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Espiritualidade (164)

Panegírico de São Francisco de Assis

 Bossuet

(Pregado em Metz no dia 4 de outubro de 1665)

Sublime e celeste loucura de São Francisco, que lhe faz colocar as suas riquezas na pobreza, as suas delícias nos sofrimentos, a sua glória na humilhação.

Si quis videtur inter vos sapiens esse in hoc saeculo, stultus Fiat ut sit sapiens.

"Se no meio de vós há alguém sábio segundo o século, faça-se louco para ser sábio" (1Cor 3, 18).

O Salvador Jesus Cristo, cristãos, deu um amplo assunto de discussão, ainda que de modo bem diverso, a quatro sorte de pessoas: aos judeus, aos gentios, aos hereges e aos fiéis. Os judeus, preocupados com essa opinião mal fundada do Messias vir ao mundo com pompa real, prevenidos por essa falsa crença, aproximam-se do Salvador. Viram-no reduzido à mais completa simplicidade, sem nada do que impressiona os sentidos, um pobre homem sem fausto e sem glória: desprezaram-no. “Jesus lhes era um escândalo: Judaeis quidem scandalum, diz o grande apóstolo[2]. Os gentios por sua vez, que se tinham por autores e senhores da boa filosofia, e que, desde longos séculos, viram brilhar no meio deles os espíritos mais célebres do mundo, quiseram examinar a Jesus Cristo segundo as máximas recebidas pelos sábios da terra. Mas, ouvindo falar de um Deus feito homem, que vivera miseravelmente, que fora pregado em uma cruz, fizeram dele um objeto de escárnio. “Jesus foi para eles uma loucura,” Gentibus autem stultitiam, continua São Paulo.  Leia mais

O terceiro segredo de Fátima

(Nota da Permanência: Tendo em vista a aproximação do centenário de Fátima, julgamos oportuno divulgar esta conferência do renomado fatimólogo Michel de la Sainte-Trinité, publicada no número 272 da Revista Permanência. Embora não conheçamos a integralidade do Terceiro Segredo de Fátima, a sua essência foi revelada pelos especialistas e deve, portanto, ser tema de meditação dos católicos.)

Conferência proferida no Vatican Symposium, em Fátima, no dia 24 de novembro de 1985.

Irmão Michel de la Sainte-Trinité

Visto que ainda não se revelou oficialmente o Terceiro Segredo de Fátima, parece evidente que não se possa conhecer o seu conteúdo. Entretanto, essa é tão-somente uma primeira impressão. Porque se é verdade que esse importantíssimo segredo permanecia absolutamente imperscrutável em 1917, quando foi revelado pela Santíssima Virgem aos três pastorinhos de Aljustrel, ou em 1944, quando foi redigido por Irmã Lúcia, ou ainda em 1960, quando deveria ter sido publicamente revelado ao mundo por João XXIII, já não é assim hoje. Com efeito, ao longo de mais de quarenta anos, muitos fatos a respeito do Terceiro Segredo tornaram-se conhecidos. Eles formam um imenso volume de informações seguras com que o historiador pode traçar toda a sua história e revelar a essência do seu conteúdo. Tal foi meu intento ao escrever o terceiro volume da obra Tout la vérité sur Fatima (Toda a verdade sobre Fátima), que se concentra no mistério do Terceiro Segredo.  Leia mais

Sou católico, eis a minha glória

Cravos utilizados na crucificaçãoExiste uma atitude freqüente entre nós e, no entanto, profundamente absurda: o sentirmos vergonha de sermos católicos. A isso se chama respeito humano.

Ora, quem tem vergonha de estar com boa saúde? Quem tem vergonha de possuir um emprego interessante e bem remunerado? Ou uma família amorosa? Ninguém, evidentemente. Ao contrário, sentimos orgulho de nossas riquezas naturais (a saúde, a vida profissional, a família), e temos mesmo a tendência de ostentá-las.

Por que bizarrice do espírito humano, então, acontece de sentirmos vergonha das riquezas sobrenaturais que são nossas, da nossa fé católica, da graça divina? Podemos nos acanhar delas? É incompreensível, e contudo é um mal demasiadamente difundido entre os católicos. 

A falta, o vício que deveria nos ameaçar, em boa lógica, não deveria ser a vergonha, mas antes a jactância, o orgulho. Se sou amigo de um rei, de um homem político, de uma estrela do cinema ou da música, de uma atleta famoso, quero proclamá-lo por cima dos telhados. Por que, então, se sou amigo de Jesus Cristo, Filho de Deus, Rei dos reis e Senhor dos senhores, tenho antes a tendência de escondê-lo? O respeito humano é, em si mesmo, a coisa mais imbecil e inconveniente: e contudo, ele nos paralisa a cada dia.  Leia mais

A intolerância católica

Cardeal Pie

Meus irmãos (...)

Nosso século clama: “tolerância, tolerância”. Tem-se como certo que um padre deve ser tolerante, que a religião deve ser tolerante. Meus irmãos, não há nada que valha mais que a franqueza e eu aqui estou para vos dizer, sem disfarce, que no mundo inteiro só existe uma sociedade que possui a verdade e que esta sociedade deve ser necessariamente intolerante. Mas antes de entrar no mérito, distinguindo as coisas, convenhamos sobre o sentido das palavras para bem nos entendermos e assim não nos confundiremos.

A tolerância pode ser civil ou teológica. A primeira não nos diz respeito e não falarei senão uma pequena palavra sobre ela. Se a lei tolerante quer dizer que a sociedade permite todas as religiões porque, a seus olhos, elas são todas igualmente boas ou porque as autoridades se consideram incompetentes para tomar partido neste assunto, tal lei é ímpia e atéia. Ela exprime não a tolerância civil como a seguir indicaremos, mas uma tolerância dogmática que, por uma neutralidade criminosa, justifica nos indivíduos a mais absoluta indiferença religiosa. Ao contrário, se, reconhecendo que uma só religião é boa, a lei suporta e permite que as demais possam se exercer por amor à tranqüilidade pública, esta lei poderá ser sábia e necessária se assim o pedirem as circunstâncias como outros observaram antes de mim.(...)

Deixo, porém, este campo cheio de dificuldades e volto-me para a questão propriamente religiosa e teológica em que exponho estes dois princípios:

A religião que vem do céu é verdade e ela é intolerante com relação às doutrinas errôneas

A religião que vem do céu é caridade e ela é cheia de tolerância quanto às pessoas.

Roguemos a Nossa Senhora vir em nossa ajuda e invocar para nós o Espírito de verdade e de caridade: “Spiritum veritatis et pacis”. Ave Maria.

Faz parte da essência de toda verdade não tolerar o princípio que a contradiz. A afirmação de uma coisa exclui a negação dessa mesma coisa, assim como a luz exclui as trevas. Onde nada é certo, onde nada é definido, pode-se partilhar os sentimentos, podem varias as opiniões. Compreendo e peço a liberdade de opiniões de coisas duvidosas: “in dubiis, libertas”. Mas logo que a verdade se apresenta com as características certas que a distinguem, por isso mesmo que é verdade, ela é positiva, ela é necessária e por conseqüência ela é uma e intolerante: “in necessariis, unitas”. Condenar a verdade à tolerância é condená-la ao suicídio. A afirmação se aniquila se ela duvida de si mesma, e ela duvida de si mesma se ela admite com indiferença que se ponha a seu lado sua própria negação. Para a verdade, a intolerância é o instinto de conservação, é o exercício legítimo do direito de propriedade. Quando se possui alguma coisa é preciso defendê-la, sob pena de ser despojado dela bem cedo.

Assim, meus irmãos, pela própria necessidade das coisas, a intolerância está em toda parte; porque em toda parte existe o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, a ordem e a desordem. Que há de mais intolerante do que esta proposição: “2 e 2 fazem 4”? Se vierdes me dizer que 2 e 2 fazem 3 ou fazem 5, eu vos respondo que 2 e 2 fazem 4. (...)

Nada é tão exclusivo quanto a unidade. Ora, ouvi a palavra de São Paulo: “Unus Dominus, una fides, unum batisma”. Há, no céu, um só Senhor: “Unus Dominus”. Esse Deus cuja unidade é seu grande atributo, deu à terra um só Símbolo, uma só doutrina, uma só fé: “una fides”. E esta fé, esta doutrina, Ele confiou-as a uma só sociedade visível, uma só Igreja, cujos filhos são, todos, marcados com o mesmo selo e regenerados pela mesma graça: “Unum batisma”. Assim, a unidade divina que esplende por todos os séculos na glória de Deus, produziu-se sobre a terra pela unidade do dogma evangélico cujo depósito foi confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo à unidade hierárquica do sacerdócio: Um Deus, uma fé, uma Igreja: “Unus Dominus, una fide, unum batisma”.

Um pastor inglês teve a coragem de escrever um livro sobre a tolerância de Jesus Cristo e o filósofo de Genebra (Jean-Jacques Rosseau) disse, falando do Salvador dos homens: Não vejo que meu divino Mestre tenha formulado sutilezas sobre o dogma”. Bem verdadeiro, meus irmãos. Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma, mas trouxe aos homens a verdade e disse: se alguém não for batizado na água e no Espírito Santo; se alguém, recusa-se a comer a minha carne e a beber o meu sangue, não terá parte em meu Reino. Confesso que nisso não há sutilezas, há intolerância, a exclusão a mais positiva, a mais franca. E mais, Jesus Cristo enviou seus apóstolos para pregar a todas as nações, isto é, derrubar todas as religiões existentes para estabelecer em toda a terra a única religião cristã e substituir todas as crenças dos diferentes povos pela unidade do dogma católico. E prevendo os movimentos e as divisões que esta doutrina vai incitar sobre a terra, Ele não se deteve e declarou que tinha vindo para trazer não a paz, mas a espada e acender a guerra não somente entre os povos, mas no seio de uma família e separar, pelo menos quanto às convicções, a esposa fiel do esposo incrédulo, o genro cristão, do sogro idólatra. A afirmação é verdadeira e o filósofo tem razão. Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma.(...)

Falam da tolerância dos primeiros séculos, da tolerância dos apóstolos. Mas isso não é assim, meus irmãos. Ao contrário, o estabelecimento da religião cristã foi, por excelência, uma obra de intolerância religiosa. No momento da pregação dos apóstolos, quase todo o universo praticava essa tolerância dogmática tão louvada. Como todas as religiões eram igualmente falsas e igualmente desarrazoadas, elas não se guerreavam; como todos os deuses valiam a mesma coisa uns para os outros, eram todos demônios, não eram exclusivos, eles se toleravam uns aos outros: satã não está dividido contra si mesmo. O Império Romano, multiplicando suas conquistas, multiplicava seus deuses e o estudo de sua mitologia se complica na mesma proporção que o da sua geografia. O triunfador que subia ao Capitólio fazia marchar diante dele os deuses conquistados com mais orgulho ainda do que arrastava atrás de si os reis vencidos. A mais das vezes, em virtude de um Senatus-Consulto, os ídolos dos bárbaros se confundiam desde então com o domínio da pátria e o Olímpio nacional crescia como o Império.

Quando aparece o Cristianismo (prestem atenção a isso, meus irmãos, são dados históricos de algum valor com relação ao assunto presente), o Cristianismo, quando apareceu pela primeira vez, não foi logo repelido subitamente. O paganismo perguntou-se se, ao invés de combater a nova religião, não devia dar-lhe acesso ao seu seio. A Judéia tinha se tornado uma província romana. Roma, acostumada a receber e conciliar todas as religiões, recebeu a princípio, sem maiores dificuldades, o culto saído da Judéia. Um imperador colocou Jesus Cristo assim como Abraão entre as divindades de seu oratório, como viu-se mais tarde um outro César propor prestar-lhe homenagens solenes. Mas a palavra do profeta não tardou a se verificar: as multidões de ídolos que viam, de ordinário sem ciúmes, deuses novos e estrangeiros serem colocados ao lado deles, com a chegada do Deus dos cristãos, lançam um grito de terror, e, sacudindo sua tranqüila poeira, abalam-se sobre seus altares ameaçados: Ecce Dominus ascendit, et commovebuntur simulacra a facie ejus. Roma estava atenta a esse espetáculo. E logo, quando se percebeu que esse Deus novo era irreconciliável inimigo dos outros deuses; quando se viu que os cristãos, dos quais se havia admitido o culto, não queriam admitir o culto da nação; em uma palavra, quando se constatou o espírito intolerante da fé cristã, é aí então que começou a perseguição.

Ouvi como os historiadores do tempo justificam as torturas dos cristãos: eles não falam mal de sua religião, de seu Deus, de seu Cristo, de suas práticas; só mais tarde é que inventaram calúnias. Eles os censuram somente por não poderem suportar outra religião que não seja a deles. “Eu não tinha dúvidas, diz Plínio o jovem, apesar de seu dogma, que era preciso punir sua teimosia e sua obstinação inflexível: Pervicaciam et inflexibilem obstinationem”. “Não são criminosos, diz Tácito, mas são intolerantes, misantropos, inimigos do gênero humano. Há neles uma fé teimosa em seus princípios, e uma fé exclusiva que condena as crenças de todos os povos: Apud ipsos fides obstinata, sed adversus omnes alios hostile odium”. Os pagãos diziam geralmente dos cristãos o que Celso disse dos judeus, com os quais foram muito tempo confundidos, porque a doutrina cristã tinha nascido na Judéia. “Que esses homens adiram inviolavelmente às suas leis, dizia este sofista, nisto não os censuro; eu só censuro aqueles que abandonam a religião de seus pais para abraçar uma diferente! Mas se os judeus ou os cristãos querem se dar ares de uma sabedoria mais sublime que aquela do resto do mundo, eu diria que não se deve crer que sejam mais agradáveis a Deus que os outros”.

Assim, meus irmãos, o principal agravo contra os cristãos era a rigidez absoluta de seu Símbolo, e, como se dizia, o humor insociável de sua teologia. Se só se tratasse de um Deus a mais, não teria havido reclamações, mas era um Deus incompatível, que expulsava todos os outros: eis porque a perseguição. Assim, o estabelecimento da Igreja foi uma obra de intolerância dogmática. Toda a história da Igreja não é outra que a história dessa intolerância. O que são os mártires? Intolerantes em matéria de fé, que preferem os suplícios a professarem o erro. O que são os Símbolos? São fórmulas de intolerância, que determinam o que é preciso crer e que impõem à razão os Mistérios necessários. O que é o Papado? Uma instituição de intolerância doutrinal, que pela unidade hierárquica mantém a unidade da fé. Porque os concílios? Para frear os desvios de pensamentos, condenar as falsas interpretações do dogma; anatematizar as proposições contrárias à fé.

Nós somos então intolerantes, exclusivos em matéria de doutrina: nós disto fazemos profissão; nós nos orgulhamos da nossa intolerância. Se não o fôssemos, não estaríamos com a verdade, pois que a verdade é uma, e conseqüentemente intolerante. Filha do céu, a religião cristã, descendo sobre a terra, apresentou os títulos de sua origem; ela ofereceu ao exame da razão fatos incontestáveis, e que provam irrefutavelmente sua divindade. Ora, se ela vem de Deus, se Jesus Cristo, seu autor, pode dizer: Eu sou a verdade: Ego sum veritas, é necessário por uma conseqüência inevitável, que a Igreja Católica conserve incorruptivelmente esta verdade tal qual a recebeu do Céu; é necessário que ela repila, que ela exclua tudo o que é contrário a esta verdade, tudo o que possa destruí-la. Recriminar a Igreja Católica sua intolerância dogmática, sua afirmação absoluta em matéria de doutrina é dirigir-lhe uma recriminação muito honrosa. É recriminar a sentinela ser muito fiel e muito vigilante, é recriminar a esposa ser muito delicada e exclusiva.

Nós ficamos muitas vezes confusos do que ouvimos dizer sobre todas essas questões até por pessoas de senso. A lógica lhes falta, desde que se trata de religião. É a paixão, é o preconceito que os cega? É um e outro. No fundo, as paixões sabem bem o que elas querem quando procuram abalar os fundamentos da fé, pondo a religião entre as coisas sem consistência. Elas não ignoram que, demolindo o dogma, elas preparam para si uma moral fácil. Diz-se com uma justeza perfeita: é antes o decálogo que o Símbolo que as faz incrédulas. Se todas as religiões podem ser postas num mesmo nível, é que elas se equivalem todas; se todas são verdadeiras é porque todas são falsas; se todos os deuses se toleram, é porque não há Deus. E se se pode aí chegar, não sobra mais nenhuma moral incômoda. Quantas consciências estariam tranqüilas, no dia em que a Igreja Católica desse o beijo fraternal a todas as seitas suas rivais!

Jean-Jacques Rosseau foi, entre nós, apologista e propagador desse sistema de tolerância religiosa. A invenção não lhe pertence, se bem que  tenha ido mais longe que o paganismo, o qual nunca chegou a levar a indiferença a tal ponto. Eis, com um curto comentário, o ponto principal do catecismo genovês, tornado infelizmente popular: todas as religiões são boas; isto é, de outra forma, todas as religiões são ruins (...).

A filosofia do século XIX se espalha por mil canais sobre toda a superfície da França. Esta filosofia é chamada eclética, sincrética e, com uma pequena modificação, é também chamada progressiva. Esse belo sistema consiste em dizer que não existe nada falso; que todas as opiniões e todas as religiões podem ser conciliadas; que o erro não é possível ao homem, a menos que ele se despoje da humanidade; que todo o erro dos homens consiste em crer possuírem exclusivamente toda a verdade, quando cada um deles só tem um elo e que, da reunião de todos esses elos, deve-se formar a corrente inteira da verdade. Assim, segundo essa inacreditável teoria, não há religiões falsas, mas elas são todas incompletas umas sem as outras. A verdadeira seria a religião do ecletismo sincrético e progressivo, a qual ajuntaria todas as outras, passadas, presentes e futuras: todas as outras, isto é, a religião natural que reconhece um Deus; o ateísmo que não conhece nenhum; o panteísmo que o reconhece em tudo e por tudo; o espiritualismo que crê na alma, e o materialismo que só crê na carne, no sangue e nos humores; as sociedades evangélicas que admitem uma revelação, e o deísmo racionalista que a rejeita; o cristianismo que crê no Messias que veio e o judaísmo que o espera ainda; o catolicismo que obedece ao papa, e o protestantismo que olha o papa como o anticristo. Tudo isto é conciliável. São diferentes aspectos da verdade. Da união desses cultos resultará um culto mais largo, mais vasto, o grande culto verdadeiramente católico, isto é, universal, pois que abrigará todas as outras no seu seio.

Esta doutrina que qualificais de absurda, não é minha invenção; ela enche milhares de volumes e de publicações recentes; e, sem que seu fundo jamais varie, ela toma, todos os dias, novas formas sob a pena e sobre os lábios dos homens em cujas mãos repousa os destino da França. — A que ponto de loucura nós então chegamos? — Nós chegamos ao ponto onde deve logicamente chegar todo aquele que não admite o princípio incontestável que estabelecemos, a saber: que a verdade é uma, e por conseqüência intolerante, excludente de toda doutrina que não é a sua. E, para juntar em poucas palavras toda a substância deste meu discurso, eu lhes direi: procurais a verdade sobre a terra? Procurai a Igreja intolerante. Todos os erros podem se fazer concessões mútuas; eles são parentes próximos, pois que tem um pai comum: Vos ex patre diabolo est. A verdade, filha do céu, é a única que não capitula.

Sim, Santa Igreja Católica, vós tendes a verdade, porque vós tendes a unidade, e porque vós sois intolerante, não deixais decompor esta unidade. É este, meus irmãos, nosso primeiro princípio: a religião que desce do céu é a verdade, e por conseqüência ela é intolerante quanto às demais doutrinas.

Não nos peçais a tolerância em relação às doutrinas. Encorajai, ao contrário, nossa solicitude em manter a unidade do dogma, que é o único laço da paz sobre a terra. O orador romano disse: a união dos espíritos é a primeira condição da união dos corações. E este grande homem faz entrar na definição mesma da amizade, a unanimidade de pensamento em relação às coisas divinas e humanas: Eadem de rebus divinis et humanis cum summa charitate juncta concordia.

Nossa sociedade está sujeita a mil divisões; nós nos lastimamos disso todos os dias. De onde vem este enfraquecimento das afeições, este resfriamento dos corações? Ah! meus irmãos, como seriam os corações aproximados onde os espíritos estão tão distantes? É porque cada um de nós se fecha no amor de si mesmo. Queremos por fim a essas dissidências sem número que ameaçam destruir todo espírito de família, de cidade e de pátria? Queremos não ser mais estrangeiros, adversários e quase inimigos uns dos outros? Voltemos a um Símbolo e nós reencontraremos logo a concórdia e o amor.

(Trecho de sermão pregado na Catedral de Chartres)

O sobrenatural em Lourdes

 

D. José Pereira Alves

Conferência ilustrada com projeções

 

Meus senhores, não sou eu quem vai fazer conferência. O vivo das telas, o colorido dos quadros, tudo que há de impressionante nas projeções se encarregará de dizer à vossa alma o que a minha palavra não pode nem sabe.

Se algum raio de eloquência brilhar nesta palestra, será o raio de eloquência esmagadora do fato, estudado à luz da crítica sábia dos competentes. Dar-me-ei por imensamente remunerado se depois no santuário da minha alma a vossa consciência me disser: cumpriste o teu dever de padre, de semeador do Evangelho. O trabalho que ides ouvir não tem preocupações científicas: é o trabalho do vulgarizador religioso. Dividi esta palestra em duas partes: — uma histórica e a outra apologética. Na primeira parte ouvireis a narrativa dos acontecimentos de Lourdes, cidade do sul da França; na segunda, vereis que esses prodigiosos acontecimentos provam a existência do sobrenatural, a divindade e a verdade da religião católica que os possui. Ponde em ação as vossas nobres faculdades e contemplai este novo paraíso que Deus plantou na terra e no qual Maria, a nova Eva, a Mãe da vida, oferece o fruto fecundo de extraordinárias bênçãos, de incontáveis benefícios de um coração de mãe.

 

A GRUTA

Eis ali a gruta, a gruta abençoada, onde a Formosa Senhora aparece a Bernadete Soubirous! Eis ali a gruta selvagem, silenciosa e triste entrelaçada pelos ramos de uma roseira brava! Quem diria que esta solidão seria o lugar de tanta maravilha? Quem diria que a rocha bruta desses ermos seria o teatro das graças mais escolhidas do Altíssimo?

Falando da gruta, o peregrino convertido escreveu o livro Du Diable à Dieu. Adolfo Retté arranca da sua alma na sua obra Un séjour à Lourdes estes belos sentimentos: “Daí se irradiam através das brumas do materialismo, as claridades deste astro fixo: o Sol da graça. Na gruta, o Sursum Corda realizado que se experimenta por toda a parte em Lourdes, toma todo o seu desenvolvimento.

A alma, embebida de oração, sente que aí é proibido ao mau girar em torno de si.

O influxo sobrenatural penetra-a, com uma imperiosa doçura e vivifica-a: é alguma coisa como uma Eucaristia de luz. Parece que se está numa estufa quente, onde pompeiam as palmas e as flores da vida contemplativa, enquanto o inverno reina lá fora.

Nesta tépida atmosfera, sente-se a presença da Santa Virgem. Os olhos do espírito se abrem, não é mais a estátua de Fabisch que ocupa a cavidade onde se deram as aparições: é a Imaculada mesma. Ela está lá: de suas mãos descem sobre as cabeças inclinadas as consolações e os ensinos. A gente se ajoelha e, como Bernadete, a gente beija o chão e fica-se num extase de uma inefável paz de espírito”

Meus senhores, a gruta selvagem e muda, nas rochas de Massabielle, vai em breve dourar-se de uma celeste e esquisita claridade.

A 1° de fevereiro de 1858, uma menina, acompanhada de sua irmã e uma amiga, se achava diante desta gruta agreste, silenciosa e triste. Era Bernadete.

 

BERNADETE

Vede, meus senhores: é a fisionomia, cheia de paz e de sinceridade, da eleita de Maria.

Mas quem era Bernadete? Era uma humilde filha de Lourdes, de 14 anos, o mais novo rebento do casal Soubirous. No lar paterno reinava a pobreza. Mais uma vez a lei ordinária da Providência que escolhe os fracos e os humildes para as grandes coisas, ia receber uma solene confirmação. A indigência dos Soubirous precisara de lenha e Bernadete, Maria, sua irmã, e Joana Abadie, sua companheira, partiram a busca-la. Fazia frio. Os cuidados da mãe de Bernadete, que sofria de asma, não permitiram que ela fosse sem meias.

Caminhavam elas ao longo do Gave que serpeava cantando a eterna queixa de suas águas e se viram na extremidade da ilha de Chalet, formada pelo Gave e pelo canal de Savy que se atirava à corrente fluvial ao pé da gruta selvagem, rodeada de silvas.

Maria e Joana tiraram os seus tamancos e atravessaram o raso canal do moinho. Bernadete de saúde delicada, temeu passar a corrente.

As companheiras se negaram a transportá-la; Bernadete esforçou-se inutilmente para passar o canal a pé enxuto. Resolveu tirar as suas meias. Já havia soado o meio-dia. Uma calmaria grande pairava no ar. O silêncio das margens do Gave era apenas interrompida pelo gemido da corrente. As folhas das árvores, imóveis, pendiam dos ramos tranquilos. Dir-se-ia que a natureza pressentindo um mistério se recolhera em uma solene e grandiosa meditação.

Ingênua e descuidada camponesa, tira as tuas meias que a terra que vais pisar, é santa. A calma da natureza que te envolve, não te impressiona? Meus senhores, o céu se aproximava da terra e a escolhida de Deus e da Virgem de nada suspeita em plena posse da mais perfeita tranquilidade do espírito, sem a excitação nervosa de espécie alguma, despreocupada. Apenas Bernadete tira uma das meias, um ruído de ventania forte quebrou a monotonia do campo. A menina ergueu os seus lindos olhos e nada viu. Dominava o mesmo silêncio de morte. Enganar-se talvez.

De súbito, um outro ruído, semelhante, apavorou a criança. Contemplou a paisagem em volta. Reinava a mesma calma nas bordas do Gave. Do lado oposto do canal, porém, a roseira brava que abraçava a gruta cavada na rocha abrupta era agitada por um vento forte. A rocha começou a iluminar-se. Um nimbo dourado se forma no rochedo e acima da moita agreste da roseira brava, uma visão deslumbra os olhos ofuscados de Bernadete. Era uma mulher de estranha e inigualável beleza, augusta e nobre.

 

A APARIÇÃO

Moisés se quedara, cheio de assombro, diante da sarça ardente do Horeb, donde trovejava a voz de Jeová.

Do centro duma sarça luminosa se erguia agora diante de uma simples camponesa o perfil celestial de uma mulher no viço da juventude, olhar de bondade e de expressão soberana. “Ela era jovem e bela, conta Bernadete, sobretudo bela, como eu nunca vi. Ela olhava-me, sorria, fazia sinal para que me aproximasse sem receio. E com efeito, eu não tinha mais medo, mas parecia que não sabia mais onde estava”

A Bela Senhora, de branca túnica, como a neve da montanha, cingida de azul, tinha sobre os alvos pés nus uma brilhante rosa de ouro. Das mãos postas em divinal atitude caiam as contas de um lindo terço alvíssimo.

Bernadete, instintivamente, de joelhos, começou a recitar o terço e a Formosa Aparição, sorrindo e aprovando, começou a passar entre os dedos angélicos as contas do seu terço, sem dizer palavra. Abria apenas os lábios purpurinos para dizer com Bernadete: — Gloria Patri, et Filio et Spiritui Sancto.

“Quando o terço acabou de ser recitado, diz Bernadete, a Senhora tornou a entrar no rochedo e a nuvem de ouro desapareceu com ela”

O espetáculo grandioso da visão mergulhava a menina privilegiada num êxtase e a lembrança doce e profundamente viva da deslumbrante e graciosa jovem não deixava o espírito de Bernadete.

Foi nesta doce contemplação que de joelhos a acharam suas companheiras que riram muito de encontrá-la em oração numa paragem tão deserta e triste.

Bernadete levantou-se e ajudou Maria e Joana a trazerem os três feixes de varas secas que tinham reunido.

O coração de Bernadete, porém, não pode resistir e contou tudo em segredo, à sua irmã. Em casa, debaixo da pressão de sentimento causado pelo maravilhoso fato começou a chorar. “Que tens Bernadete? ” Perguntou-lhe Mme. Soubirous. Maria revelou todo o segredo de sua irmã. “São ilusões, minha filha, disse sua mãe, expulsa essas ideias e sobretudo não voltes a Massabielle”. 12 e 13, sexta e sábado, foram para Bernadete dias de tortura. Ela ansiava por voltar à gruta. Um não sei que de misterioso a atraia. Meus senhores, iam principiar as grandes cenas desse drama divino que abalou e abala o mundo inteiro. No dia 14, Mme. Soubirous permitia que a filha fosse a Massabielle. As suas amigas tinham-na aconselhado a levar água benta. Diante da roseira brava ajoelhou Bernadete, orou e, pouco depois, rompeu o seu silêncio religioso, gritando: — “Lá está ela! Lá está ela! ”. Depressa, gritou-lhe uma companheira, atira-lhe água benta. Bernadete obedeceu e a Virgem luminosa sorriu. Foi a segunda aparição. Mme. Soubirous repreendeu sua filha e a ameaçou. Dias depois, a pedidos instantes de várias pessoas, Bernadete obteve autorização de ir à Gruta que exercia no seu espírito de criança uma sedução irresistível. Era o dia 18 de fevereiro. “Ei-la, exclamou Bernadete, e rindo, sem agitação apresentou à Senhora uma folha de pape. “O que tenho a dizer não é preciso escrever”, disse a visão, e pedindo a Bernadete que voltasse durante 15 dias, ajuntou: “Prometo tornar-te feliz, não neste mundo, mas no outro”. A notícia espalhou pela cidade como o raio. A curiosidade popular agitou-se, as opiniões dividiram-se. Entretanto as aparições sucederam-se na presença de milhares de testemunhas. Já na quarta houve 500 pessoas. A vidente foi examinada, interrogada pelo médico de Lourdes, Dr. Dozous, pelo Sr. Dufo, advogado, pelo Sr. Pougat, presidente do tribunal. Suas respostas simples, precisas, claras, cheias de verdade e sinceridade, deixaram-nos estupefatos.

Na 6ª aparição, estudada cientificamente pelo Dr. Dozous, que nada verificou de anormal no organismo de Bernadete, a visão pediu que ela rezasse pelos pobres pecadores, pelo mundo tão agitado. “Deixando estes lugares onde a emoção geral era tão grande, narra o Dr. Dozous, testemunha ocular interessada, Bernadete retirou-se como sempre, na atitude mais simples, mais modesta, sem prestar atenção à ovação pública de que era objeto”. Os poderes públicos julgam prudente intervir; intentam dissuadi-la de ir a Massabielle e ela tem para dar-lhes uma resposta de heroína: “Não vo-lo prometo”. A franqueza lutava com a força e venceu-a.

Ameaçada de prisão, resiste. Não tinha ela prometido à Bela Senhora voltar durante 15 dias? Daí em diante gendarmes acompanhavam a vidente à gruta.

No dia 24, renova-se a aparição. No dia 25, depois de alguns minutos de meditação, Bernadete levanta-se, afasta os ramos da roseira brava e beija a terra debaixo da rocha além da sarça. E voltando continua a sua prece. Levanta-se de novo, indecisa, adianta-se para o Gave, recua, parece escutar alguém. Volta para a gruta e depois de ter levantado a cabeça como para interrogar a Visão começa a cavar a terra. A cavidade que fizera, enche-se de água: ela bebe desta água e com ela lava o rosto. O fio d’água se avoluma, torna-se um jorro potente e transforma-se nesta fonte maravilhosa que abastece as nove piscinas de Lourdes, produzindo 122 mil litros de água por dia. Na 11ª aparição, Bernadete recebeu esta mensagem: “Ide dizer aos padres que aqui se deve edificar uma capela”. Vinte dias depois do dia 4 de março, entre 15 a 20 mil pessoas assistiram ao êxtase, a branca Aparição já esperava no seu nicho de pedra a sua predileta. Era o dia 25 de março, dia da Anunciação. Bernadete partira para Massabielle à primeira alvorada. Contra a sua expectativa, a rocha já estava banhada pelo suave e divino resplendor da Visão que, jovem e radiante, pousava sobre a sarça da roseira selvagem. Bernadete caindo de joelhos pediu-lhe que dissesse quem era. A Bela Senhora deixou aflorar nos lábios um sorrido.

“Ao meu terceiro pedido — conta Bernadete — a Senhora juntou suas mãos, elevou-as até o peito, olhou para o céu, depois, separando lentamente as mãos e inclinando-se para mim, me disse: Eu sou a Imaculada Conceição

Na poesia virgiliana, em formoso hexâmetro, se encontra este belo verso do cisne mantuano: — Incessu patuit Dea — A Deusa revelou-se pelo andar.

Bem mais luminosa, bem mais bela, de maior candura de mais augusta majestade que a Deusa olímpica — fantasia de poeta — sois Vós, ó Imaculada. Nos revelastes pelas palavras, cheias de emoção e de virtude, com que confirmas com tanta solenidade o dogma de vossa Imaculada Conceição, proclamado pela voz infalível de Pio IX. Ah! Meus senhores, o véu do mistério que envolvia a gruta, caíra e nesta onda de luz reveladora como numa visão apocalíptica fulge no céu da História da Igreja um grande sinal. Era uma mulher vestida de sol! Depois de sua morte, Maria ainda não se revelara tão solenemente à sua grande família humana!

A multidão, ao saber da celeste resposta, delirante e transportada de entusiasmo, caiu de joelhos e fez ressoar pelas margens do Gave murmurante, a invocação da Imaculada: — “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós

 

O MILAGRE DA VELA

A 7 de abril, a doce e graciosa visão iluminou a rocha de Massabielle. Foi então que se deu o célebre milagre da vela. Damos a palavra ao Dr. Dozous, testemunha do fato que assim o descreve:

“No momento em que ela começava a fazer de joelhos a sua ascensão ordinária, sobreveio de repente um tempo de suspensão neste movimento, e sua mão direita, aproximando-se então da esquerda, pôs a chama da grossa vela debaixo dos dedos desta mão, bastante afastados uns dos outros para que esta chama pudesse passar facilmente entre eles. Ativada nesta ocasião por uma corrente de ar assaz forte, não me pareceu produzir na pele que atingia nenhuma alteração. Cheio de pasmo diante deste fato estranho, impedi que alguém o fizesse cessar, e, tomando o meu relógio, pude, durante um quarto de hora, observá-lo facilmente. Concluída a sua oração e havendo desaparecido de sua face a transformação, Bernadete levantou-se e dispôs-se a retirar-se da gruta. Retive-a um momento e lhe pedi que me mostrasse a mão esquerda que examinei com o maior cuidado. Não encontrei vestígio nenhum de queimadura. Dirigindo-me então à pessoa que havia tomado a vela, roguei-lhe que a acendesse e me desse. Imediatamente coloquei muitas vezes, continuadamente a chama da vela sob a mão esquerda de Bernadete que a retirou, dizendo-me: Não me queimeis. Este fato refiro-o como o vi e como muitas pessoas, colocadas como eu perto de Bernadete, o verificaram perfeitamente; refiro-o tal como se deu, sem explica-lo”

Meus senhores, o milagre da vela desafia a ciência humana a explica-lo dentro das leis que regem a natureza. Ele permanecerá inexplicável, senão apelarmos para Deus que assim vinha autenticando irrefragavelmente os assombrosos acontecimentos de Lourdes. A décima-oitava e última aparição realizou-se no dia de N. S. do Carmo. “A Virgem sorriu a Bernadete, diz um orador, como para confirmar o passado e iluminar o futuro”. Desse dia em diante Bernadete volta à sua vida ordinária, frequentando a escola, simples, de uma ingenuidade adorável. Viveu depois destas maravilhas mais 20 anos. Em Nevers tornou-se Soror Maria Bernard. Ela escondeu-se na dobra de sua grande humildade. “Não se a imagina casada, mãe de família; perdida nos tumultos e nas algazarras do século”, diz Adolpho Retté. Deve-se-lhe aplicar o belo verso de Luiz de Cordonell.

Radiante por ter desposado o silêncio; ela sepultou-se num mosteiro. Escolheu a melhor parte e renunciando a si mesma, acabou de merecer a felicidade eterna cuja segurança a Santa Virgem lhe tinha dado. Bernadete cumprira a sua missão, abrira para a humanidade enferma, um caminho de vida, de benção, de paz, o caminho trilhado pelos peregrinos de todo o mundo, que conduz a Lourdes, a humilde cidade transformada pela celestial predileção da Virgem no paraíso de suas graças e no grande empório de fé para onde convergem as multidões que vão suplicar à Imaculada a cura do seu corpo e a luz de sua alma.

Lourdes é a cidade de Maria, é a nova Jerusalém, é a Canaã, onde mana leite e mel perenemente.

Tendes diante de vós, um panorama de Lourdes.

Lourdes, envolvida no manto azul da Virgem luminosa, Maria escolheu-te entre as tuas irmãs para seres a urna sagrada do seu coração de Mãe. Salve, Lourdes!

Lourdes é a cidade da Virgem. Depois que o clarão de Massabielle se projetou sobre ela como uma benção de luz, Lourdes tornou-se o centro da atração universal das almas, um foco interno de vida e de salvação.

Lá está a nova piscina de Siloé, onde os doentes deixam as suas muletas e os seus bordões, as suas compressas e os seus catres. Maria aí pronuncia um contínuo — surge et ambula — a todos que vão implorá-la na sua gruta bendita. Ela dissera: “Eu quero que aqui venham em procissão”

E de todo o mundo ali tem vindo, em imponentes peregrinações, a procissão de toda a Cristandade. Que dizem, senhores, as estatísticas? Ouçamos Bertrin: de 1867 a 1909 exclusivamente houve em Lourdes 5.207 peregrinações que tiveram 4.919.000 peregrinos. Naturalmente, os primeiros anos fornecem a parte mais modesta nesta espantosa estatística. Se, desprezando o ano excepcional do cinquentenário, tomarmos os dez que o precederam, veremos que há uma média anual de 155 peregrinações. Em dez anos 2.491 trens levaram 1.549 grupos, que compreendiam 1.636.000 peregrinos. A estas cifras pasmosas, ajuntemos o número incalculável de peregrinos isolados, de turistas e curiosos. A estação de Lourdes, ela só, recebe por ano mais de um milhão de viajantes.

De todos os países do globo afluem peregrinos. O Episcopado está a frente deste grandioso movimento. Os santuários de Lourdes onde drapejam as bandeiras dos povos em honra de Maria e que recordam pela piedade dos fiéis as bondades inexplicáveis da Virgem de Massabielle, têm sido visitados por 2.013 bispos, arcebispos, primazes, cardeais, vindos dos mais diversos e remotos pontos do mundo.

A nossa querida pátria enviou a Lourdes 36 bispos que depositaram aos pés de Maria a homenagem da terra do Cruzeiro que é também a terra da Imaculada! E Lourdes, cantada pela harpa da Cristandade, exaltada pelo episcopado, coroada de glória pelos Pontífices Romanos, achou pequena a França para contê-la e multiplicou-se pelo mundo inteiro nas pequenas grutas, representativas da sua, espalhadas pelo orbe. Leão XIII falando de sua gruta nos jardins do Vaticano dizia a um cardeal: “Que quereis? É o meu canto de França”. O Gave não rola mais as suas águas por deserta e solitária natureza, mas um Te Deum de gratidões eternas perpassa, vibrante de fé, pelas suas margens outrora despovoadas. “Que tiveste, ó Gave, exclama Mons. Pie para fugires, porque recuastes? E de ti, Montanha, que transportes se apoderaram para saltares como os carneiros suspensos dos teus cumes, e vós, colinas, para dardes pulos como os cordeiros presos aos vossos flancos? ”

O globo inteiro sentiu uma comoção desde que, pela virtude da ordem celeste, a pedra foi cavada em forma de bacia e de reservatório, desde que o rochedo foi convertido em uma fonte d’agua que não deixou de correr. Qui convertit petram in stagna aquarum et rupem in fontes aquarum

Meus senhores, Lourdes é o grande hospital que a Providência abriu na terra para as chagas físicas e morais do gênero humano. Milhares de doentes ali desembarcam para merecerem o favor da Virgem. É um espetáculo vivo da dor humana gravada naquelas faces macilentas e cavadas pelas enfermidades, naqueles membros cobertos de chagas e paralíticos. O trem branco silva, levando o sofrimento da humanidade à Gruta miraculosa, às suas piscinas, aos seus santuários, erigidos pela fé e pelo amor. Seria infindável a lista das diversas enfermidades de toda a espécie, curáveis e incuráveis.

Em leitos, em catres, de muletas, em carros, os doentes invadem a cidade de Maria. E a palavra humana poderá dizer o delírio, o entusiasmo e sobretudo o hino de gratidão que rebenta do peito dos miraculados? E Lourdes está tão impregnada de fé, de esperança, de amor, sente-se ali tanto a presença maternal da Virgem que, coisa notável, ainda os não miraculados partem dali com a alma inebriada de uma paz reconfortante e de uma alegria viva e admirável. E a partida dos trens de Lourdes é para os que se ausentam daquele pedaço do céu, um aperto do coração, o despertar amargo de uma saudade que acabrunha.

As glórias de Maria não podem ser comparadas às glórias do seu Filho. Em 1888 o Santíssimo Sacramento começou a receber uma solene manifestação de fé. É a imponente procissão do Santíssimo Sacramento. Os círios tremem brilhantes. Os estandartes oscilam reverentes, no espaço. A voz grave da tribo sacerdotal é interrompida pelas aclamações dos fiéis. Sublime espetáculo!

Como tu és bela, como tu és grande, como tu és divina, ó incomparável religião que produzes tais maravilhas! E lá estão os enfermos que pedem ao Filho de Davi a sua cura, lá estão nos seus catres os grandes doentes esperando a passagem miraculosa do Filho de Maria. Dá-se uma cura e um frêmito eletriza a multidão. É o triunfo do Cristo, é o triunfo de Maria. Magnificat, cantam mil vozes; Magnificat, gritam mil peitos; e o Cântico da Virgem ondula por aquela massa iluminada que se agita, reboando ao longe. Lourdes, teatro de tão estupendos prodígios, apresenta ao mundo civilizado e à incredulidade sarcástica a prova científica dos seus milagres. Lá está Le bureau des constatations criado em 1887, dirigido a princípio pelo Dr. Saint-Maclou e depois pelo ilustre Dr. Boissarie. “Redige, diz um escritor, uma média de 140 processos verbais por ano. Aí houve em 1897, sobre 210 trens de peregrinações, 2.825 doentes hospitalizados; 5.053 em 1901; 5.502 em 1904, 5.618 em 1907”

Neste ofício de verificações médica, são as curas examinadas com o rigor dos processos científicos. Todos os médicos, quaisquer que sejam suas ideias e opiniões, podem estudar os fatos miraculosos. Em Lourdes tudo se faz às claras, como testemunham atestados de profissionais que não partilham das nossas crenças.

 

A GRUTA (estado atual)

Meus senhores, encerrando o quadro breve e imperfeito da história de Lourdes, eu vos peço mais um olhar para a gruta de Massabielle, não mais para a gruta selvagem e deserta das bordas do Gave, mas para a gruta, bruta e selvagem na sua natureza severa, transformada pela piedade reconhecida. Ei-la! Acima da roseira brava se destaca A Madona de Fabisch, em mármore Carrara, de formosura ideal.

Dezenas de muletas, ali deixadas pelos agraciados da Virgem, pendem como troféus de vitória. Os círios trêmulos que a mão do reconhecimento acende iluminam o sagrado recinto. “Eu poderia, diz Adolpho Retté, o anarquista convertido, descrever as multidões que se sucedem na Gruta, salientar as diversas maneiras porque revelam a sua devoção. Eu poderia dizer estes furacões de litanias e de invocações que reclamam às vezes o gesto e a palavra dum diretor de peregrinações. Eu poderia juntar os doentes e seus olhares e suas fisionomias transfiguradas pela esperança”. Sim, meus senhores, o mundo se precipita sobre Lourdes e se acotovela nas grades da Gruta abençoada. Ali todas as classes se misturam e se abraçam como irmãos. Lourdes promove a confraternização dos povos, prega o heroísmo da caridade com o exemplo de suas instituições de assistência cristã dos seus liteiros abnegados; desperta o sentimento religioso e estabelece a harmonia social unindo as nacionalidades num cosmopolitismo admirável e sublime.

A grua misteriosa, em cujas rochas a Virgem deixou para sempre o rastilho, a impressão luminosa de sua visão, a benção fecunda do seu amor, agasalhando-os debaixo de sua túnica de Mãe, cinge todos os corações num só halo de esperança, numa democracia bendita, a democracia de Maria Imaculada.

Meus senhores, Loures que é um foco de religião e de amor, é no meio da Igreja de Deus a apologética viva de nossa fé. Deus encarregou sua Mãe adorável de dar à audácia insultante da incredulidade a resposta esmagadora dos assombrosos milagres de Massabielle, que demonstram irrespondivelmente a existência do sobrenatural e a divindade da religião que a possui.

É o que vamos ver na senda parte desta palestra.

 

II PARTE

 

Meus senhores, as aparições de Bernadete foram reais? Este movimento universal, esta manifestação grandiosa é apenas uma forma de fanatismo que tem as suas raízes no embuste ou na ilusão? Meus senhores, a realidade das aparições de Massabielle trazem o cunho duma verdade indubitável.

As leis que regem o testemunho histórico dos fatos naturais são as mesmas que regem o testemunho dos fatos maravilhosos. Se o testemunho de Bernadete está revestido das condições devidas para arrastar o consenso, ninguém mais poderá negar a realidade de suas extraordinárias visões.

Ora, ele o está duma maneira soberana. Para que Bernadete seja digna de crédito, basta provarmos que ela não quis enganar-nos nem se enganou: a sinceridade e a ciência de Bernadete. Quem estuda a psicologia de Bernadete, quem observa a alma ingênua desta montanhesa, simples não pode duvidar da sua sinceridade.

A ignorância, a simplicidade, a modéstia, o desinteresse dessa menina, deixam à parte toda a suspeita.

Impossível que Bernadete fosse uma comediante.

Quanto a afligiam os interrogatórios!

Jamais quis focalizar na sua pessoa que mais escondia na solidão do claustro.

Menina, pobre, sem recursos jamais quis aceitar um real da generosidade pública. Os testemunhos abundam. As suas respostas em interrogatórios habilmente preparados e feitos por pessoas por responsabilidade social, foram sempre resposta claras, precisas, sem a mínima contradição. Bernadete, ignorante e simples camponesa, triunfou sempre de todas as provas de todos os laços armados para surpreendê-la. Na hora de sua morte, neste momento solene em que a alma vai comparecer ao tribunal do Deus vingador, vinte anos depois dos extraordinários sucessos. A Igreja quis fazer a Bernadete, então Soror Maria Bernard, um supremo interrogatório. Os delegados dos Bispos de Tarbes e Nevers, assistidos pelas religiosas, junto àquele leito já ensombrado pela asa da morte, ouviram da vidente risonha a confirmação formal das suas revelações. Bernadete morreu dizendo: — “Eu a vi, sim, eu a vi”. Mas se a sinceridade de Bernadete escapa a toda dúvida, não ter-se-á enganado ela, não teria sido vítima duma profunda alucinação mental? Sim, respondem os céticos. Não, respondemos nós, responde a ciência, responde a eloquência das circunstâncias desta grande história.

As influências nervosas supõem uma natureza nervosa. Ora, Bernadete, além de asma, não sofria doença. O seu temperamento era calmo, são, alegre e risonho. A ideia religiosa não lhe teria produzido no espírito uma agitação profunda? Nenhuma. A piedade de Bernadete era uma piedade simples que nada tinha de extraordinário. A sua cultura religiosa, a dificuldade que ela tinha a esse respeito, não a puderam preparar para um misticismo tão exaltado. Nem a exercícios espirituais a menina Soubirous assistia. Ainda não fizer a primeira comunhão. A natureza física e moral de Bernadete era contrária absolutamente a qualquer alucinação. Antes da visão, durante a visão e depois da visão, a conduta, as maneiras, as palavras de Bernadete, repugnam às leis da alucinação. Não me sendo permitido assinalar as provas abundantes da não alucinação de Bernadete, limito-me a salientar a explicação científica do Dr. Voisin, médico e notável e competente de Salpetrière.

A alucinação de Bernadete foi completa e deveria ter produzido o desarranjo cerebral, porque o cérebro de uma criança não pode resistir a uma alucinação de tal natureza. E, concluindo que tal era a alucinação de Bernadete, afirmou que ela ficara louca e por isso fora internada num convento. Ora, a loucura de Bernadete é uma calunia. Não há nada melhor provado do que o senso perfeito de Bernadete, o que é atestado pelos médicos e por todos. A conclusão do Dr. Voisin prova, pois, a não alucinação de Bernadete. Se fora alucinada teria perdido a razão; ora, tal não se realizou. E assim, meus senhores, o testemunho de Bernadete, cheio de sinceridade e pleno e real conhecimento, se impõe a todo o espírito reto e imparcial. Qual foi a atitude da Igreja diante das aparições de Massabielle? Foi a da prudência e da reserva. Para que recordar a severidade e a prudência de Mons. Peyramale, pároco de Lourdes, recebendo as declarações de Bernadete, as exigências de seu zelo talvez um tanto excessivas? Os fatos maravilhosos de Lourdes foram tomando tanto vulto que Mons. Peyramale se viu obrigado, cheio de emoção, a levar a seu Bispo o estado singular de sua paróquia. Mons. Laurence apelou para a ação do tempo até que veio o momento oportuno de nomear solenemente uma comissão episcopal de sindicância, composta de dezesseis membros. Depois de longas e paciente investigações, foi a 18 de janeiro de 1862 que apareceu o mandamento do Sr. Bispo de Tarbes dando julgamento sobre a aparição que se realizou em Lourdes.

“Nós julgamos que a Imaculada Maria realmente apareceu a Bernadete Soubirous a 11 de fevereiro de 1858 e dias seguintes, em número de 18 vezes na Gruta de Massabielle, perto da cidade de Lourdes; que esta aparição reveste todos os caracteres da verdade e que os fiéis têm motivos fundados para crê-la certa. Submetemos humildemente o nosso juízo ao juízo do Soberano Pontífice, que é encarregado de governar a Igreja Universal”. Os Sumos Pontífices, não se tratando de fé e de moral, não intervieram para confirmar o sentido diocesano. Mas pelas suas palavras, pelo seu exemplo, pela sua devoção, têm dado a equivalência desta aprovação pública.

Pio X, gloriosamente reinante, não estabeleceu como festa litúrgica da Igreja Universal a 11 de fevereiro, a Festa da Aparição da Imaculada?

Meus senhores, não há que duvidar, a realidade das aparições de Lourdes é um fato de solidíssimas bases históricas e a Virgem de Massabielle o continua a demonstrar com o argumento fulgurante dos seus milagres.

A crítica científica exige que nos tempos presentes fatos e fenômenos para construir os alicerces de suas verdades. Pois bem, Lourdes, se satisfaz plenamente. O projecionista vai fazer desfilar diante de vós, como numa procissão de dor e ao mesmo tempo de ventura, diversos mártires do sofrimento curados pela Virgem de Lourdes.

Eu quisera ter tempo de analisar e criticar cada um destes milagres para fazer ressaltar a intervenção do divino, do sobrenatural.

Mas ainda assim a sua simples exposição é impressionante e vale um argumento.

 

YVONNE AUMAITRE

É uma interessante criança de 23 meses. Tinha os dois pés aleijados. Seu pai que era médico mergulhou-a na piscina e, ao retirá-la, abraçou-a curada e sã.

 

VION DURY

É um velho soldado. Num incêndio as chamas lhe queimaram os olhos. Verificava-se um duplo descolamento da retina. Fez uma novena no Hospital de Anfort à Virgem de Lourdes.

Repentinamente sentiu uma grande dor. Maria restituiu a vista ao cego.

A sociedade francesa de oftalmologia proclamou que era um caso sem precedentes.

 

CONSTANCE PIQUET

Foi declarada incurável, afetada dum cancro horrível que a devorava há três anos, é miraculada em Lourdes pela divina e celeste “consoladora dos aflitos”. Dois minutos após a imersão, o cancro havia desaparecido.

Cura instantânea, verificada uma hora mais tarde por 15 a 20 médicos, inclusive o Dr. Regnauld, da Escola de Medicina de Reims.

 

VIUVA PECANTET

Atacada de lúpus é igualmente beneficiada pela misericordiosa Virgem de Massabielle.

 

CATHERINE LAPEYRE

Devorada por um cancro na língua, arrastada pela fama dos prodígios daquela que é a Mãe de Misericórdia e nossa esperança, teve um olhar de súplica para Maria que, bondosa e terna, lhe restituiu a saúde.

 

GABRIEL GARGAN

Para descrever este milagre de um grande valor apologético por causa da excepcional circunstancia em que se realizou, eu apelo para a pena brilhante do poeta, convertido acima citado: — “E que dizer daqueles que não possuíam a fé e que se vangloriavam de sua incredulidade e que vieram apenas a Lourdes a instância duma família crente ou para adoçarem o pesar duma mãe piedosa? ”

Estou perdido, dizem eles, pouco importa o que fizerem de mim. Foi o caso de Gargan. Sua história tem sido muitas vezes contada.... Recordo somente que, depois de um acidente da linha de ferro, Gargan, acometido de um traumatismo da medula espinhal, viu-se inteiramente paralisado. De mais, seu estômago apenas suportava quantidade ínfima de alimento; não dormia e sofria dores intoleráveis. Enfim, à sua chegada a Lourdes, a gangrena havia invadido os seus membros inferiores.

Resistiu por muito tempo as súplicas de sua mãe, que, vendo-o condenado pelos médicos, só esperava na Santa Virgem. Ele cedeu apenas para ter paz. Durante a viagem, recusou a orar e pouco antes de entrar na estação, como sua mãe lhe pedisse para levantar os olhos para o crucifixo que culmina a montanha chamada do Calvário, ele desviou a cabeça aborrecido.

Era um incrédulo total! A vinte de agosto de 1901, levaram-no numa padiola à esplanada para receber a benção do Santíssimo Sacramento. Tinha perdido os sentidos. Sua face apresentava uma coloração azul; seu corpo estava gelado. Parecia tão perto da morte que os assistentes estiveram a ponto de reconduzi-lo ao hospital para que a vista deste cadáver não atemorizasse os outros doentes. Não, deixai-o gritou a pessoa que o acompanhava, se ele morrer cobrir-lhe-ei a face e após a benção o levaremos.

O Santíssimo Sacramento passou no meio de cânticos e invocações. Apenas o sinal sagrado foi traçado sobre a cabeça de Gargan, este levanta-se, salta da padiola, dá alguns passos, gritando: — “Santa Mãe de Deus, eu vo-lo agradeço”. Estava curado.

Meus senhores, que há na terra de mais sublime? Que há de mais maravilhoso do que a Benção da Imaculada salvando a vida aos próprios incrédulos de um modo tão espantoso? Lourdes confunde a impiedade e Lourdes a salva.

Dupla cura: do corpo e do coração. Em Lourdes, agradecido, Gabriel Gargan, vai fazer todos os anos o serviço de carregar as padiolas e banhar os doentes na piscina!

 

CAROLINE ESSERTEAU

Era doente da medula espinhal. A cabeça, as pernas não podiam virar-se em todas as direções.

Foi declarada incurável. Mas a Virgem de Lourdes encontrou na sua divina terapêutica o remédio para os seus males.

 

CLEMENTINA TROUVÉ

Tinha uma doença dos ossos da cabeça. O seu lugar de moradia era protestante.

Curada, instantaneamente ao primeiro banho da piscina, ela foi na terra objeto de discussões. O médico que a examinou antes da partida não pode deixar de exclamar: fosse o bom Deus ou o diabo, a menina está curada.

 

MARIE LEBRANCHU

Tuberculose no 3° grau. Era um esqueleto vivo, diz Bertin; a tosse a sacudia de um modo deplorável. Ao sair da primeira imersão, escrevem os médicos de Lourdes, Marie Lebranchu experimenta um bem-estar instantâneo. Examinamo-la com cuidado no gabinete dos médicos. Não encontramos nem estertores, nem sopros, nem palidez. O Presidente do Bureau ajunta: — Não restava nem o menor traço de lesão no pulmão.

 

MARIE LEMARCHANEL

A sua cura pertence à classe das curas instantâneas. Eis o que diz uma testemunha ocular, o Dr. Homtres: “Lembro-me muito bem de ter visto Marie Lemarchanel diante das piscinas esperando a sua vez de tomar banho.

Seu aspecto, particularmente repugnante, tocou-me. As duas faces, a parte inferior do nariz, o lábio superior, estavam cobertos de uma úlcera inferior do nariz, o lábio superior, estavam cobertos de uma úlcera de natureza tuberculosa, e segregando um pus muito abundante. Os panos que cobriam esta face estavam cobertos de pus. Ao sair da piscina, eu dirigi-me imediatamente ao hospital, para junto dessa mulher.

Reconheci-a muito bem, ainda que o seu aspecto estivesse inteiramente mudado. Em lugar da repugnante chaga que eu acabava de ver, achei uma superfície, ainda vermelha, na verdade, mas seca e como recoberta de uma epiderme de nova formação. Os panos que tinham servido para prensar a chaga, antes de sua entrada na piscina estavam ao lado dela todos manchados de pus”. E o médico, atestando a cura de igual chaga na perna da doente, termina vivamente impressionado por uma tão súbita mudança, produzida por uma simples imersão na água fria, numa afecção, como o lupus, tão rebelde a toda espécie de medicamentos.

São estes últimos doentes as três personagens do célebre romance de Émile Zola, o blasfemador das obras de Maria.

Mas... adiante, meus amigos, não nos envenenemos na atmosfera deletéria de Émile Zola.

 

PIERRE DE RUDDER

A perna deste homem foi arrebentada por uma árvore. A cura deste miraculado ficou célebre. Os ossos quebrados, saíam das suas chagas que foram examinadas pelos médicos. Foi curado no santuário de Nossa Senhora de Lourdes, em Oostakker, na Bélgica. A sua cura foi instantânea. Os ossos fragmentados se soldaram, fechando-se a chaga. Depois da morte de Rudder, exumaram o seu cadáver e todo o mundo verificou a soldadura.

Que mais para o milagre?

Senhores, em Lourdes a intervenção do sobrenatural é uma evidência. Só os espíritos orgulhosos, pseudocientíficos, de parti pris, num apriorismo lamentável de incredulidade, ousam negá-lo.

As curas operadas pela Virgem de Lourdes, se operam na Gruta, na passagem do Santíssimo, nos trens e mesmo fora de Lourdes. Recebem o favor do céu crentes e incrédulos.

Apelaram para a sugestão e os apologistas católicos poderão responder com o Dr. Beruhens no seu livro “De la suggestion et de ses aplications á la therapeutique”. Muitas vezes opera maravilhas, mas não milagres. Não há remédio que possa restaurar o que foi destruído. A sugestão nunca poderá restabelecer uma função cujo órgão indispensável já não existe”. Apelaram para as virtudes terapêuticas da água de Lourdes, e a análise química não encontrou na fonte milagrosa qualidades curativas. Excelente água potável simplesmente. Charcot comparou os doentes de Lourdes aos seus internados de la Salpêtrière. Mas, oh! Que diferença! A placidez, a piedade, a resignação dos enfermos de Lourdes, estão em oposição com os fenômenos de alucinação e histeria dos doentes daquele hospício. Batidos, em todos os pontos, os inimigos refugiam-se nos redutos do agnosticismo. É a força desconhecida. A força desconhecida, meus senhores, é Deus, é Maria. Terminemos com as notáveis palavras do Dr. Varguez, inspetor das águas de Baséges, professor da Faculdade do Montpellier. Há aí certamente uma força contingente superior às que foram dadas à natureza, estranha à água de que ela se serve para a manifestação do seu poder. Se me perguntarem o que eu vi em Lourdes, disse o eminente professor, antes de morrer, eu posso responder: “Pelo exame dos fatos mais autênticos, colocados acima do poder da ciência e da arte, eu vi, eu toquei a obra divina, o milagre”

Meus senhores, Lourdes é o sobrenatural revelado em pleno século materialista e irreligioso.

Mas se existe o sobrenatural na Gruta de Massabielle, divina é a Fé que ilumina Lourdes, divina é a Igreja Católica em cujo seio Lourdes esplende como radiante estrela. Divino são os preceitos desta religião de maravilhas e, como tais, impõem à consciência na conduta moral dos indivíduos, das famílias e da sociedade.

Quando a impiedade ousou gritar: — Deve-se fechar Lourdes! 2.500 médicos uns em nome da religião, outros em nome da humanidade, diversos em nome da medicina, refutando as ridículas objeções, responderam: — Não!

Em Dr. Vicent se podem ler as suas abalizadas e doutas respostas.

Senhores, sob as abóbadas da basílica mariana continuam os cânticos da gratidão mundial. Das suas colunas tremulam, como homenagem dos povos, os pavilhões das nações de Maria, e ali, eu vejo ondular a bandeira de minha pátria, carregada, dos troféus de sua grandeza, como o símbolo auriverde do coração do Brasil, a terra da Imaculada. O mundo inteiro canta aos pés de Maria: Salve, ó Virgem Coroada, Salve! Doce visão de paz e de ternura inigualável a se destacar imaculada e branca, destes nimbos misteriosos, tu resumes o ideal da Beleza, da Verdade e do Amor. O Bardo dos cânticos já tinha cantado: — Pomba minha, mostra a tua face nas aberturas da rocha. Senhora, enquanto a harpa humana tiver uma corda, ela vibrará em tua honra, enquanto o coração dos teus filhos tiver uma fibra, ela soluçará o hino de sua gratidão, e o eco do seu gemido irá se juntar a esse Ave, Ave, Maria, que reboa, há mais de 50 anos pelas ilhargas das montanhas de Massabielle.

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

Conferência sobre a Ressurreição de Cristo

D. José Pereira Alves

Conferência realizada no Círculo Católico do Rio de Janeiro

 

Eminência

Exmo. e Revmos. Senhores

Minhas Senhoras,

Senhores.

 

O Exm°. Sr. Dr. Moreira da Fonseca acaba de ler a esta douta assembleia o seu magnífico trabalho em que nos deu a certeza da morte real de Jesus Cristo.

Cabe-me a honra de oferecer ao vosso elevado espírito, a consideração das provas da Ressurreição do Divino Salvador.

 

O SEPULCRO VAZIO

O túmulo, em que jazia o corpo de Jesus Cristo exânime, fora encontrado vazio. Eis um fato verificado pelos apóstolos, por Santa Maria Madalena, pelas santas mulheres e pelos discípulos. “Alguns dos nossos foram ao sepulcro, escreve S. Lucas, e acharam todas as coisas como as mulheres o tinham dito”

Esta mesma verificação foi feita pelos inimigos de Cristo. Não pode haver dúvida. Os guardas do túmulo não podiam deixar de comunicar os acontecimentos da noite aos seus chefes.

Os príncipes dos sacerdotes e anciãos que tinham espalhado pelo povo a notícia do furto do corpo, foram com toda a certeza e, com eles os habitantes de Jerusalém, examinar o sepulcro de onde desaparecera o corpo do Crucificado.

São milhares de testemunhas — as próprias testemunhas da morte — que podem ver e percorrer o túmulo do Cristo vazio.

O corpo de Jesus não está mais ali.

Que era feito, pois, do corpo de Jesus Cristo?

 

APARIÇÕES

Santa Maria Madalena volta ao Jardim de novo deserto, com o espírito agitado por mil pensamentos. O Divino Mestre morrera.

Havia só no meio de sua confusão mental um ponto evidente e desesperador. O túmulo estava vazio. Mais uma vez ela percorre com o olhar indagador o interior do sepulcro e certifica-se da sua desgraça. Não estava mais ali. Ela viu então dois anjos, dois enviados de Deus, vestidos de um manto branco, assentados um à cabeceira, outro no pé do túmulo no qual o Senhor repousara.

“Mulher, disseram os anjos, porque tu choras? ” — “Porque, respondeu ela, levaram o meu Senhor e eu não sei onde o puseram”

Subitamente, a um sinal ou ruído, Santa Maria Madalena se voltou e viu um homem de pé que lhe perguntou também: “Mulher, porque tu choras? A quem procuras? ” E ela pensando que falava ao jardineiro respondeu: “Se foste tu que o tiraste, dize-me onde o puseste e eu o levarei comigo”

“Maria”, disse o homem. Aquela voz tinha o timbre divino do Mestre e Santa Maria Madalena, sacudida nas profundezas da alma por aquele mistério de doçura e amor, reconheceu Jesus e gritou, lançando-se aos seus pés: “Rabboni! Ó meu Senhor! ”

Foi a primeira visão de Cristo.

Ela disse aos apóstolos: “Vi o Senhor”

É assim que Santa Maria Madalena, depois de receber a mensagem divina se tornou apóstola da Ressurreição.

 

EMAÚS

Há na minha catedral um pequeno e velho quadro onde certamente pousou a mão de um grande artista. A noite desce. Os dois discípulos de Emaús, atraídos pelo encanto misterioso do desconhecido que lhes revelava durante o caminho os segredos das Escrituras sobre o Cristo, insistem com o viandante para descansar e parecem dizer: “Já anoitece, fica conosco”

O peregrino daquela tarde primaveril florida e bafejada pela brisa perfumada da Palestina, tem o ar complacente de uma terna condescendência. Há por toda a cena, inspirada no Evangelho, uma cor natural, uma harmonia, todo um perfume cristão de sentimento, amor e de paz silenciosa que a alma se sente enlevada pelo êxtase da fé e pela sublime poesia do Evangelho.

É verdadeiramente cheio de emoções o episódio de Emaús. Durante toda a viagem, os dois discípulos são subjugados pelas palavras ardentes do inesperado interlocutor, mas não o conhecem. Sentam-se à mesa para a refeição frugal da noite. “No fim da ceia, escreve conhecido autor, Jesus ressuscitado, livre das tristezas da Quinta-feira Santa, longe da presença importuna de Judas, numa intimidade mais estreita, no meio do silêncio mais profundo e mais puro dos campos renovou o mistério da Ceia. “Tomou o pão, benzeu-o, rompeu-o e ofereceu-o aos discípulos”. Seus olhos se abriram. Mas Jesus desapareceu. Ainda não era hora do Céu, comenta um ilustre escritor. Quando eles, em transportes de alegria, voltaram para anunciar aos apóstolos a maravilha de que foram testemunhas oculares, souberam, antes de abrirem a boca, que o Salvador aparecera a Pedro.

 

APARIÇÃO AOS APÓSTOLOS

Os apóstolos, ouvindo a narrativa emocionante de Emaús, discutiram com calor os últimos estranhos acontecimentos. As portas da casa estavam cuidadosamente fechadas por medo dos judeus.

Naquelas horas de ânsia e de inquietações, Jesus aparece de pé no meio deles, dizendo: “A paz seja convosco, sou eu, não tenhais medo! ”

Foi um momento de espanto para todos. Que seria? Perguntavam interiormente a si mesmos. Um fantasma? Um espírito? Teriam sido vítimas de uma alucinação? Estavam vendo e, de medo, não ousavam proferir uma palavra. Então o Senhor lhes falou: “Por que vos perturbais. Por que todos esses pensamentos que se elevam em vossos corações”

“Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo: apalpai, examinai, os espíritos não têm carne, nem ossos. Vós vedes que eu tenho”.

E mostrou-lhes as mãos e os pés. Era bem uma evidência sensível para as testemunhas atônitas daquele espetáculo. E para dar-lhes uma prova fulminante da realidade pediu de comer e comeu com eles. Era demais. Os corações dos apóstolos saltavam de transbordamento, de imensa e inefável alegria. Foi, na frase de notável pensador, o primeiro Aleluia da Igreja. Nele se condensava todo o gáudio católico da universal festa da Páscoa que ainda hoje agita as almas e os sinos dos nossos campanários.

E Jesus, que atravessou a vida e a morte dando-se à humanidade, pensando nas circunstâncias vindouras, convivas da régia mesa pascoal, comunica ao sacerdócio, representado na culminância pontifical dos apóstolos, o privilégio divino, o poder, reservado ao Altíssimo, a faculdade suprema de perdoar: “A paz seja convosco! Como meu Pai me enviou, eu vos envio”. E, soprando sobre eles, acrescentou:

— “Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, serão retidos”

Só Deus poderia restituir à matéria a glória e a liberdade da vida. Só um Deus pode atribuir a si e delegar a outros o poder sublime de restituir ao pecador a glória e liberdade do espírito, a ascensão sobrenatural para o Infinito.

As belas e empolgantes cenas da Ressurreição não deviam terminar em Jerusalém com a aparição de Cristo a São Tomé. As aparições hierosolimitanas destinadas à demonstração absoluta da ressurreição deviam suceder no plano divino as aparições da Galileia, destinadas à configuração definitiva da Igreja e ao supremo legado das palavras e da benção do Salvador.

A poesia, o esplendor e a paz do país da Galileia onde se refugiava a caravana apostólica, banhada de alegrias e de esperanças ofereciam uma moldura rica, florida, luminosa a esse último quadro da vida messiânica de Jesus.

As margens do Lago de Genesaré, de águas tão puras, Simão Pedro, o velho pescador, com saudades do mar, disse: “Eu vou pescar”. Os outros disseram: “Vamos contigo” e a barca de Pedro, a barca simbólica, vogou sobre a água durante a noite profunda.

Nada fizeram. As primeiras horas da manhã, um desconhecido lhes grita da praia: “Meus rapazes, tendes alguma coisa? ” “Não”, respondem. E o desconhecido ajuntou: “Lançai a vossa rede à direita da barca e achareis”

Uma nova pesca milagrosa. As redes estavam pesadas. “É seguramente o Senhor”, disse João a Pedro.

Era realmente Jesus. Eles não se atreviam, entretanto, a pergunta-lo, sabendo que era o Senhor. Só depois que Jesus lhes distribuiu o pão e o peixe, puderam aproximar-se e gozar da divina intimidade do Ressuscitado.

Os primeiros raios começaram a dourar as montanhas e iluminar aquele paraíso de recanto galileu enquanto Jesus, na plenitude da vida imortal e cheio de celestial doçura tomava parte no repasto frugal dos apóstolos, à beira do lago tranquilo e azul.

Como tudo isto é admirável de simplicidade! Nenhum artifício nessas narrativas evangélicas.

A beleza se irradia límpida e tocada da graça divina dessas páginas de verdade, de vida, de amor e de paz — promessas do Natal hoje transfiguradas numa realidade histórica, testemunhada e sentida por milhões de almas erguidas para o céu pela virtude divina do Redentor que, ressurgindo dentre os mortos e abandonando a solidão do seu túmulo, freme, palpita, esplende na vida para não morrer mais.

Nas diferentes aparições da Galileia o Salvador a quem foi dado todo o poder no céu e na terra, não só cria o poder supremo da Igreja instituindo, solene, o papado, mas faz profecias de glória; projeta as grandes linhas da sua obra divina através dos séculos e anuncia o Espírito, o Paráclito que lhes há de ensinar toda a verdade.

É impossível nos limites deste modestíssimo trabalho a particularização desse grandioso período da Ressurreição.

Finalmente sobre um pequeno monte vizinho do Lago de Genesaré Nosso Senhor aparece a mais de quinhentos galileus.

São testemunhas das quais muitas viviam no tempo de São Paulo, segundo a sua própria afirmação. O Salvador faz um discurso público aos onze apóstolos: “Todo o poder me foi dado no céu e na terra. Ide, ensinai a todos os povos, pregai a toda criatura. Batizai os homens em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-lhes a observar tudo o que eu mandei. Aquele que crer, e for batizado será salvo. Aquele que não crer será condenado. Eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos”

Jesus Ressuscitado dirige a sua fala de Soberano à Igreja Docente e à Igreja Discente, aos apóstolos e aos quinhentos discípulos em assembleia solene sobre o cimo sagrado, — cátedra do Mestre e do Fundador — criando e determinando a vida e as funções constitucionais da sua Igreja visível.

A última aparição do Divino Ressuscitado que durante quarenta dias, em horas diferentes, em lugares diversos e descobertos, a intervalos bem notados se mostra vivo e pessoal a testemunhas de categoria, condição, idade, sexo, espírito, caráter e interesses vários numa atmosfera de dúvida, hesitações e patente incredulidade, a última aparição se realiza no Monte das Oliveiras — de tanta recordação pungente.

É daí que o Cristo quis traçar a via triunfal, da sua glória, a Ascensão para o eterno Pai.

Depois de pronunciar o seu adeus supremo, últimas palavras de sua missão terrena, o seu programa de verdade e de amor. Nosso Senhor estende sobre todos, as suas mãos abertas em chagas de luz — em última benção — e começa lentamente a subir para o céu.

Eles olhavam no espaço ainda a nuvem em que se recolhera o Redentor triunfante quando dois anjos os arrancaram do êxtase, dizendo: “Galileus, que fazeis aí de pé olhando para o céu? Esse Jesus que acaba de deixar-vos para subir ao céu, voltará de lá como o viste subir”

Minhas senhoras, meus senhores. Que pensar de tudo isto?

O túmulo de Jesus estava vazio na manhã de domingo. Milhares de amigos, inimigos, indiferentes, o testemunharam.

Que corpo era esse, pois, que apareceu em tantos lugares e circunstância a tão diferentes pessoas durante quarenta dias? Que corpo era esse, que não só se deixava ver e tocar, mas que agia, falava e afirmava uma personalidade com uma consciência perfeita e clara do seu ser, da sua ação e das suas funções próprias e um sentimento vivo e determinado do seu Eu? Era um corpo? Era um fantasma? Era um espírito? Era uma projeção alucinatória de Santa Maria Madalena, dos apóstolos e dos discípulos de Cristo? Ou foi realmente a aparição miraculosa do Cristo que deixara vazio o sepulcro na alvorada esplêndida do domingo?

A hipótese do furto do corpo pelos discípulos do Cristo já está abandonada. Nenhum racionalista que se preze ou tenha probidade intelectual, prestigia nos nossos dias essa hipótese. O mesmo se pode dizer do espírito de impostura e má fé atribuído aos apóstolos. Reville presta uma homenagem magnífica à sinceridade profunda desses homens que se deixaram matar pelo Cristo Ressuscitado.

Picard nota muito bem: não foram os discípulos, dizem, foram os judeus que roubaram o corpo de Jesus. Esta hipótese é ridícula da parte da incredulidade. Os judeus teriam assim fornecido armas contra si mesmos. Destruíram a única peça de convicção que podia aniquilar o testemunho dos apóstolos...

A suposição de Strauss de que o corpo de Jesus Cristo foi atirado ao lixo, opomos este fato de notoriedade pública no tempo de São Paulo; foi sepultado. De resto, naquela maneira de agir não era conforme nem à lei romana nem à lei judaica. Segundo a primeira, o cadáver devia ser entregue logo que fosse reclamado. Quanto à lei judaica, esta estabelecia expressamente que o cadáver do supliciado devia ser sepultado antes do pôr do sol.

As hipóteses racionalistas, inventadas para explicarem a Ressurreição de Cristo, de Strauss, Renan, Harnak e de tantos outros hipercríticos ou romancistas modernos e contemporâneos, são evidentemente um esforço desesperado do racionalismo para negar a existência do sobrenatural.

As explicações dadas por Strauss, Renan, Noak, Ewald Lang, Hosten, são diversas, mas têm um fundo comum — as aparições são visões subjetivas. Já estão fora de moda e sem interesse pelo vão esforço que representam para tornar ilusória o fato da Ressurreição.

Outros não recusaram a realidade das aparições, mas negaram a Ressurreição física de Jesus Cristo. As alucinações dos apóstolos teriam sido alucinações verdadeiras. Aparições objetivo-subjetivas. Jesus sobrevivia num estado espiritual e capaz de agir espiritualmente sobre o sentido humano e assim tornou sensível a sua presença e a sua ação aos apóstolos que visualizavam, isto é, traduziam por visões objetivas o que percebiam, e oralizavam, isto é, interpretavam como verdadeiros discursos o que compreendiam.

Ora, meus senhores, minhas senhoras, lendo todos esses devaneios mascarados de cor científica ou filosófica, nós nos lembramos instintivamente do verso de Virgílio — Quis Deus vult perdere, prius dementat — e nos entristecemos sobre essas ruínas do orgulho humano, humilhado na tentativa insana de apagar as estrelas do céu.

As narrativas evangélicas documentam a realidade corpórea da Ressurreição. Os discípulos tocaram um corpo real, ainda que glorioso, com suas mãos e ouviram com seus ouvidos.

No texto evangélico também não se acha fundamento para as visões pneumáticas objetivas de Leim e Schweizer para quem as cristomanias são visões interiores do estado glorioso de Cristo no céu, interpretadas pelos apóstolos no sentido de sua Ressurreição corpórea.

Essa ilusão de ótica, necessária para reanimar a fé nos apóstolos nem satisfaz a consciência moderna, inimiga do sobrenatural, nem explica o contato sensível do Cristo em suas aparições diversas durante quarenta dias, nem o túmulo vazio atribui à divindade a causa direta do erro.

A Ressurreição é o fato fundamental do Catolicismo.

Os vinte séculos da verdade católica se apoiam no túmulo glorioso de Jesus Cristo. É o milagre que, por excelência, prova a divindade de Cristo. Ressuscitar um morto é um prodígio. Ressuscitar a si mesmo é o prodígio dos prodígios. Na sua vida e na sua morte o Divino Mestre multiplicou os fatos extraordinários que documentaram divinamente as suas afirmações absolutas sobre a sua personalidade divina.

Na Ressurreição, a demonstração do Salvador atingiu o seu apogeu de luz e de glória. Os inimigos da fé compreenderam muito bem que aceitar a ressurreição é aceitar toda a revelação cristã com todas as suas consequências doutrinais.

São Paulo escreveu claramente: Se Cristo não ressuscitou, vã é a minha pregação e inútil a vossa fé.

O racionalismo chegou ao cúmulo de negar a morte de Cristo. Cristo segundo alguns incrédulos, apenas desmaiara na Cruz. No repouso, ele voltou a si da frieza do túmulo e das resinas do embalsamento.

E esses espíritos orgulhosos não leram que Pilatos só deu autorização para a descida do corpo depois de se ter certificado de sua morte? E o divino supliciado poderia ter resistido após tão terríveis tormentos à lança do soldado romano que lhe abre o peito na largura de uma mão? E como esse Cristo desfigurado, arrastando-se, desgraçado, saindo penosamente de um sepulcro poderia ter fortalecido e transformado os seus medrosos discípulos?

A impiedade se torna ridícula na ânsia de repudiar o sobrenatural, custe o que custar.

A palavra do anjo continua a ser uma palavra de vitória:

“Procurais a Jesus de Nazaré que foi crucificado? Ressuscitou; não está aqui”

O túmulo está vazio. Os soldados romanos subornados dizem que estavam dormindo quando roubaram o corpo do crucificado.

E como esses pescadores tímidos, rudes, pobres, sem meios, sem influencia, sem nenhum interesse para eles, afrontando as consequências do seu ato, teriam violentado, corrompido ou enganado a guarda romana? Todas as explicações atingem o máximo do absurdo.

O túmulo do Cristo, vazio, apesar de todas as precauções tomadas, só tem uma explicação aceitável. É a palavra do anjo: “Ressuscitou; não está aqui”

Santa Maria Madalena, suas companheiras e os apóstolos foram vítimas de uma alucinação, gritam os céticos de todos os tempos.

A psicologia dessas gloriosas testemunhas do Cristo redivivo é o que há de mais contrário ao fenômeno da alucinação.

Nenhuma delas se mostra crédula. Nenhuma pensa na Ressurreição. Santa Maria Madalena corre ao sepulcro e quando vê a pedra derribada, diz: “Roubaram o Senhor e não sei onde o puseram”. Ela se lamenta junto do túmulo abandonado. Diante dela está um homem de pé. “Por que choras mulher? A quem procuras? Se tu o tiraste, responde Madalena, dize-me onde o puseste”

Maria! Disse o homem.

E a grande arrependida, reconhecendo Jesus naquela voz cheia de doçura, exclama: “Rabooni! ” É assim que Madalena se torna a apóstola da Ressurreição. Ela diz aos discípulos: “Vi o Senhor”. Os apóstolos foram duma incredulidade a toda prova. E eles tomaram as santas mulheres por visionárias. E quando o Senhor lhes aparece, eles julgaram-no um fantasma. Um deles, São Tomé, leva a audácia de sua incredulidade a querer tocar as chagas do Mestre. Sugestão e alucinação se tornaram na linguagem dos ímpios, palavras cômodas para explicarem os fatos sobrenaturais.

Bossuet, no seu famoso discurso sobre a história universal disse: “Ao terceiro dia, Jesus Cristo ressuscita; aparece aos seus que o haviam abandonado e se obstinavam a não crer na sua Ressurreição. Os discípulos o veem em particular, e todos o veem em conjunto; aparece uma vez a mais de quinhentos homens reunidos. Um apóstolo, assegura que a maior parte dentre eles vivia no tempo em que ele escrevia. A Ressurreição é um inabalável fato histórico. A sua certeza está acima de toda a dúvida. A sua certeza está acima de toda a dúvida. O Cristo ressurgiu. E, ressurgindo, ressuscitou o mundo.

Levantou todas as lousas que pesavam sobre o gênero humano, baniu todas as escravidões — a escravidão dos sentidos, do coração, da inteligência. Sobre a família humana raiou um novo sol. Todos os infelizes, todos os desgraçados puderam soltar um suspiro de alívio. Como um verdadeiro triunfador, o Cristo Ressuscitado invadiu a consciência da humanidade e criou uma mentalidade e uma civilização desconhecida.

Jesus transformou o homem com seu verbo, com sua graça, com seu amor. Ele semeou na alma racional essas verdades fecundas que produziram na sociedade uma total revolução nas ciências, nas artes, nas leis, na política, nos costumes e na vida dos povos, essas verdades que fizeram surgir do caos social antigo um novo mundo moral, iluminado pelas fulgurações e relâmpagos da Ressurreição.

São essas torrentes de luz que dobram os joelhos dos sábios e arramam dos seus lábios palavras como estas do grande matemático Cauchy: “Eu sou católico, e, se me perguntassem a razão disso, veriam que as minhas convicções são resultado não de preconceitos de família, mas de um exame aprofundado. Veriam como se gravaram para sempre no meu espírito verdades mais incontestáveis aos meus olhos do que o quadrado da hipotenusa”

A pedra do sepulcro do Divino Vencedor é o granito da Igreja. Há vinte séculos contra ela se despedaçam crânios. Mas é um granito de amor. Há vinte séculos ela recebe as lágrimas de todos os infortunados, as flores de todos os agradecimentos, as homenagens da inteligência e do coração.

Há vinte séculos sobre essa lousa augusta se repetem, num crescendo de amor, os beijos da gratidão genuflexa que bendiz, aclamam, canta por todos os júbilos de Páscoa, a alvorada cristã do Deus Ressuscitado.

A Ressurreição de Jesus Cristo tranquiliza o nosso espírito. Não estamos iludidos sobre o nosso futuro. O Cristo ressuscitado garante todas as certezas da Fé e todos os ensinamentos da Igreja. Ficamos na posse consciente de verdades eternas. Os ventos vários das filosofias humanas não poderão abalar a nossa confiança que repousa indefectível no rochedo iluminado do Domingo Pascal. A ressurreição física de Jesus é a prova decisiva.

Doravante estamos voltados para o céu donde esperamos Nosso Senhor Jesus Cristo que transformará o corpo de nossa humildade, segundo o modelo de seu corpo glorioso.

O Cristo, primogênito da vida e vencedor da morte, envolve na benção de sua ressurreição gloriosa a carne sofredora da humanidade. Nós cremos na imortalidade da alma e na perpetuidade radiosa da carne ágil, sutil, impassível, esplendente, como uma flor do espírito, no Reino da glória, forma suprema da beleza sensível, transfiguração pelo sopro criador do Artista Divino.

Na igualdade dos seres que a morte nivela é sempre a mesma devastação do corpo que se decompõe e vai alimentar a erva humilde depois devorada, talvez, por um animal estúpido.

Seja o cérebro de um sábio, — laboratório do pensamento seja a mais abjeta das criaturas, é sempre a mesma a humilhação da morte. Diante do sepulcro aberto não vemos mais que podridão, poeira e pó. Se perguntarmos ao materialista se o homem ficará reduzido à miséria do túmulo, ele responderá: “Ficará. A matéria será restituída à circulação da natureza”

E o pensamento? Os surtos de seu espírito? Os seus desejos? As vozes supremas de sua alma? Todos os seus movimentos transformados em sensações e ideias? Tudo ficará perdido para sempre, dizem os materialistas.

Coisa terrível é a morte do homem que só crê na matéria! Espanta, aterroriza!

Se perguntarmos a um ultra espiritualista se a matéria ficará reduzida à miséria do túmulo, ele responderá. “Ficará, porque vai ser restituída a circulação da natureza, somente a alma não sofrerá essas misérias”

É menos terrível essa concepção da morte.

Só a alma com os seus pensamentos, os seus surtos e os seus desejos não se poluiria no túmulo.

Mas o cérebro onde se elaboram as ideias, o coração onde se aninham os sentimentos, o corpo onde demoram as vibrações, tudo desaparecerá para sempre no conceito do espiritualista ingrato.

Nós católicos, porém, não podemos admitir essa poeira eterna do cérebro, do coração, do nosso corpo.

Deus não quis condenar o homem-fanal da criação à podridão eterna, à devastação completa do corpo que foi feito à sua imagem e semelhança.

Credo resurrectionem. Nós acreditamos na ressurreição da carne. Estamos convencidods de que esta há de florir.

Quando Deus, completou o plano da criação, do limo, formou o homem e lhe deu o sopro de vida, o espiráculo de vida não foi para reduzi-lo a nada, nem para inutilizar o encanto de sua obra, que formou os enlevos da criação.

Não foi inutilmente que colocou essa semelhança de sua imagem no meio de sua obra gigantesca.

Não foi inutilmente que criou para os seus olhos os encantos da vegetação e as maravilhas da luz e os esplendores dos quadros que a sua mão de artista formou onipotentemente.

Não foi inutilmente que criou par os ouvidos do homem a deslumbradora orquestração da natureza, a música das águas, o canto dos pássaros, a harmonia das esferas.

A carne é herdeira das liberalidades divinas.

Quando a alma quer rezar, os lábios murmuram, o coração palpita, as mãos se juntam e se erguem para o alto numa atitude magnifica. E não é possível que essa carne fique reduzida à podridão para sempre. Também ofereceu seu sangue, se sacrifica, se martiriza por Deus.

A Igreja saúda a carne irmã da carne de Jesus Cristo.

A nossa religião respeita o espírito e a carne criada, cuja ressurreição proclama.

Sendo divina a nossa religião, é eminentemente humana. Não se preocupa só com a alma, mas também com o corpo. Sem corpo não teríamos ressurreição completa. É um dogma da nossa Igreja a ressurreição da carne. O sepulcro não é só podridão. O nosso esquife é berço da imortalidade.

A própria natureza nos prenuncia a ressurreição da carne.

Ao pôr do sol, todas as tardes, segue-se a noite longa e silenciosa. À alvorada, o sol surge. É a ressurreição da manhã. O lavrador atira o grão humilde que vai apodrecer para nascer, reflorir e frutificar. A larva se transforma em crisálida e esta em borboleta que alça o voo em demanda do infinito, no anseio da liberdade.

Se Deus concede a vida ao vegetal que nasce da semente apodrecida, a vida que palpita na verdura dos campos, no coma verde das árvores, se dá essa vida que cintila na asa das borboletas, por que razão não a concederá à nossa carne, também?

A carne apodrecida é transfigurada e se preparará para ser a angélica farfala, de que nos fala Dante, em procura do sol divino.

A razão disso nos persuade, porque seria terrível essa separação eterna da alma e do corpo.

Deus criou do limo a carne e depois deu-lhe alma e disse-lhe: “Alma, tu és rainha, aqui está um trono; alma, tu és chama, aqui está um coração, onde tens sangue, paixão, amor, sentimento; alma, tu és vibração, aqui estão os nervos; alma, tu és luz, aqui está uma lâmpada; alma, tu és raio, aqui estão os olhos, através dos quais poderás esplender”. E a alma se precipitou para esse corpo para substituir a natureza.

A alma e o corpo constituem uma só substância. A natureza exige a ressurreição da carne.

O corpo não é lira, que a alma agite durante algumas horas, durante algum tempo, durante uma existência, apenas.

O corpo reza, chora, ri, geme, suspira, é feliz e é desgraçado com a alma. Separados na morte, voltam a unir-se na outra vida.

A alma celebra com o corpo e epitalâmio da terra e da eternidade. Vivem numa perfeita vida conjugal.

A razão e a fé nos mostram que assim tem sido compreendido sempre desde os tempos de Zend Avesta em que Ormuz se refere, sem nada que dúvida faça à ressurreição da carne. Platão, Sêneca, a crença mosaica, tudo nos convence do mesmo modo. São Paulo, nas suas Epístolas, afirma que o corpo será semeado na corrupção e ressuscitará incorruptível, ressuscitará na glória.

Senhores, há dois mil anos, Cristo reina. A cruz flutua em todos os continentes. A bandeira de Cristo Rei congregou todos os povos derrubando barreiras dos costumes. O mundo vivia de orgulho, e Cristo ensinou a humildade.

Foram por Ele transfigurados todos os costumes e todas as gentes se dobraram aos seus ensinamentos. Invadiu a trama e o tecido de todas as instituições e apareceu como o maior legislador da humanidade. Abateu as barreiras de todas as regiões até então existentes. Fez ruírem os deuses antigos de seus pedestais, extinguiu a casta sacerdotal antiga.

Ensinou o Pai Nosso, oração universal, recitado por todo o mundo, que vale como demonstração sublime da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Eu sou o Bem, disse Nosso Senhor, e toda a humanidade enamorada segue-lhe os ensinamentos maravilhosos que afrontam a fúria dos tempos.

Envelhecem as repúblicas, passam as instituições, muda-se a face dos acontecimentos. Só o Cristo vive, só o Cristo atravessa as idades. Só o Cristo resiste a todas as mutações que se operam no mundo.

Se assim não fosse, Cristo seria um mentecapto ou um impostor, seria um velhaco ou um bandido, cuja pregação seria sem valor.

Mas a sublimidade do Evangelho bem atesta no vigor de suas indestrutíveis verdades que só um Deus seria capaz de nos dar tão grandioso monumento de sabedoria.

Não falta quem não tenha dito ter sido Cristo um visionário, um louco, um filósofo, um revolucionário.

Mas Cristo é realmente Deus, nosso Deus, força e fundamentos da verdade. No seu trono de glória, no mistério do tabernáculo, no último recesso do sacrário, ele exora misericórdia para toda a humanidade.

Em tão augusto silêncio, ele está trabalhando a obra imortal da Igreja, por toda a eternidade, porque Ele disse: “Estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos”

Aparecendo à Santa Margarida através do véu branco que cobre o sacrário, disse: “Eis aqui o Coração que tanto amou os homens e deles é tão pouco amado”

Glória, pois ao Cristo que ressurgiu dos mortos e preparou para a humanidade a glória da RESSURREIÇÃO.

 

Eminência.

V. Eminência com esta bondade que não cansa, se dignou vir a esta casa para prestigiar a ação dos bravos da União Católica; abençoar esta numerosa e brilhantíssima assembleia em que a fé, a ciência, a cultura, a graça cristã e o espírito católico desta Metrópole fulguraram; honrar e animar o modesto pregador do Divino Ressuscitado, enfim, emoldurar no esplendor da púrpura esta bela noite do Ano Santo, noite da Ressurreição.

Beijamos agradecidos esta Púrpura que já se doura dos raios romanos com a investidura de V. Eminência na alta Missão de Legado Pontifical ao Congresso Eucarístico Nacional.

Outra missão incumbe também a Vossa Eminência.

Dir-se-ia, senhores, que o nosso Cardeal leva enrolado na púrpura sagrada o bele e generoso Coração do Sul para uni-lo ao ardente Coração do Norte, fundindo-os num só Coração — O Divino Coração Eucarístico que no Ostensório da Bahia histórica vai abençoar a união dos brasileiros.

Boa viagem, Sr. Cardeal, para a descoberta cristã da República.

Cabral chamou Monte Pascal o primeiro cume descoberto, — o cume dos Aimorés, — entre os arrebóis de Páscoa. O Brasil nascia para a civilização, sob o sinal glorioso do Divino Ressuscitado da Galileia. Sua vocação histórica era sagrada pelas auroras da Ressurreição.

Quem sabe, Eminência, se à sombra do Monte Pascal, os sinos das velhas igrejas da colônia em repiques de aleluia nacional não irão saudar o ressurgimento cristão do ESTADO BRASILEIRO?!

 

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

Segunda Meditação para a Quaresma

Pe. Luís de la Puente, S. J.

 

Da resignação necessária para ouvir a vocação de Cristo,

renunciar todas as coisas e ser discípulo Dele

 

              Como Cristo Nosso Senhor chama incessantemente os homens para que O sigam, nesta meditação mostrarei qual a disposição mais conveniente que devemos procurar (Exercícios Espirituais de Sto. Inácio, ibid.), para que a santa vocação entre em nós e por ela alcancemos a vida eterna. Declarou-o o próprio Senhor naquela sentença memorável, que disse por São Lucas (Lc 14, 33): “Qualquer de vós que não renuncia tudo o que possui, não pode ser meu discípulo”. Nestas palavras não manda que todos renunciem a todas as coisas, deixando-as de fato, mas que as renunciem com o coração e abandonem as afeições desordenadas por elas, estando preparados para deixá-las se forem impedimentos à salvação, ou se o Senhor, com especial vocação, inspirar a deixá-las, por ser meio mais conveniente e seguro para que se salvem; nestas coisas se incluem o dinheiro, a honra, a dignidade e os cargos proeminentes, bem como os pais, os irmãos, os filhos, os amigos e os conhecidos – quaisquer pessoas ou objetos desta terra, cujo amor desordenado pode impedir-nos de seguir a Cristo e de sermos discípulos Dele. Pressuposto isso, mostraremos três tipos de homens que desejam chegar à salvação, seguindo a Cristo, e querem dispor-se para alcançá-la, a fim de que vejamos qual deles acerta, e qual devemos imitar.

                Primeiro ponto. – O primeiro tipo são os homens que desejam chegar à salvação sem usar os meios adequados, por causa da grande dificuldade que sentem: desejam seguir a Cristo, mas não renunciar a todas as coisas, e caso desejem renunciá-las e abandonar as afeições desordenadas, não tomam medidas eficazes para abandoná-las, como o doente que deseja curar-se, mas recusa sangrias, purgas e outros remédios necessários à saúde, em razão da dor e amargura que sente ao tomá-los. A disposição destes é totalmente contrária à vocação divina e à ordem de abandonar todas as coisas; assim, nunca alcançarão a saúde espiritual nem a vida eterna, porque esta não se alcança só com desejos, se faltam obras; assim, parece que querem se salvar e curar, mas de fato não o querem. Por isso disse o Espírito Santo (Pr 13, 4): Vult, et non vult piger, “o preguiçoso quer e não quer”: quer o fim, mas não os meios; quer ir aonde está Cristo, mas não atrás de Cristo; quer a bondade da virtude, mas não a dificuldade, e por isso a deixa. Refletirei também sobre mim, para ver se a minha pretensão a certas virtudes é engano, pois às vezes digo para mim que quero alcançar a humildade e vencer a soberba, mas não quero humilhar-me nem ser humilhado; que quero ter paciência e vencer a ira, mas não gostaria de sofrer, e assim permaneço soberbo e impaciente. A mortificação das paixões é o meio necessário para vencer os vícios, e a prática das virtudes o é para ganhá-las.

                Segundo ponto. – 1. O segundo tipo são os homens que desejam chegar à salvação e usar os meios de alcançá-la, porém meios oriundos do próprio juízo e vontade, e não de Deus. Querem seguir a Cristo e renunciar o apego desordenado das coisas, mas sob a condição de ficarem com elas; ainda que sejam ocasião de pecado, e Deus os alerte interiormente para que as abandonem, recusam-se e por isso se entristecem, como o rapaz rico, a quem disse Cristo Nosso Senhor (Mt 19, 21): “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens”. Estes são semelhantes aos doentes que desejam curar-se e tomam os remédios, mas não os que o médico receita, e sim os que escolhem conforme o gosto pessoal, forçando a vontade do médico para que os aprove. Deste modo, estas pessoas buscam trazer a vontade de Deus até à sua, e não levar a sua até à vontade de Deus; por conseguinte, dispõem-se a recusar a vocação divina de renunciar a todas as coisas, com risco de condenarem-se, pois bem sabe Nosso Senhor que a cura está em deixar as coisas possuídas, para que se abandonem as afeições desordenadas e os muitos pecados que daí procedem. Quase sempre devo acreditar que o remédio das enfermidades espirituais não reside nos meios que escolho com o meu juízo cego, mas naqueles que Deus – que é o médico da alma – ordena; veja-se o exemplo de Naaman, o leproso, que, apesar de aspirar pela cura da lepra, negava-se a usar o meio indicado pelo profeta Eliseu (4Rs 5, 10), que era banhar-se sete vezes no Rio Jordão, preferindo o meio fácil que inventou na própria cabeça, que era o profeta tocá-lo com a mão. Porém, se não mudasse de ideia e se resignasse à vontade do profeta, nunca se curaria, uma vez que Deus decidira curá-lo, não pelo meio que escolhia, mas por outro que mais lhe convinha.

                2. Refletirei ainda sobre mim, em outros pontos particulares de minha vida, para ver se incido neste engano; pois, se me confesso, erro ao recusar os meios de cura que o confessor prudente assinala, escolhendo os que me aparecem à frente. Se sou religioso, é grande engano pretender a perfeição de estado pelos meios que escolho com o meu próprio juízo, buscando convencer os prelados a concordarem com a minha vontade, em vez de curvá-la para querer o que eles querem; deste modo, dir-me-á Cristo Nosso Senhor o que disse a São Pedro (Mt 16, 23), num caso semelhante: Vade post me Satana, “Retira-te de mim, Satanás”, pois não sou obrigado a fazer o que tu queres, mas tu o que Eu quero: o mestre não seguirá o discípulo, mas o discípulo o mestre, nem o súdito governará o superior, mas o superior o súdito. Ó, Soberano Mestre, porque sois o caminho, a verdade e a vida, não permitais que eu vá por um caminho diferente do Vosso, nem siga outra verdade diferente da Vossa, nem viva outra vida senão a que vivíeis, sempre seguindo-Vos a Vós, que descestes do céu, cumprindo não a minha, mas a vontade do Pai, na vereda que Ele Vos assinalou.

                Terceiro ponto. – 1. Aqui vemos que o terceiro tipo de homem é o mais ditoso, porque é o daqueles que desejam alcançar a salvação, a vitória sobre as afeições desordenadas e a perfeição das virtudes pelos meios que Deus escolheu, resignando-se totalmente à vontade divina e prontificando-se a deixar sem vacilo as coisas que possuem, caso seja mais conveniente para a honra e glória de Nosso Senhor e a salvação das almas; é o exemplo dos doentes que desejam curar-se e se confiam nas mãos dos médicos, determinados a tomar todos os remédios receitados e convenientes à saúde, sem preferirem um a outro.

                2. Estas pessoas possuem admirável disposição para ouvir a vocação divina e receber dela ilustrações e inspirações, confiando sempre na providência de nosso grande Deus e Senhor, o qual, como disse o profeta Isaías (48, 17), ensina-nos o que é proveitoso e conveniente, e nos guia por esta via ao céu, quer por Si mesmo, quer por seus ministros. Quem deixa que Deus o guie, aceitando os meios que inspira e ordena, há de alcançar um oceano de paz e santidade, e chegará com segurança ao porto da salvação e perfeição, pois a Divina Providência chama a cada um para o estado e o modo de vida que mais lhe convém [...]. Conforme tudo isso, se compararmos os três tipos de homens, e verificarmos os danos e enganos do primeiro e segundo tipos, sou obrigado a escolher o destino do terceiro. Diante da presença de Deus Nosso Senhor, direi do fundo do coração, como outro Saulo recém-convertido (At 9, 6): Domine, quid me vis facere? “Senhor, que quereis que eu faça?” Vede aqui o vosso servo, desejoso de Vos servir e seguir, mas as afeições desordenadas me prostram doente; ponho-me em vossas mãos, para que façais de mim o que quiserdes: estou disposto a cumprir a Vossa vontade; inspirai-me e ensinai-me os meios mais convenientes para a saúde da alma, que eu, junto com a Vossa divina graça, me ofereço a executá-los, ora retendo o que possuo, ora abandonando tudo por Vosso amor.

            3. Existem outras pessoas que querem ir mais adiante; assim, para imitar com perfeição a Cristo Nosso Senhor, desejam e se inclinam, no que lhes cabe, a ser pobres, desprezados e afligidos como Ele o foi, de preferência a serem ricos, honrados e consolados, como aconteceu com outros justos, embora estes sempre se conservassem indiferentes diante da posse ou privação dos bens, segundo a vontade de Deus, uma vez que Sua Majestade não faz a todos a graça de chamar para que O sigam na verdadeira pobreza voluntária da vida religiosa, ou para que padeçam trabalhos e injúrias por Seu amor. Eu deveria procurar tal disposição com todas as minhas forças, imitando o Apóstolo, que dizia (Gal 6, 14): “Mas longe mim o gloriar-me senão da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim, e eu crucificado para o mundo”. Ó, Deus Eterno, por Vossa misericórdia, concedei-me essa disposição, para que seja eu digno de que me chameis a fazer e padecer os grandes feitos da Vossa glória. Amém.

(Tradução: Permanência. Meditaciones Espirituales del V. P. Luís de la Puente, de la Companía de Jesús – Tomo II; Imprenta de Pablo Riera, 1856, Barcelona; págs. 58-66.)

Primeira Meditação para a Quaresma

Pe. Luís de la Puente, S. J.

               

 

Da vocação geral com que Cristo Nosso Senhor chama a todos

os homens para que se neguem a si mesmos,

tomem a sua cruz e O sigam.

 

 

                Porque Cristo Nosso Senhor veio ao mundo, como disse São João (1Jo 3, 8), para desfazer as obras do demônio, trataremos primeiro nesta meditação sobre o chamado do demônio, que convoca as pessoas para que o sigam contra a Cruz de Cristo Nosso Senhor, e logo depois sobre o chamado do próprio Cristo, para que, comparando este com aquele, vejamos a quem é mais acertado seguir. Esta meditação e a seguinte darão muita luz para que elejamos com acerto o estado mais conveniente para a nossa salvação.

                Primeiro ponto. – 1. Em primeiro lugar, há de se considerar Lúcifer (Jo 14, 30; Exercícios Espirituais de Santo Inácio, 2ª sem., 4º dia) príncipe deste mundo, sentado num trono de fogo, cheio de fumo, com aparência horrível e rosto espantoso, rodeado de numerosos demônios, príncipes de trevas, os quais confabulam para guerrear contra o Cristo Nosso Senhor, e dar batalha contra o exército da Cruz. Para tanto, armam laços de tentações aos homens, induzindo-os a três vícios, que São João denomina (1Jo 2, 16) concupiscência da carne, cobiça dos olhos e soberba da vida. Primeiro convidam as pessoas aos prazeres da carne, donde nascem os vícios da gula e da luxúria; então, à cobiça de dinheiro e honras, donde procedem os vícios da avareza e da ambição; depois, à soberba da vida, que é o desejo de excelência, em que há presunção de si mesmo e das próprias opiniões; chama-se a isso soberba da vida, porque é soberba imensa, viva e buliçosa, que vive e cresce sempre (Sl 73, 23), e alimenta os demais vícios e pecados do mundo.

                2. Em seguida, há de se ponderar sobre a raiva (1Pe 5, 8; Ap 12, 9) com a qual os demônios cerceiam o mundo por todos os lados, buscando a quem devorar, quer como leões, com a força e a violência das perseguições; quer como dragões, com a astúcia dos raciocínios aparentes, para enganar os homens e pô-los a seu serviço. Grandíssimo é o estrago que causam, pois são inumeráveis os homens que atraem: uns se rendem à cobiça dos bens; outros, à cobiça das riquezas e honrarias mundanas; e outros ainda, à soberba e à altivez da vida; enfim, alistam-se nas forças demoníacas todos os inimigos da Cruz de Cristo, os quais – como disse São Paulo (Fil 3, 18-19), deplorando a miséria desses homens – têm como deus o ventre e a glória mundana, para a própria confusão, pois o fim deles é a morte eterna. Pensando nisso, à imitação do Apóstolo, lamento que existam tantos que sigam as hostes do demônio, e me admiro de que haja gente tão louca que o queira seguir, sabendo que a recompensa de tal serviço será o inferno. Refletindo a minha vida passada e presente, chorarei porque estive neste engano algum tempo, e suplicarei a Nosso Senhor para que me liberte dele para sempre. Amém.

                Segundo ponto. – 1. Em segundo lugar, hei de considerar a Cristo Nosso Senhor sentado num lugar humilde, com o rosto sereno e amoroso, rodeado de discípulos e muitas outras pessoas, dizendo a todos eles: Si quis vult post me venire, abneget semetipsum, et tollat crucem suam, et sequatur me: “Se algum quer vir após de mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz e siga-me”. Nestas palavras, contrariamente ao príncipe deste mundo, Cristo chama e convida os homens a três coisas: primeiro, a negarem-se a si mesmos, mortificando as três concupiscências do mundo e os vícios que delas procedem, ou seja, que neguem e mortifiquem o amor dos prazeres sensuais, a cobiça de dinheiro e vã glória, e a soberba interior, mortificando o juízo e a vontade, e toda presunção e desejo de excelência.

                2. Segundo, chama-os para que levem a Cruz e se ofereçam em oposição às três concupiscências do mundo, ou seja, que sofram trabalhos e dores, necessidades e desprezos, além de toda sorte de humilhação e sujeição; pois a Cruz Espiritual de Cristo está montada com estas três peças: pobreza, desprezo e dor, embora cada uma delas encerre trabalhos muito distintos, que as acompanham; a Cruz requer que todos a carreguem a cada dia, aceitando cotidianamente o que lhes couber, com perseverança até a morte. Terceiro, Cristo chama os homens para que O sigam, imitando as virtudes e os exemplos que dá com a abnegação e com o peso de Sua própria Cruz, porque já decidiu que não admitirá em Sua escola nem em Sua companhia quem não decidir abraçá-la e não se alistar no Seu exército; por isso disse (Lc 14, 27) que “O que não leva a sua cruz e não me segue, não pode ser meu discípulo”.

                3. Agora hei de considerar quão acertada é esta vocação; pois, se sou mau e inclinado a vícios e pecados desde o nascimento, é justo que me negue a mim mesmo e mortifique todas as más inclinações, para libertar-me dos males que delas nascem. Se prêmios, riquezas, honras e excelências mundanas são o combustível para todas as maldades, cumpre abandonar o amor desordenado de tais coisas para preservar-me de tantas misérias. E se esta vida mortal me reservar muitos trabalhos, cansaços, dores e tribulações, que haverá de mais sensato do que fazer da necessidade virtude, e abraçar a Cruz de boa vontade, merecendo por ela a vida eterna? Se Jesus Cristo Nosso Senhor desceu dos céus, a fim de levar a Cruz e abraçar-Se à dor, à pobreza e ao desprezo, qual o problema em segui-Lo, imitando os atos de meu Capitão, meu Rei e meu Deus? Ó, soberano Capitão, já que me convocais para que me negue, vinde lutar comigo contra mim, pois mais forte que eu será quem me vencerá. Assim, porque quereis que leve a minha cruz a cada dia, dai-me a cada dia a Vossa graça, para que, sob a opressão do madeiro, não caia nem desfaleça.

                Terceiro ponto. – 1. Em terceiro lugar, há que considerar três argumentos eficacíssimos que Cristo Nosso Senhor nos apresenta, a fim de nos persuadir dessa vocação. Primeiro: “O que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e o que perder a sua vida por amor de mim achá-la-á” (Mt 16, 25); ou seja: Vossa salvação e vida eterna é negar-vos, levar a vossa cruz e seguir-Me até à perda da vida temporal, se for o caso, como já pedi; quem a perder assim, não a perderá totalmente, porque Eu a devolverei renovada e eterna. Do mesmo modo, posso imaginar que Cristo Nosso Senhor me diz: Quem por Mim perder dinheiro, honra, prêmios, amigos e qualquer outro bem temporal, depois o reencontrará; ao contrário, quem quiser ganhar ou conservar essas coisas contra a Minha vontade, perderá tudo, além da própria alma para sempre.

                2. O segundo argumento é: “Que aproveitará a um homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma? Ou o que dará o homem em troco de sua alma?” (Mt 16, 26). Como se dissesse: Se seguis a sugestão do demônio e não a Minha vocação, havereis de perder para sempre a alma, pois de que vos aproveitará a posse de todos os prêmios, riquezas, honras e excelências do mundo, se no final vossa alma se condena? Perguntai aos condenados que estão ardendo no inferno, e eles vos dirão (Sb 5, 8): De que nos aproveitou a soberba? De que nos serviu a vã ostentação das riquezas? Que bem nos fez? Qual proveito tiramos dos prêmios, das honrarias, das dignidades e de todos os bens da terra? Tudo passou como sombra, e agora, por causa da nossa maldade, estamos em perpétuo tormento.

                3. O terceiro argumento é (Mt 16, 27): “Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras”; ou seja: Tenho de vir julgar o mundo com o estandarte e a bandeira de Minha Cruz; quem não a quis carregar comigo, condenarei ao fogo eterno com os demônios, cujo bando seguia; mas quem deu ouvidos à vocação e abraçou a Cruz, levarei comigo para a glória do Pai. Sopesando esses três argumentos, compararei estes dois chamados, o de Lúcifer e o de Cristo; o fim brutal dos que seguem a um, e o fim ditoso dos que seguem o outro; pois não é possível, como disse o Redentor (Mt 6, 24), servir ao mesmo tempo a dois senhores: não podemos servir a Deus e às riquezas, a Cristo e às honrarias vãs, nem é possível assentar praça sob as bandeiras de capitães tão contrários; por isso, cuidarei de fechar os ouvidos às sugestões de Lúcifer e de abri-los à vocação de Cristo, negando-me a mim, abraçando a minha cruz e seguindo o soberano Capitão sob a Sua bandeira. Eis uma pergunta que ajudará na decisão de qual bandeira abraçar: a quem gostaria eu de haver seguido ou escolhido, quando chegar a hora de minha morte e tiver de me apresentar diante do tribunal de Cristo? A riqueza ou a pobreza, a honra ou o desprezo, os prêmios ou as aflições, o cumprimento da vontade própria ou a abnegação dela e de mim mesmo? Assim, escolherei agora o que mais tarde gostaria de haver escolhido.

                4. Para não remeter o acerto da boa escolha apenas à hora da morte e ao juízo, acrescento que o chamado do demônio, embora num primeiro momento prometa deleites, honras, riquezas, liberdade e descanso, está tão misturado com numerosas amarguras, que é verdadeiramente trabalhosíssimo (Sb 5, 7); até os condenados confessam que viveram cansados no caminho da maldade, e andaram por estradas ásperas e dificultosas. Por seu lado, o caminho de Cristo, embora seja de abnegação, está traçado pela Providência Divina, e ajustado às forças de cada um, vindo misturado com tantas consolações e graças celestes, que é verdadeiramente suavíssimo nesta vida, de tal modo que os que seguiam as tropas do demônio encontram grande alívio ao seguir o caminho de Cristo; assim o disse o Senhor (Mt 11, 28): “Vinde a mim todos os que estais fatigados e carregados, e eu vos aliviarei; tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”; ou seja: O jugo é a abnegação, mas suave; o peso é a cruz, mas leve, contanto que sejais mansos e humildes como Eu, porque aos humildes dou a Minha graça, com o que se torna leve tudo aquilo que em si mesmo é pesado e amargo (Ti 4, 6). Ó, dulcíssimo Mestre, sobre cujos ombros carregais a minha cruz e a de todos os mortais, concedei-me ouvir o Vosso chamado e abraçar os trabalhos da cruz, deixando à Providência os consolos ao levá-la, para que, escolhendo na vida o que gostaria de haver escolhido na morte, receba em Vosso juízo a coroa da glória. Amém.

(Tradução: Permanência. Meditaciones Espirituales del V. P. Luís de la Puente, de la Companía de Jesús – Tomo II; Imprenta de Pablo Riera, 1856, Barcelona; págs. 58-66.)

A beleza de Maria

D. José Pereira Alves

Conferência pronunciada no Seminário de Olinda

 

Dir-me-eis, senhores, a razão por que estou aqui? Como definir-me neste momento? Sonho ou realidade, toda essa visão de luz, de festa, de riso, e de paz?

Eu de nada quero saber; porque um fato de uma verdade crua é que eu estou aqui e é este fato que me acabrunha implacavelmente. Chamá-lo-ia um pesadelo e um duende, se outro que não a Boa Mãe, fosse o objeto deste festival do espírito. Amarrado por cadeias formadas de fibras de corações a esta tribuna, eu recebo a ordem indeclinável de ser o que não sou: “conferencista”! Seja! É preciso uma metamorfose? Não há dúvida. É preciso sê-lo ainda disfarçado? Pois não! Por que não a máscara e o disfarce?

Aceitemos, pois, o fato consumado! Na presente conferência não me haveis de achar, porque haveis de achar os outros, salvo em alguns dos recantos, escondido na obscuridade pessoal. Creio que nem mesmo me posso comparar à laboriosa e pequenina abelha que da matéria prima colhida entre as flores fabrica um delicioso e refinado mel.

Eu sou antes semelhante à garrula criança que, durante o formoso mês de maio, recolhe no avental azul lindas rosas dos canteiros floridos. E depois as entrelaça, dispõe e forma um belo ramalhete para oferecer à Virgem da ermida.

A minha conferência, pois, é um buquê, onde eu só tenho folhas, porque as flores são dos outros; e, por cima, a sua disposição, que é o meu trabalho quase todo, acusa bem a imperícia do seu autor. A eloquência do púlpito tem feito a sobejo o panegirico da fisionomia espiritual de Maria e mergulhado nesses abismos a luz, voltando à tona cega de tanta glória e esplendor. Eu, meus senhores, escolhi para tema desta minha conferência mariana a Beleza exterior e física de Maria Santíssima.

Não se trata de um estudo crítico e profundo da matéria: é apenas uma apologia simples desta formosura sem rival.

Não é também uma exposição à altura do objeto, porque nem tempo houve, nem “a tanto me pode ajudar engenho e arte”.

A Beleza externa de maria será considerada:

1° No conceito Bíblico.

2° No conceito Tradicional.

3° No conceito Litúrgico.

4° No conceito Teológico.

5° No conceito Artístico.

 

Conceito Bíblico

Tiremos agora as nossas sandálias, porque santa é a terra em que vamos entrar. Escutemos no silêncio da alma, porque penetramos no sancta sanctorum onde Jeová faz trovejar a sua divina voz. Como as grandes catedrais da nossa Santa Religião, vasta, grandiosa, resplandecente é, e o é, soberanamente, essa Catedral da Religião que se chama a Bíblia.

Nas nossas melhores e mais importantes igrejas há um simbolismo admirável que se espalha pelas magníficas pinturas, baixos relevos, pelas linhas duma estatuária rica e artísticas decorações. O mesmo se dá na Basílica da Fé — a Bíblia. Um simbolismo surpreendente vive e palpita naquelas páginas do Céu com um esplendor raro de imagens, de alegorias, de fatos, de painéis lindíssimos e de uma significação profunda.

O Divino Redentor, que foi realmente o negócio dos séculos, se acha prefigurado e vaticinado em toda a Escritura antiga. Lê-se no Talmud que todos os profetas não vaticinaram senão sobre os dias messiânicos. Em virtude das afinidades estreitíssimas entre a personalidade de Cristo e a personalidade de Maria, resultante do mistério da Encarnação, eu creio que não será uma frase atrevida afirmar que, à semelhança do seu Filho, Maria foi também o negócio dos séculos prefigurado e vaticinado nas Sagradas Escrituras. Negotium saeculorum. Novum Testamentum in vetere latet et vetus in novo patet.

O Novo Testamento se oculta no Velho e o Velho se revela no Novo, diz o grande Santo Agostinho. Eu classifico ao menos para o meu fim, em dois grupos distintos a escritura figurativa de Maria o grupo personativo e o grupo emblemático. O grupo personativo compreende um grande número de figuras da predestinada pelo Altíssimo no segredo dos seus conselhos. Destaquemos a esmo: Ester, Judite, Sara, Raquel, Noemi, Abigail, Betsabé, Rebeca, Eva, Esposa do Cântico dos Cânticos.

Analisemos esses tipos bíblicos da Virgem sem falar de outros muitos que apareçem nos Livros Sagrados. Que diz a Bíblia, meus senhores, não digo da fisionomia moral, mas do caráter estético, sensível destas personagens, espelhos presentes da Virgem futura? Que diz?[1]

De Ester, lê-se no seu livro que era muito formosa e de incrível beleza, incredibili pulchritudine. Judite é de elegantíssima presença. Sara em extremo bela — pulchra nimis. Raquel é delineada como uma virgem bela e de formoso semblante; não é Noemi que diz: não me chameis Noemi, isto é, formosa? Prudentíssima e formosíssima era Abigail de Nabul, refere o 1° Livro dos Reis; a formosura excepcional de Betsabé e de Rebeca é superlativamente reconhecida nos Reis e no Gênesis; e Eva a mãe dos viventes, a primeira mulher, não podia deixar de surgir das mãos do Criador com todas as graças da natureza. O poema sagrado nos seus idílios com tanta prodigalidade de pinturas, com tanta poesia de expressão descreve a Esposa! Abri de olhos fechados o Cântico dos Cânticos e em cada página de ouro cintila o mesmo fulgor descritivo do formoso objeto do esposo encantado. [2]Senhores, porque essa insistência do Espírito Santo em acentuar a beleza dessas figuras de Maria? Porque tendo elas caracteres tão diferentes, missões diversas, tem este ponto de contato, de afinidade: a Beleza? Essas considerações dos autores nos iniciam nos desígnios da Providência. O Eterno retratara de antemão a beleza daquela de quem cantou o poeta Florentino: “Ó Virgem, Mãe e Filha de teu Filho; Mais do que ente criado humilde e alta; foste ao divino intento alvo prefixo”.[3]

Eram os esboços da obra-prima. Sim, porque[4]:

 

Obra-prima do artista onipotente

Tu és, Maria, a joia mais fulgente

De toda a criação.

 

Não tem mais brilho o sol, candor a lua,

Nem há beleza que se iguale à tua

Na graça e perfeição”.

 

O argumento de Santo Antonio é o seguinte: todas as mulheres que são figuras de Maria na Lei Antiga foram célebres pela sua beleza; ora, a verdade é superior à figura e a realidade à sombra; logo a formosura de Maria é incomparavelmente mais deslumbrante do que a de suas figuras bíblicas. Essas figuras são sinais de Maria. Qual é a noção filosófica de sinal?

É aquilo cujo conhecimento prévio leva ao conhecimento da coisa significada. Porque não será a sua fiel representação em virtude de sua relação sobrenatural? Essa reflexão confirma o argumento do douto santo. A propósito escreve um autor: “Plínio, o velho, conta em sua História Natural que o famoso pintor Zêuxis devendo fazer um quadro que os habitantes d’Agrigento queriam consagrar a Juno, estudou as virgens desta cidade para reproduzir em sua obra todas as belezas que poderia descobrir nelas. Pois bem, de uma maneira muito mais admirável, Deus Criador de todo o universo, Deus, o mais sublime dos pintores, escolheu entre as criaturas tudo o que elas encerravam de grandeza e de beleza e como numa pintura sublime, o realizou por Sua sabedoria infinita na Virgem Maria”. Do outro grupo — o grupo dos emblemas — ressalta pelas razões aduzidas a beleza exterior da Virgem. Na Sagrada Escritura nossa boa Mãe do Céu possui uma preciosíssima flora e mesmo uma esplêndida fauna. No reino das coisas sem vida, de toda a fulguração dos céus, de todos os encantos da terra em uma palavra de tudo o que há de belo e de brilhante formou o Altíssimo a auréola dos símbolos de sua eleita — objetos de suas eternas e amorosas intuições. É a mesma semelhança ou proporção do representante e do representado, do sinal e da coisa significada, da ideia típica e do objeto que se impõe claramente. Uma outra reflexão, meus senhores. O emblema envolve em sua natureza um caráter formal de atribuição: é um atributo real; ora, a lei da atribuição exige uma adequada proporção possível entre o sujeito e o atributo, para que ela seja relativamente perfeita. Por que razão, pois, tão belos títulos, belos nas coisas que exprimem, hão de descrever apenas a fisionomia luminosa da alma de Maria? Porque não fotografarão também a surpreendente beleza de seu olhar, dos seus lábios, de sua peregrina face?

Não há razão plausível para essa exclusividade moral. Belas coisas exprimem os emblemas marianos. Sim!

Não é ela a gemedora pomba escondida entre os rochedos? Não é ela a águia real alcandorada sobre os montes?

Que beleza! Que flora figurativa!

“Eu me elevei como o cedro do Líbano: estendi os meus ramos como as palmeiras de Cades; ergui-me como o plátano plantado à beira das águas, eu espalhei um perfume como a canela e como o bálsamo mais precioso”[5]. Floresce como a rosa e perfuma como o lírio, segundo a interessante estrofe encontrada em um antigo pergaminho:

 

Ut rosa flores

Flagras ut lilium,

Ora pro nobis

Ad tuum Filium.

 

Irradia como o sol, formosa como a lua, radiante como a aurora.

Que multidão, que riqueza, que brilho de comparações! E sobretudo é a rutilante estrela:

 

Symbole déespérance á l’heure ou tout est sombre,

Astre celeste ou Dieu mit toute sa splendeur,

Vienne le crépuscule intense qui fait peur,

Vienne l’heure angoissante ou le salut se couche;

“Ave Stella”, dira, dans un soupir, ma bouche[6]

 

Da análise dos dois grupos figurativos da Virgem emerge, brilhante de formosura inigualável, o perfil hiperangélico de Maria. E não se apele para o silêncio dos Evangelhos, porque esse mesmo silêncio é o maior panegírico de sua beleza exterior. Tenha a palavra S. Antonino: “Tendo Maria em plenitude tudo que de bondade e de beleza houve nos outros, calando-se o Evangelho acerca de um privilégio particular como a beleza e outros, louvou-a mais supondo tacitamente do que manifestando.

Do mesmo modo que os Arcanjos por serem louvados pelos dons superiores, por isso não estão privados dos dons inferiores que neles estão mais perfeitamente do que nas ordens menos nobres. E eu digo que o Evangelho não emudece muito, ao contrário, ele proclama a beleza peregrina de Maria. Não é aquele Mater Jesu a raiz e a preconização virtual das prerrogativas ainda naturais da augusta Mãe de Deus? E por que não tomar em toda a sua extensão a graça de que Maria possui a plenitude? ”[7]

 

Conceito Tradicional

Os estudos feitos sobre as antiguidades pagãs não têm apenas contribuído para o progresso científico, mas também têm derramado luz no problema religioso.

Os sábios que têm aclarado com a lâmpada de suas pacientes investigações esses labirintos do mito, descobriram relações e harmonia entre o mundo lendário e o mundo cristão, apesar de sua natural antinomia. Os inimigos da Igreja julgavam encontrar nessas semelhanças de doutrina um argumento formidável para provar que o Cristianismo é um grande plágio das religiões, relíquias conservadas no museu do passado, como se a seiva pujante de nossa fé pudesse ter saído dessas múmias estratificadas no sarcófago dos tempos!

Toda essa afinidade se explica naturalmente pela difusão primitiva da Revelação entre os povos.

Não é a religião verdadeira que é o plágio, muito ao contrário, ela é o arquétipo divino que o paganismo copiou, deformando-o na abominável saturnal dos seus vícios e paixões. E é por isso que nós encontramos na Mitologia antiga sombra dos mistérios inefáveis do Cristianismo. A Mariologia lucrou com essa pesquisas crítico-religiosas nos cultos pagãos[8].

A Virgem parece desenhar-se no perfil de Íris, de Ceres e outras divindades do círculo místico. Pois bem, aí, nas tradições idólatras, podereis descobrir confirmações do que vos tenho afirmado na explanação do presente trabalho sobre a formosura externa de Maria. Como tenho em muita conta o vosso precioso tempo, eu apenas citarei um testemunho pagão. Mas não irei desentranhá-lo do politeísmo helênico nem dos carvalhos do druidismo gaulês nem do masdeísmo persa que Zoroastro reformou ou do Budismo índico.

Não! Aqui mesmo nas nossas virgens florestas continentais, sob a verde umbela da pujante vegetação da América do Sul, no Paraguai, os habitantes do grande lago Zaragas, os Macênicos contavam aos missionários que “outrora uma mulher belíssima, ficando sempre virgem, teve do mesmo modo, uma encantadora criança que, depois de homem, operando milagres insignes, um dia no meio de muitos discípulos subiu aos ares convertendo-se no sol”. Consultemos, porém, a tradição cristã, não a que está nos monumentos antigos, mas a que está no senso católico, nos escritos dos Santos Padres e escritores eclesiásticos. Nessa rica messe há apenas o trabalho de escolher. Poderei reclamar a vossa paciente e benévola atenção? Escutai. O pensamento tradicional revela-se em toda parte, absorvendo a insignificante minoria contrária. Ide por aí afora em nossa terra, pelos nossos mais atrasados lugarejos, interrogai o filho do povo, e vereis que o mais bronco dos nossos patrícios não poderá admitir que a Virgem da Conceição não exceda em formosura a mais prendada das filhas dos homens. O mesmo, a fortiori, se daria num meio culto. Se eu pedisse agora nesta luzida assembleia uma votação nominal, Maria Imaculada alcançaria decerto uma esplêndida vitória. É tempo de referir alguns eloquentes testemunhos da dinastia espiritual dos Padres da Igreja e escritores eclesiásticos. Santo André de Jerusalém afirma que “Maria em seu corpo é a mais pura joia da virgindade, um céu esplêndido, uma viva imagem da beleza suprema, uma estátua viva que Deus mesmo esculpiu”. Ela é o espelho da beleza por excelência, diz Santo Alberto Magno. São João Damasceno escreve que “Maria é ao mesmo tempo a obra-prima da natureza e da graça”. Para que multiplicar sem necessidade as citações? Non sunt multiplicanda, é o aforismo da filosofia[9]. Nós não temos a felicidade de possuir de nossa extremosa Mãe Celeste um autêntico retrato. Seria um bálsamo para nosso espírito embeber o nosso olhar naqueles olhares de doçura que tanto consolaram os apóstolos.

Não o temos; nem a imagem comumente atribuída a São Lucas, diz um ilustre jesuíta, nem as descrições minuciosas que os historiadores gregos de data mais recente nos deixaram, são de natureza a assegurar um juízo do que o exterior de Maria poderia ter sido. Jamar, apoiado nesses historiadores, nos dá o seguinte retrato de Maria:

“Ela era duma estatura mediana; seu rosto era oval, dum puro colorido; e notável pela delicadeza e graciosa regularidade das linhas; a fronte larga, sobrancelhas bem arqueadas e dum moreno ligeiramente escuro; olhos vivos; cuja pupila era matizada dum delicado azul.

O nariz e a boca eram perfeitamente proporcionados; lábios purpurinos, queixo de uma forma irrepreensível; cabelos louros; as suas mãos desembaraçadas e delicadas”[10].

Revesti, meus senhores, este belo perfil, de nobreza, de candura, de modéstia, de gravidade, de maneiras simpáticas e distintas, e tereis Maria, segundo as descrições antigas, na esplendente e encantadora expressão de sua beleza sempre jovem. Sempre jovem, sim. Dionísio Areopagita quase que a tomou por uma Divindade se não soubera pela Revelação que só há um Deus. E quando a visitou, a Virgem estava muito além da idade juvenil. Eu li que, quando Deus resolveu criar a rosa, convocou para este fim uma câmara de deputados do universo. Uns queriam-na sem espinhos, outros sem eles não lhe achariam graça; e foi tal a balbúrdia e desencontro de opiniões, que Deus, por um golpe de estado, dissolveu a câmara e criou a rosa por um decreto especial. Este apólogo traz à lembrança aquela piedosa alegoria de Gerson sobre a criação da formosíssima Rosa Mística do Céu, alegoria que será a chave destas considerações sobre a Beleza de Maria no conceito tradicional. Quando o Altíssimo se determinou a formar Maria diante do seu sólio aurifulgente apresentou-se uma formosa dama acompanhada de suas servas. E ela assim falou: “Ó Deus que eu adoro e canto, permiti que ofereça os meus humildes préstimos para a formação daquela que é a ansiedade dos povos; nada farei para embelezar a sua alma candíssima porque isto não está em meu poder, mas eu juro e comigo juram as minhas dedicadas servas que havemos de torná-la a rainha inigualável da formosura.

Eu derramarei no seu rosto o encanto duma simplicidade, duma majestade ternura tal como jamais se verá; hei de compor tão bem o seu olhar, as suas palavras, os seus gestos, que ela será um modelo perfeito e admirável; ao vê-la todos hão de exclamar: esta mulher merece em verdade ser a imperatriz do mundo, a rainha triunfante dos céus. Era a natureza que assim falava, cortejada pelas influências e causas naturais. Falava ainda a poderosa princesa, quando se adiantou uma outra dama que tinha o ar e o porte duma verdadeira rainha.

Deslumbrante séquito a rodeava. Era a Graça. Ela desejava rematar esplendidamente a obra-prima do Criador. Por ela falou a sua irmã — a Sabedoria — implorando ao Onipotente o favor da concessão. E foi assim que dos prodígios da natureza e da graça brotou a rosa branca e virginal que Deus criou para o enlevo do céu e êxtase da terra”.

A alegoria do religioso chanceler coroa magnificamente a prova testemunhal do conceito de tradição da beleza mariana. Diz Santo Agostinho, que as palavras são vasos de ouro que contém o licor do pensamento. O licor do pensamento tradicional é finíssimo, mas eu lamento profundamente que as minhas desluzidas palavras não tenham sido essas taças de ouro para a libação de tão precioso néctar.

 

Conceito Litúrgico

Não é infrutífero o labor de quem escava as entranhas ricas duma mina. Não é! Não é improfícuo o mourejar de sol a sol do nosso lavrador a abrir nos seios da terra virgem sulcos para o plantio. O seu suor não é como a gota de suor de Buda guardada num templo da Coréia, suor que esteriliza, diz a lenda, a vegetação circunjacente.

Não, o suor do trabalho fecundo é germe, é arbusto, é árvore, é fruto, é flor e, mais tarde, pão e vida. Eu também me fiz de mineiro e fui buscar lá nas antigas liturgias o ouro precioso de uma confirmação em favor do meu asserto; fiz-me de solerte lavrador e abri o sulco nesse terreno opulento do ritual cristão, não para plantar mas para descobrir entre os esplendidos tesouros joias de preço real para prestar homenagem à fascinante beleza externa de Maria. E podia dizer como Arquimedes: “Eu achei”. Na verdade, achei. Ouvi, senhores. Não há aqui lugar nem há tempo para uma dissertação profunda sobre tão importante estudo. Limitar-me-ei a uma singela exposição. As pinturas das catacumbas e as imagens são o que se chama a Liturgia muda.

Mas deixá-la-ei para algumas considerações que dizem respeito à arqueologia e à iconografia mariana. Agora apenas uma ligeira síntese dessas pérolas espalhadas na liturgia marial de todos os tempos porque o culto de Maria tem as suas origens na idade apostólica, para não dizer que é eterno como Deus. [11]A liturgia grega canta assim: “justos alegrai-vos; regozijai-vos, ó céus; exultai, ó montes; o Cristo nasceu; a Virgem está sentada semelhante a um querubim... E mais: Ó vós que sois o brilhante palácio do Senhor, como vindes num miserável estábulo dar ao mundo o Rei, o Senhor encarnado por nós, ó Virgem toda santa esposa do grande Deus? ” “Salve, Virgem Mãe de Deus, exclama a Liturgia Abissínia, Vós sois o turíbulo de ouro que trazeis o carvão de fogo, o verbo encarnado...”

O rito Moçárabe é deste modo que celebra a Virgem Santíssima. “É a lâmpada que o Espírito acendeu e em que fez aparecer a verdadeira Luz”. Ouvi algumas estrofes escolhidas desta encantadora sequência:

 

Salve, Mater Salvatoris,

Vas electum, vas honoris,

Vas caeleste gratiae.

 

E na décima e undécima estrofes:

 

Tu caelestis paradisus,

Libanusque non incisus,

Vaporans dulcedinem.

 

Tu candoris et decoris...

Tu dulcoris et odoris,

Habes plenitudinem.

 

Que encanto! Tu tens toda a beleza, a plenitude — habes plenitudinem.

A décima sexta nos pode dar um excelente coronal:

 

Sol, luna lucidior,

Et luna sideribus,

Sic Maria dignior

Creaturis ormnibus.[12]

 

E quantas vezes tendes repetido no Breviário ou no Ofício parvo aquela antiguíssima antífona:

 

Ave Regina coelurum,

Ave Domina angelorum.

 

Virgem gloriosa que a todos venceis em beleza — Super omnes speciosa. A Deus, ó Soberana da Beleza, reza a Cristo por nós:

 

Vale, o valde decora,

Et pro nobis Christum exora.

 

A hinologia, o antifonário, prosas e ladainhas, Missas e Ofícios, nos forneceriam as expressões mais poéticas da Beleza de Maria, num religioso lirismo de encantar.

Como podeis ver, é impossível a Liturgia mariana em todas as suas surpreendentes manifestações. Mas, para exemplo, tomai o Breviário ou o Missal.

Abri-os: 15 de agosto. Muito bem! É a festa de hoje — A Assunção de Maria.

Ofício vesperal. Cantaste-lo há pouco. Última antífona: tu es bela e formosa, ó filha de Jerusalém. Antífona ad magnificat: “Ó Virgem Prudentíssima para onde tu te elevas como uma aurora rutilante? ”

“Filha de Sião, toda formosa e meiga, tu és bela como a lua e brilhante como o sol”. Que quereis mais? Lede as lições do primeiro noturno: “Eu sou negra, mas sou formosa, ó filhas de Jerusalém, como os tabernáculos de Cedar... Tu és bela — os teus olhos são como os da pomba”.

E assim a Liturgia vai aplicando à figura angélica da Virgem todo o fulgor dos tropos bíblicos e das eloquentíssimas palavras dos Padres da Igreja, cujo testemunho em favor da Beleza exterior da Imperatriz Celeste é tão claro e peremptório. Aqui poderiam objetar dizendo que o senso litúrgico se refere à maravilha de sua alma sobrenatural e não à formosura corporal.

Bem que em muitas das citações vê-se claramente compreendida esta beleza e máxime na festividade da Assunção, em que se celebra a miraculosa subida de Maria ao Céu, corpo e alma, como se pode ainda responder dizendo que a Liturgia canta uma plenitude de Beleza, que não é estranha ao sentido bíblico, à tradição e ao bom senso que sobre tal ponto não hesita. E, para concluir essas modestíssimas reflexões sobre a Liturgia mariana, recordemos a bela e encantadora Ave-Maria em que está o completo panegírico de nossa celestial e carinhosa Mãe: cheia de graça.

No mês de maio entre todas as flores realça a Rosa — símbolo místico — Beleza sobre-humana que maio em flores saúda, como canta harmoniosamente a musa italiana na peregrina música do verso:

 

Te del Signore piccoletta ancella

Sorrisa de um gentil nimbo d’amore,

Saluta com l’angelica favelia

Il dolce maggio in fiore:

 

Saluta l’aria deliziosa e plena

Di profumi, di canti, d’armonia,

E la balza fiorita e la serena

Convalle: Ave Maria.

 

E il bosco fondo mormorante a’ venti,

E la collina aprica e solatia

Sprigionano d’omaggio umili accenti

A Te, dolce Maria.[13]

 

Conceito Teológico

Dizem, meus senhores, que o Nemrod apresentou, um dia, três urnas fechadas aos três filhos. Os escravos seguravam-nas.

Ao seu primogênito disse o rei: “Escolhe meu filho, a urna que te parece conter maior tesouro”. O príncipe escolheu uma que era de ouro, na qual havia a palavra — Império. Abriu-a e estava cheia de sangue. Nemrod dirigiu-se ao segundo filho e disse: “Toma também uma delas e abre-a”. O mancebo obedeceu e na sua urna de âmbar tinham gravado — Glória.

Nela estavam guardadas as cinzas dos grandes da terra. “Filho meu, falou o monarca ao terceiro, toma a urna de barro e abre tu também”. Ele abriu-a; estava vazia, mas no fundo se via escrita esta palavra: Deus.

Qual das urnas vale mais? perguntou o rei. Os ambiciosos disseram que era a de ouro; os poetas e conquistadores que era a de âmbar; os sábios responderam que era a de barro, vazia porque uma só letra do nome de Deus valia mais que o globo da terra.

Pois bem, meus senhores, por mais humilde que seja o barro humano, por mais frágil que seja a estátua de argila em cuja fronte o Eterno acendeu os lumes da razão, esse barro que vive, que sente e pensa, torna-se maior que a sua própria natureza, quando em seus misteriosos abismos, a Fé gravou indelével o nome sacrossanto da Divindade. O seu coração é o santuário de Deus, de conformidade com a palavra do Apóstolo: toda a edificação construída em Cristo cresce como um templo consagrado ao Senhor — sanctum in Domino.

Sobre os escombros dos ídolos antigos erguem-se os altares do Deus vivo, sobrenaturalmente iluminados. Pois bem, meus senhores, Maria é o tabernáculo por excelência do Altíssimo, tabernáculo debaixo de cujo pavilhão Deus habitaria não espiritualmente, mas ainda corporalmente.

Digo mais: o Corpo de Deus humanado, templo augusto, tiraria a sua matéria da preciosa matéria do corpo de Maria, santuário divino.

Senhores, os templos materiais dedicados à glória de Deus, ostentam e devem ostentar na sua fisionomia arquitetural uma beleza, uma feição estética admirável, eles que são destinados à suprema Beleza-Deus.

Que dizer da formosura da decoração externa do mais digno, do mais grandioso dos templos divinos?

O Artista excelso não se deixou vencer pelos artistas humanos e de Maria fez a sua obra-prima de sua divina Arte. As afirmações teológico-racionais ou melhor, a razão teológica robustece desse modo os dados fornecidos pela Bíblia, pela Tradição e pela Liturgia.

Eu quisera dispor de mais tempo e traria à tela desta modesta discussão muitos outros argumentos. Limitar-me-ei a apresentar mais um que não poderei desenvolver completamente.

Há uma lei fisiológica que determina a reprodução dos tipos: a lei chamada hereditariedade. A hereditariedade e a verificação da “lei pela qual, diz Mercier, o ser vivo possui um princípio de finalidade imanente, em virtude do qual tende naturalmente à formação, à conservação, à reprodução dum tipo determinado”. Em virtude desta lei herda-se não somente o caráter da espécie, mas ainda se transmite os caracteres individuais.

Baseados nessa lei, procuram certos filósofos destruir o livre arbítrio sustentando que o vício e a virtude são heranças.

Nada mais falso em psicologia, porque o vício e a virtude — não são produtos materiais. Em virtude do fenômeno hereditário dá-se algumas vezes retrocesso nos tipos dos avós, o que se chama atavismo.

A fortiori, o tipo imediato imprime os seus caracteres físicos. Daí a lei ordinária que os pais são semelhantes aos filhos e vice-versa. E ainda mais o sexo masculino, é o ensino dos autores e uma coisa vulgar, reproduz ordinariamente as feições maternais: filii matrizant.

Ora, meus senhores, Jesus Cristo é o mais belo dos homens — speciosus prae filiis hominum; é o filho de Maria. Logo Maria de quem Jesus, como Filho, reproduz as lindíssimas feições, foi ornada das galas de uma formosura sem rival.

A lei supramencionada admite exceções; aqui, porém, não se verificam, porque em Maria, segundo ensina um autor, a semelhança entre o Filho e a Mãe deve ser mais acabada em virtude da ação do Espírito Santo, que não podia ser perturbada pela causalidade de influências subalternas.

A razão teológica une, pois, a sua nota vibrante ao hino universal em honra da beleza daquela de quem cantou Leão XIII na inspirada poesia — Prece à Virgem:

 

Maria Dulce melos dicere mater ave:

Dicere Dulce melos, ó pia Mater ave,

Tu mihi delicia, spes bona, castus amor,

Rebus in adversis tu mihi praesidium.

 

Senhores, perdoai a tirania de minhas palavras e vinde contemplar comigo a Beleza de Maria no conceito artístico.

Sob este ponto de vista um novo horizonte de considerações descortina-se à visão de nossa alma embebida neste esplendor sobre-humano que nimba a figura doce, meiga, imaculada da Rainha do Céu.

 

Conceito Artístico

A arte, meus senhores, é a encarnação do ideal. Filho das visões do espírito, o ideal projeta sobre a obra de arte um raio de sublime concepção. Com razão disse Castelein: “A obra de arte deve ser original, harmoniosa, evocadora do ideal”.[14] O Belo criado, que a arte auxiliada pela ideia luminosa, genial e pelas formas concretas e sensíveis da imaginação, procura traduzir e encarna, é um reflexo do ideal Supremo.

É o que disse Kant: “O belo é um reflexo do infinito sobre o finito: é Deus entrevisto”

O Eterno fez as coisas como expressões do seu ser, de sua bondade, de sua beleza essencial, de suas perfeições; elas são o espelho da Divindade. Ora os seres exprimem as perfeições divinas segundo o grau de sua perfeição material; são espelhos mais ou menos luminosos e perfeitos.

Pois bem, meus senhores, os artistas cristãos conceberam um ideal grandioso e sublime da beleza de Maria, considerando-a como a obra prima das mãos do artista divino, feitura plástica, perfeitíssima do poder do Criador. E como o ideal se materializa na forma sensível, eles procuravam imprimir nos tipos de arte mariana — uma perfeição estética inigualável.

Não foi somente pelas prerrogativas espirituais, que a Fé lhes mostrou em Maria, que eles a esculpiram, a cantaram sobrenaturalmente bela. “A voz da tradição e da sua razão lhes revelaram também a Virgem em todo o fulgor de sua formosura sensível. Nas criptas das catacumbas a arte primitiva cristã deixou as suas pinturas de Maria; e séculos afora a Virgem tem recebido as homenagens dos eleitos do gênio artístico. Como não admitir essas magníficas Madonas de Rafael, de Vinci, em sua “Santa Família”, de Fra Angélico; a “Assunção” do Ticiano e a de Murilo? O gênio arrematado pela fascinação do ideal, sentiu-se muitas vezes apoucado diante do sublime.

Eu cito um laureado orador:[15]

“Como traduzir estas maravilhas?

Ah! A obra é difícil, porque, como muito bem disse Dante, “a forma não se harmoniza sempre com as instruções da arte; porque a matéria é surda para responder”.

“Angélico de Fiesole derramou mais de uma vez lágrimas; Leonardo de Vinci quebrou os pincéis; Miguelangelo criticou as suas obras; grandes artistas se sentiram invadidos pela tristeza todas as vezes que tentaram representar a divina realeza do Cristo e as graças celestes de sua Mãe; e sobre as obras primas que nós admiramos hoje eles ousavam apenas lançar os seus olhares desanimados”

Que vos direi, senhores, da iconografia Mariana? Seria uma lista infindável a enumeração desses primores da estatuária e escultura dos mestres cristãos.

Os dicionários iconográficos nos fornecem um compte rendu minucioso das belezas de mármore e de gesso, que sorriem na própria insensibilidade da matéria, que, mudas, são duma eloquência que admira, dum encanto que seduz e hipnotiza o olhar.[16]

Vede, meus senhores, esta esplendida imagem da Virgem da Assunção, dádiva preciosa da generosidade do nosso venerando Prelado[17]. Vêde-a nesse belo monumento enfeitado de garridas flores. Não há um que de celeste e de divino na expressão de seu olhar, na peregrina formosura de suas faces cor de rosa? O artista arregaçou-lhe delicadamente o manto azul-celeste sobre a túnica de ouro. É só assim, meus senhores, que a arte pode conceber a Maria.

A numismática também quis render o seu respeito à Virgem inefável. Na exposição marial realizada no Palácio de Latrão a 26 de novembro de 1904, havia uma soberba coleção de 12 mil medalhas, sinetes e moedas de Maria, enviadas pelo Padre Corbiére de Saint Louis des Français.[18]

Quantas harmonias o anjo da arte divina tem atirado aos pés de Maria? Porventura a alma musical não tem sofrido os tormentos da inspiração para saudar a Beleza da Mãe de Deus?

Senhores, eu sou constrangido a resumir para não fatigar a vossa benevolente atenção. Mas, como esquecer os surtos do gênio da poesia, celebrando as graças da Rainha dos Anjos?

As liras de todos os povos com a tristeza dos seus trenos o com a vivacidade dos seus júbilos celebraram os encantos da Senhora.

Permita-me o autor[19] algumas de suas lindas estrofes, feitas à beira do túmulo: — In hora mortis:

 

Maria, dulce Signora,

eletta como il sole,

per cui il cielo s’infiora

di rose e di viole;

 

Maria, Vergine pura,

aurora sempiterna

alta piú che criatura

sui ciecli ove s’eterna

 

La Somma Sapienza;

vedi quant’é l’errore

che incombe e la demenza

che ci ottenebra il cuore!

 

Assim a poesia toma parte no harmonioso e universal congresso das artes em louvor da Virgem a quem a humanidade implora um olhar que, como diz o poeta espanhol, é:

 

Bello fulgor que al sacro Eden nos guia

Dulce Maria!

 

Para citar poesia nossa, da terra brasileira, ouvi como no Caramuru, S. Rita Durão descreve a formosura de Maria:

 

“Todos suspendem em pasmo respeitoso

O amável formosíssimo semblante;

E mais nele se ostenta poderoso

O soberano autor do céu brilhante:

Quanto a angélica luz de rutilante,

Quanto dos serafins o ardente incêndio,

De tudo aquele rosto era um compendio”

 

Meus senhores, na solenidade inaugural da exposição mariana em Roma, o Cardeal Ferrata, num discurso admirável sobre o tema “Maria foi a sublime inspiradora da arte cristã”, enunciou entre outros estes belos pensamentos: “Maria é o gênio mais fecundo, o ideal mais puro da arte cristã, desta arte que tem por objeto a harmonia da fé e da razão, do natural e do divino das maravilhas deste mundo e dos esplendores revelados”. Maria é bela como o sorriso de Deus, nela se encontram o sublime, o verdadeiro, o belo e o bem.

Falando de Rafael, disse estas palavras: “Ele pode ser chamado o pintor por excelência da Rainha do Céu. Das belas tradições da Escola de Umbria, do estudo dos mestres precedentes, mas sobretudo do seu coração, de seu gênio, de sua natureza tão delicada, o jovem artista tirou a inspiração que deu à fisionomia de Maria esta forma tão pura e bela, esta pose majestosa e atraente, esta expressão suave e venerável de Virgem e de Mãe, que nos arrebata e nos enche de amor como uma visão do paraíso”[20]

A Virgem, meus senhores, que tem recebido em todos os séculos tão brilhante consagração de sua real beleza parece dizer aos marechais da arte, na frase de Monsabré, estas palavras que o grande dominicano põe nos lábios virginais de Maria:

“Amantes da verdadeira beleza que procurais o divino na Criação, contemplai-me, pedi-me inspiração e conselhos: Eu sou o Senhor das Artes”[21]

O ideal artístico de Maria abraça o conjunto de todas as suas belezas espirituais e naturais, que o Artista exprime nas formas mais resplandecentes da matéria, porque não pode conceber que uma alma tão peregrina e celeste fosse a inquilina eterna duma moradia vulgar.

Permiti, senhores, que eu termine esta última parte de minha humilde conferencia com chave de ouro: é a homenagem de um príncipe da arte, da inteligência eleita de um grande poeta à Beleza de Maria.

É o primoroso soneto de Luís de Camões, orgulho imortal das duas pátrias que falam a Língua Portuguesa:

 

Para se enamorar do que criou

Te fez Deus, sacra Phenix, Virgem Pura.

Vede que tal seria essa feitura

 

Que para si o seu Feitor guardou.

 

No seu alto conceito te formou

Primeiro que a primeira criatura,

Para que única fosse a compostura,

Que de tão longo tempo se estudou.

 

Não sei se diga eu tudo quanto baste

Para exprimir as raras qualidades

Que quis criar em ti quem tu criaste.

 

És filha, Mãe e Esposa: e se alcançaste

Uma só, três tão altas dignidades,

Foi porque a Três de Um só tanto agradaste.

 

Deo Gratias” é o grito que a vossa delicadeza acaba de sufocar.

Deo Gratias” também digo eu porque hei de levado até o Calvário a minha Cruz. Mas ainda, senhores, uma dose de paciência e eu desaparecerei daqui.

Não quero terminar sem levar os meus parabéns a essa mocidade levítica que tão filialmente festeja a subida gloriosa de sua Mãe ao país das eternas alegrias — O Céu.

Filhos de Maria, este vosso esforço vos honra em demasia e é uma segurança ao mesmo tempo que uma credencial junto ao trono da Mãe de Deus.

Nos prélios do vosso futuro apostolado, no campo aberto da batalha universal, haveis de recordar-vos, saudosos, destes momentos felizes, verdadeiros paraísos volantes na terra; haveis de recordar-vos, jovens (e com lágrimas nos olhos), e esta recordação por si só seria um bálsamo, porque, no vosso peito há de brotar a flor da esperança naquela que não se deixa vencer em amor, nem deixa homenagem sem recompensas!

Meus parabéns!

Eu li, senhores, que um saltimbanco assistia a uma grande festa em honra de Maria. Essa história que li numa revista francesa — Lectures pour tous, a encontrei mais[22] desenvolvida numa conferencia mariana do nosso ilustre e católico patrício o Sr. Conde de Afonso Celso. Diz ele que a imagem era da Virgem da Glória, das que tem o menino Jesus no braço.

Todos, ávidos de homenagear a Virgem, traziam, cada um a sua oferta. Este levava o lírio branco; esse o seu perfumoso incenso; aquele atirava flores; mais além na salva tiniam as moedas de ouro e de prata.

Só o nosso acrobata não se movia. Coitado! Era tão pobre o palhaço da feira! Mas ele se afligia muito.

 

Que poderei dar?

De súbito na sua alma de pobre e de simples, mas devoto de Maria, relampejou uma ideia. E ele disse com seus botões: “Eu sei fazer cabriolas, eu tenho os meus jogos. Quem sabe se ela não aceitará isto oferecendo-o de coração? É tão boa! ” E, rompendo o povo, aproximou-se do altar, estendeu um tapete no chão e começou a fazer toda a sorte de ginástica e de cambalhotas de sua arte diante do nicho.

Foi um escândalo. O povo gritava, quase o agarravam como um louco.

E ele, o bom saltimbanco, teimava. “Deixem-me, senhores. A intenção é que vale. Ao menos o menino há de gostar. As crianças gostam disso”

Consentiram, cheios de emoção. O pelotiqueiro, diz Afonso Celso, fez o que de mais fino contava o seu repertório.

E então, rezam as crônicas, houve um milagre. O Menino Jesus que estava nos braços da Virgem, sorriu, quase aplaudiu o acrobata.

O pelotiqueiro entusiasmado, oh! Se o tivésseis visto imaginai, senhores, fez prodígios de ginástica, empregando todas as forças possíveis.

Extenuado, esgotado, nadando em suor, ele rolou por terra. Coisa nunca vista!

O Menino sorria e a Mãe Celeste, sorrindo, desceu do altar, devagarinho, cheia de doçura, com nívea mão enxugou, com a ponta do manto cor do céu, a fronte suarenta do acrobata.

Senhores, eu sou como o saltimbanco da Virgem da Glória.

Não tinha vela, não tinha ouro, nem incenso, nem flores. Pobre como palhaço de feira, eu toquei a minha indigência.

Que oferenda lançar aos pés de minha Mãe?

Vi os meus irmãos com as mãos cheias de mimos e eu não os tinha.

Como o pelotiqueiro da lenda vim para aqui, ao pé do deslumbrante monumento, fazer o que sabia.

Não vos importuneis com as minhas peloticas sem arte e sem estilo, porque a intenção é que vale.

Se não mereço que a Virgem enxugue o meu suor, com a fimbria azul do marchetado véu, ao menos tenho a confiança de ir juntamente com os meus indulgentes ouvintes contemplar no Céu a Beleza deslumbrante de sua peregrina face.

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

 


[1] Cf. Terrien Jourdain.

[2] Cf. Terrieu Jourdain. Escrip.

[3] Divina Comédia.

[4] Apud. Rev. S. Cruz.

[5] Cântico dos Cânticos.

[6] Apud. Noél.

[7] Cf. Terrien – Nicolas.

[8] Apud, Nicolas.

[9] Vid. Terrien, Jourdain.

[10] Apud. Jordain.

[11] Vid. Nicolas.

[12] Adam de S. Vitor.

[13] Leonardo Mascello, Foglie al vento.

[14] Psichologie.

[15] Monsabré

[16] Vid. Dicc. Iconographique, Migne.

[17] D. Luiz de Britto, Arcebispo de Olinda.

[18] Rome, revue.

[19] Ver. P. Mascello

[20] Apud. Revue Rome.

[21] Discurs et Panegiriques.

[22] Apud. Rev. S. Cruz

Irmã Maria-Marta Chambon e a devoção às Santas Chagas

Pe. Garrigou-Lagrange, OP

A vida desta brava irmã conversa da Visitação de Chambéry, nascida em 1841, falecida em 1907, foi escrita em 1928 com muito zelo, precisão e piedade pelas religiosas desse convento, conforme as notas deixadas pelas superioras. Este livro, que traz nas páginas iniciais a autorização e um precioso elogio de Mons. Castellan, arcebispo de Chambéry, contém sobretudo exemplos de piedade e virtude, e apresenta uma vida profundamente marcada à semelhança de Jesus crucificado, com algumas imperfeições involuntárias, que subsistem até o fim na serva de Deus, a fim escondê-la.

Julgamos útil assinalar aqui alguns traços desta fisionomia espiritual: as graças dos primeiros anos; aquilo que parece bem ser sua missão especial: fazer recordar ao mundo a devoção às santas chagas do Salvador; suas virtudes cristãs, particularmente, a mortificação, a humildade, a obediência, a simplicidade e as virtudes teologais. Há nesta vida uma grande lição para os nossos tempos.

 

Primeiros anos e vocação

Françoise Chambon nasceu em Croix-Rouge, pequenina aldeia verdejante situada perto de Chambéry, em 6 de março de 1841. Neste mesmo dia, tornou-se ela filha de Deus pelo santo batismo. Pobreza extrema, mesmo miséria, reinava no lar onde sua mãe lhe deu à luz, semelhança notável com a penúria de Belém. Destinada a seguir o divino Mestre em suas humilhações, esta criança privilegiada reproduzia-lhe os traços desde a aurora de sua vida. Pequenina, o pensamento de Deus lhe absorve, lhe invade, ao ponto de deixar fugir a única cabra confiada aos seus cuidados. Seus pais, honestos, piedosos e trabalhadores, transmitiram aos seus filhos os sentimentos de fé profunda, o espírito de dever, o amor do trabalho. Seu pai, homem simples e reto, trabalhador rude, dedicava-se à agricultura ou trabalhava na pedreira das proximidades. Pelo trabalho, sua família atingiu certo bem estar material.

Sua mãe tinha gosto em levar a pequena primogênita às cerimônias da Via Sacra. Uma tia estimulava igualmente seu pendor pela oração. Numa Sexta-feira Santa, levou-a à adoração da Cruz. Françoise tinha oito ou nove anos. Solicitada pela tia, e apesar do grande cansaço, diz os cinco Pater com os braços em cruz. Neste momento, Nosso Senhor aparece-lhe pela primeira vez, crucificado, a carne em pedaços, coberto de sangue. Esta visão causou-lhe grande impressão e acendeu na sua alma ardente caridade. Comungar tornou-se, a partir de então, seu maior desejo. Logo aprende oralmente seu catecismo, pois jamais soube ler nem escrever. Foram a estas poucas noções elementares que se restringiu toda sua instrução. Françoise, possuída do amor de Jesus, sente nascer nela a necessidade de mortificar-se...o amor quer comunicar-se! “Mãe, roga ela, dá-me a sopa antes de pôr-lhe manteiga” (p. 11). De noite, quando todos repousam, ela levanta-se para rezar longo tempo, joelhos sobre a terra nua.

Os sacrifícios preparam-na para sua primeira comunhão, que foi para ela um acontecimento decisivo. “Ao comungar, dizia ela, foi o menino Jesus que vi e recebi... Oh! Como fiquei feliz!... Ele me disse que sempre que eu comungasse seria assim... Era o céu! Tem-se o paraíso no coração”(pp 12-13).

Aquele que se regozija com os humildes manifestar-se-á a esta alma predestinada, quer carregando sua cruz, quer sob a forma de uma adorável criança. Ele mesmo se incumbirá da direção de sua vida interior, e purificará, instruí-la-á e imprimirá nela os traços de sua Infância e Paixão.

A Paixão do Salvador é o grande motivo de Françoise. Ela só pensa em Jesus, quer “ocupar-se somente dele, viver como os anjos... não considerar mais as coisas do mundo...” (p. 15).

Não demora a aspirar à vida religiosa. Sua saúde, de aparência pouco robusta, foi um obstáculo a sua admissão ao Carmelo. Encaminha-se à Visitação de Chambéry, onde ingressa no ano de 1862. Françoise tinha vinte e um anos. Era aí que Deus a queria, entre as filhas da Visitação, cuja vocação é a de reproduzir a vida escondida de Nosso Senhor, adorá-lo e imitar a humildade do Verbo Encarnado. “Erigidas no Monte Calvário, devem crucificar-se com Nosso Senhor” (Constituição XLIV). Veremos a que ponto Nosso Senhor realiza este programa nessa alma de elite.

A nova postulante foi inicialmente admitida entre as moças do serviço de pensionato. Foi aí, na prática dos mais humildes trabalhos, um pouco à margem da comunidade, que a veremos levar uma vida de sofrimento e apostolado. Sua tomada de hábito ocorreu no dia 29 de abril de 1863, quando recebeu o nome de Irmã Maria-Marta. O ano seguinte foi o da sua profissão.

É preciso reconhecer que a Irmã Maria-Marta não possuía as graças da natureza, os charmes do espírito, que atraem a simpatia e favorecem as relações. De caráter rude e pouco refinado, temperamento vivo, vontade tenaz e pensamento limitado, suas características exteriores pouco amáveis tornavam a pobre irmã, por vezes, fatigante. Apesar dos esforços que fazia, suas imperfeições subsistiram até o fim de sua vida: Nosso Senhor servia-se delas como de um meio para mantê-la na obscuridade. Queixava-se delas ao divino Mestre: “Com todas as vossas graças, não me tirastes todos os meus defeitos” – “Tuas imperfeições, respondia-lhe, são a grande prova de que vem de Deus aquilo que se passa em ti. Jamais as tirarei; são o manto que esconde meus dons. Tens desejo de se ocultar? Muito mais o tenho eu” (p. 30). Contudo, como soube modelar essa alma a seu gosto, cultivá-la em sua tão simples inteligência, ocupando-a com as verdades eternas, encher esse coração de desejo do divino, de sede de sacrifício, de amor pelas almas!

 

O tesouro das Santas Chagas

Nosso Senhor fê-la conhecer os tesouros infinitos guardados nas suas Chagas, e instava-a a oferecê-los sem cessar a Deus Pai pelas necessidades da Igreja e de sua comunidade, para a conversão dos pecadores e para retirar almas do purgatório. “Com minhas Chagas, disse-lhe, tens todas as riquezas do céu para distribuir na terra”. “Deves fazer valer as riquezas de minhas santas Chagas”. “Tua riqueza é minha santa Paixão” (pp. 54-55).

Nosso Senhor queixa-se do esquecimento por parte das almas de suas sagradas feridas; elas não sabem colher-lhes os frutos, e chegam a menosprezá-las. E seu amor misericordioso elegeu uma pobre religiosa, Irmã Maria-Marta, para fazer lembrar as almas da devoção às suas Chagas. Não é ela particularmente conveniente nesses tempos tão atribulados? Não é chegado o momento de espalhar nesse pobre e confuso mundo os méritos infinitos do sangue redentor?

“Eu te escolhi, diz a Irmã Maria-Marta, para fazer despertar a devoção à minha santa Paixão no tempo infeliz em que vives” (p. 61). Quantas almas meditam na Paixão de Cristo? Quão pouco são os que estimam a Cruz, ou, se a contemplam, querem carregá-la! No entanto, é ela a verdadeira escola de amor, escola austera na qual Nosso Senhor formará sua fiel discípula.

Eu te escolhi, diz ainda Jesus, para fazer valer os méritos de minha santa Paixão para todos; mas quero que tu mantenhas-te escondida. A mim caberá mais tarde de dar a conhecer que é por este meio que o mundo se salvará – e pelas mãos de minha Mãe Imaculada” (p. 61). “Minha filha, o mundo será mais ou menos atribulado conforme tu cumpras teu dever. Tu és escolhida para satisfazer minha justiça” (p. 61)

Mostrando-lhe suas Chagas: “Não desvies os olhos de cima deste livro e aprenderás mais que os grandes sábios. A oração às santas Chagas compreende tudo” (p. 61).

Segundo os testemunhos recolhidos de sua vida, Nosso Senhor fez com que ela participasse da sua crucifixão, imprimiu-lhe na carne os sagrados estigmas, alimentou-a unicamente com a Eucaristia por mais de quatro anos, enquanto seu amor a crucificava, na alma e no corpo, associando-a a sua obra redentora. Veremos como, por sua vez, Irmã Maria-Marta responde ao apelo do Mestre com todo o fervor e generosidade do seu amor.

 

Via Crucis

Bem parece que esta alma eleita, transparente como o cristal, não teria tanta necessidade de purificação para si mesma, mas as provações serão proporcionadas à sua missão apostólica e reparadora.

O divino Mestre convida-a a passar as noites estendida sobre o assoalho da sua cela. Tendo obtido de sua superiora permissão para tanto, que lhe fora inicialmente negada, dorme sobre a terra nua, e isto ao longo dos anos. Nosso Senhor vai além: é um rude cilício que ela deve usar noite e dia, que lhe causa muito sofrimento. A pedido e conforme as indicações do Mestre, faz uma coroa de espinhos muito pontiagudos e usa-a de noite. Doravante, carregada de vivas dores, não tem mais onde repousar a cabeça. Uma noite, no fim das forças, a esposa do Crucificado queixa-se ao seu Salvador. “Minha filha, persevere com mais força”, diz-lhe. Irmã Maria-Marta obedece corajosamente. Desta vez, Aquele que não se deixa vencer em generosidade, contenta-se com um simples aquiescer: e ela já não sente dor nenhuma. O dia em que Nosso Senhor disser-lhe: “Tua coroa não te faz mais sofrer o bastante” (p. 193), ela a trocará por um cinturão com pontas de ferro. Ei-la, estendida sobre o assoalho, coroada de espinhos, os braços em cruz, viva imagem do divino Crucificado. Nosso Senhor uniu desse modo a Irmã Maria-Marta à sua Paixão, que não pode fazer mais do que como Ele, com Ele. Seu coração abrasa-se de amor. Não realiza em si mesma o desejo do Salvador? “Gostaria de ver todas as minhas esposas como crucifixos!” (p. 76). Contudo, em certos momentos, a natureza se desespera; a pobre religiosa sente a tentação de abandonar essa intolerável coroa. Nosso Senhor aparece-lhe então em sofrimentos atrozes, a fronte traspassada de espinhos. “Minha filha, não abandone a minha coroa”, reprova-lhe amorosamente o Salvador (p. 194). Confusa, Irmã Maria-Marta retoma-a; cura-se de toda a recaída. Esposa, deve compartilhar a vida de seu divino Esposo, vida de sofrimentos e imolações; deve morrer a si mesma para viver somente para Ele.

“Elege em tudo e por onde for o que mais mortificar-te”, diz-lhe Jesus (p. 190). Sempre dócil, esta alma heróica escolhia, em tudo, o menos agradável, o mais penoso.

Nosso Senhor assedia a Irmã Maria-Marta com exigências, convida-a a sacrificar seu sono para velar perante o Santo Sacramento. Exausta, vemo-la solicitar um pouco de repouso aos seus superiores, mas eles, conhecendo o desejo formal de Nosso Senhor, conduzem-na a seu posto de oração, à tribuna.

Nosso Senhor aparece-lhe um dia em seu estado de crucificado, embebido em vinagre e fel. Irmã Maria-Marta afligiu-se tanto que jamais pôde esquecer. “É preciso, dizia o Mestre, que me mates a sede com tua mortificação” (p. 191). Contudo, a brava religiosa só tinha pensamentos para Jesus, desejava salvar almas para Ele. Apesar das suas vigílias, dos sofrimentos contínuos, permanecia fiel a todos os seus deveres, a ponto das superioras julgarem que fazia o trabalho de duas pessoas. Deus era toda a sua força. A esta mortificação exterior, juntava a mortificação de uma minuciosa fidelidade à Regra: sempre modesta, silenciosa, recolhida, percebia-se que estava ela mergulhada em profunda contemplação.

 

“Ele é tudo”

Nosso Senhor deliciava-se com esta alma límpida: “Tu não conheces mais o mal do que a criancinha antes de chegar à idade da razão”, dizia-lhe (p. 206). Aquele que se compraz com os lírios conservou este coração puro, sem o menor conhecimento do mundo. Ela podia dizer a uma de suas companheiras: “Ah, sim! Ele é todo amor, o bom Deus! Quando era pequenina, já me fazia compreender. Ele me deu tanto! Do mundo, não conheço nada, só conheço a Ele. Ah! eu o amo tanto!” (p. 209).

Todo seu pensamento era para Cristo. Por Ele, evitava toda reflexão inútil. Por ele, guardava seu coração desapegado. Certo dia, Jesus repreendeu-a severamente por procurar uma pequena satisfação do coração: “Ser religiosa, minha filha, significa ter banido de seu coração todo o criado... significa ver Jesus em tudo, seu Esposo, significa procurá-lo unicamente...Teu objetivo tem de ser o de estar face a face comigo” (pp. 210-211). A uma das irmãs que lhe indagava a razão das predileções divinas, respondeu: “Ah, minha irmã! eu sou ignorante, tenho um coração simples, sem estofo... tenho, portanto, um coração desapegado: Ele é tudo! Não busco nada... nada... não quero nada, não preciso de nada, não desejo nada, meu coração é livre” (pp. 209-210).

Puro, livre, o coração da Irmã Maria-Marta pertencia somente a Deus, seu pensamento ocupava-se apenas de seu objeto de amor. Semelhante a chama pura que sobe sempre, a alma desta esposa de Cristo eleva-se, degrau por degrau, rumo à perfeição do amor.

 

Combates

Nosso Senhor ensinara à Irmã Maria-Marta a fórmula para oferecer as santas Chagas; mas fazer com que a comunidade a adotasse não foi coisa fácil para as superioras. Descobre-se a origem destas invocações. O zelo da regra faz com que todas se alarmem. Não se podia tolerar que uma jovem noviça conversa se impusesse de tal modo. Quantos sofrimentos, vexações para Irmã Maria-Marta e suas devotadas superioras! Ela não demonstrava senão paciência, humildade, mansidão. Nosso Senhor encorajava, tranquilizava-a: “Maiores os obstáculos e dificuldades, mais abundantes as minhas graças” (p. 92). Nosso Senhor amava muito esta comunidade de Chambéry, apesar das críticas levantadas pela pretensa inovação. Críticas compreensíveis, diga-se. As religiosas da Visitação tinham suas Regras e Constituições como um legado sagrado de seus santos Fundadores. “Não lhes é permitido absolutamente, sob qualquer pretexto que for, incumbir-se de orações outras das que estão aqui assinaladas” (Constituição XVIII). Não se poderia ir contra isso. Deus permite, pois, essas contradições para lançar à luz do dia a virtude de sua privilegiada e aumentar seus méritos.

Uma vida tão extraordinária faz-nos compreender igualmente a atitude reservada dos superiores, e os defeitos que se verificavam sempre na humilde noviça conversa não deixam de espantar. Daí os murmúrios, recriminações. Irmã Maria-Marta sofria muito. Sustentada pelo dom da força, suportava tudo em silêncio: jamais uma alusão, uma queixa, e isso por quarenta anos! Mas quão mais dolorosa a provação que lhe veio de um superior mal informado por relatos imprudentes de algumas religiosas. O golpe foi duro. Entre outros, a comunhão quotidiana foi negada à Irmã Maria-Marta. Humildemente, ela se submete às ordens recebidas.

 

O Selo de Deus

Recordava-se ela da palavra de seu Mestre: “A vós (religiosas) só perguntarei uma coisa: o quanto obedeceram” (p. 204). A exemplo daquele que foi obediente até a morte, Irmã Maria-Marta conforma-se em tudo heroicamente à vontade divina, sancionada pela obediênca. Sua perfeita docilidade foi notável. Sacrificou sua vontade inteiramente às exigências de Nosso Senhor. Mestre absoluto, podia exercer sobre ela todos seus direitos. A Santíssima Virgem diz-lhe um dia: “Não quero que faças ato algum, por melhor que te pareça, fora desta obediência” (p. 110).

Se suas superioras recusam-se a conceder o que lhes pedia, a humilde Irmã inclinava-se sem insistir. “A obediência, para ela, é tudo” (p. 45), afirma sua superiora. Nunca uma réplica, nunca uma discussão diante dos mais duros sacrifícios. Somente esta palavra, obediência, poderia tirar-lhe de suas longas contemplações. É o sentimento unânime de seus confessores: “Ela seguia sempre literalmente as opiniões que lhe eram dadas” (p. 218). À luz das instruções divinas, Irmã Maria-Marta aprendera a pronta e simples obediência. Um dia, doente e acamada, sua superiora lhe diz: “Amanhã estarás boa” (p. 216). A dócil menina tomou o encorajamento por uma ordem. Nosso Senhor, contente com esta fé tão simples, curou-a no mesmo instante. Alimentou-se e retornou, no dia seguinte, a suas ocupações.

Quantas vezes as superioras recorreram à sua intercessão diante de Nosso Senhor! O vinho se avinagrava nos tonéis, as batatas apodreciam no porão, por obediência Irmã Maria-Marta incumbia-se de buscar a solução. Fazendo o sinal da cruz, ela invocava a Santíssima Trindade, as santas Chagas e tudo se restaurava: o vinho tornava-se bom, o bolor sobre as batatas secava. O Senhor atendia a todos seus desejos.

E era nas coisas espirituais, assim como com nas materiais; as superioras sempre experimentavam a eficácia das suas orações. Ela tinha o culto da autoridade – nela via Deus. Nosso Senhor lhe havia frequentemente repetido: “Minha filha, em tua superiora estou eu” (p. 215).

A abertura de coração, a confiança para com sua superiora, são traços distintivos de uma filha da Visitação. Para Irmã Maria-Marta Chambon, assaltada por dúvidas e temores, a palavra de sua superiora era infalível e sobremaneira eficaz. O demônio tenta-a a esse respeito; persuadindo-a de que era uma cruz para suas superioras, e por isso começa a evitá-las. Irmã Maria-Marta chega a experimentar repugnância extrema por sua superiora; não ousa mais aproximar-se e queixava-se disso a Nosso Senhor. “Se te afastares de tua superiora, errarás e perderás a verdadeira luz” (p. 217).

Amava muito sua regra, suas constituições. O temor de afastar-se delas por suas austeridades causava-lhe grande sofrimento. O santo Fundador da Visitação quis, com efeito, que o espírito de sacrifício interior e de perfeito abandono à vontade de Deus substituísse jejuns e outras mortificações exteriores do tipo, salvo em casos muito raros, desejados particularmente por Deus. São Francisco de Sales veio reconfortar sua estimada filha: “Segue o caminho que Jesus te traçou, esta é a Regra” (p. 85).

 

“Mestre, eu sou vossa pobre”

Irmã Maria-Marta não escreveu nada, não manteve conversações sábias, mas soube humilhar-se. Nosso Senhor pergunta-lhe um dia: “Minha filha, queres ser crucificada ou antes ser glorificada?” – “Bom Mestre, mais desejo ser crucificada”, responde, com ímpeto de coração (p. 76). Não busca a sua glória, mas o desprezo e a cruz. Pequenina, penetrada de sua insignificância, de sua indignidade, lançava-se no abismo do seu nada, querendo desaparecer. Viveu segundo a palavra de sua santa Fundadora: “O principal cuidado da alma deve ser o de humilhar-se”. Sua grande preocupação é sempre o temor de ser notada: vida escondida, humildade, esta é sua marca característica. Ademais, Nosso Senhor inclinava-a a isto. Ele humilhava-a severamente, repreendia as menores faltas: “Tu não serás uma verdadeira esposa se não amares a humilhação”. (p. 174)

“... A fim de te preparares a receber minhas graças, precisarás te aniquilar muito, pois só tenho olhos para o coração humilde!” (p. 174). Certo dia, extenuada de fadigas, após uma noite de sofrimentos, Irmã Maria-Marta para na porta do coro: “Bom Mestre, eu sou vossa pobre, dai-me esmolas, dai-me forças”, suplicava (p. 175). A humilde irmã não falava dos favores divinos que recebia senão com extrema repugnância. Tanto mais o Senhor cumulava-a de dons, tanto mais se apequenava. Mostrava-se ela ávida de correções, sempre a primeira a humilhar-se, a reconhecer e reparar seus erros, pois seu exterior guardara suas asperezas; daí os desencontros, os pequenos tropeços de sua natureza, tantas ocasiões de humilhações, de méritos. Por outro lado, as superioras não a poupavam. Irmã Maria-Marta, ao desprezar profundamente a si mesma, compreendia todo o benefício que daí tirava para sua alma e alegrava-se da glória que rendia a Deus. 

O Espírito Santo, pela iluminação dos dons de ciência e de inteligência, esclarecia-a mais e mais. Então, sentia-se como que esmagada sob o peso da grandeza divina e de sua própria miséria, sob a visão cada vez mais profunda de seus defeitos.

“Ó meu Jesus, dizia a Irmã, espero tudo de Vós somente, pois não sou senão miséria” (p. 171).

A mesma luz faz descobrir manchas nas nossas melhores ações. “Somos cheios de imperfeições, dizia ela, não há, na verdade, nada de bom em nós. – Quando nos vemos diante de Deus, não somos mais que pecado, miséria... mesmo aquilo que julgamos fazer bem, mesmo as ações mais santas, tudo é corrompido por nosso amor próprio...” (p. 186). Para retirar-lhe todo o amor próprio, Nosso Senhor mostrava-lhe por vezes, como num quadro, as qualidades bem superiores de suas irmãs, depois, humilhando-a: “Ser humilhada e tratada como mereces, eis o único desejo que deves ter” (p. 174), “Meu coração só age no selo da humildade” (p. 175). Um dia, lavando a louça, Irmã Maria-Marta viu-se de repente rodeada das Visitandinas do céu e de uma falange de santos. Cheia de alegria, falou-lhes: “Quereis transmitir uma palavra a Nosso Senhor? Dizei-lhe que sou... pecadora” (p. 175). Consciente de sua própria fraqueza, confiava totalmente no Salvador, esperando tudo dele pelos méritos infinitos de suas santas Chagas. Assim também, durante uma conversa com Nosso Senhor, Irmã Maria-Marta viu-se transportada ao céu e os santos, colocando-a num lugar de honra entre eles, cantavam em coro: “O menor torna-se o maior” (p. 188). Deus exalta os humildes!

 

Vida Teologal

Irmã Maria-Marta, enquanto imitava Jesus crucificado, trilhava a via da infância espiritual, tão propícia ao progresso e ao perfeito desenvolvimento das virtudes teologais. Com a simplicidade da criança, ela crê em Deus, espera nele e ama-o de todo seu coração.

Este espírito de fé espontânea inspira todos seus atos, todas as circunstâncias da sua vida: doenças, contradições, provações de todo gênero. Vê Deus em todas as coisas e não desperdiça parcela alguma da cruz.

A santa Missa, para ela, é a renovação do calvário. Irmã Maria-Marta vive do drama que se desenrola no altar, une-se à divina Vítima que recebe na santa comunhão com um fervor, com um amor cada vez maior. Deus faz com que ela viva dos mistérios da Santíssima Trindade, da Redenção, da Eucaristia. Ela vai o mais longe. Imersa em contemplação, é-lhe penoso voltar-se às coisas da terra. Contudo, chega o dia em que o divino sol dos espíritos se esconde, se obscurece. Desamparada, Irmã Maria-Marta sofre, busca seu Senhor e seu Deus. Estes abandonos torturam-na. Jesus, enfim, retorna: “purifiquei-te inteira ao abandonar-te” (p. 266). Outras vezes, após dias de sofrimento inauditos, Nosso Senhor, tendo-a unido a sua agonia e a seu abandono na cruz, diz-lhe: “Minha filha, chorei no jardim das Oliveiras e sobre a cruz em meu grande abandono” (p. 267).

Frequentemente, recebe rudes assaltos do espírito das trevas. Apresentando-se certo dia cinco vezes a ela sob uma forma corporal, Satanás diz-lhe: “Não há Deus!... De que servem tuas orações, não há Deus”. Irmã Maria-Marta responde-lhe: “Creio que há um Deus e que Ele é meu Esposo! Ele é meu Esposo! Meu alimento...” (p. 269). Ditas estas palavras, o demônio some numa fumaça. Perturbava-lhe também de mil maneiras com sugestões contra a autoridade, contra a humildade, contra a eficácia da oração, sempre tentando desencorajá-la, desviá-la de seu caminho. Mas esta humilde religiosa mantém-se firme no meio das trevas e lutas; fiel à sua missão, orava sem cessar com espírito de fé cada vez maior. Sua oração era ouvida, como demonstram-no as muitas conversões alcançadas.

“A terra nada é, minha filha, dizia Jesus a sua esposa, a terra inteira é um nada... olha para o céu! O céu é o único digno de teus desejos! Lembra-te da tua morada e não te esqueças de que pertences à grande família do céu...” (p. 292). Irmã Maria-Marta deseja sobretudo partir para ver a Deus. O inimigo de todo o bem aproveita-se para procurar desviá-la do único objeto de sua esperança. “O céu não é para ti”, diz-lhe (p. 265). A serva de Deus tem sua réplica, tão pronta como ingênua. Lança mão de mil astúcias para confundi-la: “bruxa hipócrita! enganas aos demais e és enganada...” (p. 264). Debocha de sua prática de oferecer as santas Chagas, chega até ao ponto de agredi-la. Irmã Maria-Marta sofre tormentos horríveis, julga ser joguete de ilusões. Torturada em sua alma e em seu corpo, embora sempre valente, repete com confiança invencível as invocações às santas Chagas. Tudo espera pelos méritos infinitos de seu Salvador. Fixando o olhar em Deus somente, abandona-se nos seus braços como uma criança, sem deixar de cumprir fielmente a missão que o Senhor lhe confiara. Como o Mestre não haveria de responder a tanta generosidade? Conduzindo-a ao seu Coração, sua doce voz lhe diz: “Minha bem-amada, estarás aqui agora e na eternidade” (p. 266)

Irmã Maria-Marta compreendera esta palavra de seu adorado Mestre: “Minha filha, ama-me acima de tudo, por mim mesmo” (p. 71). Com grande generosidade, respondia a este amor infinito que a atraía cada vez mais fortemente.

“Ensinar-te-ei a amar-me, dizia Jesus, pois não sabes como fazê-lo: a ciência do amor é dada à alma que considera o divino Crucificado e lhe fala, do coração ao coração” (p. 231). Com tocante bondade, ensina-a a rezar: “Descobre meu segredo de amor a alma que se une e entretém-se comigo no fundo se seu coração” (p. 231). “Minha união contigo é teu único bem: aqui é o teu progresso...” (p. 233). Toda sua vida foi um martírio de amor. Jesus crucificado possuíra seu coração. Podia Ele dizer-lhe: “Modelei teu coração para mim e segundo minha vontade. Tirei toda a consideração pelas criaturas... Coloquei nele a simplicidade da criança” (p. 168). “És a bem-amada de meu coração. Doravante, só amarás e respiraras pelo meu coração” (p. 72). Inteiramente livre, isenta de todo entrave humano, consumida pelo amor que a transforma, experimenta cada vez mais a fome de Deus: “Beati qui esuriunt et sitiunt justitiam”.

O chamado torna-se mais insistente: “Filhinha, suba o calvário comigo” “Quero-te vítima de pé” (p. 234) “Também tu, carrega os pecados dos homens” (p. 271). O amor busca a semelhança, e a união com o Salvador só se realiza na cruz. O amor transformante realizou sua obra. Marcada à imagem do Cristo, associada à sua missão redentora, a doce vítima segue, passo a passo, as pegadas de seu Mestre. Como Ele, oferece-se pelos pecadores, roga por eles, vive suas lutas, experimenta, nela mesma, suas dores e angústias. Certo dia, dá à sua superiora o nome do doente da paróquia que tantos sofrimentos lhe custava. Após sua morte, julgou ouvir dele as seguintes palavras:  “Foi por mim que tanto sofrestes. O demônio trabalhava pela perda da minha alma. Devo-te minha salvação: meu lugar era o inferno e, se estou no céu, é pelos méritos das chagas de Jesus que invocaste por mim” (p. 270).

A alma de Irmã Maria-Marta irradiava caridade ao seu redor. Interessava-se por cada uma de suas Irmãs. Sua dedicação não conhecia cálculos nem limites. Sabia às suas custas realizar o desejo de Jesus: “Jamais preocupar-se contigo, jamais recusar um serviço” (p. 236). Nosso Senhor pedia mais: “Deves a cada dia pagar as dívidas de cada alma desta comunidade para com minha justiça... Serás a vítima que expiará cada dia o pecado de todas” (p. 140). Que amor desinteressado não seria preciso para cumprir sua missão reparadora? O aproximar da morte de uma Irmã era sempre marcado por maior intensidade de sofrimentos: Irmã Maria-Marta, pela oração e pela imolação, supria o que lhe restava reparar.

Seu zelo apostólico levava-a a rezar constantemente e a sofrer pelas intenções do Vigário de Cristo e por todos os fiéis. Quantas almas do purgatório não se beneficiaram de suas orações? Um dia, na vigília da Ascensão, Nosso Senhor diz-lhe: “Não contes descansar hoje, pois muitas almas devem, pelos teus sofrimentos, chegar ao céu para ver o meu triunfo” (p. 256). Outro dia: “Minha filha, pela rude tentação que sofreste e por teu abandono interior, muitos pecadores se converteram e muitas almas do Purgatório foram para o céu... teu sofrimento era necessário para isso” (p. 268). Quantas noites não passou ela em oração pelos agonizantes! Nosso Senhor mostrava-os à Irmã: “Estás incumbida de todas estas almas, é preciso que lhes obtenha uma boa morte” (p. 253). Buscar a glória de Deus, a salvação das almas, tal era sua única ambição: “Meu Jesus, tenho sede das almas por vossa glória” (p. 253).

Verdadeira filha da santa Igreja, ultrapassava os muros de seu estreito claustro para cultivar os campos do Senhor. Sentindo-se cumulada dos pecados dos homens, esmagada sob o peso da justiça divina, clama: “Deus meu, não olheis nossa miséria, mas a vossa misericórdia!” (p. 251).

Jesus, por sua vez, instava-a: “Vem, conquiste almas!” (p. 248) Mostrando os pecadores por todo o mundo: “Mostro-os a fim de que não percas tempo algum” (p. 250). E a fervente missionária passava suas noites a colher almas. O sangue divino era o preço. Com firmeza dizia sua grande oração: o oferecimento das santas Chagas de nosso Salvador, que prometera renovar a cada dez minutos (p. 75).

Não se encontram aqui a heroicidade das virtudes teologais e morais, tanto quanto podemos julgar, até que a Igreja se pronuncie?

 

*

Conformada na sua vida a Jesus crucificado, a humilde esposa também o foi na sua morte. Combate supremo, em que as súplicas angustiadas à Mãe do céu nos permitem adivinhar o isolamento do coração, o abandono com Jesus na cruz, faz-nos lembrar a palavra que o Senhor um dia lhe dirigiu: ”Na cruz, no auge de meus sofrimentos, estava só... Eis por que quis que tu sofresses assim” (p. 267)

Por Maria, ela obteve esta última vitória sobre o inimigo, sobre o pecado. Esta Mãe celestial veio enfim buscá-la em 21 de março de 1907, nas primeiras vésperas de sua Compaixão.

 

*

Por meio de sua humilde serva, o divino Mestre dirige-se a nós: “Uma única gota do meu Precioso Sangue basta para purificar a terra, e não pensais nisso!” (p. 62). “A Chaga de meu Sagrado Coração abre-se largamente para conter todas as vossas necessidades!” (p. 79).

Toda esta vida é um apelo para lembrar-nos dos dons de Deus. O sangue redentor é de valor infinito.

Repetindo-nos isto a cada página, esta vida heróica nos faz sentir que nossa fé, que deveria nutrir-se cada vez mais desta verdade revelada, na maioria das vezes, é superficial. Ultrapassa pouco as fórmulas conservadas na memória e repetidas respeitosamente. Não atinge suficientemente as realidades divinas que exprimem.

Dignai-vos, ó Senhor, pela intercessão desta brava religiosa, conceder-nos algo ao menos de sua fé tão penetrante, tão estimulante, de sua contemplação do mistério da Cruz, perpetuada em substância sobre o altar durante a Missa!

Desta fé procede a firme esperança, o amor ardente de Deus e das almas, do qual precisamos nas tristezas da hora presente.

No momento em que o espírito de independência absoluta, de orgulho, levado até ao ateísmo, procura espalhar-se sobre a terra e sobre os países mais católicos, o Senhor sugere a muitas almas interiores rezar como o fazia a humilde conversa da Visitação de Chambéry. Ele as convida a pedir uma inteligência mais profunda do mistério da Redenção e o desejo de participar, na medida desejada para cada um de nós pela Providência, de suas santas humilhações, remédio a todos os orgulhos. O Senhor faz entrever a estas almas, como o fez a esta de que acabamos de falar, que encontrarão neste sincero desejo a força, a paz e, por vezes, a alegria, para suportar os sofrimentos que sobrevirem e encorajar os demais.

( La vie spirituelle, LIII, 150-168, 1937. Tradução: Permanência)

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