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Permanência (42)

Novos Tempos

Em comemoração dos 50 anos de Permanência,

 propomos a leitura do editorial de relançamento da nossa revista.

 

Dom Lourenço Fleichman OSB

Em 1991 propus ao meu pai, Julio Fleichman, o relançamento da Revista Permanência, cuja publicação fora interrompida em 1990, poucos meses antes, por falta de interesse dos assinantes. De fato, ao longo dos anos, faleceram os antigos alunos e leitores de Gustavo Corção, que sempre manifestaram seu apoio e mesmo seu entusiasmo com o trabalho de defesa da fé católica empreendido em 1968 e sustentado, desde então, de modo heróico.

Meu pai recusou minha proposta, alegando estar cansado de tanto insistir, sem sucesso, para que os leitores pagassem suas assinaturas. Ao mesmo tempo, o Sr. Otero, de Santa Maria, começara seu apostolado pela missa tridentina naquela cidade, construindo a Igreja do Imaculado Coração de Maria, que viria a ser o atual Priorado da Fraternidade São Pio X. Com isso ficava mais difícil para esse grande benfeitor continuar assegurando o custo de impressão dos mil exemplares da Revista. (Clique para continuar a ler)

Prefácio ao livro A Descoberta do Outro

Como já é do conhecimento de muitos acaba de ser reeditado o primeiro livro de Gustavo Corção - A Descoberta do Outro. Durante muitos anos várias editoras procuraram em vão os herdeiros de Corção para pedir autorização de publicar esta obra-prima do nosso fundador e mestre. Agora foi acordado à Vide Editorial. Mérito deles.

Não posso deixar de recomendar vivamente a leitura deste livro e a Editora Permanência não deixará de promover sua venda. Por outro lado, resta-nos uma ponta de tristeza pois, sendo os herdeiros espirituais do pensamento e do combate de Gustavo Corção, seria muito mais coerente e natural que nós pudéssemos difundir a obra de Gustavo Corção. Mas não nos foi acordada essa possibilidade. 

No intuito de aconselhar a leitura e de assinalar os aspectos mais importantes desse livro único no seu gênero, e para ajudar o leitor menos acostumado com as belas letras, escrevi o Prefácio que segue. 

Foi aos dezesseis anos que eu li pela primeira vez A Descoberta do Outro. Abri-o como quem abre um testamento, tão grande era a presença do autor em minha vida. Em casa o chamávamos Vovô Corção, pois de fato ele fora um pai para o meu próprio pai. O pensamento e a obra de Gustavo Corção tornaram-se como uma herança espiritual que recebi enquanto crescia, e que assumi na Permanência.

Ao longo desses 40 anos reli este livrinho dezenas de vezes, ora por gosto, ora por estudo. Em 1980, por exemplo, foi para ajudar na revisão da edição francesa, publicada em 1987. Mais recentemente, colaborei na preparação de uma matéria sobre Gustavo Corção, na Revista Conhecimento Prático de Literatura[1], e mais uma vez fui buscar o primeiro livro do grande escritor para ilustrar o artigo que escrevi para a ocasião.

(Clique aqui para continuar a leitura)

50 anos da Permanência

50 Anos da Permanência

​Dom Lourenço Fleichman OSB

No dia 29 de setembro de 2017 a Permanência completou 49 anos. Isso significa que já entramos no quinqüagésimo ano de existência, que se completará em 29 de setembro de 2018.

A inauguração da Permanência se realizou por uma missa celebrada pela então Arcebispo do Rio de Janeiro, o Cardeal Dom Jaime Câmara. Essa missa foi celebrada no auditório da primeira sede do nosso movimento, na rua das Laranjeiras.

Igualmente fora realizada uma cerimônia no auditório do Ministério da Educação e Cultura, na presença de muitas autoridades civis e religiosas, onde Gustavo Corção lançara o movimento católico, anunciando para setembro o primeiro número da Revista Permanência.

Eram outros tempos! Os jornais da época anunciaram o lançamento do movimento Permanência e de sua Revista com chamadas nas primeiras páginas. O catolicismo ainda fazia parte da civilização, mesmo sendo um aspecto apenas cultural da nossa Religião.

Seriam outros tempos? Nem tanto. O Concílio Vaticano II já tinha aberto as portas da Igreja ao mundo, abraçara-o e já se tornara cúmplice das suas liberdades, dos seus valores igualitários, da sua marcha para a socialização. O ciclope do fim do mundo já nascera e cuspia seu fogo que tudo destruiu.

Dois capítulos de "Vendéia 1793 - Uma família de 'bandidos'"

[Nota da Permanência: apresentamos a seguir dois capítulos do livro "Vendéia 1793 - Uma família de 'bandidos'". Trata-se de uma história real. A Sra. Marie de Sainte Hermine narra o que viu e viveu ao lado dos seus parentes durante a Guerra da Vendeia e o Terror Revolucionário. Um livro imperdível à venda na nossa livraria ]

 

Capítulo XXV

A prisão de Geneviève

Depois da batalha que entregou Fougères ao exército católico, a cavalaria vendeana, da qual o Marquês de Sérant e Jacques Bureau faziam parte, perseguiu vigorosamente os republicanos. Duas horas depois, ao regressarem ao povoado, cruzaram com o sr. Henri que saía pela estrada de Rennes para examinar as posições onde seria aconselhável estabelecer as tropas, caso o inimigo fizesse um retorno ofensivo. O Generalíssimo, de quem meu cunhado era então ajudante de ordens, lhe pediu que o acompanhasse com alguns cavaleiros para servir-lhe de escolta. Jacques Bureau, é claro, seguiu seu mestre.

A viagem do sr. de La Rochejaquelein continuou por várias horas, e Arthur só pôde retornar a Fougères tarde da noite.

Enquanto ele galopava pelo campo com o sr. Henri, Geneviève era tomada por uma mortal inquietude. Fazia muito tempo que a batalha havia terminado e o seu marido não havia retornado, ele que sempre voltava imediatamente para ela, depois de cada ação, para livrá-la de suas angústias!

Ansiosa, ela questionava todos os cavaleiros que encontrava; ninguém podia lhe dizer o que havia acontecido com o sr. de Sérant.

Sem poder aguentar mais, procurou Pierre Bureau. Meu cunhado lhe tinha dado a responsabilidade especial de zelar pela segurança de sua esposa; assim, o rapaz, fora dos dias de batalha, estava sempre a seu serviço. “Venha comigo”, disse-lhe ela, “o sr. de Sérant ainda não voltou e nem o seu irmão. Estou em uma inquietude mortal. Foi na direção de Avranches que eles perseguiram o inimigo: devo ir ao seu encontro”.

Pierre logo atrelou Fauvette e Mignon, e alguns minutos depois, Geneviève e seu pajem estavam deixando a cidade.

Vocês sabem que laços recíprocos de apego respeitoso e afeto maternal uniam o filho dos Bureau e a jovem Marquesa de Sérant. Há vários dias que ela procurava uma ocasião favorável para lembrar a esse jovem da horrível vingança que ele havia exercido contra Urbain, e tentar inclinar seu coração ao arrependimento.

Depois de alguns momentos de silêncio, ela lhe disse suavemente:

– Você sabia, meu amigo, que eu estava com muito medo por você durante a batalha de Laval?

– Verdade? minha senhora; e por quê?

– Porque, meu pobre jovem, você cometeu, há duas semanas, um grande pecado ao atentar uma atroz vingança ao seu inimigo... você pediu perdão ao bom Deus?

– Oh! sim, senhora marquesa. Veja, no primeiro momento, eu estava loucamente perdido. Eu dizia assim: “Foi bem-feito, mesmo assim... Você vingou o pai e Joséphine!”. E aí, depois, me remoeu a consciência. Então eu falava assim: “Mas se o bom Deus te pegasse, te levaria sei lá pra onde!”. E então os rapazes lá de casa quase deram as costas para mim! “Você não agiu como um bom cristão”, me disseram. “Isto é verdade”, eu disse a eles. Mas senhora, eu perdi a cabeça; eu via tudo vermelho, tudo vermelho... mas eu sinto muito por isso, agora! Então, quando vi que íamos pegar os Azuis de novo, disse: “Isso não; temos que nos limpar”. Daí que fui procurar o vigário de Liré, a senhora sabe muito bem, o padre Rochard, que veio para junto da gente, e eu falei tudo para ele... no momento, não sobrou nada. Não desejo isso para ninguém. Sem isso, veja bem, não estaria no pensamento de Deus de nos perdoar.

– Você fez bem, meu rapaz – respondeu Geneviève sorrindo com a ingenuidade da confissão. – Agora vou ficar tranquila em relação a você. Se você morrer, sua alma, pelo menos, será salva.

– Claro, minha senhora. Nos dias de hoje, é quase melhor ir para o bom Deus do que ficar por aqui, com tantas pessoas más que existem.

No entanto, nossos dois cavaleiros haviam avançado até o ponto em que a perseguição ao inimigo havia cessado e todas as suas buscas foram infrutíferas. Cada vez mais perturbada, minha irmã decidiu voltar para a cidade, na esperança de que seu marido tivesse voltado durante sua ausência.

Após alguns momentos ela cavalgou em direção a Fougères. De repente, enquanto ela seguia um caminho entre dois arbustos, balas assobiaram em seus ouvidos e clamores ecoaram à direita e à esquerda. Alguns segundos depois, uma dúzia de hussardos republicanos avançou, de sabre em punho, sobre a jovem e seu criado.

Pierre se defendeu com raiva e, sob seus furiosos golpes, quatro cavaleiros inimigos comeram terra; mas finalmente, sucumbindo ao número, o heroico rapaz, coberto de feridas, caiu por terra, morrendo. Os republicanos então se lançaram sobre Geneviève que, certamente, teria sofrido o mesmo destino, se não fosse a intervenção do oficial que comandava o destacamento e que obrigou seus soldados a recolocar o sabre na bainha. Então ele se aproximou da minha irmã, ajudando-a a desmontar: “Quem é você, cidadã?”, ele perguntou asperamente.

“Antes de responder, senhor”, respondeu Geneviève em tom suplicante, “rogo-lhe que me permita socorrer este jovem que acabou de dar sua vida para me defender”. Ela apontou para Pierre Bureau, que, estendido no meio da estrada, com o peito perfurado pelos golpes do sabre, estava a ponto de expirar. “Que seja!”, disse friamente o oficial.

Minha irmã apressou-se em tirar proveito da permissão e, correndo em direção ao ferido, levantou-o delicadamente nos braços, com a ajuda de um hussardo republicano e deitou-o na grama ao pé de um carvalho, a poucos passos de distância do lugar onde ele havia caído. O jovem vendeano parecia ter perdido a consciência.

– Você pode me ouvir, meu querido? – disse-lhe ela; sou eu, sua senhora, que estou perto de você para cuidar e curar você, se isso agradar a Deus.

Pierre abriu os olhos e olhou para Geneviève com uma expressão de amargo pesar:

– Oh! Perdoe-me, senhora marquesa – disse ele com esforço; desculpe por ter defendido a senhora tão mal e por deixá-la nas mãos desses miseráveis! O que vai pensar o Pai, lá em cima, quando descobrir que não consegui salvar minha boa senhora? Ele não ficará contente comigo!

– Deixa disso, meu pequeno Pierre, e pense apenas no bom Deus.

Mas a mesma preocupação ainda o obcecava. Geneviève então, entrando nos pensamentos ingênuos do jovem, disse sorrindo, para acalmá-lo:

– Se seu pai te repreende, diga-lhe de minha parte que você se comportou muito bem, que você me defendeu corajosamente e que ele pode se orgulhar de você. Está mais tranquilo agora?

– Oh! sim, senhora marquesa – disse o jovem ferido, que, com tal garantia, acalmou-se repentinamente.

– Você se arrepende de seus pecados, não é?

– Oh! lá, sim.

– Porque você ama a Deus de todo o coração?

– Com certeza, minha senhora.

– Você perdoa seus inimigos?

– Ah sim, para agradar ao bom Jesus.

– Vá então para o céu, meu filho; invejo o teu destino, porque todos os teus males vão acabar. Reze por nós lá em cima, para que Deus tenha misericórdia de nós também.

Pierre estava visivelmente abatido; a morte era iminente.

– Oh! senhora...  marquesa – sussurrou novamente; eu teria mesmo muito prazer em vê-la bem longe daqui... vou pedir isso ao bom Deus!

O jovem vendeano acabara de expirar. Geneviève fechou seus olhos; então, depois de ter dito uma curta e fervorosa oração junto ao cadáver, ela se levantou e aproximou-se do comandante republicano, que parecia muito comovido: “Eu vos agradeço, senhor”, disse-lhe ela.

O oficial azul olhou para ela com uma expressão de pena muito nítida. Era um velho capitão, de quarenta e cinco a cinquenta anos, cujo heroico bigode não conseguia esconder por muito tempo sua boa índole. Geneviève entendeu que não havia caído nas mãos de um inimigo cruel e essa constatação a tranquilizou um pouco.

A um sinal de seu líder, os hussardos afastaram-se e permaneceram distantes, fora da escuta; por isso foi em tom bastante ameno e, por assim dizer, paternal, que se deu o interrogatório.

– Qual é o seu nome, senhora? – O oficial perguntou suavemente.

A jovem não tinha nada a esconder; seu crime era evidente.

– Geneviève de Sérant – respondeu num tom digno e simples. O comandante estremeceu.

– Pobre jovem!... – Ele suspirou. – Perdoe-me, senhorita... ou senhora, visto esse nome familiar... – retomou depois de um momento. – Eu sou pai, você vê; tenho uma filha que deve ter a sua idade. Ela fica lá no Sul e teme muito pela vida do seu velho papai... eu queria te salvar, acredite; mas infelizmente! meus hussardos são patifes perfeitos que me denunciariam e eu entregaria a minha cabeça se deixasse você escapar. Aqui está tudo o que posso fazer: você montará em seu cavalo e nos seguirá até Rennes. Lá, vou entregá-lo ao Representante da Convenção, delegado para assuntos departamentais. Ele não é um homem tão ruim... ele já fez favores... a algumas pessoas... espero que ele poupe sua vida. Vou defender seu caso calorosamente, mas não há nada mais que eu possa fazer.

Geneviève agradeceu tristemente.

– Não quero que o senhor se exponha por mim, e rezarei a Deus para que recompense sua boa vontade.

Por ordem do capitão, os hussardos montaram a cavalo e se prepararam para partir. Geneviève subiu em Fauvette, cuja sela estava firmemente presa, à direita e à esquerda, à sela de dois cavaleiros. Mignon, o cavalo do pobre Pierre, foi mantido na coleira por um dos homens da escolta.

 

 

Capítulo XXVI

Pobre Geneviève

Eram cerca de cinco da tarde quando a tropa retomou a marcha. Por volta das oito horas ela chegou à aldeia de Sainte-Luce, situada a meio caminho entre Rennes e Fougères. O capitão Bernard – esse era o nome do oficial Azul – percebendo que sua prisioneira estava tomada pelo cansaço e pela dor, quis dar a ela um pouco de descanso. “Vamos passar a noite nesta aldeia”, disse ele, “e amanhã de manhã terminaremos nossa jornada”.

Os hussardos apearam e seu líder bateu à porta da casa mais próxima. Era a casa de uma corajosa camponesa chamada Jeanne Robin, que desde sua viuvez morava lá com o pequeno Jean-Marie, seu único filho, com mais ou menos dez anos. À primeira palavra que o senhor Bernard lhe disse, mostrou-se bastante disposta a dar comida e abrigo à vendeana, cuja tristeza e cansaço lhe estimularam sobremaneira a piedade.

Antes de deixar a prisioneira aos cuidados de sua anfitriã caridosa, o capitão lembrou-lhe que ela teria que partir cedo no dia seguinte porque ele deveria chegar a Rennes antes do meio-dia e acrescentou: “Sou obrigado a confiscar seus cavalos. Eles são boas presas. Mas não quero levá-los comigo; pois são animais magníficos e o representante certamente os atribuiria a si mesmo, embora eles sejam propriedade de meu regimento. Portanto, vou deixá-los nesta aldeia, e vou levá-los de volta depois de amanhã à noite, de passagem”.

Como essa declaração pareceu afetar Geneviève, ele continuou: “Claro que a senhora não vai viajar a pé; vai montar de garupa atrás de mim. Meu dever me obriga”, acrescentou retirando-se, “a colocar uma sentinela em cada uma das portas desta casa, na rua da aldeia e para o lado dos campos. Lamento, senhora, o rigor das instruções, mas não posso evitar”.

Esse capitão Bernard, que certamente não era um homem mau, sem dúvida tinha uma forte dose de ingenuidade. Sua prisioneira percebeu isso rapidamente e como ela não podia esperar que ele a entregasse pura e simplesmente em liberdade, dada a pusilanimidade de caráter do oficial azul, ela decidiu, ao menos, aproveitar-se da simplicidade do bom homem para tentar alertar Arthur do perigo que a ameaçava.

Assim que o sr. Bernard desapareceu, a viúva Robin, posta por Geneviève a par da situação, expressou-lhe, em palavras simples e comoventes, a simpatia que seu triste destino lhe inspirava. A excelente mulher apressou-se em preparar-lhe o jantar e a pôr à disposição o único quarto de seu pobre alojamento.

– Meu filho e eu dormiremos no sótão – disse ela; e como Geneviève se opunha, ela continuou:

– Estamos felizes por poder vos servir. Nós também somos monarquistas nesta aldeia; mas o que podemos fazer, quando há tantos iníquos ao nosso redor?

– Bem, minha boa amiga – exclamou Geneviève, muito feliz por ver sua anfitriã com tão boas disposições – talvez você possa me prestar um imenso serviço... seria para levar o quanto antes a Fougères, algumas palavras que escreverei a lápis, se não tiver tinta para me dar. É para meu marido que está no acampamento dos vendeanos (se ele ainda estiver neste mundo!). Você conhece alguém que aceitaria levar minha carta?

Jeanne Robin refletiu por alguns momentos e disse:

– Eu posso ajudá-la. Agora é impossível sairmos daqui; as sentinelas nos impediriam; mas amanhã de manhã, assim que vocês forem embora, meu pequeno Jean-Marie levará seu recado – e ela apontou para seu filho, um garotinho afável e esperto que estava sentado na lareira e olhando para a estranha com seus grandes olhos meio escondidos por uma floresta de cabelos loiros.

– Você tem certeza? – disse Geneviève; uma criança dessa idade ir tão longe!

– Acho que a senhora faria bem em aceitar mesmo assim – respondeu Jeanne Robin. – Meu Jean-Marie não é robusto; mas senhora! ele é um rapazinho que vale por dois – acrescentou ela com doce orgulho. – Se a senhora visse como ele conduz seu burro até o mercado de Saint-Aubin-du-Cormier! E depois, as crianças... não se presta atenção neles; passam para todo lado... não é, meu Jean-Marie? – continuou, se dirigindo ao lourinho que estava ouvindo com todos os seus ouvidos – não é verdade, meu menino, que você irá, no burro, a Fougères, levando uma carta da senhora para o marido?

– Sim, mamãe – respondeu a criança com voz clara e confiante.

– Você vai dizer assim....

– Diga-nos, por favor, senhora, o nome do seu marido.

– Marquês de Sérant – disse Geneviève. – Aliás, vou colocar o nome sobre o endereço, e a criança, se não souber ler, pode mostrar ao primeiro soldado da Vendéia que encontrar.

– Como quiser, senhora – respondeu a boa mulher; mas Jean-Marie não esquecerá o nome. É só ouvir alguma coisa e isso fica para sempre na sua cabeça. Vamos, Jean-Marie, diga à senhora o que você vai fazer amanhã de manhã, quando os soldados tiverem partido.

A criança se levantou; seus olhos azuis brilhavam de coragem e orgulho.

– Vou vigiar os soldados amanhã – disse ele com sua voz perolada – e assim que eles forem embora, vou pegar Coco e correr direto sem parar para Fougères. Lá perguntarei pelo Marquês de Sérant e entregarei a ele a carta que a senhora vai escrever.

– Perfeitamente! meu pequeno amigo – exclamou Geneviève, acariciando os cabelos louros de Jean-Marie; vejo que posso ter total confiança em você. Se não encontrar o Marquês de Sérant, pergunte pelo general, sr. de La Rochejaquelein, e entregue-lhe a minha carta... você se lembrará?

– Oh! Sim senhora.

– Veja! – continuou dirigindo-se à mãe – certamente foi o bom Deus que me enviou a vocês.

Reanimada pela esperança de se comunicar com o marido, minha irmã concordou em comer um pouco; depois começou a preparar seu bilhete e como a viúva Robin não tinha nem tinta nem papel para lhe oferecer, ela rasgou uma folha de sua caderneta e escreveu a lápis.

Reencontrei essa carta entre os papéis que minha irmã me deu no mesmo dia de sua morte. Quase não está legível agora; mas eu a transcrevi há muito tempo.

Sainte-Luce (esse é o nome desta pequena aldeia),

5 de novembro, I793: 10 horas da noite

"Meu amado Arthur,

É a sua pobre Geneviève quem lhe escreve, de um pequeno quarto de camponês, numa aldeia remota, mais ou menos a meio caminho entre Rennes e Fougères. Como fui parar aqui? Parece-me que estou sonhando... vou explicar-lhe tão brevemente quanto possível; pois, no momento em que você receber essas linhas, seu tempo será precioso.

Ah! meu amigo, estou falando com você... e nem sei se você ainda está neste mundo e se este pequeno bilhete vai alcançá-lo! Minhas lágrimas cobrem meus olhos e mal consigo distinguir os caracteres que traço.

Imagine que, nesta tarde, devorada pela angústia de não ter te visto voltar depois do combate, resolvi ir ao seu encontro com Pierre Bureau. Surpreendida, no caminho, pelos hussardos republicanos, sou sua prisioneira agora, depois de ter visto o heroico jovem que me acompanhava, morrer sob seus golpes enquanto me defendia. Diga a Jacques que ele cumpriu valentemente seu dever e que morreu em meus braços como um bom cristão. Agora os republicanos vão me levar a Rennes, para me entregar ao representante em missão naquela cidade. Eu serei levada para a casa dele. Parece que às vezes ele nos poupa. Se ele não estiver bem-disposto, a morte me espera. Mas tenha coragem, meu amigo e confie na bondade de Deus. Ele lhe dará, não duvide, os meios para me salvar. Sei que assim que receber minha carta, você correrá para libertar sua esposa com toda sua audácia tantas vezes manifestada. Queira Deus ajudá-lo a conseguir e nos reunir novamente neste mundo!

Um detalhe importante: levaram minha querida Fauvette; deixaram-na aqui com Mignon e os republicanos devem retomá-los em três dias, ao passar de novo pela aldeia. Como você pode precisar das pernas dela para me tirar das garras desses inimigos cruéis, tente, portanto, libertar este pobre animal também. Minha boa anfitriã, que me cobre de atenções maternais, estará esperando por você amanhã, o dia todo, na estrada e lhe mostrará onde os republicanos puseram nossos cavalos.

Adeus, meu querido, meu amado marido; eu sei que dor imensa você sentirá quando souber que sua pobre esposa está nas mãos de tais bandidos. Julgo sua aflição por aquilo que eu mesmo sinto. No entanto, não torne as coisas piores. Até agora não fui maltratada e o líder da tropa que me leva é um bom homem que parece lamentar muito ter-me levado. Vendo meu cansaço e minha tristeza, ele me concedeu esta noite para descansar um pouco. Este sr. Bernard me parece possuir uma dose pouco comum de simplicidade. Foi graças a esta qualidade, preciosa para nós, nessas circunstâncias, que pude saber por sua própria boca o lugar para onde deveria ser levada, a hora da nossa chegada a Rennes (onze horas da manhã, acredito), e os outros detalhes que lhe dou.

Recompensa, por favor, meu mensageiro (um menino de dez anos). Ele pegará a estrada para encontrá-lo, mas só amanhã, depois que partirmos para Rennes; porque temos duas sentinelas à nossa porta, e a criança seria presa e minha carta tomada, se tentasse sair nessa noite. Adeus, à Deus.

Sua Geneviève, desolada, que espera por você.

 

No entanto, Jeanne Robin exortava minha irmã a repousar, o que lhe era tão necessário.

– Vamos minha senhora! – dizia alegremente – deves dormir, e imediatamente. Acho que, na próxima noite, seu marido terá feito sua parte e que os dois galoparão, virando as costas para a cidade de Rennes. Amanhã – acrescentou ela – vou esperar o dia todo na minha porta, para ver o seu senhor chegar. Já sei que levaram seus animais para a casa do François, o pedreiro, a dois passos daqui. Esse homem é um dos nossos amigos. Ele nos devolverá quando quisermos. E depois rezarei terços o dia todo, para que a Santíssima Virgem a tire dessa situação.

Geneviève agradeceu efusivamente à excelente mulher e lhe disse:

– Eu gostaria muito de recompensar sua generosidade e a de Jean-Marie; mas os republicanos tiraram minha bolsa e minha maleta... não tenho mais nada.

– Dinheiro para isso! – exclamou a boa mulher; não diga mais nada sobre isso, minha senhora, senão ficarei inteiramente zangada. Vamos! boa noite e durma bem; o quarto é seu: eu ficarei lá em cima com o meu filho. Até amanhã!

O dia tinha sido tão cansativo que Geneviève, apesar das preocupações, logo adormeceu profundamente. Esse descanso lhe fez um grande bem, e agora ela estava fortalecida pela esperança da libertação. Ela conhecia a habilidade e o destemor de seu marido e de Jacques Bureau, e tinha certeza de que fariam prodígios para salvá-la.

Na manhã seguinte, depois de comer um pouco, ela se despediu da viúva Robin; depois, percebendo pela janela o capitão que viera buscá-la, se inclinou para o pequeno Jean-Marie, beijou-o na testa e disse-lhe: “Não se esqueça, meu pequeno, que minha vida e a felicidade do sr. de Sérant estão nas suas mãos”. Jean-Marie ergueu seu olhar límpido e profundo para ela. “Confie em mim, senhora”, disse ele gravemente.

Dois minutos depois, Geneviève montou atrás do capitão e o pelotão de hussardos tomou, a trote, o caminho para Rennes.

Eram cerca de onze horas quando as tropas chegaram aos portões da cidade. O capitão Bernard conduziu imediatamente sua prisioneira ao gabinete do Representante, na rua da Moeda. Pretendia pleitear, sem se comprometer muito, a causa da senhora de Sérant, a quem havia recomendado que não dissesse seu verdadeiro nome, nem seu título; por isso, quando soube que o membro da Convenção Nacional não estava em casa e que só voltaria bem tarde da noite, ficou muito desapontado. Não sabendo o que fazer com Geneviève, decidiu confiá-la ao porteiro do edifício, depois de ter tomado todas as precauções para tornar inútil qualquer tentativa de fuga. O medo do capitão Bernard servia de instrumento para vis empreendimentos, apesar de detestar os excessos da Revolução. Pessoas com esse caráter não eram raros naquela época. Existem menos hoje em dia?

Brutus Souriceau – esse era o nome do zelador a quem o oficial Azul entregara sua prisioneira – era um homem de cinquenta anos, talhado como Hércules e de aparência assustadora. Republicano feroz, abominava os aristocratas e frequentava assiduamente os jacobinos mais exaltados. O Representante da Convenção o encarregava sempre da custódia dos prisioneiros que mantinha temporariamente em seu domicílio e nunca se ouviu dizer que o formidável carcereiro tivesse deixado que ocorresse uma fuga.

Esse republicano austero tinha, porém, uma fraqueza: ele amava o suco da videira e quando se entregava a abundantes libações, o que não era absolutamente raro, desmaiava miseravelmente no local mesmo do combate, perto das garrafas, e, derrotado, dormia profundamente como uma pedra.

Depois da “diva” garrafa, o seu mais terno carinho ia para a sua esposa, a digna senhora Olympe, que, já viúva de um primeiro marido, não tinha ficado com o coração insensível aos suspiros do Hércules bretão e tinha-lhe dado sua mão, alguns meses antes, no frescor de suas cinquenta e duas primaveras. Mas a lua-de-mel tinha passado rapidamente e a amada esposa já sentia muitas vezes a força do braço conjugal. Além disso, nas horas em que a embriaguez reduzia seu senhor e mestre à sua mercê, o que normalmente acontecia sempre no último dia da semana, Olympe se vingava e conscienciosamente devolvia a seu querido Brutus os golpes e as feridas recebidas durante a semana. Na manhã seguinte, o bom homem acordava, com os olhos escurecidos e o nariz machucado. Mas, como não se lembrava de absolutamente nada do que lhe acontecera no dia anterior, Olympe, com ar ingênuo, descartava facilmente todas as suspeitas, e o bêbado naturalmente atribuía suas desventuras aos espinhos e às pedras do caminho.

A senhora Souriceau, que havia recebido uma certa educação na juventude, era, aliás, uma honesta mulher, cujo entusiasmo republicano não estava, nem de perto, em sintonia com o de seu marido; e era essa falta de harmonia que causava, na maioria das vezes, problemas ao casal.

No último dia da semana (no decadi), Olympe trabalhava como carcereira, no lugar do seu homem, ocupado então em correr pelos cabarés da cidade, e aproveitava seu poder efêmero para facilitar a vida dos presos daquele dia, sem chegar, porém, a dar-lhes a chave da prisão.

Para completar o retrato da mãe Souriceau, digamos que, tagarela aos excessos, ela contava histórias sem fim, protestando a cada instante, o quanto amava o silêncio: uma mania inocente compensada por suas boas qualidades. Infelizmente, o dia em que Geneviève chegou a Rennes não era o último dia da semana e seu feroz guardião desfrutava de todas as suas faculdades. A pedido do capitão Bernard, apressou-se em conduzir sua prisioneira a um quarto no terceiro andar, onde a trancou com uma fechadura dupla.

– Na gaiola, o lindo pássaro! – exclamou com um tom irônico, sacudindo seu molho de chaves ruidosamente – é caça para a guilhotina que o senhor nos trouxe, capitão! Não há perigo dela fugir – acrescentou –, a menos que ela tenha asas ou queira bater a cabeça no chão.

Antes de se retirar, o capitão Bernard, seguindo as indicações do carcereiro, colocou um soldado em sentinela na entrada do corredor, outro no meio da escada e um terceiro no pátio interno da casa. Depois, com a consciência tranquila, foi embora muito satisfeito consigo mesmo, amaldiçoando os excessos dos perseguidores e sentindo pena do destino de suas vítimas. O pobre homem realmente acreditava ter realizado um ato heroico e, meu Deus, talvez não estivesse totalmente errado, dado seu caráter medroso e excessivamente pacífico.

Sozinha no quarto que servia de prisão, Geneviève logo sentiu cair toda a sua energia e o horror de sua situação apareceu claramente aos seus olhos. Ela estava à mercê de um tirano cruel, que mandava suas vítimas para o cadafalso ou para a liberdade, dependendo do humor do momento. Ele deveria voltar para casa naquela mesma noite e, se estivesse mal-disposto, a entregaria ao carrasco no dia seguinte. Sem dúvida, ela esperava uma intervenção do marido para a noite seguinte: mas quanto agora parecia-lhe frágil essa esperança que a sustentara até então! Arthur havia recebido sua carta? Ele estaria em Rennes esta noite? E, sobretudo, como ele poderia alcançá-la e arrancá-la da fúria de seus inimigos? O sucesso agora parecia impossível para ela. Esta casa estava tão bem protegida! O Marquês de Sérant nem chegaria perto da sua masmorra e se perderia desnecessariamente tentando salvá-la. Oh! como ela se culpava por tê-lo chamado para ajudá-la! Não teria sido melhor ter se submetido ao seu destino com resignação, sem fazê-lo perecer com ela? E o que seria de seu pobre Louis, sem seu pai e sua mãe para protegê-lo?

Um profundo desânimo tomou conta da jovem. Deus, então, a havia abandonado! Qual era a utilidade, agora, de amá-Lo, orar e servi-Lo, se Ele nada fazia para libertar seus servos? Por que a deixou cair nas mãos daqueles miseráveis... ela que havia deixado tudo para garantir a salvação eterna de seu marido? Estaria ela presa, às vésperas de ser levada à morte, se esta Providência de que tanto falamos realmente cuidasse de nós? Ela se sentia invadida por tentações de blasfêmia e pensamentos de revolta contra a justiça de Deus. Por um momento, no limite de sua força e coragem, abriu a janela e seu olhar mergulhou nas pedras da calçada que dava para a sua cela. Atraída para o abismo, sentia um desejo horrível de acabar com seus tormentos, livrando-se da vida. Mas, de repente, a fé adormecida durante esta tempestade despertou em sua alma, e a pobre cativa, repelindo a tentação com horror, se ajoelhou, implorando a Nosso Senhor que a perdoasse por sua falta de confiança e submissão.

A oração restituiu-lhe a calma e a paz. Ela se rendeu inteiramente à vontade de Deus para a vida e para a morte, implorando-lhe armá-la contra todas as fraquezas do corpo e da alma.

Na angústia profunda em que se debatera há pouco, ela rejeitou os alimentos que lhe foram trazidos; mas quando triunfou sobre o terrível ataque do inferno e a ajuda divina tranquilizou sua alma, ela disse a si mesma que deveria conservar suas forças na expectativa do cansaço que logo teria que suportar, se Deus permitisse que seu marido conseguisse chegar a ela. Sem dúvida, era impossível prever que meios seriam utilizados para sua libertação; mas precisaria, em todo caso, de toda a sua energia para auxiliar a ação dos seus defensores. Feitas essas reflexões, decidiu comer, e quando recuperou as forças corporais, pôs-se a rezar com fervor.

Burguês, mundano e soberbo

Dom Lourenço Fleichman, OSB

A Permanência nasceu das aulas de Gustavo Corção. Nasceu da necessidade de dar continuidade ao trabalho de formação intelectual iniciado no Centro Dom Vital, onde Corção ensinou a doutrina Tomista durante muitos anos. Da decomposição dos princípios e intenções do seu fundador, Jackson de Figueiredo, devido às inclinações marxistas do então presidente, Alceu Amoroso Lima, não restou outra solução a Corção e a seus alunos senão abandonar aquele alto lugar de estudos católicos. Estávamos em tempos do Concílio Vaticano II. Alguns anos mais tarde seria fundada a nossa Permanência. Tinha sede em Laranjeiras, onde o Cardeal Dom Jaime Câmara celebrou a missa inaugural, em 29 de setembro de 1968. Os trabalhos foram iniciados com o lançamento da Revista Permanência, modesta no tamanho, grande no conteúdo, e que levou a todo o Brasil ao longo de 22 anos, a doutrina da Tradição católica, segura, apaziguadora, infalível. Como nossos leitores sabem, retomamos a publicação da Revista no Natal de 2011.

No último mês de novembro foi realizada numa fazenda perto de Taubaté, S.P., a Jornada de Formação, organizadas pela Fraternidade São Pio X, com a colaboração da Permanência, e que reuniu cerca de oitenta pessoas, entre jovens e adultos. O tema desse ano foi, justamente, a formação intelectual do católico, seus estudos, a necessidade de se aprofundar o catecismo para respondermos aos questionamentos constantes das pessoas que nos cercam, no trabalho, na escola, nas ruas da cidade.

As conferências estiveram a cargo dos padres que trabalham no Brasil, mas foram enriquecidas pela vinda do Pe. Alvaro Calderón, professor no Seminário N. Sra Corredentora, em La Reja, Argentina, um dos principais teólogos da Fraternidade S. Pio X.

Sua conferência tratou de interessante paralelo entre as quatro Notas da Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica, e a família católica. Por esta analogia mostrou com clareza a diferença entre a família católica e a família liberal.

Se nossas famílias da Tradição não estiverem atentas com o modo de interagir com o mundo liberal, serão contaminadas e porão em risco os fundamentos da sua essência, perdendo, em seguida, o caminho para alcançar o seu fim último, que é a salvação dos seus membros.

Para evitar a contaminação com o espírito liberal e os erros modernos, devemos considerar com toda a atenção o que está acontecendo hoje com a humanidade, em termos civilizacionais.

No seu livro Dois Amores Duas Cidades, Gustavo Corção explica o aparecimento, no século XIV, do principal personagem dos tempos modernos, após a quebra da Idade Média católica:

“Entra em cena agora o personagem que desempenha o papel mais importante dos tempos modernos; ou melhor, o personagem cujo tipo, cuja índole, cujos códigos, em resumo, cujo espírito constitui um dos mais característicos fatores da nova civilização. Trata-se do “burguês”, que é o invasor dos tempos modernos pelas forças da Renascença e da Reforma, como os bárbaros foram os invasores do Império Romano. (...) Queremos dizer que surgiu um novo ideal coletivo, que diferenciou-se um novo super-ego, ou que ascendeu ao firmamento da mitologia do tempo um novo arquétipo.” 1

A força civilizacional do espírito burguês, característica da quebra da civilização do homem interior, do homem católico, produziu a civilização do homem exterior, do homem moderno, como explica Corção. Esse homem burguês produzirá na sociedade uma vida voltada para o enriquecimento e para a boa aparência; a moral burguesa estabelecerá suas regras de conduta, seu comportamento estereotipado, rígido e falso, isento de Deus, mas ainda envolvido em um ambiente estoico de domínio de si e desprezo das fraquezas humanas.

Mais tarde, nos séculos XVIII e XIX, o espírito burguês não conseguirá mais manter as aparências de uma falsa moralidade sem Deus, e deixará transparecer sem maiores escrúpulos o mundanismo sensual que culminará, no final do século XIX, na manifestação de homens importantes da cultura e da política, mergulhados no homossexualismo e no adultério generalizado.

Apesar da reação antimodernista de São Pio X e do crescimento, na primeira metade do século XX, do catolicismo tradicional, a Revolução triunfou no Concílio Vaticano II, derrubando as muralhas espirituais e morais que a Igreja Católica representava na tentativa de manter viva a Civilização Católica Ocidental. Ainda não se conseguiu medir com precisão a gravidade e o alcance civilizacional dos desmandos dos papas e bispos que atacaram com força total a Tradição da Igreja, precipitando-a na mais grave crise de toda a sua história, e abandonando seu papel de represar a decadência da humanidade caminhando para o inferno.

Mas o tempo passa inexorável e insistente, deixando para trás os séculos que se reputavam grandiosos e inovadores. O novo século, o nosso eletrônico e digital século XXI, modificou profundamente o homem em seus interesses e em seu comportamento.  Deu a ele ferramentas novas que moldaram a humanidade no que talvez seja seu derradeiro estado.

O espírito burguês surgido no século XIV iniciou uma civilização fundada na concupiscência dos olhos, na busca das riquezas e das aparências enganadoras; mesmo as grandes navegações, que tanto nos encantam por diversos aspectos, não deixaram de ser uma busca intensa pelas riquezas do oriente e pelas novidades do mundo lá fora. Mercantilismo dominante, produção do dinheiro e aparecimento do Capitalismo materialista, que mistura à liberdade própria do espírito humano, a ganância das paixões isentas da Lei de Deus.

O enriquecimento brutal das nações não podia deixar de ser seguido por certo conforto e deleites da vida. O espírito mundano será um passo a mais, a conseqüência natural do dinheiro fácil. Por isso a civilização nova será movida agora também pela concupiscência da carne.

Nesse início de século XXI, estamos assistindo ao aparecimento de um novo homem, de uma nova civilização, ou, se preferirem, do acabamento dessa civilização moderna iniciada há mais de setecentos anos atrás. Depois de estabelecer na cultura e nas artes, nas casas e nas tabernas, nas cidades e no campo, um mundo marcado pelas riquezas e pelos prazeres, o homem respira, hoje, por todos os poros, a soberba da vida; a última concupiscência que faltava como força de civilização, como preparação para o Anti-Cristo. Com ela termina a formação desse homem sem Deus, sem família, sem Pátria.

Este é o principal aspecto do que estamos vivendo hoje. Impregnou-se nas almas uma nova mitologia, como falava Corção acima; não mais homens isolados que vivem do orgulho ou do egoísmo, mas a própria civilização que erigiu a soberba da vida como sistema, completando assim o quadro em que aparece o Adão terminal, o terceiro Adão, o autor do que Corção chamou de “pecado terminal”, fonte do século do desamor.

Esta civilização fundamentada no Amor-próprio, depois de ter desviado seus olhos e interesses das coisas do alto para buscar as riquezas da terra; depois de ter desviado seus atos da fortaleza e pureza da vida para mergulhar nos prazeres da carne, volta-se agora para a destruição de toda e qualquer autoridade, para o achincalhe do 4º Mandamento.

“Vêem-se tendências contestatárias, torrentes de recusa e de protesto atiradas contra o passado, contra a tradição, contra o pai. As novas gerações são solicitadas a manifestarem sua maioridade com a bofetada na mãe e a morte do Pai”...

“O mundo moderno, nos seus pruridos revolucionários, é anticristão porque é todo orientado por uma soberba rejeição do Pai. E para maior escárnio inventaram uma fraternidade revolucionária baseada na decapitação do Rei, já que não tinham à mão a própria cabeça do Pai que está no Céu.” 2

No advento das grandes Revoluções, o desprezo pela autoridade do pai era assunto dos salões e dos livros de filósofos iluministas; tornou-se lei quando os revolucionários ocuparam o poder; hoje está presente no ar que se respira e ocupou as almas de modo universal. Mesmo nas melhores famílias católicas, formadas em torno das Capelas tradicionais, reina este espírito de soberba que se manifesta pela completa autonomia de pensamento, de decisões e de gostos.

Jovens dos dois sexos, às vezes crianças, adultos e velhos, todos partem do princípio de que cada um tem sua opinião, que todos têm o direito de manifestá-la livremente, e que as tradicionais instituições reguladoras e orientadoras das almas: a família, a paróquia, a escola, já não podem mais se manifestar.

O amor-próprio manifesta-se, em primeiro lugar, na nossa inteligência, estabelecendo o reino da opinião. Seria útil que o leitor retorne à leitura de alguns capítulos do livro A Descoberta do Outro, onde Gustavo Corção explica o processo da opinião na alma humana. A inteligência fica cega e não consegue enxergar a verdade.

Em seguida, o amor-próprio age na nossa vontade inclinando-a a tomar decisões baseadas em suas próprias opiniões, causando equívocos e erros difíceis de serem revertidos.

Finalmente, o amor-próprio excita nossa sensibilidade, causando paixões exageradas que nos impedem de perceber o erro das decisões da vontade e o vazio da argumentação das opiniões.

Os prodígios do Anti-Cristo foram então oferecidos a esta geração, filhos do orgulho. Abriu-se para o homem atual grande quantidade de ferramentas modernas, digitais, suficientes para que a civilização da soberba se manifestasse de modo integral e completo. Esse ambiente generalizado de blogs e facebooks era tudo o que o homem dessa civilização precisava para vomitar suas opiniões sobre tudo e sobre todos.

Não há mais regras, não há mais leis, não há mais espírito de obediência ou de humildade. Cada um encontra em sua casa, em sua vida, no trabalho ou na condução, o meio de estar conectado em tempo integral, ocupando sua mente e seus interesses com o mais superficial, raso e vazio oceano de mediocridades. Sente o prazer irresistível da força fictícia e enganadora, da aparência de autonomia de pensamento, de liberdade de escolhas, de impressão de erudição, falsa cultura de uma alma inebriada do seu próprio nada.

Trazemos um exemplo marcante ocorrido recentemente no ambiente da Tradição e que ainda incendeia as almas. Advertimos o caro leitor para o fato de não estarmos ocupados com o mérito da questão, mas tão somente com o método adotado pelo homem do orgulho e da soberba no caso vertente. Pela primeira vez desde a sua fundação, a Fraternidade São Pio X atravessou uma crise interna sem ter conseguido guardar um único segredo. Diante da exposição constante na internet, dos mais sigilosos documentos, se enganaria o leitor que imaginasse a existência de um sussurro que fosse, soprado ao pé do ouvido, e que não tivesse sido revelado. Não houve. Como se a casa de Monsenhor Marcel Lefebvre tivesse virado um botequim ou uma rua de vila, tornou-se proibido guardar segredo; uma espécie de “permissão” parecida dada para que cada um tirasse suas conclusões apressadas, totalmente fora do alcance de qualquer autoridade sobre esta terra, e mesmo no céu.

Não é difícil entender por que este ano ficou famoso pela enxurrada de falsos doutores, cada qual ocupado na estranha tarefa de tornar pública e notória sua própria opinião, exposta na vitrine da internet de blogs e facebooks. Em cada um desses casos não se encontra nenhum vínculo verdadeiro com uma autoridade qualquer. Ei-lo o homem pós-moderno, o homem sem limites, sem leis, sem freios. Desembestou pelas ladeiras e curvas desse mundo e já não consegue mais parar. Em algum lugar será encontrado meio morto, levado pela fúria do seu falso saber, enganado por suas próprias decisões. E quando um anjo se aproximar, ouvirá da sua boca cheia de terra, num último sorriso, a confissão do seu pecado: “eu sou um gênio”.

A alma que se conhece a si mesma se humilha. Nada vê, com efeito, de que possa se orgulhar. Ela alimenta dentro de si o doce fruto de uma ardente caridade, conhecendo nela a bondade sem limites de Deus.” (Santa Catarina de Sena, Carta ao Papa Gregório XI)

A humildade recomenda a pequenez dos meios, sem recomendar a pequenez dos fins. Quanto aos fins, é tão magnânima como a magnanimidade. Santa Teresinha do Menino Jesus escolheu a pequena Via, porque queria ir mais longe e mais alto” (Gustavo Corção, Dois Amores Duas Cidades, Vol. II, parte I, cap. 3, pag. 109-110)

 

(Editorial da Revista Permanência 268)

  1. 1. Agir, Rio de Janeiro, 1967. Vol. II, Parte II, cap. IV, pág. 172-173
  2. 2. Gustavo Corção, artigo O Quarto Mandamento, Revista Permanência nº 59, set. 1973, pág. 11

Não deixe o sal perder a sua força (Editorial)

EDITORIAL Nº 266

Uma das características mais importantes de uma instituição é sua fidelidade à idéia mestra que definiu sua fundação e sua linha de pensamento. Se os reponsáveis por uma empresa, por um projeto qualquer, ou por uma ordem religiosa, variassem a cada passo na finalidade que determinou aquela reunião de homens, ela jamais poderia perdurar no tempo, pois seus membros não saberiam em que direção estariam caminhando.

É nesse contexto que devemos entender aquela palavra que atribui à santidade dos fundadores das grandes ordens religiosas a perseverança delas ao longo dos séculos. Comparem a existência da Ordem de São Bento, dos Franciscanos ou dos Dominicanos, com qualquer empresa moderna. Enquanto aquelas gloriam-se por permanecerem idênticas na sua essência, ao longo de quinze séculos (S. Bento) ou setecentos outros (S. Francisco e S. Domingos), basta uma empresa qualquer alcançar vinte e cinco ou cinqüenta anos para se considerar tradicional e cheia de experiência. E de fato assim é, se considerarmos o mundo sempre cambiante e ondulante em que vivemos.

A Permanência não é uma ordem religiosa, mas tampouco é uma empresa comercial. Apesar de termos como objetivo a difusão da doutrina católica tradicional e, a partir dela, a resistência aos erros do último Concílio do Vaticano, algo mais do que a doutrina nos une. Em torno de Gustavo Corção criou-se na Permanência uma família que se caracteriza por um espírito sobrenatural que vai muito além da sã doutrina. Algo de difícil definição e delineamento, mas real e pessoal.

Esse espírito nasceu das aulas e escritos de Gustavo Corção. Ali era transmitido, como de pai para filhos, certo posicionamento diante das coisas de Deus e da sua Igreja que poucas vezes se encontra pelo mundo. Alguns dos nossos jovens tiveram a oportunidade de ver como os franceses da Tradição, nos anos 1980, chegavam nos mosteiros ou no seminário conhecendo latim, grego e Sto Tomás de Aquino. Mas bastava um acontecimento mais grave e polêmico surgir no âmbito da crise da Igreja ou da política internacional, para se perceber que aqueles rapazes não tinham recebido em sua formação o sensus fidei necessário para um julgamento sobrenatural reto e certeiro.

Quanto tempo se perde a ler e estudar coisas irrelevantes que mais se aproximam da curiosidade do que da formação católica! Quantas vezes ouvimos, nas aulas de Gustavo Corção, o mestre simplesmente ignorar algum assunto proposto por um de seus alunos, mostrando em duas palavras o porquê de não podermos perder tempo com aquilo. Ao mesmo tempo, nas situações mais difíceis e delicadas, com que genial simplicidade ele mostrava a solução teológica mais exata, sempre voltada para a salvação das almas e com um aspecto constante: de fácil compreensão, pois Corção era, realmente, um animal-professor, como ele próprio gostava de dizer.

Um dos pontos em que esse espírito sobrenatural aparece de modo impressionante é na compreensão a que ele chegou sobre a natureza da crise que submerge a Igreja Católica no cataclisma atual. Desde cedo ele entendeu que estava em jogo muito mais do que os aspectos diversificados e pontuais comentados pela maioria dos defensores da Tradição. Via a importância de se defender a missa contra a revolução protestante emanada de Vaticano II, ou de se criticar as edições absurdas das Biblias modernistas, ou ainda os catecismos heretizantes produzidos pelas Conferências Episcopais com o aval da Roma modernista. Porém seu espírito aguçado exigia de si mesmo e dos seus alunos a compreensão exata sobre a natureza da crise: é a essência do catolicismo que está ameaçada. Porque “se o sal perder a sua força, para que servirá?” 1

Parece-nos importante levar ainda mais adiante a nossa lembrança dos princípios do nosso fundador quanto à crise da Igreja e, para tanto, transcrevemos aqui o artigo “A Descoberta da Outra”, de 1977, na íntegra. Pedimos especial atenção dos nossos leitores aos termos precisos usados por Corção para definir a crise pelo que ela tem de esssencial e que aparecem logo nos primeiros parágrafos. São eles que nos servem ainda hoje para a posição da Permanência diante da crise que perdura:

Um leitor que se diz assíduo, numa longa conversa telefônica, estranhou o pós-conciliar. O leitor entende o termo como se significasse a mesma Igreja Católica, na era pós-conciliar. Bem sei que nesse período conturbado continua a existir, na terra, a Igreja Católica dita militante. Ora, minha sofrida e firme convicção, tantas vezes sustentada aqui, ali e acolá é que existe, entre a Religião Católica professada em todo o mundo católico até poucos anos atrás e a religião ostensivamente  apresentada como "nova", "progressista", "evoluída", uma diferença de espécie ou diferença por alteridade. São portanto duas as Igrejas atualmente governadas e servidas pela mesma hierarquia: a Igreja Católica de sempre, e a Outra. E note bem, leitor: quando acaso der a essa outra o nome de Igreja pós-conciliar não quero de modo algum insinuar a infeliz idéia de que, após o Concílio, a Igreja de Cristo se teria transformado a ponto de tornar-se irreconhecível, devendo os fiéis de bem forma­da doutrina católica acreditar nessa nova forma visível da Igreja, por pura disciplina, ainda que a maioria das pregações e dos novos ensinamentos sejam ostensivamente diversos e as vezes opostos à doutrina católica. Não! A Igreja Católica e Apostólica continua a existir na era pós-conciliar, submetida a duras provações, mas sempre permanente e fiel guardiã do depósito sagrado.

Se o leitor me perguntasse agora quais são as essenciais diferenças que separam as duas religiões, eu responde­ria: diferença de espírito, diferença de doutrina, diferença de culto e diferença moral. Como terei chegado a tão assustadora convicção? Com muito sofrimento e muito trabalho, são milhares os católicos que chegaram à mesma convicção.

Começamos por confrontar os novos textos, as novas alocuções, as novas publicações pastorais com a doutrina ensinada até anteontem. A começar pelos textos emanados dos mais altos escalões, citemos alguns daqueles que mais dolorosamente e mais irresistivelmente nos levaram à conclusão de que se inspiram em outro espírito e se firmam em outra doutrina. Entre os textos conciliares, citamos os seguintes: Constituição Pastoral sobre a Igreja e o Mundo Atual (Gaudium et Spes); Decreto sobre o Ecumenismo (Unitatis Redintegratio); Declaração sobre a Liberdade Religiosa (Dignitatis Humanae); Discurso de Encerramento do Concílio, 7 de Dezembro de 1965; Institutio Generalis do Novus Ordo Missae: Ponto 7 (na primeira redação, de 1967, e principalmente a segunda redação de 1970). Além desses documentos dos mais altos escalões, poderíamos encher as páginas deste jornal com obras e pronunciamentos de cardeais, arcebispos, bispos e padres que eram bisonhos, retraídos e discretos quando tinham vaga consciência de suas deficiências filosóficas e teológicas e que subitamente descobrem que na "nova Igreja" podem dizer tudo o que lhes vem à boca que fala ou à mão que escreve. O que menos se conhece é a Teologia, mas o que mais abunda na Nova Igreja são os "teólogos da libertação".

Devemos dar especial atenção aos pronunciamentos das Conferências Episcopais que rarissimamente dizem coisa parecida com a Santa Religião ensinada por Jesus Cristo. Basta prestar atenção, ler, e comparar toda a prodigiosa logorréia dos reformadores com o que já lemos dos santos doutores, dos santos Papas, e de toda a Tradição católica. Eles não falam a mesma língua de nossa Mãe Igreja, não usam o mesmo léxico, não seguem o mesmo espírito. Evidencia-se com brutalidade dolorosa o fato de ter sido a Igreja invadida, ou de ter se deixado seduzir pelos mesmos inimigos que combatia. Uma das notas mais características do novo espírito é a da tolerância erigida em máxima virtude, e o correlato horror por qualquer espécie de luta ou combate. Os novos levitas corrompem a juventude, destroem as famílias, mas quando alguém ergue a voz pedindo punição severíssima para os seqüestradores e para os traficantes de drogas, logo começam a esganiçar gritinhos: Violência, não! Violência, não!

E aqui encerro a concisa resposta que dou ao leitor escandalizado: foi a atenta observação desses fatos, foi a paciente leitura de himalaias de mediocridade e foi a comparação gritante entre o que ensinam e o que ensinaram os santos, e creio que foi principalmente a graça de Deus certa­mente pedida cada dia, cada hora, nessa especial e gravíssima intenção, que nos levaram a essas conclusões. Se é preciso usar o recurso dos gritos que tanto usam hoje, gritarei eu também, e não esconderei a reação que tive em 1965 após a primeira leitura da Constituição sobre a Sagrada Liturgia: corri ao telefone do amigo mais próximo já chorando, já engasgado de soluços que me sacudiam o corpo todo. E gritei: eles estão loucos! Eles estão loucos! E mais não digo.

Vejo em seguida nos meios católicos um dilúvio de calamidades pavorosas. Nas melhores famílias católicas, tradicionalmente católicas, os jovens, pervertidos pelos professores de colégios católicos, se transformam em anormais, comunistas, criminosos seqüestradores, ou em inutilizados toxicômanos. Meu Deus! Como pode? Como pode? Como Pode? O mistério da permissão divina nos traz vertigens quando pensamos em tantos bons pais tão terrivelmente atingidos.

Mas quando pensamos que a crise de costumes que dissolve todos os valores morais de uma civilização é principalmente gerada pela impiedade e pelo orgulho dos homens, que reivindicam todas as liberdades e todos os direitos; e principalmente quando pensamos que é exatamente nessa hora sombria que os homens de Igreja julgam ter feito uma descoberta muito inteligente, e muito oportuna – a de se abrir para o mundo e até a de nele procurar inspirações para o novo humanismo que apregoam – então, com temor e terror, pensamos que a misteriosa permissão divina, já nos foi profeticamente revelada na Sagrada Escritura, e durará até o dia em que os homens descobrirem apavorados que desprezaram Deus, que contrariaram Deus, que se riram de Deus. E, nesse dia de espantosa desolação descobrirão "que não passam de homens" e que só Deus é o Senhor.

Neste ponto da entrevista, o leitor me faz uma pergunta muito séria e de importância capital:

— Qual é, na sua convicção, o traço principal, o conteúdo essencial dessa Outra religião que o senhor vê nos re­cintos da Igreja Católica?

— Mais uma vez insistido neste ponto: a desordem que se observa nos meios eclesiásticos e que produz tais malefícios, não pode  ser apenas uma pura desordem. A desfiguração da Igreja do Verbo Encarnado, isto é, da religião do Deus que se fez homem, tem uma figura: a da religião do homem que se faz Deus. Essa é a figura da desfiguração.

— Não foi o próprio Papa Paulo VI quem disse no discurso de encerramento do Concílio que "a Igreja de Deus que se fez homem encontrou-se no Concílio com a religião do homem que se faz Deus"?

— Exatamente. E se o amigo continuar a atenta leitura desse documento, se convencerá de que não exagero nem me perco em fantasias se lhe disser que a figura essencial da Outra é a de um humanismo que se torna uma nova religião que difere do cristianismo por seu desolado naturalismo, isto é, pela ausência da mais bela de todas as obras de Deus – a ordem da graça e da salvação.

Eles tentam disfarçar a chatice e a tristeza sinistra e feia, com retalhos de cristianismo sem vida  mas a anemia profunda do corpo sem sangue está na visibilidade da Outra que só serve para eclipsar a Santa Visibilidade da Igreja de Cristo.

— E como poderá a Igreja Católica desembaraçar-se desses equívocos e voltar a ser  visível, dourada, um pouco mais hoje, um pouco menos amanhã, mas sempre anunciando aos homens, aprisionados no efêmero, um Reino que não é deste mundo?

— O senhor espera ainda ver neste mundo a Igreja Militante em todo o seu esplendor?

— Não. A desordem é profunda demais e chegou aos vasos capilares dos membros da Igreja. Se ela não fosse obra sobrenatural de Deus eu diria, em termos usados pelos físicos, que a desordem é sempre prodigiosamente irreversível.

E, no caso, a improbabilidade de tal recuperação seria ex­pressa por números espantosos como dez elevado a menos mil (10-1000) que, na verdade, não exprimem nada. Não são números concretos nem entes de razão; quando muito diríamos que só são entes de giz no quadro negro. Emile Borel dizia francamente que, diante de tais improbabilidades, é melhor dizer simplesmente que são impossíveis. Mas nós aqui estamos  falando da mais maravilhosa das obras de Deus:

"Deus qui humanae substantiae dignitatem mirabiliter condidisti, et mirabilius reformasti"

E o que a nós parece impossível, é possível para Deus. Mas nossa esperança teologal não nos obriga a esperar acontecimentos neste mundo. No ponto da vida em que me acho, só posso esperar, pela misericórdia de Deus e pelo Sangue de Cristo, a felicidade de ver brevemente a Igreja do Céu em toda a sua beleza eterna e fora do alcance dos flagelos humanos.

E é a alegria dessa esperança teologal que, nestes dias de transição desejo aos meus leitores e companheiros de trabalho.

A Permanência aprendeu de seu fundador a manter-se sempre igual, pacifica e fiel, profundamente ligada à vontade de Deus segundo critérios de fé sobrenatural, ou seja, da adesão devida ao Mistério de Deus, verdade primeira, e que se declara e manifesta pela profissão de fé católica, mesmo nos momentos mais confusos e nebulosos que nos foi dado viver. Devemos permanecer nesses princípios se pretendemos continuar sendo a Permanência de Gustavo Corção, de Julio Fleichman e dos demais mestres que nos precederam.

*

Por outro lado, o fundador da Permanência deu à nossa instituição um exemplo de constante aplicação dos princípios da Lei Natural, iluminados pela fé, à coisa política da nossa Pátria. Porque também no governo dos povos a verdade precisa estar em primeiro lugar.

Por causa dessa verdade, Gustavo Corção viu no movimento militar de 1964 a reação espontânea do povo brasileiro contra a implantação forçada do regime comunista em nossas vidas. Foram as mulheres católicas, com panelas vazias em uma das mãos e o Terço na outra, que forçaram nossos militares a cumprirem seu dever cívico de defesa da Pátria. Por um milagre da Virgem padroeira do Brasil, nossos soldados expulsaram os inimigos do povo sem um único tiro, sem massacres ou guerra civil. Protegeram a população contra a guerrilha urbana dos esquerdistas, que matavam civis inocentes sem piedade, e até mesmo seus próprios companheiros de milícia, quando isso lhes interessava. Raramente o povo brasileiro passou por momentos de perigo no combate à luta armada comunista. E isso, graças aos cuidados extremos dos nossos generais. Quem viveu nessa época sabe que a população vivia em paz; quem tinha a temer eram os terroristas ou os ideólogos de carteirinha.

Porém hoje, após oito anos do governo Lula, com seu romantismo quase beato em favor de um comunismo adocicado, os antigos guerrilheiros assumiram o controle do nosso país, gente perversa, que está dando passos seguros no caminho de uma vingança pessoal contra aqueles que os derrotaram de modo tão brilhante e total.

Hoje o Brasil parece entregue a uma decadência certa, pois assistimos a elaboração de leis e à formação dessas “comissões” que nada mais são do que instrumentos paralelos para estabelecer uma máquina comunista no Brasil. Como sempre, pelo voto.

Política Econômica: O governo só enxerga a curto prazo e, nesse caso, está completamente desconectado da realidade: busca fazer o país crescer estimulando artificialmente o consumo. Ora, isso não tem como dar certo: todo chefe de família sabe que, se em sua casa começarem a gastar demais, logo toda a família estará atolada em dívidas e terá de apertar os cintos. Hoje as estatísticas demonstram que é recorde o endividamento dos brasileiros: em média, 20% do que ganham vai para o pagamento de dívidas. Imagine o que ocorrerá quando todo o país tiver de apertar os cintos!

Código Florestal: Verdadeira paródia de um conto para crianças, aqui também há vilões, heróis e uma linda mocinha em perigo. A mocinha é a natureza. Os anti-heróis são os estudantes, celebridades e jornalistas. Os vilões, na visão deles, são os homens do campo. É um enredo curioso porque no caso, os "homens de cidade" seriam os amantes e defensores da natureza; os "homens do campo", os que se dedicam e cultivam a terra, seriam os seus inimigos. O objetivo dos “heróis”, portanto, é impedir a ação dos “maus”: por trás da campanha "Veta Dilma" está a concepção ambientalista, que subverte o objetivo do negócio rural: ao invés de ser a produção racional, passa a ser a preservação das matas. Essa história não tem final feliz, porque paralisa o país, impedindo o desenvolvimento da produção agrícola.

Comissão da Verdade: A ironia dessa comissão é ter sido criada por uma presidente que, ela própria, dissimula sua participação em crimes do período militar (como guerrilheira). Nenhum membro escolhido busca a verdade nos fatos, mas apenas na ideologia. Apesar da Lei de Anistia, os esquerdistas não descansam enquanto não conseguirem sua vingança pré-programada; martelam nessa mesma tecla até que as amarras jurídicas caiam e a vingança possa ser executada.

Além desses pontos, a política atual está minando toda a integridade que ainda restava no povo brasileiro. Vão forçando e insistindo até que conseguem seu intento. Por isso preparam-se para novas tentativas de desarmamento, para novas leis favoráveis ao aborto, para liberar o porte de drogas e de destruição da família brasileira. Os espantalhos vão sendo espalhados pelo Brasil de modo a assustar a todos, tirando do povo simples e dos mais bem formados, qualquer poder de reação.

Hoje já não há mais o Exército Brasileiro capaz de combater esses vingadores derrotados de outrora. Por outro lado, não há mais a Igreja Católica capaz de conduzir a sociedade aos atos morais necessários para que se mantenha a paz e a harmonia entre os homens. Nem mesmo políticos há, que se oponham de modo verdadeiro ao lixo de uma esquerda retrógrada.

Pela Igreja e pela Pátria, peçamos a Nossa Senhora Aparecida que nos proteja dos nossos inimigos, enquanto nós tratamos de seguir os passos firmes de Gustavo Corção.

(Revista Permanência, 266)

  1. 1. S. Mateus, 5, 13.

Revista Permanencia 271

ÍNDICE DA REVISTA (271 - Depois de Pentecostes 2013)                        163 págs

(Editorial) Ephpheta! Dom Lourenço Fleichman
O Progresso Espiritual Pe. Ambroise Gardeil, O.P.
O Discernimento dos espíritos Pe. Garrigou-Lagrange O.P.
Cântico dos cânticos Pe. José Maria Mestre
Comentário ao Salmo 6 Santo Tomás de Aquino
São Bento e o Espírito Romano Dom Lourenço Fleichman
Problemas da educação moderna Pe. Hervé de la Tour
Os mártires irlandeses do século XVI Matthew Bruton
O Futuro da Inteligência Gustavo Corção
Livro: Gustavo Corção Tomista Fernando Prado
Livro: Le Prix à Payer Alexandre Bastos
Calendário litúrgico  
   

Revista Permanência 294 - Tempo de Pentecostes 2019

Revista Permanência 294 - 181 páginas

(Editorial ) A mentira muitas vezes repetida Dom Lourenço Fleichman
De La Salette a Fátima - Parte 1 Luiz Carlos Ramiro Junior
Tolice maléfica Alexandre Salles
Intrinsecamente perverso Mouvement de la Jeunesse Catholique
As guerras dos cristeiros Mouvement de la Jeunesse Catholique
Os mártires de Espanha  Mouvement de la Jeunesse Catholique
Mártires na U.R.S.S. Mouvement de la Jeunesse Catholique
Reavivamento do Marxismo no Ocidente Luís Roldán
O Liberalismo é pecado - parte II Pe. Sardá y Salvany
A Cruz dos militares Alex Duarte e Marco Antônio 
Nihil sub sole novum - Magistri Prof. André Alonso

 

 

Revista Permanência 266

Revista Permanência 266 - 160 páginas

(Editorial) Não deixe o sal perder a sua força Dom Lourenço Fleichman
A Caridade e as bem-aventuranças Garrigou-Lagrange
A guerra da Vendéia Jean de Viguérie
Comentário ao salmo 3 Santo Tomás de Aquino
O Sermão da Última Ceia - 2a. parte Pe. José Maria Mestre - FSSPX
Dos costumes divinos Anônimo
A crise do latim Alexandre Bastos
Deus marcou um encontro conosco Gustavo Corção
Bach - Ritcher, alegria do Rio Antônio Hernandez

História da Polifonia sacra

Pe. Gustavo Camargo - FSSPX
Calendário litúrgico  
   

Índice da Revista Permanência 265

Revista Permanência 265 - 179 páginas

(Editorial) Entre martírios e abismos Dom Lourenço Fleichman
A perseguição religiosa no mundo islâmico Robert Spencer
Por que a Rússia? Dom Lourenço Fleichman
O dever de reparação Pe. Réginald Garrigou-Lagrange
O sermão da última ceia Pe. José Maria Mestre - FSSPX
Exercícios práticos para via sacra São Leonardo de Porto-Maurício
Comentário ao salmo 2 Santo Tomás de Aquino
Media Vita Pe. Luis Cláudio Camargo - FSSPX
Lições de Abismo Gustavo Corção

Entre a massificação da cultura
e a ampliação das elites

Antônio Hernandez
Recensão: a ilusão liberal Luiz de Carvalho
Recensão: sete mentiras sobre a Igreja católica Gabriel Galeffi

 

 

 

 

 

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