Skip to content

Família e moral (134)

As telas e a vida interior

Pe. Thierry Gaudray - Fsspx

 

O uso de eletrônicos — independente do formato — deve ser moderado. Estima-se, no entanto, que adolescentes de 13 a 18 anos gastem em média 6h45 diariamente na frente das telas. Eles não usam os aparelhos da mesma maneira: se as meninas passam uma hora e meia nas redes sociais, os meninos dedicam a elas 50 minutos; por outro lado, enquanto as meninas consagram aos videogames uma média de 10 minutos diários, os meninos gastam uma hora com esses jogos. Os entrevistados parecem estar cientes do perigo do uso da tecnologia, mas sua principal preocupação é com os outros: enquanto 10% das pessoas se declaram viciados nos eletrônicos, pensam que 70% dos outros também o são …

 

Estamos preocupados mais com os outros ...

Até mesmo pessoas mundanas compreendem que há algo de vergonhoso no uso excessivo de telas e tentam escondê-lo, até de si mesmos. Os participantes de uma pesquisa responderam que passavam em média 2h55 por dia em seus telefones, mas quando verificou-se o "spyware" instalado anteriormente em seus dispositivos, descobriu-se que eles realmente passavam 3 horas e 50 minutos.

Todos os estudos mostram que o uso de telas dificulta em muito a aquisição de conhecimento. Em uma pesquisa — e este é um exemplo entre centenas — crianças de 13 anos foram submetidas a um pequeno teste: após um exercício de memorização, foram-lhes oferecidas atividades diferentes uma hora depois. O primeiro grupo jogou um videogame violento, o segundo assistiu a um filme e o terceiro fez algum tipo de atividade. No dia seguinte, os três grupos haviam esquecido 47%, 39% e 18%, respectivamente, do que haviam aprendido.

 

Efeitos perniciosos

Os efeitos a longo prazo são muito mais graves. Certos problemas de atenção estão certamente relacionados ao uso de telas. Existem dois circuitos neurais diferentes, ambos nos tornam "focados" e fazem com que "não percebamos o tempo passar". O primeiro é automático e exógeno; permite-nos estar atentos ao mundo à nossa volta. O segundo é voluntário e endógeno: é o que nos permite entender, encontrar uma ordem lógica e aprender. As telas excitam artificialmente o primeiro e prejudicam o segundo. As variações sonoras, os flashes visuais, as mudanças de cenas, a multiplicação dos ângulos de visão, o rápido emaranhado de sequências narrativas... mantém o espectador agitado, sem que ele tenha feito esforço algum. E assim, a capacidade de pensar não para de diminuir. A empresa Microsoft publicou um estudo que mostra que o tempo de atenção dos homens caiu para 9 segundos em média. A própria companhia os compara ao peixinho dourado, que é capaz de fixar o olhar por 8 segundos... Se as mensagens não forem cada vez mais incisivas e provocantes, os homens se distraem com outras coisas. É preciso atrair constantemente a sua atenção, de um modo que somente os eletrônicos conseguem fazer. A realidade e os livros tornam-se entediantes para eles.

 

Homem virtuoso ou homem digital

Os católicos tradicionalistas estão imunes à onda que varre o mundo ao nosso redor? É muito difícil se proteger dessa revolução, uma vez que a presença desses eletrônicos nas casas, ou mesmo nos bolsos, torna-se muitas vezes inevitável. Ademais, muitos procuram se justificar afirmando que a nova tecnologia não é intrinsecamente perversa. Isso pode ser verdade, mas é uma tecnologia perigosa! É somente à custa de meios muito rigorosos que a ruína pode ser evitada. As telas fascinam; a luz e a rápida sucessão de novas imagens hipnotizam; a atração da curiosidade — que São João chama de concupiscência dos olhos — é poderosa. Pouquíssimas pessoas se impõem disciplina suficiente para regrar o uso de telas e, no entanto, isso é algo possível. Em Taiwan, não é permitido deixar uma criança com menos de dois anos de idade com um tablet (está prevista uma multa de 1.500 €) e seu uso por menores deve ser regulamentado (o objetivo é não deixar que utilizem por mais de 30 minutos consecutivos). A esperança da salvação eterna e a busca da santidade não são motivos mais poderosos do que uma contravenção? É essencial definir horários fora dos quais o uso dessas máquinas esteja proibido. O domingo deve ser mantido como um dia sagrado, longe da tecnologia escravizante.

O homem é responsável pelas influências a que se submete, correndo o risco de perder sua liberdade interior. A consciência hipnotizada pelas telas acaba adormecendo com o sono culpado. Embora Deus tenha fornecido à natureza humana capacidade de se adaptar às circunstâncias por meio da aquisição de saudáveis hábitos libertadores, os meios modernos de comunicação exploram as fraquezas da nossa psicologia para fins comerciais e revolucionários. O homem virtuoso se eleva acima do protesto da natureza ferida; o homem "digital" deixa-se levar pelas demandas habilmente projetadas do universo das telas.

Sejam sempre felizes, filhos de Deus

 

Irmãs da Fraternidade Sacerdotal São Pio X

 

Como preâmbulo, permitam-me narrar um pequeno fato ocorrido em um de nossos colégios primários. Certo dia, vieram-me avisar que um policial gostaria de falar comigo no parlatório. Com uma ponta de apreensão no coração, dirigi-me ao local indicado e logo me encontrei diante de um jovem que me cumprimentava respeitosamente, e me falava do seu desejo de matricular o filho no nosso colégio. Respirei mais livremente quando me apresentou os motivos que o levaram a essa decisão. Em seguida, declarou à queima-roupa: “Irmã, faço parte da S. D. A”.

Sem compreender do que se tratava, perguntava-me se seria alguma polícia secreta…

Mas o rosto sorridente do policial contrastava com meus pensamentos íntimos. “Eh… O que significa S. D. A.?” perguntei-lhe, vagamente inquieta. O homem respondeu com um enorme sorriso, um pouco surpreso com minha ignorância. “Ora, é a Sociedade da Alegria, de Dom Bosco!”

Que descoberta! Apesar do nosso mundo moderno, e da crise da Igreja, aquele rapaz soubera guardar sua alma na Fé da sua infância e na virtude, graças à Società dell’allegria, fundada por São João Bosco.

 

“Servi o Senhor com alegria” (Salmo) 1

A educação da criança católica não deve ser feita com moleza — isso nós já sabemos, pois, detrás do seu rostinho de anjo, há terríveis defeitos a serem combatidos.

Mas, para não nos arriscarmos a quebrar o caráter da criança, essa educação deve ser alegre.

Notemos desde já que não se trata aqui da alegria segundo o mundo, que muitas vezes traduzimos com a palavra diversão. A alegria católica é, antes de tudo, interior, fruto e manifestação do nosso amor por Deus. A atmosfera do bom Deus, da sua graça, é a alegria. O pecado só gera a tristeza.

A criança precisa aprender na sua casa que a virtude encerra alegrias profundas, que a religião não é amiga da tristeza e que, muito ao contrário, ela abençoa e encoraja toda alegria pura.

 

“A alegria seja sempre contigo”(Livro de Tobias)2

A criança só se desenvolverá realmente em um clima de alegria.

Preservar a alegria no lar é, para os pais, um dever e uma necessidade. Um dever, pois eles devem se lembrar que as mais puras alegrias da vida, o homem as desfruta ao longo da sua infância. Necessidade também, pois a alegria favorece a saúde física e moral, facilita o despertar da inteligência, afasta o vício, desenvolve a confiança, contribui, finalmente, para a eclosão da virtude. Cercada de uma alegre serenidade, a vontade aceita mais facilmente e executa com mais prontidão as ordens e os conselhos que recebe.

Criar ao redor de si uma atmosfera de alegria católica, difundir os seus raios benfazejos por onde passa é uma das melhores caridades que podemos fazer.

A maioria dos pais, cumulados de preocupações, não percebem as riquezas que desperdiçam — tanto para si mesmos como para os seus filhos — ao deixar de sorrir para eles. A criança, se não recebe sorrisos, não sabe sorrir. É claro que há na vida muitas dificuldades, muitos incômodos, mas nada mais funesto para o equilíbrio harmonioso de uma criança do que ralhar com elas desmesuradamente, sem considerar a sua idade. 

 

“Vivei realmente na alegria” (São Teófano Venard)

Para superar pacificamente as provações que a esperam, a criança deve saber reagir com bom humor e possuir uma boa dose de otimismo que lhe permita sempre considerar os homens e as coisas de modo bom. Para tanto, nada vale mais do que a atitude alegre e sorridente dos pais.

É desde os primeiros anos que lhe devemos habituar a agir com amabilidade, pois é essa uma virtude a ser conquistada, dia após dia.

Em um dia de férias, mamãe planejou uma bela caminhada na floresta com direito a piquenique. Todas as crianças ficaram felizes. Mas, uma chuva fria e persistente vêm entristecer o rosto dos pequenos. Mamãe reune os filhos: “O bom Deus quis assim e Ele nos ama. Que vamos fazer? Podemos caminhar assim mesmo, mostrando que somos valentes e não temos medo da chuva? Se não conseguirmos, vamos organizar uma tarde de jogos em casa!”

 

“Alegrai-vos incessantemente no Senhor" (São Paulo)3

É na vida concreta de todo dia, tirando partido de todas as ocasiões, que educaremos a criança para a alegria. Seus pequenos dissabores, seus fracassos, suas lágrimas, nós os receberemos com bondade, mas teremos o cuidado de não dramatizar e de animar a criança com algum comentário que lhe faça sorrir.

Se a criança manhosa se fecha num mutismo mal-humorado, como tirá-la disso? Quando o momento “passional" tiver passado, com tato e afeição, pediremos a ela que sorria. “Era assim que me corrigiam das minhas teimosias”, escreveu Santa Emília de Rodat.

Manifestar alegria é um meio de suscitá-la. Durante as refeições, os pais devem deixar de lado as suas preocupações e animar alegremente as conversas. Nas suas caminhadas, partilhem com as crianças a sua admiração pelas belezas da criação. Ao caminhar ao redor de um lago ou de uma montanha, pais surpresos ouviram da sua filhinha de dois anos: “Como é bonito!”. Muitas vezes, ela ouvira os seus pais expressando admiração pelas belezas da natureza e esses sentimentos se comunicaram a sua alma de criança.

 

“Sta Allegro” (São João Bosco)

O único meio de educar a criança na alegria católica é, antes de mais nada, possui-la. Se nossa alma está pesada e melancólica, repitamos com o salmista: “Por que te deprimes, minha alma? Por que te conturbas dentro de mim? Espera em Deus…”4

Pais católicos, pedi sem cessar a graça da alegria — pois exista uma — àquela que a Igreja chama, na Ladainha, de “Causa da nossa alegria”. E que o doce sorriso de Nossa Senhora da Alegria ilumine as suas casas e cada um dos seus membros.

  1. 1. Sl 99, 2.
  2. 2. Tb 5, 11.
  3. 3. Fl 4, 4.
  4. 4. Sl 42, 5.

O uso de armas nucleares em tempos de guerra pode ser justificado?

Os princípios tradicionais da moralidade católica expressamente proíbem todo e qualquer uso de armas nucleares em tempos de guerra. A razão para isso é que, como os autores dizem, assassinar inocentes é um ato ilícito e imoral que não pode ser justificado pelo objetivo de vencer a guerra. Os não-combatentes, isto é, aqueles que não contribuem direta ou indiretamente para o sucesso dos atos de guerra do inimigo, devem ser considerados como inocentes. Atacá-los diretamente por qualquer razão, como abalar o ânimo da nação, é um ato imoral. Entende-se que a morte de inocentes pode, ocasionalmente, acontecer como um efeito colateral da guerra, mas não como um efeito primário, diretamente buscado. Nesse caso, não é imoral, mas desde que não seja algo desejado, mas apenas um efeito colateral inevitável de uma ofensiva agressiva ou do bombardeiro de alvos militares.

Porém, as armas nucleares provocam destruição em massa de populações civis inteiras e não podem ser utilizadas para atacar alvos militares isoladamente. Portanto, a morte de civis inocentes e de não-combatentes não é um mero efeito colateral: é o que se busca diretamente. Isso é manifestamente imoral, não importando que a guerra seja justa.

Essa realidade deve, porém, ser modificada em razão da natureza dinâmica da guerra no mundo moderno. Surgiu uma nova forma de barbarismo que responde pelo nome de “guerra total”. Desde a Guerra Civil Americana, as guerras modernas não têm sido um simples conflito entre combatentes de ambos os lados, e essa realidade tem aumentado de maneira cada vez mais intensa. Todos os recursos de um povo passaram a ser direcionados para a guerra e para a destruição total do inimigo, incluindo a indústria, a educação e toda a infraestrutura de uma sociedade. Esse conceito de guerra é manifestamente imoral e não pode, de maneira alguma, ser usado para justificar a morte de inocentes ou de não-combatentes.

A dificuldade surge quando uma nação inimiga passa a empregar a técnica da guerra total. Pode acontecer de a única maneira de se defender contra um agressor injusto em uma guerra imoral como essas seria responder à altura, alocando todos os recursos do país e atacando os alvos civis do inimigo (cf. Fagothey, Right and Reason, p. 572). A justificativa para essa resposta seria que, nesse caso, não existem não-combatentes e que, como a população inteira está envolvida na atividade de guerra inimiga, então todos podem ser alvos de agressão para autodefesa. Apesar disso poder ser admitido como uma possibilidade teórica, seria uma decisão extremamente difícil de se tomar.

Consequentemente, pode-se imaginar uma situação na qual a morte de um grande número de civis através do uso de armas nucleares poderia ser justificado através do princípio do efeito duplo, ou seja, como um meio necessário para se vencer uma guerra justa. Porém, mesmo nessas circunstâncias, teria que haver uma razão proporcional ao mal que a morte de inocentes representa, a saber, o bem desejado. Meu ponto é que, no mundo moderno, essa razão proporcional jamais poderia ser imaginada. O uso de uma arma nuclear acarreteria o uso de outras armas nucleares pelo inimigo ou por seus aliados, e um ciclo de destruição inacreditável seria criado, o que faria a situação geral ser um mal muito maior do que mesmo perder uma guerra justa.

Consequentemente, parece-me que, ainda que se conceda a possibilidade teórica de a guerra total ser respondida com uma guerra total, na prática, o uso de armas nucleares jamais seria permitido.

É patente que o uso de armas atômicas contra Hiroshima e Nagasaki, em 1945, foi imoral. Naquele momento, não havia ameaça às populações civis nos países aliados, nem se poderia dizer que havia uma guerra total. Certamente não havia razão proporcional ao sofrimento dos civis, destruição e miséria que resultaram, sem mencionar o escândalo público e o horror de que uma nação “civilizada” perpetrou um ato tão bárbaro contra inocentes.

 

— Pe. Scott, Maio de 2003.

Pode um apóstata salvar sua alma se morrer no estado de apostasia sem arrepender-se?

Apóstata é a pessoa que já foi católica e que abandonou toda a prática da religião. Por ter recebido e crido na fé católica e por ter conhecido ao menos alguma coisa da ordem sobrenatural da graça, não é possível que tal pessoa esteja de boa fé, como seria possível a um protestante que parou de praticar sua falsa religião. A razão para isso é que a boa fé pressupõe ignorância invencível. Ignorância invencível só é possível para aqueles que não têm possibilidade de conhecer a verdade acerca da revelação divina, e cuja ignorância, portanto, não é culpável. Alguém que já teve a virtude teológica da fé infundida no batismo e que recebeu ao menos alguma instrução na fé católica não pode estar em ignorância invencível. Ele pode, certamente, estar em ignorância quanto à verdadeira Igreja e seus ensinamentos, mas, se ele estiver nesse estado, é por culpa própria, e sua ignorância é vencível. Aparentemente, as únicas exceções a essa regra seriam católicos batizados que nunca receberam ensinamento algum sobre a fé, ou que não receberam exemplos de vidas católicas.

A Igreja Católica recusa exéquias cristãs a todos os pecadores públicos, incluindo apóstatas públicos que não se arrependeram. Se eles deram algum sinal de arrependimento antes da morte, ainda que seja um sinal ao menos provável, como palavras de tristeza pela sua teimosia ou o desejo de receber um Padre, a Igreja pode ter alguma esperança quanto à sua salvação eterna e, portanto, autoriza um funeral cristão. Desnecessário dizer, porém, que apenas Deus pode julgar a alma, então é permitido rezar em privado e oferecer Missas privadas pelos apóstatas que não deram sinais de arrependimento.

 

- Pe. Scott, Agosto de 2005.

 

Vocação e família

Irmãs da FSSPX

 

Durante um sermão em Ecône, em 11 de fevereiro de 1979, Dom Marcel Lefebvre saudou as famílias dos seminaristas assim:

“Penso que seria uma ingratidão deixar de invocar o papel da família católica na vocação sacerdotal ou religiosa. Certamente devemos muito das nossas vocações aos nossos queridos pais. Foram eles que, por seu exemplo, por seus conselhos, por suas orações, lançaram nas nossas almas o germe da vocação. Devemos desejar que existam muitas famílias católicas que favoreçam a eclosão de boas, santas vocações.”

A vocação vem de Deus, mas o canal ordinário que permitirá à alma responder generosamente a esse apelo é a genuína educação católica. É na célula familiar que Deus habitualmente prepara as almas que escolheu para si. É preciso, portanto, que os pais compreendam a importância da sua missão de educadores e não temam sonhar grande: o que queremos é formar católicos para que sejam santos!

Muitas vezes, os pais tem planos para o futuro das suas crianças: meu filho seguirá tal carreira que paga bem; minha filha fará um ótimo casamento e eu terei muitos netinhos… e não raro, infelizmente, os pais se opõem a uma vocação nascente. Contudo, não há benção maior nem honra superior a uma família do que ter sido escolhida por Deus para lhe entregar um ou mais dos seus filhos. Se por um lado jamais devemos forçar uma vocação, tampouco devemos impedir o seu despertar por meio de deboches, objeções materialistas ou por quaisquer outros meios dos quais os pais terão de prestar conta no tribunal de Deus.

 

Não se critica o padre!

Na prática, para favorecer a ação da graça, os pais deverão demonstrar respeito pelos padres e religiosos. É verdade que nem todos os padres são como o Santo Cura d’Ars, e que nem todas as religiosas são como Santa Bernardette… Mas não devemos criticar o padre ou a religiosa diante dos filhos, sobretudo por ninharias. Nas famílias em que as almas consagradas são criticadas, não há vocações, pois mata-se na alma da criança a estima pelo estado sacerdotal ou religioso.

Não é o suficiente não se opor a uma vocação, é ainda preciso cultiva-la por meio de uma educação religiosa sólida, conforme ao espírito dos conselhos evangélicos indicados por Nosso Senhor como via da perfeição: pobreza, castidade e obediência. Vigiem as amizades dos seus filhos, afastem deles as más companhias, os livros, revistas e eletrônicos perigosos; cuidem para que não busquem o supérfluo, mas se contentem com o necessário; ensinem a eles a obediência à Deus e às autoridades que o representam (pais, professores, padres…)

No nosso século amolecido pelo liberalismo vigente e pela procura incessante do conforto, a vocação, que exigirá uma renúncia constante, só poderá ser sólida se a pessoa que a recebe tiver o sentido do espírito de sacrifício. “Se algum quer vir após de mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me.” 

O papel da mãe é importantíssimo para fazer com que as crianças aprendam a transformar com generosidade os menores incidentes diários e as obrigações do dever de estado em sacrifícios “por amor de Jesus” ou por algum outro motivo sobrenatural: converter os pecadores, consolar Jesus, ganhar o Céu…

 

Ingressar na escola de Lu   

“Grande é na verdade a messe, mas os operários poucos”, constata Nosso Senhor. Qual é o meio que Ele apresenta para remediar a esse mal? “Rogai, pois, ao dono da messe que mande operários para a sua messe.” Que as mães não hesitem em suplicar a Deus que suscite vocações no meio dos seus filhos. Em Lu, pequena comuna da Itália, as mães decidiram rezar e assistir a cada primeiro domingo do mês a missa nessa intenção: o resultado foi que nessa pequena localidade de 4.000 habitantes surgiram 500 vocações de padres, religiosos ou religiosas em cinquenta anos!

Não há ninguém como a mãe para compreender o coração do seu filho. Quanto mais profundo for o amor maternal, mais buscará, em todas as circunstância, ajudar seu filho a conhecer e amar o bom Deus. E se, mais tarde, o divino Mestre chamar aquela alma, ele a encontrará disponível, inteiramente receptível graças à educação recebida. Que tesouros de graça o bom Deus quer comunicar pelo intermédio das famílias católicas!

O inferno existe? O que ele parece significar para alguns teólogos dos nossos dias?

Até recentemente, nenhum católico, por mais mal informado ou mal instruído que fosse, jamais tinha qualquer dúvida ou desorientação acerca da realidade do inferno e do castigo eterno caso tivesse a infelicidade de morrer em estado de pecado mortal sem arrependimento. O inferno existia. Era um lugar ou um estado de punição eterna habitado por aqueles rejeitados por Deus. É um ensinamento de fé que o inferno é uma realidade e que seus castigos duram por toda a eternidade; porém,  que os castigos dos réprobos são proporcionais à culpa individual de cada um é apenas uma opinião corrente entre os teólogos da Igreja; não é um artigo de fé.

Santo Agostinho ensina que “os castigos de alguns dos réprobos serão mais toleráveis que os de outros” (Enchiridion III)), um ponto de vista ilustrado poeticamente no Inferno de Dante, onde ele coloca não apenas Alexandre, o Grande, e Átila, o Huno, mas também o Papa Celestino V e o Papa Anastácio – o último equivocadamente, pois ele, muito provavelmente, estava se referindo ao Imperador de mesmo nome.

O inferno está povoado por almas condenadas – condenadas pelos seus próprios pecados e de acordo com a absoluta justiça e misericórdia de Deus. Sim, mesmo o inferno, com todos os seus tormentos, é um ato de misericórdia.

Aqueles que ensinam ou dão a entender um inferno que existe, mas está surpreendente e confortavelmente vazio, não têm apoio na Tradição da Igreja.

Essas ideias apareceram pela primeira vez nas obras de Orígenes e foram condenadas. Em nossos tempos, elas são encontradas nos escritos de Hans Urs von Balthasar e no teólogo convertido Sergei Bulgakov1, que o Papa João Paulo II confunde, aparentemente, com o romancista Mikhail Bulgakov no seu Cruzando o Limiar da Esperança; opiniões semelhantes são encontradas nos escritos do próprio Papa, como se ele duvidasse ou tivesse grandes reservas acerca das consequências da doutrina do inferno que, em outros lugares, ele defende (Catecismo da Igreja Católica, 1033, onde, infelizmente, o inferno foi colocado entre aspas). Confrontado com a doutrina clara da Igreja nessa matéria, ele diz, em seu novo livro, diante do mistério dos réprobos no inferno: “o silêncio da Igreja é, portanto, a única posição adequada à fé cristã”. A Igreja nunca foi silente; sua doutrina é clara como a de Cristo em pessoa. O inferno é eterno. As almas miseráveis vão para lá para experimentar o terror daquelas palavras terríveis de Cristo, “Afastai-vos de mim, miseráveis, para o fogo eterno” (Mt 25, 41), para experimentar o horror do verso de Dante: “Abandonai toda a esperança, Vós que entrais aqui” (Canto III, 9)

 

- Pe. Boyle, Janeiro de 1995.

  1. 1. [N. T] Sergey Bulgakov, padre da Igreja ortodoxa russa, jamais se converteu ao Catolicismo na verdade. Essa citação feita por João Paulo II é mais uma da série de suas bizarras citações de teólogos de outras religiões como se fossem mestres de vida espiritual. Em outra ocasião, o Papa se referiu ao teólogo ortodoxo bizantino Gregório Palamas e ao monge ortodoxo russo Serafim de Sarov como “santos”.

Todos os homens irão para o céu? Todos serão salvos?

Muito embora o sacrifício de Nosso Senhor, oferecido no Calvário e tornado presente em cada Missa válida, seja mais que suficiente para salvar a todos os homens sem exceção, não se segue daí que todos os homens serão salvos. É uma doutrina fundamental de São Paulo que a salvação só se adquire pela graça que Cristo mereceu, e São Pedro em pessoa testemunhou perante o Sinédrio que “não há salvação em nenhum outro” (At 4,12). -- É esse o significado do dito “fora da Igreja não há salvação”. Fora de Cristo não há nada, pois “os deuses dos pagãos são demônios” (Sl 95,5)

A ignorância, mesmo quando invencível, não é, em si mesma, garantia de salvação. Existe uma obrigação grave de se buscar a verdade, que incumbe a todos que não estejam na fé católica.

A graça de Cristo sempre é dada e não pode ser recusada, e Cristo estabeleceu apenas uma Igreja, na qual Deus é cultuado em espírito e em verdade.

A ambiguidade deliberada de textos recentes vem causando confusão às almas, levando-as ao erro. Não é certo dizer que todas as religiões são iguais ou que todas são boas. Não há mais respeito pela verdade de Cristo em muitos dos ensinamentos eclesiásticos dos nossos dias.

Em uma recente análise de “Cruzando o Limiar da Esperança”1, um jornalista inglês apontou que há exagero no que alguns dizem acerca da infalibilidade papal, pois nem tudo que o Santo Padre diz é infalivelmente verdadeiro, especialmente suas observações sobre outras religiões. Citarei Noel Malcolm:

“Ele [o Papa] dialoga com outras religiões – como se a espiritualidade fosse apenas um aspecto da experiência humana em si, algo que se pode encontrar entre hindus, confucianos e aborígenes que veneram seus ancestrais. Chega a sugerir que, por terem os rudimentos da experiência espiritual, essas pessoas estão conectadas com o Cristianismo e são elegíveis à salvação – uma alegação que, creio eu, oscila perigosamente na direção da heresia” (London Sunday Telegraph, 6 de novembro de 1994).

Se um jornalista que nem mesmo é católico consegue compreender isso, por que nosso papa e nossos bispos não conseguem mais enxergar a verdade que já professaram? Por que dedicam-se agora a reinterpretá-la de maneira totalmente revisionista?

- Pe. Boyle, Janeiro de 1995.

  1. 1. [N. do T.]Referência ao livro-entrevista do Papa João Paulo II

Shhh… silêncio!

Irmãs da Fraternidade Sacerdotal São Pio X

 

A família Ducroit acaba de terminar o jantar. "Ufa, finalmente!" pensa a mãe, cansada pela conversa incessante dos seis filhos durante o jantar, que não sabem ouvir um ao outro. Como sempre, todo mundo lava a louça enquanto o pai vai ao escritório ler o jornal. Para acalmar os filhos, a Sra. Ducroit põe um CD com alguma música. As crianças ouvem um pouco, mas logo retomam a conversa infantil enquanto a música invade a cozinha. Terminada a louça, todos se reúnem para rezar o terço na sala, onde há uma gaiola com alguns canários bonitos. Os pássaros unem seu palreio às Ave Marias enquanto, não distante, o bebê Vicente chora a plenos pulmões. Para piorar, Marcelo brinca com seu caminhão de brinquedo ... Onde está a calma de que todos tanto precisamos?

 

A necessidade de silêncio

É necessário silêncio e calma para o desenvolvimento saudável. Infelizmente, as pessoas não toleram mais o silêncio. Nas lojas, nas salas de espera, nas estações de trem, em toda parte toca-se música. O barulho nos é imposto. Que o silêncio encontre lugar ao menos em nossas próprias casas!

No início, o silêncio pode exigir um esforço dos pais e dos filhos. No entanto, isso se tornará um hábito e será benéfico para todos. Em certos momentos, é apropriado gritar ou se envolver em brincadeiras alegres; por exemplo, durante um jogo de queimado no jardim. Mas, depois, ao voltar para casa, a mãe deve acalmar seu pequeno rebanho.

 

Por que silêncio?

As crianças estão na escola: a mãe passa a roupa em silêncio. Isso a ajuda a recordar, enquanto trabalha, do sermão do domingo anterior. Às quatro horas, ela entra no carro para ir buscar os filhos na escola. Fica feliz ao ver que eles têm muitas histórias para contar, mas faz com que apenas uma criança fale de cada vez, e que as outras saibam ouvir. Além disso, faz perguntas a Catarina, que é sempre quieta e de temperamento lento e, por isso, fica facilmente esquecida no meio dos seus irmãos tagarelas!

Sim, aprender a ouvir é uma coisa importante: ouvir as pessoas ao redor, ouvir a natureza — como o murmúrio de um riacho, a melodia dos pássaros, o barulho da chuva... Isso pode ser ensinado desde a tenra idade com joguinhos: o pai abre a janela e as crianças fecham os olhos para se concentrar e ouvir. Depois de dois ou três minutos, o pai fecha a janela e, por sua vez, todos podem relatar o que ouviram. Este exercício acalma as crianças, e a calma é muito benéfica!

O bebê está chateado e chora com frequência... Por que razão? Talvez seja porque estão movimentando-o mais do que preciso. Durante uma caminhada, passa de um braço para o outro, erguem-no se chora, levam-no daqui para lá.

Também é em silêncio que a mãe da família extrai energia e força para ensinar tranqüilidade aos seus queridos filhos. Para isso, ela deve saber como se sacrificar às vezes e desligar o telefone...

Para a criança, escutar é sinônimo de docilidade e receptividade: qualidades necessárias para crescer e construir caráter.

 

Seguindo o ritmo da criança

Além disso, o silêncio é contrário a um certo espírito de competição, que consiste no desejo de produzir muitas coisas rapidamente. Uma criança é normalmente lenta e, quando deixada no seu ritmo, é capaz de passar minutos inteiros olhando para uma foto, jogando incansavelmente o mesmo jogo, ouvindo a mesma música, a mesma história… ela precisa de certo tempo para se vestir, comer, pensar. Quando nós adultos exigimos que as crianças trabalhem rapidamente, quando compartilhamos nosso estresse com as crianças, estamos destruindo uma pequena parte do reino do seu silêncio interior!

É por isso que nem sempre é bom impor uma série de atividades nos fins de semana e subtrair das crianças o tempo precioso que passariam calmamente em seus quartos, em seus pequenos universos. Elas devem “baixar a bola", como se diz hoje, envolver-se em atividades que desenvolverão a sua imaginação e lhes farão descobrir, no seu ritmo, a beleza do mundo que as rodeia.

 

Algumas Práticas

Neste mundo agitado, é preciso reaprender a valorizar e amar o silêncio. Junte-se aos momentos de silêncio alguma atividade que seus filhos gostem. Clarinha gosta muito de desenhar. Às 19:00, quando seus irmãos vão dormir, ela, que é a mais velha, ainda tem meia hora acordada. Seus pais pedem que faça silêncio para não incomodar os pequenos. Durante esse período, Clarinha desenha e, até hoje, tem boas lembranças desses momentos.

O contato com a natureza também promoverá o gosto do silêncio: um belo passeio na floresta, nas montanhas, à beira-mar permitirá ouvir o canto dos pássaros, o som de uma cachoeira e rejuvenescerá toda a família.

O sono dos mais novos, durante o dia, pode ser uma ocasião de responsabilidade para os mais velhos: “Quietinhos! Não façam barulho porque sua irmãzinha dormiu e não devemos acordá-la!"

Finalmente, durante a oração em família, que, de acordo com a idade das crianças, será mais ou menos breve, os pais devem insistir desde cedo para que os brinquedos sejam deixados de lado, a fim de que a criança esteja totalmente presente em tudo o que faz. Para ajudar, devemos tentar que nossos filhos pequenos participem o máximo possível. Da mesma forma, durante a Missa, se os mais jovens precisarem de algo "material" para ocupá-los, daremos preferência a objetos religiosos que não fazem barulho (rosários de plástico, cartões sagrados em um álbum, livro de pano ou missal...)

Trabalhemos corajosamente para que esses momentos de silêncio, que pedimos a nossos filhos, não sejam um estorvo, mas um tempo de paz, um tempo desejado pelos seus benefícios. É também assim que a vida interior é capaz de se desenvolver, porque “O silêncio é a ajuda que damos a Deus para que Ele nos encha (com Sua vida), como deseja” (Madre Maria de Jesus, O.C.D.).

É aconselhável a um católico que se case com quem não tem a Fé?

O casamento, certamente uma das vocações mais difíceis e, ao mesmo tempo, uma das mais gratificantes, torna-se ainda mais difícil se diferenças não resolvidas existem antes da troca solene de votos.

No Fórum de Junho de 1929, uma mulher não católica escreveu um artigo intitulado “O que significa casar-se com um católico". “A regra mais sábia que a Igreja Católica Romana já estabeleceu”, diz ela, “foi a de proibir o casamento de um católico com um não católico. Se a Igreja pudesse garantir essa regra na prática, muitas tragédias teriam sido evitadas”.

Por que uma tragédia? Porque duas pessoas que têm, sincera e convictamente, visões religiosas opostas, especialmente no tocante ao conceito, natureza e intimidades da vida de casado, estão destinadas a viver em conflito perpétuo e em eterna oposição. Discordância sobre questões fundamentais não é uma base sólida para a união e a felicidade conjugal. Os problemas, em muitos casos, aumentam conforme os anos passam, e surgem divisões sem possibilidade de solução, pois não existem princípios básicos em comum.

Nenhuma situação requer uma visão tão claro quanto a dos casamentos mistos. A dispensa para se casar com um não católico é apenas uma tolerância, não uma solução, a esse casamento, que, inevitavelmente, trará tensões e conflitos sobre questões como a Fé, criação a educação católica dos filhos, controle de natalidade, divórcio etc. Mesmo em um casamento misto “ideal”, há uma espécie de tristeza oculta por parte do cônjuge católico, pois seu ou sua cônjuge está excluído(a) da participação essencial, verdadeira e frutífera na única coisa que importa e que une as pessoas, a santa Fé Católica, dada a nós por Cristo em pessoa.

 

- Pe. Boyle, Dezembro de 1993.

Tenho um parente na casa dos 30 que não foi batizado. Ouvi falar que qualquer pessoa pode batizar se um padre não estiver disponível.

É verdade que um leigo pode batizar validamente, porém só é lícito a um leigo batizar alguém quando o não batizado está em perigo iminente de morte e quando um padre não estiver disponível. Além disso, um leigo só pode dar a matéria e a forma necessários para a validade do sacramento. Ele não pode administrar as demais cerimônias, que só podem ser separadas da forma sacramental em caso de perigo de morte.

Ademais, um adulto só pode ser batizado se ele acredita e aceita todos os artigos da fé católica, se ele houver estudado e aprendido seu catecismo, se ele estiver arrependido de seus pecados e se houver requerido ser recebido na Igreja Católica. Apenas um padre pode julgar se essas condições foram preenchidas. Se não foram, o batismo corre risco de ser infrutífero e não dar a graça.

Um caso em que um leigo poderia batizar seria aquele em que um não batizado está em leito de morte e não há tempo para chamar um padre, e o moribundo faz atos de fé, esperança, caridade e de contrição, afirmando que crê em tudo que a Igreja Católica acredita, está arrependido de seus pecados e quer tornar-se um católico. Porém, deve-se fazer todo esforço para encontrar um bom padre tradicional que julgue as disposições do catecúmeno.

- Pe. Scott, Agosto de 1999.

AdaptiveThemes