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Política (28)

O bem comum nas eleições de 2022

Dom Lourenço Fleichman, OSB

A situação do Brasil às vésperas do 2º turno das eleições presidenciais, neste dia 30 de outubro de 2022, nos obriga a refletir sobre o risco grave de vermos o Brasil voltar à lama do comunismo, de um lulapetismo mais agressivo, mais determinado a impor seus rancores e revoltas sobre todo o povo brasileiro. A obra da Revolução conseguiu destruir a vida política de vários países vizinhos, como é conhecido de todos, e eles não querem perder o gigante brasileiro, na sua ambição de dominar o mundo para a obra diabólica que visa a destruição total da Civilização católica. Por isso resolvemos abordar a questão das eleições pelo viés do bem comum, fundamento de qualquer vida política, e sem o qual a pátria se dissolve em populismo ou em tirania. Nosso objetivo nessas linhas não é um estudo teórico do bem comum, apesar de elas conterem algumas explicações sob este aspecto, mas a necessidade prática de usar as armas que nos são dadas para a preservação do bem comum.

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Eleições 2022 - Situação dramática do Brasil

CAMPANHA DE ROSÁRIOS A N. SRA APARECIDA

PELAS ELEIÇÕES NO BRASIL

Os destinos de uma nação dependem muito mais da vontade divina do que das urnas. Sabemos que o mundo é governado, em primeiro lugar, pela Divina Providência, e que nada acontece na vida dos homens sem que tenha sido vontade expressa de Deus, ou permissão divina. Você, católico, se esqueceu disso?

O estabelecimento do sufrágio universal como forma quase unânime da escolha dos governantes não é suficiente para eliminar a vontade divina como causa principal de uma eleição. Governa aquele que Deus escolheu para governar determinado povo. Se o governante for bom, terá sido escolhido por Deus por mérito do povo, ou para incentivar aqueles homens a serem bons; se for um mal governante, Deus o terá permitido para provar e fazer crescer os méritos daquela nação, ou para castigá-la por conta dos seus pecados. O voto é importante por ser o meio permitido por Deus para determinar a sua santa vontade. Vá às urnas para impedir a volta do comunismo, da corrupção, da mentira.

As provas da intervenção divina nos processos eletivos são inúmeras, e foram alcançadas por meio da oração e do Rosário de Nossa Senhora. A vitória de Lepanto contra a poderosa esquadra turca é um exemplo espetacular da oração do Terço, ordenado pelo Papa São Pio V. A mesma oração tantas vezes pedida por Nossa Senhora levou os franceses a expulsarem os protestantes que pretendiam mudar a religião do seu país, em La Rochelle. Assim também na Áustria e em outros lugares. Aqui no Brasil expulsamos os comunistas já implantados no poder com a oração do Terço, em 1964. Além disso, como devemos entender a morte de Tancredo Neves? A eleição de Fernando Collor contra Lula, ou a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018? Certamente houve nesses casos um querer divino. Infelizmente nosso Brasil não soube tirar proveito espiritual ou político daquelas intervenções divinas.

Os católicos devem compreender que, sem oração, não conseguiremos conter a campanha orquestrada para derrubar o Presidente Bolsonaro. No momento em que a campanha eleitoral entra em sua fase mais difícil, devemos dedicar um esforço real, um sacrifício de nossas vidas, dobrando nossos joelhos na oração. Que Nossa Senhora Aparecida e São Pedro de Alcântara, padroeiros do Brasil, venham em nosso socorro.

Oração diária do Rosário (3 Terços)

Pelo menos a oração diária do Terço, caso não conseguirmos - mesmo com o esforço proporcional - rezar o Rosário

Oração pelo Brasil proposta aqui.

O Reavivamento marxista no Ocidente

Luís Roldán

[Nota da Permanência - Em face da confusão generalizada que se espalha pela América do Sul, propomos o seguinte artigo sobre as táticas usadas pelos comunistas. A foto ao lado é da paróquia La Asuncíon, Chile, vandalizada ontem, 8/11/19] 

 

Como é possível que, vinte anos depois da queda do comunismo, o marxismo continue a ser uma das ideologias políticas mais fortes? Para entender isso, temos de falar de um escritor muito próximo de nós: Antonio Gramsci, que tentou empreender uma reformulação completa do marxismo, especialmente do ponto de vista tático-político.

 

O Marxismo de Gramsci

Quem era Antonio Gramsci? Antonio Gramsci era um italiano nascido na Sardenha no final do século XIX. Ainda moço foi viver em Turim, cidade industrial do norte da Itália, onde se tornou professor de colégio primário, trabalhou também como operário, como jornalista, e tornou-se ativista político. Fundou, com Palmiro Tolgliatti e outros, o Partido Comunista Italiano, e teve seus segundos de glória quando o triunfo de Lênin na Rússia, em 1917, seguido pelo fim da Primeira Guerra Mundial e pelo redesenho do mapa europeu pelos tratados de Saint Germain e Versalhes, encorajou as tentativas de revolução comunista em quase todos os países da Europa. Na Alemanha, com a efêmera República Soviética da Baviera; na Espanha, com a chamada ‘Semana Trágica’; até mesmo a Argentina não ficou imune às repercussões. Entretanto, ao contrário do que aconteceu na Rússia, a tentativa de uma luta de classes na Itália levou não Gramsci, mas sim Mussolini ao poder. E uma das primeiras medidas de Mussolini foi banir o partido Comunista e prender todos os seus líderes, entre os quais estava Antonio Gramsci. Ele passou seus últimos oito anos de vida na cadeia, e lá morreu de pneumonia, em 1937. Foi durante esse tempo que ele escreveu a maior parte da sua obra política. A obra dele, Cadernos do Cárcere, não é tão sistemática quanto a de Marx. (Continue a ler)

A verdadeira política é sobrenatural

Pe. Guillaume Devillers, FSSPX

 

“Civitas est communitas perfecta” (a cidade é a comunidade perfeita)

É sobre este princípio, retirado de Santo Tomás de Aquino, que muitos se baseiam para justificar a autonomia da política: a cidade, ou seja, a sociedade civil, é uma sociedade perfeita, logo, autônoma. Sem dúvida existe também outra sociedade perfeita, fundada por Cristo, a Igreja, sociedade sobrenatural ordenada à salvação das almas. Mas a graça não suprime a natureza; e portanto, permanece o fato de que a sociedade política é perfeita e, por si mesma, autônoma.

É este exatamente o pensamento de Santo Tomás? Vejamos um pouco como o santo doutor nos explica este princípio: “a cidade é a comunidade perfeita, o que Aristóteles prova mostrando que, como toda comunicação social ordena-se a alguma necessidade da vida, a comunidade perfeita será aquela ordenada a que o homem tenha suficientemente tudo o que é necessário à vida: ora, tal é a comunidade da cidade...” 1. (Continue a ler)

  1. 1. In Polit. Lib. 1, lecc 1, n. 23

ELEIÇÕES 2018

Orientações para as eleições presidenciais de 2018

Dom Lourenço Fleichman OSB

Sendo uma instituição de formação doutrinária, espiritual e cultural católica, cabe à Permanência uma orientação política segundo os critérios e princípios do Evangelho, das leis da Igreja e das virtudes, sobretudo da prudência, da justiça e dos dons de conselho e de ciência.

Com a proximidade das eleições no nosso Brasil, tomamos as medidas espirituais necessárias, promovendo nas Capelas ligadas à Permanência, um Rosário no dia 6 de outubro, primeiro sábado do mês. No dia do 1º turno, dia 7, a festa de N. Sra do Rosário será celebrada com toda a pompa, lembrando do papa São Pio V que instituiu esta grande festa de Nossa Senhora após a espetacular vitória da armada católica no golfo de Lepanto contra a poderosa esquadra turca muçulmana. Que a Virgem Maria venha em nosso socorro, impedindo que subam ao poder as forças comunistas e desagregadoras; criminosas e pérfidas que nos precipitaram na grave crise que sofremos há várias décadas. (Continue a ler)

Da caridade nas chamadas “formas de polêmica”

 

Louis Veuillot

Pe. Félix Sardá y Salvani

(...) Ele [o liberalismo] prefere acusar incessantemente os católicos de serem pouco caridosos em suas formas de propaganda. É neste ponto, como dissemos, que certos católicos, bons no fundo, mas contaminados da maldita peste liberal, costumam insistir contra nós.

Vejamos o que dizer sobre isso. Nós, católicos, temos razão neste ponto como nos demais, ao passo que os liberais não têm nem sombra dela. Para nos convencermos disso analisemos as seguintes considerações:

1°) O católico pode tratar abertamente o seu adversário de liberal, se ele o é de fato; ninguém porá em dúvida esta proposição. Se um autor, jornalista ou deputado começa a jactar-se de liberalismo e não trata de ocultar suas preferências liberais, que injúria se faz em chamá-lo de liberal? É um princípio do Direito: Si palam res est, repetitio injuriam non est: "Não é injúria repetir o que está à vista de todos". Muito menos em dizer do próximo o que ele diz de si mesmo a toda hora. Entretanto, quantos liberais, particularmente os do grupo dos mansos ou temperados, consideram grande injúria que um adversário católico os chame de liberais ou de amigos do liberalismo?

O liberalismo de todo matiz e caráter foi já formalmente condenado pela Igreja?

 

Pe. Félix Sardá y Salvany

 

Sim, o liberalismo, em todos os seus graus e em todas as suas formas, foi formalmente condenado; de modo que, além das razões de malícia intrínseca que o fazem mau e criminoso, todo fiel católico tem acesso à suprema e definitiva declaração da Igreja a respeito do liberalismo: ela o julgou e anatematizou. Não se podia permitir que um erro de tal transcendência deixasse de ser incluído no catálogo das doutrinas oficialmente reprovadas, e aliás foi ele incluído em várias ocasiões.

Já quando apareceu na França, durante sua primeira Revolução, a famosa Declaração dos Direitos do Homem, que continha em germe todos os desatinos do moderno liberalismo, foi condenada por Pio VI.

Mais tarde, essa doutrina funesta foi desenvolvida e aceita por quase todos os governos da Europa, até pelos príncipes soberanos, o que é uma das mais terríveis cegueiras que ofereceu a história das monarquias. Tomou em Espanha o nome pelo qual hoje é conhecida em toda parte: liberalismo.

A Escola de Frankfurt e a Revolução Cultural


 

Em termos gerais, podemos distinguir dois tipos de revolução:

- Revolução política: é a que visa obter o poder mediante o uso de violência e terror. Nesta classe se incluem a Revolução Francesa (1789-93) e a Revolução Russa (1917).

- Revolução cultural: nesta se demolem as bases da civilização (a cultura, os costumes, a religião, a moral, a hierarquia de valores, etc.) dentro da nação que se deseja subjugar. É uma ação de longo prazo conduzida sem violência física, segundo a fórmula: “As formas modernas de subversão são suaves”. [1]  Leia mais

 

Redemocratização

Gustavo Corção

Não cabendo nos limites de um artigo um retrospecto da história dos regimes políticos, ainda que abusássemos da paciência do leitor e da liberalidade do jornal, tentaremos, entretanto, esboçar a figura peculiar dessa história: em contraste com o desenrolar de outros progressos humanos, notadamente no plano da ciência e da técnica, a soma de experiências e especulações realizadas pelo homem, na procura do regime mais conveniente, ou menos inconveniente, processou-se de um modo sinuoso e cambaleante, com avanços e recuos, sem que possamos dizer com segurança que este ou aquele regime representa uma decisiva e irreversível conquista do animal-político de Aristóteles.

Aliás, o próprio Aristóteles, quando genialmente reconhece que ao homem não convém propor somente o humano, já nos deixa entrever que a procura do melhor regime de organização da Pólis nos levaria irresistivelmente, como de fato nos levou, a uma reconsideração no modo de armar e propor o problema.

O Cristianismo nos trouxe uma nova posição de toda a problemática do homem neste mundo, imperada por princípios e normas que não são deste mundo. E os mesmos evangelhos que nos anunciam a Incarnação do Verbo “para nós homens e para a nossa salvação”, assim pregando uma igualdade que será reclamada mais tarde pelos portadores da bandeira da Democracia, e até da Revolução, também nos trazem um singular reforço de ideia do senhorio de Deus, que foi inspiradora do regime monárquico durante todo o milagroso e maravilhoso milênio medieval.

Os antigos sábios, quando diziam que não convém propor somente o humano ao homem, certamente suspeitavam a grandeza de um destino mais alto, em desproporção gritante com os pés de barro tão facilmente observáveis na marcha diária ou secular desse animal-racional tão pouco razoável, mas também frequentemente tão pouco animal.

O Cristianismo nos traz a chave dos dois grandes segredos da sorte humana, a chave do paraíso perdido, e a chave do céu trazida pelo Salvador. O problema e mistério da sorte humana impera do alto a política, a economia, e toda a emaranhada problemática do mundo.

Com a tragédia que encerra a história da civilização cristã, numa reprise do percado original em proporções civilizacionais, surge no mundo, com o pseudônimo de “humanismo” um anticristianismo essencialmente anárquico, porque desde logo fundado na autonomia do homem, que será sua própria lei e que, com maior ou menor violência, chegará a afrontar o senhorio de Deus.

Os antigos, de Aristóteles até Santo Tomás, já haviam dito, dos regimes de governo, que cada um tem sua fraqueza congênita – já que pela intuição pagã ou pela sabedoria cristã, todos suspeitavam ou sabiam que o homem, por suas próprias forças, era um animal ingovernável. No esquema clássico das perfeições e misérias dos regimes de governo, era sabido que o regime democrático (que mais tarde será pomposamente definido como “governo do povo, para o povo”) tinha uma congênita tendência à anarquia.

Ora, nos tempos modernos, marcados pela antítese formada pelo Cristianismo e pelo humanismo anárquico, vemos reviravoltar-se a colocação do problema dos regimes. E hoje diríamos vendo o problema de uma altura maior, que já não é a democracia, aqui ou ali experimentada, que tende para o anarquismo. Ao contrário, hoje é o anarquismo que marca toda uma civilização progressivamente anticristã, é essa religião do homem que agora reclama a bandeira da “democracia”, com cujo tênue véu cobrirá a nudez feia do orgulho do homem. Depois de especulações e experiências ora trágicas, ora cômicas, a Revolução humanista, anticristã, chegará ao século XX, estuário de erros e imposturas e então, provocadas pelo surgimento de dois regimes ditos “totalitários”, as nações ditas “liberais” são compelidas a aceitar a guerra que logo tomou proporções planetárias. E foi nessa guerra mal começada e ainda mais desastrosamente acabada para os vencedores, que aqui invertem a frase de Breno: “Ai dos vencidos”. A II Guerra Mundial terminou com este grito: “Ai dos vencedores”. Passemos, antes que, apesar da idade, eu monte num pégaso azul e saia galopando, ou voando em todas as direções, porque a história dos desastres da França e da Inglaterra, nesse absurdo episódio, faz-me perder a última reserva de serenidade. Mas antes de virar esta ridícula página da história registremos um fato: foi especialmente nesses anos de guerra que a bandeira da Democracia ganhou um prestígio imenso, e uma significação muito mais ampla do que a de um simples regime ou forma de governo. Democracia passou a ser um ideal supremo, uma “weltaschauung” e, por que não?, religião.

Naquele tempo em todo o ocidente, prejudicado pela queda da França traída por todos os que chamaram Charles Maurras e Brasillac de traidores, e mal dirigido pelos povos de língua inglesa, os lutadoes julgavam-se os paladinos da Democracia. E por que não os cruzados da religião do homem que se fez Deus? Democracy, democracia, democrácia, democratie. Bilhões de vezes por dia seu santo nome foi invocado. E quando Hitler praticava com satânica crueldade algum feito de genocídio, a consciência ocidental via naquele horror não uma ofensa a Deus e ao próximo, mas um monstruoso ato antidemocrático.

E graças a essa brutal e estúpida simplificação mental, o governo da Espanha católica, por ser ditatorial, e portanto antidemocrático como regime, passou a ser apontado como antidemocrático no novo sentido, e quase tão repulsivo como o massacre dos judeus na Alemanha e na URSS ou como o massacre dos poloneses em Katyn. Um só homem em toda a Inglaterra, repelia energicamente a fórmula que explicava a heróica resistência de Londres: -- Não! A Inglaterra não combate em defesa da Democracia, ela se levantou e lutará até o fim em defesa da Civilização. E por que não em defesa da Religião do Verbo Incarnado? Esse homem foi Hilaire Belloc, o grande amigo de Chesterton, e o constante leitor de L´Action Française.

No Brasil, a infeliz ditadura de Vargas contribuiu eficazmente para aderirmos à estupidez universal. Penitencio-me pela minha generosa contribuição trazida ao Banco das Asneiras do Século. Mea culpa! Mas hoje, depois de ter assistido ao espetáculo oferecido pelas “democracias” no arremate da guerra e as “tournées” especialmente degradantes da democracia cristã, na França, no Brasil, no Chile e na Itália, podemos dizer: -- Democracia? Pagamos para ver.

E quando nos falam em redemocratização penso na imagem muito usada por Santa Catarina de Sena: a dos cães que vomitam o mal que comeram, mas que depois de andar alguns passos voltam atrás e tomam a comer o vômito.

(O Globo, 12/2/77)

Leão XIII e o Comunismo

Alexandre Bastos

Intra muros

Uma antiga tradição diz que São Pedro, ao deixar Roma para fugir das perseguições promovidas por Nero, viu Nosso Senhor andando em sentido contrário, com uma cruz nas costas. Quo vadis, Domine? (Aonde vais, Senhor?), perguntou o primeiro dos papas. “Vou a Roma para ser novamente crucificado”, respondeu Jesus. Com esta resposta, não apenas indicou a Pedro o que devia fazer naquele momento, mas estabeleceu um critério para todos os papas futuros: “Vá a Roma para ser crucificado”. A loucura da cruz — para empregar os termos do Apóstolo — é a medida de todos os pontificados.

Na história da Igreja, muitos papas cumpriram fielmente este ideal, a começar por São Pedro, que voltou a Roma para ser literalmente crucificado. Vieram em seguida os santos Lino, Anacleto, Clemente, Calixto, Ponciano e uma longa lista de papas que morreram por Cristo. Nos tempos modernos, surgidos sob o estandarte da liberdade, Pio VI morreu sequestrado pelos revolucionários e Pio IX bebeu um cálice amargo antes de terminar seus dias prisioneiro no Vaticano. Pas de liberté pour les ennemis de la liberté!

Quando Leão XIII recebeu a Tríplice Coroa, a maçonaria, que é a igreja da Revolução, ganhara a adesão dos Estados modernos e os erros do socialismo e do liberalismo justificavam a guerra à Igreja: queriam expulsá-la da vida pública e subordiná-la aos detentores do poder. De um ponto de vista temporal, a situação era desesperada: os Estados Pontifícios haviam sido invadidos, os bens da Igreja, espoliados, e já não havia os recursos financeiros que o Patrimônio de São Pedro proporcionava a toda a Igreja.

Nenhum papa viveu tão longamente a dolorosa situação de prisioneiro como Leão XIII. Nos vinte e cinco anos do seu pontificado, jamais pôde deixar o Vaticano, e até mesmo a bênção Urbi et Orbi era dita internamente, desde uma janela que dava para os jardins — único lugar em que o pontífice ainda podia abençoar o mundo livremente. A cruz do seu pontificado será, pois, a tentativa de restaurar, para si mesmo e para toda a Igreja, a liberdade perdida.

Mas não se deve pensar que fosse desprovido de consolações: era um papa de enorme vida interior. O cardeal Luigi Lambruschini, que conheceu o jovem Joaquim Pecci nos seus tempos de estudante, dizia que ele se parecia com um anjo, e Santa Teresinha do Menino Jesus, que o viu celebrar a Santa Missa numa peregrinação a Roma, elogiou a “sua ardente piedade, digna do Vigário de Jesus Cristo”.

Ora, a menina que tinha pressa de ser santa, relata em suas memórias o seu encontro com Leão XIII no Vaticano:

“Um instante depois, eu estava aos pés do Santo Padre. Tendo eu beijado seus pés, ele me apresentou a mão. Em vez de beijá-la, pus as minhas e, levantando para o rosto dele meus olhos banhados em lágrimas, exclamei: "Santíssimo Padre, tenho um grande favor para pedir-vos!..." Então, o Soberano Pontífice" inclinou a cabeça de maneira que meu rosto quase encostou no dele e vi seus olhos pretos e profundos fixarem-se sobre mim e parecer penetrar-me até o fundo da alma. "Santíssimo Padre", disse, "em honra do vosso jubileu, permiti que eu entre no Carmelo aos 15 anos!..."

A impressão deste encontro foi tal, que ela se esqueceu de ir embora: “A bondade do Santo Padre me animava e eu queria falar mais, mas os dois guardas tocaram-me polidamente para fazer-me levantar”.

 

Já está pronto, moço?

Em março de 1810, na pequenina cidade do Carpineto romano, a poucos quilômetros de Roma, nascia o sexto filho do Conde Ludovico Pecci e da Condessa Ana, o pequeno Vincenzo Gioacchino Raffaele Luigi Pecci Prosperi Buzzi. Os pais vislumbravam um grande futuro para o seu mais novo filho. “Quero fazer dele um general”, disse o conde. “Fará dele um papa”, respondeu a mãe.

Desde a primeira infância, Nino, como era chamado, dava provas de um gênio agudo e de uma vontade insaciável de saber. “Quero aprender a ler e escrever como o sábio de Aquino”, dizia o pequeno. Sua trajetória acadêmica foi espetacular. Iniciou os estudos aos oito anos de idade, mas, aos doze, já compunha versos em latim, hábito que manterá até o último dia de sua vida. No Colégio dos Jesuítas de Viterbo, era insuperável em oratória e retórica, e ganhou muitos prêmios pelo seu desempenho em matemática, química, filosofia e teologia. Amante da poesia, seus livros preferidos eram a Divina Comédia, que sabia recitar de cor do primeiro ao último verso, e a Eneida.

Ele continuou seus estudos em Roma, onde descobriu e aprendeu a amar a doutrina de Santo Tomás de Aquino, a quem chamava “o Arquimandrita dos teólogos” 1. Por aquele tempo, reinava o ecletismo nas escolas e seminários, que já foram comparados a uma “loja de argumentos”. Não que se ensinassem erros, como viria a acontecer com a crise modernista, mas já não se ensinava um sistema único, forte e coerente para enfrentar os diversos sistemas filosóficos surgidos desde Descartes. Mais tarde, o Papa Leão XIII trabalhará com afinco para corrigir esta situação, que transmite aos alunos “uma filosofia nada firme, estável e forte como as de antigamente, mas sim fraca e vacilante. E se, por acaso, ela alguma vez não se encontra à altura dos golpes de seus adversários, deveria reconhecer ser ela mesma a culpada por este estado de coisas.”

Estudava da manhã até a noite, apaixonadamente. Um colega de escola o descreveu assim: “Durante os seus estudos em Roma, ele não conhecia companhias nem diversões. Sua mesa era o seu mundo, a investigação científica, seu paraíso”. Aos 22 anos, Joaquim Pecci tornou-se doutor em teologia, mas, para não interromper seus estudos, ingressou na Academia dos Nobres Eclesiásticos. Desejava aperfeiçoar a sua teologia, desejava instruir-se no Direito Civil e Canônico, desejava estudar. Todo este esforço faria com que o ilustre filho de Carpineto se tornasse um dos homens mais brilhantes de seu tempo. Não foi por outra razão que o historiador de filosofia Etienne Gilson escreveu: “Leão XIII entrou na história da Igreja como o maior filósofo cristão do século XIX, e um dos maiores de todos os tempos” — o que não é dizer pouco.

Por aquele tempo, surgiu a questão da vocação religiosa. “Já está pronto, moço?”, perguntou-lhe, certa feita, o Cardeal Sala, amigo da família e seu protetor. O estudante não conseguia decidir-se entre o sacerdócio e a política, que será sempre seu calcanhar de Aquiles. Embora profundamente devoto, a piedade paterna, o desejo de tornar ilustre o nome de sua família, fazia com que adiasse indefinidamente a tomada de ordens. Foi preciso que a Providência destravasse de modo particularmente doloroso as molas de heroísmo escondidas no coração do rapaz.

No ano de 1837, logo após perder o pai, Joaquim Pecci caiu gravemente enfermo durante uma epidemia de cólera. Contavam-se numerosas vítimas nas ruas de Roma, e o moço não duvidava de que seria uma delas. Porém, graças a vigorosos tratamentos médicos, recuperou a saúde. Ato contínuo, decidiu ajudar os padres nos cuidados com os doentes e, sem ser médico ou enfermeiro, passava os dias nas cabeceiras dos moribundos. “Se hei de ser contado entre as vítimas”, escreveu então, “curvo minha cabeça em submissão aos desígnios do Altíssimo, a quem já consagrei minha vida em expiação dos meus pecados. Aconteça o que acontecer, meu coração está perfeitamente tranquilo”.  

A carreira política já não fazia o menor sentido para ele e, no mês de dezembro daquele ano, recebeu as três ordens maiores.

 

Do sacerdócio ao Conclave

À grande capacidade intelectual de que era dotado, Joaquim Pecci unia uma vontade de ferro. Foi esta a razão de o Papa Gregório XVI o ter nomeado tão jovem como delegado apostólico da cidade de Benevento, no Reino de Nápoles. Os habitantes daquele lugar sofriam, por um lado, uma bandidagem cada vez mais ousada e, por outro, a extorsão dos que lhes cobravam por proteção. Como num filme Western, o futuro papa fez prender os bandidos e salvou a cidade em tempo recorde.

Aos 31 anos foi nomeado para um cargo político, tornando-se núncio apostólico junto à corte de Bruxelas. Seu desempenho foi decepcionante. Após apoiar o episcopado belga de cariz liberal contra as políticas do Rei Leopoldo I, foi formalmente repreendido pelo Cardeal Luigi Lambruschini, que dizia “esperar que doravante saiba corresponder melhor à confiança de que é depositário”. Sua experiência na Bélgica durou pouco: voltou à Itália em 1846, ano da eleição de Pio IX.

Por um período de 32 anos, ou quase todo o reinado do Papa da Imaculada, Joaquim Pecci ficou “esquecido” na pequena diocese de Perúgia, na região da Umbria. Embora haja quem atribua ao Cardeal Giacomo Antonelli, Secretário de Estado de Pio IX, a responsabilidade pelo exílio de Pecci, é fato que o papa então reinante não nutria grande simpatia pelo seu futuro sucessor.

Naqueles anos, contudo, algo de realmente importante estava em curso: a restauração do tomismo, promovida em Itália pelos padres da Civiltà Cattolica, Matteo Liberatori, Sordi e Taparelli, mas com repercussões em toda a Europa. O bispo de Perúgia, entusiasmado pelo autor da Suma Teológica desde a mocidade, como vimos, não poderia ficar alheio ao movimento. Assim, reformou todo o currículo do seminário local a fim de conformá-lo à doutrina do Aquinate e fundou uma Accademia di San Tommaso d’Aquino, com o objetivo de refutar os erros do tempo.

Mesmo distante da Cúria romana, Dom Joaquim Pecci conseguiu destacar-se em meio ao episcopado italiano, de modo que, quando chegou a Roma em 1877, nomeado Cardeal Camerlengo, já era apontado como um papabile.

No início de fevereiro de 1878, Pecci foi chamado às pressas. Conforme os ritos, entrou vestido de púrpura nos aposentos em que o papa era velado pelos penitentes de São Pedro. Ajoelhou-se então para entoar o De Profundis, retirou-lhe a coberta do rosto e, com um martelo de prata, tocou-lhe três vezes na face, chamando-o pelo nome de batismo: “Giovanni!”, “dormisne?” (dormes?). Encerrado o ritual, o futuro papa declarou que Pio IX estava morto.

 

“Viva papa Leone!”

Poucos dias depois, numa sala escondida do mundo, encerrou-se em apenas dois dias o primeiro conclave realizado após a ocupação de Roma. Os cardeais aproximaram-se do homem que já não era um seu igual, e usava na cabeça uma mitra ornada de diamantes e, no dedo, o anel do pescador. O novo papa, sentando-se no trono de Pedro aos 67 anos de idade, gemia: “Sou idoso e fraco, não posso carregar este fardo. O que me espera é a morte e não o pontificado!”. Seu papado, no entanto, seria um dos mais longevos da história, estendendo-se por 25 anos.

Saltavam aos olhos as diferenças entre o novo pontífice e seu predecessor. Pio IX era um homem de aspecto majestoso e temperamento ardente, enquanto Leão XIII, muito magro, muito pálido, parecia um asceta. Pio IX era um orador, sentia-se à vontade em meio a multidões e falava muito espontaneamente. Leão XIII era um escritor, amava a solidão e, perfeccionista, revisava até o último momento os seus belos e profundos escritos. Pio IX era homem de ação: na juventude, quisera fazer-se missionário nas Américas. Leão XIII era um intelectual e uma alma profundamente política.

Nesta última frase encerram-se dois aspectos marcantes do seu pontificado. O primeiro, sublime e inteiramente bem-sucedido, é assinalado pelo seu Magistério, que, continuando e elaborando a obra de seus predecessores, causou forte admiração no mundo católico. O segundo aspecto expressa-se pela sua política, que rompe com a de Pio IX com resultados desastrosos. 

Esse primeiro aspecto nunca foi melhor traduzido que pelo epíteto Il Papa Caesareo, que o povo romano lhe atribuiu. O termo Caesareo aqui não guarda relação direta com os imperadores da antigüidade, mas significava o mesmo que sublime. E realmente o foi: as cerimônias em São Pedro nunca foram tão requintadas; não dispensava os mais rigorosos protocolos e as pompas; e para locomover-se sua preferência recaía na Sedia Gestatória. Todo esse aparato não poderia ser mais conveniente, após terem espoliado o Papado da soberania temporal. Contudo, este papa nunca foi mais sublime do que em seu Magistério, que fez Roma resplandecer como a verdadeira lux mundi num século culpado de racionalismo.

Um dos seus primeiro atos como papa foi reorganizar a biblioteca e os arquivos do Vaticano, abrindo-os aos estudiosos e dotando a sua estrutura com um corpo de lingüistas, arqueólogos, numismatas, orientalistas, paleógrafos, enfim, uma verdadeira elite de homens eminentes nos estudos históricos. Enganar-se-ia, porém, quem julgasse tratar-se de mero beletrismo. Não! A sua intenção era combater os erros modernos, transformar Roma numa trincheira intelectual contra as doutrinas nefastas do racionalismo e do naturalismo — tão combatidas pelos seus predecessores — e seus dois rebentos: o liberalismo e o socialismo.

É nesta linha que devemos compreender a sua ação pela restauração do tomismo, “um dos principais títulos de glória de Leão XIII”, segundo dele escreveu São Pio X. Como papa, fundou uma segunda Academia Santo Tomás de Aquino (1880), reeditou as suas obras completas (é a chamada edição leonina), proclamou-o patrono das escolas católicas (1880) e nomeou ainda, para todas as escolas e universidades romanas, professores tomistas. Leão XIII convidará Louis Billot para vir lecionar na Gregoriana e, pouco depois, o Padre Sertillanges começará a lecionar em Paris. Mas a obra decisiva para a restauração do tomismo foi a grande e eruditíssima Encíclica Aeterni Patris, que suscitou uma tempestade de protestos na imprensa contrária à Igreja. Nela, Leão XIII faz o elogio de Santo Tomás e assinala a preferência da Igreja pela doutrina do grande santo:

“Entre todos os doutores escolásticos, porém, brilha, com uma luz sem igual, o príncipe e mestre de todos, Tomás de Aquino, o qual, como observa o Cardeal Caetano, ‘por ter venerado profundamente os santos doutores que o precederam, herdou, de certo modo, a inteligência de todos’. Tomás coligiu suas doutrinas, como membros dispersos de um mesmo corpo; reuniu-as, classificou-as com admirável ordem, e de tal modo as enriqueceu, que tem sido considerado, com muita razão, como defensor especial e honra da Igreja. De espírito dócil e penetrante, de fácil e segura memória, de perfeita pureza de costumes, levado unicamente pelo amor da verdade, prenhe de ciência divina e humana, justamente comparado com o sol, aqueceu a terra com a irradiação de suas virtudes e encheu-a com o resplendor de sua doutrina.” (Aeterni Patris)

O combate do pontífice traduziu-se numa sucessão de encíclicas admiráveis: foram 64 em 25 anos de Pontificado, número superior à soma do que terão produzido seu predecessor e seu sucessor2. Mas não é o aspecto material —seja a quantidade de documentos, seja a perfeição literária — o que mais nos impressiona, e sim a profundidade da doutrina e o rigor da exposição.

Muito industrioso, Leão XIII não se poupava absolutamente — trabalhava por até 16 horas seguidas — assim como não poupava os seus assessores mais próximos. Conta-se que, muitas vezes, ele os “trancava” o dia inteiro na sua biblioteca particular, fazendo-os pesquisar algum ponto de doutrina ou aprimorar a redação de algum documento. Poderíamos aplicar ao próprio papa o que ele escreveu da Igreja: “Inimiga nata da inércia e da preguiça, deseja grandemente que o exercício e a cultura façam o gênio do homem dar frutos abundantes” 3.

As encíclicas não eram traduzidas, mas redigidas diretamente em latim pelo papa — diz-se que, desde Urbano VIII, nenhum pontífice manejou com tanto esmero a língua da Igreja. Revisor incansável, levantava-se à noite para corrigir uma pontuação ou trocar uma palavra. E depois de tudo ter sido exaustivamente meditado, revisado e ponderado, trancava o documento acabado numa gaveta e esperava: patiens quia aeternus (paciente porque é eterno). O resultado, para além da renovação tomista, foram os monumentos que inauguraram a doutrina social da Igreja, condenaram o comunismo, o liberalismo, a escravidão, o americanismo, a maçonaria e tantos outros erros e males.

A profecia de São Malaquias atribui ao glorioso Pio IX um título bastante conveniente, Crux de cruce. Realmente, foi um papa cumulado singularmente de tribulações, e chegou a ser chamado, ainda em vida, de “o Papa da Cruz”. Não é menos apropriado o nome atribuído a Leão XIII: Lumen in Caelo, luz no céu.

 

AS RUÍNAS DO SOCIALISMO

Temos um especial interesse em nos debruçar sobre o magistério de Leão XIII, em ouvir atentamente as lições que, com tanta ciência, ele próprio quis nos transmitir, pois nas suas encíclicas encontramos remédio para muitos dos males que atormentam o triste e confuso mundo moderno.

Trataremos aqui apenas da sua doutrina sobre o comunismo e o socialismo, tal como exposta em Quod Apostolici Muneris, deixando para outra oportunidade os demais aspectos da doutrina e da política deste grande pontífice.

 

Vigilância dos papas

Leão XIII é freqüentemente maltratado pelos comentadores, que mudam-lhe as feições a ponto de torná-lo irreconhecível. Chamam-no democrata, coisa que nunca foi; liberal, quando é um dos principais autores da doutrina anti-liberal da Igreja; socializante, mas talvez seja o papa mais violentamente anti-comunista que jamais se sentou na Cátedra de Pedro.

Há uma história na origem deste último equívoco. Nos tempos que antecederam imediatamente a publicação da sua Rerum Novarum, havia de um lado um grupo de católicos que, reunidos na Bélgica em torno de Charles Périn e, na França, em torno de numerosos escritores, destacava-se pelo valente combate contra o socialismo, mas a custo de abraçar em maior ou menor medida as idéias liberais. De outro lado, havia um grupo minoritário reunido em torno de Dom Gaspard Mermillod, chamado “União de Friburgo”, que buscava em Santo Tomás os alicerces para uma doutrina social. Leão XIII favoreceu este último grupo, e os católicos liberais começaram imediatamente a acusar ao papa e a sua doutrina social de “socializante”. Anos após sua morte, intelectuais deram seqüência às acusações e, por sua vez, os progressistas adoraram: seqüestraram Leão XIII, reivindicaram-no como se fosse um dos seus.

Ao se falar em comunismo, é preciso elogiar a vigilância da Igreja e, em especial, dos Papas do século XIX. Pio IX foi o primeiro a condenar repetidamente o comunismo, verberando-o, entre outros documentos, no Syllabus e na Quanta Cura de 1864, documento munido de todas as notas da infalibilidade. Note-se que, na ocasião, Karl Marx ainda era vivo, e não tinha cinqüenta anos sequer. Nas biografias consagradas ao Papa da Imaculada, lê-se que certa feita alguém lhe disse temer pelo desenvolvimento do comunismo na Inglaterra. Pio IX respondeu não acreditar que o comunismo despontaria lá, e sim no Leste. Foi o que de fato aconteceu, com a União Soviética.

Leão XIII foi ainda mais combativo. O papa inquietava-se tremendamente com o comunismo e socialismo, e guardou suas mais violentas palavras para condená-los. Em 1849 — O Manifesto Comunista acabara de ser publicado — o então Cardeal Pecci, bispo de Perúgia, numa pastoral redigida por ele, declarou estar disposto a arriscar a própria vida em defesa do direito de propriedade:

“Mas como, no século em que estamos, ataca-se com particular violência a unidade e a absoluta necessidade da Fé, a autoridade dos poderes legítimos e o direito de propriedade adquirido com justiça, queremos solenemente professar estas verdades e, quanto de nós depender, defendê-las com o risco da nossa própria vida.” (o destaque é nosso)

E por aqui já se vê que a condenação ao Comunismo por Leão XIII é de natureza muito mais profunda do que tudo o que fazem atualmente as nossas direitas. Ele não o condenou pelo rastro de sangue que o comunismo certamente produziu, pelos seus cem milhões de mortos, pela razão de que, no século XIX, a trajetória de crimes comunistas mal começara. Antes, Leão XIII condenou de modo implacável o socialismo e o comunismo pelo fato de estas ideologias perseguirem um fim mau em si mesmo. Por essa razão, e com compreensão e presciência admiráveis, já estavam elas inapelavelmente condenadas antes de reduzirem populações inteiras à miséria, antes de produzirem os mais graves crimes dos tempos modernos. Não foi por outra razão que outro papa haveria de fulminar a seita declarando que o comunismo é intrinsecamente perverso (Pio XI - Divini Redemptoris).

Para demonstrar a largueza de visão de Leão XIII, cito uma passagem quase profética da Rerum Novarum (1891) — a tal encíclica socializante — em que o Papa indica inequivocamente que a implantação do socialismo engendraria, além da perturbação de toda a sociedade, a escravidão e a miséria (grifos meus):

Mas, além da injustiça do seu sistema, vêem-se bem todas as suas funestas conseqüências, a perturbação em todas as classes da sociedade, uma odiosa e insuportável servidão para todos os cidadãos, porta aberta a todas as invejas, a todos os descontentamentos, a todas as discórdias; o talento e a habilidade privados dos seus estímulos, e, como conseqüência necessária, as riquezas estancadas na sua fonte; enfim, em lugar dessa igualdade tão sonhada, a igualdade na nudez, na indigência e na miséria.

Ora, não há nada de equivalente no tratamento dispensado ao capitalismo. Que se aponte uma menção sequer a ele no Syllabus de Pio IX. Não há! A Doutrina Social da Igreja não vai no sentido de uma condenação in toto do capitalismo, e é essa a razão de uma frase menos conhecida de Pio XI sobre ele, capaz por si só de resolver muitos equívocos: “É evidente que ele não é condenável de per si” (Quadragesimo Anno).

Mas nada seria capaz de provar melhor a intransigente oposição leonina ao socialismo e ao comunismo do que a encíclica Quod Apostolici Muneris, publicada nos primeiros meses de seu Pontificado. Eis aqui algo realmente digno de nota: eleito papa, Leão XIII não viu nada melhor a fazer nos primeiros meses do seu pontificado do que condenar de modo solene e cabal o comunismo e o socialismo. Insisto: a sua condenação ao comunismo, reiterada em dezenas de documentos posteriores do seu pontificado, não apenas antecede as suas condenações ao liberalismo e à maçonaria, mas até mesmo a promoção do tomismo.

 

As três ruínas

A encíclica abre com um discurso duríssimo:

“Obedecendo ao dever do Nosso cargo apostólico, não deixamos (...) de apontar esta peste mortal que se introduz como a Serpente por entre as articulações mais íntimas dos membros da sociedade humana, e a coloca num perigo extremo (...).

“Vós compreendereis facilmente que Nos referimos a essa seita de homens que, debaixo de nomes diversos e quase bárbaros, se chamam socialistas, comunistas ou niilistas, e que, espalhados sobre toda a superfície da terra (...) se esforçam por levar a cabo o desígnio (...) de destruir os alicerces da sociedade civil. É a eles, certamente, que se referem as sagradas letras quando dizem: ‘Eles mancham a carne, desprezam o poder e blasfemam da majestade’ (Jd 1,8).”

Sim, essa seita de “homens pérfidos” quer levar à ruína três ordens distintas da sociedade civil: a política, a economia e a organização social. E intentam contra elas, sempre segundo o papa, do seguinte modo:

  • Arruína a ordem política semeando a revolta “por meio de uma nuvem de jornais” contra as autoridades legítimas e mesmo contra os “próprios chefes das nações”;
  • Arruína a ordem econômica ao combaterem “o direito de propriedade, sancionado pela lei natural”;
  •  Arruína a ordem social ao se insurgirem contra o laço sagrado do matrimônio, princípio e base da sociedade, e pregarem o igualitarismo, ou seja, a “igualdade absoluta de todos os homens, no que diz respeito aos direitos e deveres”.

Este último ponto, sobre o igualitarismo, pede uma explicação. Há certamente uma igualdade de natureza entre os homens, pois possuímos todos a mesma natureza humana, assim como existe uma igualdade de destinação, pois somos todos chamados “à mesma e eminente dignidade de filhos de Deus”. Porém, é igualmente verdadeiro que, como ensina o papa, “a desigualdade de direitos e de poder provém do próprio Autor da natureza”. Ora, assim como Deus quis que houvesse distinção e subordinação até mesmo entre os anjos do céu, ou nas diferentes partes do corpo humano, assim também a sociedade foi estabelecida com várias ordens distintas em dignidades, direitos e poderes, “a fim de que a sociedade fosse, como a Igreja, um só corpo, compreendendo um grande número de membros, uns mais nobres que os outros, mas todos reciprocamente necessários e preocupados com o bem comum”.

Aqui convém citar um belo trecho de Gustavo Corção, onde o grande escritor desenvolve com poesia a nossa radical oposição ao igualitarismo:

“A sociedade de nossos sonhos terá a medida de sua perfeição na riqueza das diferenciações enquadradas na mais forte e vitoriosa unidade moral. O mundo que nós desejamos não é o pesadelo de uniformidade desejado pelos marxistas. Ao contrário, é um mundo de diferenças exaltadas, em que a criança seja plenamente infantil, o homem plenamente varonil, e a mulher plenamente mulheril. O mundo que nós desejamos restaurar é, em poucas palavras, aquele em que a natureza das coisas seja esplendidamente afirmada, e em que tudo se valorize pelo que tem de genuíno. O pão será pão e não pedra. O leite será leite, e não um equívoco líquido esbranquiçado. A poesia será poesia, e não um pretexto de andar na vida sem regras morais. E tudo o mais será assim, verídico e autêntico.4

 

Do Liberalismo ao socialismo

A origem de tais doutrinas socialistas e comunistas não é outra que o naturalismo e o racionalismo, propugnado pelos filósofos iluministas do século XVIII. Pois foi recusando de antemão a revelação divina e toda a ordem sobrenatural que franquearam as portas a todos os delírios da razão. Daí também se originaram os Estados modernos, constituídos “sem fazer caso algum de Deus, nem da ordem por ele estabelecida”.

Em outra encíclica, Leão XIII apontara a mesma origem, a mesma paternidade para o liberalismo: “E, com efeito, o que são os partidários do naturalismo e do racionalismo em filosofia, os fautores do liberalismo o são na ordem moral e civil” 5. Donde resulta o estreito parentesco entre tais doutrinas, que desempenharão cada qual um papel na história: o liberalismo vem primeiro e, afastando de Deus as sociedades, prepara-as para a mais perversa das tiranias, o socialismo. Este parece ser o pensamento de Leão XIII:

“Daquela heresia [i. é, o protestantismo] nasceram no século passado uma filosofia falsa, o chamado direito novo, a soberania popular e uma descontrolada licença, que muitos consideram como a única liberdade. Daqui chegou-se a esses erros recentes que se chamam comunismo, socialismo e niilismo, peste vergonhosa e ameaça de morte para a sociedade civil” (Diuturnum Illud).

Compreende-se que não é possível combater eficazmente o socialismo a partir do liberalismo: seria como tentar esfriar uma chaleira sem tirá-la do fogo. Escreveu Gustavo Corção:

“Qualquer estudioso, que digo? qualquer distraído, se ainda souber ver alguma coisa, sabe que o liberalismo amolecedor, sendo uma perversão que relativiza a Verdade e o Bem em favor de uma categoria definida pela indefinição, só pode entregar o homem a suas fraquezas internas e a seus inimigos externos. A penetração do socialismo e do comunismo nos meios católicos seria impraticável sem a penetração do liberalismo (...)

“O liberalismo corre atrás do comunismo como a matéria corre atrás da forma, ou como, segundo Aristóteles, corre a fêmea atrás do macho. O mole ceticismo liberal tem a nostalgia das definições, tem a nostalgia dos dogmas, sem os quais a alma humana não respira. Se os não quer divinos, amolda-os com o barro humano, se não os suporta revelados por Deus, fabrica-os. Não podendo, na religião deles, voltar ao cristianismo, o liberalismo sonha amores com o comunismo, e tem desejo de se sentir coberto por algo que seja duro e definido.” 6

Ainda nesse ponto, escreveu Dom Marcel Lefebvre: “Guardemos então esta inegável verdade histórica e filosófica: o liberalismo leva, por inclinação natural, ao totalitarismo e à revolução comunista.” 7  E São Pio X escreveu sobre “os princípios subversivos do liberalismo e dos seus dignos filhos, o socialismo e a anarquia”.

É fácil ver como o liberalismo prepara a sociedade para as três ruínas apontadas na encíclica. Na ordem política, ao negar que seja Deus a origem e a fonte da autoridade política, subtrai desta última todo seu vigor e lhe atribui o mais débil dos fundamentos, a soberania popular. A liberdade de imprensa e de ensino coloca nas mãos dos maiores inimigos da sociedade, os comunistas, os instrumentos de que tanto precisavam para levar adiante os seus planos funestos. Na ordem econômica, se o Catolicismo defende a propriedade privada como um direito natural, se proíbe, com o décimo mandamento, a mera cobiça dos bens alheios, o liberalismo, ao fundar a propriedade privada no Estado, tido como a expressão da vontade geral, estatiza toda a propriedade no seu princípio mesmo. Na ordem social, o liberalismo promove o igualitarismo e destrói o mais doce dos cativeiros, a sociedade doméstica, ao erigir a liberdade como valor supremo. Assim, começa por reduzir o matrimônio a mero contrato civil, para em seguida instituir o divórcio e, finalmente, abrir as portas para toda sorte de perversões.

 

Se os mortos não ressuscitam...

Voltemos à Encíclica. O papa prossegue sua lúcida exposição e, depois de segregar as origens da pérfida filosofia comunista, analisa o componente psicológico, ou a motivação por trás daqueles que a abraçam: e aqui entramos num problema de importância capital. Ora, se não há Revelação, se não há sobrenatural, também não haverá céu nem vida eterna. Toda a felicidade estará circunscrita aos limites da vida presente, e terá de ser realizada aqui e agora. É como dizia o Apóstolo (1Cor 15, 32): se os mortos não ressuscitam, então “comamos e bebamos porque amanhã morreremos”. O problema pessoal da miséria reclama uma solução espiritual. Na ausência dela, o homem torna-se vítima de toda espécie de rancor, e já não haverá nada que impeça os desvalidos do mundo, que são sempre maioria, de se coligirem para avançar sobre os bens dos ricos. É o que ensina o papa: “não é para admirar que os homens de ínfima condição, cansados da pobreza de suas casas ou pequenas oficinas, tenham inveja de se elevarem até aos palácios e à fortuna dos ricos; não é para admirar que já não haja tranqüilidade na vida pública e particular, e que o gênero humano já tenha chegado quase à borda do abismo.”

A força do socialismo está na impossibilidade de uma sociedade descristianizada encontrar uma solução para o problema pessoal da pobreza. E se alguns economistas louvam a livre iniciativa, atribuindo-lhe o poder de extirpar a miséria, outros dão de ombros e declaram com cinismo que “no longo prazo, todos estaremos mortos”, antes de comunizar um pouco mais os bens de todos.

Continua o papa: “os sectários do socialismo, apresentando o direito de propriedade como uma invenção humana que repugna à igualdade natural dos homens, e reclamando o comunismo dos bens, declaram que é impossível suportar com paciência a pobreza e que as propriedades e regalias dos ricos podem ser violadas impunemente.” A solução para esse mal não poderá ser encontrada longe da Igreja, e terá de passar pela reconversão dos povos. É de espantar que, estando nossa Mãe e Mestra muda, as idéias socialistas não parem de crescer, mesmo após a queda do muro de Berlim? Citemos a Encíclica:

“E quando reconhecerem que, para afastar esta peste do socialismo, a Igreja possui uma força como nunca tiveram nem as leis humanas, nem as repressões dos magistrados, nem as armas dos soldados, tratarão de restituir logo à Igreja condição e liberdade tais, que possa exercer esta força tão salutar para o bem comum de toda a sociedade humana.”

Mas as classes operárias não seriam induzidas a abraçar os erros nefandos do socialismo, se não houvesse uma organização que se encarregasse de doutriná-las e de excitar os rancores: esse é o papel da maçonaria e demais associações secretas. Por isso recorda o Papa as numerosas advertências dos seus predecessores contra elas, advertências que jamais foram levadas em consideração. E afirma que tudo teria se passado de modo diferente, se tivessem agido de outro modo.

E conclui ordenando aos bispos combater o socialismo: “É necessário, além disto, que trabalheis para que os filhos da Igreja Católica não ousem, seja debaixo de que pretexto for, filiar-se na seita abominável, nem favorecê-la.” Infelizmente, aqui também podemos dizer que, se essas advertências tivessem sido levadas em consideração, tudo teria se dado de modo diferente!

***

Pode-se compreender que alguém insuficientemente familiarizado com a doutrina da Igreja, ao ver a defesa de governos e idéias esquerdistas pela Conferência episcopal brasileira, venha a julgar que tudo isso guarde alguma relação com a doutrina santíssima da Igreja. Isso é evidentemente falso. O que ocorreu dentro da Igreja, na esteira da reviravolta antropocêntrica promovida pelo Segundo Concílio do Vaticano, foi uma terrível demissão do episcopado. Narra Corção:

“... desde o princípio deste século o surgimento dos socialismos e dos humanismos em meios cristãos tomou dimensões de intolerável insolência; mas ainda em 1936, o cardeal primaz da Espanha, no seu histórico apelo lançado ao mundo católico, teve o apoio de todos os bispos do mundo, e assim promoveu a mais numerosa unanimidade da hierarquia católica jamais registrada.

“Ora, menos do que trinta anos depois (trinta anos, um sopro!), nós, isto é, os mesmos espectadores da unanimidade de ontem viram, durante o Concílio, um espetáculo aterrador. Relendo um livro que fez sucesso na época, O Reno se lança no Tibre, ou o mais recente e importante Un Évêque Parle, de Dom Lefebvre, vemos que somente depois de uma árdua campanha puderam uns poucos bispos obter a assinatura de uma exígua minoria para a confirmação das condenações anteriormente formuladas por tantos papas (...)”8

Ora, depois de declarar que “... o Concílio dirige agora a atenção de todos [...] para algumas necessidades mais urgentes do nosso tempo, que profundamente afetam a humanidade (...)”9, o Vaticano II recusou-se vergonhosamente, escandalosamente, a renovar as condenações ao mais grave flagelo dos tempos modernos. Eis o contraste: o que Leão XIII fez quando o comunismo estava longe de possuir a organização doutrinal e prática que mais tarde viria a ter, o Concílio não fez quando já tinha meio mundo devorado. Esta omissão foi na verdade o resultado de uma tratativa, o chamado Acordo de Metz, como hoje se sabe10.

  1. 1. Na Divina Comédia (Paraíso, canto XI, verso 99), São Francisco de Assis é chamado de “Arquimandrita”, uma palavra composta de dois radicais gregos que, combinados, significam “o primeiro dentre os pastores”.
  2. 2. Com efeito, Pio IX publicou 43 Encíclicas e São Pio X, 15.
  3. 3. Immortale Dei
  4. 4. Gustavo Corção, Teologia da História, Ed. Permanência, 2015.
  5. 5. Encíclica Libertas Praestantissimum - grifos meus.
  6. 6. Idem, pág. 48.
  7. 7. Dom Marcel Lefebvre, Do Liberalismo à Apostasia, pág. 31. Editora Permanência, 1991.
  8. 8. Gustavo Corção, Uma Teologia da História, págs 49-50. Editora Permanência, Niterói, 2015.
  9. 9. Gaudium et Spes
  10. 10. A esse respeito, ver L’Accord de Metz, ou pourquoi notre Mère fut muette, Jean Madiran, Via Romana, 2006.