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Artes (74)

História da polifonia sacra

Pe. Gustavo Camargo, FSSPX

 

Introdução

As seguintes anotações são, em sua maioria, resumos de diferentes livros de música que, por interesse pessoal, fui fazendo ao longo dos anos. Têm valor de resumo somente. São poucas as apreciações pessoais. É que me parece interessante primeiro conhecer o aspecto histórico do desenvolvimento da música, especialmente da música sacra, através dos séculos, para só depois estudar mais a fundo a sua essência mesma, a sua linguagem. 

Para a parte histórica, os resumos foram feitos sobretudo com base em História da Música, de Franco Abbiati (Edições Uteha, em cinco tomos). São poucas as citações entre aspas desta obra. Em geral, resumi a ideia com minhas próprias palavras. Mas a substância vem toda dela [N. do T.: da obra].

São Pio X, em seu Motu Proprio Codex musicae sacrae juridicus, diz que: “(...) o canto gregoriano considera-se, de certo modo, como o mais elevado ideal da música sacra, de maneira que, com razão, se pode assentar como geralmente válida a seguinte regra: uma obra musical que seja apropriada para o uso religioso será tanto mais sagrada e litúrgica, quanto mais, por sua posição, espírito e irradiação, aproximar-se do ‘melos’ gregoriano. Pelo contrário, será menos adequada ao serviço divino quanto mais afastar-se desse modelo”. 

Segundo São João da Cruz, a realização artística deve ser simples, pura, evocadora e despojada – para ser pura e simples – para conduzir a alma a Deus sem retê-la no gozo estético1. A arte na liturgia, como acessório que é do culto, deve subordinar-se estritamente a seu fim, a sua função. Será, pois, mais própria para a liturgia, a música que, ao ser escutada nas funções religiosas, não inclinar o ouvinte a deter-se nela, a estancar-se no gozo estético que produz; senão a levar sua alma, através desse gozo, ao recolhimento, à oração e a dispor-se para melhor receber as graças de Deus. (Continue a ler)

  1. 1. Cita-o em Quero ver a Deus o Pe. Maria Eugênio, (Ed. El Carmen), p. 595, na terceira nota. A nota inteira diz: “Não menospreza nem recusa São João da Cruz – como tampouco Santa Teresa – a natureza sensível, para encerrar-se numa noite que tudo ignora. O santo coloca a natureza no posto que lhe corresponde na escala de valores espirituais que devem conduzir-nos à união com Deus. Sabemos quanto os dois reformadores apreciavam que seus conventos estivessem em lugares de cujas belezas naturais pudesse a alma servir-se para recolher-se em si e elevar-se a Deus. Toda a teoria da arte em São João da Cruz dimana desse mesmo princípio: a realização artística deve ser simples, pura, evocadora e despojada – para ser pura e simples – para conduzir a alma a Deus sem retê-la no gozo estético”.

Gustavo Corção, animal-professor, escritor genial

Dom Lourenço Fleichman, OSB

O texto sobre Gustavo Corção que publicamos aqui foi escrito para a Revista citada no artigo em 2010. Vale notar que as publicações da Permanência sobre Gustavo Corção, seus artigos publicados no site e depois em livros de coletâneas, atraíram a atenção de alguns poucos estudiosos e pensadores. Foi assim que algumas teses acadêmicas foram escritas, e livros publicados. Hoje já é mais fácil encontrar Gustavo Corção nas livrarias do que na época em que escrevi esse artigo.

Se a Revista Conhecimento Prático de Literatura fizesse uma pesquisa junto a seus leitores com as seguintes perguntas:

- qual o autor brasileiro que foi considerado sucessor de Machado de Assis?
- qual o autor brasileiro que teve seu primeiro livro esgotado em menos de um mês?
- qual o escritor nacional que foi indicado por Manuel Bandeira para o Premio Nobel de Literatura?

Quem pensaria em Gustavo Corção? Pode-se dizer que Corção é um ilustre desconhecido, tendo sido esquecido e abandonado pelo mundo dos intelectuais. Hoje dificilmente se imagina a importância desse escritor nos vinte e cinco anos de sua carreira literária. Seu pensamento é de tal personalidade e profundidade que atraiu a atenção e a amizade dos grandes que o precederam. Vejam o que dizia dele o grande crítico Oswaldo de Andrade:

“Não me lembro de em toda a minha vida ter conhecido, entre artistas e literatos, uma figura tão impressionante como a de Gustavo Corção. Privei com Inglês de Souza, que era meu tio, conheci de perto João Ribeiro, Alberto de Oliveira e o nobre Emílio de Menezes. Fui íntimo de Villa-Lobos e Mário de Andrade. Na Europa me liguei a Picasso e Leger, Cocteau e Cendras, a esse original e magnífico Valéry Larbaud, a Supervielle e Romains, enfim, a toda uma geração revolucionária do começo do século. E apenas, com outro tom, mas a mesma doçura sarcástica, alguém me lembra o autor excelso de Lições de Abismo. Era um velho de 70 anos e tinha sido cruelmente abandonado por todos os seus amigos, quando o encontrei, no Quartier Latin. Chamou-se Eric Satie. E talvez venha a ser um dia considerado o maior gênio musical do século XX.

O que caracteriza essas naturezas que vão do doce ao amargo sem contraste é o que nelas há de inquebrável. Gustavo Corção é um inquebrável — faca de dois gumes. E isso muito se liga às virtudes intelectuais que o fazem, sem dúvida, o nosso maior romancista vivo. Nas Lições de Abismo como também na Descoberta do Outro não vejo concessões.
O que vejo é uma extraordinária e lúcida natureza de criador, ou melhor, de restituidor, pois que arte é restituição. Depois de Machado de Assis aparece agora um mestre do romance brasileiro.”
Correio da Manhã
, Rio de Janeiro, 5-4-1952 (Continue a ler)

A verdade do Evangelho no filme "A Paixão de Cristo"

Pe. Bertrand Labouche - FSSPX

 

[Nota da Permanência: o texto seguinte é a transcrição de uma conferência dada pelo autor em um evento da Permanência ocorrido muitos anos atrás, sobre o filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson]

“‘Quem a ti me entregou tem maior pecado’ (Jo 19, 11). Essa frase, em que Jesus relativiza a culpa de Pilatos, só aparece no Evangelho de João, o mais místico e peculiar dos quatro. Para os historiadores, as fontes mais fidedignas são os escritos de Mateus, Marcos e Lucas”, afirma Isabela Boscov na revista “Veja" de 03/03/04.

Dois outros versículos do Evangelho são postos em dúvida, senão negados, especialmente pelos judeus que até exigiram que fossem tiradas por serem anti-semitas: 

“Os seus não O receberam” (Jo 1, 11).

“Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos” (Mt 27,25). Aliás, Mel Gibson teve de aceitar, para acalmar os espíritos, que este versículo não aparecesse traduzido na tela, embora seja pronunciado em hebreu.

Estas objeções, dúvidas, críticas sobre um texto evangélico não dizem respeito diretamente ao realizador do filme “A Paixão de Cristo”, mas bem ao santo Evangelho. A polêmica não é cinematográfica mas exegética, quer dizer, trata da interpretação da Sagrada Escritura. 

Portanto, é oportuno reafirmar a autenticidade e a veracidade dos Evangelhos: 

• pela razão, por meio da apologética, que é a defesa racional da fé. 

• pela fé, que nos obriga a acreditar firmemente que o Autor da Sagrada Escritura é o próprio Deus, que não se pode enganar, nem enganar-nos. 

Estudaremos especialmente o evangelho de S. João, por ser o alvo principal de vários ataques a propósito do filme de Mel Gibson, “A Paixão de Cristo”. Mas é claro que a nosso argumentação valeria também para os sinópticos (Mt., Mc., Lc.)  (Continue a ler)

Sobre Lições de Abismo

[Com satisfação publicamos um escrito inédito de Gustavo Corção sobre o seu romance Lições de Abismo. O texto era na verdade uma carta enviada à escritora Raquel de Queiroz e a reproduzimos pela primeira vez na Revista Permanência 265]. 

 

D. Raquel de Queiroz,

Li com enorme interesse a sua nota sobre o meu livro. Vou mais longe, confesso que li com sofreguidão. A senhora que já teve seus livros me entenderá.  Digam os outros que é vaidade nossa, mas não é; ao contrário, é talvez o melhor de nós, o mais puro de nós, essa avidez pela confirmação daquilo que escrevemos. Será no fundo vaidade, se quiserem, mas uma pobre vaidade, ou uma vaidade de pobre.

Aquele livro, quando o soltei, deu-me mais insônias do que nos dias de trabalho. Escrevera-o com paixão, dias e dias, noites e noites. Andava com ele em mim, comigo nele. Juntara, como num cadinho, a escória de todo um passado fantástico, meio vivido e meio sonhado. Fundira o grosso minério. Cinzelara as pepitas, os lingotes, as barras. E agora, apesar de todas as reprises, da revisão esticada, da refusão dos caprichos ingratos, dos cortes, e finalmente da ortografia — porque a minha nunca se depurou dum hibridismo em que as letras da adolescência se misturam aos acentos circunflexos da velhice — apesar de todo esse nervoso apego eu tinha de largá-lo, como se larga o filho completo e maior. (Continue a ler)

Machado de Assis e o Eclesiastes

Gustavo Corção

 

Num artigo do mês passado, sugeri a leitura de Machado de Assis a quem desejasse apurar o ouvido para o áspero e aflitivo timbre do Eclesiastes. Reciprocamente, sugiro hoje a leitura do livro atribuído a Salomão a quem desejar compreender um pouco melhor o famoso pessimismo de Machado de Assis. “No Eclesiastes há tudo para todos” dizia em 1895 o cronista da Semana. Haverá, pois, para os críticos uma chave que permita abrir os cofres secretos desse mesmo autor que em outra crônica, de 1893, escrevia: “Onde há muitos bens, há muitos que os coma, diz o Eclesiastes, e eu não quero outro manual de sabedoria”

São numerosas as passagens em que Machado se refere a esse manual de sabedoria tão adequado ao seu estilo, mas o que nos autoriza a dizer que o livro sagrado exerceu poderosa influência sobre o autor de Brás Cubas não é a frequência da citação. É antes a profunda, a misteriosa perspicácia com que Machado penetrou o espírito do angustiado Qohelet.

Naquele artigo de janeiro, se o leitor porventura ainda se lembra, seguíamos a hermenêutica traçada por sábios comentadores, pela qual o Eclesiastes seria um livro existencial, uma espécie de filosofia do absurdo, um manual de contrassenso escrito na pauta da limitação marcada pelos horizontes terrenos. Se a sorte do homem é o que se vê, sob o sol, então a vida é absurda. A forte estimulação desse livro consiste na confiança incondicionalmente posta na fé dos mandamentos. Esses, aconteça o que acontecer, não podem ser absurdos. Serão incompreensíveis como os sofrimentos de Jó e como o sacrifício pedido a Abraão. No dinamismo das propulsões negativas, ou melhor, do vácuo produzido por essa bomba pneumática, tira-se a conclusão: a sorte do homem não pode limitar-se ao que se vê. Ou ainda, do que se vê tira-se um prenúncio do que está escondido.

Os autores das modernas filosofias do absurdo optaram pelo absurdo. O que vale dizer que não optaram, que ficaram detidos, imobilizados, sem ímpetos para atravessar o espelho e entrar no mundo das maravilhas. Dessa paralisação da inteligência resulta um pessimismo real, profundo, desconsolado e cínico que não era, de modo algum, o pensamento de Machado de Assis. Melhor do que a maioria de nossos críticos viu o inglês que comentou a tradução de Brás Cubas e que assinalou o pessimismo estimulante do grande brasileiro.

Até seus últimos dias, na desolação da velhice e da viuvez, Machado de Assis conserva intacto o senso moral. Se nos romances parece ter atingido um cansaço de vida e um desconsolo supremo, aí está sua correspondência para nos mostrar o outro lado do homem que persiste em crer no homem e na realidade moral. E a explicação desse dualismo está no Eclesiastes, ou melhor, naquilo que falta ao Eclesiastes que é um livro onde o principal é justamente aquilo que falta: a descoberta da transcendência de nosso destino, a notícia da ressurreição. O princípio da complementariedade que tem tanta importância na física moderna, e que dá uma das regras capitais para a interpretação do Livro Santo, mostra-nos o desolado discurso de Qohelet como um sequioso apelo à outra metade da história que só muito mais tarde será revelada. O sábio louco diz “tenho sede” como o Cristo na Cruz, momentos antes da ressurreição. Sede de complemento, de completação, de consumação. Sede de solução.

Ora, há uma passagem onde se vê claramente que Machado de Assis compreendeu essa complementariedade dos mistérios de Cristo, e onde, ao Eclesiastes contrapõe o Sermão da Montanha. Em 25 de março de 1894, o cronista da Semana, disfarçando com guizos de frivolidade sua sabedoria, entra a descrever um Ofício da Paixão a que assistira. E termina assim a crônica com aquele seu ar de quem não sabe que está dizendo coisas enormes:

“Soou o cantochão. Chegou-me o incenso. A imaginação deixou-se-me embalar pela música e inebriar pelo aroma, duas fortes asas que a levaram de oeste a leste. Atrás dela foi o coração, tornado à simpleza antiga. E eu ressurgi, antes de Jesus. E Jesus apareceu-me antes de morto e ressuscitado, como nos dias em que rodeava a Galileia, e, abrindo os lábios, disse-me que a sua palavra dá solução a tudo.

— Senhor, disse eu então, a vida é aflitiva, e aí está o Eclesiastes que diz ter visto as lágrimas dos inocentes, e que ninguém os consolava.

— Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.

— Vede a injustiça do mundo. “Nem sempre o prêmio é dos que melhor correm, diz ainda o Eclesiastes, e tudo se faz por encontro e casualidade”

— Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.

— Mas é ainda o Eclesiastes que proclama haver justos, aos quais provêm males...

— Bem-aventurados os que são perseguidos por amor da justiça, porque deles é o Reino do Céu.

E assim por diante. A cada palavra de lástima respondia Jesus com uma palavra de esperança. Mas já então não era Ele que me aparecia, era eu que estava na própria Galileia, diante da Montanha, ouvindo com o povo. E o Sermão continuava. Bem-aventurados os pacíficos. Bem-aventurados os mansos...”

Como se explica, pergunto eu, sem apelos ao acaso, essa aproximação que tem finuras de sutil hermenêutica. Nós outros, depois de ler muitos sábios exegetas, chegamos à essa mesma conclusão. Depois de vivermos longos anos no convívio dos Doutores, conseguimos entrever as escondidas intenções do antigo escritor inspirado. Machado de Assis achou aquilo sozinho, talvez na Rua do Ouvidor, na mesma onde teve notícia do 15 de novembro: “Disseram-me na Rua do Ouvidor que os militares proclamaram a República...”

Como se explica tal acuidade que faltou aos perseverantes exegetas que procuram no Eclesiastes não sei que filosofia do moderado meio termo? Como se explica a intuição que teve ele, Machado, na sede de complemento que é a negativa substância do grande livro? Se aqui lembramos ao leitor que o Sermão da Montanha é o programa dos ressurrectos, ou o manifesto que vinha dilatar os horizontes do humano destino, e dizer que muito mais existe do que tudo o que se vê sob o sol, então o contraponto que Machado improvisou ganha a majestade de uma grande lição espiritual. Como se explica isto?

O gênio, por si só, explica muita coisa. Mas no caso é preciso acrescentar ao gênio a ressonância íntima, a assimilação perfeita que só pode vir de uma profunda conaturalidade.  As almas irmãs se encontram por cima dos mares e das idades. Machado de Assis encontrou na Rua do Ouvidor o antigo judeu, e completou-lhe o discurso com aquele outro discurso que apesar da secura dos tempos não lhe fugira da alma.

Tudo isto prova que o pessimismo de Machado de Assis é de espécie totalmente diversa daquele moderno que leva à imobilização e ao cinismo. É o pessimismo condicional do Eclesiastes, é o “stimulating pessimism” que o inglês descobriu.  A miséria do homem presta-se às lágrimas ou ao riso. “Eu fosse ela preferia que rissem...”. Riu ele de tudo ou quase tudo, mas esse riso que a miséria das coisas e dos homens lhe ditava, trazia disfarçado o riso do fim dos tempos. E eu creio não estar forçando a simpatia se disser que há na obra de Machado de Assis, como no seu manual de sabedoria, uma escondida gata borralheira que sofre os prestígios do mundo à espera das transfigurações.

 

(Diário de Notícias, 13/02/1955)

O retorno

Pe. Bertrand Labouche, FSSPX

O portal manuelino da igrejinha da Madalena chamou a atenção de Domingos nesta manhã: “Quando alguém tomará a iniciativa de restaurá-lo! Está preto como uma chaminé!”, murmurou o sacristão ao girar a velha chave na porta aferrolhada. “Só enxergam a catedral e os Jerônimos! E preferiram construir a Caixa Geral!”  Continuando essas reflexões sobre a gestão arbitrária do “dinheiro dos contribuintes e portanto do meu”, adentrou Domingos na igreja sombria. Chegando ao fim do corredor central, ensaiara uma genuflexão; a lâmpada do Santíssimo Sacramento vacilava um pouco. Da sacristia a luz se projetava sobre a nave e as imagens dos santos. Mais uma jornada se iniciava para o sacristão, zelador diante de Deus e do senhor cura.

Tudo parecia decorrer como de costume. CONTUDO...

O bom e velho Domingos não percebera a sombra ereta e imóvel que sobressaía do lado duma coluna, ao fundo da igreja, no eixo do batistério. Não era uma imagem. Estava ajoelhada no sítio destinado aos fiéis que, sobretudo nos dias atuais, são geralmente o contrário das imagens: remexem-se, distraem-se por um nada, chegam mesmo a tagarelar e, acima de tudo, não permanecem por muito tempo. Era cerca de meio-dia quando Domingos notara a presença do orante.

Dona Catarina viera à sacristia pedir uma Missa, se possível para aquele dia mesmo: fazia exatamente um ano que o marido falecera. Respondeu-lhe o bom sacristão que o Senhor Cura já tinha uma intenção para a Missa daquele dia. “Talvez o outro padre pudesse celebrá-la?” disse a paroquiana. “Outro padre? Que outro padre?”, perguntou Domingos, meio irritado. “Aquele que está rezando na igreja, talvez conheça o Padre João e queira celebrá-la?” Domingos olhou de soslaio pela porta da sacristia e percebeu de fato a silhueta meditativa dum padre de batina.

Nesse momento soou o Ângelus da catedral, abafando um pouco o surdo vai-e-vem dos motores que, sem interrupção, vinha da rua.

“Nunca o vi; com certeza é um estranho de passagem; de todo modo, se ele celebra a Missa, deve pedir permissão ao Padre João”.

“Vou ao menos perguntar-lhe se pode dizer a Missa pelo meu marido”...

Mal pronunciara essas palavras, Dona Catarina se dirigiu ao padre. Já perto dele, impressionou-a o seu recolhimento: os olhos estavam fechados, e uma paz profunda lhe emanava do nobilíssimo semblante. Uma curta barba negra lhe acentuava a palidez das feições macilentas. Toda a sua pessoa transpirava a austeridade e a pobreza dos missionários d’outrora; a batina era feita dum tecido grosseiro, e um terço de madeira lhe pendia do cinturão – uma simples faixa de tecido de um palmo de largura. As mãos, finíssimas, estavam juntas, apoiadas sobre o banco da frente. Parecia não pertencer ao mundo exterior. Era todo oração.

“Senhor Padre...” Catarina teve a impressão de falar com uma imagem de santo. “Senhor Padre...”, insistiu ela à meia voz. Algumas pessoas rezavam na igreja, mas não prestavam atenção à cena que se passava atrás delas, meio distante. Pacificada pelo silêncio do orante, dirigiu-se a ele interiormente, como que sem querer: “Tenho algo de importante a lhe pedir, por que o senhor não me responde?”

Então, suavemente, o padre abriu os olhos; o seu olhar cheio de bondade repousou sobre ela; nele lia-se uma alegria inefável, de mistura com uma extrema tristeza. “Perdoai-me, senhor Padre”, sussurrou Catarina, incomodada, e fascinada: o rosto do padre irradiava luz.

Ela retornou à sacristia. “E aí, a senhora falou com ele?”, perguntou Domingos que, intrigado, observara-a de longe. “Não ouso incomodá-lo, está tão absorto na oração”... Pensativa, sentindo uma dulcíssima alegria, Dona Catarina voltou para casa.

O desconhecido rezou naquela mesma atitude por toda a tarde. Domingos notara que ele ainda estava na igreja quando o Senhor Pároco, o Padre João, saiu da sacristia para dizer a Missa das 18h30m. Contudo, mal o celebrante pronunciara as palavras de acolhimento aos fiéis, o padre de súbito desapareceu. O lugar onde estava ficara vazio; a nave inteira parecia vazia. O tráfego exterior pareceu redobrar de intensidade.

Todos os dias da semana, lá estava ele, até as 18h30m. O valoroso sacristão não ousava aproximar-se; depois de abrir a porta da igreja, sempre o achava no mesmo lugar. Como entrava? Como saía? Donde vinha? Aonde ia? Mistério... Já muitos paroquianos o haviam notado. Dona Catarina retornava todos os dias, e permanecia pelo tempo dum rosário; ela não lhe desgrudava os olhos.

De qualquer modo, ninguém ia chamar a polícia. Que mal fazia ele? O Senhor Pároco quis falar-lhe, mas não obteve resposta. Sequer abriu os olhos. Só as crianças, confiantes, se aproximavam dele: elas não lhe tinham medo. Muitos se ajoelhavam perto dele, com os rostos voltados para o mesmo lugar – o tabernáculo. Juntavam as mãos, como ele, e ficavam bem quietos, comportados como estátuas.

O bairro inteiro agora comentava sobre ele; muitos vinham vê-lo. No sábado de manhã, a igreja se encheu de fiéis e curiosos. Reinava um silêncio profundo. Quem zombava ao chegar (“deve ser doido”), já não zombava quando o via. Apelidavam-no de “o santo”. Parecia em êxtase. Uns sacerdotes também adentraram a igreja da Madalena. Desprendia-se desse padre tal autoridade, que ninguém ousava tocá-lo. Ele inspirava um profundo respeito.

Um detalhe impressionara os mais observadores: ele estava descalço. Durante uma conversa, a respeito dele, entre vários membros do clero, um cônego da catedral observou: “Talvez não seja padre mas um simples religioso, não?” Comentando essas palavras, um padre espanhol, que acompanhava os peregrinos à igreja de Santo Antônio, bem perto dali, e que depois entrou na da Madalena, surpreso por ver nela tanta gente, afirmou: “Creio que ele se parece incrivelmente com São Francisco Xavier, segundo a sua representação tradicional; demais, carrega um crucifixo à cintura, ao estilo dos jesuítas do passado”. De fato, esse padre guardava uma estranha semelhança com o grande taumaturgo do século XVI, o Patrono Celeste das Missões.

De súbito, exclamou o sacristão: “A terça-feira passada, quando o vi pela primeira vez, caiu em 3 de dezembro, FESTA DE SÃO FRANCISCO XAVIER!”

Uma massa de fiéis, na manhã de 8 de dezembro, invadiu a igreja da Madalena. A solenidade da Imaculada Conceição, Padroeira de Portugal, coincidia nesse ano com o domingo. Quem viera sobretudo por causa do “santo” se decepcionou pois ele não comparecera. Não ocuparam, todavia, “o seu” lugar, “caso ele viesse”...

No exato momento em que o organista dedilhava as primeiras notas, espalhou-se pela igreja um movimento de espanto: eis que de repente apareceu “ele”, lá de joelhos no lugar habitual, rezando intensamente. Um burburinho se alastrou pelo povo: “Ele está chorando!”

Com efeito, o seu corpo se mantinha numa postura serena, mas o seu rosto se raiava de lágrimas.

Uma religiosa ao microfone tentava em vão fazer a assembléia cantar; o que conseguiu foi um solo: “O Cristo está vivo, ressuscitou”... A atenção dos fiéis à cerimônia estava tão dissipada que o diácono permanente, encarregado das leituras, teve de intervir: “Irmãos, qual seja o motivo da vossa distração, permiti que a palavra de Deus entre nos vossos corações e vos interpele; sentai-vos, por favor”. Todos os olhares se fixavam nele. O diácono terminou as leituras no meio da indiferença geral. A religiosa entoou um versículo do salmo, a que só ela respondeu. Quando o celebrante anunciou a leitura do Evangelho, a assembléia se levantou. O “santo” também ficou de pé, mas conservou fechados os olhos; já não derramavam lágrimas. O seu semblante ficou sério. No final do Evangelho, ajoelhou-se de novo. Os fiéis foram convidados a sentar-se para escutar a homilia, feita nessa ocasião pelo reitor do seminário diocesano: 

“Irmãos, testemunhas da mensagem do Cristo – o pregador se aproximou do microfone – voltemos os nossos espíritos àquela que hoje festejamos na Igreja: Maria, Mãe de Jesus, que também é a nossa Mãe, a Mãe de todos os homens, qualquer que seja a nação, a condição e a religião. Como proclamou o Bispo de Roma, na memorável reunião interconfessional do Jubileu do ano 2000, no Sinai, o Cristo se uniu ao homem para que ele participasse, mesmo sem o seu conhecimento, da Redenção Universal. Ora, Maria sofreu com Jesus; portanto, ela é a Mãe da humanidade, resgatada duma vez por todas. Por isso, irmãos, a Igreja não tem inimigos. Aqueles que, aparentemente, a contradizem são na realidade pessoas salvas que se ignoram: budistas, hinduístas, muçulmanos, animistas, protestantes, católicos – somos todos irmãos numa só Igreja, que é Vida...”

“BLASFEMADOR!” Uma voz estentórea reboou de pronto, estourando como um vergaste de chibata na Igreja da Madalena. O santo estava de pé, com o índex apontado ao pregador, e o rosto exangue de indignação.

“Sai desta igreja, lobo disfarçado de pastor!” “Mas, mas...”, balbuciou o pregador. “Silêncio! Assassino dos irmãos, SAI DAQUI, JÁ TE DISSE!”. Rápido como um raio, o homem de Deus varou a massa boquiaberta, e abriu a porta dupla da igreja, enquanto a voz melíflua ao microfone se tornou raivosa e agitada: “Quem és tu que ousas fazer isto?”... “Sou Francisco Xavier, filho de Inácio de Loiola, apóstolo de Nosso Senhor Jesus Cristo; cá estou com a Sua Divina Permissão e em Seu Santo Nome para te ordenar a ti, e também a todos esses impostores que ocupam o Santuário, a abandonar imediatamente este lugar!” Todos seguravam o fôlego dentro da nave. Os ministros da partilha e da palavra, a religiosa cantora, o diácono permanente, de início estupefatos como ladrões pegos em flagrante delito, caminharam em seguida, lentamente e depois cada vez mais rápido, terrificados, para a saída.

Eis que São Francisco Xavier subiu ao púlpito e se dirigiu aos fiéis:

“A Vontade de Deus, meus caríssimos irmãos, é a vossa santificação. Mas não podeis santificar-vos fora da graça do único Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo. A ilusória dignidade do homem, decaído, não é capaz de ser o caminho da vossa salvação, como, infelizmente, apregoam-vos os falsos pastores, desafiando a advertência do Nosso Divino Mestre: ‘Sine Me, nihil’, ‘sem Mim, nada podeis fazer’. Por isso, a missão da Igreja é dar-vos Jesus Cristo; se o homem não quiser conhecer a Jesus, e Jesus Crucificado, corre para a perdição, e com ele a sociedade inteira. ELE DEVE REINAR!

“O Coração da Nossa Santa Madre Igreja é o Altar do Santíssimo Sacrifício, e não esta mesa miserável, erigida diante de vós pelos ímpios inovadores. Subirei ao Altar de Deus, como o fiz cá em Portugal, depois na África, na Índia e no Japão, há quatro séculos ‘ad majorem gloriam Dei et salutem animarum’ e celebrarei a Santa Missa nesta imutável intenção da Glória da Santíssima Trindade e da salvação eterna das almas. Assim, nesta igreja, a cristandade reflorescerá, e depois conquistará todos os santuários da vossa pátria, que merecerá de novo o título de ‘nação fidelíssima’”.

“Dai graças a Deus, caríssimos fiéis; que nesta adorável Festa da Imaculada Conceição de Nossa Mãe Celeste, eleve-se dos nossos corações um hino de reconhecimento ao Altíssimo que, na Sua Infinita Misericórdia, dignou-se a vos convocar para uma reconquista tão nobre. Amém.”

“Amém!” responderam os fiéis.

O santo, então, caminhou até a sacristia onde Domingos, com o coração inundado de alegria, lhe preparou os mais belos paramentos.

... “E foi isso, Padre, era apenas um sonho, infelizmente; quando acordei, dei de cara com a realidade!”...

“Ânimo, meu amigo. A realidade, no fim das contas, não é tão diferente: Deus e todos os santos não estão conosco? São Francisco Xavier intercede por nós, e os santos do Céu nos invejam! Se Deus permitisse, eles estariam na linha de frente, ao nosso lado!”

Essas palavras reconfortaram o moço, enquanto o padre, meditativo, contemplando o crucifixo, surpreendeu-se fazendo esta oração: “Ainda assim, Senhor, se Vós permitísseis a vinda de um ou dois, dum São Paulo, ou dum São Vicente Ferrer!”...

 

Mequinho

Gustavo Corção

Um velho enxadrista, que nos seus vinte anos frequentou o Clube de Engenharia e chegou a jogar na primeira turma formada em torno de Caldas Viana, não pode perder a oportunidade de externar seu júbilo e de explicar aos leigos o significativo valor da vitória alcançada por nosso Mequinho num torneio internacional.

 Antes disso, devo duas palavras ao leitor que habitualmente me vê debruçado nas questões que dizem respeito à sorte da civilização e principalmente à sorte eterna das almas. O xadrez é um jogo, um forte exercício mental mas exercício lúdico; seria melhor dizer que o xadrez é uma luta, um combate lúdico, e não um jogo, porque a ideia de jogo sugere sempre um caráter aleatório. No jogo do xadrez a “sorte” só entra como fator acidental concernente ao estado em que se acha o combatente: uma noite bem dormida ou um incidente doméstico podem predispor positiva ou negativamente, e são só essas coisas que constituem a parte aleatória da partida. Na essência mesma do jogo não há nenhum fator alheio ao exercício puramente racional. Não sei se alguém já escreveu dois ou doze volumes sobre a filosofia do xadrez. Escrevo eu esta meia dúzia de linhas para fazer o leitor sentir que se trata de um jogo que bem merece o tratamento que sempre lhe dava mestre Philidor: “le noble jeu d´échecs”; e para salientar a importância do feito de nosso Mequinho: pela primeira vez na história do xadrez do Brasil um brasileiro ingressa no Olimpo dos mestres internacionais do xadrez. E isto acontece na mesma quadra da história em que o Brasil lavrou diversos tentos de desigual valor mas de paralela significação; em 1964 nós vencemos uma densa infiltração comunista já chegada ao poder, com uma elegância dionisíaca só comparável aos passes de Tostão e aos “goals” de Pelé; tornamo-nos depois tricampeões do mundo; vencemos em seguida as insídias do terrorismo e as dificuldades para a arrancada do desenvolvimento econômico. Agora temos mais este sinal de um avanço ou da travessia de uma linha que nos confinava num provincianismo cultural.

Nosso xadrez era até aqui um xadrez de segunda classe. Na belle époque tínhamos um Caldas Viana, que conheci com a majestade de um papa do tabuleiro, autor de uma variante do Ruy Lopes, chamada “variante Rio de Janeiro”. Depois, já no meu tempo de moço, tivemos o Raul de Castro, o Barbosinha, de quem dizíamos pelas caretas que fazia quando planejava suas mirabolantes combinações, que “rocava os olhos”. Tivemos o fulgurante Walter Cruz e o perseverante Mendes Júnior, o último dos velhos que, numa comovente e memorável partida, entregou seu título de campeão do Brasil, que mantinha aos 70 e tantos anos, a um menino de 14 ou 15, que hoje tem o título de Mestre no grande xadrez internacional. E é curioso notar que nossa marginalização vinha do provincianismo em que nos fechávamos. Quando a Segunda Guerra obrigou ao exílio vários mestres enxadristas, o Brasil não soube guardar e aproveitar nenhum deles. Foram para a Argentina e lá formaram um grupo de discípulos que , em pouco tempo, colocou o xadrez argentino muito acima do nosso. Lembro-me bem de um encontro em que o jovem Panno, de 19 ou 20 anos, com terrível facilidade derrubou Walter Cruz, que era então o Campeão do Brasil.

O feito de Mequinho é sinal inequívoco que, ligado aos outros, forma uma constelação de esperanças: o Brasil está saindo do buraco.

Se me perguntarem se vale a pena incluir nas escolas, e até se vale a pena ser campeão de xadrez, ficarei perplexo e indeciso. Evidentemente não é para isto que este planeta privilegiado cobriu-se com essa inquieta e turbulenta camada de lichen racional. Não será esse, evidentemente, o sentido da vida. Estamos aqui de passagem para conquistarmos a palma de uma vitória de outra ordem; estamos no mundo, a correr, a falar, a viver, para o principal objetivo de servir a Deus e aos homens por amor de Deus. Mas o próprio livro da santa e inspirada sabedoria nos diz que há na vida “um tempo para nascer e um tempo para morrer; um tempo para plantar e um tempo para colher; um tempo para chorar e um tempo para rir; um tempo para o gemido e um tempo para a dança; um tempo para se beijarem e um tempo para se afastarem; um tempo para clamar e um tempo para calar; um tempo para rasgar e um tempo para coser; um tempo para amar e um tempo para detestar; um tempo para a guerra e um tempo para a paz”. (Ec 3, 1-8)

Não haverá também um tempo para jogar xadrez? Parece-me que sim. A grande voz dos milênios nos diz que, entre as muitas coisas que os homens devem fazer neste mundo para manifestar, para exigir e provar sua alta estirpe, podemos em hesitação incluir “le noble jeu d´échecs”, que é muitíssimo mais antigo do que o velho Philidor. A fantasia que gosta de ataviar e de zombar da erudição já propôs as mais antigas e variadas origens do jogo de xadrez. Sua origem passeou pelo remoto Oriente e pelo Oriente Próximo, e já foi atribuída, como invenção pessoal, a Sem, Jafé, Salomão, Aristóteles e outros.

As mais sérias pesquisas parecem provar que o xadrez nasceu na Índia. As regras e as peças mudaram ao longo dos séculos, e até hoje, xadrez universal, guarda a marca de variações culturais. Assim é que a peça que em inglês e português se chama Bishop e bispo em espanhol se chama alfil e em francês é fou (no sentido de bobo do rei). Essa peça, que no xadrez moderno tem o mesmo valor do cavalo (em português) e do Knight (em inglês), tem a peculiaridade de se mover permanentemente, fielmente, nas casas de mesma cor. Daí poderá alguém tirar considerações e reflexões irreverentes, quando ponderar a facilidade com que hoje os bispos mudam de cor no xadrez do mundo.

E por falar nisto devo observar que entre nossos jovens jogadores de bom quilate existe um chamado Hélder Câmara, que, certamente é filho ou parente de Gilberto Câmara (irmão ou primo do arcebispo), que foi campeão do Ceará, e com quem, em tempos fabulosamente antigos, tive o prazer de jogar, e de quem mereci, no livro que deixou, Peão na sétima, a publicação de uma partida jogada e empatada com o campeão da Argentina pelo autor destas mal traçadas linhas, que também teve um tempo para jogar com os bispos e tempo para lutar com outros bispos... mas isto é outra história.

Hoje é tempo de aplaudir Mequinho e de esperar o dia em que ele trará para o Brasil o título de Campeão do Mundo.

(O Globo, 20/1/1972)

A Segunda Crucifixão

 

Loud mockers in the roaring street

Say Christ is crucified again;

Twice pierced His gospel-bearing feet,

Twice broken His great heart in vain.

 

I hear, and to myself I smile,

For Christ talks with me all the while.

 

No angel now to roll the stone

From His unawaking sleep,

In vain shall Mary watch alone,

In vain the soldiers vigil keep.

 

Yet while they deem my Lord is dead

My eyes are on His shining head.

 

Ah! never more shall Mary hear

That voice exceeding sweet and low

Within the garden calling clear:

Her Lord is gone, and she must go.

 

Yet all the while my Lord I meet

In every London lane and street.

 

Poor Lazarus shall wait in vain,

And Bartimaeus still go blind;

The heeling hem shall ne’er again

Be touch’d by suffering humankind.

 

Yet all the while I see them rest,

The poor and outcast, on His breast.

 

No more unto the stubborn heart

With gentle knocking shall He plead,

No more the mystic pity start,

For Christ twice dead is dead indeed.

 

So in the street I hear men say:

Yet Christ is with me all the day.

Trocistas, alta a voz, na zoeira da rua,

De Cristo vão pregoando a nova imolação:

Seus pés de evangelista imóveis contra a crua

Madeira; e o nobre peito alanceado em vão.

 

Ouço-os falar, sorrio, e, em silêncio, prossigo,

Pois Cristo, sem cessar, vai falando comigo.

 

Anjo algum haverá que a pedra role e à cena

Convoque-O desta vida em seu sono sem fundo.

Ao pé da tumba, em vão, quedará a Madalena,

Em vão a guarda vã dos grandes deste mundo.

 

No entanto, enquanto crêem que meu Senhor jaz morto,

Na face esplandecente os olhos fito, absorto.

 

Outra vez, no jardim, não ouvirá Maria

Mais doce e grave voz que a voz de outro qualquer

Seu nome proferir tão clara como o dia:

Partido seu Senhor, também parta a mulher.

 

No entanto, a meu Senhor, sem cessar e em verdade,

Vislumbro em cada rua e viela da cidade.

 

Lázaro, morto, em vão há de esperá-Lo; em vão

Uma pouca de luz Bartimeu pedirá.

E a túnica que, outrora, os enfermos com a mão

Tocavam, por guarir, nunca mais guarirá.

 

No entanto, sem cessar, pobres vejo e os sem porto

A seu peito acorrer em busca de conforto.

 

Não mais Ele há de vir à porta, suavemente,

Bater dos corações empedernidos, nem

À mística piedade induzir corpo e mente:

Que Cristo morto está  não duvide ninguém.

 

Isto é o que ouço, na rua, a gente proclamar;

No entanto, ao lado meu, vai Cristo a caminhar.

 

 

(Revista Permanência 285. Tradução de Sergio Pachá) 

O Burro

THE DONKEY

When fishes flew and forests walked

And figs grew upon thorn,

Some moment when the moon was blood

Then surely I was born;

With monstrous head and sickening cry

And ears like errant wings,

The devil's walking parody

On all four-footed things.

The tattered outlaw of the earth,

Of ancient crooked will;

Starve, scourge, deride me: I am dumb,

I keep my secret still.

Fools! For I also had my hour;

One far fierce hour and sweet:

There was a shout about my ears,

And palms before my feet.

O BURRO

Quando os peixes voavam e as florestas

Moviam-se e espinheiros davam figos,

Num momento em que a lua era de sangue,

Eu decerto nasci: tempos antigos.

Com uma cabeça enorme e um grito ascoso

E orelhas – duas asas aberrantes –

Sou a paródia mesma do demônio

Por entre todos mais quadrupedantes.

A andrajosa escumalha deste mundo,

Cuja perversidade não tem fim,

Escarnece-me, bate-me, esfomeia-me,

E eu guardo o meu segredo para mim.

Estultos! Eu também tive uma hora,

Distante e doce e minha – uma hora ardente:

Bradava a multidão à minha volta

E espalhava-me palmas pela frente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte:  The Collected Poems of G. K. Chesterton (Dodd Mead & Company, 1927)

Tradução: Sérgio Pachá

 

 

 

Romeu e Julieta

Pe. Luis Cláudio Camargo, FSSPX

 

[Nota da Permanência: O texto seguinte é a transcrição de uma conferência do autor dada na Capela Nossa Senhora da Conceição, Pendotiba/RJ, em 24 de novembro de 2012, sobre a natureza do homem e da mulher na obra "Romeu e Julieta". Optamos por conservar o estilo oral]

 

Breve introdução sobre o catolicismo de Shakespeare

Por que Shakespeare? Shakespeare foi um católico que viveu no período da perseguição anglicana. Não terei tempo aqui para apresentar as provas do seu catolicismo, mas acreditem em mim. Chegou-se a dizer que ele foi um católico covarde; isso não é verdade. A sua família, tanto paterna como materna, está no centro da resistência católica contra a rainha Isabel I, “A Sangrenta”. Shakespeare presenciou a execução de seu confessor, o jesuíta São Roberto Southwell, que fora preso. Naquele período, ser católico era crime de alta traição (lesa-majestade), cujo castigo era a pena máxima denominada Hanged, drawn and quartered. Primeiro as vítimas eram enforcadas – mas sem que o condenado morresse –, em seguida lhes abriam o ventre, arrancavam as vísceras e depois cortavam os braços e as pernas. Era uma técnica satânica em que se tentava manter a pessoa viva com o intuito de que sofresse o máximo possível. Por fim, somente depois de a vítima estar morta, cortavam-lhe a cabeça. Era essa a pena aplicada aos católicos. A quantidade dos mártires isabelinos é enorme. A tortura, o grau de horror que sofreram foi algo terrível. Shakespeare pertencia a uma família de resistentes católicos. Seu pai fora preso por ser católico e não frequentar o rito reformado. Os católicos viviam clandestinamente, e na casa de Shakespeare celebrava-se uma das missas clandestinas de Londres.

 

Linhas de interpretação nas obras de Shakespeare

Nas obras de Shakespeare há quatro linhas de interpretação.

A primeira linha incide sobre a maneira como que ele escreve. Todos os grandes autores se deslumbram com a perfeição do movimento das linhas do enredo, a harmonia, o ritmo com o qual ele conduz as linhas do drama apresentado, a fineza da ironia nas palavras utilizadas. Shakespeare é intraduzível, pois usava muito o recurso que em inglês se chama pun, isto é, jogo de palavras. Ele é um mestre no uso desses jogos.

A segunda linha de interpretação incide sobre o que podemos chamar de drama humano, as considerações mais altas da vida do homem. Um dos temas mais recorrentes são os mecanismos que usamos para nos esconder, os mecanismos de hipocrisia com os quais enganamos o próximo e a nós mesmos. A fineza com que analisa essa série de mecanismos gera uma identificação do leitor com os personagens. Tomamos um susto quando nos vemos caricaturados no papel, pois as descrições são muito finas, claras, evidentes, e demonstram que o autor tinha um conhecimento incomum da alma humana, muito elevado e profundo. Ele trata da nobreza, do heroísmo, do amor verdadeiro, do amor falso, da sensualidade, da humildade verdadeira e de todas as grandes virtudes.

A terceira linha de interpretação das obras de Shakespeare, a mais velada, porém evidente para os católicos que sofriam a perseguição naquele momento, diz respeito à história da Inglaterra durante as perseguições. Os católicos entendiam perfeitamente a linguagem figurada e metafórica que o autor usava.

A quarta linha de interpretação é uma autobiografia. Ele se retrata, mostra e revela nos seus livros. Quem conhece a sua biografia e as circunstâncias histórias e lê as obras percebe que ele faz uma confissão, conta a sua vida, pecados e virtudes. É admirável. Ele consegue colocar essas quatro linhas de inteligência na mesma obra, e fazer com que as palavras se encaixem exatamente para cada uma delas, demonstrando genialidade sem igual. Comparo essa genialidade literária à genialidade musical de Bach.

Shakespeare portanto não é um autor fácil. Em razão da complexidade dos textos o leitor pode equivocar-se facilmente: por ex., na terceira linha de interpretação, a sua intenção é enganar os leitores não católicos. Ele escreve ao modo renascentista, utilizando-se de todas as más inclinações e a aparente futilidade renascentista. Nosso Senhor, citando Isaías, diz: “Para que vendo, não vejam e, ouvindo, não ouçam nem compreendam1”. Shakespeare consegue concretizar tal ideia: ele raramente cria um enredo original – algo que certamente poderia fazer, pois era dotado de genialidade extraordinária – mas preferia sempre histórias que estavam “na moda” (contos, histórias antigas), a fim de não chamar atenção, pois às vezes queria denunciar algo terrível; quanto menos chamasse a atenção sobre o que estava dizendo, melhor. Romeu e Julieta, por ex., é uma obra que já existia, emprestando-a de um autor italiano, se não me engano. Juntamente às linhas de interpretação, estão os períodos da vida de Shakespeare.

 

Períodos da vida de Shakespeare

Podemos marcar três períodos muito claros na vida de Shakespeare.

O primeiro período (1590-1601) é o da adolescência e começo da vida adulta, em que se nota um catolicismo muito valente, no entanto há uma euforia ingênua, como se dissesse: “Já vencemos, tudo é fácil”. Romeu e Julieta data dessa época. A história dos jovens vencidos, que venceram apesar de perseguidos, e cuja morte motivou a união das duas famílias inimigas, transmite uma mensagem aos católicos: “Não se preocupem, em breve retomaremos o poder, e recuperaremos a coroa, estamos sendo perseguidos, muitos dos nossos estão sendo executados, mas isso é bobagem, em breve tudo ficará bem, já vencemos, já ganhamos.”

Por ser muito brilhante e suas obras muito admiradas, ele foi rapidamente associado à Companhia de Teatro Real (The King’s Men). A rainha percebeu que ele era católico, mas o achou inofensivo. Ela admirava tanto as obras dele que não conseguia lhe fazer mal. Quem estuda com cuidado a vida da rainha Isabel I percebe que ela dava sinais claros de possessão diabólica, era uma figura terrível. Poderíamos dizer que esse primeiro período é um pouco mais humanista que os seguintes e um pouco mais otimista, semelhante ao otimismo de um noviço que entra no mosteiro e pensa: “Já cheguei à sétima morada.” Desse período são as obras Henrique VIIIA comédia dos errosA megera domadaOs dois fidalgos de VeronaRicardo IIIRei JoãoTito AndrônicoTrabalhos de amor perdidosRomeu e JulietaRicardo IIHenrique IVHenrique V, e Sonhos de uma noite de verão – obra esta que despertou a atenção de Isabel, que começava a suspeitar dele, após o que Shakespeare escreve a sua obra mais renascentista, que é quase uma adulação à rainha, a fim de desviar as suspeitas.

O segundo período (1601-1608), podemos dizer que é o período da crise. A perseguição não terminava, o número de mártires só aumentava e os católicos começavam a se cansar. Morre a rainha Isabel e há certa tranquilidade. Sobe ao trono Jaime I, casado com uma católica, e os católicos sentem-se aliviados. É desse período a obra Tudo bem quando termina bem; o título evidencia o alívio sentido após a morte da rainha. Mas os calvinistas puritanos se lançam contra Jaime I, o qual, diante da instabilidade do trono, retoma a perseguição aos católicos de forma ainda mais violenta que Isabel. É um período de perplexidade e desânimo entre os católicos, que chegam à pobreza, à miséria, perdendo os bens; são despojados e desamparados. Dois tios de Shakespeare, irmãos de sua mãe, são executados como traidores da pátria, por se terem envolvido na Conspiração da Pólvora, uma armadilha preparada pelo governo inglês, com o intuito de que os católicos tentassem assassinar o rei e assim a coroa pudesse ter a oportunidade de retomar as perseguições. Os católicos caíram como bobos. Até hoje se celebra o dia da Conspiração da Pólvora, em que o rei se salvou dos “pérfidos” católicos.

A obra emblemática desse período é Hamlet. O príncipe Hamlet é o próprio Shakespeare, que se pergunta: por que lutar contra a corrupção do reino da Dinamarca? A minha mãe (a Inglaterra) abandonou meu verdadeiro pai (a monarquia católica) e se juntou a essa monarquia corrupta e vil. Os reis são irmãos (Rei Hamlet e Rei Cláudio), mas há uma diferença infinita entre os dois, pois um deles é assassino e perverso. Eu, filho da pátria inglesa, que devo fazer? O espírito do meu pai pede que eu ponha as coisas no lugar, que devo fazer? “The time is out of joint/ O cursed spite, That ever I was born to set it right: O tempo está fora do seu eixo/ Ó desgraçada ventura de ter nascido para colocá-lo de volta no lugar.” Parece-me a descrição da vida de Monsenhor Lefèbvre, mas se trata dele, da tentação de suicídio que ele sofre – é autobiográfico.

Em Otelo, a esposa fiel ama o marido, no entanto, movido pelo pérfido Iago, o marido começa a se deixar influenciar até que a mata. Nessa obra ele mostra a fidelidade dos católicos, fiéis à Igreja, fiéis à Inglaterra, e que morrem fiéis. Desse período são também Antônio e Cleópatra e Coriolano.

O terceiro período (1609- 1623), a sua última época, pode ser chamado de o período da virtude teologal da esperança. A obra emblemática desse período é A tempestade, na qual um rei traído e abandonado tem a ocasião de se vingar e, no entanto, perdoa. É uma mensagem para os católicos: “Prestem atenção, a nossa solução é sobrenatural, não vamos recuperar o reino com a força dos braços, mas que a nossa resistência não nos faça perder o céu; resistamos, mas façamo-lo com as armas mais altas, não devemos cometer o mesmo erro que eles; se nos odeiam, nós os perdoamos.” Essa é a grande solução dele, é quando o seu coração descansa. Ele morre como católico fervoroso.

 

Romeu e Julieta

Essa obra está mais centrada nas duas primeiras linhas de interpretação. A briga entre as famílias é aparentemente o seu aspecto central, por ser a causa da morte dos jovens esposos, mas na verdade é um problema secundário, a tela de fundo.

A ideia central que Shakespeare quer abordar em Romeu e Julieta é uma comparação entre três homens: Frei Lourenço, Romeu, e Mercúcio. Frei Lourenço é a figura do homem sábio, Romeu é a figura do homem afetivo e Mercúcio a figura do homem carnal. São descritos de modo exímio.

Mercúcio, jovem rico e inteligente, parente do príncipe, parece estar afastado do antagonismo das duas famílias de Verona e, no entanto, é a primeira vítima da obra. As suas qualidades, como nobre que era, não lhe dissimulam os vícios profundos. Desbocado e libertino, contente com a vida viciosa, olha a mulher como simples ocasião de prazer; é cínico e burlesco, consegue desprezar absolutamente tudo ao redor, leva a desordem até a morte, e morre insultando. A morte dele é uma morte impenitente: a morte de um homem carnal.

Romeu é a figura do homem afetivo: trata-se dos sentimentos, pois estamos no campo das paixões. Certo, não é um homem carnal, mas ainda não é um homem sábio. Seus afetos são nobres, normalmente, mas ele é capaz de ira irracional, medo irracional e amor irracional, embora o seu amor seja apresentado com nobreza.

O campo dos afetos é enorme, é um mar infinito e sem fundo. É possível que o homem afetivo se mantenha flutuando na altura de sentimentos nobres, mas qualquer movimento, qualquer correnteza forte arrasta-o para tal ou qual paixão. Tanto o homem carnal como o homem afetivo não alcançam a realidade, não conseguem descobrir as coisas como são. O desespero de Frei Lourenço consistia em tentar fazer Romeu entendê-lo, mas Romeu não o entendia, não era capaz de fazê-lo.

Frei Lourenço é a figura do homem medieval: um frade franciscano, sábio, conhecedor dos segredos das ervas, do drama de seu povo, profundo entendedor das almas, da situação histórica e das famílias. Ele é admirado, mas não é seguido. Pedem-lhe conselhos, mas não lhe obedecem. É o Renascimento diante da Idade Média, o qual olha esta com certa admiração, mas lhe diz: “Já passou, agora estamos em nível mais alto.” Romeu é a figura do homem renascentista.

Tendo em mãos essa chave de leitura, é muito interessante notar a relação entre os três personagens. Frei Lourenço, por exemplo, nunca fala com Mercúcio, e Mercúcio não faz nenhuma alusão a Frei Lourenço. Romeu fala com Frei Lourenço, Frei Lourenço fala com Romeu, Romeu fala com Mercúcio e Mercúcio fala com Romeu.

Outro ponto interessante, sublinhado na obra, é que Frei Lourenço entende muito bem Romeu e Mercúcio, ou seja, de cima para baixo o entendimento é possível. Porque está acima, Frei Lourenço entende-os, compreende os afetos de Romeu, quer conduzi-lo, protegê-lo e salvá-lo, mas Romeu não entende Frei Lourenço. De baixo para cima não é possível entendê-lo. Romeu não consegue sentir a sabedoria de Frei Lourenço, mas Frei Lourenço consegue entender os afetos de Romeu.

Romeu olha Mercúcio com benignidade e amabilidade, mas nunca entra no seu campo. Romeu é nobre, e a nobreza dos seus sentimentos – superiores aos sentimentos de um homem carnal – convence-o de que está à altura de Julieta. Shakespeare queria mostrar justamente que Romeu não estava à altura de Julieta. Romeu era um homem afetivo, e só o afeto não basta para que um homem alcance a sua esposa. Nem o homem carnal nem o homem afetivo são capazes de alcançar a esposa.

A insensatez de Romeu diante de Frei Lourenço é muito impressionante. Romeu merecia uma surra, não é um herói de modo algum. O cinema o retrata como galã de cabelo ao vento, mas é um homem desprezível, pois não chegou a ser homem, e é isso o que Frei Lourenço vai afirmar quando, de pé, diz a Romeu, que está jogado no chão tentando suicidar-se, que a solução para os seus dramas é a filosofia; estas são as palavras centrais da obra. Etimologicamente, filosofia significa amor à sabedoria, ou seja, sair do campo afetivo e chegar a ser homem verdadeiro, alcançar a altura da natureza humana. E a resposta de Romeu para Frei Lourenço é esta:

“Põe a filosofia numa forca, a menos que a filosofia possa fazer uma Julieta, uma cidade mudar, ou deixar írrito um decreto. Se não, de nada vale, para nada pode servir-me. Não me fales nisso (...) Falar não podes sobre o que não sentes 2.”

(É claro que se pode falar do que não se sente; não se pode é sentir aquilo que não se pensa. Justamente por não sentir os afetos de Romeu e por saber domar os próprios afetos, Frei Lourenço lhe entende perfeitamente.)

“Se, como eu, fosses moço; se Julieta te pertencesse, por se ter tornado tua esposa há uma hora; se tivesses morto Tebaldo, e louco, apaixonado como eu te visses: bem, assim podias falar, arrepelar a cabeleira, jogar-te ao solo como o faço agora, para dar a medida de uma cova que ainda vai ser aberta.”3

Frei Lourenço lhe responde:

“Detém essa desesperada mão. Acaso és homem? Tua postura o afirma, mas as lágrimas são de mulher, mostrando esses teus atos desesperados o furor selvagem dos próprios animais. Ó deformada mulher, sob a aparência de um mancebo, ó animal deturpado, sob a  forma de ambos: pasmado estou. Pela minha ordem sagrada: sempre fiz outro juízo de teu temperamento. Não mataste Tebaldo? Agora queres suicidar-te e, assim, matar a tua própria esposa, que de tua vida vive, revertendo contra ti próprio esse ódio amaldiçoado?”4

Essa resposta de Frei Lourenço é a demonstração de como o homem sábio enxerga o homem afetivo. Nós somos indulgentes demais: não sendo homem carnal parece-nos que já basta, parece-nos que já se é homem. Não é verdade.

Aqui tocamos o ponto central desta conferência: a obra do homem e a obra da mulher. A ideia é muito clara: a esposa vive dentro da alma do esposo, e a esposa vai estar na altura em que o esposo estiver. Se o esposo se matar, ele matará também a esposa. De fato, Julieta se suicida.

“(...) Por que insultas o berço, o céu e a terra? O berço, o céu e a terra unidos se acham em ti, e de uma vez perdê-los queres? Ora, envergonhas tua forma, o espírito, amor, que em barda tens, como  usurário, sem que nada uses no seu vero emprego para te ornar a forma, o amor, o espírito. Tua nobre figura é como imagem de cera, se o vigor viril lhe falta; teu amor tão prezado, oco perjúrio que mata o amor que proteger juraste; espírito, esse ornato da postura, como do amor, se encontra deformado pela conduta de ambos, como pólvora no frasco de um soldado inexperiente (...)”5

A razão está submetida aos afetos, e é capaz de explodir e lhe conduzir à morte.

“(...) que por tua própria ignorância explode, com tuas próprias armas desmembrando-te. Vamos, homem: levanta-te! Está viva tua Julieta, por quem te achas quase no ponto de morrer. Estás com sorte. Tebaldo quis matar-te; a morte deste-lhe. Nisso foste também mui venturoso. A lei se mostra tua amiga, a pena de morte atenuando para exílio: outra ventura. Sobre o dorso um fardo de bênçãos te caiu. Com seus mais ricos atavios te vem fazendo a corte sempre a felicidade; mas no jeito de um rapaz não polido e caprichoso, com a sorte e o amor amuado te revelas. Toma cuidado! Quem assim procede, acaba sempre mal."6

Shakespeare consegue descrever a estrutura da alma humana e a grande obra do homem. É necessário chegar à sabedoria para chegar a ser homem, eis o ponto central de Romeu e Julieta. Só quem chega à verdadeira sabedoria merece o título de homem. Somente na sabedoria é possível buscar a esposa. É necessário subir a rude escada do balcão de Julieta para estar à altura dela.

A mulher, se me permitem a expressão, tem uma natureza que poderíamos chamar de espelho. Como o que define a mulher é a sua maternidade, quer física ou espiritual, há nela um aumento do campo afetivo, pois este é um elemento necessário para o cumprimento da sua obra. A mulher tem, em razão dessa natureza afetiva, uma capacidade de percepção do particular, do concreto, muito superior ao homem – abstrato.

O homem deve vencer os seus afetos e alcançar a abstração. Se o homem não transcender o concreto e o particular, não realiza a sua obra. A mulher, por sua vez, deve, tal como um espelho, refletir o abstrato em concreto e particular.

O homem tem uma visão do fim muito mais clara que a mulher, que enxerga com mais clareza os meios. A grande obra do homem, depois de chegar à sabedoria, é transmiti-la. O grande meio de transmissão dessa sabedoria é a esposa, é a natureza feminina, que consegue transformar o que vê no esposo em instituições concretas e tangíveis.

O esposo tem uma ideia abstrata do que é a autoridade paterna ou a relação familiar. A esposa deve pensar em que lugar da casa a mesa vai estar para que a relação familiar funcione, que lugar ela vai ocupar na mesa para que a autoridade paterna seja exercida quando a família estiver reunida, ou seja, ela precisa transformar os ideais do marido em instituições práticas. É nesse sentido que Frei Lourenço diz que a esposa estava dentro de Romeu.

Vocês poderiam acusar-me de estar diminuindo a atividade feminina. Não, de modo algum. O homem é incapaz da sua obra sem a mulher. E a mulher é incapaz da sua obra sem o homem.

Poderiam perguntar-me: “E quanto ao sacerdócio?” Pois bem, a Igreja é feminina. Diz-nos o direito canônico: “Não se pode usar a batina suja; é preciso barbear-se, etc.”; esta expressão é a mais feminina possível da Esposa de Cristo, que transforma o que vê na alma do Esposo em costumes, instituições e obras. Mas é preciso que a ideia do esposo seja clara, específica, explícita, que ele saiba o papel que a esposa deve cumprir, o que é o meio, o que vai em direção ao fim e o que desvia do fim; assim, ele deve pronunciar-se: “Isso sim, isso não.” É preciso que o fim ilumine constantemente os meios, ou seja, é preciso olhar o fim e concretizar os em meios. A grande obra são os filhos: a transmissão por meio da esposa.

A mulher consegue facilmente perceber o que está acontecendo na alma do filho. Todavia, se perde de vista o fim, ela como que acelera em ponto morto, porque os meios não passam de meios, e perdem importância, se o fim não os ilumina. Se se perde a referência do fim e deixa-se de ser iluminado por ele, bem, tudo passa a ser igual. E, quando há ausência da iluminação do fim, o mecanismo de defesa feminino é a multiplicação dos meios.

O grande perigo do homem é não alcançar à sabedoria, e o grande perigo da mulher é a destruição e deformação do campo afetivo, é a perda da fineza afetiva, por carência de virtude e descontrole dos afetos. Que o homem não tenha afeto é uma deformação, e é errado, porém não é tão grave. Uma moça que destruiu os próprios afetos sofreu o que podemos chamar “masculinização”. Na sociedade atual há a destruição dos afetos ou a exacerbação deles, de tal modo que não podem ser iluminados pela razão. Há portanto destruição de ambos os lados.

Iluminados pela sabedoria, os afetos encontram o lugar e o sentido verdadeiros, são domados; os afetos são como cavalos puxando a carruagem, mas sem a iluminação superior da inteligência, são como cavalos selvagens, não domados, que seguem direções opostas: é a destruição da pessoa.

(Originalmente publicado na Revista Permanência, 270)

  1. 1. Mt 13,13.
  2. 2. Romeu e Julieta, ato III, cena III. Tradução de Carlos Alberto Nunes, Ediouro, 1998, pág. 72.
  3. 3. Ibid.
  4. 4. Ibid. pág.74.
  5. 5. Ibid.
  6. 6. Ibid. pág. 75.
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