Que eram os reinos da terra? Reinos de ídolos, reinos dos demônios – eles é que foram esmagados. Reinava Saturno sobre multidões humanas: que é de seu reino agora? Reinava Mercúrio não menor massa de homens: que é de seu reino agora? Foi esmagado, e os seus súditos conduzidos ao reino do Cristo. A pedra deslocada da montanha sem intervenção de mão alguma esmagou todos os reinos da terra. Que significa: deslocada sem intervenção de mão alguma? significa o Cristo nascido da raça judaica, sem intervenção do homem. De fato, os homens devem o nascimento ao ato conjugal. Ma o Cristo nasceu da Virgem, sem intervenção de mão alguma, i. é, sem intervenção de homem. Ele se levantou e, de golpe, esmagou os reinos da terra. Como imensa montanha, recobriu a face da terra. (Santo Agostinho, Discurso acerca do Salmo 98, conclusão.)

Consideremos agora, mais precisamente, a natureza do novo império e sua atitude em face dos quatro primeiros. Não é necessário nos demorarmos para demonstrar que sua natureza difere complemente dos demais. É certo que não está unido a eles como parte constitutiva da estátua, mas está acima e além dessa ordem. Daqueles se diz que se levantam da terra, mas deste que Deus o suscitou desde o céu. Porque terrestres, aqueles se reduzem à palha que o vento leva consigo. Este, porque celeste, nunca será destruído, e, ademais, aniquilará todos os reinos, subsistindo ele mesmo para sempre. Aqueles, fundados na força das armas, assemelham-se a bestas. Este, cujo nome é reino dos santos de Deus Altíssimo, não se deve constituir por violência, nem pela mão e valentia dos homens, mas contar tão-somente com a força celeste, que percute o colosso e cobre a terra inteira. Ele triunfará, em razão de algo por demais sabido para ser dito. Tudo bem, para rematar de uma vez por todas a vitória, houve mister que corresse sangue por três longos séculos – mas sangue de mártires – até que “o piedosíssimo Constantino imperador, suprimindo da república as perversidades do culto idolátrico, submete-se a onipotência do Senhor Jesus Cristo, e se converte com todas as veras da alma a Deus, junto com os povos que lhe prestavam obediência” (São Gregório, Magn., livro 3, carta 66). Eis aí o reino, reino espiritual, sobrenatural, cuja finalidade e origem são celestes. O reino de Cristo é a magnífica Igreja Católica.

Entretanto, não é porque este reino é espiritual que o devemos limitar à ordem religiosa, senão não seria lícito dizer que sucede aos quatro impérios precedentes, que sem dúvida pertencem à ordem política. A estatua, percutida e destruída, compunha-se de vários cultos e religiões idolátricas, não de diversos impérios temporais. Todavia, não se há de entender esta sucessão como a transferência de poder político à Igreja, pois um reino espiritual não tem como finalidade a administração da vida temporal, e formalmente está interdito de possuir um regime secular. Do mesmo modo, como sugere a imagem do colosso monstruoso, que a pedra mística deslocada sem intervenção de mão alguma percute e destrói, não se há de entender que fora esmagado enquanto representante do poderio político da gentilidade, pois em si o poderio político, em qualquer lugar em que se exerça, vem de Deus e não contraria seu reinado. Mas é força considerar que o poderio político, precisamente pelo fato de não se subordinar à verdadeira religião, está ao contrário subordinado ao demônio, aos ídolos, às pompas e às legiões.

O significado da profecia é o seguinte: com a destruição da idolatria e o reconhecimento do Cristo como redentor e promulgador da lei da graça, tornar-se-á a Igreja a reorganizadora das nações e dos povos, abrangendo inclusive as suas constituições políticas e sociais, certamente não pela absolvição dos poderes seculares, nem pela submissão direta, mas apenas de forma indireta, na medida em que a organização da cidade tem em vista os fins espirituais; desta feita, de modo verdadeiro e apropriado, a Igreja abatera os impérios terrestres precedentes que existiam durante o paganismo e os sucederá, substituindo-se a eles na direção suprema da sociedade. De fato, vemos que ela chegou em boa hora. Desde então, entre os cristãos, a norma ou regra suprema nas cidades não era mais a vontade despótica do tirano ou da lei de estado onipotente, que a tudo devora, mas sim a lei evangélica e a vontade de Deus manifestada na Igreja. Por meio dos bispos, dos concílios e sobretudo dos Papas, como atestam a eloquência dos monumentos históricos da Europa, a Igreja criara e conservara a nova civilização. (Liberatore, L’Église et l’État, I, 2, § 4). Assim, realmente esmagou-se ferro, argila, bronze, prata e ouro, reduzidos à palha carregada pelo vento de verão, depondo-se os césares e os nabucodonosores que abatiam os povos forçando-os a se imolar às suas veleidades, e entronizando em seu lugar príncipes cristãos, cujos títulos soam como uma definição, conforme o exemplo de Carlos Magno: Carlos, rei pela graça de Deus, soberano do reino dos Francos, e defensor zeloso da Santa Igreja, coadjutor da Sé Apostólica em todo necessário (Prefácio do Capituleiro de Carlos Magno, Migne, t. 97, col. 121).

[...]

Finalmente, resta a [...] questão das relações com o governo político, ou dos príncipes que devem servir de apoio para o comércio regular da sociedade temporal com a sociedade espiritual, fundada pela divindade de N.S.J.C.. Mas, desde há um século, esses príncipes começaram a se obnubilar tremendamente, inclusive os católicos. Daí, impregnados dos dogmas do liberalismo moderno por meio da educação, da familiaridade com o estado atual da humanidade, da opinião dominante e, se se pode dizer, da atmosfera ambiente, é dificílimo convencê-los da verdade. Diria eu com segurança que não há esperanças dum renascimento e reverdecimento de nações cristãs sobre a terra, enquanto se não restabelecerem tais príncipes. Mas a desesperança neste restabelecimento é o sinal anunciador de que a derradeira catástrofe não está distante, conforme o que diz o Apóstolo (2 Tes 11, 3).

[...]

 

Fonte: Prophéties de l”Histoire, éditions de L’Homme Nouveau, 2007

Tradução: Permanência

As sete igrejas e as sete idades

O Apocalipse relata o estado das sete igrejas da Ásia, para as quais São João teve de escrever, com o fim de lhes comunicar advertências para sua salvação. Ora, as sete igrejas figuram as sete épocas ou sete idades da Igreja universal, desde a Ascensão do Senhor até o Segundo Advento. Todas se denominam por nomes místicos que designam profeticamente o traço característico de cada uma das épocas.

A primeira igreja é a de EFÉSIO (2, 1-7). Em grego, Efésio significa impulso, o princípio da expansão ou do direcionamento a uma finalidade. Esse nome convém à idade apostólica, pois que os apóstolos pregaram por todo o mundo, com crescente êxito, após receberem o sopro impetuoso do Espírito Santo; Deus os ajudava, confirmando suas palavras com sinais. Mas a advertência epistolar convém igualmente, nesta época de que falamos, aos falsos apóstolos mencionados amiúde por São Paulo, e à seita dos nicolaítas, fonte primeva do gnosticismo impuro, criada por um dos sete primeiros diáconos. Escrito ao anjo a Igreja de Éfeso: Conheço tuas obras e teu trabalho... tu provaste os que se declaravam apóstolos e não o eram, apanhaste-os em mentira... Contudo, tens em testemunho de teu fervor o ódio pela obras dos Nicolaítas, obras que eu também odeio etc.

A segunda igreja é a de ESMIRNA (2, 8-11). Este termo designa a mirra, e também a idade durante a qual, em razão da crueldade das perseguições e da grande amargura das tribulações, se cumpriu na Igreja o que predissera a boca profética: a mirra caiu gota a gota de minhas mãos, e meus dedos estão cheios da mais excelente mirra (Ct 5, 5). Por isso, afirma o anjo à igreja de Esmirna: Eis que o diabo vai lançar alguns dentre vós no cárcere, para vos pôr à prova, e vossa aflição durará dez dias, significando claramente as dez perseguições gerais.

A terceira igreja é a de PÉRGAMO (2, 12-17). Célebre por sua literatura profana, Pérgamo é a cidade que deu origem ao pergaminho, batizando-o com seu nome. Quando alguém se refere à “pele de Pérgamo”, mais conhecida sob o nome de pergaminho, logo vem ao espírito os livros publicados e os embates e controvérsias travados com a pluma. Corresponde a igreja de Pérgamo à terceira idade, à época de Constantino, em que cessaram as perseguições cruéis aos santos e doutores, e se propagaram também as grandes heresias que satã perpetrara – os arianos, os maniqueus, os pelagianos, os nestorianos etc.. Deus suscitou grandes homens para defender a verdade, homens dignos de eterna memória: Atanásio, Basílio, Gregório Nazianseno, Ambrósio, Jerônimo, Agostinho, os dois Cirilos, e muitos outros ainda, que ilustraram magnificamente a fé católica em seus escritos. Logo, é de justiça que Pérgamo represente a terceira idade. É de justiça que se enviasse a advertência ao anjo desta igreja que, apesar de louvada pela constância da fé, está de contínuo exposta a grandes perigos, visto que habita na sé do trono de satã, havendo de se defender do sítio das doutrinas heréticas: Escrito ao anjo da igreja de Pérgamo: eu sei que habitais na sé do trono de satã, e que preservastes meu nome e não renegastes a fé etc..

Em quarto lugar, sucede à igreja de Pérgamo a de Tiatira (2, 18-29). Esta palavra significa esplendor do triunfo e solenidade pomposa, tendo origem nas festas celebradas em honra de Baco, e depois empregada para designar toda e qualquer festa ou desfile triunfal. Logo, a igreja de Tiatira representa a quarta idade, iniciada sob Carlos Magno, com a instituição do Sacro Império Romano, cuja duração exprimira o número milenar (de 800 a 1800). A instituição do Sacro Império Romano sela a subordinação da sociedade temporal à espiritual, a coroação da organização social de Nosso Senhor Jesus Cristo, predita por Isaías: De pé, Jerusalém, que brilha tua glória! Eis que vem tua luz, e a glória do Senhor se eleva sobre ti... As nações marcharão em direção à luz, e os reis à claridade de tua aurora... Sucederás a nata das nações, sucederás ao púbere dos reis, e saberás que eu, o Senhor, sou teu salvador, e que teu redentor é o Forte de Israel (Is 60, 1,3 e 16). A profecia corresponde às festas solenes, ao fulgor do triunfo e, geralmente, a tudo que diz respeito a esta época: Ao anjo da igreja de Tiatira escreveu: Conheço tuas obras, teu amor, tua fé, tua boa vontade; são tuas últimas obras mais abundantes que as primeiras. Entretanto, não faltaram maus, pois que o mistério de iniqüidade está sempre com as mãos à obra e, enquanto durar a vida presente, o triunfo da Igreja Militante não será maior do que convém. Na figura de Jezabel se anunciam os cismas funestos e as heresias que assolaram, nesta época, a Cidade de Deus, por exemplo, o cisma dos gregos no séc. XI, a heresia dos albigenses no séc. XII, e sobretudo a impiedade dos protestantes no séc. XVI, data a partir da qual o império cristão entra em decadência, se preparando a pouco e pouco, sem que ninguém percebesse, a idade da Revolução.

Por isso, teve fim Tiatira, sucedendo-lhe a quinta igreja, a de SARDES (3, 1-6). Sem dúvida, Sardes é a célebre cidade da Lídia, onde reina Crésus. Ela sugere assim a abundância de ouro e prata, de riquezas seculares a excitar as paixões, a ostentação e a prosperidade material.  Daí, o que se refere a essa igreja sabe à decadência. Por todos os lados, vê-se a defecção, a apostasia; são poucos os que conservam a fé em Jesus Cristo, enquanto muitos se afastam da religião. Em Sardes, existem pessoas que não mancharam seus vestidos. E ainda: passas por vivo, mas estás morto!  Passas por vivo, já que possuis a ciência, a liberdade, a civilização e o progresso; mas estás morto e te assentas nas trevas, à sombra da morte, pois que rejeitas a luz da vida, o Cristo Senhor. Por tal razão, disseram ao anjo desta igreja: Sede vigilante, e confirmai os que iam morrer, ordenando-lhe instantemente de continuar fiel aos ensinamentos dos santos apóstolos, e de não se afastar muito, sob o pretexto duma melhor compreensão, do sentir comum dos santos padres. Recorda-te de como escutaste e recebeste: guarda-o e comunica-o. Eis o que respeita à quinta idade. Mas o que se segue é mais animador.

Após a igreja de Sardes, surgiria a sexta igreja, a de FILADÉLFIA (3, 7-13). Tudo que se diz dela é bom, sobretudo por causa da chegada do momento capital, o mais insigne e singular dos todos os momentos desde o começo da história até os dias de hoje: a conversão em massa dos judeus, e sua entrada na Igreja dos gentios, de sorte que povos até então separados por um muro claustral tornam-se um só povo, servo do Cristo – assim, Jacó se reconcilia do Esaú, e Isaque com Ismael, conforme predissera o Apóstolo (Rm 25-32).  Daí denominarem esta igreja de Filadélfia, que quer dizer amor aos irmãos ou reconciliação dos irmãos. Se sua queda (refere-se aos judeus) foi a riqueza do mundo, que não será seu resgate em massa... Se sua recusa foi a reconciliação do mundo, que será sua reintegração, senão a ressurreição dos mortos? (Rm 11, 12; 15). Quando vier este tempo, deve-se esperar uma admirável expansão da vida cristã em todo o mundo, a insigne vitória do Cristo e da Igreja sobre a Revolução subjugada. Subjugada, disse eu, não destruída; sob a batuta de satã, a Revolução neste entrementes recupera suas forças e inflama-se de intenso furor, aprestando-se para a batalha, para a guerra definitiva contra seu adversário, o Cristo. Daí o aviso ao anjo da igreja de Filadélfia sobre a proximidade da hora da provação, que vai se abater sobre todo o mundo, para provar os habitantes da terra.

Assim, resta a sétima e última igreja, a de LAODICÉIA (3, 14-22). Laodicéia significa julgamento dos povos, indicando com clareza a época da consumação do séculos, quando o Cristo virá por sobre as nuvens do céu para julgar os vivos e os mortos.

As considerações acerca das sete igrejas do Apocalipse, ou as sete idades da Igreja do Cristo, amigo leitor, talvez não te pareçam improváveis! Concluímos que a idade em que vivemos é a quinta – a idade da defecção, da apostasia e do liberalismo, idade medianeira entre Tiatira e Filadélfia, entre o fim do Sacro Império Romano e a renovação, que o Apóstolo não hesita em comparar à ressurreição dos mortos (Rm 11, 15). Tomara nossa interpretação não se afaste da verdade! Em meio ao males presentes – tão numerosos e graves - de que padecemos, ela faz-nos nascer a esperança da restauração futura (se se pode falar assim) e da contra-revolução.

[...]

Busquemos pois o Reino de Deus e sua justiça, não desprezando o mais a que devemos prestar atenção, nem esquecendo que é possível aplicar à influência salutar a Igreja o que já se escreveu sobre a piedade: ela é a todos útil, tendo em si a promessa de vida, presente e futura.

 

Fonte: Prophéties de l’Histoire, Éditions L’Homme Nouveau

Tradução: Permanência

Como devemos nos abandonar à Providência?

 fr. Reg. Garrigou-Lagrange, O. P.

 

Em outro momento, disséramos porque devíamos nos confiar e abandonar à Providência: por causa de sua sabedoria e bondade, temos de sempre nos dirigir a ela, de corpo e alma, sob a condição do cumprimento do deveres cotidianos e da lembrança de que, se permanecermos fiéis nas pequenas coisas, obteremos a graça para o sermos nas grandes.

Vejamos agora como devemos nos confiar e abandonar à Providência, segundo a natureza dos acontecimentos que dependem ou não da vontade humana, do espírito desse abandono e das virtudes em que se deve inspirar.

 

DOS DIFERENTES MODOS DE SE ABANDONAR À PROVIDÊNCIA

SEGUNDO A NATUREZA DOS ACONTECIMENTOS1

Para entender esta doutrina da santa indiferença, convém notar, como amiúde o fazem os autores espirituais2, que o abandono não se deve exercer do mesmo modo em face dos acontecimentos que não dependem da vontade humana, das injustiças dos homens e das faltas e suas conseqüências.

Caso sejam fatos que não dependam da vontade humana, como acidentes de impossível previsão, doenças incuráveis, o abandono nunca seria demais. Seria inútil a resistência, e só serviria para nos infelicitar; por sua vez, a aceitação em espírito de fé, confiança e amor conferirá grandes méritos a esses sofrimentos inevitáveis3

. Em circunstâncias dolorosas, cada vez que se diga fiat, haverá novos méritos; a verdadeira provação tornar-se-á santificante. Mais ainda, no abandono lucraremos as provações possíveis, que talvez não se abatam sobre nós, como lucrou Abraão ao se preparar com perfeito abandono para a imolação do filho, a qual o Senhor depois não mais exigiu. A prática do abandono modifica as provações atuais ou futuras em meios de santificação, e tanto mais quanto for tal prática inspirada por um imenso amor a Deus.

Caso sejam sofrimentos provindos da injustiça dos homens, da malícia, dos maus atos, das calúnias, que fazer? Falando acerca das injúrias, das admoestações imerecidas e afrontas, das detrações que atingem nossa pessoa, diz São Tomás4 que é mister estar preparado para suportá-las com paciência, segundo as palavras de Nosso Senhor: “Se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mt. 5, 39). Algumas vezes, acrescenta ele, convém responder, seja pelo bem de quem insulta, para reprimir sua audácia, seja para evitar o escândalo que poderia nascer das detrações ou calúnias. Se acreditamos no dever da resposta e assim no da resistência, façamo-lo recomendando-nos ao Senhor para a felicidade da empresa.

Em outras palavras, devemos lamentar e reprovar tais injustiças, não porque ferem o amor-próprio ou o orgulho, mas porque são ofensa a Deus e comprometem a salvação de culpados e escandalizados. No que respeita a nós, devemos vislumbrar na humana injustiça a justiça divina que nos deu ocasião de expiar outras faltas, reais, que ninguém nos reprova. Convém considerar nessa provação a misericórdia divina, que por isso quisera nos separar das criaturas, livrar das afeições desordenadas, do orgulho, da tibieza, defrontando-nos com a necessidade premente de recorrer à oração de súplica fervorosa. Por vezes, as injustiças são, no ponto de vista espiritual, como cortes de bisturi dolorosíssimos, mas libertadores. Os sofrimentos causados devem mostrar o preço da justiça verdadeira, para nos inclinar não apenas a praticá-la em face do próximo, mas engendrar a beatitude nos que tem sede e fome de justiça e serão saciados – como consta no Evangelho.

O desprezo dos homens, em lugar de produzir a perturbação ou amargura, pode ser grandemente salutar, e revelar a vaidade da glória humana, em contraste com a beleza da glória divina, como bem entenderam os santos. Esse é o caminho que leva à verdadeira humildade, e faz aceitar e amar o ser tratado como pessoa digna de desprezo.

Finalmente, caso sejam inconvenientes de outros gêneros, resultados não da alheia injustiça contra nós, mas de nossas próprias faltas, imprudências ou fraquezas, que fazer?

Dentre as faltas e suas conseqüências, há de se distinguir o que existe de desordenado, de culpável e de humilhação salutar. A despeito do que diga o amor-próprio, não saberíamos penitenciar o bastante o desregramento da alma como injúria feita contra Deus e contra a mesma alma, não raro com prejuízo da alma do próximo. Quanto à humilhação salutar que daí resulta, devemos aceitá-la com total abandono, como se diz no Salmo 118, 71-75: “Bonum mihi, quia humiliasti me, Domine, ut discam justificationes tuas... Cognovi, Domine, quia aequitas judicia tua, et in veritate tua humiliasti me... – Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos. Melhor é para mim a lei da tua boca do que milhares de outro ou prata. As tuas mãos me fizeram e me formaram; dá-me inteligência para entender os teus mandamentos. Os que te temem alegraram-se quando me viram, porque tenho esperado na tua palavra. Bem sei eu, ó Senhor, que os teus juízos são justos, e que segundo a tua fidelidade, me afligiste”.

A humilhação que resulta das faltas é o verdadeiro remédio contra a estima exagerada de nós mesmos, estima conservada malgrado o desapreço ou desprezo que outrem nos manifesta. Sob a humilhação que vem de fora, podemos endurecer por orgulho, queimar-nos o incenso que nos é recusado. É uma das formas mais sutis e perigosas do amor-próprio e do orgulho. Quer corrigir-nos a misericórdia divina, por meio da humilhação oriunda das próprias faltas; em sua bondade, ele as faz se disputarem contra si, de modo a avançarmos; deste modo, enquanto nos aplicamos, é forçoso aceitar as humilhações com abandono perfeito. Bonum mihi, quia humiliasti me, Do­mine... Esta é a via que conduz à prática da palavra profunda da Imitação, tão fecunda para quem realmente a compreende. Amare nesciri et pro nihilo reputari: Amar ser ignorado e reputado como nada. Há de se viver dessa doutrina, segundo a natureza dos acontecimentos, dependam eles ou não de nós.

 

COMO SE DEVE ABANDONAR À PROVIDÊNCIA?

Como dizem os quietistas, seria este um espírito que amesquinha a esperança de salvação, sob pretexto de alta perfeição?

Muito ao contrário, deve este ser um grande espírito de fé, de confiança e de amor.

A vontade de Deus, traduzida em seus mandamentos, é de que esperemos nele, obrando com confiança a nossa salvação, quaisquer que sejam os obstáculos; essa vontade está no domínio da obediência, e não no do abandono. A vontade de abandono respeita ao bel prazer da vontade de Deus, com relação ao futuro incerto e aos fatos que acontecem diariamente no curso da vida, como a saúde, a doença, o sucesso e os infortúnios5.

Sob o pretexto da perfeição, sacrificar a salvação, a beatitude eterna, seria algo absolutamente contrário à inclinação natural à felicidade, inclinação que, semelhante à nossa natureza, vem de Deus. Seria contrário à esperança cristã, não apenas àquela dos fiéis, mas a dos santos que, durante as maiores provações, heroicamente esperaram “contra toda esperança humana”, segundo aquilo de São Paulo, quando tudo parecia perdido. Enfim, tal sacrifício da beatitude eterna seria contrária a mesma caridade cristã, que nos faz amar a Deus por si mesmo, e desejá-lo possuir para glorificá-lo pela eternidade.

A inclinação natural, que vem de Deus e nos faz desejar a felicidade, não é desordenada, pois já ela impulsiona o amar a Deus, soberano bem, mais que a nós mesmos. Demonstrou-o São Tomás: Assim, disse ele, no organismo a mão está naturalmente inclinada para amar o todo acima de si, e caso seja necessário, para se sacrificar. Assim a galinha, por instinto, junta os pintinhos sob as asas, como disse Nosso Senhor, e caso seja necessário, se sacrifica para preservá-los do gavião; porque ama inconscientemente o bem da espécie, mais que a si mesma. Essa inclinação natural existe no homem, sob uma forma superior. Amando o bem do que é superior em si, o homem ama mais ainda o Criador; cessar de querer a perfeição e a salvação é desviar-se de Deus. Não há como sacrificar o desejo de salvação ou de beatitude eterna, sob o pretexto de alta perfeição, como pensaram os quietistas.

Longe disso, o abandono a Deus é exercício excelente das três virtudes teologais, da fé, da esperança e da caridade, por assim dizer mescladas uma nas outras.

É verdade afirmar que Deus purifica o desejo de salvação, o amor-próprio que nele se mescla, por meio das incertezas que ele permite nos acometam, obrigando-nos a amá-lo mais à puridade.

É preciso abandonar-se a Deus com espírito de fé, acreditando que, como diz São Paulo (Rm. 8, 28), tudo concorre para o bem na vida daqueles que amam a Deus e que perseveram no seu amor. Este ato de fé é o mesmo do santo homem Jó, que ao ficar privado dos bens e dos filhos, permaneceu submisso a Deus, ao declarar: O Senhor deu, o Senhor tirou, que seja louvado o nome do Senhor (Jó 1, 21).

Foi desta forma que Abraão preparou-se para obedecer a Deus, que lhe ordenava a imolação do filho; e foi com grande fé e boa vontade que abandonava o devir de sua raça à vontade divina. Recorda-o São Paulo, ao escrever na Epístola aos Hebreus 11, 17: “Pela fé ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito. Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar”.

Claro, nossas provações são bem menores, apesar de parecer às vezes pesadas, por causa da fraqueza.

Pelo menos, a exemplo dos santos, acreditamos que o Senhor em tudo obra o bem, seja enviando a humilhação e a secura, seja nos cumulando de honrarias e consolações. Como nota o pe. Piny, não há fé maior e mais viva do que acreditar que Deus dispõe tudo para o bem das almas, mesmo que pareça destruí-las, e lhes desfazer os melhores desejos; mesmo que permita a calúnia, a degradação irreversível da saúde ou coisas ainda mais dolorosas. Eis uma grande fé, pois é acreditar no que parece menos crível: que Deus eleva ao rebaixar; e não somente de modo abstrato e teórico, senão que de modo prático e vivido. É experimentar o que diz o Evangelho: “Quem se eleva (como o fariseu) será humilhado; quem se humilha (como o publicano) será elevado” (Lc. 18, 14). É viver a palavra do Magnificat: “Deposuit potentes de sede, et exaltavit humiles; esurientes implevit bonis, et divites dimisit inanes – O Senhor abateu os orgulhosos, e elevou os humildes; encheude bens os famintos, e os ricos despediu-os com as mãos vazias” (Lc. 1, 52). Devemos todos ser pequenos pela humildade, e famintos dum vivo desejo pela verdade divina, que é o verdadeiro pão da alma.

Cumprindo os deveres cotidianos, devemos nos abandonar ao Senhor com espírito varonil de fé. É mister fazê-lo com confiança filial em sua paternal bondade. A confiança (fiducia ou confidentia) é, afirma São Tomás, a firme ou forte esperança que vem da grande fé na bondade de Deus, autor da salvação. O motivo formal da esperança é a bondade de Deus, sempre caridosa, segundo as promessas, Deus auxilians.

“Bem-aventurado, cantam os salmos, os que confiam no Senhor” (Sl. 2, 12). “Os que confiam nele são como a montanha de Sião; ela não se abala, porque permanece sempre sobre sua base” (Sl. 124, 1). “Conserva-me, Senhor, porque espero em vós” (Sl. 15, 1). “Vós sois o meu refúgio, jamais serei confundido” (Sl. 30, 1).

Escrevendo sobre Abraão, que mau-grado a idade avançadíssima, acreditou na promessa divina, de que se tornaria pai de inumeráveis nações, diz São Paulo (Rm. 40 18): “Em esperança, creu contra toda esperança; ...não duvidou da promessa de Deus por incredulidade, mas foi fortificado na fé, dando glória a Deus, e estando certíssimo de que o que ele tinha prometido também era poderoso para fazer”.

De igual modo, cumprindo nosso dever cotidiano, devemos esperar de Nosso Senhor a realização de sua palavra: “As minhas ovelhas conhecem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem... ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo. 10, 28). Como nota o pe. Piny: depois de cumprir com siso o dever, o abandonar-se confiadamente nas mãos do Senhor é ser de fato ovelha. Aquiescer sempre com suas ordens; rezar com amor para que tenha piedade de nós; arrojar-se confiante nos braços da misericórdia com faltas e remorsos – não é a melhor forma de escutar a voz do Bom Pastor? Depor em seu seio todos os temores do passado e do futuro, num santo abandono que, longe de se opor à esperança, constitui-se em sacratíssima confiança filial, unida ao amor purificante.

Consiste o amor puríssimo no alimentar-se da vontade de Deus, a exemplo de Nosso Senhor, que disse: O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e de cumprir sua obra” (Jo. 4, 34). “Não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” (Jo. 5, 30). “Eu desci do céu, não para fazer a minha vontade” (Jo. 6, 38). Não existe modo mais nobre, mais perfeito, mais puro de amar a Deus, senão fazer da divina vontade a minha, cumprindo sua vontade positiva e abandonando-se em seguida a seu bel prazer. Para as almas que seguem esse caminho. Deus é tudo; no final, podem afirmar: Deus meus et omnia. Deus é o centro, e só nele estão em paz, ao submeter todas as aspirações a seu bel prazer, ao aceitar tranqüilamente tudo que ele faz. Nos momentos mais difíceis, Santa Catarina de Sena recordava-se desta palavra do Mestre: “Pensa em mim, que eu pensarei em ti”.

Raras são almas que chegam a tal perfeição. Mas é mister tentar. São Francisco de Sales escreve: “Nosso Senhor ama com amor delicadíssimo aqueles felizes que se abandonam à divina providência sem divagar em considerações acerca da natureza, aproveitável ou danosa, dos efeitos dessa providência; estão certos de que nada se enviaria do amantíssimo coração paternal, nem que tal seria permitido acontecer, de que não lucrassem o bem e a utilidade, uma vez que depositamos nele toda a confiança... Quando (no cumprimento do dever cotidiano) nos abandonamos de todo à providência divina, Nosso Senhor cuida de tudo e nos conduz... A alma está junto dele como um menino junto à mãe; quando ela o põe no chão para caminhar, ele o faz até que sua mãe o pegue novamente no colo; quando ela o quer carregar, ele se larga em seus braços: não diz nada nem pensa para onde vão, mas se deixa levar ou conduzir para onde praz à sua mãe. Igualmente para esta alma, que ama a vontade do bel prazer de Deus em tudo o que lhe acontece, e se deixa levar, e não obstante caminha, cumprindo denodadamente o que é da vontade de Deus positiva.” A exemplo de Nosso Senhor, pode dizer verdadeiramente: “O meu alimento é fazer a vontade de meu Pai”; é aí que ela encontra a paz, aquela paz que já mora em nós, como vida eterna começada, “inchoatio vitae aeternae”.

 

La Vie Spirituelle Septembre 1931 n°143

 

Tradução: Permanência

Fonte: www.salve-regina.com

  1. 1. São FRANCISCO DE SALES, L'Amour de Dieu, livro VIII, cap. v, e 1. IX, cap. I a VII.
  2. 2. São FRANCISCO DE SALES, L'Amour de Dieu, loc. cit., e Entretiens II e XV. - DE CAUSSADE, Abandon, t.11, p. 279. Apêndice, 2° p. Cf. Dom VITAL LEHODEY. Le Saint Abandon,' Paris, Amat, 1919, 3ª parte: O abandono no que respeita aos bens naturais do corpo (saúde e doença) e da alma (distribuição desigual dos dons naturais), aos bens da opinião (humilhações, perseguições), aos bens espirituais essenciais (graça e glória), às variedades espirituais da via comum (os insucessos e as faltas, as provações, as consolações), às variedades espirituais na via mística...
  3. 3. Provações existiram que tranformaram vidas, como as que se vêem na biografia do pe. Girard, intitulada Vinte e Dois Anos de Martírio. Após seu diaconato, a tuberculose óssea acometeu esse santo padre, a qual o imobilizou por vinte e dois anos sobre uma cama, onde sofrera crudelissimamente e oferecera todos os dias tais sofrimentos aos padres de sua geração. Ele, que padecia a dor de nunca poder celebrar a missa, unia-se deste modo, diariamente, ao sacrifício de Nosso Senhor perpetuado no altar. A doença, em vez de destruir a vocação, transfigurou-a.
  4. 4. IIa IIae Q.72 a.3, et q.73, a. 3, ad 3um
  5. 5. Cf. São FRANCISCO de SALES, Amour de Dieu, t. ils:, c. v, e B0SSUET, États d'oraison, 1. VIII, 9

Sobre a disciplina cristã

Capítulo Primeiro: Objeto do discurso.

1. Através da boca da Escritura, vem o Senhor fazer escutar sua voz, dirigindo a nós esta urgente exortação: “Recebei a disciplina na morada do ensino”. Quem aprende é o discípulo; a morada do ensino, a Igreja de Jesus Cristo. Que se aprende aqui e por quê? Quem aprende e quem o ensina? Aprende-se a boa vida, e se aprende a boa vida para merecer a felicidade de viver para sempre. Os discípulos são os cristãos; o mestre, Jesus Cristo. Que é a boa vida? Qual a recompensa da vida santa? Quais os verdadeiros cristãos? Enfim, quem o mestre verdadeiro? São estas as questões sobre as quais desejamos vos dizer algumas palavras, se Deus nos der a graça.

Todos habitamos na morada da disciplina, mas muitos não a desejam; e para cúmulo da perversidade, recusam a disciplina habitando na morada da disciplina. Não deveria lhes ser ensinada a disciplina, para assim poder levá-la até suas próprias moradas? Mas não, como se lhes não bastasse a indisciplina nas suas moradas, pretendem conservá-la até na morada da disciplina. Ah!, quem não rejeita a palavra de Deus, mas empresta a atenção dos ouvidos e da alma; quem não se assemelha à via pública sobre a qual os passarinhos devoram a semente tão logo esta se espalhe; quem não se assemelha ao terreno pedregoso no qual a semente não logra penetrar raízes profundas, onde cresce um momento e logo resseca; quem não se assemelha ao campo coberto de espinhos, cuja espessura logo abafa os brotos das sementes; enfim, quem se encontra figurado na terra fértil, amanhada para receber a semente que dá a cem, a sessenta ou a trinta por um, receberão transportados os ensinamentos que o Senhor se agradar de me inspirar; ademais, os que atualmente possuem razões legítimas para se aproximar desta cátedra de ensino, não esqueçam que não é à toa que empresto do Evangelho estas comoventes parábolas. Se Jesus Cristo é o divino semeador, quem sou eu? Mal e mal, sou o cesto que carrega o grão. Ele deseja depositar em mim a semente que vai chantar em vossas almas. Não repareis na baixeza do cesto, mas sede sensíveis ao preço da semente e ao poder do semeador.

 

Capítulo Segundo: Que é a boa vida?

2. Que é a arte da boa vida, que aprendemos aqui? A lei encerra multidão de preceitos, que são como as regras, as linhas e o alfabeto da vida boa. Sim, os preceitos são numerosos e por assim dizer inumeráveis. Mal podemos enumerar as páginas que encerram os preceitos; quanto mais não seria enumerar os mesmos preceitos. Todavia, para não deixar a ninguém o recurso da desculpa, seja porque não os leu, seja porque não os saiba ler, seja porque não os poderia compreender, o Senhor, para impossibilitar a desculpa no dia do julgamento, quis resumir a lei numa só palavra, segundo a predição do profeta: “Deus lançará por sobre a terra uma palavra, que condensará e resumirá todas as outras”. É breve a palavra, mas não acrediteis que seja obscura. Ela é breve, para que seja sempre possível lê-la; é clara, para que ninguém tenha o direito de afirmar: não a compreendi. Constituem as Santas Escrituras um como imenso tesouro, que encerra inúmeros preceitos admiráveis, e são umas tantas pérolas preciosas e vasos de grande preço. Mas quem pode investigar o imenso tesouro, dele se servir e lhe descobrir todas as riquezas? No Evangelho, emprega o Salvador esta comparação: “O reino dos céus é semelhante ao tesouro encontrado no campo”; após, como se temesse que alguém replicasse a incapacidade de cavoucar para descobrir o tesouro, imediatamente se valeu desta outra comparação: “O reino dos céus é semelhante ao negociante que busca boas pérolas, encontra uma preciosa e, para adquiri-la, vende tudo o que possui”. Talvez vos sintais demasiado preguiçosos para cavoucar o tesouro, mas não o sejais a ponto de não levar uma pérola cosida ao bolso da calça e assim assegurar-vos o direito de andar em segurança.

 

Capítulo Terceiro: Mandamento de amar a Deus e ao próximo.

3. Que palavra é essa que resume todas as outras? “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo teu espírito, e a teu próximo como a ti mesmo. Nestes dois preceitos estão contidos toda a lei e os profetas”. Eis o que se aprende na morada da disciplina: amar a Deus, amar ao próximo; a Deus por si mesmo, e ao próximo como a si mesmo. Encontrareis alguém que se possa igualar a Deus, ao ponto de afirmar: amai a Deus como amais aquela criatura? Foi possível encontrar uma medida para o próximo, porque sois iguais ao próximo. Buscais o modo de amar ao próximo? Lançai o olhar sobre vós mesmos, e amai o próximo com o mesmo amor com que amais a vós. Aqui não é possível o erro. Quero confiar-vos o próximo, para que o ameis como a vós; desejo-o, mas o receio ainda. Desejo-vos dizer: amai ao próximo como vós vos amais. Imploro-vos, sem amargura. Por que vos é confiado o próximo, devo abandonar-vos assim, tratando convosco só por um tempo? Não formais senão um só homem, e para vós o próximo é a multidão dos homens, não somente o irmão, o parente, o aliado. Não, pois todo homem tem como próximo por sua vez todo homem. O pai e o filho, o sogro e o genro possuem entre si laços estreitos de proximidade. Ora, nada há de tão próximo quanto o homem de seu próximo. Caso vós estejais tentados a pensar que são próximos apenas os nascidos dos mesmos parentes, relembrai-vos de Adão e Eva, e compreendereis que todos somos irmãos. Somos irmãos na singela qualidade de homem, quanto mais não seremos na de cristãos! Enquanto homens, tendes um único pai, Adão, e uma única mãe, Eva; enquanto cristãos, tendes um só Pai, que é Deus, e uma só mãe, que é a Igreja.

 

Capítulo Quarto: Como amar o próximo a quem se ordenou amar o próximo como a si mesmo.

4. Vede pois de que multidão de homens somos próximos, cada um de nós. Todos os homens com quem encontramos, todos a quem podemos nos unir é o próximo. Como saber de que amor se ama se são seus próximos tantos homens, a quem deve amar como a si mesmo? Que ninguém se exaspere assistindo-me examinar o como se ama. A mim pertence o discorrer, a vós reconhecer-vos nas minhas palavras. Por que discorrer? Posso eu saber o estado da alma de cada um? Discorro, para que cada um se interrogue, olhe e veja sem disfarces, para que se encare e pose diante dos próprios olhos, sem voltar às costas para si mesmo. É justamente isso que se há de fazer enquanto falo, para melhor proveito de minhas palavras. Como vos amais? Vós que me escutais, antes, que escutais o Senhor pela minha boca, enquanto estais aqui nesta morada da disciplina, prestai contas a vós mesmos de que maneira vos amais. Tomara eu pergunte se vós vos amais, e me respondais afirmativamente. Com efeito, alguém pode odiar a si? Talvez me responderíeis: mas alguém consegue odiar a si? Se vós vos amais, não ameis a iniqüidade, pois se a amais, escutai, não a minha palavra, mas a do salmista: “Quem ama a iniqüidade, odeia sua alma”. Se vós amais a iniqüidade, escutai a verdade, não a que vos incha, mas a que vos declara: vós odiais a vós mesmos. Quanto mais repetis que vos amais, mais vos odiais, pois “quem ama a iniqüidade, odeia sua alma”. Que direi eu da carne, a porção mais vil de nós mesmos? Se odeia sua a alma, como ama sua carne? Quem ama a iniqüidade, odeia sua alma, e cobre sua carne de torpeza. Vós, que amais a iniqüidade, como queríeis que vos confiassem o próximo, para que vós o amásseis como a vós mesmos? Ó homem, por que vos perdeis? Se amais de modo a vos perder, não perdereis aquele a quem amais como a vós mesmos? Proíbo-vos de amar quem quer que seja; perecei só, se desejardes perecer. Reformai vosso amor, ou renunciai toda sociedade.

 

Capítulo Quinto: O amor pernicioso ao próximo.

5. Talvez vós me dissésseis: Amo meu próximo como a mim mesmo. Compreendo-o perfeitamente. Desejais vos inebriar com aquele que amais como a vós mesmos. Gozemos a valer agora, bebamos o quanto pudermos. Reconhecei que é assim que vos amais, e que atraindo para vós o próximo, o convidais para o que vos agrada. Sentis a necessidade de usar aquele a quem amais para inchar o amor que tendes por vós mesmos. Homem demasiado humano, ou antes, homem cruel, que ama o que amam as bestas selvagens! Inclinou Deus em direção à terra a face dos animais, para que buscassem alimento; já a vós, ele vos elevou acima da terra, para tangê-la apenas com os pés. Quisera que vossa fronte se voltasse em direção ao céu. Que vosso coração não desminta o vosso rosto. Não tenhais a fronte altiva e o coração servil, antes escutai a palavra tão verdadeira quanto bela: Corações ao alto; não mintais dentro da morada da disciplina. Quando vos dirigirem esta palavra, respondei, mas que não seja mentira. Neste sentido é que deveis vos amar, e aí então amareis o próximo como a vós mesmos. Não é alçar o coração ao alto encarnar esta palavra: “Ama o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito”? Se existem apenas dois preceitos, não seria bastante formular apenas um? Um só basta, à condição que seja bem entendido. Com efeito, na Escritura encontramos as palavras referidas por São Paulo: “Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e ainda outros mandamentos que existam, eles se resumem nestas palavras: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é o pleno cumprimento da lei”. Que é a caridade? A dileção. Como se nada houvesse dito a Deus acerca da dileção, deixa o Apóstolo entreouvir que a dileção ao próximo basta para o cumprimento da lei. Qualquer outro mandamento se encontra resumido, observado nesta palavra. Qual palavra? “Amareis ao próximo como a vós mesmos”. Eis o mandamento; todavia, disséramos que havia dois, nos quais se resumem toda a lei e os profetas.

 

Capítulo Sexto: Consiste a felicidade do homem em amar a Deus.

Vede como a lei continua a se restringir, e ainda somos negligentes! Eis que os dois preceitos de que falávamos se resumem a um só. Ameis ao próximo, e isso basta. Mas amai-o como vós vos amais, e não como vós vos odiais. Amai ao próximo como a vós mesmos, mas antes de tudo amais-vos vós mesmos.

6. Resta-vos saber como vos amais a vós, por isso escutai esta palavra: “Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e todo teu espírito”. O homem que não acredita em si, pode menos encontrar para si a felicidade. Uma potência essencialmente distinta do homem fez o homem; uma potência essencialmente distinta dele torná-lo-á feliz. Mas, infelizmente, como tem o firme sentimento de que não consegue ser feliz por si só, cai em erro ao escolher o objeto cujo amor torná-lo-ia feliz; ama-o, pois lhe parece que nisto encontra a felicidade. E nesta busca, que ama? A riqueza, o ouro, a prata, as posses; ou, para resumir em uma palavra, a riqueza. Com efeito, designa esse nome tudo que possuem os homens nesta terra, e que podem controlar. Seja o escravo, o vaso, o campo, o bosque, a manada, tudo são riquezas. Denominavam os antigos a riqueza como pécula, porque as manadas (pécus) eram toda sua riqueza. Lemos que os antigos patriarcas eram ricos em manadas. Ó homem, amais a riqueza; vós a contemplais como princípio de felicidade, prodigalizando para ela todo vosso amor. Se desejardes amar ao próximo como a vós mesmos, partilhai com ele as riquezas. Busquei saber quem éreis; agora, já vos vistes a vós, já vos examinastes e considerastes. Não estais dispostos a partilhar vossas riquezas com o próximo. Contudo, que me responde a diligente avareza? Que me responde ela? Se a partilho com alguém, será menor a minha parte, e a sua também; o meu amor se achará reduzido, nem eu nem ele possuiremos todo o tesouro. Mas visto que o amo como a mim mesmo, aspiro-lhe tantas riquezas quantas as que possuo; desta maneira, não serei privado de nada, e ele possuirá tanto quanto eu. 

 

Capítulo Sétimo: A inveja é vício diabólico, oriundo do orgulho.

7. Desejais de modo a não perder coisa alguma; mais prouvera a Deus se vossa palavra fosse sincera, ou vosso desejo verdadeiro! Com efeito, temo que sejais invejosos. Se a felicidade alheia vos inquieta e tormenta, como será a vossa felicidade comum a todos? Começa vosso vizinho a enriquecer, a se elevar, a caminhar sobre vossos passos, não temeis que ele vos persiga e ultrapasse? Certamente, amais ao próximo como a vós mesmos. Não falo das vítimas da inveja. Que Deus os preserve desta triste doença do espírito todos os homens, sobretudo os cristãos; eis aí um vício de fato diabólico, do qual se tornou o demônio culpado, eternamente culpado. Pronunciando a sentença de condenação contra o demônio, não lhe disseram que cometera adultério, mas somente que usurpara o bem a outrem: porque caístes, levastes a inveja ao homem, que está de pé. É a inveja, pois, vício diabólico, cuja mãe é o orgulho. O orgulho é a mãe dos invejosos. Sufocai a mãe, e a filha não nascerá. Eis o porquê de Jesus Cristo ensinar com tanta humildade. Dirijo-me não aos invejosos, mas aos que alimentam bons desejos. Falo àqueles que desejam o bem a seus amigos, e lhe aspira na mesma medida que para si mesmos. Por exemplo, aspiram a que os pobres tenham fortuna semelhante a sua, mas se recusam em lhes dar parte dela.

Vós vos ensoberbeceis, cristãos, de aspirar ao bem dos outros? Mas o mendigo é superior a vós, porque em nada tendo deseja para vós mais do que tendes. Dignai-vos desejar o bem de quem nada lhe dá; antes, dai alguma coisa a quem lhe deseja o bem. Se for boa obra desejar o bem aos outros, dai-lhes a recompensa merecida. O pobre aspira ao vosso bem, por que tremeis? Vou mais longe: estais na morada da disciplina. Encareço o já dito: dai àquele que vos deseja o bem, pois este é simplesmente o próprio Jesus Cristo. Quem vos pede é o mesmo que vos dá. Enrubescei-vos de vergonha. Pudera este rico ser pobre, para que tivésseis sempre pobres a quem dar. Oferecei qualquer coisa a vosso irmão, ao vosso próximo, a vosso companheiro. Sois rico e ele, pobre. É este o caminho verdadeiro, não vos recuseis de o percorrerdes juntos.

 

Capítulo Oitavo: Diminuir, pela esmola, o fardo das riquezas.

8. Talvez me respondais: Eu sou rico, e ele pobre. Ides marchar juntos, sim ou não? Dizer eu sou rico, e ele pobre, não é afirmar que eu estou carregado, e ele sem fardo algum? Eu sou rico, e ele pobre. Lembrai-vos de vosso fardo, e transmiti o peso que vos esmaga. O que mais me impressiona é o estar vós encadeado a vosso fardo, não podendo por isso estender a mão. Estais sobrecarregados, ligados, de que pois vos orgulhais? Por que vos derramais em elogios? Parti as correntes, aliviai o fardo. Passando-o ao companheiro de viagem, vós o ajudais e vos aliviais. Enquanto derramais elogios pomposos a vosso fardo, Jesus Cristo pede-vos a esmola, e nada recebe, e para melhor disfarçar a crueza da recusa, invocais a ternura paternal e dizeis: Não o devo entesourar para meus filhos? Apresento-vos Jesus Cristo, opondes-me vossos filhos. A vossos olhos, é justo que possais contemplar vossos filhos em abundância luxuriante, e vosso Senhor na miséria? “O que fazeis ao menor de meus irmãos, é a mim que o fazeis.” Nunca pesastes nem lestes essas palavras? Eis aqui o homem derrotado, e vós me enumerais vossos filhos? Que seja, enumerai-mos, mas a esse número acrescentai mais um, vosso Senhor. Se tendes um, acrescente o segundo; se tendes dois, o terceiro; se tendes três, o quarto. Sei que nada disso vos apraz. É desse modo que amais vosso próximo, até torná-lo partícipe de vossa perdição.

9. Como vos dizer ainda de que modo amais o próximo? Homem avarento, que palavra comove vossa orelha? Vós não afirmaríeis a vosso filho, irmão ou pai, que aqui a felicidade é ser rico? Mais ricos sejais, maiores serão aos olhos dos homens. Fazei de um tudo e amontoai tesouros. Eis o que murmurais à orelha do próximo; não fora isso, todavia, o escutado, nem o aprendido na morada da disciplina.

 

Capítulo Nono: Evitar os perniciosos discursos dos avarentos.

Não é esse o amor que vos peço ao próximo. Oh!, quem me dera conseguir apartar-vos de tais pessoas! Pois “as más conversações corrompem os bons costumes”. Mas não posso esperar que nunca vos aproximeis de um estranho, para murmurar à sua orelha a linguagem vergonhosa que teimais em não desaprender; não somente não o quereis, mas vos alegrais de comunicar a outrem. Condeno-o vigorosamente, e desejo, contudo em vão, interpor entre vós e vossos irmãos uma barreira intransponível. Ah, dirijo-me diretamente aos outros, aqueles cujas orelhas desejais entreter e macular, para ali injetar o veneno até que escorra ao coração. Ó vós, que recebeis a palavra de vida na morada da disciplina, “erigi uma barreira de espinhos em torno de vossas orelhas”. “As más conversações corrompem os bons costumes; erigi uma barreira de espinhos em torno de vossas orelhas”. Cercai-a, cercai-a de espinhos, para quem tentar penetrá-la, não só seja afastado, mas ferido. Arredai-o para longe de vós. Dizei-lhe: vós sois cristão, eu sou cristão; não foi isso que aprendemos na morada da disciplina, nessa escola onde entramos gratuitamente, nessa disciplina cujo Mestre tem cátedra no céu. Não me faleis assim, ou afastai-vos. Com efeito, este é o sentido destas palavras: “Cercai vossas orelhas com uma barreira de espinhos”.

10. Agora, dirijo-me a vós. Vós sois avarentos, amais o dinheiro: desejais ser felizes? Amai o Senhor vosso Deus. A riqueza não vos torna felizes; vós a honrais com todas as veras, mas ela vos não torna felizes. Como amásseis muito a riqueza, vejo que ides onde vos arrasta o ardor dos desejos. Preguiçoso, ide onde vos chama a caridade; vede e observai bem se nosso Deus não é infinitamente superior à riqueza. O sol que nos alumia é mais formoso que a riqueza, e entretanto não é Deus. Se essa luz é mais formosa que a riqueza, quanto mais não será aquele que criou essa luz? Desejais pois medir o dinheiro com essa luz? Que desaparecesse o sol durante a noite, mostrai-me então vosso dinheiro. Ele rebrilha, mas somente quando se pontua a noite com uma fogueira; eis que sois ricos, mostrai-me vossas riquezas; se não tendes luz, se vossos olhos estão mergulhados em obscuridade, mostrai-me onde estão vossas riquezas.

 

Capítulo Dez: A cegueira dos avarentos.

Não logram os olhos sondar a horrível profundidade da avareza, mas é certo que o espírito o pode. Vimos avarentos cegos; dizei-me o que os torna cegos. Tenha ou não posses, o avarento é um cego. Por quê? Porque, desde que ele crê possuir, é cego. A crença é o que o torna rico; logo, é rico porque assim o crê, e não porque o vê. Quanto mais rica não é, certamente, a elevação da fé em direção a Deus! Não vedes o que possuis, e é o mesmo Deus quem vo-lo diz. Não o vedes ainda, mas amai-o e então o vereis. Cegos que sois, amais o dinheiro que não verás. Possuis como cegos, e morrereis como cegos, abandonando cá embaixo o que possuíeis. Até durante a vida, não possuíeis, pois não víeis o que tínheis.

11. E Deus, que vos disse? Escutai a palavra da sabedoria: amai a Deus “como ao dinheiro”. É infâmia e ultraje comparar a sabedoria ao dinheiro: contudo, aqui nos contentamos de comparar amor e amor. Com efeito, vejo-vos tomados do amor à riqueza, pelas quais, sob as ordens dele, empreendeis os trabalhos mais penosos, suportais o jejum, singrais os mares, confiais-vos aos ventos e às vagas. Sei o que poderíeis amar, mas não sei o que poderia eu acrescentar ao amor que já possuís. Amai-me assim, não há modo mais subido de me amar, diz o Senhor.

Dirijo-me aos homens injustos e avarentos; amais o dinheiro, dai-me a mim então esse amor. Sem dúvida, sou infinitamente superior à riqueza, mas vos peço apenas o mesmo amor; amai-me tanto quanto amais o dinheiro. Ao menos enrubesçamos de vergonha, confessemos nosso crime, batamos sobre o peito, em lugar de revestir nossas veredas com pedra ou mármore. Quem bate sobre o peito e não se corrige, consolida seus pecados, não os destrói. Batamos sobre o peito, firamo-nos, corrijamo-nos, se não quisermos que o mestre por sua vez não nos fira a nós. Até aqui, dissemos o que devemos aprender; digamos agora porque devemos aprender.

 

Capítulo Onze: Aprender as letras para um fim temporal.

12. Por que ides à escola? Porque vos bateram, e foram conduzidos por vossos parentes, caçados em vossa fuga, arrastados à força e disciplinados com instrumentos de penitência? Por que vos bateram? Qual a causa das violências que padecestes durante a juventude? Tudo foi para vos obrigar a aprender. Que aprendestes vós? As letras. Por quê? Para adquirir riquezas, ou honrarias, e subir às mais altas dignidades. Vede como um simples algo que deve perecer, deve conduzir-vos igualmente à perdição: quantos sofrimentos padecestes para aprender lições perecíveis, e todavia éreis realmente amados por aqueles que vos submetiam às rudes provações. Mas os que vos batiam, batiam-vos para vos forçar a aprender o quê? As letras. São boas as letras? Sem dúvida alguma. Sei bem o que me direis: vós, bispos, lestes nas letras; tratastes das Santas Escrituras com o auxílio da literatura. Com certeza, mas não é precisamente para tal fim que aprendemos as letras. Nossos pais, ao nos enviar para a escola, não nos diziam: aprende as letras para que possas ler a lei do Senhor. Inclusive os cristãos não sustentam esta linguagem para com seus filhos. Que lhes dizem eles? Aprende as letras. Por quê? Para que sejas homem. E por quê? Sou por acaso animal? Não, mas te digo para aprenderes a fim de te tornares homem, i. é, que possas resplandecer entre os homens. Daí este provérbio: na terra, só presta quem tem. Tenhais pois o mesmo que os outros, ou que os privilegiados; ou mais que os outros, ou que os privilegiados, obtereis como prêmio honrarias e dignidades. Mas o que se há de tornar tudo isso quando soar a morte sua hora? Seria a morte estimulante, e o temor poderoso excitante? Como esta palavra que acabei de pronunciar foi privilegiada, atingindo-vos o coração? Como vossos gemidos vêm atestar o temor que vos obseda? Escutei, e muito bem, que gemestes, que temeis a morte. Se a temeis, por que não a evitais? Temeis a morte; por que a temeis? Ela virá; tema ou não tema, ela virá; cedo ou tarde, ela virá. Apesar de a temer, fingis que não há nada que se temer.

 

Capítulo Doze: A boa morte preparada na boa vida.

13. Tende muito medo daquilo que depende apenas de vossa vontade. E que vem a ser isso? o pecado. Temei cometer o pecado, pois que se amais o pecado, incorrereis em morte eterna, a qual não temereis se não amais o pecado. Mas estais tão pervertidos que preferis antes a morte à vida. Exclamais: “Deus me livre disso”. Qual homem ama mais a morte que a vida? Talvez eu vos convença que amais mais a morte que a vida. Apresento-vos o meio de convencimento. Amais vossa túnica e, em conseqüência, a quereis boa; amais vossa estância, e a quereis boa; amais vosso filho, e o quereis bom; amais vosso amigo, e o quereis bom; amais vossa casa, e a quereis boa. Que quereis exatamente quando desejais que vossa morte seja boa? Como é mister morrer, rogai a Deus a cada dia para dar-vos uma boa morte, dizendo “que me preserve Deus de uma morte ruim”. Amai pois mais a vossa morte que vossa vida. Temeis o mal morrer, mas não o mal viver. Abstendes-vos do mal viver, e temeis o mal morrer. Ou antes, não a temeis, pois não se pode morrer mal, quando se viveu bem.

Ouso dizer e repeti-lo, pois “tendo acreditado, falei”: não se pode mal morrer, quando se bem viveu. Eis o que vos repetis a vós mesmos: muitos justos não morreram em naufrágios? Não se pode morrer mal, quando se viveu bem? Não tombaram muitos justos sob a espada dos inimigos? Não se pode morrer mal, quando se viveu bem? Muitos justos não tombaram sob os golpes de assassinos, ou devorados por bestas feras? Não se pode morrer mal, quando se viveu bem? Respondo: morrer no naufrágio, traspassado pela lâmina ou devorado pelas bestas feras vos parece má morte? Não fora esse gênero de morte a dos mártires, cujo nascimento no céu celebramos? Que gêneros de morte não tiveram os condenados? E todavia se somos cristãos, se não nos esquecemos o que somos nesta morada da disciplina, se ao sair daqui não esquecemos o que aqui vimos, se nos lembramos das verdades que aqui escutamos, não é porque celebramos a morte dos mártires? Buscai saber como morreram os mártires, interrogai os olhos da carne, e concluireis que tiveram má morte. Interrogai os olhos da fé, e concluireis que “A morte dos santos é preciosa aos olhos de Deus”. Se imitais os santos, não haveis que temer diante da morte. Trabalhai para levar boa vida; e qualquer seja a circunstância da vossa saída do corpo, saí em repouso, numa felicidade sem mescla de temor e infinita. Poderíamos acreditar boa a morte do mal rico, expirando engolfado entre a purpura e o linho; mas qual terrível não será a morte do desgraçado devorado de sede, implorando aos berros por uma gota d’água, em meio a tormentos! Alguém acredita má a morte do pobre Lázaro, expirando às portas do rico, lambido pelos cães, apetecendo, para aliviar a sede e a fome, as migalhas que caíam da mesa do rico morto em desgraça, em morte desgraçada. Vede como ele terminou; sois cristãos, abri os olhos da fé: “Morreu o pobre, e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão”. Para o rico devorado de fome e sede nos infernos, de que valia o túmulo de mármore? E as chagas e úlceras, como podiam tolher o pobre enquanto repousava no seio de Abrãao? Divisou o rico ao longe o pobre em repouso, o mesmo que jazia a porta do palácio. Escolhei entre esses dois mortos; dizei-me: qual dos dois tivera boa morte, e qual má morte? Parece-me a morte do pobre preferível a do rico. Vós vos quereis encerrados no báratro, com uma sede infernal a devorar-vos? Não, me responderíeis. Ao menos, suponho ser essa vossa resposta. Aprendei pois a morrer bem, vivendo bem. A recompensa da boa vida é a eterna recompensa.

 

Capítulo Treze: Os bons e os maus ouvintes.

14. Quem se instrui, prova que é cristão; quem escuta e não se instrui, que interesse inspira ao semeador? Nem a distância do caminho, nem as pedras, nem os espinhos amedrontam a mão do semeador, que lança o que lhe pertence. Quem teme que a semente caia em terra ruim, se detém antes de alcançar a boa terra. Nós, pelo menos, falamos, lançamos e dispersamos a semente. Entre os ouvintes, há os que a desprezam, e os que se queixam, e os que fazem troça. Se temêssemos todos os ouvintes, não seria possível semear; morreríamos de fome no tempo da colheita. Tomara se achegue a semente à boa terra. Sei que quem me escuta, e escuta seriamente, sente em si algo enfraquecer e algo progredir; enfraquece em iniqüidade, progride na verdade; enfraquece no século, progride em direção a Deus.

 

Capítulo Quatorze: Quem é o verdadeiro mestre?

15. Com efeito, quem é o mestre que nos ensina? Não é um homem qualquer, mas um apóstolo. E mais, se é um Apóstolo quem fala, não é ele quem ensina. “Quereis provar o poder de Jesus Cristo que fala por minha boca?” Quem ensina é Jesus Cristo, de sua cátedra no céu, como dizia eu não faz um instante. Sua escola está sobre a terra; ela é seu corpo. A cabeça instrui os membros, a língua fala aos pés. Quem ensina é Jesus Cristo: escutemos, temamos, obedeçamos. Guardai-vos de desprezar Jesus Cristo, pois é por vós que veio ele em carne, revestindo-se das lambugens da mortalidade; por vós padeceu fome e sede, por vós assentou-se fatigado nas amuradas dos poços; por vós dormira esgotado dentro do barco; por vós recebeu injúrias atrozes, por vós permitiu lhe escarrassem em rosto; por vós foi vergastado; por vós cosido à cruz, por vós morto, por vós depositado no túmulo. Seria tudo isso o que desprezais em Jesus Cristo? Quereis saber quem ele é? Recordai-vos do Evangelho que escutastes: “Meu Pai e eu somos um só”.

16. Unidos ao Senhor, roguemos-lhe por nós e por todo o povo reunido conosco na morada do Todo-Poderoso; imploremos que se digne guardar e proteger esse povo, por Nosso Senhor Jesus Cristo seu Filho, que com ele vive e reina, pelos séculos dos séculos. Amém.

 

Tradução: Permanência

UM ROSÁRIO PELO BRASIL

CONVOCAÇÃO PARA A ORAÇÃO DO ROSÁRIO PELO BRASIL

Dom Lourenço Fleichman OSB

As últimas semanas foram marcadas pela agitação política, pela ansiedade de todos para ver quando os criminosos que nos governam serão castigados. Organizam-se manifestações nas ruas, e me parece justo que o brasileiro queira desabafar o medo que hoje sente, diante da grave situação política e econômica. Os brasileiros, finalmente, compreenderam que o PT é um partido comunista, e que o comunismo é uma religião diabólica, com princípios morais invertidos.    Leia mais

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