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Artes (65)

História da polifonia sacra

Pe. Gustavo Camargo, FSSPX

 

Introdução

As seguintes anotações são, em sua maioria, resumos de diferentes livros de música que, por interesse pessoal, fui fazendo ao longo dos anos. Têm valor de resumo somente. São poucas as apreciações pessoais. É que me parece interessante primeiro conhecer o aspecto histórico do desenvolvimento da música, especialmente da música sacra, através dos séculos, para só depois estudar mais a fundo a sua essência mesma, a sua linguagem. 

Para a parte histórica, os resumos foram feitos sobretudo com base em História da Música, de Franco Abbiati (Edições Uteha, em cinco tomos). São poucas as citações entre aspas desta obra. Em geral, resumi a ideia com minhas próprias palavras. Mas a substância vem toda dela [N. do T.: da obra].

São Pio X, em seu Motu Proprio Codex musicae sacrae juridicus, diz que: “(...) o canto gregoriano considera-se, de certo modo, como o mais elevado ideal da música sacra, de maneira que, com razão, se pode assentar como geralmente válida a seguinte regra: uma obra musical que seja apropriada para o uso religioso será tanto mais sagrada e litúrgica, quanto mais, por sua posição, espírito e irradiação, aproximar-se do ‘melos’ gregoriano. Pelo contrário, será menos adequada ao serviço divino quanto mais afastar-se desse modelo”. 

Segundo São João da Cruz, a realização artística deve ser simples, pura, evocadora e despojada – para ser pura e simples – para conduzir a alma a Deus sem retê-la no gozo estético1. A arte na liturgia, como acessório que é do culto, deve subordinar-se estritamente a seu fim, a sua função. Será, pois, mais própria para a liturgia, a música que, ao ser escutada nas funções religiosas, não inclinar o ouvinte a deter-se nela, a estancar-se no gozo estético que produz; senão a levar sua alma, através desse gozo, ao recolhimento, à oração e a dispor-se para melhor receber as graças de Deus. (Continue a ler)

  1. 1. Cita-o em Quero ver a Deus o Pe. Maria Eugênio, (Ed. El Carmen), p. 595, na terceira nota. A nota inteira diz: “Não menospreza nem recusa São João da Cruz – como tampouco Santa Teresa – a natureza sensível, para encerrar-se numa noite que tudo ignora. O santo coloca a natureza no posto que lhe corresponde na escala de valores espirituais que devem conduzir-nos à união com Deus. Sabemos quanto os dois reformadores apreciavam que seus conventos estivessem em lugares de cujas belezas naturais pudesse a alma servir-se para recolher-se em si e elevar-se a Deus. Toda a teoria da arte em São João da Cruz dimana desse mesmo princípio: a realização artística deve ser simples, pura, evocadora e despojada – para ser pura e simples – para conduzir a alma a Deus sem retê-la no gozo estético”.

Gustavo Corção, animal-professor, escritor genial

Dom Lourenço Fleichman, OSB

O texto sobre Gustavo Corção que publicamos aqui foi escrito para a Revista citada no artigo em 2010. Vale notar que as publicações da Permanência sobre Gustavo Corção, seus artigos publicados no site e depois em livros de coletâneas, atraíram a atenção de alguns poucos estudiosos e pensadores. Foi assim que algumas teses acadêmicas foram escritas, e livros publicados. Hoje já é mais fácil encontrar Gustavo Corção nas livrarias do que na época em que escrevi esse artigo.

Se a Revista Conhecimento Prático de Literatura fizesse uma pesquisa junto a seus leitores com as seguintes perguntas:

- qual o autor brasileiro que foi considerado sucessor de Machado de Assis?
- qual o autor brasileiro que teve seu primeiro livro esgotado em menos de um mês?
- qual o escritor nacional que foi indicado por Manuel Bandeira para o Premio Nobel de Literatura?

Quem pensaria em Gustavo Corção? Pode-se dizer que Corção é um ilustre desconhecido, tendo sido esquecido e abandonado pelo mundo dos intelectuais. Hoje dificilmente se imagina a importância desse escritor nos vinte e cinco anos de sua carreira literária. Seu pensamento é de tal personalidade e profundidade que atraiu a atenção e a amizade dos grandes que o precederam. Vejam o que dizia dele o grande crítico Oswaldo de Andrade:

“Não me lembro de em toda a minha vida ter conhecido, entre artistas e literatos, uma figura tão impressionante como a de Gustavo Corção. Privei com Inglês de Souza, que era meu tio, conheci de perto João Ribeiro, Alberto de Oliveira e o nobre Emílio de Menezes. Fui íntimo de Villa-Lobos e Mário de Andrade. Na Europa me liguei a Picasso e Leger, Cocteau e Cendras, a esse original e magnífico Valéry Larbaud, a Supervielle e Romains, enfim, a toda uma geração revolucionária do começo do século. E apenas, com outro tom, mas a mesma doçura sarcástica, alguém me lembra o autor excelso de Lições de Abismo. Era um velho de 70 anos e tinha sido cruelmente abandonado por todos os seus amigos, quando o encontrei, no Quartier Latin. Chamou-se Eric Satie. E talvez venha a ser um dia considerado o maior gênio musical do século XX.

O que caracteriza essas naturezas que vão do doce ao amargo sem contraste é o que nelas há de inquebrável. Gustavo Corção é um inquebrável — faca de dois gumes. E isso muito se liga às virtudes intelectuais que o fazem, sem dúvida, o nosso maior romancista vivo. Nas Lições de Abismo como também na Descoberta do Outro não vejo concessões.
O que vejo é uma extraordinária e lúcida natureza de criador, ou melhor, de restituidor, pois que arte é restituição. Depois de Machado de Assis aparece agora um mestre do romance brasileiro.”
Correio da Manhã
, Rio de Janeiro, 5-4-1952 (Continue a ler)

A verdade do Evangelho no filme "A Paixão de Cristo"

Pe. Bertrand Labouche - FSSPX

 

[Nota da Permanência: o texto seguinte é a transcrição de uma conferência dada pelo autor em um evento da Permanência ocorrido muitos anos atrás, sobre o filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson]

“‘Quem a ti me entregou tem maior pecado’ (Jo 19, 11). Essa frase, em que Jesus relativiza a culpa de Pilatos, só aparece no Evangelho de João, o mais místico e peculiar dos quatro. Para os historiadores, as fontes mais fidedignas são os escritos de Mateus, Marcos e Lucas”, afirma Isabela Boscov na revista “Veja" de 03/03/04.

Dois outros versículos do Evangelho são postos em dúvida, senão negados, especialmente pelos judeus que até exigiram que fossem tiradas por serem anti-semitas: 

“Os seus não O receberam” (Jo 1, 11).

“Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos” (Mt 27,25). Aliás, Mel Gibson teve de aceitar, para acalmar os espíritos, que este versículo não aparecesse traduzido na tela, embora seja pronunciado em hebreu.

Estas objeções, dúvidas, críticas sobre um texto evangélico não dizem respeito diretamente ao realizador do filme “A Paixão de Cristo”, mas bem ao santo Evangelho. A polêmica não é cinematográfica mas exegética, quer dizer, trata da interpretação da Sagrada Escritura. 

Portanto, é oportuno reafirmar a autenticidade e a veracidade dos Evangelhos: 

• pela razão, por meio da apologética, que é a defesa racional da fé. 

• pela fé, que nos obriga a acreditar firmemente que o Autor da Sagrada Escritura é o próprio Deus, que não se pode enganar, nem enganar-nos. 

Estudaremos especialmente o evangelho de S. João, por ser o alvo principal de vários ataques a propósito do filme de Mel Gibson, “A Paixão de Cristo”. Mas é claro que a nosso argumentação valeria também para os sinópticos (Mt., Mc., Lc.)  (Continue a ler)

Sobre Lições de Abismo

[Com satisfação publicamos um escrito inédito de Gustavo Corção sobre o seu romance Lições de Abismo. O texto era na verdade uma carta enviada à escritora Raquel de Queiroz e a reproduzimos pela primeira vez na Revista Permanência 265]. 

 

D. Raquel de Queiroz,

Li com enorme interesse a sua nota sobre o meu livro. Vou mais longe, confesso que li com sofreguidão. A senhora que já teve seus livros me entenderá.  Digam os outros que é vaidade nossa, mas não é; ao contrário, é talvez o melhor de nós, o mais puro de nós, essa avidez pela confirmação daquilo que escrevemos. Será no fundo vaidade, se quiserem, mas uma pobre vaidade, ou uma vaidade de pobre.

Aquele livro, quando o soltei, deu-me mais insônias do que nos dias de trabalho. Escrevera-o com paixão, dias e dias, noites e noites. Andava com ele em mim, comigo nele. Juntara, como num cadinho, a escória de todo um passado fantástico, meio vivido e meio sonhado. Fundira o grosso minério. Cinzelara as pepitas, os lingotes, as barras. E agora, apesar de todas as reprises, da revisão esticada, da refusão dos caprichos ingratos, dos cortes, e finalmente da ortografia — porque a minha nunca se depurou dum hibridismo em que as letras da adolescência se misturam aos acentos circunflexos da velhice — apesar de todo esse nervoso apego eu tinha de largá-lo, como se larga o filho completo e maior. (Continue a ler)

Como apreciar o canto gregoriano

Pe. Gustavo Camargo, FSSPX

 

Objeção:

Quando escutamos o canto gregoriano pela primeira vez, a impressão que nos causa talvez seja negativa. Pode ser que nos impressione não tanto por que nele há, senão por que nele não há. Sentimos a ausência de harmonia ou de acompanhamento de apoio; ou bem sentimos a falta de valores de tempo definidos claramente e de acentos regulares; ou bem advertimos que a linha melódica por vezes toma giros estranhos, que muitas vezes não concluem na nota esperada; ou bem desgosta-nos o não intentar essa música tocar-nos os sentimentos ou mover-nos as emoções.

Em nossas capelas muitas vezes é difícil que se dê lugar merecido ao canto gregoriano. Há certo rechaço da parte dos fiéis, que o acham “demasiado simples, sem ornato, maçante, que alarga muito a cerimônia etc”, e mesmo também da parte dos sacerdotes, que lhe sentem uma desconfiança instintiva.

André Charlier1, em um de seus artigos sobre o canto gregoriano, traz a citação de um sacerdote que escrevera as seguintes palavras em “Semaine religieuse de Paris”, em 1965, as quais muitos de nós poderíamos talvez subscrever (lamentavelmente).

“O gregoriano é inaceitável, a não ser quando bem cantado, por religiosos ou por escola paroquial bem formada. Em toda parte, porém, ele é impraticável e não interessa a ninguém. O ouvido dos jovens, que estudam solfejo desde a escola primária com as tonalidades clássicas e com a notação musical moderna, já não intui nem pode captar quanto há de religioso no gregoriano. (…) Essas melopeias não incidem mais nas sensibilidades contemporâneas; bastante já durou essa experiência. Por que, então, tentar prolongá-la? Conservemos o gregoriano para os santuários como Solesmes, Saint-Wandrille e alguns cenáculos da cristandade. (…) Mesmo onde se canta com arte e conforme as regras, somente os da “Schola” cantam. A multidão permanece inerte e contenta-se com escutar. É este, acaso, o objetivo que se busca?”.

A essa desconfiança soma-se o desprezo a toda a Tradição da Igreja, que as reformas do Concílio Vaticano II difundiram universalmente, e que fizeram, entre muitas outras coisas, que o gregoriano se extinguisse em quase todas as paróquias.

Na prática, o resultado é que em nossas capelas se canta muito pouco o gregoriano, estuda-se menos, e o povo desconhece-o e até sente por ele certa repulsa.

 

Argumentos de autoridade:

Sem embargo, vendo o que os papas disseram constantemente, durante toda a história da Igreja, ficamos em situação incômoda. São Pio X, por exemplo, que iniciou magna obra de restauração do canto gregoriano, afirmou o seguinte, fazendo eco de toda a Tradição: “Essas qualidades (santidade, bondade de forma e universalidade) encontram-se em sua medida maior no canto gregoriano, e por isso ele é o único canto autêntico da Igreja romana. É o único que os padres da antigüidade legaram-nos; manteve-se com o maior esmero através dos séculos nos manuscritos litúrgicos. As últimas investigações lograram restaurá-lo felizmente em sua antiga integridade e pureza. Por isso, o canto gregoriano considera-se em certo modo como o mais elevado ideal da música sacra, podendo assentar-se como universalmente válida a seguinte regra: a música que seja apropriada para o uso religioso é tanto mais sagrada e litúrgica, quanto mais, por sua posição, espírito e irradiação, acerque-se do ‘melos’ gregoriano. Ao contrario, é menos adequada para o serviço divino se se afasta deste modelo. Destarte, o primitivo canto gregoriano deve ser de aplicação no âmbito dos serviços religiosos, e deve ter-se o convencimento de que uma cerimônia sagrada não perde brilho algum por vincular-se a esta arte musical” 2.

Pio XII não é menos absoluto: “Este canto, por causa da união íntima da melodia e do texto sagrado, não somente se lhe adapta perfeitamente, senão que igualmente parece expressar toda sua grandeza e eficácia, e penetra com sua doçura no espírito de quem o escuta. Tudo isso com meios musicais muito simples e fáceis, mas que, inspirados de arte sublime e muito santa, suscitam sincera admiração e convertem-se, para os mestres e conhecedores de música sacra, em fonte inesgotável de novas harmonias. Todos a quem Cristo Nosso Senhor confiou a custódia e dispensa das riquezas de sua Igreja devem conservar cuidadosamente o precioso tesouro do canto gregoriano e fazer o povo cristão participar dele profusamente” 3.

São Pio X faz referência à autoridade da própria liturgia quando diz: “manteve-se com o maior esmero através dos séculos nos manuscritos litúrgicos”. Recorde-se que a liturgia é uma escola de santidade. Todas as rubricas, gestos, mínimos detalhes foram guardados com sumo cuidado, muitos deles recebidos das mãos de Nosso Senhor mesmo e dos apóstolos, e transmitidos com tanto cuidado através dos séculos, que se chegou a constituir o que poderíamos chamar “a perfeita inserção do sagrado no material”, ou seja, o equilíbrio justo do uso do sensível no culto de Deus, permitindo-lhe ser perfeito instrumento ao fim próprio da liturgia. Exatamente nesse equilíbrio perfeito e inserção do sagrado no material, entra o canto gregoriano, parte constitutiva da Sagrada Liturgia. Trataremos adiante sobre este ponto importante.

São conhecidas as belas palavras de Santo Agostinho em seu livro Confissões: “Confesso que ainda agora encontro algum descanso nos cânticos que as vossas palavras vivificam, quando são entoadas com suavidade e arte. Não digo que fique preso por eles. Mas custa-me deixá-los quando quero. (…) Sinto que todos os afetos da alma encontram, na voz e no canto, segundo a diversidade de cada um, as suas próprias modulações, vibrando em razão dum parentesco oculto, para mim desconhecido, que entre eles existe. Mas o deleite da minha carne, ao qual se não deve dar licença de enervar a alma, engana-me muitas vezes. Os sentidos, não querendo colocar-se humildemente atrás da razão, negam-se a acompanhá-la. Só porque, graças a razão, mereceram ser admitidos, já se esforçam por precedê-la e arrastá-la! Deste modo peco sem consentimento, mas advirto depois.  (...) Quando me lembro das lágrimas derramadas ao ouvir os cantos da vossa Igreja nos primórdios da minha conversão à fé, e ao sentir-me agora atraído, não pela música, mas pelas letras dessas melodias, cantadas em voz límpida e modulação apropriada, reconheço, de novo, a grande utilidade deste costume.” 4.

 

Corpus:

Antes de responder às objeções, tratemos de aprofundar o tema. Que é o canto gregoriano? Como se constitui? Por que é tão apto para elevar nossas almas? Como entender e apreciá-lo?

Para responder a essas perguntas, evitemos um pouco o tema de sua história (formação, decadência e restauração) e centremo-nos em sua constituição íntima, com algumas mínimas noções musicais necessárias para entendê-la.

Quando escutamos distintos tipos de música, como por exemplo música medieval, renascentista, barroca, e mesmo músicas orientais, damo-nos conta (talvez sem poder defini-lo) de que cada uma tem um “ar” distinto. Esse “ar” chama-se “modo” e faz referência à relação das notas entre si. Se pomos lado a lado as notas de um “modo” particular, formamos a sua escala. A música moderna, nesse aspecto, é relativamente pobre, porque conservou apenas dois modos: o maior e o menor. Constrói-se sobre a base da escala diatônica (por tons e semitons) e possui somente essas duas variantes. A música oriental usa os ¼ de tom, intervalo difícil de captar e que lhe dá “ar” mais confuso.

 

Qual é o “ar” do canto gregoriano?

O “ar” do canto gregoriano deriva de seus modos, ou seja, da maneira como se dispõem as notas e os intervalos que formam a sua “estrutura interna”.

Há quatro notas iniciais de escala: Ré, Mi, Fá e Sol. Cada uma das notas dá origem a uma escala, que pode estar em registro superior (modo autêntico) ou inferior (modo plagal), e, conseqüentemente, aos oito modos gregorianos. Cada um dos modos tem uma “corda de recitação” ou “tenor”, que é uma nota dominante (este é o termo que se usa em música moderna) em redor da qual se desenvolve a melodia. 

Tudo isto possibilita grande variedade de estruturas modais, cada uma com suas características, seus recursos próprios, para expressar um “ar” particular, um “ethos”, estado de alma ou ideia5. A palavra “ethos” usavam-na os gregos para definir o caráter moral dos modos musicais.

Muitas vezes se disse e acreditou, e segundo isso se interpretou, que o gregoriano fosse canto totalmente impessoal, frio, sem sentimento. No entanto, sem deixar de afirmar a sobriedade, o canto gregoriano usa freqüentemente de recursos musicais para reforçar ideias e sentimentos. Alguns exemplos:

No responsório do Ofício de Trevas da Sexta-Feira da Paixão, a letra diz: “exclamou Jesus com grande voz: Deus meu, por que me abandonaste?”. Justamente nesse grito, “Deus meu”, o autor da melodia gregoriana põe notas muito altas - as mais altas registradas no gregoriano. Quer, obviamente, reproduzir e ilustrar musicalmente o grito de Nosso Senhor na Cruz.

Mais alguns exemplos (que são abundantes).

O intervalo de semitom, por suas características musicais, é bastante usado para indicar sentimento de tristeza, lamento. Em si mesmo, não tem a inteireza e estabilidade do tom inteiro, e, usando-se no final de frase ou inciso, produz instabilidade, como algo não concluído. É até muito usado por alguns autores (Bach, entre outros, e, em minha opinião, também dá-se no canto gregoriano) como recurso onomatopeico que se assemelha ao gemido. Todas essas características encontram-se no responsório penitencial “Media vita” (Cantus selecti, p. 41* ou 39). A letra diz: “Eis que chegamos ao meio da vida e encontrou-nos a morte: em quem buscaremos ajuda, senão em Ti, Senhor? Em Ti esperaram nossos pais, esperaram e Tu livraste-os; a Ti clamaram e não foram confundidos”.

Etc etc (há muitos exemplos na peça).

Como último exemplo, é muito interessante o jogo de alternância do tom inteiro e do semitom (usando o si bemol), no introito “Laetare” do 4.º Domingo de Quaresma. E nele, quando, exatamente, a letra diz “qui in tristitia fuistis”, insiste-se no si bemol (semitom), querendo, assim, ilustrar musicalmente a palavra “tristitia” (tristeza).

 

Tudo isso dá-nos ideia do que é o “ethos” do gregoriano.

Dentre os capitéis conservados no “celeiro” de Cluny, dois ilustram, sobre suas quatro fachadas, os oito tons gregorianos; cada destes com uma figura que simboliza o tom musical e uma pequena frase que o descreve.

1.º tom: “Eis aqui o primeiro tom, ordenador dos sons musicais”.

2.° tom: “Segue o tom que é o segundo por nome e lei”.

3.º tom: “O terceiro salta e mostra que Cristo ressuscitou”.

4.º tom: “Segue o 4.º tom, que é semelhante a poema de lamento” (justamente esse tom de lamento usa-se no “Media Vita”, canto penitencial).

5.º tom: “Mostra quanto é humilhado quem quer se inflar (por orgulho)”.

6.º tom: “Se buscas o sentimento de piedade, olha o sexto tom”.

7.º tom: “O sétimo introduz o Sopro benéfico (Espírito Santo) com seus dons”.

8.º tom: “O oitavo ensina que todos os santos são bem-aventurados”.

Além disso, os antigos assinavam um “ar” especial para cada tom.

 

1.º : Gravis (serenidade, nobreza, solenidade)

2.º : Tristis (recolhido, interior)

3.º : Mysticus (contemplativo, rico, extático, ardente)

4.º : Harmonicus (o modo que não termina; a oração contínua; interior; queixoso)

5.º : Laetus (alegria humana; corresponde ao modo maior moderno)

6.º : Devotus (piedade filial, candidez, alegria espontânea, equilíbrio, paz)

7.º : Angelicus (entusiasmo, juvenil, ligeireza, vivacidade)

8.º : Perfectus (plenitude; solene e cheio de fineza)

 

No quadro seguinte, podem ver-se resumidas todas essas características.

 

Modos antigos

Terminologia

Dominante

Corda de recitação ou tenor

Final

tônica

Escala

Qualificativo

Ethos

Referências

Exemplos

Moderna

Antiga

Protus

 

Autêntico

 

Agudo

Ré-Lá-Ré

Gravis

Modos ditos “menores” por sua “seriedade”.

Madurez adquirida.

Modo da paz, serenidade, nobreza, solenidade.

Intr. Statuit

Intr. Rorate

Grad. Ecce quam

Plagal

 

Grave

Lá-Ré-Lá

Tristis

Subjetivo.

Recolhido e um pouco fechado em si mesmo.

Intr. Cibavit

Intr. Dominus dixit

Resp. Emendemus

Ofert. Dne. Jesu Christe

Deuterus

 

MI

Autêntico

 

Agudo

SI

MI

Mi-Si-Mi

Mysticus

Místico-contemplativo

Rico, um pouco desordenado, extático, ardente.

Intr. Vocem jucundit.

Ofert. Sperent in te

Kyrie II

Comm. Scapulis

Plagal

 

Grave

Si-Mi-Si

Harmonicus

Interior.

Modo “que não termina”; a oração contínua; lastimoso.

Intr. Reminiscere

Credo I

Resp. Subvenite

Grad. Dne. praevenisti

Tritus

 

Autêntico

 

Agudo

Fá-Dó-Fá

Laetus

Modos ditos “maiores” por sua alegria.

Alegre.

Alegria “humana”; “maior” moderno.

Intr. Laetare

Grad. Omnes de Saba

Comm. Domus mea

Grad. Constitues eos

Plagal

 

Grave

Dó-Fá-Dó

Devotus

Piedade filial.

A candidez da infância espiritual. Alegria espontânea.

Intr. In medio

Intr. Quasimodo

Intr. Requiem

Alle. Dne in virtute

Tetrardus

 

SOL

Autêntico

 

Agudo

SOL

Sol-Ré-Sol

Angelicus

Entusiasmo juvenil

Ligeireza, alegria, vivacidade.

Com. Factus est repente

Intr. Puer natus

Alle. Pascha nostrum

Grad. Dirigatur

Plagal

 

Grave

Ré-Sol-Ré

Perfectus

Plenitude

Cômodo em todas as partes. Solene e sonoro, mas também cheio de delicadeza.

Intr. Jubilate

Intr. Spiriuts Dni.

Alle. Venite ad me

Offert. Ave Maria

Respostas às objeções:

Mencionamos a crítica de que o canto gregoriano seria “fastidioso”, demasiado sóbrio, sem apelo à sensibilidade. Em primeiro lugar, a compreensão de suas características, do “ethos” de cada modo, como vimos acima, nos ajuda a apreciá-lo melhor. Ademais, entra aqui um tema muito importante e delicado, que diz respeito à música, e chega mesmo a relacionar-se com a arte em geral. Há na arte o [chamado] elemento material. No caso da música, poderíamos assinalar como exemplo, talvez, a combinação de sons, o modo escolhido etc. Há também o elemento formal, que poderíamos chamar (não com estrito rigor filosófico) a “mensagem” que a arte quer passar ou transmitir; seria a ideia central que ela intenta transmitir, algo de ordem intelectual. Ora, a arte verdadeira deve encontrar o equilíbrio entre os dois. Muitas vezes, o excesso de elemento material “afoga” a mensagem, pois traz o foco para si mesmo e dificulta a compreensão do elemento formal. Na pintura, por exemplo, os renascentistas chegaram a uma grande perfeição do elemento material, mas isso nem sempre ajudou a arte como um todo. Se compararmos uma “Virgem com o Menino Jesus” de Leonardo da Vinci, admiramos, sem dúvida, a perfeição técnica e material; mas talvez não nos inspire tanta piedade como um ícone bizantino, muito mais tosco e imperfeito tecnicamente. A economia de meios materiais e a sobriedade ajuda muitas vezes a transmitir melhor o elemento formal.

O gregoriano, podemos dizer, representa o equilíbrio perfeito dos dois elementos da arte musical, sendo assim mais apropriado ao canto litúrgico. Sua simplicidade não é pobreza, mas elevação. Custa-nos apreciá-lo, não porque seja muito pobre; custa-nos, na verdade, por ser assaz rico. Quando escutamos o gregoriano em nossas capelas, não sentimos o impacto sensível de uma polifonia. E, provavelmente, é essa a razão por que nos ajuda a elevar nossas almas, cumprindo assim sua função, sem deixar de ser arte verdadeira. Em lugar de deter-nos no gozo estético, a música sagrada deve elevar nossas almas a Deus.

A respeito disso dizia Charlier: “Deste modo, o artista (gregoriano) vai além da natureza. Isso não significa que ele a despreze; ao contrário, sobrepassa-a para dar-lhe o seu verdadeiro sentido. Priva-se de certos meios, que consideramos indispensáveis para a arte, e somos nós, no entanto, que nos equivocamos julgando-o pobre: ele é capaz de dar-nos mais do que lhe pedimos. Esses meios entorpecê-lo-iam. O objetivo da arte não é remover as paixões; é comover aquela parte de nós  que a vida diária não é capaz de alcançar e que é feita para a contemplação”.

Outra crítica, que creio mais fácil de responder, é a de que sua execução seja difícil. “Melhor não cantá-lo que cantá-lo mal”. Ora, isso vale para qualquer canto, mesmo o polifônico. Se fosse verdade teríamos de calar-nos completamente na Igreja. Demais, a experiência diz-nos o contrário. Diz-nos que, em todos os lugares em que um capelão consciencioso se propõe a cultivar o canto gregoriano, os resultados são sempre satisfatórios. Leiamos mais uma vez o testemunho interessante de Charlier:

“Durante vinte anos dirigi uma ‘Schola” composta de jovens. No começo, poucos tinham alguma cultura musical;  os outros só conheciam as notas musicais. Estavam acostumados, naturalmente, às tonalidades da música moderna (...); nada os dispunha a gostar da música gregoriana (...) todavia, compreenderam mui prontamente o caráter melódico de cada modo (...) eu seguia os progressos desta adaptação, pelas expressões de admiração que lhes escapava ante tal e qual frase melódica; achavam-se perfeitamente capacitados para sentir a beleza de tom de um salmo”.

Do mesmo modo, quando se diz que o gregoriano não foi feito para o povo das paróquias, afirma-se falsidade tão patente como seria o dizer que a arte românica não foi feita para o povo das paróquias, [afirmação] a que tantas e tantas igrejas de povos e aldeias testemunham contrariamente. A multidão [no passado] cantava o ordinário da missa e toda a salmodia, e reservava-se à Schola somente o próprio da missa.

Na aldeia em que habito, ainda não faz dez anos, todos sabem cantar a missa dos domingos ordinários, a missa “De Angelis”, a do Advento, a da Quaresma, e até a do tempo pascal. Em verdade, o gregoriano praticou-se nas paróquias, desde a reforma de São Pio X, em toda parte onde se encontrasse um sacerdote que verdadeiramente cresse na importância da adoção do gregoriano, em vista da fulguração religiosa que provoca nas almas ou, dito de outro modo, por ser o gregoriano simplesmente uma escola de santidade.

 

Conclusão:

Tratemos, pois, de entrar como crianças nesta escola de santidade da liturgia católica. A Mestra provou-se sempre idônea, e seus frutos são patentes, ao longo dos séculos. Aprofundemos o conhecimento deste canto sagrado e cultivemo-no em nossas capelas e igrejas.

“Homens perversos e depravados usam a música como excitante para entregar-se aos gozos terrenos, em vez de levantar-se beatificamente por seu meio a Deus e à contemplação das coisas divinas. De minha parte, (...) trabalho, graças a Deus, unicamente para conseguir que a modulação das vozes seja dedicada exclusivamente ao fim para que fora inventada no princípio, isto é: ‘Deo optimo clarissimo laudibusque suis’ (a Deus ótimo e glorioso e para seu louvor)” (Tomás Luis de Victoria).

(Revista Permanência 268 - Tradução: Permanência)

  1. 1. André e Henri Charlier, irmãos, ambos artistas, converteram-se ao catolicismo no princípio do século XX, na paróquia de Mesnil-Saint-Loup, em França. Foram grandes defensores do canto gregoriano e da arte cristã em geral.
  2. 2. Motu proprio de S. Pío X, 1903, “Codex musicae sacrae juridicus”.
  3. 3. Encíclica Mediator Dei.
  4. 4. Santo Agostinho, Confissões, livro X, cap. 33. Coleção “Os pensadores”, Editora Nova Cultural, São Paulo, 1987.
  5. 5. O Cônego Jeanneteau, estudioso do canto gregoriano, definia-o desta maneira: “O modo gregoriano é um conjunto homogêneo de notas que se desenvolvem sobre ‘cordas’ com dependência de uma final; cordas que têm seu papel artístico próprio, pois que os movimentos internos dessas notas entre si produzem um ‘vocabulário’, uma sintaxe e fórmulas particulares ou comuns. Todo o conjunto move-se por mesma dinâmina, criando estética própria, que chamamos ethos”.

Começando a ler Chesterton

Wojciech Golonka

Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) é justamente louvado pelos católicos pela sua grande contribuição à defesa da Fé e da Igreja Católica. Ele, de fato, foi um “prodigioso defensor da fé”, como o Cardeal Eugenio Pacelli, que veio a se tornar o Papa Pio XII, afirmou em um telegrama de condolências enviado ao Arcebispo de Westminster quando Chesterton faleceu. Na verdade, a Santa Sé já o havia reconhecido como tal antes mesmo de sua morte, pois ele, juntamente com Hilaire Belloc, foi premiado com a Ordem de São Gregório Magno pelos serviços que prestaram à causa católica. Portanto, Chesterton deveria ser lido até mais do que se alega, e, ainda assim, alguns leitores podem achá-lo complicado e um pouco excêntrico. Eles provavelmente têm razão de pensarem assim.

Então como começar a ler Chesterton sem perder o ânimo? Claro, você pode tentar ler um de seus livros, talvez fique viciado em Chesterton, como ocorre com muitos que o descobrem -- nesse caso, estará pronto para atravessar suas leituras e passagens mais difíceis. Mas também pode ser repelido ainda no começo; e, então, o que fazer? Permita-me tentar criar um “manual de instruções” para quem quer se aproximar da obra de Chesterton, antecedido de uma breve análise de sua evolução literária e religiosa.

Chesterton foi, acima de tudo, um observador buscando a verdade sobre o homem e seu destino. Um honesto, porém autônomo e auto educado gênio, levou muito tempo até que finalmente chegasse à Igreja Católica e fosse profundamente influenciado pela clareza de sua doutrina. Essa transformação é evidente nos seus escritos. Educado em uma família vagamente cristã, ele, primeiramente, tornou-se agnóstico na adolescência. Então, ao se apaixonar por Frances Blogg no final do Século XIX, que era uma garota educada por freiras anglocatólicas e sinceramente cristã, embora protestante, isso o ajudou a redescobrir o credo cristão tal como definido pelo Concílio de Nicéia, embora sem que ainda aderisse a alguma instituição em particular, especialmente a Igreja Católica. Naquele tempo, a heresia modernista estava atacando não apenas a Igreja Católica, mas também os setores mais conservadores dentro do protestantismo, aos quais Chesterton, formalmente, aderia. Mas, como ele tinha uma compreensão católica do credo, rejeitava interpretações da Escritura que levassem ao afastamento da historicidade dos milagres, alegações de que o dogma tinha origens puramente humanas ou a evolução da moral baseada em mudanças na consciência humana ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, combatia os grandes erros de seu tempo – o marxismo, que direcionava todas as atividades humanas a fins materiais; o determinismo, que alegava que o homem não tem livre-arbítrio; o racionalismo e o positivismo, que negava qualquer intervenção de Deus na história humana, especialmente através dos milagres; mas também o imperialismo (hoje se diria “globalismo”) e até mesmo o racismo. Seu conflito com esses erros – e aqueles que os espalharam – resultaram na sua primeira grande obra, Hereges (1905). Então, pressionado por seus adversários a esclarecer quais eram suas visões, três anos mais tarde ele publicou Ortodoxia, expondo suas crenças sobre a natureza humana, o mundo e o Cristianismo.

Ambos os livros trazem descrições jocosas de seus oponentes e algumas intuições brilhantes sobre os temas desenvolvidos. Ainda assim, é possível que o leitor considere Chesterton um pouco complicado quanto se trata de desenvolver essas ideias na forma de um tratado. A sua conversão ao Catolicismo mudou alguma coisa naquele ponto? Primeiro, é preciso deixar claro que ele já estava a caminho da Igreja Católica em 1911, pois “estava mais inclinado que nunca a crer, embora não tivesse ainda admitido que as teses das Igrejas Anglicana e Grega1 estavam menos próximas da verdade que as da Igreja Católica Romana” (William Odie, Chesterton and the Romance of Orthodoxy: The Making of GKC, 1874-1908, Oxford University Press, p. 382). Ele também, ao mesmo tempo, travou amizades com alguns padres católicos romanos e admirava seu profundo conhecimento da psicologia humana. Recebeu forte influência deles, embora só tenha abraçado o Catolicismo em 1922. Então, tenha paciência se você estiver rezando pela conversão de um conhecido bom e honesto, pois Chesterton já foi um deles. Embora, como ele mesmo admitia, a fé e o pensamento católicos abria-lhe grandes perspectivas intelectuais, esse processo de esclarecimento e iluminação de sua mente também levou algum tempo.

Por exemplo, O Homem Eterno, publicado em 1925, é sua grande obra-prima apologética em defesa da divindade de Cristo e contém duas simples intuições: o homem não pode ser apenas um animal, pois ele dá sinais de ser espírito; Cristo não pode ser apenas um homem, pois ele dá sinais de ser uma divindade. Apesar dessa simplicidade, o processo de deduzir essas duas ideias claras através de uma demonstração longa e complicada pode ser assustador para os leitores.

Agora, olhemos para seus ensaios polêmicos com os modernistas e protestantes dos anos 1920 e 1930, como aqueles publicados em dois livros apologéticos: A Coisa: Por que sou católico (1929) e The Well and the Shallows (1935). Eles são mais fáceis que O Homem Eterno. Isso significa, penso, que, se o leitor quiser se beneficiar do gênio apologético de Chesterton, é muito melhor começar com os livros que escreveu na última década de sua vida, quando ele já estava sob influência do Catolicismo. Também recomendo meu livreto Protestantism as Seen by G.K. Chesterton. 80% do seu texto é composto de citações extraídas de vários de seus livros e, acima de todos, de A Coisa e The Well and the Shallows. Não que eu queira recomendar meu próprio trabalho, mas, como um estudioso que dedicou vários anos aos seus escritos, recomendo-lhe seu pensamento apresentado em uma síntese que lhe traz o melhor de sua polêmica sobre o tema. Além disso, essa obra expõe a evolução do protestantismo ao longo dos séculos e também explica como ele, eventualmente, transformou-se em modernismo e rejeitou completamente o credo cristão, que, na atual crise da fé, é um perigo ainda maior que no tempo das polêmicas de Chesterton.

Também há outro approach, mais cronológico, ao seu pensamento apologético que não expõe o leitor ao risco de se assustar com a dificuldade do texto. Ele também escreveu pequenos romances, e eles são simples, têm um senso de humor irresistível e, ainda que tenham alguns defeitos do ponto de vista literário (as pessoas normalmente se decepcionam com o final deles), trazem diálogos vívidos nos campos da religião, da política e da moralidade. Enquanto The Ball and the Cross (1909) representa um conflito muito curioso entre a fé e a descrença, o Flying Inn (1914) é uma profecia inacreditável sobre o islamismo invadindo o mundo ocidental. O Homem que era Quinta-Feira traz uma sólida axiologia na qual se demonstra que a heresia é o pior de todos os pecados. Manalive (1912) é um grande antídoto ao veneno puritano destilado pelo calvinismo nos países anglo-saxões. Você não vai desperdiçar seu tempo com essas leituras, pois essas histórias cômicas sempre trazem miniensaios escondidos, disfarçados sob a forma de diálogos.

Para encerrar, podemos dizer que, ao recomendar suas obras em geral, a Igreja acha bom e proveitoso ler Chesterton. Pessoalmente, eu acho que, embora alguns de seus livros escritos antes de sua conversão contenham alguns erros doutrinários ou inexatidões, como demonstrado pelo padre tomista francês, Joseph de Tonquédec, não são erros perigosos para os leitores. Mas a coisa mais importante a se enfatizar é o fato de que ele, de algum modo, previu os erros com os quais a humanidade se confrontaria. Muitos já estavam presentes, na forma de falsos princípios, na sua época.

Portanto, pode-se aplicar a ele o que ele mesmo dizia de William Cobbett: “Em uma palavra, ele enxergou o que nós enxergamos, mas ele enxergou quando nada estava lá. E alguns não conseguem enxergar – mesmo quando tudo já está lá. É o paradoxo de sua vida que ele amava o passado, e era o único que vivia o verdadeiro futuro. O futuro era nebuloso, como sempre é; e, de algumas maneiras, sua inteligência, largamente instintiva, era suficientemente nebulosa quanto a ele”. E, em segundo lugar, não apenas Chesterton previu esses erros, mas ele também os refutou de uma maneira compreensível ao homem comum. Aqui, novamente, o que ele dizia de Chaucer, outro gênio de tempos passados, também se aplica a si mesmo: “Eles não se deram o trabalho de inventar uma nova filosofia, mas, ao invés, herdaram uma grande filosofia. Ela é, na maioria dos casos, uma filosofia que muitos grandes homens têm em comum com homens muito ordinários… O grande poeta apenas professa expressar o pensamento que todo mundo sempre teve”. Esse pensamento, que todo mundo sempre teve, tem um nome em especial: Tradição. Ler Chesterton vai lhe trazer um conhecimento melhor dos seus princípios.

(The Angelus, set-out/2020 - tradução: Permanência)

  1. 1. Aqui, o autor, naturalmente, está se referindo à Igreja cismática grega (Igreja “Ortodoxa”), não a toda e qualquer Igreja Grega (como as Igrejas Católicas Bizantinas, que estão em união com Roma e são tão católicas quanto a nossa Igreja Católica Romana).

O canto gregoriano é, antes de tudo, oração

Pe. Hervé Gresland

 

Existem muitas missas compostas por vários músicos que são boa música, e que podemos chamar de música religiosa, pois possuem caráter religioso. O gregoriano, porém, não é uma “música religiosa” entre outras, mas, segundo a feliz fórmula de Dom Gajard1, é uma “oração cantada”. Aí está toda a diferença.

A alma que canta essa oração, ou que escuta esse canto num espírito de fé, é o contrário de um esteta. Quem concorda em abrir a sua alma para o mistério do cantochão, atinge o objetivo para o qual foi concebido, pois o gregoriano tem a vocação de nos abrir e nos conduzir ao reino do qual Nosso Senhor nos fala no Evangelho, que é o reino da graça.

 

O canto gregoriano ensina a rezar

Antes de tudo, esse canto é essencialmente oração. É verdadeiramente um canto “consagrado” 2, porque deve servir unicamente ao culto. O seu fim primeiro, com efeito, é o “sacrifício de louvor” da Igreja. Por ser feito e por voltar-se para Deus, coloca-nos de saída diante do nosso Criador numa atitude de oração. Esse canto faz com que nos voltemos para as realidades sobrenaturais e divinas. Ensina ao homem o senso do sagrado e da grandeza de Deus. Ele lhe ensina a rezar, a contemplar a Deus, a louvá-lo. Ele nos faz encontrar a Deus para podermos lhe falar de coração a coração. Suas melodias nos introduzem imediatamente numa atmosfera sobrenatural.

A maior parte das peças gregorianas são curtas, mas são capazes de impor desde logo uma atitude de fé, de admiração, de confiança, de adesão a Deus e a sua vontade – elas nos fazem atingir Deus diretamente. Elas conduzem à contemplação dos mistérios mesmos que revivem. Com efeito, a virtude essencial do nosso canto é a de ser capaz de conduzir e manter o nosso olhar (tanto quanto possível aqui embaixo) em algo de perfeitamente puro, em Deus, que habita uma luz inacessível. Esse canto é transparente ao espiritual, reflete um outro mundo, diz o que nenhuma outra música diz: fala à alma do invisível, dos mistérios divinos. Introduz-nos no mistério, no sagrado, abre-nos as mais altas realidades espirituais. É uma arte impregnada do sobrenatural.

O canto gregoriano ajuda e favoriza assim o recolhimento, a contemplação e inspira o bom gosto3. Dirige-se ao que há de mais profundo dentro da alma. É por isso que atrai as almas amantes da beleza e do sagrado. Traz consigo uma graça própria que é a de nos introduzir de modo único no coração do mistério, na contemplação.

Ordenado desde o início ao louvor de Deus, é igualmente um admirável fator de vida interior. Transforma a alma que se abandona à sua divina influência. Em um canto assim, a música é instrumento de vida, de vida sobrenatural. Como explicava Dom Gajard, “são os atos com os quais louvamos a Deus que nos santificam”4. Esse canto é um veículo da graça, e é por essa razão que podemos chamá-lo de um sacramental, e mesmo de um poderoso sacramental. Por meio dele, a Igreja procura à nossa alma uma santificação certa. Sim, o canto gregoriano é um meio de santificação.

Isso mostra que foi composto não apenas por grandes artistas, por homens de gênio, mas por homens cheios de luz sobrenatural, grandes contemplativos que tiraram a sua inspiração de um contato estreito com Deus e viviam intensamente do Criador. Essa música nasceu da oração, da contemplação, e ela alimenta a contemplação.

Auguste Le Guennant tinha razão ao definir o gregoriano como “a oração que se fez música” 5. Verdadeiramente, assim como se dizia dos quadros pintados por Fra Angélico, algumas melodias gregorianas parecem ter sido compostas de joelhos.

É nesse mesmo espírito de oração que o canto deve ser escutado ou cantado, como dizia o Papa Pio XII:

“visto que a voz de quem reza repete os cantos escritos por inspiração do Espírito Santo, que proclamam e exaltam a perfeitíssima grandeza de Deus, é ainda necessário que a essa voz se junte o movimento interior do nosso espírito para fazer nossos aqueles mesmos sentimentos com os quais nos elevamos ao céu, adoramos a santíssima Trindade e lhe rendemos os devidos louvores e ações de graças: ´Devemos salmodiar de modo que a nossa mente concorde com a nossa voz´6. Não se trata, pois, de uma recitação somente, ou de um canto que, embora perfeitíssimo segundo as leis da arte musical e as normas dos sagrados ritos, chegue apenas ao ouvido; mas sobretudo de uma elevação da nossa mente e da nossa alma a Deus”7.

 

Origens do canto gregoriano

Após evocar os compositores desse canto, será útil ao nosso propósito dizer algumas palavras sobre a sua história.

Em conformidade com práticas que remontam ao Antigo Testamento, o uso do canto litúrgico na Igreja remonta ao início. Numa celebre carta ao imperador Trajano, Plínio, o Jovem, governador da Bitínia, descreve os católicos como homens que “se reuniam habitualmente num dia fixo [o domingo], antes do amanhecer, para cantar entre eles um cântico a Cristo como a um Deus”. Os católicos eram assim definidos como aqueles que cantam louvores a Cristo.

Mas, de quando data o canto gregoriano? Nos livros de canto que possuímos, as datas das composições das peças do Kyriale (isto é, Kyrie, Gloria, Sanctus, Agnus Dei) é indicada, por exemplo, como do XIo ou XIIo século. Mas, para o próprio das missas, nada está indicado. Qual é a razão disso? A data de composição de cada peça é a dos manuscritos mais antigos conhecidos, quando os encontramos; mas as peças próprias de cada missa formam os manuscritos mais antigos que possuímos, remontando ao IXo século. Antes dessa data, não existiam manuscritos e os cantos eram decorados. Portanto, as peças do próprio da missa já existiam no IXo século, no império de Carlos Magno, tal como as cantamos atualmente.

Mas, na verdade, o canto gregoriano é anterior a isso. Foi de São Gregório Magno (papa de 590 a 604) que tirou o nome. Não porque o canto tenha sido obra desse papa, mas por ter ele desempenhado um papel muito importante na refundação do repertório litúrgico. “Ele recolheu cuidadosamente e dispôs com sabedoria tudo o que os antigos haviam transmitido”8. Sua obra foi, portanto, a de reunir e ordenar “o tesouro das melodias sacras, a herança e a memória dos Padres.”9

“Do ponto de vista litúrgico e musical, o período criador estende-se do Vo ao VIIo século; no VIIIo século já havia se encerrado”10. Foi Carlos Magno que estendeu esse canto a todo o seu império: “a liturgia romana e o canto romano entraram na Gália franca sob Pepino, em 754, e foram impostos por Carlos Magno a todo o Império.”11 A perfeição desse canto era tamanha, a obra tão equilibrada e dotada de tal variedade, que ninguém ousou, a partir de então, retoca-la. Esse canto tornou-se a língua litúrgica de toda a Idade Média cristã.

O cantochão não foi uma obra artificial, uma construção que surgiu pronta num belo dia, como o esperanto, saída do cérebro de um intelectual. Suas origens ainda são misteriosas, mas os musicólogos pensam que partiu das ladainhas da liturgia sinagogal, das modas da música grega, dos velhos cantos celtas, gauleses ou romanos. Com esses elementos diversos, foi formado e lentamente elaborado por homens que lhe transmitiram sua marca própria: esses homens são os católicos. Quando esses homens receberam a revelação de que foram redimidos, reintroduzidos na família de Deus, feitos irmãos dos anjos pela graça e concidadãos dos santos, o seu canto precisou exprimir algo novo, algo que jamais havia sido expresso.

Canções de amor, de sofrimento ou marchas militares sempre foram inventadas, canções que exprimem a alegria ou o sentimento nacional -- ao menos é o que sabia fazer no passado, como testemunham muitas e admiráveis canções populares. Mas há uma coisa de que os cantos da terra não nos falam, a saber: da Beleza e da Bondade absoluta, de Deus. Se a alma iluminada pela fé conhece e saboreia o mistério da sua elevação à ordem sobrenatural, então, o seu canto não se assemelha a nenhum outro. O gregoriano não se assemelha a nenhum dos cantos de que lançou mão. A alma e a sensibilidade católica  os transformaram e transfiguraram para que pudessem dizer coisas que jamais foram ditas, e fazer com que servissem a um propósito que ultrapassa a ordem natural12.

Um pequeno número de exceções à parte, essas melodias são anônimas. Os nomes dos compositores não chegaram até nós. Poderíamos ver nisso uma intenção da Providência que, desejando dotar a Igreja de um canto muito próprio, dissimulou a sua origem sob o anonimato? Desse modo, as melodias não são de tal ou tal compositor, mas pertencem à Igreja. Camille Bellaigue escreveu a esse propósito: “Tudo que elas receberam dos homens, ainda que fosse um nome, pereceu. Elas só guardaram o que veio de Deus.”

 

A oração da Igreja

À nossa oração pessoal, o canto gregoriano acrescenta a eficácia espiritual da orgação da Igreja, posto que se trata aqui não da oração de um homem particular, ou de uma pequena comunidade, mas de um ato de toda a Igreja, da “sociedade do louvor divino” (como a definia Dom Guéranger), dito de outro modo, da Santa Igreja, do Corpo místico de Cristo, que apresenta pessoalmente – com Jesus à sua frente – essa súplica ao Pai.

A Igreja, e somente ela, possui o segredo da oração e sabe como se portar perante Deus. Ela traduz nesses cantos aquilo cujo segredo só ela possui. Ela mesma roga ao Pai, a Cristo, seu divino Esposo, por meio desses textos e dessas melodias. Nossas melodias são o seu canto. Exprimem os sentimentos com os quais presta culto ao Pai, por meio de Cristo, seu divino Esposo. Pois a liturgia não é outra coisa que a piedade da Esposa de Cristo que se une ao seu Esposo. Essa voz que nós ouvimos é a voz da Esposa que nos revela algo do seu mistério mais profundo. E nossa oração funde-se com a sua. Por meio dessas orações cantadas na liturgia, a alma da Igreja comunica-se a nossa, e essa alma é o Espírito Santo que a assiste sempre e que inspirou esses cantos.

Forma-se, assim, dia a dia, festa a festa, canto a canto, esse “sensus Ecclesiae” que cada católico pode adquirir quase automaticamente por meio da oração solene. A Igreja nos faz cantar como crê, como espera, como ama. O católico que entra nessa oração oficial e se associa a ela pode, com a certeza de ser ouvido, fazer seu o clamor da liturgia: “Não olhai os meus pecados, mas a fé da vossa Igreja.”

É por isso que a Igreja reconheceu no gregoriano o seu canto próprio. E o fez a tal ponto que podemos mesmo dizer que se tornou conatural à Igreja latina: quando a Igreja canta, exprime-se pelo gregoriano, que Dom Gajard chama de “o canto da Igreja em oração”, ou “oração cantada da Igreja”13.

Por essa razão, não é de se estranhar a beleza desse canto, pois a beleza da própria Igreja só poderia produzir algo belo. Posto que a Igreja é a Esposa de Cristo, sua música é um canto digno tanto de uma tal Esposa como de um tal Esposo. O gregoriano é, aqui embaixo, a antecipação do canto que ouviremos pela eternidade na Jerusalém celeste.

 

(Le Rocher, 54. Tradução: Permanência)

  1. 1. Dom Gajard foi por muito tempo mestre de coro dos monges de Solesmes, e dirigiu algumas gravações de grande reputação.
  2. 2. Dom Joseph Gajard: La vérité du chant grégorien, in Revue grégorienne, 1949.
  3. 3. Cf. P.-D. Delalande, O.P.: La valeur théologique et contemplative du chant grégorien, in Revue grégorienne, 1949.
  4. 4. Dom Joseph Gajard, art. Cit. La vérité du chant grégorien.
  5. 5. A. Guennant foi diretor do Instituto Gregoriano parisiense.
  6. 6. Capítulo XIX. Santo Agostinho já dizia: “Que nosso espírito esteja em conformidade com a nossa voz”.
  7. 7. Encíclica Mediator Dei.
  8. 8. Pio XII, Encíclica Musicae sacrae disciplina.
  9. 9. Pio XI, Constituição apostólica Divini cultus.
  10. 10. Pe. Delalande, O.P., em Initiation théologique (Cerf, 1949).
  11. 11. Dom Froger (monge de Solesmes): Origine, histoire et restitution du chant grégorien, na revista Musique et liturgie, fevereiro de 1951.
  12. 12. Essa idéia foi desenvolvida por Dom Gérard Calvet numa conferência pronunciada no dia 5 de junho de 1971 em Versailles, por ocasião do 6o congresso de Una Voce.
  13. 13. Revue grégorienne, 1949, p. 10.

Pingo nos is sobre cinema

Hugues Keraly

 

Servidores de Deus e não do mundo, não pretendemos degustar as torpezas de um século que, aliás, grita fortemente contra nós; ou pelo menos, se não diretamente contra nossas pessoas, contra tudo aquilo em que cremos, e de que vivemos. É o motivo pelo qual, da melhor forma que podemos, devemos inicialmente nos esforçar por guardar em nós, entre nós – e quando Deus o permita – em volta de nós, o que deve ser guardado: “depositum fidei”.

Mas nós sabemos também que estamos no mundo, e que nunca nos será permitido ignorar ou deixar de ignorar o que ele é, o que ele se torna. No que se vai transformando o mundo, não por vezes sem nossa miserável cumplicidade, quem, senão nós, poderia lhe dizer em plena face? Também nossa tarefa não é de somente recusar, no que nos diz respeito, as terríveis mentiras escatológicas acumuladas pelo nosso século; ela consiste também em denunciá-las, incansavelmente, fortemente, sem receio de arrancar o véu que as encobre; fazê-la aparecer, se preciso for, em sua hediondez chocante e repelente. Calar-se é dar razão à idolatria e à impiedade ambientes: nós não temos o direito a isso.

Não nos cabe decidir se o Evangelho merece ainda hoje ser anunciado aos homens tão a título de posse pessoal, e cuja dádiva ele poderia recusar a outros. O cristão é antes de tudo o que não almeja senão ser possuído por ela em todas as circunstâncias, de tal sorte que ele não pretenda nunca se atribuir pessoalmente tal mérito.

Mas, que pensaríamos de um professor secundário que, sob o pretexto de ensinar filosofia cristã, chegasse a poupar seus alunos de qualquer alusão às doutrinas atéias da “intelligentzia” moderna: marxismo, existencialismo, estruturalismo, fenomenismo, freudismo etc? Estas doutrinas constituem, quer ele queira quer não, o fundo filosófico comum de tantas tagarelices impressas, radio-difundidas ou televisadas, pelas quais nossa vida cotidiana se encontra hoje invadida. Fazer como se tais doutrinas não existissem, seria esquecer que os jovens, aos quais se dirige nosso ensino, trazem consigo uma enorme bagagem de preconceitos modernistas, dos quais eles não se desembaraçam facilmente. O mestre pode falar-lhes... de virtude, de fé, sem ter em conta o que se tornaram essas noções na linguagem do século: seria expor seu ensino a não ser compreendido um só momento por um só de seus alunos... Tudo o que é recebido por um indivíduo não o seria senão conforme à maneira (modum) como tal indivíduo pode recebê-las (São Tomás). Nosso século não conseguiu provar o erro das verdades, naturais ou sobrenaturais, às quais nós aderimos, e certamente jamais chegará a isso; mas ele tudo fez, entretanto, para criar entre os espíritos dos jovens uma nova “maneira” de pensar que impede o acesso a tais verdades.

 

Cinema: do consumo estético à arma de ação política.

Ora, o cinema, enquanto fenômeno cultural, enquanto fenômeno de massas, é precisamente um dos pontos em que se exprimem e se vulgarizam mais facilmente as novas modas de pensar contemporâneas. Cada um pode, assim, se alimentar até à saciedade quotidianamente, forjar ali sua “filosofia” implícita do homem e do universo, até mesmo sem disso tomar consciência.

O cinema, com efeito, passa aos olhos de todos como uma distração, um legítimo descanso do espírito e do corpo. O que, quase sempre é falso. O corpo ali não se distende, mais comumente contrai-se ou se deforma na desconfortável imobilidade de uma poltrona hostil, que range sob os rins ao primeiro movimento, enquanto que os olhos e os ouvidos se fadigam, a alguns metros da tela e do alto-falante gigante. Quanto ao espírito, bem mais que o corpo não é ele agredido pelo cinema?

Se a comparação não parecesse singela, a gente poderia lembrar aqui os prisioneiros da caverna de Platão: encadeados na sombra, olhar voltado para a tela com artifício e ilusões, não percebem um só instante que estão em presença de um mundo irreal, pois o que eles contemplam é o efeito de marionetes refletidas, movimentadas atrás deles, entre o sol e a entrada de seu miserável universo subterrâneo... Em verdade, Platão, se pudesse conhecer a realidade do universo cinematográfico, não teria necessidade de imaginar a sua alegoria. Tecnicamente, trata-se de um fenômeno de ilusão de ótica (a ilusão do movimento) que dá nascimento ao cinema, ilusão que se faz mais perfeita ainda com o surgimento do cinema falado e desemboca na criação de um gênero artístico inteiramente novo, cujas autênticas obras-primas hoje em dia são incontáveis. Resta dizer que o cinema, ao contrário das artes plásticas e da literatura, impõe ao espírito do espectador uma sorte de submissão sem recuo possível perante o ritmo da imagem cinematográfica, submissão tanto maior quanto a ilusão for mais perfeita, o artifício menos evidente.

Mas seria limitar singularmente a influência do cinema sobre o mundo contemporâneo ficar só na sua visão estética ou dramática. O extraordinário poder sugestivo da imagem cinematográfica, reforçada em intensidade por cada progresso da técnica, e em extensão pelo desenvolvimento de uma verdadeira indústria especializada, faz do cinema hoje muito mais que um meio de expressão artística entre outras. Faz dele um instrumento privilegiado para a difusão dessa nova “cultura”, desses novos modos de pensar e de agir que a filosofia revolucionária pretende impor a toda a sociedade dita “moderna”. Faz dele uma arma política ao serviço da subversão revolucionária das inteligências e das mentalidades, precisamente porque é da natureza do cinema poder influenciar em profundidade (mas sem violência aparente) a inteligência ou a mentalidade do maior número. Os “Estados Gerais do Cinema” nada dissimulam esse projeto quando declaram “abertos para todos os que consideram o cinema não como um simples objeto de consumo estético, mas como uma arma. Todos os que acham que ele não deve permanecer fechado do gueto cultural da classe no poder, mas participar do “combate revolucionário” e “fornecer aos militantes os meios de reflexão e de ação política” (citado em “Positif” n° 107).

 

Como eles agem... no cinema.

Erraríamos se limitássemos esse objetivo abertamente revolucionário ao projeto mais ou menos utópico de grupos de pressão isolados, sem eficácia. Os cineastas de além-cortina de ferro, diretamente controlados pelo Partido, mostram à larga o que um diretor pode explorar em todos os gêneros cinematográficos existentes, em proveito de uma empresa especificamente política, definida em seus mínimos detalhes pelos serviços oficiais de uma propaganda de Estado. (1) Mas essa militância política é também, e em escala maior, a de uma multidão de diretores europeus. Alinham-se aí os maiores nomes do cinema de hoje, especialmente o italiano e mais ainda o francês: Louis Malle, Jean-Luc Godard, Luís Buñel, André Cayatte, Costa-Gravas, Frederico Fellini, Píer Pasolini, Igmar Bergman, Luchino Visconti e outros. (2)

Se um tal projeto não fosse o da maioria dos cineastas de renome, como explicar que ele se expresse – mais ou menos claramente – através de todos os gêneros existentes, todos os temas de que o cinema trata: família, sociedade, religião, civilização, os “problemas” da responsabilidade criminal, da polícia, da justiça, da juventude, da droga?... Como explicar que a rejeição do direito natural e da moral cristã se tornaram o fundamento filosófico habitual do cinema contemporâneo, e a derrubada de toda ordem social, de toda civilização, seu alvo comum? Pois é isso a que conduz a uma análise desse cinema. Todavia, para os que duvidassem da objetividade de uma crítica como a que aqui formulamos, eis alguns exemplos escolhidos entre os mais explícitos, sobre a maneira como os diretores mesmos consideram seu papel de cineastas da sociedade:

Jean-Luc Godard; “O cinema é um momento da revolução (...) Não sou um cineasta que faz filmes políticos; estou me tornando um militante que faz filmes” (Le Monde em 01/04/1970).

Louis Malle: “É preciso caminhar para uma sociedade permissiva... Mas a solução não depende só dos homens políticos. A sociedade nova deve vir à luz pelos jovens, sonhada por eles, pelos poetas, pelos visionários, loucos”. (Valeurs actuelles n° 1796 de 03/05/1971).

Bernardo Bertolucci: “Quero fazer cinema político, de análise política. O cinema se torna instrumento de análise política quando nas mãos da classe operária. Atualmente, eu giro um filme sobre o trabalho a domicílio, em colaboração com uma seção do Partido Comunista numa fábrica. Eu me contento de ser um técnico politizado que se esforça por traduzir em linguagem específica do cinema todo o material elaborado pela base, essa coletividade, essa seção”. (Le Monde, 01/02/1971).

E. de Antonio: (entrevistado sobre um filme a respeito da guerra do Vietnã, Lannée du chochon, em que ele faz aparecer diversas personalidades americanas, todas pacifistas): “Bem entendido, todas as intervenções são tiradas de seu contexto. Contava com a finalidade de tornar mais eficaz politicamente...” (Les Cahiers du Cinéma, n° 214 de julho-agosto de 1969).

V. Sjoman: “Não é somente um espetáculo cinematográfico. É um fato de ação política real, uma efetiva tomada de posição, com todas as conseqüências que este gesto de um cineasta pode comportar, na medida em que o cinema pode ser um veículo de um movimento de idéias contestatórias de uma certa sociedade”. (Texto de apresentação do filme “Elle veut tout savoir”). 

 

Pornografia e subversão unidas no cinema

Assim definida, a “nouvelle vague” cinematográfica vem rejeitar por si mesma a máscara “cultural” ou “artística”, com a qual achou que, até agora, ela devia se enfeitar. Ela se torna a empresa, ao mesmo tempo social e política, de uma espécie de Internacional dos cineastas revolucionários, que, nunca chegando a perceber as razões da ordem, declarou publicamente guerra a toda sociedade ordenada. Sociedade que ele chama de “repressiva”, abusivamente sem dúvida, pois tal sociedade tolera ver passar às mãos de tais cineastas, com as finalidades que se conhecem, uma das suas mais poderosas industrias.

Um tal cinema, como se viu, fundando na rejeição da moral e do direito natural, exprime, aliás, infinitamente mais que uma vontade de revolução política da ordem social. Exprime a doença do espírito próprio à “intelligentzia” do século, essa utopia de uma inteligência livre de todo contato com o real, quer dizer, de todos os fundamentos de nosso pensamento racional, ocidental e europeu, de origem grega. A serviço de ideologias contemporâneas, o universo cinematográfico torna-se tão ilusório como a imagem que lhe serviu de meio. Mas a ilusão moral e intelectual que assim se exprime está investida, com a técnica própria do cinema, de um poder todo especial: mitificada, popularizada, multiplicada ao infinito pelos truques da indústria cinematográfica. Ela tem uma eficácia que supera certamente todos os discursos. É onipresente, autora implícita, sugestiva até ao excesso, plástica e maravilhosamente disfarçada. “Larvatus prodeo” tal é bem, a suprema habilidade dos mitos políticos e sociais, difundidos pelo cinema, que prefere “encantar” mais que convencer, e que o consegue de modo massivo. Notadamente junto aos jovens, que nossos padres progressistas consideram liberados quando estão apenas entregues a si mesmos, ou seja, entregues à influência do primeiro que surge: sofismas, mitos, drogas, imagens, cinema. Advirtamos, porém: isto não nos torna “cinéfobos”. Desejamos pelo contrário, com todo o entusiasmo, o renascimento do cinema. Seria preciso, é certo, o aparecimento de uma nova geração de cineastas, cujo talento saberia se inspirar nos verdadeiros valores humanos, individuais e sociais, morais ou religiosos. Os temas não lhes faltariam. Seria suficiente, aliás, em um primeiro tempo, que o cineasta se desse ao trabalho de restituir o homem à verdade – amando e respeitando, nele, o que faz dele algo de diverso de uma besta raivosa, vítima inconsciente de seus instintos...

Entretanto, uma sociedade marcada cada dia mais pela rejeição do direito natural e a impiedade não saberia suscitar o renascimento de uma tal cultura, de inspiração cristã. Ora, é do cinema como ele de fato se apresenta que o crítico deve se preocupar, inicialmente; sobretudo se esse crítico é cristão, pois pertence também ao cristão compreender e julgar. Por que seria, então, ele, o único a se calar? Um cinema que lesa e trai o humano, porque detesta ou desconhece no homem a filiação divina, não saberia deixá-lo indiferente. Ele tem o direito, e mais do que isso o dever de denunciá-lo energicamente. É o que procuramos fazer nestas linhas.

Somos, pois, quase sempre levados a criticar filmes que denunciamos como desprezíveis e escandalosos quanto à sua filosofia do homem, e, além disso, freqüentemente, pornográficos... Ficaríamos satisfeitos – enquanto cinéfilos, com ter que analisar habitualmente outra coisa! Somos por natureza levados à simpatia, à admiração; é uma disposição natural agradável de cultivar, rica em promessas e amizade. Entretanto, aparecem hoje em dia muitos filmes que não escondem – sob títulos freqüentemente anódinos – cenas e intenções mais ou menos sensuais, mais ou menos pornográficos. Uma sociedade que desconhece a natureza profunda do homem desconhece também necessariamente a natureza verdadeira do amor humano, sua dignidade, caindo no erotismo sem amor, ou seja, na erotomania. O cinema, que não aspira senão a incentivar os gostos de uma tal sociedade, será pois erotomaníaco: e isto tornou-se até mesmo condição da sobrevivência comercial. Mas os sectários do modernismo ficarão contentes: o imperativo comercial faz aqui bom par com o imperativo político. O “militante que faz filmes”, o “técnico politizado” não deve pois, por isso, temer transformar-se em bom comerciante porque pornócratas e revolucionários já estão de acordo num ponto essencial: orquestrar em comum a campanha contra os costumes “burgueses” da sociedade tradicional, dita repressiva, para substituí-la pelo reino de uma sociedade nova, dita permissiva – ou seja, uma revolução permanente de toda ordem social. O último filme de Louis Malle, Le souffle qu coeur, não seria um bom exemplo dessa coalizão? O arsenal habitual das produções eróticas, coroado pelo incesto final entre a mãe e o filho, aí se encontra bem explorado.

O projeto subversivo é claramente anunciado pelo próprio autor, a serviço do qual estavam o caráter publicitário e comercial dos mesmos elementos pornográficos.

O mercantilismo burguês acelera o moinho da subversão.

Mas a coalizão vai mais longe, e não precisa ser assumida conscientemente pelos cineastas para dar frutos. Qualquer que seja seu grau de ligação com o ideal revolucionário, seu entusiasmo ou sua total indiferença pela ação política, os diretores de filmes pornográficos acabam sempre por servir à mesma causa: a da subversão. A revista “Documents sur le cinéma”, de orientação marxista, explicou as razões evidentes em um artigo de clamoroso cinismo e fria lucidez. Interrogada sobre se os membros do Partido deveriam considerar de seu dever opor-se à decadência do cinema e do teatro burgueses, ela respondeu o seguinte: “Os diretores, produtores, atores, proprietários de indústrias fotográficas e de cinemas, que fazem e projetam filmes, são atraídos, como é natural em gente de seu tipo, pela avidez do lucro. A fim de ganhar os aplausos do público, eles consagram laboriosamente suas energias em suscitar o impulso sexual, servindo-se do pretexto de que agem segundo interesse artístico, embora estejam sobretudo preocupados com a receita. Entretanto tais burgueses, por mais cínicos e irresponsáveis que sejam, combatem pela nossa causa. São como formigas que trabalham para nós sem o saber e sem que tenhamos que pagá-los por isso, devorando as raízes mesmas da sociedade burguesa. Por que os impediríamos nós de fazerem seu trabalho?” (apud “Décourvertes” n° 49, abril de 1958). (3)

Eis o que está claro, o comunismo não vê nenhuma razão para criar obstáculos à imoralidade “burguesa”, pois ele mesmo não tem chances de se desenvolver senão numa sociedade apodrecida, desenraizada de seus fundamentos naturais e que a pornografia, sobretudo quando ela ataca o lar, é um dos principais fatores de aceleração desse apodrecimento.

O cinema contemporâneo, em que uma forma particularmente corrosiva da subversão marxista se comercializa em tão larga escala, nos coloca em verdade face a um drama social de uma singular amplitude. Mas, por falta de reflexão, de informação verdadeira, o público, mesmo cristão, subestima, em geral, a gravidade de um tal escândalo, de uma tal exploração – quando não o ignora completamente. Nosso dever é pois de advertir os que nos lêem, e especialmente os pais de família e os educadores, pois eles não têm tempo ou gosto de tudo isso verificar por si mesmos, além do fato de que a crítica e as “cadernos de cinema” dos jornais especializados (mesmo católicos) não significam mais nada.  

 

Notas:

(1) Kruchev afirmou: “A imprensa, o rádio, a literatura, a pintura, a música, o teatro, o cinema, são poderosas armas ideológicas do nosso Partido”. 

(2) No Brasil, essa forma de arte vem sendo paulatinamente desenvolvida e difundida, encabeçada por alguns cineastas como Glauber Rocha, Rui Guerra, etc... Discípulos e seguidores de Jean Luc Godard, conhecido nos meios cinematográficos como “o professor que ensina as fórmulas de fazer politicamente o cinema político”. O próprio Glauber Rocha diz: “O ‘Cinema Novo’ do Brasil só terá sentido se estiver na vanguarda da mais agressiva e imediata luta sem reconciliação. Temos de fazer o cinema da miséria, na cultura da fome”.

(3) “Nós não venceremos o Ocidente por meio da bomba atômica. Venceremos com algo que o Ocidente não compreende: as nossas cabeças, as nossas idéias, a nossa doutrina” (Vishinsk / 1954). A exemplo do cinema, é o teatro também utilizado como poderosa arma ideológica e de dissolução dos bons costumes. Nos últimos anos tem havido uma grande proliferação de peças teatrais, onde se faz presente a exploração de sexo. Como exemplo citamos as peças “Oh, Calcutá” e “Hair” que retratam perfeitamente esse processo de degradação moral. A técnica por eles empregada chega a levar até pessoas com um certo grau de maturidade a ficarem completamente hipnotizadas e embevecidas diante das cenas desenvolvidas no palco. No Brasil, há vários grupos teatrais que acobertados sob o rótulo de “arte”, movimentam-se no sentido de disseminar a ideologia comunista através de suas peças.

* Hughes Kéraly é assíduo colaborador da revista católica “Itinéraires”, de Paris, onde escreve habitualmente sobre cinema. Aliando sólida formação doutrinária aos conhecimentos técnicos indispensáveis para compreender o alcance desse poderoso meio de comunicação social, publicou vários comentários sobre os cineastas Visconti, Bergman, Bertolucci, Clouzot, Costa-Gravas, Lelouch e outros “grandes” do cinema.

 

Hora Presente, Ano VI – março 1974 N° 15.

A esperança

A ESPERANÇA

Charles Péguy

 

A crença de que eu gosto mais, diz Deus, é a esperança.

 

A fé, isso não me espanta.

Isso não é espantoso.

Eu resplandeço de tal maneira na minha criação.

No sol e na lua e nas estrelas.

Em todas as minhas criaturas.

Nos astros do firmamento e nos peixes do mar.

No universo das minhas criaturas.

Sobre a face da terra e sobre a face das águas.

No movimento dos astros que estão no céu.

No vento que sopra sobre o mar e no vento que sopra

no vale.

No calmo vale.

No tão quieto vale.

Nas plantas e nos animais e nos animais das florestas.

E no homem.

Minha criatura.

Nos povos e nos homens e nos reis e nos povos.

No homem e na mulher sua companheira.

E principalmente nas crianças.

Minhas criaturas.

No olhar e na voz das crianças.

Porque as crianças são mais minhas criaturas.

Do que os homens.

Elas não foram ainda desfeitas pela vida.

Da terra.

E entre todos elas são meus servidores.

Antes de todos.

E a voz das crianças é mais pura do que a vos dos

ventos na calma do vale.

No vale tão quieto.

E o olhar das crianças é mais puro do que o azul do

céu, do que o leitoso do céu, e do que um raio

de estrela na calma noite.

Ora eu resplandeço de tal maneira na minha criação.

Na face da montanha e na face da planície.

No pão e no vinho e no homem que lavra e no homem

que semeia e na messe e na vindima.

Na luz e nas trevas.

E no coração do homem que é o que há de mais

profundo no mundo

Criado.

Tão profundo que é impenetrável a todo olhar.

Exceto ao meu olhar.

Na tempestade que faz cabriolar as ondas e na

tempestade que faz cabriolar as folhas.

Das árvores da floresta.

E ao contrário na calma de uma bela tarde.

Na areia do mar e nas estrelas que são uma areia

no céu.

Na pedra do limiar e na pedra da lareira e na pedra

do altar.

Na oração e nos sacramentos.

Nas casas dos homens e na igreja que é a minha casa

sobre a terra.

Na águia minha criatura que voa sobre os píncaros.

A águia real que tem pelo menos dois metros de

envergadura e talvez três metros.

E na formiga minha criatura que rasteja e que armazena

um pouquinho.

Na terra.

Na formiga meu servidor.

E até na serpente.

Na formiga minha serva, minha ínfima serva, que

armazena a custo, a parcimoniosa.

Que trabalha como uma desgraçada e que não tem

mesmo folga e que não tem mesmo descanso.

A não ser a morte e o longo sono de inverno.

 

Eu resplandeço de tal maneira em toda a minha criação.

 

..............................................................................

 

A caridade, diz Deus, isso não me espanta.

Isso não é espantoso.

Essas pobres criaturas são tão infelizes que a não ser

que tivessem um coração de pedra, como não

haveriam de ter caridade umas para com as outras.

Como não haveriam de ter caridade para com seus irmãos.

Como é que eles não haviam de tirar o pão da boca,

o pão de cada dia, para dá-lo a desgraçadas

crianças que passam.

E meu filho teve para com eles uma tal caridade.

Meu filho irmão deles.

Uma tão grande caridade.

 

Mas a esperança, diz Deus, eis o que me espanta.

A mim mesmo.

Isso é espantoso.

Que essas pobres crianças vejam como tudo isso acontece

e acreditem que amanhã vai ser melhor.

Que vejam como isso acontece hoje e acreditem que vai

ser melhor amanhã cedo.

Isso é espantoso e é mesmo a maior maravilha da nossa

graça.

E eu mesmo me espanto com isso.

E é preciso que de fato minha graça seja de uma força

incrível.

E que ela escorra de uma fonte e como um rio

inesgotável.

Desde aquela primeira vez que ela escorreu e escorre

sempre desde então.

Na minha criação natural e sobrenatural.

Na minha criação espiritual e carnal e ainda espiritual.

Na minha criação eterna e temporal e ainda eterna.

Mortal e imortal.

E aquela vez, ó aquela vez, desde aquela vez que

ela escorreu. Como um rio de sangue, do flanco

trespassado de meu filho.

Qual não deve ser a minha graça e a força da minha

graça para que essa pequena esperança, vacilante

ao sopro do pecado, trêmula a todos os ventos,

ansiosa ao menos sopro.

seja tão invariável, mantenha-se tão fiel, tão reta,

tão pura; e invencível, e imortal , e impossível

de apagar-se; que essa pequena flama do

santuário.

Que queima eternamente na lâmpada fiel.

Uma chama tiritante atravessou a espessura dos mundos.

Uma chama vacilante atravessou a espessura dos tempos.

Uma chama ansiosa atravessou a espessura das noites.

Desde aquela primeira vez que a minha graça escorreu

para a criação do mundo.

Desde então que a minha graça escorre sempre para a

conservação do mundo.

Uma chama impossível de se alcançar, impossível de se

apagar ao sopro da morte.

 

O que me espanta, diz Deus, é a esperança.

E fico pasmo.

Essa pequena esperança que parece uma cousa de nada.

Essa pequena esperança.

Imortal.

Porque as minhas três virtude, diz Deus.

As três virtudes minhas criaturas.

Minhas filhas minhas crianças.

Elas próprias são como as minhas outras criaturas.

Da raça dos homens.

A Fé é uma Esposa fiel.

A Caridade é uma Mãe.

Uma mão ardente, cheia de coração.

Ou uma irmã mais velha que é como uma mãe.

A Esperança é uma meninazinha de nada.

Que veio ao mundo no dia de Natal do ano passado.

Que brinca ainda com o boneco de neve.

Com seus pinheirinhos de madeira da Alemanha.

Pintados.

E com seu presépio cheio de palha que os animais não

comem.

Porque elas são de madeira.

Entretanto é essa meninazinha que atravessará os

mundos.

Essa meninazinha de nada.

Ela só, levando os outros, que atravessará os mundos

volvidos.

 

 

Tradução: Guilherme de Almeida

Fonte: ALMEIDA, Guilherme de (org.). Poetas de França, 3ª ed.

Companhia Editora Nacional – São Paulo. 1958

A inspiração

Henri Charlier

 

Quem pode conhecer a Deus? A razão só nos dá a conhecer Sua existência, Sua natureza em negativo e Seu espírito criador de tudo quanto há de bom e belo. Só conhecemos a parte que Ele comunica de Si – o amor. A cada qual seu quinhão, que é bem discreto, tão discreto que ficamos atordoados só em examiná-lo. Discorrer sobre ele então, nem pensar! Mas é justamente o que eu pretendo! Como enaltecer essa liberalidade de bens de que usa conosco?  Só falando podemos transmiti-la, e falando queremos mostrar que esquecemos o principal.

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