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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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História do Brasil (7)

Quando os ímpios tomam o poder

Alexandre Bastos

“Nunca antes neste país”

O Partido dos Trabalhadores foi fundado em 1980, três anos antes da CUT e quatro anos antes do MST. A fundação se deu no Colégio Sion, em um bairro de classe média alta de São Paulo e o manifesto de criação advogava a criação de uma “sociedade igualitária” sem “explorados nem exploradores” e a “democratização da sociedade em todos os níveis”[1], inserindo o partido na continuidade da tradição do marxismo brasileiro, gestado no período 1954-1964.

Entre os fundadores do partido, encontram-se vários ex-membros de organizações “subversivo-terroristas” como o José Dirceu (líder da Ala Marighella, futura Ação Libertadora Nacional), Fernando Pimentel e José Genuíno. Dilma Rousseff, do VAR-Palmares, foi membro-fundadora do PDT e só ingressaria tardiamente no PT.

No entanto, em que pese a influência de vários “ex-guerrilheiros”, a principal base do partido deve ser procurada entre os sindicalistas e no progressismo "católico"[2]. Diz um historiador:

“Em muitos locais as reuniões do PT se davam dentro da Igreja, como em Bebedouro (SP), onde o partido foi fundado no salão paroquial. Em Barretos (SP) o PT nasceu da ação de estudantes da Engenharia Civil, mas só se enraizou socialmente com o apoio da Pastoral da Juventude. Mas isto dependia exclusivamente do local”.

Outra citação:

“No Piauí a formação do PT se deveu à Igreja Católica (um padre italiano muito contribuiu, inclusive financeiramente)...

“No Acre (...) o PT foi fundado em 12 de março de 1980 e fortaleceu-se no campo apropriando-se da ação da Igreja Católica na organização dos seringueiros em sindicatos rurais.”

A influência dos católicos progressistas se estendida à própria organização do partido:

“Os núcleos do PT não eram uma herança das células comunistas e nem das seções socialistas. Em parte eles mimetizaram as CEBs e foram a expressão política de uma organização popular originalmente religiosa.”[3]

Desnecessário dizer que essa ala progressista estava muito distante do catolicismo verdadeiro, aquele que condenou muitas vezes pela voz dos papas as ilusões socialistas, com Leão XIII – que chamou a essa doutrina de “Peste mortal” (Quod Apostolici Muneris) – ou Pio XI – que declarou que “ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista” (Quadragesimo Anno). A oposição a essas doutrinas é tão formal, que um decreto do Santo Ofício de 1949, tratando da licitude de um católico frequentar os sacramentos após propagar ou publicar livros comunistas, responde taxativamente: “Negativo”.

*

Além da ala progressista da Igreja, havia o sindicalismo, cujo líder máximo era então o Luís Inácio Lula da Silva, responsável pela organização de centenas de greves na década de 1970 e 1980[4], até ser detido nas instalações do DOPS paulista, na época dirigida por Romeu Tuma, que declarou:

“Lula era o nosso melhor informante. [...] Lula nos prestava informações muito valiosas: sobre quando e onde haveria reuniões sindicais, quando teriam greves, onde o patrimônio das multinacionais poderia estar em risco por conta dessas paralisações.”[5]

Essas greves, nos diz Romeu Tuma, eram combinadas antecipadamente com os empresários e o agente “Barba” – como era conhecido – avisava o Dops. O objetivo seria o de aumentar o valor de venda dos veículos, para lastrear moralmente a ideia de que “vamos repassar aos preços dos carros o aumento de salário obtido pela categoria”.

Sobre o tempo que passou detido, escreveu o insuspeito Mino Carta:

“Prenderam Lula, para quem foi mal menor ter sido entregue aos cuidados do Tuma. Todo dia, uma perua da polícia vai buscar Marisa e os filhos e os traz para visitar o preso em uma grande sala anexa ao gabinete de Tuma [...] De vez em quando, lulas à doré preparadas em restaurante próximo são almoçadas pelo homônimo. Me animo a ligar para o Tuma, que não conheço, para solicitar uma visita ao presidente do sindicato. ‘Venha quando quiser’”[6]

 Não se tratava de uma prisão, e sim de uma hospedagem!

*

Curiosamente, essa composição do partido fez com que ele não fosse bem-visto inicialmente pela esquerda mais purista, que o acusava de ser “a ideologia do golpismo”. Disseminava-se a ideia de que o partido fora criado com incentivo do General Golbery com o intuito de dividir a esquerda.

No entanto, ao abrigar uma espécie de pluralismo no seio do partido do partido – consagrado no chamado “direito de tendências” – o PT conseguiu, pouco a pouco, aglutinar quase todo o espectro da esquerda. Com efeito, ao cabo de vinte anos, muitos partidos acabariam por se reduzir a satélites do PT.

Desde o início, o partido dependeu do fundo partidário e de contribuições estatutárias, pois era desprezível a contribuição dos afiliados. Cada parlamentar deveria destinar 30% dos seus vencimentos líquidos ao partido bem como ceder assessores para tarefas partidárias – aparentemente, os petistas não viam nenhum problema ético nesse estranho uso da coisa pública.

Do ponto de vista intelectual, a produção dos petistas se compunha de alguns periódicos, como o “Brasil Agora”, o “Jornal dos Trabalhadores”, o “Boletim Nacional”, o “PT Notícias” e o “Linha Direta”. Havia ainda algumas revistas como “Teoria e Política”, “Esquerda 21” e a “Revista Práxis”. É preciso mencionar ainda a Fundação Perseu Abramo, com a publicação de livros e promoção de eventos.

A evolução do partido é impressionante: já em 1982 elege os primeiros deputados; em 1985, Eduardo Suplicy concorre à prefeitura de São Paulo[7] – por essa época, o PT já tinha 10% de preferência partidária entre os eleitores; em 1988, elegeu prefeitos em 36 municípios, incluindo aí as capitais São Paulo, Porto Alegre e Vitória. O número de vereadores eleitos saltou naquele ano para 992; em 1989, Lula concorreu pela primeira vez à presidência – era a campanha “Lula lá” – conseguindo chegar ao segundo turno à frente de Leonel Brizola, perdendo de Collor por uma pequena diferença de votos.

Segundo o historiador do lulismo André Singer, o povo brasileiro é naturalmente conservador no sentido de que procura a “ordem”. Em 1989, Lula perdera principalmente nos estratos mais pobres da população, que votaram em Collor, percebido como a manutenção da ordem contra o baderneiro de esquerda – os mais pobres, aliás, eram os que demonstravam maior hostilidade às greves. Segundo um analista:

“No núcleo de apoio recebido por Lula nas suas quatro tentativas prévias de chegar à presidência, ocorridas entre 1989 e 2002, encontravam-se os eleitores com maior nível de escolaridade, concentrados principalmente nos estados mais urbanos e industriais do Sul e do Sudeste.”[8]

Só no ano de 2006 a base de eleitores de Lula da Silva mudará, mas não adiantemos.

Ainda sobre essa primeira década de vida do PT, duas informações importantes: quem entrar no site do PT verá uma linha do tempo indicando o “Movimento das Diretas Já” e a “Constituição de 88”. Na verdade, não foi o PT que deu início ao movimento das Diretas – e sim o PMDB, então preferido dos eleitores – nem apoiou a Constituição cidadã de 88, pois não lhe parecia revolucionária o bastante.

 

O Foro de São Paulo

O muro de Berlim caíra em novembro de 1989 e, dois anos depois, a União Soviética oficialmente terminava, dando início a um movimento de questionamentos e redefinições na esquerda mundial. Nesse cenário, os petistas pareciam trilhar dois caminhos opostos: moderação – para consumo externo, certamente, tendo em vista as necessidades eleitorais; e reafirmação dos ideais socialistas.

Lula por pouco não ganhara a eleição contra Fernando Collor, o poder parecia estar perto. Os dirigentes percebiam, no entanto, que não seria possível chegar ao Planalto sem uma renovação profunda do discurso. Os marxistas, avaliam, tinham um discurso coeso e atraente para o seu público de esquerda, mas faltava-lhes conteúdo programático, propositivo – não seria possível disputar uma eleição sem apresentar respostas a problemas concretos como o da inflação, por exemplo.

Esse problema também se veria nas eleições de 1994, quando Lula, com apenas 27% dos votos, perdeu no primeiro turno. Segundo Lincoln Secco: “Sem um discurso econômico convincente o projeto democrático e popular não passava de uma colcha de retalhos de boas intenções abstratas. O que o PT tinha era um conjunto de políticas sociais e o compromisso cada vez maior de evitar rupturas que afetassem a lucratividade do setor financeiro e uma vaga defesa do mercado interno de massas.”[9]

Para resolver essa questão, Lula criou o “Instituto da Cidadania”, e passou a ter uma atuação mais “à margem dos debates ideológicos internos”. Membros de outros partidos e economistas não alinhados com o PT histórico serão convidados a falar. José Dirceu procurará estreitar laços com o PMDB[10] e chegará a declarar ser “preciso abandonar a identidade com o socialismo real, ´aquele cadáver insepulto´”.

Importante ressaltar que não se tratava de uma renúncia aos princípios originais, mas de uma mudança de tática – era o surgimento do que André Singer chamou de “espírito do Anhembi”. Em outras palavras, tratava-se da transição de um “reformismo forte” – a favor da distribuição de terras, tributação do patrimônio de fortunas e grandes empresas, diminuição da jornada de trabalho etc. – para um “reformismo fraco”. O objetivo final mudara muito pouco, fora a decisão de manter a “ordem econômica” e de não entrar em choque com “o grande capital”, mas o meio de perseguir os objetivos se tornara mais sutil (e seguramente mais perigoso). O PT parecia aqui seguir a máxima de Lenin: “Confundir o inimigo e o público: esta é a tarefa, enquanto se faz o que deve ser feito”

Um efeito colateral dessa mudança no discurso foi a fuga da militância, que, desde então, se profissionalizou – ou seja, passou a ser remunerada. É o que diz um autor petista:

“O comparecimento da militância à rua foi substituído pelos cabos eleitorais profissionalizados e os grandes comícios de primeiro de maio trocados por shows com prêmios para o público (automóveis e casas). Foi nítida a diminuição deste espaço da política.

“A primeira reação do PT foi contratar pessoas até para fazer suas campanhas de rua. Era a terceirização da militância...”[11]

*

Em paralelo, o partido renovava o radicalismo. No ano de 1990, com o intuito de “recuperar na América Latina o que se perdeu no Leste Europeu”, Lula e Fidel Castro convocaram conjuntamente um encontro com todos os partidos e organizações comunistas-socialistas da América Latina e do Caribe. Esse encontro viria a ocorrer no mês de julho de 1990 na cidade de São Paulo – daí o nome Foro de São Paulo – e se repetiria, anualmente, por mais de duas décadas em diversas cidades latino-americanas.

O primeiro encontro se encerrou com a declaração seguinte: “Neste marco, renovamos hoje nossos projetos de esquerda e socialistas.” Além de diversos partidos de esquerda, participaram do Foro diversas organizações revolucionárias, tais como o Túpac Amaru, o MIR, a Frente Sandinista de Liberación Nacional e as FARC – o PT procuraria posteriormente ocultar do grande público a participação das FARC no Foro de São Paulo, por seu envolvimento com o narcotráfico. O Partido Comunista Cubano, naturalmente, também era membro.

É importante dizer que não se tratava de um convescote de velhos idealistas, pois o Foro tinha caráter prático, deliberativo, tomando decisões que deveriam ser acatadas, assinadas e postas em prática por todos os membros permanentes do foro – esse é um ponto extremamente grave.

Alguma das deliberações levaram à criação das comissões da “Verdade, Reparação e Justiça”, implantadas inicialmente na Argentina e, em seguida, no Chile e no Brasil, com o objetivo de transformar terroristas em heróis, propiciando-lhes gordíssimas indenizações até os dias de hoje.

Outra deliberação visava a complementação e compensação das diferenças das economias da região. Em português claro, os países mais ricos deveriam ajudar os mais pobres. Pode-se aqui perguntar se esse pensamento não está na origem da conivente passividade do governo brasileiro frente à expropriação da Petrobrás na Bolívia pelo presidente cocaleiro Evo Morales, ou na revisão antecipada e injustificada da tarifa paga pelo Brasil ao Paraguai pela energia de Itaipú[12], onerando o Brasil em 240 milhões de dólares ao ano desde 2011. Também podemos mencionar os empréstimos bilionários, em condições diferenciadas e sem qualquer lastro, às ditaduras de Cuba[13] e da Venezuela – que evidentemente não tinham condição de quitar a dívida. Esses países estão hoje inadimplentes e devem cerca de R$ 4 bilhões ao BNDES.   

Outras deliberações englobavam desde o apoio a pautas feministas até o posicionamento comum em face de questões geopolíticas. No entanto, nem tudo que era discutido e decidido é conhecido pelo grande público, sendo reservado ao núcleo duro da organização.

Quem financiava o Foro de São Paulo? Segundo Graça Salgueiro, estudiosa do Foro de São Paulo:

“Deve-se considerar como financiadores da organização, o que envolve Encontros, reuniões do Grupo de Trabalho que ocorrem em vários países quatro vezes ao ano, participações como observadores de eleições nos países membros etc, o próprio PT (hoje sabemos das ações bilionárias que estão em curso nas operações conjuntas do Ministério Público e Polícia Federal e que muito raramente são para proveito próprio), as FARC, os petro-dólares venezuelanos – da época de Chávez porque hoje a Venezuela está falida – e do mega-investidor George Soros, através de incontáveis ONG que pertencem e participam dos eventos.”[14]

 

A morte de Celso Daniel

As eleições de 1998 se aproximavam e, a ambiguidade anteriormente mencionada da reafirmação do radicalismo e da necessidade de um discurso eleitoral mais ao centro, encerrou-se rapidamente com a eleição de José Dirceu para a presidência do PT[15], que soube unificar o discurso do partido. Apesar de atacar o Plano Real na campanha eleitoral e ameaçar rever as privatizações, em especial a da Vale do Rio Doce, Lula adotava um discurso mais conciliador. De todo modo, com apenas 32% dos votos, o petista voltou a perder no primeiro turno.

Apesar da derrota, o PT vinha conseguindo avanços importantes, como foram as eleições municipais em SP para as prefeituras de Campinas, Ribeirão Preto e Santo André, cujo prefeito acabou morto em condições até hoje não inteiramente elucidadas.

Ora, em Santo André, município da região industrial do grande ABC[17], havia um esquema de propinas: cada uma das companhias de ônibus e de coleta de lixo era obrigada a fazer pagamentos mensais no valor de até R$ 200 mil reais (corrigido para os dias de hoje). Esse dinheiro destinava-se principalmente para o custeio de campanhas[18] – era a “propina altruísta”, no dizer dos petistas.

Os cofres do município eram um dos principais ‘propinodutos’ do projeto de poder do Partido dos Trabalhadores, assim como os das cidades de Campinas e Ribeirão Preto, todas em SP[19].

O Prefeito Celso Daniel não ignorava os achaques aos empresários, mas se indignava com o fato do seu pessoal reter parte da propina para o enriquecimento pessoal, numa espécie de “Caixa três” – idealista, o prefeito queria que os recursos fossem integralmente destinados a campanha eleitoral, e a de 2002 era muito importante para o partido. Urgia interromper o esquema porque o Ministério Público já estava no encalço e, faltando apenas nove meses para as eleições, ninguém queria problemas.

Dia 18 de janeiro de 2002, Celso Daniel foi ao seu restaurante favorito, o Rubayat, com um dos operadores do propinoduto, um ex-segurança e amigo seu apelidado de Sombra. Após o jantar, o prefeito seguiu no carro de Sombra até ser interceptado por um grupo de sequestradores oriundos da “favela do Pantanal” – ao que tudo indica, Sombra destravou as portas do carro, entregando o prefeito para os bandidos[20].

Celso Daniel foi levado para um barracão onde foi despido, torturado, alvejado com 11 tiros e jogado no meio da rua como um pano velho. O delegado Romeu Tuma disse que, quando encontrado, o cadáver trazia as mãos juntas: morreu implorando para que não o matassem.

Em pouquíssimo tempo, a polícia capturou os sequestradores, declarou que Celso Daniel fora vítima da violência urbana e deu o caso por encerrado. Segundo a versão oficial, os sequestradores não estariam atrás do prefeito, mas de outro empresário, que conseguira escapar. Frustrados, atacaram o primeiro carro que viram. Ao descobrir que haviam sequestrado o prefeito, tiveram medo da repercussão e, para não serem pegos, o assassinaram.

Ora, essa tese não para em pé: os bandidos se contradiziam a todo momento, não havia sinal da tal perseguição anterior mencionada, e nenhum deles sabia dizer que empresário seria esse. Por outro lado, se não sabiam que se tratava do prefeito, por que sequestraram apenas um dos passageiros do carro? Por que o torturaram? Para piorar, enquanto o prefeito estava preso, o “sombra” foi visto entrando sorrateiramente à noite na casa do sequestrado.

Nos meses seguintes, sete homens com algum envolvimento com o caso morreriam: o garçom do Rubayat, o legista, o investigador da polícia civil, o funcionário da funerária etc. Uma das mortes que mais chamou a atenção foi a de Dionísio Severo – líder dos sequestradores. Prestes a revelar tudo que sabia para o caso, foi conduzido, para sua proteção, para uma penitência de segurança máxima a 400 km de São Paulo. Foi morto poucos dias após sua chegada ao presídio, tendo recebido mais de 40 facadas.  

Uma aura de mistério ainda cerca o caso, mas é certo, como concluiu posteriormente a CPI dos Bingos, que Celso Daniel foi vítima de crime de mando.

Segundo alguns autores, uma das dificuldades da investigação veio do próprio PT, que agiu para estancar a tese de um crime envolvendo corrupção[21]. Afirmou Silvio Grimaldo:

“O delegado Hermes Rubens Siviero Junior (...) até tentaria mergulhar na investigação. Chegara a expedir um mandado de busca e apreensão no apartamento de Celso Daniel, à procura de roupas do prefeito, mas foi barrado especialmente pela ação do deputado petista Luiz Eduardo Greenhalgh, que recorreu à chefia da PF para impedir a ação”[22]

Romeu Tuma, por sua vez, fala na criação de “laudos fajutos”, sumiço de provas, destruição de escutas e pressão sobre os investigadores.

Os familiares de Celso Daniel não aceitaram a tese oficial da polícia e, ameaçados de morte – por quem? – tiveram de deixar São Paulo.

 

Paz e amor

O segundo governo FHC foi severamente impactado pela desvalorização cambial de 1999, a crise argentina de 2001 e o apagão no mesmo ano que, no seu auge, deixou 60 milhões de brasileiros sem luz. Tudo isso, somado à falta de empenho do presidente em eleger o seu sucessor, contribuiu para a vitória de Lula em 2002 contra o tucano José Serra[25].

“O combate à corrupção e a defesa da ética no trato da coisa pública serão objetivos centrais e permanentes do meu governo”, declarou comicamente o novo presidente, que encerrou o seu discurso de posse exclamando: “viva o povo brasileiro”!

Foi uma apoteose: a cerimônia, que durou três horas, foi dirigida pelo publicitário Duda Mendonça, e dezenas de milhares de pessoas foram para a Esplanada dos Ministérios assistir os shows de Gilberto Gil e da dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano, ou presenciar o presidente-operário a bordo do Rolls-Royce 1953 que usou para ir até o Congresso Nacional. O que então não se sabia é que parte dos gastos da festa estava sendo paga pelo publicitário Marcos Valério...

O Globo concedeu mais de uma dúzia de páginas ao evento, a chamada de capa do jornal dizia: “Lula assumirá pregando conciliação”. Na capa do Estadão, lia-se: “Vamos mudar, sim. Mudar com coragem e com cuidado”. Já a Revista Veja estampava na capa os dizeres: “Lula de mel”, e iniciava a reportagem com o clichê: “Um dia para a história”. Os jornalistas perdiam a compostura: “O povo esteve no centro da cena como em nenhuma outra posse”, escrevia Tereza Cruvinel. No O Dia, Frei Beto era ridículo: “Obrigado, dona Lindu, por ter dado ao Brasil um presidente com capacidade de liderança, transparência ética e profundo amor ao povo [...] O Brasil merece este fruto de seu ventre: Luiz Inácio Lula da Silva”

*

O início do governo parecia seguir à risca as palavras de José Sarney: “governar é como tocar violino, você assume com a esquerda e toca com a direita”. Com efeito, inicialmente, Lula procurou se desvencilhar da imagem de sindicalista que fizera com que, às vésperas das eleições, o risco brasil disparasse e o dólar alcançasse algo em torno de R$12,50 (corrigido para valores de hoje)[26]. O primeiro movimento nesse sentido, antes mesmo da eleição, foi a “Carta ao Povo Brasileiro”, redigida a muitas mãos, contendo uma série de defesas à segurança jurídica, respeito aos contratos e ao tripé macroeconômico (superávit primário, câmbio flutuante e metas de inflação)[27].

Não houve aqui nenhum “estelionato eleitoral”, como ocorrerá anos mais tarde na reeleição de Dilma Rousseff. Lula preservou imagem favorável junto ao mercado seguindo um posicionamento que poderia ser descrito como uma continuidade e mesmo um aprofundamento do projeto neoliberal de seu antecessor. Para tanto, nomeou o ex-diretor do Bank Boston Henrique Meirelles para o Banco Central e, para o Ministério da Fazenda, não optou por nenhum dos quadros do PT responsáveis pelo programa econômico das eleições disputadas anteriormente, mas o ex-prefeito de Ribeirão Preto, Antônio Palocci, que procurou se cercar de nomes mais à direita, como o do economista Marcos Lisboa[28]. Nos primeiros meses do governo, a taxa de juros foi aumentada, assim como a meta de superávit primário (que passou para 4,25%), e foi anunciado um enorme corte do orçamento público, de 14 bilhões de reais. Algumas reformas importantes foram realizadas, como a da previdência do funcionalismo[29] – que Lula levou pessoalmente ao Congresso – a reforma do crédito e a do setor imobiliário[30].

Naqueles anos, a conjuntura não poderia ser mais propícia: ao longo do seu primeiro mandato, a economia mundial crescia a uma taxa média anualizada de 3,9% e vivia-se o chamado “superciclo das commodities”[31], causado pela demanda crescente da China e outros emergentes, beneficiando fortemente o Brasil e outros exportadores de matéria prima. A balança comercial agrícola no período disparou: passou de 19,9 bilhões de dólares em 2003 para 34 bilhões em 2006. Não fosse tudo, o período foi marcado pela redução das taxas de juros em todo o mundo, estimulada pelo banco central norte-americano[32], o que beneficiou todos os emergentes.

Era o cenário ideal para seguir com a promoção das reformas de que o país tanto necessitava, mas aparentemente o PT tinha outros planos...

O ano de 2003 foi um ano relativamente morno no noticiário político, mas, nos bastidores, a máquina pública era completamente aparelhada. No Planalto, o Ministro da Casa Civil, José Dirceu, corria para fazer tantas nomeações quanto pudesse para cargos de confiança – foram quinze mil em apenas oito meses[33]. No Rio de Janeiro, a maior empresa do país era tomada pelos sindicalistas:

“Nunca em sua história a Petrobras havia realizado tantas substituições de cargos de segundo, terceiro e quarto escalões como aconteceu a partir de 2003. Embora fossem funcionários da companhia, muitos dos gerentes nomeados por recomendação de sindicatos e legendas partidárias eram desconhecidos de suas equipes. Dedicavam-se a atividades políticas havia anos. Não tinham subido degrau a degrau, ocupando as funções mais baixas de chefia até chegarem ao cargo a que foram catapultados subitamente. Boa parte também tinha formação de nível médio, incompatível com os cargos ocupados, pelo menos considerando a prática da companhia até então. O plano de carreira da estatal foi totalmente subvertido.”[34]

O nível de intervenção na Petrobrás foi tal, que chegou a ser nomeado para a Estatal um sindicalista apelidado de “o homem da lista”, encarregado de validar a indicação de nomes para os postos da empresa. Caso o indicado fosse considerado um “inimigo dos trabalhadores”, seu nome era vetado, independente de quem o tivesse recomendado.

Infelizmente, as substituições não se limitaram aos escalões inferiores: os personagens centrais do chamado “Petrolão” – o maior esquema de corrupção da história do país – foram nomeados já nos primeiros meses do governo.

*

Os dois primeiros anos do governo Lula foram marcados por uma série de polêmicas e escândalos. Apresentamos a seguir uma lista não exaustiva:

  • A primeira denúncia de mal uso do dinheiro público surgiu já nos primeiros cem dias do novo governo, envolvendo a Ministra Benedita da Silva[35].
  • Denúncia de que o PT negociara a compra do apoio do PTB por R$10 milhões de reais[36].
  • A polêmica compra do chamado “AeroLula”.
  • O escândalo Waldomirio Diniz, onde o principal assessor de José Dirceu foi flagrado pedindo propina para o PT a um bicheiro.[37]
  • A “Operação Vampiro”, com o objetivo de desmantelar uma quadrilha que fraudava compra de remédios, e cuja ação fraudulenta causou prejuízo superior a R$2 bilhões.
  • Denúncia de nova “compra” de partido. Dessa vez, a vítima seria o PSDC em Osasco que teria sido “adquirido” por R$ 500 mil pelo PT que, aparentemente, tomou gosto pelo processo.

 

Ademais, 2004 era ano de eleição e os gastos do PT alcançaram a astronômica cifra de R$100 milhões. Ninguém sabia explicar de onde vinha tanto dinheiro, visto que PSDB, PMDB e PFL somados não dispunham de tanto. Em São Paulo, para a campanha de Marta Suplicy, quatro mil cabos eleitorais iam de casa em casa para panfletar.

Além disso, um personagem até então desconhecido rodava as ruas de Brasília. Como escreveu Gérson Camarotti:

“Delúbio Soares [tesoureiro do PT] mudou, da noite para o dia, sua forma de vestir e seus hábitos alimentares. Passou a beber vinhos e uísques caros, e a circular por Brasília com um forte esquema de segurança: ´Ele usava, em várias ocasiões, batedores e carros blindados para se locomover. O esquema de segurança era parecido com o de chefes de Estado. Além de dispor de pelo menos dois batedores de motocicletas, o tesoureiro usava carros-clones.”[38]

Tudo isso, no entanto, era mero prelúdio para o que estava por vir.

 

O mensalão

Segundo a Procuradoria Geral da República, o mensalão “foi o mais atrevido e escandaloso caso de corrupção, de desvio de dinheiro público flagrado no Brasil”.

O ex-ministro Celso de Mello foi ainda mais contundente:

“Estamos a tratar de uma grande organização criminosa que se constituiu à sombra do poder fomentando medidas ilícitas que tinham por finalidade a realização de um projeto de poder. Estamos a tratar de uma hipótese de macrodelinquência governamental.”

A singular gravidade do mensalão está em ter sido, nas palavras do historiador Marco Antônio Villa, “uma verdadeira tentativa de tomada de Estado” – um “golpe”, segundo Ayres Britto – envolvendo não apenas financiamento de campanhas eleitorais, mas um balcão de compra de votos no Congresso. Por meio do desvio de dinheiro público – e recursos privados adquiridos em troca de benefícios espúrios – o governo Lula comprava apoio de deputados para aprovar leis de seu interesse.

O deputado Roberto Jefferson foi o “whistleblower”, fazendo a denúncia numa entrevista, que se tornou célebre:

“Um pouco antes de o Martinez morrer, ele me procurou e disse: "Roberto, o Delúbio [Soares, tesoureiro do PT] está fazendo um esquema de mesada, um "mensalão", para os parlamentares da base. O PP, o PL, e quer que o PTB também receba. R$ 30 mil para cada deputado. O que você me diz disso?". Eu digo: "Sou contra. Isso é coisa de Câmara de Vereadores de quinta categoria. Vai nos escravizar e vai nos desmoralizar". O Martinez decidiu não aceitar essa mesada que, segundo ele, o doutor Delúbio já passava ao PP e ao PL"[39].

A repercussão foi imensa e, em poucas semanas, o poderoso ministro José Dirceu caiu.

O esquema do Mensalão se dividia em três núcleos: o financeiro (composto por empresas públicas e privadas), o operacional (composto por empresas de publicidade) e o político (deputados e membros do Planalto). Por meio de empréstimos simulados, uns R$350 milhões em valores de hoje foram distribuídos a políticos nas vésperas de votações importantes para o governo.  

O senador Arthur Virgílio fez na ocasião um violento ataque ao presidente da República, que afirmava desconhecer o esquema que lhe beneficiava diretamente:

“Vamos acabar também com essa história de que o sr. Lula não sabe de nada. Até o meu filho de dez anos sabe! Ou ele é um completo idiota, ou o sr. Lula sabe de toda a corrupção que se passou debaixo do seu nariz”. E continuava: “Na melhor das hipóteses, sr. Lula, o senhor é um idiota! Na melhor das hipóteses! Na pior, o senhor é um corrupto!”

O presidente não foi denunciado pela Procuradoria Geral da República. No entanto, Corrêa Barbosa, advogado de Roberto Jefferson, declarou o seguinte, perante a Suprema Corte:

“Se o presidente da República só poder ser julgado pelo STF, peço que esse tribunal cumpra a lei e que o procurador chame o presidente Lula para esta Corte, porque ele é o mandante de todo esse crime.”[40]

E Marcos Valério posteriormente declararia: “Não podem condenar só os mequetrefes. Só não sobrou para o Lula porque eu, o Delúbio [Soares] e o Zé [Dirceu] não falamos”[41].

*

Foi um ano complicado para o governo. Não bastasse a grave denúncia do mensalão, estourava o escândalo da Gamecorp. Empresa de Fábio Luís Lula da Silva, o “Lulinha”, que recebera a soma inexplicável de R$5 milhões da Telemar. Ora, a empresa do filho do presidente tinha capital social de apenas R$200 mil e era deficitária. Para piorar, longe de ser um empresário de sucesso, “Lulinha” era monitor de zoológico.

Veio em seguida o escândalo do irmão de José Genuíno, então presidente do PT, preso no aeroporto de Congonhas com US$ 100 mil na cueca, e R$ 200 mil em uma valisa. Genuíno deixou a presidência do partido, assim como antes fizeram Delúbio Soares e Silvio Pereira – respectivamente tesoureiro e secretário-geral do partido.

Em agosto, na CPMI dos correios, o publicitário Duda Mendonça foi ouvido e confessou ter recebido pelos serviços prestados para a campanha de Lula de 2002 dinheiro de caixa-dois depositado ilegalmente em uma conta no exterior. Uma bomba!

A confusão não parou e, já no início de 2006 estourava o escândalo do caseiro Francenildo. Na CPI dos Bingos, Francenildo declarou que o Ministro da Fazenda Antônio Palocci frequentava uma mansão alugada no Lago Sul, bairro nobre de Brasília, onde havia reuniões para distribuição de dinheiro e festas com prostitutas[42]. Na sequência, o sigilo bancário do caseiro foi quebrado e os extratos bancários divulgados por uma revista – uma tentativa falhada de tentar incriminar o caseiro, mas que acabou tornando a situação do Ministro insustentável. Palocci finalmente entregou o cargo. O presidente da Caixa Econômica Federal também colocou o seu cargo à disposição[43].

 

A reeleição

Após o mensalão uma nova fase do governo de Lula começaria, na qual a nomeação de Dilma Rousseff para a Casa Civil e de Guido Mantega na Fazenda afastavam o governo paulatinamente da ortodoxia econômica do início do governo para lançá-lo resolutamente em uma linha desenvolvimentista. A política de aumento real do salário mínimo – que subiu acima da inflação +8,2% em 2005 e +13% em 2006[44] – será a grande marca desse período e terá profundo impacto nas eleições de 2006.

Trata-se de medida de viés claramente populista e insustentável a longo prazo: os aumentos dos salários, ou são repassados ao consumidor aumentando a inflação, ou reduzem as margens das empresas – penalizando sobretudo as mais intensivas no uso de mão-de-obra – que se veem obrigadas a cortar pessoal ou fechar as portas, gerando desemprego. Essa política vigorou até o ano de 2019, ajudando a minar a competitividade da indústria nacional. Ademais, os gastos públicos cresciam a um ritmo de 6% ao ano no primeiro governo, obrigando a carga tributária bruta a subir de 32,16% para 33,42%[45]

Apesar das denúncias terem colocado Lula nas cordas, a oposição se recusava a confrontá-lo: Aécio demonstrará solidariedade dizendo que “Lula não é Collor” e “merece nosso respeito.” Fernando Henrique, por sua vez, chegará a demonstrar interesse até em se encontrar com Lula, posicionando-se resolutamente contra qualquer proposta de impeachment.

O PSDB não escolheu José Serra para disputar as eleições, apesar de ter aparecido nas pesquisas à frente do petista, mas o pouco competitivo Geraldo Alckmin, que declarava preferir mirar o futuro a “atacar o presidente” – Lula naturalmente ficou bastante contente!

Quando as urnas abriram o que se viu foi uma vitória esmagadora: 60,8% para o petista contra 39,1% do tucano. Isso sem sequer participar de debates e com o estouro de um novo escândalo no meio da campanha eleitoral – era o escândalo da compra de “dossiês”[46].

O bom desempenho nas urnas pode ser explicado pelo sucesso do programa Bolsa Família[47] – matéria da Revista Veja da época mostrava que a área em que o programa mais se concentrava coincidia com aquelas onde o petista obtivera anteriormente pior votação – e pelo desempenho relativamente bom da economia: o desemprego havia caído para 8,4% (em 2005, fora de 9,3%), a inflação estava em 3,1%[48] e o PIB cresceu 4% – é verdade que esse resultado ainda era inferior ao dos BRICs: no ano, a China cresceu 11%, a Índia 9,7% e a Rússia 6,7%.

Um fato importante nessa campanha foi a mudança da base de sustentação do governo, que passou a ser integrada pelos eleitores de baixíssima renda: “Lula foi eleito, sobretudo, pelo apoio que teve neste segmento, enquanto Alckmin contou, além dos votos dos mais ricos, com certa sustentação na faixa de eleitores de classe média baixa, que vagamente corresponde ao que o mercado chama de ´classe C´. Na faixa de mais de dois a cinco salários-mínimos de renda familiar mensal, por exemplo, Alckmin quase empatava com Lula às vésperas do primeiro turno, mas, entre os eleitores de baixíssima renda (até dois salários-mínimos de renda familiar mensal), Lula aparecia com uma vantagem de 26 pontos percentuais sobre Alckmin.[49] Não tinha sido assim em 2002.

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Ainda sobre esse primeiro período, é preciso mencionar que o governo petista representou um período de expansão dos grupos de sem-terra, que chegaram a 71. O principal deles era o MST. Em quatro anos, ocorreram quase mil invasões de terras[50] – praticamente uma a cada dia útil!

O MST tinha apoio das FARC e atuava “com uma logística de fazer inveja a muitos exércitos.”[51] Tinham o objetivo de “libertar” e “exercer o domínio” em um território que iria do Mato Grosso do Sul ao Uruguai. 

Já o Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST), criado por um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e financiado com dinheiro público[52], invadiu o Ministério da Fazenda em 2005 e o Congresso, em 2006. Nesse último episódio, com cerca de 600 militantes, depredando e vilipendiando a Câmara dos Deputados[53]. O presidente Lula chegou a aparecer em público com o boné do movimento.

A tudo isso acrescente-se à promoção de um Conselho Federal de Jornalismo, que visava “orientar, disciplinar e fiscalizar” a atividade dos jornalistas, com a sugestão de penas disciplinares.  A forte rejeição ao projeto, no entanto, fez com que o governo o deixasse em banho-maria na Câmara.

 

O Apogeu

O segundo mandato representou o período de apogeu do PT. Embora José Dirceu não ocupasse mais nenhum cargo no governo, Lula se tornou muito mais forte. Conseguiu reorganizar o partido, atrair os sindicatos, voltar a se aproximadas dos artistas e fechar apoio com o PMDB.

Para lidar com a imprensa, designou Franklin Martins (ex-membro do MR-8, e um dos participantes do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick) para a Secretaria de Comunicação Social. “Através de ´patrocínios´ do governo federal e de empresas estatais, milhões de reais foram destinados aos apoiadores do petismo, e se organizou, como nunca na histórica do Brasil, uma rede eficaz de propaganda dos êxitos – reais ou não – da administração de Lula. Aos críticos do lulismo – transformados em adversários – reservou-se o epíteto de membros do ´partido da imprensa golpista´.”[54]

As centrais sindicais foram completamente coaptadas, reservando-se ao PDT o ministério do Trabalho, aparelhado pelos pedetistas. “Entre 2003 e 2006, o governo transferiu R$72 milhões para as centrais sindicais. Nunca os sindicalistas tiveram tanto dinheiro e poder.”[55]

Em cada viagem que fazia, o presidente brasileiro era recebido com mais pompa por líderes e instituições esquerdistas. “Lula é o cara”, dirá o Presidente Obama em 2009. O mandatário brasileiro será eleito o líder mais influente do mundo pela revista Times – “O que Lula quer para o Brasil é o que costumávamos chamar de Sonho Americano”, dizia o editorial, escrito pelo documentarista Michael Moore. Em 2011, depois do fim do governo, receberá o título de doutor Honoris Causa no Instituto de Ciências Políticas, em Paris.

A confiança era tamanha que se chegou a ventilar extra oficialmente a possibilidade de uma reforma constitucional que garantisse um terceiro mandato para o Lula.

Os grandes empresários também foram cooptados, sobretudo com a criação, em 2008, do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), mais conhecido como o programa de “campeões nacionais”. Na prática, o governo colocava no mercado títulos públicos ao custo de 14% para emprestar o dinheiro levantado, a juros de 6% ao ano, a grandes corporações do país. Um grande subsídio, um "bolsa-empresário" para beneficiar companhias como JBS, OI, Odebrecht além das empresas do empresário Eike Batista. Nos anos seguintes seriam emprestados cerca de R$1,8 trilhão em crédito.

A economia ajudava a aumentar a popularidade do presidente. O ciclo de commodities estava a todo vapor, fazendo com que o dólar chegasse a valer menos de R$ 1,80 – com isso, a classe média passou a ver o governo com bons olhos. A oposição, que já não era forte e atuante, batia em retirada, e ninguém mais lembrava do mensalão ou prestava atenção aos novos escândalos, como o da “compra” por valor vil das refinarias da Petrobrás ocupadas em 2006 manu militari pelo governo da Bolívia.   

O populismo, no entanto, ganhava impulso. Após a crise de 2008, causada pela quebra do banco Lehman Brothers, nos Estados Unidos, o mundo inteiro iniciou medidas de estímulo à economia. No Brasil, alongou-se o crédito para ampliar o consumo familiar enquanto o salário-mínimo continuava a ser aumentado artificialmente. O setor privado era estimulado pelas desonerações fiscais e, para combater o desemprego, criou-se o Minha Casa Minha Vida que, em conjunto com outras medidas de crédito imobiliário, contribuirá para uma extraordinária alta dos preços dos imóveis até 2014-2015.  

O governo, no entanto, seguia sem aprovar as reformas necessárias e, com a alta dos salários e impostos, a economia estava cada vez mais nas mãos do Estado. Um artigo publicado em 2007 dizia:

“Em 2002, a participação no Estado no setor petroquímico era de 46%; hoje está em 63%; nas termelétricas, pulou de 11% para 44%; na distribuição de combustíveis, de 24% para 32%. Os Correios vão assumir o Banco Postal e criar uma empresa aérea para transporte de carga doméstica e internacional. Em vez de privatizar o banco do Estado de Santa Catarina, ele será absorvido pelo Banco do Brasil. O governo que ter ainda o controle da produção, venda e exportação do etanol e criar uma superconcessionária de telefonia só de capital nacional em que tenha direito de voz, voto e veto.”[56]

Os gastos públicos não paravam de crescer, estimulando artificialmente a economia.[57] O PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, lançado em 2007, previa investimentos na ordem de 500 bilhões até o ano de 2010. Pouco a pouco, os petistas preparavam uma bomba fiscal e flertavam com a inflação. No entanto, encantados com a popularidade do presidente, já não escondiam mais o seu ideal revolucionário, como fizeram no III Congresso Nacional do PT:

“Para extinguir o capitalismo e iniciar a construção do socialismo, é necessário realizar uma mudança política radical. Os trabalhadores precisam transformar-se em classe hegemônica e dominante no poder de Estado. Não há qualquer exemplo histórico de uma classe que tenha transformado a sociedade sem colocar o poder político do Estado a seu serviço.”

Em outras palavras, cumpria colocar o Brasil a serviço do PT.

*

A popularidade de Lula em 2010 era recorde (chegou a superar os 80%), a economia chegou a crescer 7,5% no ano (em Pernambuco, 16%). O país parecia ter enlouquecido, e Lula conseguiu eleger facilmente a sua sucessora Dilma Rousseff, terminando o mandato com bravatas:

“Foi gostoso passar a Presidência da República e terminar o mandato vendo os Estados Unidos em crise, vendo a Europa em crise...” E concluiu dizendo que a solução para o problema econômico brasileiro não tinha vindo de nenhum doutor, nenhum americano, nenhum inglês, mas de um torneiro mecânico pernambucano.

O PT elegeu uma grande bancada no Congresso Nacional, sendo o partido mais votado.

 

Mulher Sapiens

Dilma Rousseff era uma figura relativamente desconhecida – conta-se que Lula a escolheu como sua candidata ao vê-la manejando um notebook durante uma reunião ministerial. Durante o governo militar, atuara em grupos de luta armada, sem grande destaque. Filiou-se ao PDT, mas sempre foi uma figura politicamente inexpressiva. Tentou cursar pós-graduação em economia, mas não teve êxito. Abriu, em Porto Alegre, uma loja de mercadorias populares, ditas de “R$1,99”, fracassando novamente. Dilma caminharia para a obscuridade, mas a popularidade do mandatário petista era tamanha, que ela se tornou presidente do Brasil. 

O novo governo intensificou aquilo que costumamos chamar de “guerra cultural”[58]. Para o Ministério das Mulheres foi nomeada a feminista Eleonora Menicucci – militante do Partido Operário Comunista, que declarou ter se decidido pelo aborto do seu segundo filho após ouvir a opinião da direção do partido[59].

Era o tempo do “kit gay”, da “Comissão Nacional da Verdade”, da introdução do sistema de cotas nas universidades e de livros que ensinavam que erros de português eram apenas “variações linguísticas”.

Na época, Guilherme Fiuza escrevia uma crônica divertida a esse respeito:

“Nós pega o peixe”, ensina o livro didático de língua portuguesa Por uma vida melhor, de Heloísa Ramos.

Mas desse jeito a vida não vai melhorar tão cedo. O governo popular precisa ser mais ousado. Por que não “nós pega o dinheiro”?

“Ou nós faz caixa dois, ou ainda “nós é companheiro, por isso nós ganha umas boquinha nos governo”.

“(...) O Brasil finalmente caminha para a felicidade plena, com essa formidável evolução cultural “progressista”. As variações linguísticas e as variações éticas vão formando esse novo país igualitário, que nutre orgulhosa simpatia pela ignorância.

O ministro da Educação, Fernando Haddad, faltou à audiência pública no Senado sobre os livros didáticos. Está coberto de razão.

Se ele se recusa a recolher um texto que ensina os estudantes brasileiros a falarem “os livro”, tem mais é que se recusar a cumprir “os compromisso”. 

O Supremo Tribunal Federal aproveitou a onda “progressista” e reconheceu a união de homossexuais (2011) e descriminalizou o aborto de anencéfalos (2012).

Os anos Dilma serão também um período de aumento da violência, não apenas da violência urbana – essa certamente aumentou ao longo do seu governo e em especial nos Estados da Federação governados pelo PT[60] – mas sobretudo da violência política: o MST ameaçou invadir o STF e, num enfrentamento com a PM, deixou dezenas de policiais feridos (ainda assim, a presidente aceitou recebê-los)[61]; era o tempo dos Black Blocks[62], dos chamados “rolezinhos” em shoppings e da morte do cinegrafista Santiago Andrade. O evento mais relevante nesse sentido foi as Jornadas de Junho, de 2013.

Com o novo governo, denúncias de corrupção voltaram a explodir. Foi assim que, já nos primeiros cem dias, dois ministros deixaram o governo após denúncias de corrupção. Em junho, caiu o ministro da Casa Civil, Antônio Palocci que, segundo denúncia dos jornais, aumentara em vinte vezes o patrimônio quando deputado federal! O Ministro da Justiça e o PGR saíram em defesa do ministro – outro escândalo!

Poucos meses depois, foi a vez do Ministro do Turismo cair após denúncia de corrupção. Ocorreria o mesmo em outubro, com o ministro de Esportes; em dezembro, caiu o Ministro do Trabalho; em janeiro e fevereiro de 2012, caíram os ministros da Integração Nacional e o das Cidades. A cada vez, a presidente Dilma saia em defesa dos ministros.

 A coisa era tão escandalosa que o jornalista Juan Arias do periódico El País chegou a publicar um artigo com o título “Por que os brasileiros não reagem à corrupção de seus políticos”?

*

Do ponto de vista econômico, os erros do período lulista seriam intensificados, levando o país a maior crise de sua história.

A nova presidente escolhera para o seu governo o slogan “País rico é país em pobreza”. Por trás dessa frase estava o nobre objetivo de erradicar a pobreza. O método para fazê-lo, pensava a “mãe do PAC”, era estimular o crescimento do país.

Ora, existiam diversas razões estruturais impedindo o crescimento do Brasil: nossa infraestrutura era defasada – o modal ferroviário, por exemplo, continuava com os mesmos trinta mil quilômetros do tempo do Império – os encargos eram excessivos, o ambiente regulatório hostil, as leis trabalhistas defasadas e faltava mão de obra capacitada. Last not least, nossa taxa de juros em dois dígitos era a maior do mundo.

Dilma não queria esperar para aprovar as reformas estruturantes que o seu antecessor havia deixado de lado desde a crise do mensalão, e sim induzir o crescimento da economia à força, de modo inteiramente artificial. Resolveu fazê-lo estimulando o consumo das famílias: baixou os impostos sobre geladeiras, máquinas de lavar, fogões, automóveis. O importante era fazer com que a população gastasse. Só que as famílias já estavam bastante endividadas após o surto de crédito de 2010 que ajudara a eleger a presidente. Ademais, uma medida assim não poderia durar muito!

A cada problema estrutural, Dilma contrapunha uma solução artificial visando o crescimento, contribuindo para minar, pouco a pouco, o “tripé econômico” (metas de inflação, câmbio flutuante e responsabilidade fiscal) que estabilizava a economia brasileira.

Assim, já no primeiro ano do governo, o Banco Central – que na época não era independente – decidiu abruptamente reduzir a taxa de juros em meio a uma escalada inflacionária. Para a presidente, admiradora de Cristina Kirchner, “um pouco mais de inflação não faz mal.” Dizia ela: “Não concordo com políticas de combate à inflação que olhem a questão da redução do crescimento econômico (...) Eu vou acabar com o crescimento do país?”. É verdade que, naquela época, o Brasil não foi o único país a abandonar a ortodoxia – era o tempo da “crise de débito europeia” – mas aqui já se começava a abandonar a meta de inflação.

A indústria brasileira, além de sofrer com os problemas estruturais brasileiros, e com a política do aumento real de salários anual do governo Lula, era pressionada pelo dólar baixo – fruto da política de juros zero do mundo desenvolvido. Era a “guerra cambial”, como chamou o ministro Guido Mantega. A resposta do governo foi, por um lado, a adoção de medidas protecionistas como regras de conteúdo nacional e impostos, por outro a intervenção no câmbio. Explica Mônica de Bolle: “Essas intervenções não eram baratas. Ao fazê-las, o Banco Central aumentava o estoque de ativos em dólares, cujo rendimento é muito baixo, elevando seu passivo em reais e tendo, eventualmente, de pagar juros atrelados à Selic.” – Pouco a pouco, o segundo pilar do tripé era desprezado.

Atribui-se à Dilma a frase “Gasto é Vida”, que teria dito em resposta aos que lhe propunham a criação de algo semelhante a um teto de gasto. De fato, a gastança desenfreada e a multiplicação de desonerações tornava cada vez mais difícil atingir a meta de superávit e, para cumpri-la em 2012, o governo teve de lançar mão de recursos inusitados como a antecipação de dividendos de estatais – surgia assim a “contabilidade criativa” que contribuiu para estraçalhar o terceiro pilar do tripé econômico, o da responsabilidade fiscal. Mais adiante, Arno Augustin, chefe do Tesouro Nacional, começaria a cogitar a possibilidade de se remover as desonerações da meta de superávit.

Em julho de 2012, o Ministro da Fazenda anunciou oficialmente o enterro do “tripé econômico”, dando início à “Nova Matriz Econômica” que, mais adiante, colocará o país em uma situação de pré-insolvência fiscal e na maior recessão de sua história, revertendo os benefícios do Plano Real e fazendo com que quase duas décadas de balança comercial positiva se transformasse em déficit.

Os problemas se avolumavam e o governo não perdia a oportunidade de adotar alguma medida equivocada. Os juros cobrados pelos bancos estavam altos? A Caixa Econômica e o Banco do Brasil diminuíam suas taxas artificialmente. As tarifas de energia elétrica eram elevadas? A MP 579 resolvia isso em uma canetada, obrigando as distribuidoras a baixar os preços – o que contribuiu para desorganizar o setor e desestimular os investimentos[63].

E se a súbita ingerência do governo na economia assustava os empresários, estes últimos – como maus alunos levados à sala do diretor – eram convocados ao Planalto:

“Dilma ficou bastante irritada ao constatar, logo depois do anúncio sobre a cesta básica, cujo objetivo também era colher capital político para a campanha que começava muito antes do prazo, que os preços dos produtos não caíram como imaginara. Malditos donos de supermercado! Foram todos chamados ao Planalto. Desde 2012, a presidente adquirira o hábito de chamar ao Planalto empresários, banqueiros, representantes do setor privado em geral toda vez que constatava que suas medidas não surtiam os efeitos que pensara inicialmente”[64].

Dilma viria ainda a desonerar produtos de limpeza e pedir à população que fiscalizasse os preços nos supermercados! Eram os “fiscais da Dilma”.

Esse autoritarismo se via em outras áreas também. A saúde estava ruim? O programa Mais Médicos obrigava todos os estudantes de medicina a trabalhar por dois anos no SUS. E se a economia continuava demonstrando dificuldades em crescer, a presidente criava mais estímulos, como foi o caso do Programa “Minha Casa Melhor”, subsidiando a compra de móveis e eletrodomésticos.

 

Tchau querida

Já se disse com acerto que as eleições de 2014 foram as mais disputadas da nossa história, com direito a várias “viradas” – Marina Silva, Aécio Neves e Dilma Rousseff, cada qual liderou as intenções de voto em algum momento da campanha.

Denúncias de corrupção voltavam a pairar sobre o governo – dessa vez relacionadas com a Petrobrás. Dilma evitava compromissos públicos, fugia de entrevistas e do contato com o público. Apresentava-se sempre em ambientes controlados, como sindicatos ou diante de movimentos simpáticos ao PT. No entanto, liberava rios de dinheiro e aprovava medidas populistas para viabilizar sua eleição.

Na antevéspera da votação, a revista Veja exibia matéria de capa com o título “Eles sabiam de tudo” entre os rostos de Dilma e Lula. A reportagem transcrevia um trecho do depoimento do doleiro Alberto Youssef à Polícia Federal:

Perguntado sobre o nível de comprometimento de autoridades no esquema de corrupção da Petrobrás, o doleiro foi taxativo

- O Planalto sabia de tudo!

- Mas quem no Planalto? perguntou o delegado.

- Lula e Dilma, respondeu o doleiro.

Como retaliação, um grupo de militantes controlado pelo PC do B atacou a sede da Editora Abril, que publicava a Revista.

*

Além dos problemas econômicos, o segundo governo de Dilma Rousseff seria marcado pela Operação Lava Jato, que revelou ao Brasil o esquema do “Petrolão”, envolvendo, além da estatal brasileira, as principais empreiteiras do país e o Partido dos Trabalhadores. Segundo a jornalista Roberta Paduan:

“A cada contrato assinado com a estatal, as fornecedoras separariam um percentual do valor recebido, geralmente de 3%, no caso da diretoria de Abastecimento. Essa era a fonte de dinheiro que abasteceria os partidos políticos e executivos da estatal, como [Roberto] Costa, que facilitariam a concretização do esquema. As empresas, organizadas em cartel, combinavam entre si quem ficaria com cada contrato a ser fechado com a estatal. Depois, o coordenador do grupo procurava os diretores da petroleira e passava a lista das empreiteiras que deveriam ser chamadas para o certame. Bastava que a ganhadora da vez embutisse o valor da propina em seu serviço. Depois, era só combinar com as demais empresas para que elas apresentassem valores mais altos ou não entrassem na licitação [...]

“E haveria muitos contratos, pois a Petrobras não era apenas a maior empresa do país, mas também a maior investidora. Entre 2003 e 2014, a média anual de investimentos efetivamente realizados pela companhia foi de R$ 76 bilhões (a preços atualizados para 31 de dezembro de 2015. Em seus depoimentos, Costa revelou que todos os contratos fechados pela estatal com as empresas do cartel geravam propinas. Do total de recursos desviados das obras de Abastecimento, o PT ficava com dois terços, enquanto ao PP cabia um terço.”[65]

Além dos valores desviados – que fariam com que o “Mensalão” parecesse coisa de amadores – a empresa por pouco não foi arruinada pela má gestão e interferência do governo.

Depois da descoberta do Pré-Sal, a Petrobrás chegou a superar em valor de mercado ícones norte-americanos como a Microsoft, o Wal-Mart ou a General Eletric. Poucos anos depois, no entanto, seria a detentora de uma das maiores dívidas corporativas do planeta. A razão é dupla: por um lado, o governo forçava a companhia a investir para reanimar a economia – um terço de todos os recursos previstos no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), eram da Petrobrás – por outro, a fim de conter a inflação, fazia com que a estatal vendesse combustível a preços defasados – essa política gerou perdas calculadas em R$ 159 bilhões à companhia entre 2010 e 2014.

Talvez o investimento que melhor represente o desastre da gestão petista foi o da refinaria de Pasadena. Em 2006, uma empresa belga pagou US42,5 milhões pela refinaria, então apelida de “ruivinha” pela quantidade de ferrugem nas suas instalações. No ano seguinte, a empresa belga vendeu 50% da refinaria para a Petrobrás pela cifra de... US$359 milhões! Não parou por aí, anos depois a estatal brasileira decidiu comprar ao restante da refinaria por mais US$820 milhões, investiu mais US$685 milhões em melhorias nas instalações... apenas para revendê-la cinco anos depois por US$ 180 milhões – um décimo dos valores dispendidos! No entanto, ninguém do Conselho de Administração – na época presidido pela Sra. Dilma Rousseff – foi responsabilizado.

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Mal ganhou as eleições, Dilma praticou o que viria a ser chamado de “estelionato eleitoral”: após ter declarado diversas vezes na campanha que a situação econômica era sólida e que não haveria necessidade de medidas impopulares, assim que foi reeleita aumentou a taxa de juros, reajustou as contas de consumo e cortou o FIES. A população, sentindo-se enganada e não suportando mais a crise econômica e moral, voltou a ocupar as ruas. Manifestações contrárias ao governo ocorreriam por todo o país até o fim do governo, reunindo, literalmente, milhões de manifestantes.

Em 2015 o tribunal de contas da União rejeitou as contas do governo Dilma. A situação fiscal brasileira se deteriorava rapidamente, com o país voltando a apresentar o primeiro déficit primário em quase duas décadas. No entanto, esse resultado ainda era artificial, pois a realidade era ainda muito maior: para melhorar os números, o governo atrasava pagamentos e tomava empréstimo dos bancos públicos, incorrendo em crime de responsabilidade fiscal. Eram as chamadas “pedaladas”, que seriam a base do pedido de impeachment[66].

Não se trata de mero detalhe técnico: a irresponsabilidade fiscal foi um elemento importante da tragédia econômica em que nós mergulhamos. Para acrescentar ofensa à injúria, o Brasil finalmente perdeu o grau de investimento.

“O ano de 2015 terminaria em tragédia. A economia encolheria impressionantes 3,8%[67], a inflação alcançaria 11%, o desemprego começaria a subir de forma assustadora – no início de 2016 seriam 11 milhões os desempregados. A tão alardeada inclusão social começaria a sumir; a classe média, vulnerável, a encolher; a Classe C tornava-se D ou E. A política, cada vez mais enrolada no escárnio revelado pela Lava-Jato acabaria por dominar todo o cenário econômico e a selar os destinos de Joaquim Levy e Dilma.”[68]

O Brasil estava quebrado e, desde então, foi preciso um grande esforço para que o país se reerguesse – demoraria nada menos do que sete anos para o Brasil voltar a ter taxa de desemprego de um digito e superávit nas contas públicas.

Dilma Rousseff não tinha mais condição de governar o país. Nos seus confusos pronunciamentos, mais e mais demostrava indícios de confusão mental, como na “saudação da mandioca”, ao falar em “estocar vento” ou no discurso sobre as “mulheres sapiens”.

 

Conclusão

O Partido dos Trabalhadores é, antes de tudo, um partido revolucionário com o projeto de perenizar-se no poder, conforme a declaração do VIII Encontro do Foro de São Paulo:

“O objetivo não é meramente chegar ao governo, senão chegar para transformar a sociedade. E como isso não é tarefa de uns poucos anos, senão um processo complexo e longo, será imprescindível (...) manter-se no governo e realizar as grandes mudanças revolucionárias...” (grifos nossos).

Sua meta é o socialismo, suas bandeiras são a subversão da lei natural, o seu legado é um rastro nunca visto de corrupção e miséria. O governo do PT representou um período de profunda decadência moral e, em conjunto com os demais membros do Foro de São Paulo, é como um câncer disseminando-se pela América Latina. É de se lamentar a situação de Cuba, Venezuela e, mais recentemente, da Argentina.

A teia de corrupção armada pelo governo, envolvendo os demais poderes, a imprensa, empresários, universidades e intelectuais, fazia crer que seria impossível a sua remoção do Planalto. No entanto, “Deus destruiu os tronos dos chefes soberbos”: em 2016, Dilma Rousseff sofreu o impeachment e, em 2018, o ex-presidente Lula foi preso por corrupção e lavagem de dinheiro. Uma grande e misteriosa graça para o nosso país!

 


[1] Na Carta de Princípios, publicada no ano anterior, lê-se “O PT afirma seu compromisso com a democracia plena, exercida diretamente pelas massas, pois não há socialismo sem democracia nem democracia sem socialismo. Um partido que almeja uma sociedade socialista e democrática tem de ser, ele próprio, democrático nas relações que se estabelecem em seu interior.”

[2] “Socialmente, a base mais importante do PT depois dos operários de empresas multinacionais e do sindicalismo de funcionários públicos foi, seguramente a Igreja Católica. Sua influência popular era extensa através das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) que se multiplicaram nos anos setenta...”, Lincoln Secco, “História do PT”, pág. 45.

[3] Ibid., p. 78

[4] A Igreja faz sérias restrições às greves. Segundo o ensinamento de Pio XI: “É proibida a greve; se as partes não podem chegar a um acordo, intervém a autoridade.” (Quadragésimo Anno). Pio XII ensinou: “No domínio econômico, há uma comunhão de atividade e interesses entre os donos das empresas e os trabalhadores. Menosprezar este laço recíproco, trabalhar para destruí-lo, é tão somente o fato de uma pretensão de despotismo cego e irracional.” (Pio XII – Aos patrões, 7 de maio de 1949, Atos Pontif. No. 26, p. 21). Esse ensinamento foi mantido mesmo no pós-Concílio. Ensinou o Papa João Paulo II: “O abuso da greve pode conduzir à paralisação da vida socioeconômica; ora, isto é contrário às exigências do bem comum da sociedade, o qual também corresponde à natureza, entendida retamente, do mesmo trabalho” (Laborem exercens)

Há em certos casos um direito à resistência, como ensinou Santo Tomás em De Regno e, com ele, o Magistério da Igreja: foi, aliás, o que ocorreu gloriosamente na Cristiada mexicana ou na Vendéia contra a Revolução. Leão XIII é muito claro: “A única razão que os homens têm para não obedecer é quando algo demandado por eles repugna abertamente ao direito natural ou ao direito divino”. Ademais, além de uma causa justa é preciso haver uma reta intenção, entendendo-se por essa última a conformidade a justos limites.

[5] Romeu Tuma Jr., Assassinato de Reputações, p. 45.

[6] Ibidem, p. 51

[7] Suplicy, no entanto, não venceu as eleições, ficando com pouco mais de 18% dos votos. A primeira eleição importante que o PT ganhou no país foi para a prefeitura de Fortaleza – acredito que ninguém se surpreenderá se souber que a prefeita foi acusada posteriormente de nepotismo e má gestão!

[8] Wendy Hunter e Timothy Power, citado em André Singer, O sentido do Lulismo.

[9] P. 170

[10] Em 1989, o PT recusara “o apoio desinteressado do PMDB no segundo turno de 1989, o qual poderia ter significado a vitória de Lula.”, André Singer, “O Sentido do Lulismo”.

[11] Lincoln Secco, p. 182

[12] Com efeito, a revisão tarifária, feita para favorecer o presidente esquerdista Fernando Lugo – então envolvido em denúncias de pedofilia – ocorreu 12 anos antes do prazo previsto e as tarifas se multiplicaram por três, apesar da oposição dos técnicos e do evidente prejuízo aos consumidores brasileiros, que passaram a pagar mais pela energia elétrica. (Ver em https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/contraponto/golpe-do-para...)

[13] No caso de cuba, aceitou-se charutos como lastro para o empréstimo.

[14] O Foro de São Paulo, Graça Salgueiro, p. 171.

[15] Tido como “o arquiteto do moderno PT e estrategista da vitória de Lula”, Dirceu presidiu o partido com mão de ferro entre os anos 1995 e 2002. Agradecido, Lula declarará que Dirceu teria o cargo que quisesse em seu governo.

[17] A de Santo André, B de São Bernardo do Campo, C de São Caetano do Sul.

[18] Segundo familiares do prefeito de Santo André, as campanhas beneficiadas foram a de Marta Suplicy em São Paulo, e a de Luís Inácio Lula da Silva à presidência da República.

[19] “Na administração de Palocci em Ribeirão Preto teve o escândalo do lixo. São caminhos comuns para desviar dinheiro: contrato de lixo, transporte público. Certas pessoas contam isso como se fosse um ato de “heroísmo” desviar dinheiro público para financiar partidos e atividades políticas. É um assalto! (...) No caso específico do lixo, o que acontecia era o seguinte: o pagamento de um contrato é feito com base em uma quantidade de lixo recolhida. E é muito difícil fiscalizar, saber quantas ruas foram de fato varridas, quanto lixo foi de fato recolhido, pois muito do que é atestado para pagamento, não é realizado.” (Romeu Tuma, Assassinato de reputações, pág. 214-215).

[20] “Após anos, soube pela imprensa que nada de projétil ou cápsulas foram apreendidos quando do sequestro. Fico imaginando, um prefeito, num carro potente, à prova de balas, ser parado sem qualquer dificuldade, sem nenhuma ameaça ou tiros e, pior, sem que seu acompanhante, ex-segurança, armado, esboçasse qualquer reação? Ele só pode ter sido entregue mesmo.” (Romeu Tuma, Assassinato de Reputações, pág. 197)

[21] A Lava Jato reabilitou essa tese, no entanto. Investigando o pecuarista José Carlos Bumlai, um dos melhores amigos do então presidente Lula, descobriam que ele havia tomado R$12 milhões do banco da família Schahin. Segundo a força-tarefa esses recursos foram repassados, com a participação de José Dirceu, “para não envolver pessoas relacionadas à cúpula do Partido dos Trabalhadores no esquema de corrupção da prefeitura de Santo André.” –  Quanto à família Schahin, ela seria recompensada no segundo mandato de Lula, ao assinar sem licitação um contrato no valor de US$1,6 bilhões com a Petrobrás para operar um navio-sonda.

[22] Celso Daniel, Silvio Navarro, pág. 192.

[25] José Serra era um militante do grupo da esquerda católica Ação Popular (AP), que propugnava um “socialismo humanista” e se inspirava em Emmanuel Mournier, Teilhard de Chardin e no dominicano Louis-Joseph Lebret. Apoiado pelo Partido Comunista Brasileiro, Serra elegeu-se presidente da UNE em 1963.

[26] Corrigido pelo IPCA até 01/2022.

[27] A “Carta” não é de todo boa, mas traz alguns pontos que acalmaram o mercado: “O povo brasileiro quer mudar para valer. Quer abrir o caminho (...) da reforma tributária, que desonere a produção. (...) da reforma previdenciária, da reforma trabalhista e de programas prioritários contra a fome e a insegurança pública.” E, mais adiante: “Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país.” E ainda: “Queremos equilíbrio fiscal... Vamos preservar o superávit primário...”.

[28] É verdade, no entanto, que outros nomes da tradição desenvolvimentista do partido também foram nomeados, como é o caso de Carlos Lessa – convidado para presidir o BNDES – e Guido Mantega, então Ministro do Planejamento, para não falar em Celso Amorim, José Dirceu, Tarso Genro e da própria Dilma Rousseff.

[29] Dentre outras coisas, a PEC 40 acabava com a aposentadoria integral dos futuros servidores públicos.

[30] Lula também favoreceu a abertura financeira, permitindo que até 30% das receitas com exportações fossem mantidas no exterior e criando incentivos para investidores estrangeiros adquirirem títulos da dívida pública.

[31] Uma “regra de bolso” diz que, a cada 10% de aumento de preço em uma cesta de commodities, o PIB brasileiro cresce 0,4%. Ora, durante o governo Lula, o preço das commodities cresceu ao longo de todos os anos, com a única exceção em 2009. A taxa média anual composta de crescimento dos preços de commodities no primeiro mandato de Lula foi de impressionantes 19% a.a.

[32] “O estouro da bolha nos índices de bolsas das empresas do ramo de tecnologia (Nasdaq), os escândalos contábeis envolvendo grandes empresas de distribuição de energia elétrica, e os atentados terroristas de setembro de 2001 levaram o Federal Reserve (FED) a reduzir as taxas de juros, iniciando um novo ciclo expansivo de liquidez internacional. A economia brasileira se beneficiou dos fluxos de capitais direcionados para as economias emergentes. (...) A redução do prêmio de risco foi crucial para que o Banco Central iniciasse a redução da taxa Selic a partir do segundo semestre de 2003” (https://sep.org.br/anais/2019/Sessoes-Ordinarias/Sessao1.Mesas1_10/Mesa4...

[33] “A indicação era precedida por um atestado ideológico petista. O “nada consta” e, especialmente, o “é um dos nossos” garantiam o emprego” (Marco Antônio Villa, “A Década Perdida”).

[34] Petrobrás, uma história de orgulho e vergonha, Roberta Paduan, pág. 171

[36] “O PT comprou o PTB por R$10 milhões. O PTB tinha 52 deputaqdos. O compromisso era entregar R$150 mil a cada um, perfazendo R$8 milhões. Os outros R$2 milhões teriam a direção de Salvador e Recife, onde o partido tinha fortes candidatos à prefeitura” (A Década Perdida, M.A. Villa). Ver também: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2012/08/03/pt-prometeu-r-20-milhoes-a-ptb-de-roberto-jefferson-em-troca-de-apoio-diz-gurgel.htm

[37] “De acordo com Luiz Eduardo Soares, ex-secretário do governo, Waldomiro Diniz arrecadaria, por mês, R$300 mil – e ainda haveria mais um assessor de Dirceu envolvido.” (A Década Perdida, M.A. Villa)

[38] Citado em “A Década Perdida”, Marco Antônio Villa.

[42] Palocci viria a ser posteriormente condenado na Lava Jato a 12 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro em um esquema envolvendo R$200 milhões do Grupo Odebrecht para o Partido dos Trabalhadores.

[43] Na Revista Veja (no. 1950), uma matéria afirma que a Caixa chegou a oferecer R$1 milhão para funcionários assumirem a culpa pela quebra do sigilo.

[46] Foram presos no Hotel Íbis, na cidade de São Paulo, o petista Valdebran Padilha da Silva e o advogado do PT Gedimar Passos com R$1,7 milhões de reais em dinheiro vivo, dinheiro destinado a compra de um dossiê contra o tucano José Serra, então candidato ao governo de São Paulo contra o petista Mercadante.

[47] O programa era parte de uma política de transferência de renda que também incluía: aumentos do salário mínimo acima da inflação e do crédito bancário para as pessoas físicas.

[48] A meta de inflação foi atingida em todos os anos do governo.

[49] V. André Singer, O sentido do Lulismo.

[51] Carlos Alberto Brilha Ustra, A Verdade Sufocada, pág. 567

[53] Ferido, um segurança teve afundamento do crânio e teve de passar dois dias na UTI.

[54] M.A. Villa, A Década Perdida

[55] Ibid.

[56] O País dos Petralhas, Reinaldo Azevedo.

[58] No ano anterior, para ser exato, já havia começado com a tentativa de proibição de um livro de Monteiro Lobato por alegação de “racismo”.

[59] Eleonora – (...) E um detalhe importante nessa trajetória é que, seis meses depois de essa minha filha ter nascido, eu fiquei grávida outra vez. Aí junto com a organização nós decidimos, a organização, nós, que eu deveria fazer aborto porque não era possível...” (Citado em O País dos Petralhas II, Reinaldo Azevedo).

[60] O Piauí foi governado pelo PT de 2003 a 2010, nesse período, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes aumentou 25,7%; na Bahia do petista Jacques Wagner, a taxa de homicídios aumentou 60,4%; no Pará, 57,2%!

[63] “Tratava-se de uma medida que alteraria por completo o funcionamento do sistema elétrico brasileiro, a ponto de concessionárias e distribuidoras referirem-se a ela como o ’11 de setembro do setor elétrico brasileiro’. Seu objetivo era reduzir as tarifas de energia, porém de forma unilateral, sem levar em conta os efeitos que isso poderia ter sobre a rentabilidade das empresas do setor, seus fluxos de caixa e sua capacidade de investir”. Mônica de Bolle, “Como matar a Borboleta azul”, p. 125

[64] Ibidem, p. 144.

[65] Petrobrás, uma história de orgulho e vergonha, Roberta Paduan, p. 42

[66] O arcabouço fiscal brasileiro consiste em três leis fundamentais: a Lei de responsabilidade fiscal, a LOA e a Lei de diretrizes orçamentárias (LDO). Ora, além das pedaladas – que viola a primeira lei – Dilma emitiu decretos de despesas adicionais, também conhecidos como créditos suplementares, violando a LOA. A duas violações embasaram o processo de impeachment.  

[67] Número próximo a queda de 4,1% em 2020, o ano da pandemia. Os anos de 2015 e 2016, representam a maior contração econômica brasileira da história.

[68] Monica de Bolle, “Para matar a borboleta azul”, p. 233

Os papas na história do Brasil

Conferência de D. José Pereira Alves

A atuação criadora dos Papas na formação histórica da nossa catolicidade está documentada nos atos pontificais que demonstram a solicitude augusta dos Supremos Vigários de Cristo pela região brasílica, como se dizia nos primeiros tempos da nacionalidade. Eu não estou aqui para fazer uma história eclesiástica do Brasil. Venho corroborar uma afirmação: Os Sumos Pontífices são os grandes criadores e protetores da nossa Pátria Católica.

Basta-me mergulhar aqui e ali em nossa história para sentir o roçagar da sotaina branca do Papa. É a ação, é a vigilância do Pastor Universal a exercer-se soberana e benfazeja por toda parte.

No reinado de Dom João III, o Papa Júlio III pela Bula Super Specula Militantis Ecclesiae, de 28 de fevereiro de 1550, criou o Bispado do Brasil, com sede na Igreja de São Salvador da Região chamada Bahia de Todos os Santos, desligando a Terra de Santa Cruz da jurisdição do Bispo de Funchal. A nossa Diocese, sufragânea do Arcebispo de Lisboa, tinha cinquenta léguas pelo litoral e vinte pelo interior, mas ao Bispo foi outorgada jurisdição por todo o território brasileiro e ilhas adjacentes. Só cento e vinte e um anos depois, oito meses e quinze dias, foi a Bahia elevada à Arquidiocese, pelo Papa Inocêncio XI com a Bula Romani Pontificis Pastoralis Sollicitudo, de 16 de novembro de 1676. Foi o nosso primeiro Bispo Dom Pedro Fernandes Sardinha, vigário geral na Índia quando nomeado Bispo do Brasil que mais tarde, naufragando na sua volta a Portugal, foi devorado com todos os seus companheiros pelos índios Caetés. Dizem que a terra onde foi supliciado o nosso primeiro Bispo nunca mais produziu coisa alguma.

O Santo Padre, na Bula criadora do Episcopado no Brasil, depois de referir-se à ação colonizadora de Portugal, às igrejas paroquiais e outros lugares sagrados já existentes à pregação apostólica dos missionários católicos, e à nobreza da cidade de São Salvador, plantada como uma cidadela titular dos fiéis de Cristo, de campos férteis e clima benigno, notável pelo progresso da gente e do comércio, atendendo à humilde súplica de seu caríssimo filho em Cristo, João Rei de Portugal e dos Algarves, desejoso de propagar a fé católica como os seus maiores, constitui a Região do Brasil na Hierarquia Católica, conferindo a São Salvador o ius civitatis e de Igreja Episcopal autônoma. Júlio III é considerado o criador da Igreja Brasileira, no sentido ortodoxo da expressão.

A terra brasílica, santificada pela benção de Jesus Cristo na Missa da Descoberta, percorrida pelas bandeiras missionárias das Ordens Religiosas; o Brasil cujos ventos já repetiam o nome de Jesus e o nome da Imaculada, já se podia sentar pela munificência paternal do Pontífice Romano, nas assembleias ecumênicas da Cristandade e ter o seu voto nos grandes conselhos da Igreja Universal.

Roma olhava com ternuras de mãe para a Igreja nascente da América portuguesa. Não queria, como se insinua na Bula histórica, que o progresso material das novas terras fosse desamparado pelas forças da Fé e do Espírito.

Super specula militantis Ecclesiae, meritis licet imparibus, divina dispositione locati da universas orbis provintias et loca, praesertim Omnipotentis Dei misericordia per Catholicos Reges et Principes ab infidelibus et barbaris nationibus recuperata, et acquisita aciem nostrae meditationis possi reflectimus et ut lucis ipsis dignioribus titulis decoratis plantetur radicibus Chistiana Religio et eorum incolae ac habitatores venerabilium praesulum doctrina et autctoritate suffulti proficiant semper in Fide et quod in temporalibus sunt adepti, non careant in spitualibus incremento, opem et operam libenter impendimus efficaces.

Na Bula em que o Papa Inocêncio XI eleva a Diocese baiana à metropolitana do Brasil e assim, definitivamente, estatui a autonomia eclesiástica de nossa pátria, vê-se o interesse, sente-se a solicitude pastoral com que a Santa Sé acompanha a nova catolicidade. Fala da cidade de São Salvador na Bahia de Todos os Santos com os mesmos elogios da Bula Juliana que criou o Bispado Nacional. Põe em relevo os suores e trabalhos dos reis católicos lusitanos em sujeitarem e desbravarem a terra e o selvagem. As guerras restauradoras contra os hereges holandeses e as missões abnegadas de vários religiosos e outros varões contra as trevas satânicas, a idolatria, o gentilismo e heresias outras, os templos suntuosos, mosteiros e asilos erguidos pela régia munificência, são lembrados no documento pontifical pela consideração do Pontífice — more vigilis Pastoris — como ele próprio afirma.

Várias de nossas capitais foram cidades por direito pontifício, como por exemplo Bahia, Olinda e São Paulo.

Elevou a Bispado a prelazia do Rio de Janeiro, criada por Gregório XIII em Bula de 19 de julho de 1576, o mesmo Papa Inocêncio XI, a 16 de novembro de 1676. O Pontífice chama a nossa grande metrópole de hoje civitas Sancti Sebastiani Brasiliensis Dioecesis in ea parte quae Rivus Ianuarii applelatur, sede de uma só Igreja Paroquial sob a invocação do mesmo São Sebastião. É cidade insigne, diz o Papa, pelo clima salubérrimo, pela população crescente, comércio, pelos mosteiros vários e pelos habitantes seus, nobres e letrados.

Com a Bula Ad Sacram Beati Petri Sedem da mesma data, é instituída a Diocese de Olinda. A Prelazia de Pernambuco devia a sua criação à Bula de Paulo V, de 15 de julho de 1614.

Na Bula de criação do Bispado de Pernambuco, como aliás nas outras, o Romano Pontífice sempre se revela movido pelo desejo de confirmar os débeis na Fé, de instruir os indigentes de doutrina, de chamar os íncolas do Bom Pastor que deu por eles a vida, de plantar novos seminários eclesiásticos. E para realizar estes grandes pensamentos de catolização brasileira, julgava conveniente a constituição de novos prelados. É sob essas apostólicas inspirações do Vaticano que se forma a hierarquia eclesiástica do Brasil, composta desta Trindade constelada: Bahia, São Sebastião do Rio de Janeiro e Olinda, glória avoenga da Igreja no Brasil.

O Bispado do Maranhão foi instituído pelo Papa Inocêncio XI, com a Bula de 30 de agosto de 1667, Super Universas Orbis Ecclesias, que por ser mais fácil ir a Lisboa do que à Bahia de Todos os Santos, segundo reza a Bula, sujeitou a nova diocese à metrópole portuguesa. São Luís tinha dois mil habitantes, fama de gente nobre, de muitas letras, homens de armas. Na criação da nova diocese o Papa acentua o mesmo desígnio apostólico: plantar novas sedes episcopais no campo da Igreja Militante, para que por estas novas plantações aumente a devoção popular, floresça o divino culto, sejam conferidos os Sacramentos da Igreja e se promova a salvação das almas. São expressões textuais do ato pontifício de Inocêncio XI. Durante o governo de Dom Frei José Delgarte, da Ordem da Santíssima Trindade da Redenção dos Cativos, quinto prelado maranhense, foi desmembrada do território do Maranhão a nova diocese do Grão Pará pela Bula Copiosus in Misericordia, de Clemente XII, em 4 de março de 1719, no reinado de Dom João V de Portugal, compreendendo a Guiana Francesa. Na Bula paraense, o Santo Padre se afigura no vértice da montanha a estender o seu olhar de Pastor aos confins do mundo, para prover as necessidades espirituais do imenso campo do Senhor. A solicitude do grande pai das almas se sente excitada pela visão das messes que hão de florir, da sua vastidão e dos ásperos e perigosos caminhos que os apóstolos hão de trilhar para promoverem a colheita, a criar igrejas episcopais que ele chama “novas fontes” e “novos pastores”. Desses novos mananciais se hão de abeberar os povos sedentos. É a linguagem do Pontífice.

A 6 de dezembro de 1745 o douto Bento XIV desmembra da Diocese do Rio de Janeiro as igrejas de São Paulo e Mariana e as prelazias de Goiás e Cuiabá, pela Bula Candor Lucis Aeternae. Tem-se vontade de traduzir e citar toda a Bula beneditina para tornar evidente o empenho e o espiritual açodamento com que o Santo Padre, movido dos mesmos sentimentos dos seus augustos predecessores, atende às súplicas do Rei, às preces e apelos de tantas regiões desamparadas, cujas vozes só depois de um ano podem chegar aos ouvidos do próprio Antístite. À Santa Sé, desde aqueles primeiros tempos, não escapa o problema da evangelização brasileira que só pode ter solução satisfatória pela divisão eclesiástica do imenso território.

Haec, ut percepimus, primum manus nostras levavimus ad eundem Unigenitum Dei Filium cuius vices, licet immeriti gerimus in terris, gratias enixe agentes de tam ferventi praefati Ioannis Regis, charissimi Filii Nostri, Filli vere in Christo charissimi, spiritu sibi coelis effuso: inde ad Pastoralem solicitudinem mostram respicientes, votis eiusdem Ioannis Regis catholica pietate dignis Nobis superius expositis, propensius ac celeriter annuimus.

A Bula divide a Diocese do Rio de janeiro em cinco partes para louvor e glória de Deus Onipotente, honra de Sua gloriosa Mãe Maria e de toda a corte celeste e exaltação da própria Fé Católica.

As prelazias de Goiás e Cuiabá foram elevadas à categoria de Bispado a 15 de julho de 1826 por Leão XII, com a Bula Solicita Catholic Gregis Cura, que vem animada dos mesmos intuitos apostólicos pela cristandade brasileira. O mesmo pontífice atendendo às preces de Monsenhor Francisco Correa Vidigal, ministro plenipotenciário do Primeiro Imperador do Brasil junto à Santa Sé, hilari animo sujeita à metrópole da Bahia as Dioceses do Pará e do Maranhão, até então sufragâneas do Patriarcado de Lisboa, pela Bula Romanorum Pontificum Vigilantia, de 5 de junho de 1827.

A Comissão da Assembleia Legislativa, encarregada de examinar essa Bula, mostra-se no seu parecer satisfeita, vendo de certo modo restituída a muito antiga autoridade dos metropolitanos... e diz que os bispos isolados, não reconhecendo outro superior que o Bispo de Roma, sendo tão difícil o recurso, e para muitos, impossível, podiam ser considerados quais monarcas absolutos.

Vê-se que a Comissão ignorava as Bulas de criação daquelas dioceses e que, portanto, sempre para elas existiu o direito metropolitano.

Monsenhor Vidigal comunicava ao Ministro dos Estrangeiros e corte das últimas amarras eclesiásticas a Portugal nestes termos: “Ilmo. e Exmo. Sr. tenho a honra de participar a Vossa Excelência que em conformidade das imperiais ordens, solicitei aqui a separação dos Bispados do Pará e do Maranhão, da sujeição do Patriarcado de Lisboa, como Metrópole, e que ficassem incorporadas na metrópole da Bahia, o que felizmente obtive, e nesta ocasião remeto a competente Bula, a qual vai no próprio original, juntamente com um transunto para ser enviado ao respectivo metropolitano, a fim de que este assim fique inteirado e comunique aos seus novos sufragâneos devendo ficar o original no arquivo do Império. A sua despesa foi de duzentos e noventa e oito escudos e vinte e cinco baiocos, moeda romana, cuja conta remeto também, inclusa. Deus guarde a Vossa Excelência. Roma, 15 de junho de 1827. Ilmo. e Exmo. Sr. Marquês de Queluz, Ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros, Monsenhor Vidigal”.

O Bispado do Rio Grande do Sul foi criado pela Bula Ad Oves Dominicas Pascendas, de 7 de maio de 1848, pelo saudoso amigo do Brasil, o Papa Pio IX, que se dignou de sagrar o segundo Bispo de Porto Alegre, Dom Sebastião Dias Laranjeiras. É o único Bispo brasileiro sagrado pelo Papa, honra insigne que se dignou a dar ao Brasil o único Pontífice que pisou terras brasileiras — o grande e imortal Pio IX. A cerimônia se realizou na Capela Sistina a 7 de outubro de 1860. Sentou-se o novo apóstolo do Brasil no solo pontifício, deu na presença do Pontífice a benção Papal e na mesa cedeu-lhe o Papa o lugar de honra. Ao despedir-se lhe disse: tome por modelo de suas ações ao Arcebispo da Bahia.

Ainda foi Pio IX que criou o Bispado Diamantino pela Bula Gravissimum Sollicitudinis de 6 de junho de 1854 e a diocese do Ceará pela Bula Pro Animarum Salute de 8 de julho de 1854, tendo como cidade episcopal Fortaleza, que nos mais antigos documentos eclesiásticos aparece no termo latino Arx ou In arce Seará.

Em 1741, escreve o meu pranteado antecessor Dom Agostinho Banassi, a Bula de Bento XIV dirigindo-se a vários bispos, incluía os do Brasil, onde declara os empenhos da Igreja na conversão dos índios e manifesta-se admirado de não haverem cessado todas as vexações, pelo que comina penas eclesiásticas neste sentido e afirma ter escrito a Dom João V para castigar a quem praticasse esses excessos. Era a grande voz romana mais uma vez a vibrar protetora do indígena perseguido.

Pouco tempo depois da descoberta da América, diz Vasconcelos, os naturais dessas regiões eram tidos por vários como não sendo homens. Havia quem os classificasse um pouco acima dos macacos. Doutrina que, espalhando-se pela nova Espanha, foi reprovada pela Bula Veritas Ipsa de Paulo III de 2 de junho de 1537. Assim concluía: “Em vista do que (ele, Santo Padre) determinava e declarava por autoridade apostólica, que os índios eram verdadeiros homens como os mais e não só capazes da Fé de Cristo, senão propensos a ela segundo chegava ao seu conhecimento; e, sendo assim, tinham todo o direito à sua liberdade, da qual não podiam nem deviam ser privados e tão pouco do domínio de seus bens, sendo-lhes livre lográ-los e folgar com eles, como melhor lhes parecesse, dado mesmo que ainda não estivessem convertidos. Pelo que os ditos índios e mais gentes só se haviam de atrair e convidar à Fé de Cristo com a pregação da palavra divina e com o exemplo da boa vida, sendo írrito, nulo, sem valor nem firmeza, todo o obrado em contrário da presente determinação e declaração apostólica”.

Em solene declaração pontifical — doutrina da religião, justiça, liberdade e caridade — recordada apostolicamente para o Brasil, foi defendida e praticada pelo missionário contra a cobiça dos aventureiros sem ideal, sem humanidade, sem cristianismo. Os Papas foram, pois, os grandes e desinteressados amigos de nossa Pátria. No começo da nacionalidade o Papado protege o caráter humano e a propriedade do índio; nos fins do segundo império, se ergue Leão XIII para advogar em nome de Cristo, pai de todos os homens, a liberdade da raça escrava.

“Na maneira de se exprimir de Leão XIII não vi a mínima vacilação, a mais leve preocupação de torcer o ensinamento moral para adaptá-lo às circunstâncias políticas. Vi tão somente a consciência moral brilhando como um farol, como uma luz indiferente aos naufrágios dos que não se guiarem por ela”. Assim comentava o grande Nabuco a sua célebre entrevista com o iluminado Pontífice que, depois da Abolição, destina a Rosa de Ouro à Imperial Redentora dos escravos como testemunha eloquente de sua augusta benevolência pela Princesa e pelo Brasil livre.

Na colônia, no império e na república, o Brasil mereceu sempre uma atenção especial da Santa Sé: O reconhecimento dos privilégios apostólicos do Padroado no Brasil colonial, no Brasil monárquico e imperial, a concessão de favores excepcionais e graças em toda a nossa existência política e religiosa até os dias presentes, as seculares relações diplomáticas entre o Vaticano e a nossa pátria e a permuta constante de afetos filiais e cortesias internacionais mostram à evidência que o Papa é uma personagem viva da História Nacional. Que bela e numerosa é hoje a hierarquia eclesiástica no Brasil! A Santa Sé constelou a nossa pátria do Cruzeiro de cruzes peitorais. São dezesseis as províncias eclesiásticas. As dioceses, prelazias e prefeituras se contam por dezenas. A princípio houve, até dos católicos, quem se tomasse de espanto e receio pela multiplicação de tantas mitras. Não ficariam os bispos como uma espécie de Guarda Nacional? Hoje se vê que o bem, resultante desta milagrosa multiplicação do pão pastoral, é incalculável. Esqueciam-se eles de que, no feliz pensamento de São Francisco de Sales, uma só alma, remida pelo Sangue tem direito a um bispo. E no Brasil imenso, vagam dispersos, sem luz, sem amor, sem Cristo, milhares!

Roma, para distinguir a Terra da Santa Cruz, vestiu da amplíssima púrpura romana um dos seus grandes filhos — este velho servidor da pátria, orgulho do meu estado e honra da Igreja brasileira, o Eminentíssimo Cardeal Arcoverde, Arcebispo do Rio de Janeiro. A púrpura cardinalícia flameja para toda a América do Sul nas mãos do Brasil católico.

De primeira classe é a nossa Nunciatura Apostólica, cuja representação diplomática por varões claríssimos e de grande devoção pela pátria brasileira, chamam-se eles Barona, exaltado calorosamente pelo Barão do Rio Branco, Aversa, Gasparri, nosso grande amigo, Aloisi Masella, já bem da simpatia brasileira em pouco tempo, bem aqui representado pela bela figura de padre e diplomata de Monsenhor Egídio Lari, tão dedicados ambos aos interesses católicos do nosso amado Brasil. Tem sido eles portadores queridos da amizade paterna, delegados nobres do coração do Papa. E como não há amizade sem lágrima, o Papa também tem chorado por nossa causa, e nenhum chorou mais do que Pio IX, chorou quando viu nos cárceres do Brasil dois bispos brasileiros — o douto e apostólico Dom Macedo Costa e o insigne confessor e mártir Dom Vital, de santa memória, arcanjo da Igreja do Brasil.

Chorava pela religião a majestade daquele augusto Pontífice que recebia entre carinhos os meninos do Colégio Pio Latino, destinando ao seminário uma verba especial, para que nas quintas-feiras jamais faltassem doces para os filhos da América. Sublimidade e doçura de Pai!

Quando o Brasil entendeu que devia ser uma República e os seus primeiros estadistas, num momento de ilusão, que a República deveria ser, para infelicidade nossa, agnóstica, os Papas não perderam o amor pelo Brasil. Leão XIII pensou logo no seu batismo e, numa recepção vaticana diante do Arcebispo Dom Jerônimo Tomé, dizia, acarinhando uma criança brasileira: “Havemos de fazer o Brasil uma República bem católica”. E puxava pelo r...

Os Sumos Pontífices são os criadores e protetores da nossa catolicidade, eles que abençoaram os nossos primeiros missionários, educadores da nacionalidade, enviaram os nossos pastores, suscitaram os nossos seminários, restituíram os nossos claustros gloriosos, martelaram os inimigos descobertos ou ocultos da verdadeira religião, criaram as nossas catedrais e basílicas e mandaram coroar solenemente as imagens da devoção nacional como p. ex. a Milagrosa Conceição Aparecida, Rainha do Brasil. Eles que tem honrado os nossos governos e as datas grandes da pátria com mensagens, condecorações raríssimas e representações esplendidas, como a embaixada brilhantíssima do Centenário; eles que em cada discurso a qualquer peregrinação nacional deixam palpitar um grande amor pelo Brasil.

Muito melhor do que eu, os brasileiros que vão a Roma o sentem. E o nosso grande patrício que ali está, o Exmo. Arcebispo Dom Sebastião Leme neste longo encontro de uma hora, bem melhor poderá dar testemunho da ternura do Pontífice pela nossa terra, nossa gente, nossos destinos históricos. E também, nessa ocasião solene, o Papa sentiu, por um dos mais belos, dos mais ricos, dos maiores e melhores corações da nossa raça, quanto o Brasil quer bem ao Vigário de Jesus Cristo na terra.

Pois bem, senhores. Esta nobre e tradicional Paróquia da Glória se reuniu hoje no seu belo e majestoso santuário, para cantar a glória sacerdotal desse continuador da amizade pontifical ao Brasil, desse grande missionário que por abnegados e cultos visitadores apostólicos percorreu o litoral e o sertão brasileiro, dessa águia apocalíptica que, olhando fixamente o sol do futuro nacional, resolve a fundação do seminário brasileiro, auxiliando o próprio pontífice esse centro cultural da intelectualidade católica e sacerdotal da Pátria com um avultado donativo.

Amor com amor se paga. É verdade que o amor como disse Lacordaire, desce mais do que sobe. É maior o amor do Pai do que o do filho. Mas o Brasil quer que o mundo todo saiba que no seu peito há uma flor que não murcha: a gratidão. As homenagens de toda a pátria católica são homenagens filiais ao grande benfeitor da consciência nacional.

A Paróquia da Glória, pelos expoentes maiores da sua espiritualidade católica, de sua cultura católica, de sua graça cristã e de sua família religiosa e do seu povo fiel ao Cristo, ajoelha-se diante do Grande Sacerdote, puro e sublime na sua velhice de outro, branco na sua batina pontifical e na imaculada alvura de seu longo apostolado e pede-lhe a benção de Pai e Hierarca Supremo, a benção do amigo da nossa grande Pátria providencialmente católica, a benção suave e carinhosa do maior de todos os Padres, mas também do Padre que um dia no Vaticano, num gesto indescritível, beijou a bandeira trêmula do Brasil.

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

As missões guaraníticas

A expressão “REDUÇÕES GUARANÍTICAS” designa as Missões de evangelização dos índios guaranis organizadas pelos missionários jesuítas no século XVII inicialmente no Paraguai e que se estenderam até o Brasil, na região do atual Rio Grande do Sul. Estes religiosos não se contentaram com um apostolado em pontos de catequese longínquos, isolados uns dos outros. Em vez disso, reuniram os índios em “mini-cristandades”, dedicando-se a uma evangelização profunda, protegida de uma possível má vontade dos colonizadores em relação aos índios.

Infelizmente, a cobiça, conflitos políticos europeus, e a influência da maçonaria provocaram o trágico desaparecimento dessas admiráveis Missões, mas a boa semente, cujos frutos Deus conhece, foi plantada e o exemplo dos missionários ficou como testemunho perene da caridade apostólica da Igreja.

Percorramos um pouco essa página da história...

I – Origem das Reduções

Em 1603, o governador Hernandarias reuniu em sínodo os prelados do território de Assunção (atual capital do Paraguai) e lhes anunciou sua intenção de:

  • pedir ao Conselho das Índias e ao Rei da Espanha a vinda de missionários jesuítas para evangelizar 150.000 indígenas guaranis
  • promulgar leis proibindo a escravização dos índios, praticada por espanhóis.

Seu desejo foi atendido, pois em 1608, o Rei enviou 13 jesuítas europeus decididos a empregar sua fé e suas forças a serviço deste nobre ideal: a conquista espiritual dos guaranis. Além disso, um visitador, Francisco de Alfaro, foi enviado para investigar sobre a situação miserável dos aborígines nas províncias. Como conseqüência dessa visita foram promulgadas Ordens visando melhorar a situação dos índios.

Os missionários estrangeiros aprenderam o guarani e reuniram os indígenas em Missões ou “Reduções” para melhor promover sua evangelização. Eles tiveram de enfrentar o ressentimento dos chefes das províncias e mais tarde as incursões dos bandeirantes de São Paulo, que fizeram calúnias e intrigas contra os missionários sob o pretexto de que eles “super-protegiam” os índios. O conhecido filme “A Missão” nos dá, sobre este ponto, uma idéia exata do terrível conflito em que os religiosos se tornaram corajosos advogados de defesa dos guaranis.

           

II – Os índios guaranis

Na época da descoberta da América, os povos guaraníticos se distribuíam de maneira descontínua por praticamente toda parte sul do continente americano. Eles são descendentes dos índios caraíbas que viviam ao norte da América do Sul. Alguns pesquisadores crêem que os caraíbas são de origem fenícia, outros afirmam que eles são de raça amarela, e muitos situam seus ancestrais na Polinésia. O certo é que provêm de regiões longínquas.

Ao longo de suas migrações, os guaranis se dividiram em diversos grupos, cujos nomes se originavam numa característica de seu território ou de seu chefe, o cacique. Por exemplo: os que viviam na região de Assunção, os índios cariós devem sua denominação ao cacique Caracará.

Alguns se cobriam com um manto de pele de onça ou com um avental de algodão adornado de plumas em toda volta, mas a maioria vivia praticamente nua. Os homens se enfeitavam com penachos e as mulheres com colares e pulseiras de garras e dentes de macacos. Todos andavam descalços.

A palavra “guarani”  significa “guerreiro”. De índole belicosa, eles estavam sempre em guerra uns contra os outros, por motivo de rivalidades de caça ou pesca. Entretanto, o historiador Werner Hoffman afirma que “o povo guarani foi o mais dócil e o mais receptivo à educação entre todos os índios sul-americanos”!

Bem proporcionados, eles eram robustos, de altura mediana e rosto redondo. Seus olhos eram muito escuros, o cabelo negro e liso e a pele de tom amarronzado. Eles não exteriorizavam seus sentimentos com gritos ou choros; seus sentimentos interiores nunca apareciam em seus rostos.

Era a murros e socos, jamais com uma arma, que resolviam os litígios entre parentes e amigos. Os homens se ocupavam da guerra e da caça, as mulheres, da tecelagem, do cultivo da terra e da cozinha.

Na guerra, eram fiéis ao chefe e se mostravam ferozes, corajosos e infatigáveis no combate.

Para se orientar, utilizavam o Ñandú-Pisá, o Cruzeiro do Sul. Esse povo nômade não era apegado a um solo e ignorava o patriotismo e a economia. Filhos de uma floresta rica em frutos e animais que lhe serviam de alimento, eles eram indolentes, aproveitavam o momento presente sem medo do futuro e não desconfiavam dos estrangeiros.

Os guaranis viviam pobremente, na dependência das semeaduras, da caça e da pesca. Para semear, guiavam-se pela posição das estrelas, depois de abater as árvores esperavam a chuva umedecer a terra e então plantavam as sementes. Obtinham colheitas abundantes de milho, mandioca. Sua alimentação era completa e equilibrada, suficiente para lhes assegurar uma boa saúde. Conhecendo perfeitamente o mundo animal e vegetal que os rodeava, eles apreciavam em particular a infusão de ‘mate’.

O sentimento religioso do guarani era interior. Eles ignoravam os ídolos. Seu templo era a natureza. Acreditavam em Tupã, o deus bom, o Ser supremo do universo que se encontrava na brisa e nos sons da floresta. Espiritual,Tupã não podia ser representado. Esse deus criou primeiro os animais e a floresta; depois, de muitas luas, criou o homem, a quem deu inteligência para dominar a natureza e vencer as feras. Um dia deus se retirou para ir viver no sol, que anuncia a alegria, a força e a saúde.

O ser mau é “Añá” e seu astro, a lua minguante, anúncio de desgraças e doenças.

Os guaranis acreditavam na imortalidade da alma e achavam que passariam a uma vida mais feliz, junto às estrelas do céu. Eles eram muito supersticiosos: sempre usavam um saco de couro sobre o ombro contendo três amuletos que o feiticeiro lhes dava, e que deviam lhes trazer felicidade: algumas garras, dentes e pedaços de pele de jaguar para obter uma caça abundante, espinhas de peixe para uma boa pesca e o “payé” para o amor: penas de caburé de irresistível poder.

Seus mitos vinham da natureza que os rodeava: havia o deus do raio, do trovão, da tempestade, das planícies, das águas e outros gênios tropicais. O “Caáyary”, espírito da erva, o “Caagüi-porá”, senhor da floresta, o “Chochí”, pássaro-bússola na imensidão da natureza. Recitavam cantos simples em que os personagens eram o macaco, o papagaio, a raposa, a tartaruga, o jaguar... e a lenda do peregrino branco que percorreu estas regiões, ensinando o cultivo do milho, transformada com o tempo na lenda cristã de “Pai-Zumé”, São Tomás, cujos passos ficaram gravados principalmente no Paraguai.

O guarani contava o tempo em luas que equivaliam aos meses, e em invernos que representavam os anos. Ele conhecia as estações e algumas estrelas como o Cruzeiro do Sul e as Sete Cabras.

Tinham bons conhecimentos de botânica, zoologia e medicina. O médico, na realidade, era o feiticeiro, um homem que se consagrava aos cuidados dos doentes, e transmitia sua ciência de geração a geração. Os mais experientes eram tidos como sábios. O bruxo usava analgésicos e praticava a cirurgia, abria os abscessos, usava cataplasmas, ventosas, utilizava a argila para as fraturas. A flora da região lhes oferecia numerosos remédios naturais para qualquer tipo de doença. Respeitado, o feiticeiro facilmente recebia presentes de sua escolha: peles de jaguar e alimentos variados. Rico, ele podia ter várias mulheres, a exemplo do chefe da tribo.

Os guaranis não sabiam ler nem escrever; seu maior patrimônio cultural era a própria língua, e eles se mostravam orgulhosos disso, esforçando-se por falar com fineza e eloqüência. O padre Lozano escreveu em 1754: “Esta língua é uma das mais ricas e eloqüentes do mundo. Ela foi o francês da América antiga, a língua de referência entendida por todas as tribos”. O guarani dizia que sua língua fazia murmurar as águas e as florestas, porque tinha sido criada pelos ventos. A língua guarani, de fato, sobreviveu à contingências históricas posteriores ao descobrimento e perpetuou-se até nossos dias, no Paraguai e no nordeste argentino.

Gostavam de dança e de música.

Os guaranis dançavam desde os tempos mais remotos; com a dança eles expulsavam os castigos, a tempestade, o inimigo e triunfavam do mal.

Gostavam muito de cantar. Cantavam em honra de “Tupã”, pedindo-lhe uma vida longa; cantavam também uma espécie de “melisma” antes de sair de casa, para encontrar numerosos javalis. Eles cantavam para que “Tupã” diminuísse a ferocidade dos ventos que arrancam as árvores onde as abelhas guardam o mel. Seu único instrumento musical era uma simples flauta de bambu, com a qual eles imitavam os sons da floresta.

Mais tarde, os missionários acharam na música um aliado precioso para atrair e conquistar os guaranis. É claro que precisariam também, sobretudo, de paciência, de bondade e abnegação para civilizar a cristianizar essas almas pagãs. As Reduções constituirão o campo fértil e privilegiado de sua ação.

 

III ― As primeiras Reduções guaraníticas

Os primeiros jesuítas chegaram ao Paraguai em 1609. Os R.P. Roque Gonzáles de Santa Cruz e Vicente Griffi foram designados para o trabalho junto aos guaycurués, os R.P. Marcial Lorenzana e Francisco San Martin junto aos Paranaés e os R.P. José Cataldino e Simon Masseta foram enviados a Guayrá. O governador Hernadarias fez de tudo para facilitar a instalação dos missionários, oferecendo-lhes guias guaranis e o material necessário; foi oferecida até mesmo uma soma de dinheiro correspondente ao que podia receber um “Cura nas Índias”.

A primeira redução jesuíta foi a de “San Ignácio-Guazú” (Santo Inácio o Grande), fundada no Paraguai em 1609 pelos padres Lorenzana e San Martin. Os aborígines paranaés mostraram-se muito receptivos à ação dos missionários, que conseguiram lhes mostrar as vantagens de ter uma família e um lugar estável para viver. Suas paixões selvagens foram vencidas pela força da convicção, da paciência, da bondade e exemplo dos jesuítas.

Infelizmente o mesmo não ocorreu com os índios guaycurués: depois de dois anos de intensos esforços para civilizá-los, o zelo do Padre Roque, futuro mártir, ainda não tinha dado resultados. Nem mesmo a música foi capaz de movê-los. O missionário juntou-se então à redução de “San Ignácio-Guazú”, onde substituiu o P. Lorenzana no comando da missão.

Em Guayrá, os Padres Cataldino e Masseta fundaram, em 1610, as reduções de Loreto e San Ignácio-Mini, que reuniram várias tribos; o Padre Montoya, eleito mais tarde superior da missão, fundará as missões de San Javier de Tayatí, Encarnacion de Nantinguin, San José de Tucutí, Concepcion e San Pedro de Gualacós, Siete Angeles de Tayaobá, Santo Tomás, San Pablo, San Antonio e Jesus e Maria.

Os esforços sobre-humanos dos missionários foram recompensados espiritual e materialmente: as missões eram tão prósperas que as tribos vizinhas por pouco não as atacavam para pilhá-las; os jesuítas criaram então um pequeno exército de guaranis comandados pelo cacique Maracanã que destacou-se em famosos combates.

O bem-aventurado Roque Gonzáles de Santa Cruz

Nascido em Assunção em 1507, esse padre trabalhou no Paraguai, no Brasil, na Argentina e no Uruguai, especialmente junto dos indígenas mais humildes. Jesuíta enérgico e culto, cognominado o “Demóstenes paraguaio”, compôs inúmeros escritos em guarani, assim como numerosas orações aprovadas por todas as reduções (antes disso, o Padre Bolaños, franciscano, tinha composto um catecismo em guarani, cuja capa vemos aqui). Ignorando o repouso, ele percorreu distâncias consideráveis, afrontando os feiticeiros e os chefes de províncias espanhóis. Venerado pelos indígenas, foi agricultor, criador de gado, mineiro, pedreiro, lenhador, médico, artesão... Ensinou o canto, a pintura e o comércio, edificou as igrejas e moradias para o bem-estar de seus guaranis. A redução de San Ignácio-Guazú brotou de suas mãos. Seus habitantes viviam felizes sob sua paternal direção. Ele fundou a missão de Itapuã em 1615, logo depois a de Yaguapuá em 1618 onde os guaranis formaram uma grande comunidade; atacado pela peste, o Pe. Roque conseguiu curar-se preparando um licor à base de plantas da região.

Por ordem de seu superior, ele explorou em uma piroga o rio Paraná, depois fundou, em 1620, a redução de Conceição num afluente do Uruguai. Os habitantes da região eram conhecidos por sua ferocidade; o Pe. Roque não temia a morte, trazendo sempre consigo um quadro da Virgem Maria, a Conquistadora, ao qual ele atribuía seus sucessos apostólicos.

Mais tarde, em 1626, atravessou o Uruguai e fundou a missão de São Nicolau, em terra brasileira.

Depois, ele iniciou a missão de Yapeyú, destinada a ligar as reduções a Buenos Aires; após essa fundação, organizou a de Santa Maria Del Iguazú, nas proximidades do magnífico espetáculo das cataratas. Ele fundará em seguida, perto da embocadura do rio Ibicuy, a vila de Purificação. Os indígenas da região, nômades, não gostavam de cultivar a terra e, aproveitando-se de uma ausência de seu pai espiritual, eles fugiram em direção ao norte. O missionário partiu a procura deles e explorou em sua companhia a região, atualmente os estados brasileiros de Rio Grande do Sul e Santa Catarina, famosos por suas florestas exuberantes e suas terras ricas em pedras preciosas. O Pe. Roque fundou então a redução de Candelária, onde os indígenas finalmente acharam seu equilíbrio.

Em seus últimos anos de vida, o Pe. Roque teve como colaboradores dois jovens jesuítas: os Padres Alonso Rodriguez e Juan de Castillo. Ele penetou com eles as florestas de Caaró, ricas em flores de perfumes exóticos, povoadas de pássaros esplêndidos mas também de animais ferozes. Reinava nessa região Ñezú, cacique poderoso, chefe de 500 famílias. O Pe. Roque os catequizou e reuniu-os numa vila antes de confia-los ao Pe. Juan de Castillo que construiu sua cabana perto da de Ñezú. O cacique era rebelde e orgulhoso. Arrependendo-se de ter prometido deixar suas numerosas esposas, ele negou a religião cristã e resolveu eliminar os jesuítas.

Os Padres Roque e Alonzo, longe de suspeitar das intenções do cacique, tinham-se afastado das redondezas de Ñezú para construir, com a ajuda dos indígenas, uma nova vila. Ñezú, com o coração cheio de ódio, procurava livrar-se dos jesuítas, que passou a considerar como rivais. Ele encarregou os caciques Cuniaracuá, Carupé e Caaburá de matar os religiosos, de incendiar a capela e de atirar ao fogo os corpos para que nenhum vestígio de cristianismo ficasse em sua vila. Ñezú, em pessoa, se encarregaria de fazer desaparecer o Pe. Juan Del Castillo.

Seu plano foi realizado: no dia 15 de novembro de 1628, quando o Pe. Roque instalava o sino da nova capela, um aborígine bateu violentamente em sua cabeça; o Pe. Rodriguez foi morto da mesma maneira enquanto recitava seu breviário. Os indígenas arrastaram os corpos até a capela, incendiaram-na e destruíram a estátua de Nossa Senhora Conquistadora, o cálice e o crucifixo. Um cacique, catecúmeno, tendo repreendido os assassinos, também foi morto imediatamente.

No dia seguinte, eles constataram que os corpos dos missionários tinham sido poupados pelas chamas e do coração do Pe. Roque elevou-se subitamente uma voz: “Vocês mataram aquele que os amava e que queria seu bem; mas vocês só mataram o corpo porque minha alma está no céu. O castigo não tardará a vir, meus filhos virão puni-los por terem maltratado a imagem da mãe de Deus. Mas eu voltarei para os ajudar porque vocês hão de sofrer muito por causa de minha morte”. Trinta e três testemunhas assistiram a esse prodígio. Ouvindo esta voz, os assassinos encolerizados arrancaram o coração, transpassaram-no com uma flecha e lançaram de novo os restos mortais dos padres no fogo. O coração do Pe. Roque ainda permaneceu intacto.

Na sexta-feira, 17 de novembro, às 15 horas, começou o martírio do Padre Juan Del Castillo, que tinha acabado de rezar vésperas. Os emissários de Ñezú amarraram-lhe os braços, alguns índios cobriram-no de golpes enquanto o empurravam em direção à floresta. O missionário, surpreso, perguntou: “Meus filhos, o que estão fazendo?” Eles responderam que iam matar todos os missionários e que os padres Roque e Alonzo já estavam mortos. “Nesse caso, conduzam-me para perto deles e matem-me em sua companhia”, respondeu oreligioso que foi imediatamente jogado por terra. Seu corpo, ferido pelas pedras e espinhos, tornou-se rapidamente, da cabeça aos pés, uma só ferida. O mártir repetia: “Tupanrekê”. “seja por amor de Deus”, em guarani, e “Jesus, Maria”; um testemunho ouviu-o dizer também: “Prendei-me! Vós matareis meu corpo; mas eu irei para o céu!” Depois de ter transpassado seu corpo com flechas, eles lapidaram-no às margens do Ijui e abandonaram-no dizendo: “Que as onças o devorem!” Estas feras, numerosas naquela região, foram menos cruéis que os homens e respeitaram o seu corpo. Mais tarde, alguns índios queimaram o cadáver. Eles entraram também na cabana do jesuíta, destruíram seu cálice e paramentos. Ñezú, triunfante, vestiu-se com a alva e a casula do mártir e, enfeitado de penas, dirigiu-se ao povo: “Doravante, todos vocês serão felizes, suas plantações prosperarão e vocês poderão viver segundo os costumes de seus antepassados. Sou eu quem agora batizará seus filhos”. Fez então que se aproximassem alguns batizados, raspou-lhes a língua para tirar o sabor do sal bento, raspou-lhes a cabeça para eliminar a unção do Santo Crisma, e por fim, lavou-lhes a cabeça, pretendendo assim poder arrancar-lhes todas as graças batismais.

O superior dos religiosos, O Padre Romero, rapidamente informado, enviou duzentos guerreiros a Caaró para recolherem os restos mortais dos mártires. Eles combateram e venceram os indígenas rebeldes. Ñezú teve um trágico fim, seus cúmplices (doze dos principais assassinos, dentre os quais onze se converteram) foram condenados à morte pela justiça espanhola, mesmo tendo os religiosos pedido indulgência. A profecia do coração do Pe. Roque realizou-se ao pé da letra. Esta insigne relíquia foi colocada em seguida num relicário e encontra-se hoje no Paraguai, em Assunção, na Igreja de Cristo Rei, onde muitos milagres lhe são atribuídos.

No dia 22 de janeiro de 1934, o Papa Pio XI declarou bem-aventurados os “Três Mártires das Missões”. O local do martírio, perto da Missão de São Miguel, tornou-se rapidamente um centro de peregrinação, inaugurado pelos próprios guerreiros do Padre Romero.

 

IV ― A organização e a vida nas missões

As Reduções, compostas de três ou mais jesuítas e mais ou menos 4.000 indígenas, eram sempre construídas segundo um mesmo plano.

A planta (abaixo) da Missão de São Miguel mostra muito bem o esquema de uma Redução: uma praça central (com 130m de extensão) em torno da qual se encontrava a igreja, com a casa das viúvas e órfãos (“cotiguaçu”) de um lado e a escola, a casa dos missionários e os ateliês do outro; atrás da igreja se estendiam o pomar e a horta. As moradias dos guaranis se erguiam do outro lado da praça. Nos outros dois lados situavam-se o conselho da Missão, uma portaria, uma hospedaria, capelas, um relógio de sol e mais adiante, uma prisão. No centro erguia-se uma imagem da Santíssima Virgem  ou do santo padroeiro da Missão. A praça servia para as grandes festas religiosas ou civis.

As casas eram de pedra, retilíneas, separadas por corredores largos; os tetos eram de telha, os muros tinham um metro de espessura. Essas habitações tinham uma chaminé e, às dependências principais juntavam-se outros aposentos. Mais além, ao redor da Missão, trincheiras e um muro de defesa a protegiam contra os indígenas selvagens e os bandeirantes.

A igreja era o único luxo da vila. Os talentos artísticos dos guaranis e suas aptidões manuais permitiram a edificação de verdadeiras obras primas de pedra talhada. O altar mor era dourado, os cálices ornados de pedras preciosas brasileiras, os sinos fundidos na redução de ‘Apóstolos’ com o cobre da região. As imagens de madeira pintada também eram feitas por escultores indígenas, sob a direção dos jesuítas.

Os altares eram abundantemente ornados de flores, muito numerosas na região durante todo o ano. Cerimônias esplêndidas, com coros e orquestras embelezavam as festas solenes. A Semana Santa era acompanhada de representações da Paixão; Natal e festas de Nossa Senhora eram particularmente solenizadas, assim como Corpus Christi, com uma magnífica procissão, e também a festa de Santo Inácio, padroeiro ilustre das Reduções. Depois da missa da manhã, seguiam-se uma procissão e alguns exercícios militares na praça, assim como provas de cavalaria e um simulacro de luta. Ao meio dia, todos se reuniam para uma grande refeição. À tarde, uma peça de teatro, alusiva ao acontecimento, era interpretada; seguiam-se danças coreográficas acompanhadas de uma orquestra; nos entreatos, artistas recitavam poesias ou tocavam música com instrumentos de sopro ou de corda.

A perfeição artística era tal que as representações podiam ser dignamente feitas diante de reis e imperadores.

E quando a noite estendia seu manto estrelado, fogos de artifício multicolores concluíam essas horas de alegria e de luzes.

O Governo Civil era exclusivamente indígena: era constituído de um conselho (“cabildo”) composto pelo cacique ― a maior autoridade ― por três oficiais reais, três administradores, alguns almotaceis e pelos representantes dos bairros da Missão. O cargo do cacique era hereditário, mas em certos casos o governo civil de Buenos Aires e do Paraguai o designava, sob a recomendação dos padres jesuítas. Todos os outros membros do conselho eram eleitos por votos (o novo Conselho era eleito pelo anterior) ao fim de cada ano. Outros dois cargos eram importantes: o de “Carapiraracuara” (porteiro) e o de “Tuparerecuara” (sacristão). A execução da justiça era atribuição dos jesuítas: a pena era um autocastigo ou chicotadas; algumas vezes a prisão. Certas fontes falam do exílio como pena suprema.

Se eram os jesuítas que davam as instruções, eram os próprios guaranis que asseguravam a organização e o cumprimento dos trabalhos. Assim reinavam a harmonia e a disciplina sob a presença da silhueta amiga do missionário. O sino chamava às atividades: orações, catecismo, escola, trabalho...; ir à Missa durante a semana era voluntário. O trabalho durava seis horas por dia. A partir de sete anos, a criança participava da vida civil e religiosa da Redução. Completava sua educação cristã e sua instrução musical e coreográfica num atelier se tivesse dons artísticos. Caso contrário, trabalhava nos campos. As escolas tinham bons professores indígenas que ensinavam os pequenos a ler, escrever, contar, assim como as bases da doutrina cristã. As mulheres aprendiam também a cozinhar e a costurar. Os mais jovens trabalhavam, colhiam frutos, cuidavam das flores do jardim, caçavam os insetos e animais nocivos, treinavam o arco e flecha.

Cada família dispunha de partes de terra, uma chamada “Tupambae” (propriedade de Deus), a outra “abambae” (propriedade do guarani), que ela devia trabalhar e cultivar para mais tarde passar a seus descendentes.

As primeiras culturas eram a de milho, mandioca, batata, legumes, árvores frutíferas e erva mate, muito consumida na Redução. Como falamos acima, esses tipos de trabalho eram novos para os guaranis, especialmente o de fazer provisões.

A “propriedade de Deus” era destinada à comunidade e para as necessidades de base da Missão: pagamento de impostos , trocas, vendas, etc. O indígena devia trabalhar nesse local dois dias por semana, três horas pela manhã e três pela tarde. A “propriedade do indígena” era destinada ao seu próprio consumo.

Além do mais, os guaranis consagravam-se também à extração de pedras para o trabalho de construção. Faziam pontes de pedra, moinhos hidráulicos, subterrâneos, canais de irrigação e fontes de água pura (fotos).

Aprimoravam também a criação de gado, sobretudo na atual região de Corrientes. Em 1768, contavam-se 656.333 cabeças, sem falar dos outros animais que completavam sua economia.

Faziam trocas entre eles mesmos e com as Reduções vizinhas. Vendiam também nos centros urbanos espanhóis de Santa Fé, Córdoba, Buenos Aires e exportavam para outros países. O mercado central das Reduções situava-se em Santa Fé (Bs. As.). Os padres procuradores, ecônomos da Companhia de Jesus nas Reduções, faziam as trocas comerciais e defendiam os interesses da ordem face às autoridades. Iam também à Europa para vender o couro. Podiam levar numa só viagem 30.000 vacas, o que era uma fortuna. Os navios voltavam carregados de papel, livros, seda, telhas, pinturas, ferramentas, instrumentos de cirurgia, metais e sal em abundância...

A capital das trinta Reduções era Candelária e a sede principal de todas elas encontrava-se em Córdoba.

 

Atividades do dia

4h00: O hebdomadário tocava o sino para o despertar.

4h30: Oração mental.

5h00: O porteiro abre as portas para os sacristãos, os cozinheiros e os tocadores de tambor acordam as crianças. Os padres do setores são informados.

5h30: O sino chama para a Missa.

6h00: Missa.

7h00: Os trabalhos do dia são distribuídos de acordo com a autoridade civil. O café da manhã é servido às crianças. Ensaio de orações.

8h00: Visita aos doentes, cerimônia de enterros. Depois tomam mate, antes de se aplicarem ao trabalho.

8h30: As crianças vão para a escola. Os professores dirigem seus trabalhos.

9h00: Confissão dos adultos, controle de atividades escolares e dos trabalhos nos ateliês.

11h00: Os cozinheiros levam o almoço aos doentes.

12h00: Almoço.

13h00: Descanso.

14h00: Retomada dos trabalhos.

16h00: Catecismo.

18h00: Oração, colação, acompanhamento dos defuntos.

19h00: Recitação do Ofício; cada um volta para sua casa.

20h00: Jantar.

20h30: “Apaga-se a fogueira”

A vida artesanal e cultural

Os artesãos e artistas guaranis: tecelãos, escultores, pintores, metalúrgicos, impressores, historiadores rivalizavam em competência, segundo o testemunho de numerosa peças que chegaram até nós.

O mais surpreendente foi, talvez, a criação da primeira gráfica na Redução de Loreto em 1700 pelos padres Serrano e Neuman; a de Buenos Aires é posterior. Lá foram feitos um ‘Martirológio romano” (a obra impressa mais antiga, conservada na Argentina, realizada em 1705 pelo indígena Juan Yapai), “A diferença entre o temporal e o eterno”, de Juan José Nieramberg e numerosos outros livros como calendários, tabelas astronômicas, partituras de canto...

As Missões possuíam geralmente uma boa biblioteca (Loreto, mais de 300 livros, Corpus por volta de 400, Santiago mais de 180, Candelária, 4724).

No colégio aprendia-se a ler e escrever em três línguas: guarani, espanhol e latim. Aplicavam-se particularmente à música. Em San Ignacio, funcionou um dos primeiros conservatórios de música (a foto mostra a entrada da sala de música), com seus próprios cantores e instrumentalistas: violinistas, violonistas, flautistas e organistas. As orquestras guaraníticas eram compostas de violinos, trompetes, címbalos, harpas, violões, etc., e não tinham rival no Rio da Prata nem no Paraguai. Sua competência era tal que os governadores os convidavam para apresentarem-se em Buenos Aires, na festa de San Ignacio. Pouco a pouco os indígenas começaram a fabricar seus próprios instrumentos ( o melhor artesão foi um índio de São Miguel, Ignacio Paira ), sob a direção de grandes profissionais jesuítas, como o Pe. Sepp, que construiu em Candelária o primeiro órgão de madeira da América. Fez igualmente, em Yapeyu, as primeiras harpas indígenas que obtiveram grande sucesso. O primeiro mestre de orquestra foi o padre belga Juan Vaseo, antigo músico da corte.

O teatro ocupava também um lugar importante. Os índios mais dotados interpretavam vidas de santos ou de personagens célebres. Certas obras, vindas da Europa, eram traduzidas para o guarani, outras eram escritas na própria Redução. A língua Guarani, com muitas nuances, exprimia perfeitamente o pensamento e os sentidos. Quase sempre os grupos de teatro eram convidados para ir interpretar obras clássicas.

No século VIII os aborígines forneceram intelectuais e artistas de valor, como Nicolás  Yapuguay, cacique e músico da Redução de Santa Maria. Ele escrevia em guarani com grande clareza e elegância, tendo dois de seus livros sido levados à gráfica. O índio Melchor  escreveu a história de sua cidadezinha Corpus Christi. O índio Vásquez de Loreto era também um bom escritor. O guarani Kabiyú era um excelente pintor, que por volta de 1618 fez maravilhas, como uma Virgem das Dores, que hoje em dia se encontra em Buenos Aires. Em São Tomé vivia o ourives e escultor Gabriel Quiri; ele trabalhava com ouro, prata, pedras preciosas (ametista e topázio) e quartzo como os melhores especialistas europeus.

Com os metais extraídos das minas (ouro, cobre, prata, ferro) os indígenas faziam verdadeiras obras de arte destinadas principalmente à ornamentação das igrejas. Fabricavam também utensílios e armas.

O trabalho na madeira suscitou também artistas talentosos,  autores de numerosas estátuas policromadas. Dentre eles destacamos o índio José, que fez em 1780 uma estátua do “Senhor da humildade e da paciência”, conservada na Igreja de São Francisco de Buenos Aires, e considerada um dos marcos iniciais da arte nacional argentina.

Numerosos jesuítas que chegaram às missões já eram conhecidos na Europa por sua habilidade num ou noutro domínio técnico ou artístico. Contribuíram muito para a excelente formação dos guaranis. A tal ponto que a cultura geral das missões jesuítas ultrapassava aquela de algumas cidadezinhas espanholas! Eis alguns nomes destes jesuítas, entre os mais famosos:

―    Juan Primoli (que construiu a igreja de São Miguel, cuja maquete vemos ao lado) e Andrés Blanqui, arquitetos.

―    José Brassanelli, arquiteto, pintor e escultor.

―    Luis Verger e José Grimau, pintores.

―    Carlos Frank, carpinteiro e engenheiro mecânico.

―    Cristián Mayer, relojoeiro.

―    Buenaventura Suárez, fundidor de sinos e astrônomo, que ficou célebre até na Ásia por seu lunário publicado na Europa.

―    Antônio Sepp, considerado o pai da siderurgia argentina.

E outros geógrafos, botânicos, médicos, especialistas em armas e zoólogos, chamados pelos jesuítas para ensinar os guaranis. Todos estes mestres se fizeram guaranis com os guaranis para civilizá-los. Merece menção à parte a estátua de São Miguel, da missão de mesmo nome, representando o Arcanjo tendo sob os pés o demônio... com os traços e vestimentas dos bandeirantes, cuja crueldade e cupidez foram uma das causas do fim das Reduções

 

V ― Os bandeirantes

Os jesuítas fundaram cerca de 60 missões, mas somente 30 (com mais de 100.000 aborígines) alcançaram um verdadeiro desenvolvimento: 8 no Paraguai, 7 no Brasil e 15 na Argentina (4 na província de Corrientes e 11 na de Misiones) – ver mapa abaixo. De fato, muitas sofreram ataques incessantes dos bandeirantes, cujo objetivo era caçar guaranis e vendê-los como escravos. Em 4 anos eles destruíram 4 vilas das Missões e capturaram 60.000 aborígines. Porque essa terrível caça ao ser humano e esse obstáculo ao apostolado da Igreja? Quem eram esses bandeirantes?

A Companhia de Jesus, instalada em Guayrá, começou a procurar um caminho através do Brasil que conduzisse ao Atlântico. Apesar de viverem mais ao norte, em São Paulo, os bandeirantes interditaram qualquer avanço jesuíta ou espanhol. Eles reagiram violentamente ao impulso missionário e à tentativa de colonização espanhola, atacando as reduções e capturando os indígenas civilizados. No começo, os jesuítas tentaram resistir a essas agressões, não hesitando a partilhar a sorte dos indígenas quando não conseguiam livrá-los do cativeiro. Desse modo chegou-se a ver os Padres Masseta, Mansilla e Ruiz acompanharem os guaranis acorrentados para pedir  justiça às autoridades de São Paulo.

Os missionários escreveram relatórios ao Conselho das Índias sobre esses ataques assim como sobre as intromissões dos mestiços bandeirantes ― filhos de portuguesas e de índios ― até em regiões pertencentes à Espanha.

A Coroa portuguesa, sensível a esses pedidos, tinha ordenado que os escravistas fossem castigados e os aborígines, libertados. Foi em vão. Os paulistas utilizaram como pretexto um documento do rei de Portugal, Dom Sebastião, datado de 1570, que autorizava pegar como escravos os indígenas prisioneiros de guerra; legitimavam dessa maneira todo abuso, aproveitando-se de que os escravos tinham sido capturados em território português. O Guayrá era espanhol, mas porque privar-se de ir lá e capturar aborígines bastante úteis para trabalhar no campo e nas minas? Além disso, os indígenas civilizados pelos jesuítas eram mais capazes e menos agressivos do que os indígenas selvagens!

Os famosos bandeirantes Antônio Raposo Tavares e Manuel Pires atacaram o Guayrá com 2.000 índios tupis (tribo do leste do Brasil dominada pelos paulistas). O assalto foi extremamente violento, um padre jesuíta foi morto, os outros maltratados e, apesar de sua bravura, 30.000 indígenas guaranis foram aprisionados e conduzidos algemados a São Paulo.

Os padres Masseta  e Mansilla acompanharam-nos a pé até São Paulo e depois foram ao Rio de Janeiro para pedir justiça. Mas os ricos bandeirantes lusitano-brasileiros não quiseram ouvir nada, afirmando que as Reduções guaraníticas eram “um império cultivado, mas tirânico e injusto, uma república infame, um órgão perverso”. Em Portugal, repetiam-se as mesmas mentiras: “Os jesuítas acusavam Portugal de roubar indígenas catequizados nas Reduções para fazê-los trabalhar como animais, mas, na realidade, as missões eram, elas próprias, um império de índios escravizados” ou “os religiosos incitavam os índios a uma resistência armada, dando-lhes boas armas e ensinando-lhes as estratégias e táticas modernas”. Os bandeirantes detestavam as Reduções construídas no Guayrá, nas terras meridionais do Brasil, porque elas lhes impediam de alcançar a fronteira oeste até o rio Paraguai, limite geográfico pretendido de seu país.

É verdade que o imenso Brasil deve sua amplitude geográfica e uma boa parte de sua configuração atual às “realizações” dos bandeirantes, mas é igualmente evidente que eles foram a causa mais direta da ruína das Missões do Guayrá e do Tapé.

Essas contrariedades acabaram por vencer os jesuítas que, de comum acordo com os caciques guaranis, decidiram abandonar para sempre as treze Missões do Guayrá, fundadas com tanto sacrifício e abnegação. Foi o grande êxodo de 1631.

 

O grande êxodo

Essa migração lenta e dolorosa de 12.000 indígenas guaranis teve por chefe o jesuíta Antônio Ruiz de Montoya, seguido pelos padres Suarez, Martinez, Espinosa, Contreras, Masseta, Cataldino e outros ainda. A perda nas cataratas no Iguaçu de várias pirogas com o carregamento de provisões, chuvas torrenciais, insetos de incrível voracidade, os obstáculos naturais, a peste e outras tantas dificuldades consideráveis fizeram do Padre Montoya um verdadeiro herói que, como um pai, conduziu os guaranis sãos e salvos até as Reduções argentinas.

Os nomes das antigas Reduções foram conservados; o mapa (abaixo) nos mostra o lugar definitivo das Missões jesuítas. Deve-se notar que as sete Reduções brasileiras se estabeleceram definitivamente depois da vitória de Mborore, que impediu por muito tempo ataques posteriores de bandeirantes paulistas.

 

A batalha de Mborore

Em 1639, os bandeirantes atacaram a vila de Xerez, em terra paraguaia, e ameaçaram Assunción, sempre com o pretexto de chegar até o rio Paraguai, limite geográfico, diziam eles, do Brasil. O governador do Paraguai, Don Pedro Lugo de Navarra, pediu ajuda a 4.000 indígenas das Missões guaraníticas. A administração colonial espanhola tinha dado autorização aos guaranis para utilizar armas de fogo, autorização que será, em 1643, confirmada pela coroa espanhola.

Numa manhã de março de 1641, chegaram ao rio Mborore 450 paulistas, acompanhados de 2700 índios tupis, navegando 300 pirogas.

O general guarani Ignacio Abiaurú, ajudado pelos irmãos leigos Domingo Torres e Antonio Bernal, reuniu seus 4.200 soldados, munidos de flechas, lanças, canhões e de 250 arcabuzes. A luta, de uma violência extrema, durou três dias. Os paulistas foram vencidos e vários índios tupis passaram para  lado dos guaranis civilizados.

O general Abiaurú tornou-se uma figura célebre entre os heróis guaranis. Outras vitórias se seguiram em 1647, 1651 e 1655. Depois disso, as tropas paulistas não ousaram mais avançar por longo tempo na direção oeste, onde as sete reduções brasileiras de São Francisco Borja (1682), São Nicolau (1687), São Miguel (1687), São João Batista (1697) e Santo Anjo da Guarda (1706) alcançaram um pleno florescimento até 1750, ano do Tratado de Madri.

 

VI ― O FIM DAS REDUÇÕES

O tratado de Madri (1750)

Uma novidade surpreendente chegou um dia às Missões: “Um tratado de permuta”, um tratado de troca, tinha sido assinado em Madri entre Espanha e Portugal em favor dos interesses portugueses. A colônia de Sacramento (o Uruguai) e as ilhas Filipinas tornavam-se espanholas, enquanto que as sete Reduções do Rio Grande do Sul (chamadas “Os Sete Povos das Missões”) tornavam-se portuguesas. Tinha sido decidido que os índios sairiam das Reduções e o governo português daria 4.000 pesos a cada vila. Esse tratado pode ser explicado pelo parentesco entre Fernando VI de Espanha, casado com Bárbara de Bragança, e o monarca português, pai de Bárbara, mas também pela poderosa influência da maçonaria portuguesa, da qual era membro ativo o tristemente célebre ministro português, Marquês de Pombal, inimigo ferrenho dos jesuítas...

 

A guerra guaranítica

Os 3.104 guaranis das sete Reduções se recusaram a deixar suas terras, suas casas, suas igrejas. Os padres jesuítas não conseguiram convencê-los a ir embora... Eles consideravam injusta a ordem do rei, a quem eles tinham sempre servido fielmente. Iam eles deixar para os bandeirantes, seus terríveis inimigos, os frutos de tantos anos de trabalho? Impossível; preferiam desobedecer, com armas na mão, à ordem injusta do rei.

Seu chefe era o general de cavalaria Tiarayu, muito popular, conhecido pelo nome de Sepé. Era considerado, pela sua coragem e sua habilidade no combate, como o mais terrível guerreiro da época. Não muito longe, as tropas espanholas e portuguesas aguardavam prontas para o combate, caso as ordens reais não fossem respeitadas.

A guerra durou de 1753 a 1756.

O primeiro assalto terminou com a vitória dos espanhóis e dos portugueses, fortemente armados. Por ocasião de um segundo combate, Sepé foi feito prisioneiro, conseguindo fugir. Em 1756, ele chefiou novamente um exército guarani, agora mais forte do que nunca. Mas o exército espanhol-lusitano obteve a vitória e Sepé, a alma de seus soldados, foi morto em combate. A piedade popular conta que os indígenas viram então um cavalheiro montado num cavalo de fogo entrar no céu...

O número de guaranis mortos em combate foi enorme; entre os corpos sem vida estendidos sobre o campo de batalha, contavam-se vários jesuítas que tinham tentado proteger seus filhos revoltados.

O general Nicolas Languirú sucedeu Sepé. Mas ele também sucumbiu durante a sangrenta batalha de Caybaté. Com sua morte, os guaranis, vencidos, tiveram de deixar suas terras. Assim terminaram as guerras guaraníticas.

É claro que essas guerras são conseqüências das manobras do Marquês de Pombal, desejoso de acabar com o poder militar indígena que punha obstáculo, sob a proteção e o controle do inimigo jesuíta, à expansão territorial portuguesa no Brasil. Além do mais, os adversários dos jesuítas eram numerosos, poderosos e cobiçavam a riqueza das Reduções guaraníticas, cuja organização era admirada da Europa...

 

A expulsão dos jesuítas e o fim das Reduções

Uma campanha de difamação foi lançada contra os jesuítas na Europa e na América. Os missionários eram acusados de suscitar a guerra guaranítica e de conspirar contra a monarquia  para instaurar uma república independente. Os ministros liberais Aranda, Floridablanca e Campomanes acusavam particularmente os jesuítas de frear o desenvolvimento da população da América, proibindo os indígenas de trabalhar nas comendas (das quais conhecemos os métodos); eles os acusavam também de não exigir dos indígenas o uso da língua espanhola e de fazê-los trabalhar de maneira excessiva para poder enviar milhões de pesos ao Superior Geral da Companhia , etc., etc....

O ímpeto dos detratores foi tal que o Imperador espanhol Carlos III terminou por escutá-los e assinou o decreto de expulsão dos jesuítas, aprovado pelo papa Clemente XIV, no dia 27 de fevereiro de 1767. O Papa depois arrepender-se-á amargamente dessa decisão. Carlos III, sem querer, legalizou as conquistas portuguesas e fixou os limites atuais das fronteiras do Brasil naquela região.

Carlos III, em 1761, tinha assinado o Tratado do Pardo que anulava o de Madri e ordenava os guaranis a voltar a suas terras, agora espanholas. Mas suas queridas Missões estavam em ruínas e eles tiveram de escolher entre duas opções: ou aceitar um novo sistema  que suprimia a organização comunitária dos jesuítas e impunha uma língua e um estilo de vida europeu, ou abandonar a vila. Os guaranis escolheram, evidentemente, a segunda opção. A decadência instalou-se rapidamente, com seu triste cortejo de miséria, fome, doenças e vícios.

As ruínas das Missões dos guaranis fazem, infelizmente, parte do Patrimônio Mundial da Humanidade. Se os olhos do turista as admiram, seu coração geralmente permanece indiferente porque não compreende a razão de ser dessas Missões. O próprio turista tornou-se um selvagem munido de computador, afastado de Deus e do doce Reino de Cristo Rei.

Os missionários jesuítas tinham compreendido que se deve “Tudo restaurar em Cristo (Ef 1,10), OMNIA INSTAURARE IN CHRISTO”: as almas, as famílias, a sociedade política, a economia, as artes. As Reduções guaraníticas foram a realização dessa divisa de São Paulo, que também foi a de São Pio X, e é a da Igreja. Saibamos combater por esse ideal.

 

Bibliografia:

 

―    Las reducciones guaraníticas, Ana Maria Galleano.

―    Las Misiones Jesuíticas, San Ignacio Miní, César Omar Balbuena.

―    São Miguel das Missões, Secretaria Municipal de turismo e cultura de São Miguel, Brasil.

―    Santos Mártires das Missões, Estanislau  A. Kreutz.

―    Missões jesuíticas dos guaranis, CD-ROM da Associação Amigos das Missões

 

(Publicado originalmente no jornal "Guarde a Fé", da FSSPX no Brasil)

Carta Aberta ao meu General

Dom Lourenço Fleichman OSB

Queria agradecer as palavras que o senhor me dirigiu por causa do meu artigo defendendo o Movimento militar de 1964 que salvou o Brasil do comunismo.
De fato, os livros que nossos oficiais da reserva têm escrito mostram ao povo brasileiro não somente a bravura dos nossos soldados, que deram suas vidas pela Pátria, como também a crueldade, a maldade e a traição que os terroristas usaram, quando ainda não estavam no poder, para impor ao Brasil sua ideologia de morte e escravidão.

Trago de minha formação em torno de Gustavo Corção a admiração pelos feitos das nossas Forças Armadas nesta luta terrível, nesta guerra. E é com minha lembrança ainda viva que recordo as notícias que lia, ainda muito jovem, nos jornais, sobre assaltos a bancos, seqüestros de aviões, seqüestros de embaixadores, entre outros crimes. Movido, talvez, pela imaturidade dos meus quatorze ou quinze anos, nunca percebera que estes crimes não eram cometidos por assaltantes comuns, mas por terroristas guiados por um desejo de levar a luta armada ao campo, e dominar as cidades com sua doutrina escravagista.

Protomártires do Brasil

“Trata-se de dois casos de martírio coletivo ocorridos em localidades do interior do Rio Grande do Norte, na primeira metade do século XVII. Vivia-se o conturbado período do domínio holandês no Nordeste do Brasil (1630/­1654), quando as autoridades flamengas, influenciadas pela Igreja Cristã Reformada Calvinista, iniciaram verdadeira perseguição religiosa às pequenas comunidades nascentes de católicos da então Capitania do Rio Grande, que começavam a se organizar. A situação agravou-se de tal maneira que culminou com o holocausto de numerosos cristãos dessas comunidades...”
 
(Trecho da Introdução de Protomártires do Brasil, de Mons. Francisco de Assis Pereira, Aparecida-SP,Editora Santuário, 2000) 
 
Os relatos seguintes, que fazem parte de um capítulo do livro referido acima, contribuíram para a Beatificação de 30 mártires brasileiros pelo Santo Padre, no dia 21 de dezembro de 1998.

Dom Vital e a Maçonaria

Nenhum lutador mais impetuoso, mais tenaz e mais capaz que D. Vital, bispo de Olinda, e a impressão que este me deixou foi extraordinária" 
Machado de Assis
 
"Peçam-nos o sacrifício de nossos cômodos; peçam-nos o sacrifício de nossas faculdades, peçam-nos o sacrifício de nossa saúde; peçam-nos o sangue de nossas veias... Mas pelo santo amor de Deus não nos peçam o sacrifício de nossa consciência, porque nunca o faremos. Sic nos Deus adjuvet. Nunca!"
D. Vital, bispo de Olinda

A História do Brasil é mais rica do que parece

O péssimo nível cultural dos nossos centros de ensino (compreenda-se: péssimo nível, em primeiro lugar, dos professores) em geral não permite que os feitos de nossos antepassados sejam mostrados aos meninos brasileiros em toda a sua verdadeira grandeza. Justamente por falta de critério (principalmente por inadequado critério de valor) a beleza de nosso passado não se desvenda de modo feliz aos olhos dos brasileiros — adultos ou crianças. Não por culpa dos fatos. Não por falta de heróis.

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