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Família e moral (134)

Esto vir!

Dom Tissier de Mallerais

Após definir a fortaleza e mostrar em que consiste a disciplina, tratarei do papel da educação na aquisição dessas virtudes segundo Dom Lefebvre. Irei também considerar os defeitos e as virtudes ligadas à fortaleza e à disciplina. Isso nos fornecerá diretivas práticas segundo o modelo de um homem exemplar.

 

Definições de fortaleza

Disciplina é o controle de si, a ordem interior da alma e do corpo, que é a fonte da ordem exterior das coisas e dos homens. É fruto do dom de sabedoria (ordenar é próprio do sábio) e do dom de fortaleza ("sou mestre de mim mesmo e do universo", são as palavras que o dramaturgo Corneille põe na boca do Imperador Augusto).

Fortaleza, ou coragem, é uma das virtudes cardeais; é assistida pelo dom de fortaleza, um dos sete dons do Espírito Santo. O seu objeto é dominar o temor a fim de obter o bem difícil, seja na ordem temporal, como uma grande obra, uma vitória militar, ou na ordem espiritual, como a santidade e a salvação eterna.

 

O papel da educação e da escola na aquisição dessas virtudes

Essas virtudes e esses dons do Espírito Santo devem ser postos em prática desde a primeira infância, em casa ou na escola, para que sejam adquiridos de maneira estável.

O Marechal Foch, comandante supremo das forças aliadas na Primeira Guerra Mundial, via no infatigável trabalho do jovem a fonte do controle de si e da confiança, sobretudo na arte militar, que ele mesmo aprendeu na escola em Metz.

"Não creia em dons da natureza! Creia em trabalho duro!", exclamava a seus aspirantes. É pelo trabalho duro que se obtém conhecimento, e o conhecimento é o que constitui a dignidade do profissional e da sua habilidade. É o conhecimento, adquirido por meio da prática incansável, que o provê da confiança com que é capaz de tomar decisões sem ter de sempre recorrer a conselhos! Essa confiança estabelece o exercício da habilidade de decidir em meio às adversidades, e isso justamente é o que permite que confiemos nele.

O conhecimento adquirido por Foch foi o que lhe permitiu reagir imediatamente ao violento ataque inimigo nos terríveis dias da primavera de 1918: não se apavorou nem perdeu a cabeça, mas movimentou exércitos inteiros para preencher lacunas e contra-atacar com sucesso.

Dom Lefebvre vê a fonte da disciplina no espírito de sacrifício instilado na escola. Em 31 de março de 1982, numa escola, expressou-se deste modo:

"A escola católica", disse ele, "é a escola em que se aprende a disciplinar-se, em que se aprende o sacrifício, já que não se pode ser católico sem sacrifício. Por que sacrificar-se? Para encher-se da caridade e do amor.

"Fomos criados para amar a Deus, amar o próximo: isso é toda a lei de Deus. Não há outra lei. Toda a lei do Evangelho resume-se na caridade. Mas, para nos tornarmos caridosos, devemos nos sacrificar. Se não nos sacrificarmos, não nos devotaremos, não nos daremos.

"O egoísta, que pensa apenas em si mesmo, não é caridoso. Portanto numa escola católica deve-se aprender o sacrifício, a disciplina: a disciplina da inteligência, da vontade, do coração.

"Aprende-se a disciplinar a inteligência por meio do recebimento da verdade, da submissão à verdade ensinada. A verdade nos é ensinada desde cedo na infância até o último dia na escola. Assim se aprende a formar a inteligência conforme a verdade que nos ensina Nosso Senhor Jesus Cristo.

“Aprende-se também a formar a vontade, a discipliná-la. Todos temos defeitos, nascemos com o pecado original, e os efeitos dele permanecem em nós até a morte.

“Assim, temos de lutar contra as más tendências, os maus desejos em nós, e disciplinar a vontade, com a ajuda de Deus e da graça. É por isso que na escola há uma capela, que é o coração, o principal edifício. Tudo se orienta à capela, a Nosso Senhor Jesus Cristo: Ele é a nossa Verdade, a nossa força, o nosso amor.”

 

Defeitos adversos à fortaleza e à disciplina

Por falta de educação, de prática, de exercício, a fortaleza e a disciplina perdem lugar para a covardia e o desleixo, e em vez da coragem vê-se a fraqueza do apetite irascível. O apetite irascível é a paixão da alma, a paixão da parte sensível da alma humana. A paixão irascível deseja e busca o bem difícil, e o apetite concupiscível deseja o bem sensível e deleitável.

A falta do apetite irascível causa a pusilanimidade, a inconstância; também causa hesitação na inteligência, que, em vez de aplicar heroicamente os princípios, procura escapatórias, acordos, diante de um adversário ou de uma adversidade.

Em vez da disciplina, do controle de si, há a raiva (amiúde reação da fraqueza), desordem (na pessoa e nas coisas), e preguiça. O último, a preguiça, não consiste em não fazer nada, mas em preferir o trabalho menos útil ao mais útil e necessário.

Também aqui se vê o vestir desleixado ou o vestir contrário à modéstia corporal. Se compararmos o comportamento e o vestir dos rapazes em 1916 com o dos de 2016, notaremos a perda da virilidade, em apenas um século, da população inteira de um país, graças ao lento progresso de efeminação do comportamento e vestimenta dos rapazes.

 

Repercussão da força física na força da alma

É papel da família católica e da escola católica exercitar as crianças e os jovens na resistência física: através da fadiga, jejuns, vigílias, caminhadas etc.

Uma noite de oração ou uma hora de adoração noturna é excelente exercício de resistência física e piedade. A escola tem aulas semanais de educação física para ensinar os rapazes a ganhar flexibilidade e músculos. Sabe-se bem que a força e o tônus físicos são auxílio ao tônus moral.

O jovem Eugênio Pacelli, alto e magro, praticou exercícios físicos da infância até a adolescência, a fim de poder manter-se sempre ereto. Fazia equitação e tornou-se experiente e incansável cavaleiro nas suas corridas pelo interior romano. Em toda a sua vida, quando de pé, sentado, ou na sela, sempre se esforçou por manter-se impecavelmente aprumado com incansável disciplina corporal. Já como Papa Pio XII, nos visitantes inspirava de imediato respeito: "Só se podia aproximar de Pio XII com grande respeito", lembrava Dom Lefebvre.

 

A prática do controle de si e da ordem

O bom Pe. Barrielle, diretor espiritual do Seminário São Pio X em Écône, ensinou aos seminaristas princípios de ordem que lhes seriam muito úteis na direção de priorados, escolas e distritos. Ensinou as cinco regras do Fayolismo (do engenheiro Fayol, não do General Fayolle, que foi derrotado em 1917), que são, conforme o mesmo padre:

Planejar com antecedência: os objetivos e os meios: lugar, tempo, coisas, atribuições das pessoas. Organizar: as etapas, os gerentes, as reuniões preparatórias. Comandar: tomar decisões, organizar as pessoas com precisão. Controlar: as coisas, as pessoas, lembrá-los dos seus deveres. Trabalho de gabinete: escritos, telefone, arquivos.

Agora um exemplo tirado de Dom Lefebvre. Tão logo retornou de uma viagem, leva a bagagem ao quarto e vai direto à capela rezar o terço em comunidade, embora já tivesse rezado quinze dezenas com o motorista — "os deveres em comunidade têm precedência". Após a refeição, desfaz as malas, e leva a roupa suja à lavanderia. No dia seguinte, abre a abundante correspondência e, com bela e constante caligrafia, responde a cada carta com uma palavra cordial, mesmo que uma delas estivesse cheia de insultos.

À noite, dá conferência espiritual aos seminaristas. Espera ao pé da plataforma até o horário exato. Após o Veni Sancte Spiritus, senta-se com os pés juntos, sem nunca acostar-se. Descansa os pulsos na beirada da mesa e fala (às vezes sorrindo, às vezes sério quando há reprimendas a fazer) com a sua pequena, modesta, mas distinta voz.

Sua batina é simples, não se percebem os botões, amarrada na cintura com a modesta faixa espiritana, e os sapatos esmeradamente polidos.

É o exterior e o comportamento de um modesto sacerdote, de um respeitado e amado líder, que, sem ostentação, é um exemplo de ordem e controle de si para os seus filhos, membros da sua Fraternidade Sacerdotal São Pio X.

De onde recebeu tal disciplina, tal força interior? Certamente da sua família, do pai, que foi chefe de uma indústria; mas também do Pe. Henri Le Floch, reitor do seminário em Roma; e finalmente do noviciado espiritano. Foi bem ensinado, e se manteve homem forte, vir fortis, cuja mansidão conquistou a sua própria alma e a alma dos outros. "Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra." Dito de outra forma, nas palavras de Dom Delatte: "Terram quam terunt, terram quam gerunt, terram quam sunt — terra que pisam, terra que mandam (seus subordinados), terra que são (suas almas)”.

(The Angelus, september 2016 )

Há uma definição precisa do que seria a Liturgia?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

O termo “liturgia” vem do grego leitourgia (λειτος, relativo ao povo, e εργον, obra), indicando um serviço realizado pelo bem comum. Na Grécia Antiga, a palavra designava qualquer serviço prestado à comunidade a custo pessoal, ou, ao menos, sem remuneração. Quando as Escrituras hebraicas foram traduzidas para o grego na Antiguidade, o termo foi usado para designar, também, o culto de Deus (cf. Ex 29, 30, 2Cr 13,10) e, com esse significado, ele adentrou o uso cristão.

Na encíclica Mediator Dei, Pio XII nos deu a definição real: “A Sagrada Liturgia é o culto público que Nosso Redentor, como Cabeça da Igreja, presta ao Pai, bem como o culto que a comunidade dos fiéis presta a seu Fundador e, através d´Ele, ao Pai Celestial”. Essa é uma definição precisa e exaustiva.

Culto é o reconhecimento da excelência suprema de Deus e a expressão da submissão do homem ao Seu domínio absoluto. Enquanto tal, é um ato da virtude da religião, que inclina o homem a dar a Deus a honra e a adoração devidas a Ele enquanto Criador e Governante supremo, bem como fim último de todas as coisas.

Público não se refere ao número de fiéis que vão aos serviços divinos ou à qualidade exterior desses atos, mas ao fato de que o que é dito ou feito representa e afeta todo o corpo dos fiéis, mesmo quando nenhum deles está fisicamente presente.

Nem todos os atos de culto são litúrgicos no sentido estrito, mas apenas aqueles realizados em nome de Cristo e da Igreja. Eles constituem a piedade da Igreja, compreendida nos livros litúrgicos eclesiásticos.

Ações litúrgicas são distintas das devoções não litúrgicas, desenvolvidas em razão das necessidades espirituais dos fiéis e com a permissão da Igreja. A Igreja nunca se opôs a essas devoções, chegando até a apropriar-se delas ao dar-lhes aprovação (p.ex., o terço, as estações da Cruz, etc), mas elas não podem prevalecer contra a Liturgia ou tomar o lugar dela. De qualquer modo, não há nenhuma oposição entre piedade litúrgica e piedade pessoal: práticas devocionais que não estejam diretamente ligadas à Liturgia são altamente louváveis e absolutamente indispensáveis.

Cristo é o principal ministro do culto do Novo Testamento, o Eterno Sumo Sacerdote da nova aliança. Através da Liturgia e como principal ministro, Cristo não apenas rende a honra devida a Deus, mas, ao mesmo tempo e precisamente porque Ele é o Cabeça da Igreja, Ele dá e sustenta a vida sobrenatural nos membros do seu Corpo Místico. Portanto, Cristo está presente em todas as ações litúrgicas, e a obra de redenção é continuada na Liturgia.

Os ritos sagrados têm um fim duplo: dar a honra devida a Deus e a santificação dos homens. A razão última por que a Liturgia santifica os homens é que, através dela, os fiéis entram em contato com o mistério da salvação, que é o mistério de Cristo. O ato pelo qual Ele redimiu o mundo – Sua paixão, morte, ressurreição e ascensão – é tornado presente e operativo nos ritos sagrados da Liturgia, que não é nada além do sacerdócio de Cristo em ação.

A comunidade dos fiéis dá culto público a Deus. O fundamento teológico dessa asserção é o dogma do Corpo Místico de Cristo. O Cabeça desse Corpo é o Sumo Sacerdote e Vítima, Que dá ao Pai Eterno adoração, graças, expiação e impetração e, ao mesmo tempo, santifica e consagra os membros do Corpo e do universo inteiro. A glória de Cristo, agora consumada à mão direita do Pai, reflete-se nos membros individuais.

Com todos os membros sendo governados pela mesma Cabeça, os fiéis não estão sozinhos em sua peregrinação rumo ao reino do céu, mas constituem parte do Corpo, associados naquela sociedade sobrenatural que inclui os vivos e os mortos e cuja cabeça é Cristo.

Apenas a Igreja Católica pode render culto legítimo ao Pai Eterno. Para estar apta a tal, ela recebeu do Filho Encarnado a Missa, a representação do Sacrifício da Cruz, e os Sacramentos, as sete fontes de salvação, que a Igreja, com zelo maternal, adornou com o Ofício Divino e outras devoções.

(The Angelus, Maio 2021)

Sabemos que devemos amar ao próximo como a nós mesmos, mas como devemos amar a nós mesmos?

Pe. Juan Iscara, FSSPX

 

É necessário ter ideias claras acerca do verdadeiro amor de caridade por si mesmo, porque há muitas maneira de amar a si mesmo que não têm nada a ver com a caridade sobrenatural que deve regular nossas relações com o próximo.

Primeiramente, há o amor sensual, desordenado e imoral, que o pecador professa a seu corpo, dando-lhe todo tipo de prazeres ilícitos.

Também há o amor puramente natural, que consiste em preservar a própria existência e buscar o próprio bem. Não é uma virtude sobrenatural, pois é apenas algo puramente instintivo e natural, mas não é uma desordem em si. Esse amor-próprio é comum a todos os homens, bons e maus.

Há uma espécie superior de amor, o amor sobrenatural de desejo, pelo qual a felicidade eterna da glória do céu é desejada. Ele é bom e honesto, porém imperfeito e, na verdade, pertence à virtude da esperança, não da caridade.

Finalmente, há o amor sobrenatural de caridade, pelo qual amamos uns aos outros em Deus, através de Deus e por Deus. Essa é uma forma perfeitíssima de amor, da mais alta dignidade, pois, tendo Deus como seu motivo formal – embora recaia materialmente sobre outros homens – pertence, propriamente, à virtude teológica da caridade e recebe dela sua excelência. 

De acordo com essas distinções, então, o amor sobrenatural de caridade por si é o ato sobrenatural pelo qual amamos a nós mesmos em Deus, através de Deus e por Deus. O amor de caridade por si próprio estende-se à nossa própria pessoa e a tudo que pertence a nós, tanto na ordem natural, quanto na sobrenatural, pois tudo deve estar relacionado com Deus.

Portanto, em relação à vida natural, o homem tem a obrigação de amar seu próprio corpo e de preservar sua própria vida. O corpo não deve ser amado por ele mesmo, mas por Deus, enquanto instrumento da alma apto a dar honra a Deus e a praticar virtude (Rom 6,13-19), e enquanto templo vivo do Espírito Santo (1Cor 6,19-20), santificado pela graça (1Cor 3,16-17) e capaz da glória eterna em razão da glória da alma (1Cor 15,42-44).

O dever de preservar a vida natural proíbe fazer qualquer coisa contrária à saúde do corpo e exige o uso dos meios ordinários de recuperar a saúde que se perdeu. Mas não estamos obrigados a usar meios extraordinários, a não ser que nossa vida seja necessária à família ou ao bem comum, e haja fundada esperança de sucesso no uso de meios extraordinários à nossa disposição. Porém, é permitido praticar mortificação voluntária, mesmo muito severas, para expiar pecados de si ou de outros que não conformam suas vidas com Jesus Cristo, mesmo que isso acarrete uma redução não pretendida de nossa vida na terra.

Porém, para que essa mortificação seja perfeita e a autoimolação lícita e meritória, ela deve ser regulada pela prudência cristã. Nada pode ser feito contra a obediência, nem algo que tenha a intenção direta de abreviar a própria vida.

Também se pode – e, às vezes, deve-se – sacrificar a própria vida por caridade ao próximo ou pelo bem comum temporal. E, portanto, por exemplo, é lícito e altamente meritório dedicar-se, por caridade, a pessoas com doenças contagiosas, mesmo que haja perigo real de contrair a doença e vir a morrer. O pároco é obrigado a ministrar os últimos sacramentos aos doentes, mesmo que o faça com perigo imediato a sua própria vida.

Como corolário da obrigação de preservar sua vida e de buscar a perfeição humana máxima, o homem deve buscar, por caridade com ele mesmo, um futuro humano digno, proporcional a suas habilidades pessoais e ao ambiente social no qual ele vive. Buscar melhorar seu próprio status e condição social não é apenas lícito, mas até mesmo obrigatório por exigência da caridade com si mesmo.

Mas não podemos esquecer que a vida sobrenatural é incomparavelmente mais importante que a vida natural. Nesse tocante, a caridade com nós mesmos prescreve duas coisas fundamentais: uma negativa, evitar o pecado a qualquer custo; e outra, positiva, praticar a virtude com o máximo possível de intensidade, buscando alcançar as alturas da perfeição cristã.

Se a caridade é amor, e o amor consiste em querer o bem à pessoa que amamos, segue-se que, quanto mais amarmos a nós mesmos com verdadeiro amor de caridade, mais tentaremos buscar o maior de todos os bens, o aumento e desenvolvimento da vida sobrenatural em nossas almas. Um grau maior de graça nesta vida corresponde a um grau maior de glória eterna no céu. Não pode haver ato de caridade maior consigo que buscar, com todas as nossas forças, na grande tarefa de nossa própria santificação, e isso até mesmo se custar a perda de todos os bens terrenos, a saúde corporal e a própria vida.

(The Angelus, Maio/2021)

Por que seguimos usando a liturgia reformada de 1962?

Pe. Nicholas Maria, C.SS.R.

 

Por que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X continua usando a liturgia reformada de 1962? Por que ela não retorna às práticas mais tradicionais dos Papas São Pio V ou São Pio X?

 

Uma tradição litúrgica (neste caso, a do rito romano) é como uma planta ou árvore viva; ela cresce, desenvolve-se, é podada, adaptada, reformada e revigorada. O problema da revolução litúrgica após o Vaticano II é que ela tentou cortar as raízes e destruir a planta e substitui-la por algo totalmente estranho à fé católica, o Novus Ordo Missae de Paulo VI, que “representa, tanto no conjunto quanto nos detalhes, um afastamento impressionante da Teologia católica da Missa” 1.

Ao manter-se fiel à última reforma claramente ortodoxa do rito romano antes dessa revolução, Dom Lefebvre não adentrou um debate especulativo (permitido, porém inconsequente) entre liturgistas quanto aos méritos de um Missal tradicional sobre o outro. Em vez, ele se considerava vinculado – talvez com alguma inconveniência – àquilo que a autoridade legítima havia realizado e que não era manifestamente pecaminoso:

“O princípio básico do pensamento e da ação da Fraternidade na dolorosa crise que a Igreja atravessa é o princípio ensinado por São Tomás de Aquino na Suma Teológica (II, II, q. 33, a.4): que ninguém pode se opor à autoridade da Igreja, exceto em caso de iminente perigo à fé. Ora, não há perigo à fé na liturgia dos Papas Pio XII e João XXIII, enquanto há um grande perigo à fé na liturgia do Papa Paulo VI, que é inaceitável” 2

E, novamente, ele escreveu em 1988:

“Desde sua fundação, a Fraternidade usa a edição de 1962 dos livros litúrgicos, pois eu os aceitei desde o momento em que surgiram em 1962, e porque a Fraternidade foi fundada em 1969 e aprovada em 1970. Essa nova edição não era nenhum novo Ordo Missae, mas uma nova edição do Ordo de São Pio V e de São Pio X com mudanças insignificantes. O calendário passou por uma mudança mais considerável na época, algumas das quais são, sem dúvidas, mais felizes, e outras, porém, controversas. Para que a uniformidade prevaleça na Fraternidade, porém, decidimos usar a edição de 1962, bem como seu calendário, pois consideramos as vantagens maiores que as desvantagens. [...] Cremos, com razão, que a edição de 1962 do Ordo Missae corresponde integralmente ao Ordo de São Pio V e de São Pio X. A pretensão de enxergar diferenças essenciais entre a edição de 1962 e o Ordo de São Pio V e de São Pio X manifesta uma mentalidade formalista e jansenista.”

  1. 1. Breve Exame Crítico do Novus Ordo Missae, Cardeais Ottaviani e Bacci et al., 25-09-1969.
  2. 2. Dom Marcel Lefebvre, Carta aos Amigos e Benfeitores Americanos, 28-04- 1983.

A restauração da tradição musical

Pe. Hervé de la Tour, FSSPX

Os momentos mais marcantes da nossa viagem de junho para Winona, à parte as ordenações, foram as reuniões noturnas ao redor das fogueiras no acampamento. As famílias se reuniram para cantar e tocar canções. Os jovens gostam das antigas baladas, que se tornaram clássicos, pois perduraram por gerações, tendo incorporado sentimentos pátrios, familiares e religiosos. Estas canções são parte de nossa cultura: músicas irlandesas e escocesas, cantos da Guerra Civil, canções caipiras, etc. Um dos livros musicais utilizados nos saraus traz o seguinte prefácio:

“’Só o amante canta’. Quão profundas são estas palavras de Santo Agostinho! Porque a canção é o casamento entre a poesia e a música e, como em qualquer casamento, tem por motivo o amor. Quer se cante a Deus, ao amado, ou até à pátria, canta-se por amor. O canto às vezes manifesta alegria, às vezes tristeza, mas sempre é uma manifestação de amor. Quem canta vai além do comum, pois deseja expressar algo que não se poderia expressar de outro modo. Assim como o pintor não só desenha alguma coisa, mas a pinta, o cantor não só diz algo, mas o canta.”

“Só o amante canta. Eis a razão por que o canto é tão natural para o católico. A vida católica é uma vida de amor, porque é uma vida de sacrifício. Daí todas as culturas da Europa Católica possuírem (além do sublime canto litúrgico) sua própria música folclórica, com belas canções e danças. Hoje, porém, não mais se canta. À medida que a cultura se torna cada vez menos católica, a verdade descamba e, juntamente com ela, a excelência, a beleza e, é claro, a caridade. Quando o homem se esquece de Deus, só lembra-se de si mesmo. Um homem egoísta não sabe amar, portanto, não é capaz de cantar.”

Henri Charlier foi um dos pensadores católicos proeminentes do século XX. Seus escritos sobre educação assemelham-se muito aos de John Senior. Ambos empenharam-se na restauração da cultura católica. A educação, de fato, foi um dos campos mais prejudicados neste século. Charlier diz o seguinte: “Existem dois tesouros para a educação infantil: as canções folclóricas e o canto gregoriano. Estas duas fontes representam os princípios básicos da tradição musical da humanidade”.

”O canto gregoriano é, sob certos aspectos, uma introdução mais fácil à música, porque nele as notas não têm a mesma proporção. Além do mais, ele nos introduz ao canto dos salmos do Ofício Divino e a uma cultura profunda, acessível a qualquer um através do missal e do breviário. O canto gregoriano, portanto, é o elo natural entre a música e aquilo que um homem fará de mais importante em sua vida”.

“A música folclórica, por sua vez, mantém o homem numa tradição humana, familiar e nacional. É a base e o fundamento do canto gregoriano.”

Como exemplo do que se perdeu e precisa ser restaurado, permitam-me citar A história de uma família, a biografia do Sr. e da Sra. Martin, os pais de Santa Teresinha do Menino Jesus. Ao descrever o Sr. Martin, que foi beatificado pela Igreja, o autor, Pe. Piat, diz:

“Gostava de recitar boa poesia (...) transmitiu a Maria e Teresa grande talento para a imitação. Ele sabia imitar entonações e palavras do dialeto auvernês, cantos de pássaros, tambores e toques de clarim de modo tão preciso, com um ritmo e uma expressividade tão grandes, que se tinha a impressão de estar ouvindo os sons genuínos. Acima de tudo, nutria um verdadeiro culto pelas antigas canções folclóricas e conhecia um vasto repertório delas.”

 

A mais pura forma de beleza

Todos necessitam de música, não importa a idade. Mas essa necessidade aparece com mais veemência na juventude. As crianças talvez não gostem de uma caminhada longa e cansativa, mas irão correr e dançar o dia inteiro sem reclamar. Em verdade, a dança deve-se unir à música, e não separar-se dela. Em nossas paróquias, como a de St. Marys ou Post Falls, as crianças aprendem as tradicionais danças folclóricas (irlandesas, mexicanas, polonesas, etc.).

Eis um conselho sobre a importância de fazer da boa música parte da vida doméstica para as crianças. Retirei-o dos escritos de Myrtle Douglas Keener, renomado educador:

“A educação moderna conduz a criança para longe das coisas ideais e destrói o desejo natural pela beleza. Eliminar a beleza da educação é destruir sua própria alma. Devemos permitir que nossas crianças entrem na vida adulta sem consideração para com a beleza, tendo perdido a verdadeira  inclinação para alcançar o que há de mais profundo na natureza?”

“O canto põe a criança em contato com a forma mais pura de beleza e satisfaz seu anseio natural por melodia e ritmo. Mas, a fim de preservar esse anseio, os pais devem começar o trabalho em casa e não adiar o ensino desse importantíssimo elemento à educação infantil para a escola e para uma idade em que tais desejos inatos se enfraquecem ou se perdem.”

“Como se deve conduzir este entusiasmante trabalho com nossas crianças? O primeiro passo é cantar-lhes belas canções.”

A rainha Isabela de Castela aplicou tais princípios na educação de seus filhos. Eis uma passagem da sua biografia escrita por William Thomas Walsh:

“Gostava de ter cavaleiros que fossem bons músicos. Garcilaso de la Veja, cavaleiro que matou o gigante Yarfe ante os muros de Granada e que depois foi enviado como embaixador a Roma, era excelente harpista. Francisco Penalosa, outro espanhol, foi um dos músicos mais brilhantes do coro papal em que Palestrina, meio século depois, estabeleceria as fundações da música moderna. Isabel quase não viajava sem músicos ao seu redor. Em sua capela havia mais de quarenta cantores treinados, além de organistas e tocadores de clavecino, alaúde, viola bastarda, flauta e outros instrumentos. Ela levava os músicos para o acampamento quando ia guerrear.”

Certa vez se disse: “Tenho pena dos americanos, pois não têm luz, não têm música em suas vidas.” Cabe a nós restaurar a tradição dos cantos folclóricos! Pode-se começar como melodias simples no estilo Mother Goose (Mamãe Gansa) e terminar em canções mais elaboradas. Eis o conselho dado aos pais por Maria Von Trapp:

“Logo que nascer o bebê, a mãe deve cantar para ele. Existem inúmeras canções de ninar, cantigas infantis e pequenas orações que podem ser encontradas em livros musicais. Os pais ficarão impressionados com a rapidez com que os pequenos irão cantarolar uma melodia. Isso conduzirá naturalmente a canto em partes, com a mãe cantando a segunda parte e o pai, a terceira. Cantar é algo natural. Se se pudesse apenas curar aquela horrível fobia com que tanto nos deparamos: ’não posso cantar, não tenho piano em casa!’”.

 

O mais belo instrumento

“O mais belo instrumento é a voz humana, que Deus deu a todos.”

“Tenho anos de experiência aqui nos Estados Unidos e sei  como todos se divertem ao cantar em ‘camadas’. Eis um bom método para consegui-lo: começa-se cantando a melodia em uníssono. Quando todos souberem a melodia suficientemente bem para cantá-la sozinhos, divide-se o canto em duas partes; e mais a frente, em três ou quatro. Logo veremos as pessoas cantarem essas diferentes ‘camadas’ em qualquer lugar em que estejam reunidas, quer estejam sentadas numa mesma sala ou então limpando um jardim. Cantar em ‘camadas’ é a maneira mais natural e fácil de educar o ouvido para cantar individualmente.”

Para concluir este artigo, trago uma citação do Pe. Schmidberger, da época em que foi Superior Geral da FSSPX:

“Neste país [Estados Unidos], é muito importante que não tenhamos apenas o ensino técnico e o de ciências naturais, mas que tenhamos especialmente empenho musical, uma atmosfera musical. Além do estudo de línguas e história, a música é muito importante para a formação das almas cristãs. É parte da vida interior – num nível natural, sim, mas um passo que nos aproxima de Deus e que, portanto, contribui para a formação de verdadeiras personalidades cristãs.”

“Estejam certos de que a música é um passo importante para o renascimento da América, da América Católica. Em todo lugar em que vive a fé, encontram-se as artes: pintura, teatro, música, literatura, desenho. As artes são importantes para nossa vida espiritual – são sinais dela – e quanto mais intensa é a nossa fé, mais florescem as artes.”

“Que nossas famílias e escolas sejam lares em que reina a boa música, em que as crianças sejam encorajadas a cantar belas canções, em que a cultura cristã não seja esquecida, mas transmitida!”

Termino com as inspiradoras palavras do livro musical usado no seminário:

“Que nós, peregrinos neste vale de lágrimas, encontremo-nos sempre a seguir as palavras de São Paulo, ‘cantando e celebrando de todo o coração os louvores do Senhor’ (Ef 5, 19), até que todos nós entremos na eterna canção de louvor, na Festa de Núpcias do reino celeste.”

(Angelus Press, março/abril de 2012.)

Há circunstâncias nas quais os Sacramentos da Igreja podem ser ministrados a não-católicos?

O Cânone 731, § 2º, claramente estabelece que “é proibido que os Sacramentos da Igreja sejam ministrados a hereges e cismáticos, ainda que peçam por eles e estejam de boa fé, exceto se, tendo rejeitado previamente os seus erros, eles se reconciliarem com a Igreja”

Todos os canonistas e moralistas concordam que aqueles que são hereges ou cismáticos e sabem que estão em erro não podem receber os Sacramentos da Igreja, a não ser que renunciem a seus erros e reconciliem-se com a Igreja. Numerosos decretos do Santo Ofício põem essa questão a salvo de qualquer controvérsia.

Há controvérsia acerca daqueles cristãos (batizados) que estão separados da Igreja de boa fé. É evidente que a Igreja não pode, como regra, permitir a administração dos Sacramentos a não-católicos. Isso negaria seus próprios princípios. Os Sacramentos são oferecidos àqueles que estão dispostos a viver de acordo com o que a Igreja ensina.

Acerca daqueles não-católicos que estejam em boa saúde, a proibição de dar os Sacramentos é absoluta. Mas, se estiverem em perigo de morte, parece que pode haver uma exceção.

O Santo Ofício, no dia 20 de Julho de 1898, permitiu a administração dos Sacramentos a hereges e cismáticos, desde que estejam de boa fé e tenham dado, ao menos, um sinal provável de boa fé, e desde que qualquer escândalo seja evitado.

Se eles estiverem inconscientes, o Santo Ofício declarou, no dia 26 de Maio de 1916, que a absolvição condicional e a extrema unção podem ser dadas se for possível julgar pelas circunstâncias que o cismático, ao menos implicitamente, rejeitou seus erros; deve-se evitar escandalizar os católicos presentes pela declaração do padre de que a Igreja supõe que aquela pessoa, em seus últimos momentos de consciência, desejou retornar à unidade da fé.

Deve-se salientar, porém, que é muito questionável se a administração dos Sacramentos da Penitência e da Extrema Unção (os dois Sacramentos acerca dos quais há discussões no caso de não-católicos que estejam em perigo de morte) é benéfica nesses casos. A principal dificuldade centra-se na intenção necessária para a recepção válida dos Sacramentos.

Acerca dos protestantes, como não acreditam nos sacramentos, especialmente nos da penitência e da extrema-unção, o caso deles não é um simples caso de falta de fé. Eles, positivamente, rejeitam o ensinamento católico. Mesmo havendo uma tristeza genérica pelos pecados cometidos, é difícil compreender como a vontade e a intenção genérica de "fazer tudo o que Deus pede" seria intenção suficiente para a recepção dos sacramentos, pois o próprio fundamento dessa intenção está ausente. 

Supõe-se que eles desejariam receber os sacramentos se soubessem que são sacramentos, e se soubessem que Deus quer que eles os recebam. Como, na realidade, eles não sabem ou não creem, é difícil compreender como poderiam ter uma vontade ou intenção sobre algo que não conhecem ou não creem. Não parece ser possível que haja até mesmo uma intenção implícita. Por essa razão, os decretos do Santo Ofício requerem, ao menos, um sinal provável de boa fé e, portanto, ao menos pelas circunstâncias, rejeição implícita dos erros.

O que exatamente é a obrigação imposta pelo segundo preceito da Igreja?

Os catecismos populares, normalmente, enunciam esse preceito como “confessar-se ao menos uma vez por ano ou mais se houver perigo de morte ou se se for receber a Comunhão”. O Código de Direito Canônico de 1917 é mais detalhado em suas prescrições. “Todos os membros dos fiéis de ambos os sexos, após atingir a idade da razão, estão obrigados a confessar seus pecados ao menos uma vez por ano” (Cânone 906)

Esse preceito vincula apenas aqueles que tenham pecados mortais em sua consciência, pois não há obrigação de confessar pecados veniais.

Ele obriga todos aqueles que atingiram o uso da razão – isto é, vincula as crianças desde que elas sejam capazes de cometer pecados mortais, ainda que não tenham atingido a idade de sete anos, e elas não estão isentas do preceito mesmo que não tenham feito sua primeira Comunhão. Se já tiverem feito primeira Comunhão, as crianças estão vinculadas tanto por este preceito quanto pelo da Comunhão anual, ainda que não tenham atingido a idade de sete anos.

Qualquer pessoa que faça uma confissão sacrílega ou voluntariamente inválida não cumpre o preceito de confessar seus pecados.

O Direito Canônico não especifica quando o intervalo de um ano começa. Em geral, entende-se que ele significa um ano comum, de Janeiro a Dezembro. Alguns autores sustentam que ele vai de uma Páscoa à próxima; outros, que abrange um ano após a prática de um pecado mortal. Na prática, as pessoas que vão ao confessionário e recebem a Santa Comunhão no tempo de Páscoa cumprem ambas as obrigações de confissão anual e Comunhão pascal.

Em perigo de morte, é obrigatório, se houver consciência de pecado mortal, por duas razões. Primeiro, pela obrigação que todo cristão tem de fazer tudo que pode para salvar sua alma. Agora, aquele que, estando em condições de se confessar, não quer fazê-lo, não pode obter perdão de seus pecados, ainda que faça um ato de contrição, que, nesse caso, não passa de uma ilusão, pois a contrição só tem valor se vier acompanhada do Sacramento da Penitência, que o pecador se propõe a receber. Segundo, a confissão é obrigatória em razão do preceito de receber o viaticum (viático), que é matéria grave e não pode ser recebido sem prévia confissão dos pecados mortais. Se a pessoa pode se confessar, um simples ato de contrição não é suficiente.

A confissão antes da Comunhão não é obrigatória se o pecador não está ciente de que está em pecado mortal. Mas, se ele estiver ciente de um pecado grave, por proibição expressa da Igreja (Cânone 856), o simples ato de contrição não é suficiente, por mais intenso que possa ser, a não ser que duas circunstâncias estejam presentes – necessidade urgente e ausência de confessor. Esse caso poderia acontecer, por exemplo, quando uma pessoa, já na mesa de comunhão e impossibilitada de se retirar sem chamar atenção dos outros, repentinamente se lembra de um pecado mortal que cometeu, ou se um Padre, precisando celebrar a Santa Missa para que os fiéis possam cumprir o preceito, não tem outro Padre para ouvir sua confissão. Nesses casos, um ato de contrição perfeita pode ser realizado antes da comunhão ou da celebração, mas sempre com a obrigação de se confessar posteriormente.

O que é a virtude da piedade?

O que é a virtude da piedade?

A palavra “piedade” pode ser usado em vários sentidos diferentes: a) como sinônimo de devoção, religiosidade, dedicação às coisas que dizem respeito ao culto de Deus, e, portanto, por isso costumamos falar de pessoas “piedosas” ou devotas; b) como um equivalente de compaixão ou misericórdia, e, portanto, costumamos dizer: “Senhor, tende piedade de nós”; c) para designar uma virtude especial derivada da justiça, a virtude da piedade; e d) para se referir a um dos sete dons do Espírito Santo, o dom de piedade.

Como virtude especial derivada da justiça, ela pode ser definida como um hábito sobrenatural que nos inclina a dar a nossos pais, a nosso país e a todos aqueles relacionados com eles a honra e o devido serviço (IIa IIae, q. 101, art. 3).

Santo Tomás explica, sucintamente (IIa IIae, q. 101, art.1): “O homem se torna devedor de outros homens de várias maneiras de acordo com suas excelências variadas e os vários benefícios recebidos deles. De toda maneira, Deus está em primeiro lugar, pois Ele é supremamente excelente, e é para nós o primeiro princípio do ser e de governo. Em segundo lugar, os princípios de nosso ser e governo são nossos pais e nosso país, que nos deram a vida e nos criaram. Consequentemente, o homem é devedor, acima de tudo, de seus pais e de seu país, depois de Deus. Por essa razão, assim como é próprio da religião dar culto a Deus, assim também é próprio da piedade, em segundo lugar, dar culto aos pais e ao país. O culto devido a nossos pais inclui o culto dado a todos os parentes, pois nossos parentes são aqueles que descendem dos mesmos pais de acordo com o Filósofo (Ética, VIII, 12). O culto dado a nosso país inclui homenagem a todos os nossos concidadãos e a todos os amigos de nosso país. Portanto, a piedade extende-se, primariamente, a essas coisas”.

Por extensão, aqueles que formam a mesma família espiritual em uma ordem religiosa se chamam de irmãos e irmãs, e o fundador da ordem é chamado de pai religioso. Eles, também, merecem a mesma honra e serviço.

A piedade difere das virtudes conexas a ela. A primeira delas é a caridade, que une todo o gênero humano a Deus, enquanto a piedade une apenas aqueles pertencentes ao mesmo tronco ou linha familiar comum. Em seguida, vem a justiça legal, isto é, a obediência que os súditos devem à lei. Essa justiça se refere à pátria, vista como o bem comum buscado por todos os cidadãos. De outro lado, a piedade se refere à pátria como a origem da sua própria existência. E, porque a pátria sempre preserva esse segundo aspecto em relação a nós, deve-se concluir que o homem, ainda que tenha adquirido cidadania em outro país, sempre está obrigado a preservar piedade em relação a seu país de origem, embora não esteja mais obrigado aos deveres oriundos da justiça legal, pois ele deixou de ser súdito do governo de seu país.

Como a piedade é uma virtude especial, deve-se concluir que os pecados cometidos contra ela também são pecados especiais, que devem ser expressamente acusados na confissão. Portanto, bater ou maltratar o pai ou a mãe é um pecado especial contra a piedade que é diferente e muito mais sério que bater num estranho. Algo semelhante pode ser dito sobre os pecados que são cometidos contra a pátria enquanto tal ou contra parentes ode sangue.

Dois pecados se opõem à piedade devida a nossa família, um por excesso, outro por falta. O amor exagerado pelos parentes se opõe, por excesso, à piedade (IIa IIae, q. 101, art. 4), o que levaria ao não cumprimento de deveres maiores que os devidos a ele (p. ex., quem se nega seguir sua vocação religiosa ou sacerdotal pela exclusiva razão de não entristecer sua família). Por falta, é a impiedade, a negação dos deveres de honra, reverência, auxílio espiritual ou econômico, etc, quando se está apto a cumpri-los.

O nacionalismo exagerado, ao desprezar em palavras e atos as outras nações, opõe-se, por excesso, à piedade devida a nosso país. Por falta, é o tão chamado cosmopolitanismo de homens sem uma pátria, cujo lema é o velho adágio pagão Ubi bene, ibi pátria, “onde eu estiver bem, confortável, lá é meu país”.

Não dirás falso testemunho contra o teu próximo

Irmãs da Fraternidade São Pio X

 

"Mamãe, o Lucas me empurrou!" "Professor, o Vianney está me copiando!" "Mamãe, Joana pegou meu livro!" Como devemos responder a tais acusações? Devemos encorajá-las endossando-as, ou tirar partido dessas informações recém-descobertas? Será que o acusador é movido por um senso de justiça, pelo desejo de ver o triunfo de tudo o que é bom e verdadeiro? Ou será egoísmo e amor-próprio o que inspira tais comentários?

Infelizmente, a última hipótese é mais frequente. Se completássemos as acusações mencionadas, ouviríamos: "Lucas não me empurrou de propósito, mas, não estou pronto para perdoar essa leve falta de respeito involuntária." "Vianney me copiou, e como ele não é legal, resolvi puni-lo." "Joana pegou meu livro porque fui egoísta e não queria emprestar."

Portanto, podemos interromper o acusador dizendo "Eu não escuto dedo-duro." A criança entenderá que não é correto dizer tais coisas e, em seguida, não dará continuidade à acusação. No entanto, quando essas acusações seguem ocorrendo diariamente, é preciso parar e se dedicar a fazer com que a criança reflita sobre a moralidade dos seus atos.

Por exemplo, ao ouvir uma acusação, podemos responder: "Você acabou de me dizer que Cecilia trapaceou no jogo. Trapaceou mesmo? O que ela fez?” Ao fazer mais perguntas e se aprofundar um pouco mais, a mãe descobre que Cecília não tinha realmente trapaceado: "Só um pouco, mãe, porque ela soprou os dados para que desse um seis e seu cavalo pudesse avançar..."

"Mas isso não é trapaça, você sabe disso! Você está acusando a Cecilia de ter trapaceado quando ela não o fez. Disse coisas que não são verdadeiras, você sabe qual é o nome disso?”

"Mentira..."

"Você precisa perceber que mentiu. Será que fez isso porque a Cecilia estava ganhando o jogo?"

"Sim, mamãe..."

"Será que você estava com um pouco de ciúmes e procurou se vingar dela?"

"Um pouco..."

"Ora, esse é o tipo de mentira que chamamos de calúnia. Calúnia é dizer uma mentira sobre alguém a fim de causar-lhe algum dano; para puni-lo, por exemplo. Isso é pecado." E com ar de gravidade, a mãe conclui: "Nunca mais quero ouvir você dizer essas coisas novamente." Finalmente, em tom mais suave, acrescenta: "Que tal você correr e retomar o jogo com Cecilia, não se esqueça de estar de bom humor e de ser caridosa com sua irmã."

Aqui vai outra história:

Alice volta para casa toda agitada. "Mamãe, Maria não tem mais sua caneta rosa porque a Ana roubou dela. Todas as meninas têm certeza de que foi a Ana, porque ela ama canetas cor-de-rosa!” "Lá vamos nós de novo", suspira a mãe.  Agora uma história de roubo na escola... e se for verdade? Por prudência, ela se limita a dizer: "Eu não escuto dedo-duro." No entanto, procurará conversar com a professora. A freira conhece bem os alunos de sua turma e esclarecerá rapidamente a situação. "Maria certamente perdeu sua caneta em algum lugar, não será a primeira vez que perde os seus pertences. Quanto à Ana, é uma mocinha passando por um surto de crescimento, bastante desajeitada, e, portanto, não é muito querida pelas suas colegas de classe. Mas não é nenhuma ladra. Talvez a Alice precise de uma lição sobre o respeito devido à reputação dos outros”.

Naquela mesma noite, a mãe chama Alice: "Filha, ontem, você disse que Ana tinha roubado a caneta da Maria. Você a viu fazer isso?”

"Não mamãe, mas Ana gosta muito de canetas cor-de-rosa."

"Isso não é razão para acusá-la! Você também gosta de canetas cor-de-rosa, mas isso não significa que está pronta para roubá-las. Você acusou a Ana de ser uma ladra sem motivo. Você sabe como isso é chamado?”

"Não, mamãe".

"Julgamento temerário, que é algo que não se deve fazer. Todas as meninas da escola estão dizendo que a Ana é ladra. Você gostaria que todos estivessem te chamando de ladra, mesmo que não seja verdade?

"Eu não sou ladra!"

"Você não percebe? A Ana também não é. Você se comportou mal com ela. Amanhã, irá se entender com a Ana, dirá que ela não é ladra e, em seguida, vai brincar com ela no recreio”.

O oitavo mandamento nos proíbe revelar qualquer mal cometido por outro sem justa causa. No entanto, há quatro casos em que uma criança não só pode, mas deve dizer que testemunhou um pecado. Esses casos não são "inúteis" quando conhecidos, porque permitem que os adultos acabem rapidamente com o grave escândalo em questão. São eles: blasfêmia, crueldade, sabotagem e impureza.

Por exemplo, quando o Alan voltou para casa do internato, disse: "Mãe, estou um pouco enojado com o que o Luís fez. Ele descobriu uma maneira de levar seu celular para a escola e, em seguida, passou a visitar certos sites à noite com outros meninos do dormitório. Para dizer o mínimo, os sites eram muito vulgares..."

Algumas perguntas garantem à mãe a gravidade do que aconteceu. "Alan, você fez a coisa certa falando comigo porque isso é muito sério e é considerado um escândalo. Ou seja, algo que incita os outros a pecar também. Agora que falou comigo sobre isso e cumpriu seu dever, gostaria que esquecesse e não falasse mais da situação com os outros. E lembre-se, evite as más amizades como quem evita a peste." De agora em diante, a mãe de Alan tem o desagradável dever de ir à escola, sem que o filho esteja presente. Ela deve apresentar as informações recebidas ao diretor da escola, e deixá-lo lidar com o problema.

A língua é uma pequena parte do nosso corpo, mas pode acender um grande fogo! Na epístola de São João, lemos "Se um homem não peca na palavra, ele é perfeito." É essa perfeição que queremos e buscamos para nossos filhos.

 

(The Angelus, março de 2021)

Posso fazer uma tatuagem?

Posso fazer tatuagem, já que surgiram tecnologias para removê-las de modo simples, barato e indolor?

 

Fazer tatuagem não é um ato pecaminoso em si mesmo, mas também não é um ato moralmente neutro. Em todo caso, não é a facilidade de remoção a condição fundamental para determinar a sua moralidade. A “moralidade” de um ato consiste na relação deste com a lei moral, que é, em última instância, a lei de Deus. Ela pode ser determinada considerando o objeto da ação (o que se faz), juntamente com o fim desejado por quem desempenha a ação, as circunstâncias em que ela se realiza, e como esses três fatores se relacionam com a lei moral, seja quando está em conformidade com ela (neste caso, a ação é moralmente boa) ou quando se lhe é oposta (a ação é moralmente má, um pecado).

Pois bem, primeiramente, o objeto: o que é uma tatuagem? Tatuagem é uma “marca ou desenho permanente feito no corpo por meio da introdução de pigmento na pele” (Enciclopédia Britannica). A tatuagem tem sido usada no mundo em diferentes períodos históricos por razões distintas. Havia sido praticamente erradicada do mundo ocidental até ter sido redescoberta nos últimos séculos pelo contato com índios americanos e polinésios, porém mesmo então era usada quase exclusivamente pelas camadas marginais e menos respeitáveis da sociedade. Hoje, todavia, desde os anos 1990, a tatuagem parece ter se tornado uma moda, chegando até a ser “respeitável”.

Não obstante as tatuagens terem sido proibidas na Bíblia (Lv 19,28), foram-no porque representavam a profissão de superstições cananitas e cultos pagãos. Em si mesma, enquanto simples marca no corpo, a tatuagem não é pecaminosa, pois não transgride um mandamento divino, tampouco um bem humano ou ensinamento da Igreja. No entanto, pode se tornar pecaminosa devido à sua circunstância, por exemplo: o custo de uma tatuagem pode ser excessivo em relação ao ganho de uma pessoa; a tatuagem pode deixar cicatrizes se removidas posteriormente; a imagem tatuada pode ser imoral ou obscena e até mesmo blasfema ou satânica; ela pode cobrir uma parte muito grande do corpo, desfigurando-o, ou pode ser feita em uma parte imodesta do corpo.

Isso nos leva a considerar o fator mais importante na avaliação da moralidade de uma tatuagem: a razão para fazê-la.

Em algumas culturas, fazia-se tatuagem para receber proteção mágica contra algum mal, ou para assinalar o grau, status ou pertencimento do tatuado a um grupo, ou até como simples ornamento corporal. Os antigos romanos tatuavam criminosos e escravos e, no século XIX, condenados americanos em liberdade e desertores do exército inglês eram identificados com tatuagens. Os cristãos coptas tatuavam crucifixos em suas testas e dedos como uma profissão de fé contra o invasor islâmico. Alguns peregrinos medievais faziam o mesmo, para dar testemunho do término de sua jornada de devoção.

Hoje, contudo, a aparente onipresença das tatuagens provém de motivos muito distintos: uma adesão irrefletida a tendências e modas; imaturidade e imprudência; um espírito de desobediência ou rebelião contra as autoridades ou convenções sociais. Muitas vezes, faz-se tatuagem por pressão dos colegas ou por desejo de ir contra a sociedade, por tédio ou busca de novidades, por desejo de chamar atenção, por vaidade e ostentação, por narcisismo, por um espírito de exibicionismo que pode até revelar um desequilíbrio psicológico mais grave. Todos esses atos podem ser pecaminosos em diferentes graus.

Demais, temos o dever de respeitar e cuidar do nosso corpo, que nos foi dado por Deus e transformado pela graça em templo do Altíssimo. "Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habi­ta em vós, o qual recebes­tes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis? Porque fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo. (1Cor 6,19). Qualquer alteração ou desfiguração desnecessária e injustificada do corpo é – também aqui, com diferente graus de culpabilidade – uma violação da verdade, do nosso dever de bem cuidá-lo.

Por fim, tatuar-se é um modo de se identificar com uma cultura e seus valores. Ceder ao movimento moderno das tatuagens é um modo de acomodar-se à vida do mundo, à cultura anticristã e a um modo de vida esvaziado de valores cristãos. Como disse São Paulo "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito" (Rm 12,2). Somos católicos, estamos no mundo mas não pertencemos ao mundo, não devemos imitá-lo. Só Nosso Senhor deve ser a luz e o guia de nossas ações, e não as modas e mentalidades mundanas.

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