Skip to content

Perguntas e Respostas (69)

A mulher que daria luz a Cristo teria, necessariamente, que ser uma virgem?

As considerações anteriores mostraram que a Mãe de Deus não apenas era virgem antes, durante e após o nascimento de seu Filho Jesus Cristo, mas que fez um voto de castidade por inspiração do Espírito Santo. Nessas condições, é natural indagar-se se deveria ter um marido.

Na verdade, o Arcanjo Gabriel foi enviado "a uma virgem desposada por um homem cujo nome era José, da Casa de Davi" (Lc 1,27). Esse detalhe, expressamente descrito na Sagrada Escritura, bem como nos relatos do Evangelho, mostra a vontade de Deus nesse ponto. Mas os Padres e teólogos questionaram o que motivou o plano divino. Santo Tomás resume a questão com sua clareza habitual.

 

Em consideração com a Encarnação do Filho de Deus

O Verbo assumiu a natureza humana em todos os seus aspectos, com exceção daquilo que seria contrário a Sua dignidade; ele, portanto, tinha vida social e, em primeiro lugar, vida familiar: por isso Ele nasceu em uma família.

Era igualmente importante que o Messias não fosse rejeitado como um filho ilegítimo: "Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos?" (Jo 6,42).

A filiação era essencial para os judeus do Antigo Testamento. Isso pode ser observado nas genealogias que a Sagrada Escritura faz até mesmo no Evangelho. Mas ela deve ser realizada, de acordo com o costume, pela linha paterna.

Finalmente, Deus quis que a divina criança tivesse um protetor e um pai. O papel de pai consiste, no plano especial da Redenção, dar ao Verbo Encarnado a possibilidade de levar uma vida oculta.

 

Em consideração com a Mãe de Deus

Uma jovem que falhasse no cumprimento de seus deveres era apenada com apedrejamento. O nascimento de Cristo na Sagrada Família fez essa ameaça desaparecer.

E, presumindo que essa pena não fosse aplicada, o nascimento de Jesus protegeu Maria da infâmia de ser uma mãe solteira. A desonra, ainda que aparente, teria passado, de alguma maneira, para o Filho de Deus.

Finalmente, esse casamento assegurou à Santíssima Virgem o auxílio de São José. E sabemos quão precioso esse auxílio foi depois.

 

Em consideração com os homens

Os costumes judeus não permitiriam que uma mulher não se casasse, devido às regras de transmissão da herança e ao dever de gerar o povo de Israel. De fato, para evitar a passagem de uma porção da herança a outra tribo, as mulheres se casavam dentro de sua tribo.

O testemunho de São José eloquentemente confirma a concepção virginal do Salvador. De fato, era incumbência dele denunciar o adultério. Essa hesitação de José mostra a virtude da Virgem Maria.

O testemunho de Maria afirmando sua virgindade, porém, tem maior autoridade. Se a Virgem diz que foi concebida sem perder sua virgindade, seu testemunho é digno de maior confiança sendo ela casada que solteira.

Também era necessário que a Mãe de Deus fosse um exemplo às jovens. Se ela tivesse concebido carnalmente sem ser casada, sua reputação poderia ser -- erroneamente -- maculada. A concepção virginal de uma mulher casada protege sua reputação e serve de exemplo a todas as mulheres.

Desse modo, a Virgem se torna uma maravilhosa imagem da Igreja Católica: ela é virgem, esposa e mãe.

Finalmente, em Maria, a virgindade e o casamento estão honrados na mesma pessoa: assim, a dignidade desses dois estados é garantida.

A Mãe de Deus fez um voto de virgindade perpétua?

Nossa Senhora preservou sua virgindade por toda sua vida. Os Padres da Igreja se indagaram se Maria fez um voto de virgindade. Santo Tomás resume seus pensamentos sobre essa questão.

O ponto de partida dessa reflexão é a resposta de Maria ao Arcanjo Gabriel, que anunciou sua maternidade: "Como isso se dará, se não conheço homem?" (Lc 1,26). Para compreender adequadamente essa resposta, devemos lembrar que o verbo "conhecer" é empregado pela Sagrada Escritura para se referir a relações carnais.

Como a Virgem Maria estava noiva de São José -- noivado esse que, entre os judeus do Antigo Testamento, praticamente equivalia a um casamento -- essa pergunta significa que Nossa Senhora tinha a intenção de preservar sua virgindade em espírito de consagração a Deus.

É assim que Santo Agostinho compreende a passagem: "Na anunciação do Anjo, Maria responde: 'Como isso se dará, se não conheço homem?' Resposta essa que ela, certamente, não teria dado se ela não tivesse consagrado sua virgindade a Deus previamente" (De Sancta Virginitate, citada por Santo Tomás). Muitos Padres seguem Santo Agostinho.

 

A bela explicação do Doutor Comum

Ao expor a adequação desse voto, Santo Tomás aplica o princípio da atribuição de privilégios: é necessário presumir o mais perfeito possível na Santíssima Virgem; ora, a virgindade consagrada pelo voto é mais perfeita que a virgindade não consagrada. Então ela fez esse voto.

O Doutor Angélico, em outra passagem, explica que "o que é feito pelo voto se torna mais perfeito. Mas o principal fim do voto é fortalecer a vontade no bem". Ele também diz que a "uma vontade já santificada como a de Nossa Senhora, que goza de perfeita virtude, não é útil fazer muitos votos".

Portanto ele se indaga: "Por que o voto de virgindade, se a prática da castidade perfeita já era suficiente?" A resposta é clara e belíssima: "porque ele [o voto] fixa um estado de vida", para que, nesse voto, possa-se doar a própria vida.

Ele prossegue: "Se o comparamos [o voto de castidade] com os outros votos de religião, o de obediência é suficientemente substituído pelo casamento sob a autoridade de São José, e o voto de pobreza não é prudente para uma mãe de família"

Porém, ele observa que as regras sociais da época não aceitariam que uma mulher não se casasse, porque todos os membros do povo escolhido eram obrigados a participar da propagação da espécie. Então ele crê, com alguns Padres, que a Virgem, primeiramente, noivou com São José, e então, de mútuo acordo, ambos fizeram voto de castidade.

Mas também é possível, de acordo com outros autores, que o acordo de José e Maria aconteceu antes do noivado, e que eles fizeram o voto antes de se casarem.

O Cardeal Caetano -- um grande comentador de Santo Tomás -- acrescenta: "Não é natural que creiamos que esse Santo marido, ao aceitar que sua esposa dedicasse sua virgindade a Deus na constância do casamento, fez ele mesmo esse voto?"

É necessário levar em conta ainda, acima de tudo, a Divina Providência, que teria que inspirar José com essa resolução, para que a Santíssima Virgem tivesse, como companhia e guardião, um esposo que fosse também virgem. Além disso, Maria não seria "cheia de graça" se essa graça, que ela desejava acima de tudo em sua santidade, estivesse ausente em seu marido.

Portanto, a Virgem Maria, de acordo com a opinião comum, foi a primeira a fazer o voto de castidade de acordo com o tempo e de acordo com a perfeição do ato.

A Mãe de Deus permaneceu virgem após o parto?

A Tradição distingue a virgindade em Nossa Senhora antes do parto, durante o parto e após o parto (ante partum, in partu e post partum). A presente questão diz respeito ao terceiro aspecto: virgindade post partum. A Mãe de Cristo permaneceu virgem após o nascimento de Seu Divino Filho?

Algumas pessoas quiseram ver, nos "irmãos de Cristo", mencionados em São João, outros filhos de Maria. A propaganda modernista [N.T.: e protestante] apresentou esse argumento. Mas outros textos do Evangelho também sugerem essa ideia: em São Mateus, Nosso Senhor é chamado de "primogênito de Maria" (Mt 1,25).

Deve-se asseverar que a Sagrada Escritura frequentemente chama de irmãos a outros parentes que não nasceram da mesma mãe. Nesse sentido, os "irmãos de Jesus" tiveram inveja dEle (Mc 6, 4); deram-lhe conselhos (Jo 7,1); tentaram levá-Lo para casa (Mc 3,21). Na Igreja Oriental, isso só seria compreensível se eles fossem mais velhos que Ele. Mas Nosso Senhor foi o primogênito.

O termo "primogênito" tem um certo sentido absoluto, independentemente de haver nascimentos posteriores. É um status jurídico. Em 1930, por exemplo, descobriu-se o túmulo de uma jovem mulher em Jerusalém em um cemitério judeu do Século I, que morreu dando à luz seu primogênito.

Mas, no relato da Anunciação, a Santíssima Virgem indaga ao Anjo: "Como isso se dará, se não conheço homem?" Conhecer, no sentido bíblico, refere-se a relações carnais. A objeção de Maria só faria sentido se ela tivesse a intenção de permanecer sem conhecer homem no futuro.

 

Os Padres da Igreja

Eles repetem essas verdades frequentemente. Santo Efrém afirma que Maria permaneceu virgem após o parto. São Zenão resume essa doutrina: "Maria foi concebida sem corrupção, ela gerou permanecendo virgem e permaneceu virgem após a Natividade". E Santo Ambrósio fulmina: "Alguns negaram que ela permaneceu virgem (após o parto). Preferimos desprezar tal sacrilégio".

São Sirício, papa, afirma: "Não podemos negar que Maria não teve outros filhos, e é com boas razões que sua santidade rejeita que, do mesmo ventre virginal, do qual Cristo nasceu de acordo com a carne, outro filho tenha nascido. O Senhor Jesus não teria escolhido nascer de uma virgem se a julgasse tão incontinente a ponto de profanar o palácio do Eterno Rei"

Portanto, é de fide que a Mãe de Deus permaneceu virgem post partum.

 

Razões disso

Elas estão enumeradas por São Tomás de Aquino na Suma Teológica (III, 28, 3):

- É adequado que Aquele que é o Filho do Pai, gerado na eternidade, seja o único filho perfeito de sua Mãe no tempo;

- Não seria apropriado que o corpo virginal de Maria, que havia se tornado o Santuário do Verbo através de obra do Espírito Santo, viesse a ter uma nova concepção. Isso implica dizer que a concepção virginal de Jesus foi uma nova consagração de Nossa Senhora a Deus, para que ela estivesse inteiramente dedicada à glória de Deus. Usar o relacionamento conjugal nessas condições seria uma violação. Maria é o modelo da vida religiosa;

- Não estaria de acordo com a gratidão que Maria, tendo a honra e graça de ser Mãe de tal Filho, conhecesse um homem e gerasse outro filho; de maneira semelhante, a santidade de José respeitava a pureza de Maria.

A maternidade divina da Mãe de Deus é integralmente virginal. A virgindade é uma característica tão própria de Maria, que se tornou um de seus títulos mais comuns: a Virgem Maria.

Há provas de que os cristãos primitivos rendiam culto aos santos e veneravam suas relíquias?

Pe. Juan Iscara, FSSPX

“Culto” é a manifestação pública da honra dada em memória de um Santo pela comunidade dos fiéis e ratificada pela autoridade eclesiástica.

Desde os primórdios da Igreja, os corpos dos mártires eram resgatados por fiéis piedosos, que corriam risco de vida às vezes, e recebiam um sepultamento honroso. Até mesmo suas roupas ensanguentadas eram resgatadas e preservadas com veneração. Portanto, os Atos Proconsulares do martírio de São Cipriano relatam que os fiéis de Cartago espalharam linho próximo a ele, para coletar o sangue derramado em sua decapitação.

Os mártires foram os primeiros a se tornar objeto de veneração da Igreja local, porque o martírio é a expressão mais elevada da fé e a comunhão mais íntima no mistério de Cristo. Eles eram solenemente lembrados nos aniversários de suas mortes, que os cristãos consideravam seu dies natalis, o dia de seu nascimento no Céu. Esse louvor e comemoração periódicos vinha sempre em conjunto com a celebração do sacrifício eucarístico, como testemunhado no Século III pelas Constituições Apostólicas. Era uma Eucaristia alegre pelo triunfo de Cristo em um dos membros de Seu Corpo Místico.

A disposição dos cristãos de honrar e comemorar os mártires é claramente observada no relato do martírio de São Policarpo de Esmirna (falecido em 155):

Coletamos seus ossos, mais preciosos que as joias mais raras e mais puros que ouro e depositamo-los em um local adequado, onde, reunidos conforme a oportunidade nos permitisse, com alegria, o Senhor nos dava a chance de celebrar o aniversário de seu martírio, tanto em memória daqueles que já haviam terminado seu curso, quanto pelo treinamento e preparação daqueles que ainda estavam por imitar seus caminhos (Martyrium Polycarpi, 18).

A mesma narração, claramente, esclarece a natureza do culto oferecido ao mártir:

A Cristo, de fato, sendo Filho de Deus, adoramos; mas os mártires, como discípulos e seguidores do Senhor, nós os amamos em razão de sua afeição pelo Rei e Mestre, de Quem possamos também ser companheiros e discípulos! (Martyrium Polycarpi, 17).

A veneração especial dos mártires também se manifesta nas inscrições em cemitérios. Inscrições cristãs antigas têm muitas orações pelos mortos, suplicando os favores de Deus por eles – Requiescat in pace, Vivat in Christo, “Descanse em paz”, “Que ele viva em Cristo”. Mas, como o martírio abriu as portas do Céu para eles, as orações diretamente aos mártires advieram espontaneamente da consciência do povo cristão, pedindo-lhes que intercedam por nós. Portanto, por exemplo, sob a Basílica de São Sebastião em Roma, do ano aproximado de 260, encontra-se uma inscrição: Paule et Petre, petite pro Victore, “Pedro e Paulo, rogai por Victor”. Na catacumba de Praetextatus, outra pede pela intercessão dos mortos perante Deus: Succurrite cum judicabitis, “Auxiliai-nos quando chegardes ao juiz”. E, na Igreja de Santa Sabina, do ano aproximado de 300: “Ático, descansai em paz, seguro em vossa segurança, e rogai por nossos pecados.”

Santo Agostinho, claramente, distingue essas duas formas de oração.

Se lembramos os mártires, tomando nossos lugares na mesa do Senhor, não é para rezar por eles, como pelos outros mortos que descansam em paz. É para que eles rezem por nós e para que sigamos seus caminhos. Pois eles atingiram aquele amor do qual diz o Senhor que não pode haver outro maior. Eles ofereceram a seus irmãos aquilo que receberam na mesa do Senhor.

Além de rezar pedindo sua intercessão, o culto dos Santos também se manifestava pela veneração de seus restos e de suas imagens, uma veneração que logo adquiriu um caráter litúrgico.

Embora escrevesse séculos mais tarde, Santo Tomás de Aquino expressa a razão da prática da Igreja a esse respeito desde os tempos mais remotos:

Por onde é claro que quem tem afeto por outrem venera-lhe também o que dele resta depois da morte; e não só o corpo ou partes do corpo, mas também certos bens exteriores, como as vestes e outros semelhantes. Ora, é manifesto que devemos venerar os santos de Deus como membros de Cristo, filhos e amigos de Deus e nossos intercessores, por isso devemos lhes venerar quais relíquias com a honra devida em memória deles; e sobretudo os seus corpos, que foram os templos e os órgãos do Espírito Santo, que neles habitou e operou, e hão de assemelhar-se ao corpo de Cristo pela glória da ressurreição. Por isso, o próprio Deus honra convenientemente essas relíquias, fazendo milagres na presença delas (Summa Theologiae, III, q. 25, a.6).*

Na Igreja primitiva, as catacumbas eram, acima de tudo, os locais de sepultamento dos mártires. Contrariamente às lendas, se os cristãos em Roma se reuniam nas catacumbas para celebrar a Eucaristia, era menos para se esconder (pois as catacumbas eram locais muito públicos) do que para estar próximos às tumbas dos mártires. Os fiéis estavam dispostos e até competiam para serem enterrados ad martyres, ad sanctos, “próximo aos mártires, aos santos”. Como São Paulino de Nola explicou, quando decidiu enterrar seu filho Celso próximo aos mártires de Complutum, ele desejava fazê-lo “para que, pela proximidade do sangue dos mártires, ele possa adquirir a virtude que purifica nossas almas como o fogo”.

Nas circunstâncias, as tumbas em si se tornaram altares. Dessa primeira Liturgia, quase ditada pelo layout das catacumbas, adveio a ideia de que não poderia haver celebração real sem a presença protetiva do corpo, ou, ao menos, algum resto de um mártir.

De acordo com o Liber Pontificalis, o Papa São Félix I (falecido em 274) transformou o costume em uma obrigação. Ao final do Século IV, Santo Ambrósio de Milão respeitosamente depositou os corpos dos mártires sob o altar:

Que as vítimas triunfantes tomem seu lugar onde Cristo Se oferece como vítima. No altar, Ele sofreu por todos e, abaixo, aqueles que Ele redimiu por Sua Paixão.

O 5º Concílio de Cartago, em 401, formalizou essa prática, tornando compulsório que todo altar tivesse relíquias, chegando até mesmo a ordenar a destruição dos altares que não as tivessem. Desde essa data, não pode haver consagração do altar sem que haja relíquias ali. O traslado solene dos restos dos Santos torna-se parte da Liturgia da dedicação das Igrejas até os dias atuais.

Infelizmente, a piedade popular, se transviada, arrisca transformar o culto das relíquias em superstição. No Século IX, Vigilâncio, um Padre de Toulouse, chegou a condenar como idolatria. Mas São Jerônimo (falecido em 420) escreveu uma carta severa, Contra Vigilantium, na qual explicava que damos honra às relíquias dos mártires para adorar Aquele pelo Qual eles foram mártires.

Todos os Padres da Igreja apoiavam com sua autoridade e iluminavam com sua ciência tão estimável veneração. No Oriente, São João Crisóstomo (falecido em 407) fez-se seu inspirado cantor:

Quereis experimentar delícias inexplicáveis? Vinde às tumbas dos mártires, curvai-vos humildemente ante seus ossos sagrados, beijai devotamente o relicário que os contém, lede os combates que travaram, os traços edificantes de sua fé e de sua coragem [...] e vós sentireis os efeitos de sua poderosa intercessão com Deus (Homilia I sobre os Mártires)

A piedade cristã primitiva também honrava as imagens dos Santos: pinturas em cemitérios, mosáicos nas Basílicas. Essas representações não eram, originalmente, objeto de veneração, mas parte de uma decoração que dava glória e servia de lembrete das virtudes a serem praticadas. Foi o Oriente que desenvolveu a Teologia do ícone, sustentando a legitimidade de sua veneração contra os imperadores iconoclastas.

 

Há provas históricas de que os cristãos primitivos rezavam para Nossa Senhora?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

 

Há um pequeno problema quando falamos de “Igreja primitiva” ou “cristãos primitivos”. O começo desse período histórico é claro: a fundação da Igreja, Pentecostes; mas, quando esse período acaba? Para responder a essa pergunta de forma mais segura, vamos nos ater às provas da devoção a Nossa Senhora nos relativamente obscuros Séculos II e III até o reconhecimento magisterial da maternidade divina no Concílio de Éfeso, em 431.

Nas Escrituras, Maria aparece de forma velada nas profecias do Antigo Testamento, sendo exposta nos primeiros capítulos do Evangelho de São Lucas; então, ela volta a uma relativa obscuridade durante o ministério de Cristo e reaparece no Apocalipse. Esse padrão de exposições e obscuridades, de alguma maneira, repetiu-se no desenvolvimento da doutrina e da devoção mariana durante os primeiros séculos da Igreja.

Os primeiros cristãos pregavam um Deus, encarnado em Cristo, criador e redentor, ao contrário da multiplicidade dos deuses pagãos. Nos primórdios dessa pregação, enfatizar a pessoa da Virgem-Mãe poderia ter criado confusão, comparações infelizes ou sincretismos com os mitos pagãos*. Mas, por outro lado, a humanidade e a maternidade de Maria tinham que ser enfatizadas para expor a realidade da Encarnação de Cristo como Homem-Deus, principalmente contra aquelas heresias antigas que negavam a humanidade de Cristo.

Portanto, os Padres dos Séculos II e III enfatizaram apenas com o passar do tempo a excepcionalidade de Maria, sua santidade, os privilégios extraordinários que lhes foram dados por Deus para cumprir sua missão única e universal ao lado de seu Filho. Eles tornam claro que sua doutrina mariana não era supérflua ou uma opinião teológica, mas necessária para preservar a integridade da fé, pois Maria está intimamente unida ao mistério da união das naturezas humana e divina em Cristo. Portanto, nas primeiras profissões de fé, a confissão de Cristo estava inseparavelmente unida à confissão da excepcionalidade de Maria.

O primeiro grande teólogo, Santo Irineu de Lyon (falecido em 202), ao traçar um paralelo entre Eva e Maria, enfatizou essa excepcionalidade. Maria cooperou na obra de nossa salvação: ela “se tornou causa de salvação para si mesma e para toda a raça humana”. Como ela é “o ventre puro que regenera os homens em Deus”, ela se tornou “a advogada de Eva” perante Cristo.

Esses temas foram melhor desenvolvidos por Orígenes em meados do Século III, não apenas se dirigindo a Maria como “Mãe de Deus”, mas, baseado no fato de que ela era a “nova Eva”, também se dirigindo a ela como “mãe dos fiéis”. Sendo duplamente santificada por uma consagração dupla (a descida do Espírito Santo em sua alma e de seu Filho em seu ventre), ela se tornou um canal ativo do Espírito Santo para a santificação dos homens.

Enquanto a compreensão teológica do papel de Maria na economia da salvação se desenvolvia nesses séculos, também a piedade mariana se desenvolvia em correspondência a ela, gerando o recurso à sua intercessão.

A primeira prova dessa piedade dos fiéis é encontrada na decoração e nas inscrições das catacumbas cristãs. As mais antigas e importantes são das catacumbas romanas (Priscilla, Agnes, Coemeterium majus), dos Séculos III e IV, representando a Virgem com seu Filho, ou a adoração dos Reis Magos, com um homem de pé atrás da Virgem e apontando para uma estrela, ou mesmo a Anunciação.

Essas são representações claras, “literais” de passagens evangélicas e da Mãe e de seu Filho, apontando diretamente para o mistério da Encarnação, pois a imagem afirma o que a heresia nega, tanto a realidade da natureza humana de Cristo, quanto a maternidade divina de Maria. Portanto, essas imagens não eram objetos de veneração, mas um sinal de reconhecimento, uma profissão de fé e uma esperança e um convite aos visitantes para rezarem por aqueles enterrados ali.

Nos tempos em que essas imagens começaram a ser pintadas nas catacumbas romanas, isto é, pelo Século II, um peregrino veio à Cidade, Abércio, Bispo de Hierápolis na Phrygia Salutaris (um nome grande do que, hoje, é uma pequena cidade na atual Turquia). Sendo um homem velho, ao retornar de sua longa jornada, ele preparou essa tumba, com uma inscrição que, hoje, está no Museu de Latrão. A inscrição dá testemunho, em termos velados, não apenas da difusão do Cristianismo, da preeminência da Sé de Roma, do Batismo e da Eucaristia, mas também menciona Nossa Senhora:

A fé me levou adiante em todos os locais, e, em todos os locais, providenciou, como meu alimento, um Peixe de grande tamanho e perfeito, que uma Santa Virgem apanhou com suas mãos de uma fonte, e essa fé sempre dá a seus amigos o alimento, dispondo de um vinho de grande virtude, ministrando-lhe misturado com o pão.

A menção do “Peixe” é um acrônimo para Iēsous Christos, Theou Yios, Sōtēr, “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”, como Santo Agostinho explica (De Civ. Dei, XVIII:23), e a Virgem é a que trouxe Cristo a nós.

De quase um século mais tarde, temos um fragmento de um papiro egípcio em grego, hoje na Biblioteca John Rylands, Manchester, Reino Unido. Ele data de 250-280, um período de perseguições metódicas e cada vez mais violentas (Valeriano, Décio, até chegarmos a Diocleciano). Ele contém uma versão de uma oração que ainda rezamos, o Sub tuum prasesidium:

Sob vossa proteção nos refugiamos, ó Santa Mãe de Deus! Não desprezeis nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos do mal, puríssima e beatíssima.

Ela expressa a fé da Igreja em Nossa Senhora de maneira simples, sucinta. Ela é a Mãe de Deus, a Theotokos, “portadora de Deus”, Deipara, Dei Genitrix, “a que dá nascimento a Deus”. Ela tem um poder inaudito de intercessão – embora ainda não se lhe tenha dado o título ainda, ela é reconhecida como Mediatrix de todas as graças. Finalmente, ela é a “única bem aventurada”, escolhida especialmente por Deus, e “a única pura”, perpetuamente virgem.

Ao fim do Século IV, no Império Romano do Oriente (Império Bizantino), a festa litúrgica em honra de Nossa Senhora mais antiga de que se tem registro era celebrada no dia após o Natal.

Nos Séculos IV e V, as orações litúrgicas em uso no Oriente ajuntavam, à moda oriental, os termos de louvor a Maria e invocavam sua intercessão. Por exemplo, na Liturgia Antioquena dos Doze Apóstolos:

Celebremos o memorial da toda pura, imaculada, gloriosíssima, bem aventurada Senhora, Mãe de Deus e sempre virgem Maria; que sejamos protegidos do mal por suas orações e súplicas, e que a misericórdia esteja sobre nós em ambos os mundos.

Finalmente, em 22 de Junho de 431, o concílio ecumênico reunido em Éfeso declarou, solenemente: “Se alguém não confessar que Emmanuel é Deus em verdade e que, portanto, a Santíssima Virgem é Mãe de Deus (pois ela trouxe consigo, carnalmente, o Verbo de Deus tornado carne), seja anátema”. A devoção do povo a Nossa Senhora era tamanha que, quando essa frase se espalhou pela cidade, espontaneamente, uma multidão alegre se reuniu na Igreja de Santa Maria, onde o Concílio aconteceu, e acompanhou os padres conciliares na saída, em procissão, com tochas.

Até Éfeso, o discurso teológico sobre Maria estava intimamente conectado à expressão de verdades cristológicas, mas, após Éfeso, a atenção se voltou para Maria em si, e uma veneração triunfante da Theotokos se espalhou como fogo nas Artes, na Liturgia e nas devoções populares.

 

ADENDO DA PERMANÊNCIA:

Tudo o que o Pe. Iscara afirma nesse ponto é verdadeiro; porém, apenas para ilustrar que os cristãos sempre creram e praticaram o culto mariano desde os tempos mais remotos (e que, portanto, essa crença é apostólica), tomamos a liberdade de reunir as seguintes citações:

- Santo Inácio de Antioquia (Séculos I e II): “Existe apenas um médico, carnal e espiritual, gerado e não gerado, Deus feito carne, Filho de Maria e Filho de Deus, vida verdadeira na morte, vida primeira passível e agora impassível, Jesus Cristo Nosso Senhor” (Epístola aos Efésios, Capítulo 7)

“Nosso Deus, Jesus Cristo, foi, de acordo com os desígnios de Deus, concebido no ventre de Maria, da linhagem de Davi, mas pelo Espírito Santo” (Capítulo 18);

“A virgindade de Maria estava escondida do príncipe deste mundo, bem como o nascimento de seu Filho e a morte do Senhor; três mistérios concebidos em silêncio pelo Senhor”; perceba-se que Santo Inácio compara a virgindade de Maria com a própria Paixão de Cristo (Capítulo 19);

- Santo Aristides de Atenas (Século II): “Os cristãos, portanto, remontam o princípio de sua religião em Jesus, o Messias; e Ele é chamado de Filho do Deus Altíssimo. E está dito que Deus desceu do Céu, e de uma virgem hebraica assumiu e cobriu-se da carne [...] “(Apologia de Aristides)

- São Justino Mártir (Século II): “[...] Jesus Cristo, o Filho de Deus, nasceu sem pecado, de uma virgem da linhagem de Abraão” (Diálogo com Trifo, Capítulo 23)

“[...] de acordo com a vontade do Pai, era necessário que elas [as tradições judaicas] tivessem seu fim com Ele, que nasceu de uma virgem, da família de Abraão e da tribo de Judá (Capítulo 43)

“Contemplai: a virgem conceberá e terá um filho, e seu nome será Emmanuel” (Capítulo 43)

“É evidente a todos que, na raça de Abraão, ninguém nasceu de uma virgem de acordo com a carne, nem se diz que alguém tenha nascido de uma virgem, exceto Cristo, Nosso Senhor. Mas, como vós e vossos professores ousais afirmar que, na profecia de Isaías, não está dito ‘contemplai: a virgem conceberá’, mas ‘contemplai: a jovem mulher conceberá e terá um filho’, e como vós explicais a profecia como se falasse de Ezequias, eu me proporei a debater esse ponto com vós em oposição a vós e a mostrar que essa passagem faz referência Àquele que reconhecemos como Cristo (Capítulo 43); o restante do Diálogo faz outras referências a essa profecia de Isaías, atribuindo-a a Cristo, bem como ao fato de que Cristo nasceu de uma virgem

- São Dionísio Areopagita (Século I): “Que [referindo-se a Cristo), sendo concebido, formado e gerado pelo Espírito Santo e do sangue virginal da Virgem Maria, santa mãe de Deus, era verdadeiro Homem [...] (Liturgia de São Dionísio, Bispo de Atenas); o mesmo Santo chega a afirmar que, quando a viu, tê-la-ia tomado por uma divindade – devido aos seus secretos atrativos e à sua beleza incomparável – se a fé, em que estivesse bem confirmado, não lhe tivesse garantido o contrário (Tratado da Verdadeira Devoção, São Luís Maria Grignion de Montfort);

- “[…] E ele [São Gabriel] revelou a Maria como, nela, deveria nascer o mistério supremo divino de Deus” (Da Hierarquia Celestial, Caput IV, Seção IV)

Há imperfeições na Mãe de Deus?

Foi ninguém menos que um Doutor Católico, um Padre da Igreja, que identificou alguns fatos que atribuiu à Santíssima Virgem como imperfeições, durante o encontro do Menino Jesus no Templo e, também, nas Bodas de Caná. Trata-se de São João Crisóstomo.

Em sentido contrário, deve-se dizer que a Santíssima Virgem nunca cometeu a menor imperfeição. As razões explicando isso são inúmeras.

Primeiro, porque a Mãe de Deus não tinha a “fonte do pecado” – também chamada de concupiscência – que é uma das causas principais das imperfeições. Essa ausência está ligada à sua imunidade ao pecado original.

Além disso, a virgem das virgens possuía a virtude perfeita em razão da graça que lhe havia sido dada. Ela também estava destinada a ser um modelo de santidade, porque Nossa Senhora é a primeira dos redimidos: é conveniente que seja ela, que tem o primado na ordem da santidade, deveria incorporá-la em sua perfeição consumada

Finalmente, sua perfeita prudência sempre determinou sua atividade na maneira que estava mais conformada à vontade de Deus.

É por isso que Santo Tomás de Aquino não hesita em dizer que São João Crisóstomo foi longe demais em seu escrito. E, embora São Pio V tenha ordenado que fossem republicadas as obras do grande doutor, pediu que as passagens incriminadas não fossem incluídas.

 

A Mãe de Deus possuía impecabilidade

Mas a maior razão explicando a ausência de pecado e imperfeições em Maria é que ela era impecável.

O Concílio de Trento, na Sessão VI, Cânone 23, afirma: “Se alguém disser que... em sua vida, [um homem] pode evitar todos os pecados, até mesmo os veniais, exceto por um privilégio especial de Deus, como a Igreja sustenta em relação à Santíssima Virgem: seja anátema”

De sua parte, Santo Tomás reconhece a confirmação na graça em razão da adequação à Mãe de Deus. Impecabilidade consiste em não poder pecar em razão de uma capacidade interior. Ela se distingue da confirmação na graça, que é manter o estado de graça até a morte, em outras palavras, não cometer pecado mortal: essa graça se explica pela ajuda externa de Deus. Mas a impecabilidade requer uma causa interna no sujeito, que evita o pecado.

Isso é, claramente, o caso do Verbo Encarnado, Jesus Cristo: é uma impossibilidade a pessoa divina cometer um pecado. No caso do homem-Deus, a visão beatífica e a virtude perfeita são acrescidas à personalidade divina.

A impecabilidade também existe, em grau menor, nos que já foram salvos: inundados pela luz da glória, eles não podem mais pecar. Seria impossível possuir a visão beatífica e pecar.

Em grau menor, a impecabilidade advém da grande dificuldade de pecar que resulta do dom de uma graça especial. Ela inclina tanto uma pessoa ao bem que se torna quase impossível romper com ele. Deus deu uma assistência especial a Sua Mãe, que removeu de todas as causas do pecado.

Essa doutrina permite uma compreensão mais profunda dessas palavras magníficas do Papa Pio IX em Ineffabilis Deus: “fê-la alvo de tanto amor, a ponto de se comprazer nela com singularíssima benevolência. Por isto cumulou-a admiravelmente, mais do que todos os Anjos e a todos os Santos, da abundância de todos os dons celestes, tirados do tesouro da sua Divindade. Assim, sempre absolutamente livre de toda mancha de pecado, toda bela e perfeita, ela possui uma tal plenitude de inocência e de santidade que, depois da de Deus, não se pode conceber outra maior, e cuja profundeza, afora de Deus, nenhuma mente pode chegar a compreender”.

Quais as propriedades naturais do casamento?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

Há duas: unidade e indissolubilidade. Essas propriedades derivam da própria natureza e fins do casamento. Portanto, elas não dependem da vontade dos esposos e não são afetadas pelas circunstâncias acidentais de um casamento concreto.

Unidade é o laço existente entre um homem e uma mulher. É exigido pelo fim primário do casamento, que é a procriação e a educação dos filhos. Opõe-se à poliandria (uma mulher com vários maridos), pois esta tornaria a paternidade incerta e, como consequência, também tornaria incerto a quem incumbe o dever de educar os filhos. Além disso, é antinatural não saber e, portanto, não poder honrar o próprio pai. Em sentido estrito, a unidade não se opõe à poligamia (um homem com várias mulheres), mas causa várias dificuldades, tanto em relação à educação dos filhos quanto ao fim secundário do casamento.

A unidade também é exigida pelo fim secundário do casamento, o amor mútuo e apoio dos esposos. A poligamia causa uma desigualdade de direitos entre os esposos, pois o homem tem direitos plenos, exclusivos sobre a mulher, mas não a mulher sobre o homem. Além disso, ela afeta o verdadeiro amor humano e espiritual e causa discórdias e invejas entre as mulheres e os filhos.

Indissolubilidade significa que o laço persiste enquanto os esposos viverem e que não pode ser dissolvido por qualquer motivo. É exigida pelo fim primário, porque tanto o cuidado quanto a educação dos filhos requer a união permanente dos esposos. Mesmo se eles não tiverem filhos, a regra geral não é afetada por circunstâncias concretas (a lei não se funda sobre casos extraordinários)

De todo modo, o fim secundário do casamento ainda exige a indissolubilidade. O amor humano não é apenas um impulso sexual – o sexo é que faz parte do amor humano. Sem a indissolubilidade, há o risco de se tornar uma presa do egoísmo dos instintos, e da união familiar ser abandonada aos caprichos de nossos movimentos de prazer. A indissolubilidade defende o amor conjugal, pois o verdadeiro amor é necessário para o auxílio mútuo e a perfeição dos esposos.

A vida comum e o auxílio dos esposos requer esforço diário. Se a possibilidade do divórcio existe, há que se lembrar que ela tem um efeito ampliativo sobre os conflitos inevitáveis que surgem na vida comum.

Além disso, a dissolução de um casamento afeta os filhos moral e afetivamente, além de ser uma injustiça com o esposo, pois a promessa de entrega de si feita na cerimônia do casamento é esquecida em face das dificuldades.

Santo Tomás propõe a vingança como virtude. Mas, vingança não é algo ruim?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

Entre as virtudes sociais, isto é, aquelas que facilitam a vida dos homens na sociedade, Santo Tomás enumera a vindicta – que deveria ser traduzida como “punição justa” para evitar o sentido pejorativo que a palavra “vingança” tem. É uma virtude ligada à virtude cardeal da justiça, que consiste em punir o malfeitor pelo crime cometido.

Infelizmente, quando se trata de punir criminosos, o mundo moderno parece oscilar entre dois extremos: rigor desproporcionado e leniência exagerada. Portanto, é necessário esclarecer o que entendemos como “vingança”, punição justa.

Não há duvida de que restaurar a ordem perturbada por uma ação má é uma obra boa e virtuosa, exigida pela justiça em si e pela necessidade de manter a ordem social. Porém, em razão de nossa natureza decaída, quando se aplica uma punição, é muito fácil se deixar levar por motivos pecaminosos (raiva desordenada, ódio do criminoso, etc), o que faria a punição perder sua justiça, seu caráter virtuoso, tornando-a um verdadeiro pecado.

Santo Tomás explica:

A vingança se consuma infligindo ao que pecou, uma pena, como um mal. Logo, devemos levar em conta na vingança, o ânimo com que age quem a exerce. ­ Se, pois, a sua intenção principalmente está no mal daquele de quem se vinga e nela se compraz, a vingança é absolutamente ilícita. Porque o nos comprazermos com o mal de outrem supõe o ódio, contrário à caridade, que nos manda amar a todos os homens. Nem pode escusar–se ninguém dizendo que quer o mal de quem injustamente lh'o fez, assim como não seria escusado quem odiasse ao que o odeia. Pois, não devemos pecar contra outrem por ter este pecado anteriormente contra nós, o que seria deixarmo–nos vencer do mal, procedimento proibido pelo Apóstolo, quando diz: Não te deixes vencer do mal, mas, vence o mal com o bem. – Mas, se a intenção de quem se vinga visa principalmente um bem, que obteria punindo o pecador – por exemplo, fazendo–o emendar–se ou pelo menos coibindo–o, dando paz aos outros, salvando a justiça e a honra de Deus  – nesse caso a vingança pode ser lícita, uma vez observadas as circunstâncias devidas (Suma Teológica, II-II, q. 108, a. 1)

Com essas distinções, o verdadeiro significado e os perigos dessa virtude se tornam claros. Santo Tomás analisa algumas objeções que poderiam ser levantadas contra elas e, ao resolvê-las, aperfeiçoa a doutrina.

Alguns objetam que aquele que se vinga usurpa uma função exclusiva de Deus (Dt 32,35) cometendo, portanto, um pecado. Santo Tomás responde que quem exerce a vingança sobre os maus, no exercício dessa função – por exemplo, as autoridades seculares – não usurpa nada de Deus, mas usa o poder que Ele lhe deu (Rm 13, 4). Mas, se alguém se vinga fora da ordem estabelecida por Deus, usurpa o que é dado a Ele e, portanto, peca.

Outros, mais piedosos, objetam que aqueles que são bons devem tolerar os maus e suportar, com paciência, suas maldades. Santo Tomás pontua que deve ser assim em relação às injúrias feitas a si mesmo, mas não às injúrias a Deus ou o próximo. Porque, como São João Crisóstomo diz, “ser paciente com as injúrias de alguém é digno de louvor; mas ocultar as injúrias a Deus é uma impiedade.”

Na prática, raramente será conveniente que uma pessoa tente, por si mesma, punir o culpado (exceto ao repelir uma agressão injusta em legítima defesa), porque, sob o pretexto da justiça e da equidade, um amor próprio desordenado e, talvez, ódio do próximo estarão escondidos. Por isso que sempre é recomendado perdoar as injúrias dos outros ao invés de puni-los, exceto se a honra de Deus, o bem comum ou a emenda do próximo demandar que peçamos reparação da injúria.

(The Angelus, Set/21)

Por que Cristo quis nascer de uma mulher?

Os Padres da Igreja se fizeram essa pergunta por muito tempo: por que Deus escolheu encarnar-se, nascer de uma mulher? Cristo, o novo Adão, poderia, de fato, ter sido criado como um adulto, como o primeiro homem. Essa pergunta nos dá ocasião para meditar e contemplar o plano que Deus escolheu ao querer a Virgem Maria como sua mãe.

As razões são fáceis de descobrir. As profecias sobre o Messias anunciaram que Ele nasceria de uma mulher, bem como o protoevangelho (Gn 3,15), que anuncia a inimizade entre o Messias e Sua Mãe com a serpente, isto é, o demônio. Essas profecias deviam ser cumpridas.

O fato de que o poder divino seria melhor demonstrado se o Salvador nascesse de uma mulher é outra razão: Deus triunfa através de uma criatura, o que manifesta Seu soberano poder, capaz de usar instrumentos frágeis para as maiores obras.

Uma terceira razão é que, entre as criaturas, apenas uma mulher poderia se tornar a Mãe de Deus. A natureza humana permite ao Filho de Deus encontrar uma mulher, uma pessoa que Lhe dará aquela natureza que será oferecida em holocausto para a glória de Deus e a salvação da humanidade.

Os Padres e teólogos descobriram outras razões maravilhosas.

Uma razão muito importante é atestar a verdade da Encarnação. Muitos hereges, como os docetistas, alegaram que Jesus Cristo não era homem, que Ele apenas “atravessou” pela Virgem Maria. A afirmação da maternidade divina refuta essas fantasias.

Além disso, a natureza humana é corporal e espiritual e envolve o fato de que o corpo procede da maternidade: contrariamente às alegações dos hereges mencionados acima, possuir uma natureza verdadeiramente humana não diminui a dignidade do Verbo.

De modo semelhante, a vida familiar é parte da nossa natureza: toda criança nasce numa família. Não há imperfeições nessa situação. É apropriado, portanto, que o Verbo Encarnado assuma uma vida familiar.

Essa vida familiar gerou a oportunidade do Verbo Encarnado servir de modelo de piedade filial.

Santo Agostinho deu outra boa razão: a humanidade é honrada em um representante masculino, um homem que é Deus, e em um representante feminino, uma mulher revestida da dignidade de Mãe de Deus.

Outra boa razão diz respeito ao casamento místico da humanidade com o Verbo: o Fiat de Maria foi dado em nome de toda a humanidade.

Quanto à salvação da humanidade, o fato de que o Verbo Encarnado Se tornou homem, descendente de Adão de acordo com a carne, nascido de mulher, colocou-O em posição de mediador: Ele é aceito pelas duas partes que Ele conecta, Céu e terra, Deus e os homens.

Finalmente, para que a expiação do Messias possa ser aceita por Deus como advindo dos pecadores que O ofenderam, era necessário que Ele pudesse estar com os pecadores: é isso que Isaías e São Paulo dizem. Não que Ele seja um pecador, mas em razão de sua natureza humana e de sua origem em Adão.

É claro que todas essas razões não nos fornecem a resposta à questão indagada. Mas elas a explicam e ilustram, e permitem-nos adentrar os segredos de Deus sobre Seu Filho encarnado e Sua mãe.

Esperamos muito de nosso diretor espiritual, mas o que devemos fazer para colhermos os benefícios espirituais de sua direção?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

A primeira e mais importante obrigação do dirigido é total sinceridade e transparência do coração, porque, sem isso, é completamente impossível que a direção produza frutos. O diretor precisa saber tudo: tentações, fraquezas, propósitos, boas e más inclinações, dificuldades e estímulos, triunfos e derrotas, esperanças e ilusões – tudo deve ser revelado com humildade e simplicidade. Alguns autores espirituais até recomendam que se revele a falta de confiança que se pode estar começando a ter em relação ao diretor.

É errado – e inútil para fins espirituais – revelar apenas coisas boas ou menos más, revelando nossas maiores misérias e pecados apenas a outro Padre. Sem sinceridade e abertura, seria melhor abandonar uma direção espiritual que, nesse caso, será pura e simples hipocrisia, enganação e desperdício de tempo.

Porém, não é necessário exagerar. Tudo que é importante para a vida espiritual deve ser revelado com total sinceridade ao diretor; mas seria um exagero evidente dar-lhe contas até dos menores detalhes da vida íntima da pessoa dirigida. Muitas coisas de menor importância podem e devem ser resolvidas pelo dirigido.

Ela também requer total docilidade e obediência ao diretor. Sem essa mansidão e obediência, a direção seria totalmente ineficaz e um desperdício de tempo. Embora seja verdade que o diretor não tem jurisdição sobre seu dirigido (como um superior religioso tem sobre seus inferiores), ele precisa de uma obediência nas matérias que dizem respeito à direção, sob pena de encerrar a direção ali mesmo. Como dirigidos, precisamos obedecer simplesmente, sem distinções, restrições ou usando nossas próprias interpretações.

Muito pior que desobediência seria manipular a direção, para que o diretor não pergunte mais do que nós queremos. São João da Cruz condena severamente esse abuso. Porém, não seria contrário à obediência manifestar nossas opiniões e até mesmo, respeitosamente, manifestar discordâncias, mas obedecer assim mesmo se o diretor insistir apesar delas.

Também devemos ser perseverantes. A direção está completamente esterilizada, praticamente anulada, se mudarmos frequentemente de diretor por razões fúteis ou inconsistentes; se passarmos longos períodos sem direção; se frequentemente mudamos exercícios, métodos e procedimentos de santificação; se nos deixamos levar pelo calor do momento ou por nossos caprichos na prática das regras recebidas pelo diretor; etc., etc.

Finalmente, o dirigido não pode esquecer que, se seu diretor está obrigado a manter o selo sacramental ou segredo natural, o dirigido também está obrigado a manter uma discrição especial em relação a seu diretor. Mais especificamente, o dirigido não deve revelar aos outros os conselhos, normas ou conselho particular recebido de seu diretor, mesmo para edificar o próximo. O conselho particular dado a certa alma e tendo em vista sua especial psicologia e temperamento pode não ser adequado a outras almas colocadas em circunstâncias diferentes ou dotadas de temperamento diferente. Infelizmente, muitos problemas, discórdias, invejas por parte das outras almas e mil outras inconveniências, às vezes, advêm da falta de discrição dos penitentes!

AdaptiveThemes