Skip to content

Família e moral (137)

Como lidar com o seu filho

Michael J. Rayes

 

[Nota da Permanência: O leitor interessado no tema dos quatro temperamentos encontrará um estudo valioso publicado na Revista Permanência no. 270, à venda na nossa livraria]

Você está disciplinando dois dos seus filhos. Um deles está bem na sua frente com olhar firme na cara, ouvindo seu sermão e seu tom de voz ríspido. O outro está do seu lado e não consegue sequer olhar para você. Ele começa a chorar. Por que as crianças reagem de modo tão diferente à mesma coisa?

Talvez você já tenha lido sobre os quatro temperamentos. Mas o que isso tem a ver com você enquanto pai hoje? Como aplicar o conhecimento dos temperamentos ao seu estilo de educação? Talvez você já tenha uma ideia genérica de que não pode responder a cada filho da mesma maneira, mas modificar seu jeito para se adaptar às necessidades de cada um deles. No mundo real, como reagir do modo mais eficiente e caritativo a cada um de seus filhos?

 

Temperamento e personalidade

O que é o temperamento, afinal de contas? Temperamento é algo que alguém está inclinado a fazer devido ao modo como foi “programado” no nascimento. A personalidade combina o temperamento com o sexo, a educação (inclusive o ambiente familiar), a força de vontade interna, os hábitos adquiridos da pessoa e outros fatores externos e eventos na vida.

Então o temperamento é como você nasceu, mas a personalidade é o que você se torna. O temperamento é como você reage a algo. Você já percebeu que algumas pessoas são naturalmente agitadas, enquanto outras são naturalmente calmas? Isso é o temperamento.

Sua personalidade como um todo enquanto adulto é a combinação do temperamento com os outros fatores mencionados acima. Por exemplo, dois sanguíneos de 25 anos terão personalidades muito diferentes se um cresceu em Beverly Hills, e o outro no Afeganistão. A força de vontade também tem muito a ver com a personalidade de um adulto. Dois coléricos de 50 anos que viveram suas vidas inteiras na mesma cidade, na mesma cultura e no mesmo background familiar terão personalidades diferentes se um deles passou os últimos 30 anos, deliberadamente, tentando conter suas paixões e arranjando tempo para oração privada.

Por que levar em conta os temperamentos, então? Estamos etiquetando as pessoas? Não exatamente. Perceba que, quando falamos da personalidade de alguém, estamos nos referindo a adultos apenas. As crianças não têm personalidades plenamente formadas, e, portanto, nós olhamos para o temperamento delas. Elas estão muito mais propensas, por estarem no seu estado temperamental “cru”, a reagir a eventos de maneira previsível. Os pais podem usar sua compreensão do temperamento dos filhos para facilitar seu trabalho.

 

Como determinar o temperamento do seu filho

Dê uma olhada nessa tabela e veja quais atributos, reações e orientações sua criança tende mais a exibir. E lembre-se: provavelmente ninguém tem um temperamento puro. Somos combinações de temperamentos dominantes e secundários (ex: sanguíneo colérico)

 

Temperamento

Tipo

Atributos

Reação

Orientação

Necessidades

Colérico

(C) intrometido
(A)  realizador

Ambicioso, ativo, insensível, autoritário

Rápida, profunda

Tarefas

Lealdade dos demais, ocupação

Sanguíneo

(C) brincalhão
(A) festeiro

Palhaço, amigável, extrovertido, sem foco, dramático, ativo.

Rápida, superficial

Diversão

Diversão, grupos, pessoas

Melancólico

(C) preocupado
(A)  meticuloso

Introspectivo, introvertido, preocupado, temperamental, s/ autoconfiança

Lenta, profunda

Detalhes

Apoio, elogio

Fleumático

(C) desleixado
(A) pacificador

Lento, pode ser preguiçoso, calmo, passivo, cabeça-dura.

Lenta, superficial

Ideias

Paz, harmonia

             

(C) Criança; (A) Adulto

 

Abordagem prática para a vida familiar

Em uma família grande, você pode juntar os filhos mais velhos e os mais novos para cuidarem dos irmãos, em vez de simplesmente contar com o filho mais velho para cuidar da tropa inteira. Por exemplo, junte um fleumático mais velho e calmo com um colérico mais ativo em idade pré-escolar; um melancólico preocupado mais velho com um sanguíneo mais novo e otimista.

Na hora da tarefa de casa, os sanguíneos costumam gostar de ter música tocando no fundo enquanto começam os trabalhos. Muitos melancólicos não podem ouvir música nessas circunstâncias, pois isso tiraria seu foco. Você pode ter que separar as crianças para que elas não se distraiam umas às outras.

Vamos usar a matemática como exemplo de como iniciar as tarefas escolares de casa. O pai pode usar uma das seguintes abordagens a depender do temperamento do filho:

Se o filho for colérico, o pai pode dizer: “Aqui está sua tarefa de matemática. É muito importante, pois nos ajuda a pensar e a resolver problemas. Você consegue resolver essa tarefa?”

Para o sanguíneo: “Aqui está sua tarefa de matemática. Faça apenas metade por enquanto, tudo bem? Vamos começar a primeira juntos”.

Para o melancólico: “Sente aqui comigo, e vamos começar a tarefa de matemática juntos”.

Para o fleumático: “Hora da tarefa de matemática. Vá lá e faça a tarefa agora. Vamos começar agora mesmo”.

Repare nos pontos centrais: com o colérico, o pai enfatiza que a matemática é importante e, então, desafia a criança; com o sanguíneo, o pai compartilha o trabalho com o filho para que ele não esteja só e diminui a quantidade de trabalho (por enquanto); o filho melancólico recebe apoio por estar junto do pai; e o fleumático ouve a palavra “agora” mais de uma vez.

 

Como ensinar crianças temperamentais

Crianças coléricas não têm muita paciência para aulas longas e chatas. Essas crianças podem praticar bullying na escola se não receberem atividades suficientes.

Crianças sanguíneas têm problemas de concentração. Você não pode dar a elas um monte de material de estudos e dever de casa e ir embora, como faria com um colérico. Elas precisam de monitoramento frequente. Dê prazos a elas e recompensas. Elas gostam de ver o todo, mas é preciso dividir suas tarefas para que possam se concentrar melhor assim. Se for divertido, elas farão sem a menor dificuldade; se não for divertido, será como mover montanhas.

Crianças melancólicas precisam do seu próprio espaço. Precisam de ordem, estrutura e rotina. Elas, normalmente, são as vítimas do bullying escolar. Conseguem fazer toda a tarefa de casa uma vez que sintam que tem o apoio de que tanto necessitam e, então, ficarão confortáveis trabalhando. Se não estiverem acostumadas com uma tarefa, sua timidez as impedirá de fazê-la. Quando uma criança melancólica precisa de ajuda com a tarefa escolar, virá diretamente a você. Quando uma criança sanguínea precisar de ajuda, vai se esgueirar silenciosamente em direção a outra coisa mais divertida.

Crianças fleumáticas têm traços de teimosia. Elas não costumam realizar grandes façanhas e podem se comprazer apenas em ver as outras crianças brincarem. Precisam ouvir, respeitosamente, que é hora da próxima atividade ou tarefa. Essas crianças precisam de paz e harmonia. Se o mau desempenho delas for apresentado como um problema, elas se sentirão motivadas a consertar isso para que possam retornar à sua rotina normal, pacífica. Elas também precisam de respeito e são desencorajadas por ranzinzices.

Como você elogia seu filho vai depender do temperamento dele. Ao colérico diga: “Gostei do seu trabalho”. Ao fleumático: “Eu gosto de você”. Uma criança sanguínea precisa ouvir: “Você é bonita!” Mas o melancólico precisa ouvir: “Bom trabalho”, ou “Gostei do jeito como você fez isso!”

Em outras palavras, os coléricos precisam de reconhecimento pelo que fazem. Fleumáticos precisam de reconhecimento por simplesmente serem o que são. Sanguíneos precisam de reconhecimento pela sua aparência ou pelo modo como agem. Melancólicos precisam de reconhecimento pelo modo com que fizeram algo. Lembre-se, o elogio que você faz a cada filho precisa ser específico, ou vai soar falso.

 

O que toda criança precisa

Os quatro tipos de temperamento são diferentes, mas todas as crianças são criadas à imagem e semelhança de Deus, e todos têm livre arbítrio para escolher seu comportamento. À luz disso, há algo de que todo tipo de criança precisa? Que traços universais ajudarão as crianças a crescerem e irem para o céu?

 

A resposta é amor e estabilidade

Quando os pais se amam, amam seus filhos e proporcionam um ambiente emocionalmente estável para a vida familiar, as crianças encontram um lar onde podem prosperar e se tornar adultos católicos. É a isso que Deus lhes direciona no sacramento do matrimônio. O propósito da vida familiar é voltar as almas a Deus. Lembre-se disso quando se sentir exasperado nos problemas com os filhos e serviços domésticos. Ao lhes dar amor, estabilidade e respostas adequadas aos seus temperamentos, estamos fazendo uma obra de Deus.

 

(The Angelus, March/2012. Tradução: Permanência)

Como responder a alguém que crê que sua alma eterna teve vidas passadas?

Como responder a alguém que crê que sua alma eterna teve vidas passadas?

O primeiro ponto a ser estabelecido em qualquer resposta, sempre, é reconhecer o elemento de verdade na afirmação da outra pessoa. O elemento de verdade, aqui, é que a alma é “eterna”, não no mesmo sentido em que Deus é eterno, mas, usando uma expressão católica, no sentido de que ela é imortal, ou seja, de que ela não pode morrer ou deixar de existir de algum modo. Agora, essa alma que não pode morrer é sempre a mesma. Ela não pode ser uma alma diferente ou a alma de um ser diferente e, ainda assim, continuar sendo uma alma imortal.

Disso já podemos refutar a reencarnação, na qual a mesma alma passaria por vários níveis de existência, passando, por exemplo, por uma vida animal. Se tal fosse o caso, ela não seria a mesma alma, o mesmo indivíduo, idêntica a si mesma. Seria uma alma diferente, isto é, um princípio de vida diferente da que era. A razão disso é que a alma é o princípio da vida, e a mesma alma não pode ser o princípio de dois tipos diferentes de vida, animal e humana.

Essa pessoa, porém, parece estar dizendo que ela teve várias vidas humanas. A primeira e mais óbvia pergunta a se fazer a ele é que prove essa afirmação, algo que ele, obviamente, não tem como fazer. Qualquer memória que ele tenha poderia ser só a imaginação dele, e elas têm que ser provadas por algum referencial exterior para que essas afirmações possam ser levadas a sério.

Porém, o mesmo argumento filosófico pode ser usado contra a reencarnação. Se uma alma tivesse tido uma vida diferente, então ela seria uma alma diferente e um ser individual diferente do que ela é hoje. A alma não pode mudar sua matéria e tornar-se a forma de um corpo, e, após, de outro corpo; agora, de um ser, depois, de outro ser. Ela teria que ser uma alma individual diferente para tomar um corpo ou ser individual diferente. Portanto, não pode ser a mesma pessoa que tem vidas diferentes. A pessoa humana é composta de corpo e alma, de modo que, assim que você altera um, imediatamente você altera o outro.

Isso não pode ser negado por ninguém que reconheça que o homem tem um lado espiritual nele (suas faculdades do intelecto e da vontade), bem como um lado corporal. O corpo e a alma andam juntos, a alma dando forma ao corpo, e o corpo, por natureza, sendo o corpo dessa alma. Afirmar que os dois podem ser separados vai contra todos os indícios dos sentidos, que apontam para a unidade do homem, corpo e alma. Portanto é impossível afirmar que uma pessoa teve vidas corporais diferentes.

É permitido a um homem casado servir no altar?

Pe. Peter Scott, FSSPX

 

É permitido a um homem casado servir no altar?

O serviço do altar no Santo Sacrifício da Missa tem tão elevada dignidade que a Igreja consagrou as várias funções do servidor do altar pelas ordens menores. O Hostiário recebe o poder de soar os sinos e de segurar os livros, o Exorcista recebe o poder de despejar água no Lavabo, e o Acólito recebe o poder de carregar as velas e de trazer água e vinho ao altar para o Santo Sacrifício da Missa. Em cada caso, a consagração do clérigo a Deus é simbolizada pelos movimentos exteriores que ele pratica no altar, de modo que o Hostiário dê bom exemplo aos fiéis através de sua vida, para que os chame à oração; o Exorcista dê o exemplo de pureza de alma, e o Acólito dê o exemplo de luz de bondade, justiça e verdade para iluminar os fiéis e a Igreja de Deus, e também de espírito de sacrifício através de uma vida casta e boas obras (cf. Pontificale, Cerimônias da Ordenação)

A adequação do serviço do altar por um clérigo está diretamente relacionada com a sacralidade de sua função, que requer um homem consagrado a Deus. Além disso, é uma função pública, razão pela qual, como São Tomás assevera, “ele assume o papel de todo o povo católico, em cujo lugar ele responde as orações do Padre, que se dirige a ele na forma plural” (III, q. 83, a. 5 ad 12). Consequentemente, é eminentemente adequado que essa função seja desempenhada por um clérigo tonsurado, o qual se tenha, publicamente, revestido “do novo homem, que foi criado de acordo com Deus em justiça e em santidade na verdade” (ibid.), e isso ainda que não haja fiéis presentes.

Portanto, se um clérigo tonsurado estiver presente, ele deve fazer o serviço do altar. Porém, raramente esse é o caso, e, ainda assim, a Igreja requer que haja um servidor do altar. Em sua encíclica de 1947 sobre a Sagrada Liturgia, o Papa Pio XII ensina isso claramente: “É nosso dever e mandamento – assim como mandamento da Santa Madre Igreja –   que, por reverência pela dignidade desse augusto sacrifício, nenhum Padre deve se dirigir ao altar sem um servidor que assista e responda na Missa de acordo com a prescrição do Cânone 813” (Mediator Dei, §97). Esse Cânone afirma, em efeito, que o Padre não deve celebrar sem um servidor (ministro) que o sirva e responda às orações, e, além disso, esse servidor não pode ser uma mulher, exceto no caso de ausência de homem e na presença de justa causa, hipótese em que ela poderá responder às orações à distância e, de maneira alguma, aproximar-se do altar. Nesse caso, é claro, ela não é um servidor do altar. A razão para excluir as mulheres deriva do que se disse acima sobre a natureza pública e litúrgica da função do serviço do altar, que envolve uma espécie de liderança espiritual do povo católico.

Em seu comentário sobre a presente questão, o Pe. O’Connell diz: “Apesar dele [o servidor] dever ser um clérigo, na prática, servidores que não sejam clérigos são permitidos” (The Celebration of Mass, p. 365). Isso é confirmado pela sessão no Missal que enumera os defeitos que podem ocorrer durante a celebração: “se nenhum clérigo ou outra pessoa que possa servir estiver presente, ou se a pessoa presente é alguém que não pode servir, como uma mulher” (X, 1). Isso claramente significa que um homem não-clérigo pode servir e que isso não é um defeito; portanto trata-se de um costume universal.

Se os garotos, frequentemente, são usados no serviço do altar, é porque eles são todos vocações em potencial, presume-se que sejam castos e virtuosos e têm, ao menos, a possibilidade de tornarem-se clérigos no futuro, se assim for a vontade de Deus. A função, certamente, dá aos garotos uma grande oportunidade de desenvolver seu amor às belas cerimônias da Igreja, sua sacralidade e simbolismo, e, assim, eles vão se acostumar a prestar atenção aos detalhes, como os clérigos.

Porém isso não significa que um homem casado esteja, de algum modo, excluído do serviço. A questão chave, aqui, é lembrar que se trata de uma função pública, com um papel de liderança espiritual no que diz respeito aos fiéis na Missa. Consequentemente, é necessário que esse homem seja casto de acordo com seu estado de vida (castidade marital é uma virtude) e que ele seja um exemplo de virtude e que ele viva, ao menos, sua consagração a Deus realizada em seu batismo. Na verdade, seria muito mais adequado que um homem casado em estado de graça servisse do que um homem solteiro ou um garoto que não possa comungar por não estar em estado de graça, ou cujas vida e obras sejam causa de escândalo. Em cada caso, ele não pode esquecer que ele está cumprindo o papel de uma alma consagrada à elevada honra e glória do Deus Todo-Poderoso. A condição importante, porém, é que o homem casado não seja desleixado nas cerimônias, movimentos e respostas em Latim, e que ele preste tanta atenção a desempenhar essas funções quanto um clérigo prestaria, ou como um garoto que as está aprendendo pela primeira vez.

Esto vir!

Dom Tissier de Mallerais

Após definir a fortaleza e mostrar em que consiste a disciplina, tratarei do papel da educação na aquisição dessas virtudes segundo Dom Lefebvre. Irei também considerar os defeitos e as virtudes ligadas à fortaleza e à disciplina. Isso nos fornecerá diretivas práticas segundo o modelo de um homem exemplar.

 

Definições de fortaleza

Disciplina é o controle de si, a ordem interior da alma e do corpo, que é a fonte da ordem exterior das coisas e dos homens. É fruto do dom de sabedoria (ordenar é próprio do sábio) e do dom de fortaleza ("sou mestre de mim mesmo e do universo", são as palavras que o dramaturgo Corneille põe na boca do Imperador Augusto).

Fortaleza, ou coragem, é uma das virtudes cardeais; é assistida pelo dom de fortaleza, um dos sete dons do Espírito Santo. O seu objeto é dominar o temor a fim de obter o bem difícil, seja na ordem temporal, como uma grande obra, uma vitória militar, ou na ordem espiritual, como a santidade e a salvação eterna.

 

O papel da educação e da escola na aquisição dessas virtudes

Essas virtudes e esses dons do Espírito Santo devem ser postos em prática desde a primeira infância, em casa ou na escola, para que sejam adquiridos de maneira estável.

O Marechal Foch, comandante supremo das forças aliadas na Primeira Guerra Mundial, via no infatigável trabalho do jovem a fonte do controle de si e da confiança, sobretudo na arte militar, que ele mesmo aprendeu na escola em Metz.

"Não creia em dons da natureza! Creia em trabalho duro!", exclamava a seus aspirantes. É pelo trabalho duro que se obtém conhecimento, e o conhecimento é o que constitui a dignidade do profissional e da sua habilidade. É o conhecimento, adquirido por meio da prática incansável, que o provê da confiança com que é capaz de tomar decisões sem ter de sempre recorrer a conselhos! Essa confiança estabelece o exercício da habilidade de decidir em meio às adversidades, e isso justamente é o que permite que confiemos nele.

O conhecimento adquirido por Foch foi o que lhe permitiu reagir imediatamente ao violento ataque inimigo nos terríveis dias da primavera de 1918: não se apavorou nem perdeu a cabeça, mas movimentou exércitos inteiros para preencher lacunas e contra-atacar com sucesso.

Dom Lefebvre vê a fonte da disciplina no espírito de sacrifício instilado na escola. Em 31 de março de 1982, numa escola, expressou-se deste modo:

"A escola católica", disse ele, "é a escola em que se aprende a disciplinar-se, em que se aprende o sacrifício, já que não se pode ser católico sem sacrifício. Por que sacrificar-se? Para encher-se da caridade e do amor.

"Fomos criados para amar a Deus, amar o próximo: isso é toda a lei de Deus. Não há outra lei. Toda a lei do Evangelho resume-se na caridade. Mas, para nos tornarmos caridosos, devemos nos sacrificar. Se não nos sacrificarmos, não nos devotaremos, não nos daremos.

"O egoísta, que pensa apenas em si mesmo, não é caridoso. Portanto numa escola católica deve-se aprender o sacrifício, a disciplina: a disciplina da inteligência, da vontade, do coração.

"Aprende-se a disciplinar a inteligência por meio do recebimento da verdade, da submissão à verdade ensinada. A verdade nos é ensinada desde cedo na infância até o último dia na escola. Assim se aprende a formar a inteligência conforme a verdade que nos ensina Nosso Senhor Jesus Cristo.

“Aprende-se também a formar a vontade, a discipliná-la. Todos temos defeitos, nascemos com o pecado original, e os efeitos dele permanecem em nós até a morte.

“Assim, temos de lutar contra as más tendências, os maus desejos em nós, e disciplinar a vontade, com a ajuda de Deus e da graça. É por isso que na escola há uma capela, que é o coração, o principal edifício. Tudo se orienta à capela, a Nosso Senhor Jesus Cristo: Ele é a nossa Verdade, a nossa força, o nosso amor.”

 

Defeitos adversos à fortaleza e à disciplina

Por falta de educação, de prática, de exercício, a fortaleza e a disciplina perdem lugar para a covardia e o desleixo, e em vez da coragem vê-se a fraqueza do apetite irascível. O apetite irascível é a paixão da alma, a paixão da parte sensível da alma humana. A paixão irascível deseja e busca o bem difícil, e o apetite concupiscível deseja o bem sensível e deleitável.

A falta do apetite irascível causa a pusilanimidade, a inconstância; também causa hesitação na inteligência, que, em vez de aplicar heroicamente os princípios, procura escapatórias, acordos, diante de um adversário ou de uma adversidade.

Em vez da disciplina, do controle de si, há a raiva (amiúde reação da fraqueza), desordem (na pessoa e nas coisas), e preguiça. O último, a preguiça, não consiste em não fazer nada, mas em preferir o trabalho menos útil ao mais útil e necessário.

Também aqui se vê o vestir desleixado ou o vestir contrário à modéstia corporal. Se compararmos o comportamento e o vestir dos rapazes em 1916 com o dos de 2016, notaremos a perda da virilidade, em apenas um século, da população inteira de um país, graças ao lento progresso de efeminação do comportamento e vestimenta dos rapazes.

 

Repercussão da força física na força da alma

É papel da família católica e da escola católica exercitar as crianças e os jovens na resistência física: através da fadiga, jejuns, vigílias, caminhadas etc.

Uma noite de oração ou uma hora de adoração noturna é excelente exercício de resistência física e piedade. A escola tem aulas semanais de educação física para ensinar os rapazes a ganhar flexibilidade e músculos. Sabe-se bem que a força e o tônus físicos são auxílio ao tônus moral.

O jovem Eugênio Pacelli, alto e magro, praticou exercícios físicos da infância até a adolescência, a fim de poder manter-se sempre ereto. Fazia equitação e tornou-se experiente e incansável cavaleiro nas suas corridas pelo interior romano. Em toda a sua vida, quando de pé, sentado, ou na sela, sempre se esforçou por manter-se impecavelmente aprumado com incansável disciplina corporal. Já como Papa Pio XII, nos visitantes inspirava de imediato respeito: "Só se podia aproximar de Pio XII com grande respeito", lembrava Dom Lefebvre.

 

A prática do controle de si e da ordem

O bom Pe. Barrielle, diretor espiritual do Seminário São Pio X em Écône, ensinou aos seminaristas princípios de ordem que lhes seriam muito úteis na direção de priorados, escolas e distritos. Ensinou as cinco regras do Fayolismo (do engenheiro Fayol, não do General Fayolle, que foi derrotado em 1917), que são, conforme o mesmo padre:

Planejar com antecedência: os objetivos e os meios: lugar, tempo, coisas, atribuições das pessoas. Organizar: as etapas, os gerentes, as reuniões preparatórias. Comandar: tomar decisões, organizar as pessoas com precisão. Controlar: as coisas, as pessoas, lembrá-los dos seus deveres. Trabalho de gabinete: escritos, telefone, arquivos.

Agora um exemplo tirado de Dom Lefebvre. Tão logo retornou de uma viagem, leva a bagagem ao quarto e vai direto à capela rezar o terço em comunidade, embora já tivesse rezado quinze dezenas com o motorista — "os deveres em comunidade têm precedência". Após a refeição, desfaz as malas, e leva a roupa suja à lavanderia. No dia seguinte, abre a abundante correspondência e, com bela e constante caligrafia, responde a cada carta com uma palavra cordial, mesmo que uma delas estivesse cheia de insultos.

À noite, dá conferência espiritual aos seminaristas. Espera ao pé da plataforma até o horário exato. Após o Veni Sancte Spiritus, senta-se com os pés juntos, sem nunca acostar-se. Descansa os pulsos na beirada da mesa e fala (às vezes sorrindo, às vezes sério quando há reprimendas a fazer) com a sua pequena, modesta, mas distinta voz.

Sua batina é simples, não se percebem os botões, amarrada na cintura com a modesta faixa espiritana, e os sapatos esmeradamente polidos.

É o exterior e o comportamento de um modesto sacerdote, de um respeitado e amado líder, que, sem ostentação, é um exemplo de ordem e controle de si para os seus filhos, membros da sua Fraternidade Sacerdotal São Pio X.

De onde recebeu tal disciplina, tal força interior? Certamente da sua família, do pai, que foi chefe de uma indústria; mas também do Pe. Henri Le Floch, reitor do seminário em Roma; e finalmente do noviciado espiritano. Foi bem ensinado, e se manteve homem forte, vir fortis, cuja mansidão conquistou a sua própria alma e a alma dos outros. "Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra." Dito de outra forma, nas palavras de Dom Delatte: "Terram quam terunt, terram quam gerunt, terram quam sunt — terra que pisam, terra que mandam (seus subordinados), terra que são (suas almas)”.

(The Angelus, september 2016 )

Há uma definição precisa do que seria a Liturgia?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

O termo “liturgia” vem do grego leitourgia (λειτος, relativo ao povo, e εργον, obra), indicando um serviço realizado pelo bem comum. Na Grécia Antiga, a palavra designava qualquer serviço prestado à comunidade a custo pessoal, ou, ao menos, sem remuneração. Quando as Escrituras hebraicas foram traduzidas para o grego na Antiguidade, o termo foi usado para designar, também, o culto de Deus (cf. Ex 29, 30, 2Cr 13,10) e, com esse significado, ele adentrou o uso cristão.

Na encíclica Mediator Dei, Pio XII nos deu a definição real: “A Sagrada Liturgia é o culto público que Nosso Redentor, como Cabeça da Igreja, presta ao Pai, bem como o culto que a comunidade dos fiéis presta a seu Fundador e, através d´Ele, ao Pai Celestial”. Essa é uma definição precisa e exaustiva.

Culto é o reconhecimento da excelência suprema de Deus e a expressão da submissão do homem ao Seu domínio absoluto. Enquanto tal, é um ato da virtude da religião, que inclina o homem a dar a Deus a honra e a adoração devidas a Ele enquanto Criador e Governante supremo, bem como fim último de todas as coisas.

Público não se refere ao número de fiéis que vão aos serviços divinos ou à qualidade exterior desses atos, mas ao fato de que o que é dito ou feito representa e afeta todo o corpo dos fiéis, mesmo quando nenhum deles está fisicamente presente.

Nem todos os atos de culto são litúrgicos no sentido estrito, mas apenas aqueles realizados em nome de Cristo e da Igreja. Eles constituem a piedade da Igreja, compreendida nos livros litúrgicos eclesiásticos.

Ações litúrgicas são distintas das devoções não litúrgicas, desenvolvidas em razão das necessidades espirituais dos fiéis e com a permissão da Igreja. A Igreja nunca se opôs a essas devoções, chegando até a apropriar-se delas ao dar-lhes aprovação (p.ex., o terço, as estações da Cruz, etc), mas elas não podem prevalecer contra a Liturgia ou tomar o lugar dela. De qualquer modo, não há nenhuma oposição entre piedade litúrgica e piedade pessoal: práticas devocionais que não estejam diretamente ligadas à Liturgia são altamente louváveis e absolutamente indispensáveis.

Cristo é o principal ministro do culto do Novo Testamento, o Eterno Sumo Sacerdote da nova aliança. Através da Liturgia e como principal ministro, Cristo não apenas rende a honra devida a Deus, mas, ao mesmo tempo e precisamente porque Ele é o Cabeça da Igreja, Ele dá e sustenta a vida sobrenatural nos membros do seu Corpo Místico. Portanto, Cristo está presente em todas as ações litúrgicas, e a obra de redenção é continuada na Liturgia.

Os ritos sagrados têm um fim duplo: dar a honra devida a Deus e a santificação dos homens. A razão última por que a Liturgia santifica os homens é que, através dela, os fiéis entram em contato com o mistério da salvação, que é o mistério de Cristo. O ato pelo qual Ele redimiu o mundo – Sua paixão, morte, ressurreição e ascensão – é tornado presente e operativo nos ritos sagrados da Liturgia, que não é nada além do sacerdócio de Cristo em ação.

A comunidade dos fiéis dá culto público a Deus. O fundamento teológico dessa asserção é o dogma do Corpo Místico de Cristo. O Cabeça desse Corpo é o Sumo Sacerdote e Vítima, Que dá ao Pai Eterno adoração, graças, expiação e impetração e, ao mesmo tempo, santifica e consagra os membros do Corpo e do universo inteiro. A glória de Cristo, agora consumada à mão direita do Pai, reflete-se nos membros individuais.

Com todos os membros sendo governados pela mesma Cabeça, os fiéis não estão sozinhos em sua peregrinação rumo ao reino do céu, mas constituem parte do Corpo, associados naquela sociedade sobrenatural que inclui os vivos e os mortos e cuja cabeça é Cristo.

Apenas a Igreja Católica pode render culto legítimo ao Pai Eterno. Para estar apta a tal, ela recebeu do Filho Encarnado a Missa, a representação do Sacrifício da Cruz, e os Sacramentos, as sete fontes de salvação, que a Igreja, com zelo maternal, adornou com o Ofício Divino e outras devoções.

(The Angelus, Maio 2021)

Sabemos que devemos amar ao próximo como a nós mesmos, mas como devemos amar a nós mesmos?

Pe. Juan Iscara, FSSPX

 

É necessário ter ideias claras acerca do verdadeiro amor de caridade por si mesmo, porque há muitas maneira de amar a si mesmo que não têm nada a ver com a caridade sobrenatural que deve regular nossas relações com o próximo.

Primeiramente, há o amor sensual, desordenado e imoral, que o pecador professa a seu corpo, dando-lhe todo tipo de prazeres ilícitos.

Também há o amor puramente natural, que consiste em preservar a própria existência e buscar o próprio bem. Não é uma virtude sobrenatural, pois é apenas algo puramente instintivo e natural, mas não é uma desordem em si. Esse amor-próprio é comum a todos os homens, bons e maus.

Há uma espécie superior de amor, o amor sobrenatural de desejo, pelo qual a felicidade eterna da glória do céu é desejada. Ele é bom e honesto, porém imperfeito e, na verdade, pertence à virtude da esperança, não da caridade.

Finalmente, há o amor sobrenatural de caridade, pelo qual amamos uns aos outros em Deus, através de Deus e por Deus. Essa é uma forma perfeitíssima de amor, da mais alta dignidade, pois, tendo Deus como seu motivo formal – embora recaia materialmente sobre outros homens – pertence, propriamente, à virtude teológica da caridade e recebe dela sua excelência. 

De acordo com essas distinções, então, o amor sobrenatural de caridade por si é o ato sobrenatural pelo qual amamos a nós mesmos em Deus, através de Deus e por Deus. O amor de caridade por si próprio estende-se à nossa própria pessoa e a tudo que pertence a nós, tanto na ordem natural, quanto na sobrenatural, pois tudo deve estar relacionado com Deus.

Portanto, em relação à vida natural, o homem tem a obrigação de amar seu próprio corpo e de preservar sua própria vida. O corpo não deve ser amado por ele mesmo, mas por Deus, enquanto instrumento da alma apto a dar honra a Deus e a praticar virtude (Rom 6,13-19), e enquanto templo vivo do Espírito Santo (1Cor 6,19-20), santificado pela graça (1Cor 3,16-17) e capaz da glória eterna em razão da glória da alma (1Cor 15,42-44).

O dever de preservar a vida natural proíbe fazer qualquer coisa contrária à saúde do corpo e exige o uso dos meios ordinários de recuperar a saúde que se perdeu. Mas não estamos obrigados a usar meios extraordinários, a não ser que nossa vida seja necessária à família ou ao bem comum, e haja fundada esperança de sucesso no uso de meios extraordinários à nossa disposição. Porém, é permitido praticar mortificação voluntária, mesmo muito severas, para expiar pecados de si ou de outros que não conformam suas vidas com Jesus Cristo, mesmo que isso acarrete uma redução não pretendida de nossa vida na terra.

Porém, para que essa mortificação seja perfeita e a autoimolação lícita e meritória, ela deve ser regulada pela prudência cristã. Nada pode ser feito contra a obediência, nem algo que tenha a intenção direta de abreviar a própria vida.

Também se pode – e, às vezes, deve-se – sacrificar a própria vida por caridade ao próximo ou pelo bem comum temporal. E, portanto, por exemplo, é lícito e altamente meritório dedicar-se, por caridade, a pessoas com doenças contagiosas, mesmo que haja perigo real de contrair a doença e vir a morrer. O pároco é obrigado a ministrar os últimos sacramentos aos doentes, mesmo que o faça com perigo imediato a sua própria vida.

Como corolário da obrigação de preservar sua vida e de buscar a perfeição humana máxima, o homem deve buscar, por caridade com ele mesmo, um futuro humano digno, proporcional a suas habilidades pessoais e ao ambiente social no qual ele vive. Buscar melhorar seu próprio status e condição social não é apenas lícito, mas até mesmo obrigatório por exigência da caridade com si mesmo.

Mas não podemos esquecer que a vida sobrenatural é incomparavelmente mais importante que a vida natural. Nesse tocante, a caridade com nós mesmos prescreve duas coisas fundamentais: uma negativa, evitar o pecado a qualquer custo; e outra, positiva, praticar a virtude com o máximo possível de intensidade, buscando alcançar as alturas da perfeição cristã.

Se a caridade é amor, e o amor consiste em querer o bem à pessoa que amamos, segue-se que, quanto mais amarmos a nós mesmos com verdadeiro amor de caridade, mais tentaremos buscar o maior de todos os bens, o aumento e desenvolvimento da vida sobrenatural em nossas almas. Um grau maior de graça nesta vida corresponde a um grau maior de glória eterna no céu. Não pode haver ato de caridade maior consigo que buscar, com todas as nossas forças, na grande tarefa de nossa própria santificação, e isso até mesmo se custar a perda de todos os bens terrenos, a saúde corporal e a própria vida.

(The Angelus, Maio/2021)

Por que seguimos usando a liturgia reformada de 1962?

Pe. Nicholas Maria, C.SS.R.

 

Por que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X continua usando a liturgia reformada de 1962? Por que ela não retorna às práticas mais tradicionais dos Papas São Pio V ou São Pio X?

 

Uma tradição litúrgica (neste caso, a do rito romano) é como uma planta ou árvore viva; ela cresce, desenvolve-se, é podada, adaptada, reformada e revigorada. O problema da revolução litúrgica após o Vaticano II é que ela tentou cortar as raízes e destruir a planta e substitui-la por algo totalmente estranho à fé católica, o Novus Ordo Missae de Paulo VI, que “representa, tanto no conjunto quanto nos detalhes, um afastamento impressionante da Teologia católica da Missa” 1.

Ao manter-se fiel à última reforma claramente ortodoxa do rito romano antes dessa revolução, Dom Lefebvre não adentrou um debate especulativo (permitido, porém inconsequente) entre liturgistas quanto aos méritos de um Missal tradicional sobre o outro. Em vez, ele se considerava vinculado – talvez com alguma inconveniência – àquilo que a autoridade legítima havia realizado e que não era manifestamente pecaminoso:

“O princípio básico do pensamento e da ação da Fraternidade na dolorosa crise que a Igreja atravessa é o princípio ensinado por São Tomás de Aquino na Suma Teológica (II, II, q. 33, a.4): que ninguém pode se opor à autoridade da Igreja, exceto em caso de iminente perigo à fé. Ora, não há perigo à fé na liturgia dos Papas Pio XII e João XXIII, enquanto há um grande perigo à fé na liturgia do Papa Paulo VI, que é inaceitável” 2

E, novamente, ele escreveu em 1988:

“Desde sua fundação, a Fraternidade usa a edição de 1962 dos livros litúrgicos, pois eu os aceitei desde o momento em que surgiram em 1962, e porque a Fraternidade foi fundada em 1969 e aprovada em 1970. Essa nova edição não era nenhum novo Ordo Missae, mas uma nova edição do Ordo de São Pio V e de São Pio X com mudanças insignificantes. O calendário passou por uma mudança mais considerável na época, algumas das quais são, sem dúvidas, mais felizes, e outras, porém, controversas. Para que a uniformidade prevaleça na Fraternidade, porém, decidimos usar a edição de 1962, bem como seu calendário, pois consideramos as vantagens maiores que as desvantagens. [...] Cremos, com razão, que a edição de 1962 do Ordo Missae corresponde integralmente ao Ordo de São Pio V e de São Pio X. A pretensão de enxergar diferenças essenciais entre a edição de 1962 e o Ordo de São Pio V e de São Pio X manifesta uma mentalidade formalista e jansenista.”

  1. 1. Breve Exame Crítico do Novus Ordo Missae, Cardeais Ottaviani e Bacci et al., 25-09-1969.
  2. 2. Dom Marcel Lefebvre, Carta aos Amigos e Benfeitores Americanos, 28-04- 1983.

A restauração da tradição musical

Pe. Hervé de la Tour, FSSPX

Os momentos mais marcantes da nossa viagem de junho para Winona, à parte as ordenações, foram as reuniões noturnas ao redor das fogueiras no acampamento. As famílias se reuniram para cantar e tocar canções. Os jovens gostam das antigas baladas, que se tornaram clássicos, pois perduraram por gerações, tendo incorporado sentimentos pátrios, familiares e religiosos. Estas canções são parte de nossa cultura: músicas irlandesas e escocesas, cantos da Guerra Civil, canções caipiras, etc. Um dos livros musicais utilizados nos saraus traz o seguinte prefácio:

“’Só o amante canta’. Quão profundas são estas palavras de Santo Agostinho! Porque a canção é o casamento entre a poesia e a música e, como em qualquer casamento, tem por motivo o amor. Quer se cante a Deus, ao amado, ou até à pátria, canta-se por amor. O canto às vezes manifesta alegria, às vezes tristeza, mas sempre é uma manifestação de amor. Quem canta vai além do comum, pois deseja expressar algo que não se poderia expressar de outro modo. Assim como o pintor não só desenha alguma coisa, mas a pinta, o cantor não só diz algo, mas o canta.”

“Só o amante canta. Eis a razão por que o canto é tão natural para o católico. A vida católica é uma vida de amor, porque é uma vida de sacrifício. Daí todas as culturas da Europa Católica possuírem (além do sublime canto litúrgico) sua própria música folclórica, com belas canções e danças. Hoje, porém, não mais se canta. À medida que a cultura se torna cada vez menos católica, a verdade descamba e, juntamente com ela, a excelência, a beleza e, é claro, a caridade. Quando o homem se esquece de Deus, só lembra-se de si mesmo. Um homem egoísta não sabe amar, portanto, não é capaz de cantar.”

Henri Charlier foi um dos pensadores católicos proeminentes do século XX. Seus escritos sobre educação assemelham-se muito aos de John Senior. Ambos empenharam-se na restauração da cultura católica. A educação, de fato, foi um dos campos mais prejudicados neste século. Charlier diz o seguinte: “Existem dois tesouros para a educação infantil: as canções folclóricas e o canto gregoriano. Estas duas fontes representam os princípios básicos da tradição musical da humanidade”.

”O canto gregoriano é, sob certos aspectos, uma introdução mais fácil à música, porque nele as notas não têm a mesma proporção. Além do mais, ele nos introduz ao canto dos salmos do Ofício Divino e a uma cultura profunda, acessível a qualquer um através do missal e do breviário. O canto gregoriano, portanto, é o elo natural entre a música e aquilo que um homem fará de mais importante em sua vida”.

“A música folclórica, por sua vez, mantém o homem numa tradição humana, familiar e nacional. É a base e o fundamento do canto gregoriano.”

Como exemplo do que se perdeu e precisa ser restaurado, permitam-me citar A história de uma família, a biografia do Sr. e da Sra. Martin, os pais de Santa Teresinha do Menino Jesus. Ao descrever o Sr. Martin, que foi beatificado pela Igreja, o autor, Pe. Piat, diz:

“Gostava de recitar boa poesia (...) transmitiu a Maria e Teresa grande talento para a imitação. Ele sabia imitar entonações e palavras do dialeto auvernês, cantos de pássaros, tambores e toques de clarim de modo tão preciso, com um ritmo e uma expressividade tão grandes, que se tinha a impressão de estar ouvindo os sons genuínos. Acima de tudo, nutria um verdadeiro culto pelas antigas canções folclóricas e conhecia um vasto repertório delas.”

 

A mais pura forma de beleza

Todos necessitam de música, não importa a idade. Mas essa necessidade aparece com mais veemência na juventude. As crianças talvez não gostem de uma caminhada longa e cansativa, mas irão correr e dançar o dia inteiro sem reclamar. Em verdade, a dança deve-se unir à música, e não separar-se dela. Em nossas paróquias, como a de St. Marys ou Post Falls, as crianças aprendem as tradicionais danças folclóricas (irlandesas, mexicanas, polonesas, etc.).

Eis um conselho sobre a importância de fazer da boa música parte da vida doméstica para as crianças. Retirei-o dos escritos de Myrtle Douglas Keener, renomado educador:

“A educação moderna conduz a criança para longe das coisas ideais e destrói o desejo natural pela beleza. Eliminar a beleza da educação é destruir sua própria alma. Devemos permitir que nossas crianças entrem na vida adulta sem consideração para com a beleza, tendo perdido a verdadeira  inclinação para alcançar o que há de mais profundo na natureza?”

“O canto põe a criança em contato com a forma mais pura de beleza e satisfaz seu anseio natural por melodia e ritmo. Mas, a fim de preservar esse anseio, os pais devem começar o trabalho em casa e não adiar o ensino desse importantíssimo elemento à educação infantil para a escola e para uma idade em que tais desejos inatos se enfraquecem ou se perdem.”

“Como se deve conduzir este entusiasmante trabalho com nossas crianças? O primeiro passo é cantar-lhes belas canções.”

A rainha Isabela de Castela aplicou tais princípios na educação de seus filhos. Eis uma passagem da sua biografia escrita por William Thomas Walsh:

“Gostava de ter cavaleiros que fossem bons músicos. Garcilaso de la Veja, cavaleiro que matou o gigante Yarfe ante os muros de Granada e que depois foi enviado como embaixador a Roma, era excelente harpista. Francisco Penalosa, outro espanhol, foi um dos músicos mais brilhantes do coro papal em que Palestrina, meio século depois, estabeleceria as fundações da música moderna. Isabel quase não viajava sem músicos ao seu redor. Em sua capela havia mais de quarenta cantores treinados, além de organistas e tocadores de clavecino, alaúde, viola bastarda, flauta e outros instrumentos. Ela levava os músicos para o acampamento quando ia guerrear.”

Certa vez se disse: “Tenho pena dos americanos, pois não têm luz, não têm música em suas vidas.” Cabe a nós restaurar a tradição dos cantos folclóricos! Pode-se começar como melodias simples no estilo Mother Goose (Mamãe Gansa) e terminar em canções mais elaboradas. Eis o conselho dado aos pais por Maria Von Trapp:

“Logo que nascer o bebê, a mãe deve cantar para ele. Existem inúmeras canções de ninar, cantigas infantis e pequenas orações que podem ser encontradas em livros musicais. Os pais ficarão impressionados com a rapidez com que os pequenos irão cantarolar uma melodia. Isso conduzirá naturalmente a canto em partes, com a mãe cantando a segunda parte e o pai, a terceira. Cantar é algo natural. Se se pudesse apenas curar aquela horrível fobia com que tanto nos deparamos: ’não posso cantar, não tenho piano em casa!’”.

 

O mais belo instrumento

“O mais belo instrumento é a voz humana, que Deus deu a todos.”

“Tenho anos de experiência aqui nos Estados Unidos e sei  como todos se divertem ao cantar em ‘camadas’. Eis um bom método para consegui-lo: começa-se cantando a melodia em uníssono. Quando todos souberem a melodia suficientemente bem para cantá-la sozinhos, divide-se o canto em duas partes; e mais a frente, em três ou quatro. Logo veremos as pessoas cantarem essas diferentes ‘camadas’ em qualquer lugar em que estejam reunidas, quer estejam sentadas numa mesma sala ou então limpando um jardim. Cantar em ‘camadas’ é a maneira mais natural e fácil de educar o ouvido para cantar individualmente.”

Para concluir este artigo, trago uma citação do Pe. Schmidberger, da época em que foi Superior Geral da FSSPX:

“Neste país [Estados Unidos], é muito importante que não tenhamos apenas o ensino técnico e o de ciências naturais, mas que tenhamos especialmente empenho musical, uma atmosfera musical. Além do estudo de línguas e história, a música é muito importante para a formação das almas cristãs. É parte da vida interior – num nível natural, sim, mas um passo que nos aproxima de Deus e que, portanto, contribui para a formação de verdadeiras personalidades cristãs.”

“Estejam certos de que a música é um passo importante para o renascimento da América, da América Católica. Em todo lugar em que vive a fé, encontram-se as artes: pintura, teatro, música, literatura, desenho. As artes são importantes para nossa vida espiritual – são sinais dela – e quanto mais intensa é a nossa fé, mais florescem as artes.”

“Que nossas famílias e escolas sejam lares em que reina a boa música, em que as crianças sejam encorajadas a cantar belas canções, em que a cultura cristã não seja esquecida, mas transmitida!”

Termino com as inspiradoras palavras do livro musical usado no seminário:

“Que nós, peregrinos neste vale de lágrimas, encontremo-nos sempre a seguir as palavras de São Paulo, ‘cantando e celebrando de todo o coração os louvores do Senhor’ (Ef 5, 19), até que todos nós entremos na eterna canção de louvor, na Festa de Núpcias do reino celeste.”

(Angelus Press, março/abril de 2012.)

Há circunstâncias nas quais os Sacramentos da Igreja podem ser ministrados a não-católicos?

O Cânone 731, § 2º, claramente estabelece que “é proibido que os Sacramentos da Igreja sejam ministrados a hereges e cismáticos, ainda que peçam por eles e estejam de boa fé, exceto se, tendo rejeitado previamente os seus erros, eles se reconciliarem com a Igreja”

Todos os canonistas e moralistas concordam que aqueles que são hereges ou cismáticos e sabem que estão em erro não podem receber os Sacramentos da Igreja, a não ser que renunciem a seus erros e reconciliem-se com a Igreja. Numerosos decretos do Santo Ofício põem essa questão a salvo de qualquer controvérsia.

Há controvérsia acerca daqueles cristãos (batizados) que estão separados da Igreja de boa fé. É evidente que a Igreja não pode, como regra, permitir a administração dos Sacramentos a não-católicos. Isso negaria seus próprios princípios. Os Sacramentos são oferecidos àqueles que estão dispostos a viver de acordo com o que a Igreja ensina.

Acerca daqueles não-católicos que estejam em boa saúde, a proibição de dar os Sacramentos é absoluta. Mas, se estiverem em perigo de morte, parece que pode haver uma exceção.

O Santo Ofício, no dia 20 de Julho de 1898, permitiu a administração dos Sacramentos a hereges e cismáticos, desde que estejam de boa fé e tenham dado, ao menos, um sinal provável de boa fé, e desde que qualquer escândalo seja evitado.

Se eles estiverem inconscientes, o Santo Ofício declarou, no dia 26 de Maio de 1916, que a absolvição condicional e a extrema unção podem ser dadas se for possível julgar pelas circunstâncias que o cismático, ao menos implicitamente, rejeitou seus erros; deve-se evitar escandalizar os católicos presentes pela declaração do padre de que a Igreja supõe que aquela pessoa, em seus últimos momentos de consciência, desejou retornar à unidade da fé.

Deve-se salientar, porém, que é muito questionável se a administração dos Sacramentos da Penitência e da Extrema Unção (os dois Sacramentos acerca dos quais há discussões no caso de não-católicos que estejam em perigo de morte) é benéfica nesses casos. A principal dificuldade centra-se na intenção necessária para a recepção válida dos Sacramentos.

Acerca dos protestantes, como não acreditam nos sacramentos, especialmente nos da penitência e da extrema-unção, o caso deles não é um simples caso de falta de fé. Eles, positivamente, rejeitam o ensinamento católico. Mesmo havendo uma tristeza genérica pelos pecados cometidos, é difícil compreender como a vontade e a intenção genérica de "fazer tudo o que Deus pede" seria intenção suficiente para a recepção dos sacramentos, pois o próprio fundamento dessa intenção está ausente. 

Supõe-se que eles desejariam receber os sacramentos se soubessem que são sacramentos, e se soubessem que Deus quer que eles os recebam. Como, na realidade, eles não sabem ou não creem, é difícil compreender como poderiam ter uma vontade ou intenção sobre algo que não conhecem ou não creem. Não parece ser possível que haja até mesmo uma intenção implícita. Por essa razão, os decretos do Santo Ofício requerem, ao menos, um sinal provável de boa fé e, portanto, ao menos pelas circunstâncias, rejeição implícita dos erros.

O que exatamente é a obrigação imposta pelo segundo preceito da Igreja?

Os catecismos populares, normalmente, enunciam esse preceito como “confessar-se ao menos uma vez por ano ou mais se houver perigo de morte ou se se for receber a Comunhão”. O Código de Direito Canônico de 1917 é mais detalhado em suas prescrições. “Todos os membros dos fiéis de ambos os sexos, após atingir a idade da razão, estão obrigados a confessar seus pecados ao menos uma vez por ano” (Cânone 906)

Esse preceito vincula apenas aqueles que tenham pecados mortais em sua consciência, pois não há obrigação de confessar pecados veniais.

Ele obriga todos aqueles que atingiram o uso da razão – isto é, vincula as crianças desde que elas sejam capazes de cometer pecados mortais, ainda que não tenham atingido a idade de sete anos, e elas não estão isentas do preceito mesmo que não tenham feito sua primeira Comunhão. Se já tiverem feito primeira Comunhão, as crianças estão vinculadas tanto por este preceito quanto pelo da Comunhão anual, ainda que não tenham atingido a idade de sete anos.

Qualquer pessoa que faça uma confissão sacrílega ou voluntariamente inválida não cumpre o preceito de confessar seus pecados.

O Direito Canônico não especifica quando o intervalo de um ano começa. Em geral, entende-se que ele significa um ano comum, de Janeiro a Dezembro. Alguns autores sustentam que ele vai de uma Páscoa à próxima; outros, que abrange um ano após a prática de um pecado mortal. Na prática, as pessoas que vão ao confessionário e recebem a Santa Comunhão no tempo de Páscoa cumprem ambas as obrigações de confissão anual e Comunhão pascal.

Em perigo de morte, é obrigatório, se houver consciência de pecado mortal, por duas razões. Primeiro, pela obrigação que todo cristão tem de fazer tudo que pode para salvar sua alma. Agora, aquele que, estando em condições de se confessar, não quer fazê-lo, não pode obter perdão de seus pecados, ainda que faça um ato de contrição, que, nesse caso, não passa de uma ilusão, pois a contrição só tem valor se vier acompanhada do Sacramento da Penitência, que o pecador se propõe a receber. Segundo, a confissão é obrigatória em razão do preceito de receber o viaticum (viático), que é matéria grave e não pode ser recebido sem prévia confissão dos pecados mortais. Se a pessoa pode se confessar, um simples ato de contrição não é suficiente.

A confissão antes da Comunhão não é obrigatória se o pecador não está ciente de que está em pecado mortal. Mas, se ele estiver ciente de um pecado grave, por proibição expressa da Igreja (Cânone 856), o simples ato de contrição não é suficiente, por mais intenso que possa ser, a não ser que duas circunstâncias estejam presentes – necessidade urgente e ausência de confessor. Esse caso poderia acontecer, por exemplo, quando uma pessoa, já na mesa de comunhão e impossibilitada de se retirar sem chamar atenção dos outros, repentinamente se lembra de um pecado mortal que cometeu, ou se um Padre, precisando celebrar a Santa Missa para que os fiéis possam cumprir o preceito, não tem outro Padre para ouvir sua confissão. Nesses casos, um ato de contrição perfeita pode ser realizado antes da comunhão ou da celebração, mas sempre com a obrigação de se confessar posteriormente.

AdaptiveThemes