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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Dom Bernard Fellay (6)

Anexo 9: Carta de Dom Bernard Fellay ao Cardeal Castrlllon Hoyas

Carta de Dom Bernard Fellay ao Cardeal Castrillon Hoyos

Eminentíssimo senhor,

O olhar posto no Sagrado Coração, no dia de sua festa e segundo seus próprios desejos, imploro a Sua misericórdia que digne-se marcar com sua luz e sua Caridade as linhas que seguem.

O jesuíta Mgr. Pierre Henrici, então secretário da Communio, dizia em uma conferência sobre as reflexões do Concílio, que no Concílio Vaticano II duas tradições teológicas haviam se chocado, que essencialmente não podiam compreender-se.

Vossa carta de 7 de maio causou um sentimento semelhante, de incompreensão e de decepção. Temos a impressão que ela  nos impõe um dilema: ou entramos na plena comunhão, e então devemos nos calar diante dos graves males que ferem a Igreja, não havendo jaula dourada nos é imposta uma mordaça; ou ficamos “de fora”. Nós recusamos este dilema. Pois, por um lado, nunca abandonamos a Igreja, por outro lado, nossa situação atual, certamente desconfortável, não é o resultado de uma ação culpável nossa, mas a conseqüência de uma situação calamitosa dentro da Igreja, contra a qual tentamos, mal ou bem, nos proteger. As diferentes decisões tomadas por Mgr. Lefebvre foram ditadas pela vontade de não perder a fé católica e de sobreviver no meio de uma destruição universal que engloba Roma também. Chamamos a isso “estado de necessidade”.

Se queremos evitar o impasse ao qual conduz vossa carta, seria preciso mudar profundamente as perspectivas, o status quaestionis. Com efeito, para vossa Eminência,

1-     Nós estamos em ruptura de comunhão.

2-     As razões dadas para justificar nossos atos, inclusive as sagrações, seriam totalmente insuficientes. Pois a Igreja sendo santa e o magistério sempre assistido pelo Espírito Santo, as falhas que deploramos seriam inexistentes ou abusos limitados. Nosso problema viria de uma visão da história da Igreja e de suas crises, muito limitadas e rígidas, que nos impediria de captar a evolução homogênea e justificada de diversas adaptações ao mundo de hoje operadas pelo Concílio e o magistério seguinte.

3-     Roma abre suficientemente seus braços ao nos oferecer a estrutura  que nos propôs. É abusivo pedir algo a mais, talvez mesmo ofensivo para com a Santa Sé, pelo fato de Roma ter tomado essa iniciativa. Não nos será dado nenhuma garantia preliminar, principalmente a Missa, que causaria confusão dentro da Igreja.

Do nosso lado penso poder afirmar, seguindo os papas Pio XII e Paulo VI, que a Igreja encontra-se  em situação literalmente apocalíptica. É irrecusável o fato de que  a desordem na Hierarquia católica – o Cardeal Seper dizia: “a crise da Igreja é uma crise dos bispos” – as lacunas, os silêncios, as induções, as tolerâncias do erro e mesmo os atos positivos destruidores, encontram-se até mesmo na Cúria e, infelizmente, no próprio Vigário de Cristo. São fatos públicos e constatáveis pelo comum dos mortais.

Afirmar a existência desses fatos não é contraditório com a fé na Santidade da Igreja nem na assistência  do Espírito Santo. Mas tocamos aqui no mistério da Igreja, da conjunção e da ordenação do elemento divino e do humano no Corpo Místico. Para ficar na verdade da realidade é preciso ao mesmo tempo manter as afirmações da fé e a constatação dos fatos.

Na afirmação da infalibilidade do Soberano Pontífice, o Concílio Vaticano I estabeleceu explicitamente um limite à assistência do Espírito Santo: “O Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de Pedro para que façam conhecer, sob sua revelação, uma nova doutrina, mas para que, com sua assistência, eles guardem santamente e exponham fielmente a Revelação transmitida aos apóstolos, ou seja, o depósito da fé” Denzinguer Hünermann, n. 3070.

Aderimos, evidentemente, de todo coração, aos parágrafos seguintes de Pastor Aeternus assim como a Dei Filius.

Mas é precisamente aqui que estamos no mais profundo dos mistérios atuais. São justamente as novidades da nova teologia, condenadas pela Igreja sob Pio XII, que aparecem em Vaticano II. Como pode ser que todos os grandes nomes do Concílio, os "peritos" teólogos, fossem todos condenados por sanções sob Pio XII? De Lubac, Congar, Rahner, Courtney-Murray, Dom Beaudoin (morto pouco antes do Concílio). E indo um pouco além, Blondel, Teilhard de Chardin...

Querem nos fazer crer, hoje,  que estas novidades seriam um desenvolvimento homogêneo com o passado. Elas foram condenadas, ao menos nos seus princípios. O próprio cardeal Ratzinger chama Gaudium et Spes de contra-Syllabus (Theologische Prinzpienlehre, p. 398, Erich Wewel Verlag, München, 1982). É preciso, necessariamente, escolher.

O fato dessas doutrinas serem, depois, sancionadas por um Concílio que não se considera dogmático, não é suficiente para as limpar. O selo de um voto não torna um  erro em verdade infalível: dá fé disso a declaração de Mgr. Felici, no Concílio, sobre a questão da infalibilidade deste. (Notificação de 16 de nov. 1964, DH 4350-4351)

Além disso, o problema do Concílio não está, em primeiro lugar, do lado das interpretações individuais, ele vem, além disso, da sua falta de precisão nos termos, suas ambigüidades voluntárias (segundo um dos peritos do Concílio), que  permitem diversas interpretações.

Vem, também,  de certas interpretações dadas pela Santa Sé ela própria.

Se seguirmos as indicações dela, chegaremos em Assis, na Sinagoga, e nas florestas sagradas do Togo. "Ver Assis à luz do Concílio" - João Paulo II, Audiência  de 22 de agosto de 1986.

Como explicar, à luz da fé católica, esta  frase chave da teologia de João Paulo II, que esclarecem muitas passagens incompreensíveis, como:
-         "o caminho da Igreja é o homem"
-         ou ainda, Gaudium et Spes 22: "No Espírito Santo, cada pessoa e cada povo tornaram-se,  pela cruz e a ressurreição do Cristo, filhos de Deus, participantes da natureza divina e herdeiros da vida eterna." (João Paulo II, Mensagem aos povos da Asia, 21 de fevereiro de 1981, DOC 1894, de 15/3/1981, pag. 281)

Um magistério que contradiz o  ensinamento do passado, (por exemplo, o ecumenismo e Mortalium Animos), um magistério que se contradiz ele próprio, (ver a declaração conjunta sobre a justificação e a nota que a precede, do Cardeal Cassidy, ou  a condenação e o aplauso do termo "igrejas irmãs".  Eis a questão lancinante.

Esta crise magisterial coloca um problema quase impossível de ser resolvido em termos práticos. Como discernir corretamente entre o que é verdadeiramente  magistério e o que é apenas aparência?

E o pesadelo estende-se da Cúria Romana aos bispos residenciais. Eis dois exemplos recentes, entre milhares:

Quando Mg. Tauran declara, nas Filipinas, dia 4 de junho de 2001: "Seria errado considerar o fiel de outras religiões como alguém a ser convertido. Ele é antes, uma pessoa que deve ser compreendido, deixando a Deus o papel de esclarecer sua consciência. As religiões não devem entrar em competição umas com as outras, mas devem, antes, ser como irmão e irmã que caminham lado a lado para construir canais de fraternidade, construindo um mundo bonito, no qual seja possível viver e trabalhar" - é ele fiel à fé católica?

Quando o Cardeal Kasper declara em Nova York: "A antiga teoria da substituição não é mais seguida, depois de Vaticano II. Para  nós, cristãos de hoje, a aliança com o povo judeu é uma herança viva... Não pode haver uma simples co-existência entre as duas alianças. Os judeus e os cristãos, guardadas suas diferenças específicas respectivas, são intimamente ligados uns aos outros. A Igreja crê que o judaísmo, ou seja, a resposta fiel do povo judeu à aliança irrevocável de Deus, é salvífico para eles, pois Deus é fiel  a suas promessas" - exprime ele a fé católica, é fiel a São João, a São Paulo, a Nosso Senhor, ele próprio?

Ora, esses dois prelados são um, íntimo colaborador do Papa, o outro, príncipe da Igreja, recentemente elevado à púrpura cardinalícia, eleitor do futuro Vigário de Cristo. É impossível estar em comunhão com eles. Eles não têm mais a fé.

Poderíamos citar dezenas e  declarações episcopais de mesmo teor. O que fazer quando os guardiões da fé fraquejam? Segui-los cegamente? Não merecem eles os qualificativos que Santa Catarina de Sena atribuía a certos príncipes da Igreja da época?

Declarar isso não nos trará a simpatia da Santa Sé. Mas nós temos preocupações mais bem graves do que esta. Milhares e  milhões de fiéis católicos que abandonam a fé e se condenam por causa dos erros de Roma, eis nossa preocupação. "Quicumque vult salvus esse, ante omnia opus est, ut teneat catholicam fidem: nisi quisque integram inviolatamque servaverit, absque dubio in aeternum peribit. - Quem quer se salvar, antes de tudo, deve guardar a fé católica: se alguém não a conservar íntegra e inviolável, sem dúvida se condenará para sempre" (Símbolo de Santo Atanásio, DH 75)

É preciso distinguir Roma e Roma. Tentamos fazer isso.

As palavras de Pio XII, quando ainda era Secretário de Estado de Pio XI, ressoam em nossos ouvidos: "Suponha, caro amigo, que o comunismo seja apenas o órgão mais visível da subversão contra a Igreja e contra a tradição da Revelação divina, então vamos assistir à invasão de tudo o que é espiritual, a filosofia, a ciência, o direito, o ensino, as artes, a imprensa,a literatura, o teatro e a religião. Sou obcecado pela mensagem da Virgem à pequena Lúcia de Fátima. Essa obstinação da Boa Senhora diante do perigo que ameaça a Igreja é um aviso divino contra o suicídio que representaria a alteração da fé, na sua liturgia, sua teologia, sua alma....Ouço à minha volta inovadores que querem desmantelar a Capela Sagrada,destruir a chama universal da Igreja, rejeitar seus ornamentos, dar-lhe o remorso do seu passado histórico. Pois bem, caro amigo, tenho a convicção que a Igreja de Pedro deve assumir seu passado ou ela cavará sua própria cova....Virá um dia em que o mundo civilizado renegará o seu Deus, em que a Igreja duvidará como Pedro duvidou. Ela será tentada de crer que o homem tornou-se Deus, que seu Filho é apenas um símbolo, uma filosofia como tantas outras, e nas igrejas os cristãos procurarão em vão a lâmpada vermelha onde Deus os espera" (Mgr. Roche e P. Saint Germain - Pie XII devant l'histoire, pag. 52-53)

A seu amigo Jean Guitton, Paulo VI dizia, no essencial, que existe na Igreja um pensamento de tipo não católico. Pode acontecer que ele prevaleça, mas nunca será a Igreja católica (Jean Guitton, Paulo VI secreto)

 

Diante dessa catástrofe como devem reagir os católicos? É-lhes permitido reagir? Nós seguimos, simplesmente, o conselho de São Vicente de Lerins no seu Commonitorium (nº3): "O que fará o cristão católico se uma parcela da Igreja vem a se separar da comunhão da fé universal? Qual outro partido tomar senão o de preferir o corpo são no seu conjunto,  ao membro corrompido pela gangrena? E se um novo contágio tenta envenenar, não apenas uma pequena parte da Igreja, mas toda ela de uma vez? Ainda assim sua principal preocupação será de se ligar à antiguidade que, evidentemente, não pode mais ser seduzida por alguma novidade enganadora."

Eis um status quaestionis de onde seria preciso iniciar uma busca de solução. Nós somos apenas um sinal de marcação da terrível tragédia em que se encontra a Igreja, talvez a mais terrível de todas até aqui, onde não apenas um dogma, mas todos, são atacados, de dentro das  universidades pontifícias até os bancos das escolas maternais.

O problema litúrgico é parecido. Aliás, os fiéis são forçados a procurar eles mesmos uma liturgia conveniente. Eles não podem mais ir simplesmente à sua paróquia. É um fato que não se limita aos tradicionalistas. Daí decorre uma grande transformação no mundo católico, em todos os casos, no antigo mundo católico: a desagregação da vida paroquial; o crescimento de movimentos eclesiais são devido, em grande parte, ao fato que os fiéis não encontram mais o alimento de que necessitam para viver da fé e da graça em suas paróquias. A nova liturgia não é inocente neste fenômeno. Não podemos ignorar este enorme problema. De todo coração, de toda nossa alma, queremos trabalhar na restauração da Igreja, mas não podemos agir como se tudo fosse bem ou que não passam de detalhes.

Estamos prontos para testemunhar de nossa fé em Roma, mas não podemos chamar de bem o que é mal, de mal o que é bem.

Dignai-vos, Eminência, desculpar-me pelo tamanho desta carta, por seu aspecto de generalidades, por algumas afirmações que precisariam ser mais desenvolvidas. Estamos inteiramente dispostos a continuar este trabalho, se Roma assim quiser...

Queremos continuar católicos, queremos conservar toda nossa fé sem nada abandonar, eis a causa de nosso combate, de nosso sofrimento, das oposições que sofremos. Estamos persuadidos que não causamos mal à Igreja ao agir assim, mesmo se as aparências são contra nós.

Queira aceitar, Eminência, a expressão de meus sentimentos devotado e religioso in Cordibus Jesu et Mariae.

Anexo 8: Carta aos amigos e benfeitores

FRATERNIDADE SACERDOTAL SÃO PIO X

CH-6113 Menzingen- Suiça

CARTA DO SUPERIOR GERAL AOS AMIGOS E BENFEITORES

5 de maio de 2001

Caros amigos e benfeitores;

Essa carta está chegando às suas mãos de certa forma tarde. Mas não queríamos nos dirigir a vocês antes que pudéssemos transmitir-lhes as notícias do modo mais fiel possível a respeito de nossas negociações com Roma. Muitos boatos estão circulando, um grande número deles falsos. Também estamos conscientes do quanto está em jogo e o quão decisivo tudo isso pode resultar para o nosso futuro. Vamos nos debruçar sobre os vários aspectos da questão.

Da nossa parte, temos sido marginalizados pelas autoridades de Roma, para não dizer rejeitados, por causa da nossa recusa em aderir ao Vaticano II e as reformas pós-conciliares, por razões de doutrina.

Quando dizemos que recusamos o Concílio, não queremos dizer com isso que rejeitamos totalmente, ao pé da letra, todos os documentos do Concílio os, quais em grande parte, consistem numa simples repetição do que já foi dito no passado. O que nós atacamos é a nova linguagem, introduzida em nome do Concílio "pastoral". Esta nova linguagem, embora vaga e muito imprecisa, serve de canal para outra filosofia que é a base da nova teologia. Ela rejeita qualquer modo estável de ver a essência das coisas para se basear, ao contrário, no estado de sua existência em dado momento, o que naturalmente está sujeito à mudanças, variações e que torna muito difícil a apreensão das coisas, na medida em que variam.Como mudança e movimento fazem parte de todas as coisas vivas, então as mudanças existirão também para a Igreja. Dogmas até então intocáveis tornaram-se passíveis de correção e melhoramentos... foram relegados ao tempo em que foram promulgados como se tivessem cessado de ser obrigatórios na medida em que o tempo avança. Insistir numa compreensão desses dogmas no mesmo sentido e  mesmo significado que eles sempre foram compreendidos tornou-se coisa do passado [regra de interpretação dos dogmas: in eodem sensu eademque sententia]. É grande a tentação de fazer com que o particular, a pessoa,  se torne absoluto...enfim, o homem é colocado no centro e  Deus é posto de lado. Desponta assim uma nova religião.

Os modernistas são espertos o bastante para evitar falar em oposição. Eles apresentam tudo isso como se fosse o enriquecimento de uma pobreza agora superada pelos novos conceitos. Quase todas as palavras - "redenção", "graça", "revelação", "sacramento", "mistério" adquiriram um novo significado.

Na vida da Igreja, este processo é particularmente marcante no caso da nova liturgia, uma coreografia toda centralizada no homem, não mais dirigida hierarquicamente a Deus pela mediação do padre. A palavra "sacrifício" não mais é mencionada, sendo substituída por "Eucaristia", uma palavra que antes era aplicada apenas à hóstia consagrada. Portanto a ênfase está na refeição e não no sacrifício.

Vemos nessas mudanças a origem do colapso atual que sofre a Cristandade e a causa da presente crise na Igreja Católica. A Liberdade Religiosa é radicalmente incapaz de barrar a onda de secularização que varre o mundo moderno, um mundo sem Deus, fazendo de si mesmo o próprio deus. Pois uma vez que cortou a dependência da criatura de seu Criador para melhor afirmar sua autonomia e liberdade, não existe mais base para sua intrínseca e absoluta dependência de Deus. Desse modo para salvar a pessoa humana do totalitarismo do estado moderno, a criatura buscou estabelecer que a pessoa e sua liberdade são superiores a um ponto que não podem mais reconciliar sua verdadeira e real liberdade com a sua absoluta dependência de Deus. Então necessariamente, o pecado como a desgraça da criatura se rebelando contra seu Criador, não mais é compreendido. A responsabilidade da criatura se torna muito vaga e a Redenção como resposta de Deus àquela desgraça é totalmente invertida. 
Toda a vida do homem se tornou muito fácil e cômoda, os mandamentos de Deus são relegados ao esquecimento, toda a disciplina, rigor, ascese, austeridade e renúncia foram desaparecendo. Uma vez encarada assim a grandeza do ser humano, sua relação com seu Deus, sua religião, passa a ser vista de maneira diferente. Esse novo ponto de vista centralizado na pessoa e em seus atos busca ser tão positivo e tal é o esforço de descobrir em toda parte as "sementes do Verbo", que a idéia de que todo mundo está salvo ou será salvo se disseminou e implantou-se na mente de não poucos católicos. E assim todas essas celebrações ecumênicas e declarações inter-religiosas apenas corroboram essa nova visão da vida, fundamentando um impressionante indiferentismo religioso, pelo menos de fato.

Portanto, da nossa parte, nossa firme adesão a tudo que a Igreja sempre ensinou até há pouco tempo atrás, a tudo que sempre guiou a vida cristã é visto agora como antiquado, ultrapassado, fora de moda, empoeirado. Nós não negamos que um certo número de mudanças faz parte da vida de qualquer sociedade, o que inclui naturalmente a Igreja, mas nós continuaremos a sustentar que a macieira produz maçãs e que é absurdo esperar que ao longo da vida de uma macieira, ela eventualmente possa produzir cocos.

A vida cristã da Sociedade São Pio X está produzindo inegáveis frutos de salvação, como até mesmo Roma reconhece. Que exista uma grave crise na Igreja, uma vertiginosa queda na pregação da doutrina, uma falta de interesse da parte do povo cristão, isso até mesmo as autoridades romanas o reconhecem. E isso é um dos motivos da aproximação que eles tentam agora;  se Roma nos convoca como bombeiros para ajudar a debelar o incêndio, nós não recusaremos nossa ajuda, mas antes de nos envolvermos com as chamas, é razoável exigirmos que fechem a canalização do gás que é a fonte de todo o incêndio.

Mas, no fundo, as autoridades romanas vieram a nós por outros motivos.

Da parte de Roma, eles atualmente estão preocupados, antes de mais nada, em estabelecer a unidade. Todos os  esforços ecumênicos vão nessa direção. Cada vez mais atitudes audaciosas, chocantes e escandalosas se repetem na tentativa de reunir cristãos desunidos e divididos. A determinação em superar diferenças doutrinárias por atos litúrgicos em comum expressa claramente esse novo esforço ecumênico. Não podemos deixar de pensar que eles desejam relativisar as questões das idéias em proveito das questões da vida. Em todo caso existe um desejo explícito de superar diferenças doutrinárias para se unir na ação. E esse parece ser o motivo do Vaticano ter se aproximado de nós no último outono.

Nos foi oferecida uma solução prática que não seria sustentada pelos pontos em disputa. Roma nem nega que existam pontos a serem discutidos nem se nega a lidar com tais questões mais tarde, mas apenas nos convida a "re-entrar no rebanho" sem demora. Como um sinal de boa vontade, nos ofereceram uma solução por si mesma aceitável. De fato uma solução que nos conviria perfeitamente, embora de um ponto de vista puramente prático.

No entanto tivemos que recusar essa oferta pelas seguintes razões: a história da Fraternidade São Pio X mostra o quanto nós somos um sinal de contradição, o quanto nossa existência levanta violentas e até mesmo odiosas reações por parte de muitos católicos, principalmente da hieraquia. A atitude de muitos bispos que estão abertos a tudo quanto é tipo de ecumenismo por um lado, mas que por outro lado nos tratam com uma dureza sem nome é profundamente contraditória.
Sofremos essa situação como sofrem aqueles que passam por esse mesmo tipo de divisão no seio de suas próprias famílias, mas a solução nunca vem por um simples acordo prático. Carregamos a contradição sem que seja essa a nossa intenção e um acordo prático não mudaria muito essa situação fundamental. A solução está em outro lugar. No fundo, Roma não entende nossa atitude com relação à Missa Nova e as reformas conciliares. Roma vê nossa atitude como a manifestação de uma mente fechada e rígida. 
E toda vez que tentamos tocar no cerne da questão deparamo-nos contra uma parede: não nos é permitido questionar as reformas do Concílio. Poderiam até nos permitir um certo grau de críticas, mas não acusações tão claras e graves como nós continuamos fazendo. 
Em outras palavras, se nós aceitamos a solução de Roma hoje nos encontraremos lutando exatamente contra os mesmos problemas amanhã.

Da nossa parte, nós somos e queremos permanecer católicos. Nossa aparente separação de Roma é algo de menor importância quando comparada a um problema bem maior que sacode a Igreja e do qual nós somos, sem o querer, um sinal visível. Para Roma, acomodar a questão da aparente separação é de importância primordial e toma prioridade sobre qualquer outra coisa. Questões doutrinárias poderiam ser conversadas mais tarde. Por causa dessa busca insistente da unidade, Roma de fato mudou sua posição em relação a nós. Eles estão buscando uma solução, mas no que nos diz respeito eles estão ignorando o ponto principal. Pois certamente nós desejamos ver essa crise chegando a um final feliz. Certamente desejamos parar de nos opor à Roma, mas isso exige uma diferente abordagem da questão. 

O fracasso de Roma em compreender nossa posição é tal que se hoje nós aceitássemos a sua proposta, amanhã teríamos que nos submeter exatamente ao mesmo tratamento que recebeu a Fraternidade de São Pedro, a qual se encontra amordaçada e é conduzida devagar mas firmemente para onde não gostaria de ir, ou seja, em direção ao Vaticano II e sua reforma litúrgica. Se a Fraternidade de São Pedro e outros movimentos ligados à Comissão Ecclesia Dei ainda conseguem sobreviver o melhor que podem na medida do possível, eles devem isso à firmeza de nossa posição. 

Certamente que somos gratos por toda a boa intenção envolvida nessa aproximação de Roma, mas o nosso julgamento é que a situação não amadureceu a um ponto que possamos seguir adiante. As razões que nos deram ao recusarem nossas pré-condições, que seriam sinal de confiança, são significativas:  "Isso causaria muita oposiçao, seria desconsiderar toda a obra do pós-concílio". 

Um enorme trabalho está por se fazer e é por esse motivo que, de forma alguma, poderíamos rejeitar uma verdadeira discussão com Roma no que diz respeito às questões de fundo. Todavia, ainda não conseguimos isso.

Nós também nutrimos um profundo desejo pela Unidade do Corpo Místico. A oração de Nosso Senhor para "que todos sejam um" é também nosso programa. Todavia, apesar da prática da caridade ser de grande auxílio para promover a causa da unidade, apenas quando as mentes estão de acordo na Verdade é que elas conseguem estar unidas na busca de um mesmo objetivo comum.

Nossos olhos voltados para o céu,  freqüentemente renovamos em nome de todo o clero, a própria súplica de Nosso Senhor: Pai Santo, santifique-os. Nós nos rejubilamos pelo pensamento de que um grande número de fiéis de todas as condições preocupando-se vivamente pelo vosso bem e pelo bem da Igreja, a nós se unem nessa oração. Não nos é menos agradável saber que existem numerosas e generosas almas, não apenas nos claustros,  mas também em meio à vida secular que, numa contínua oblação, apresentam-se como vítimas a Deus nessa intenção.
Possa o Altíssimo aceitar como um doce perfume as suas puras e sublimes orações e que Ele não despreze nossos mais humildes súplicas; possa o Senhor em Sua Misericórdia e Providência vir em nosso socorro, nós O imploramos, e que Ele derrame sobre o clero aqueles tesouros da graça, caridade e de toda virtude escondidos no puríssimo Coração de Seu Amado Filho"( São Pio X, "Haerent Animo").

Recomendamos vivamente às suas orações, aquilo que sem dúvida vocês já colocaram em suas intenções: que a Igreja recupere sua verdadeira face, sem rugas, eterna, resplandecente da santidade de Deus, incendiando toda a terra com o fogo de amor de um Deus que tanto nos amou. Possa Nossa Senhora, que preside tão claramente ao destino da Igreja no início desse milênio vos proteger e abençoar a todos, com o Menino Jesus, "cum prole pia", como diz a Liturgia.

+ Bernard Fellay 
Superior Geral da Fraternidade São Pio X.

Na festa de São Pio V

Anexo 7: Carta ao papa

Ao Santo Padre

              Santidade,

            Há já mais de trinta anos, sob seu predecessor o Papa Paulo VI, uma importante reforma remodelava o rito latino da liturgia católica, especialmente o Ordo Missae.

            Esta reforma suscitou imediatamente perturbações e controvérsias no mundo inteiro. Estudos bem fundamentados, em particular o Breve Exame Crítico do Novus Ordo Missaeque os cardeais Ottavani e Bacchi entregaram ao Papa Paulo VI, assinalaram as deficiências e ambigüidades inquietantes que afetam esta reforma.

            Muitos fiéis e sacerdotes se acharam então “na trágica necessidade de escolher”. Para muitos católicos foi um drama espiritual sem precedentes.

            Alguns disseram, porém, que o tempo manifestaria a oportunidade de semelhante reforma por seus frutos (Mt 7, 15-20, e Lc 6, 43-44). Esse tempo já transcorreu, e as controvérsias, em vez de diminuir, não fazem senão crescer cada dia. Fiéis, sacerdotes, bispos e cardeais, cada vez em maior número, expressam sua perplexidade ante a situação atual da liturgia, e seu desejo de ver reviver mais amplamente a liturgia anterior à reforma.

            A liturgia evoluiu no transcurso da história, é claro, como o demonstram as reformas realizadas no século passado por São Pio X, Pio XII ou João XXIII. Mas a reforma litúrgica pós-conciliar, por sua amplitude e brutalidade, representa uma alteração inaudita, como uma ruptura radical com a tradição litúrgica romana. Sobretudo, esta reforma contém elementos inquietantes, ambíguos e perigosos para a fé.

            Ante este perigo espiritual, a verdadeira obediência à Sede de Pedro, e a verdadeira submissão à Igreja, Mãe e Mestra, obriga-nos a, junto a muitíssimos outros católicos em todo o mundo, permanecer fiéis, custe o custar, a esta venerável liturgia que celebra a Igreja romana desde há muitos séculos, liturgia que Vossa Santidade mesma celebrou em outro tempo.

            Esta é a herança sagrada que nos legou o fundador de nossa Fraternidade Sacerdotal São Pio X, Monsenhor Marcel Lefebvre: “Está claro que todo o drama entre Ecône e Roma se desenrola em torno do problema da Missa. [...] Temos a convicção de que o novo rito da missa expressa uma nova fé, uma fé que não é a nossa, uma fé que não é a fé católica, [...] que este novo rito, se assim se pode dizer, supõe outra concepção da fé católica. [...] Por isso estamos aferrados a esta tradição que se expressa de modo admirável, e de modo definitivo, como tão bem o disse o Papa São Pio V, no sacrifício da Missa” (29 de junho de 1976).

            Após termos refletido e rezado, sentimos o dever diante de Deus de nos dirigir outra vez a Vossa Santidade em razão deste problema da liturgia. Pedimos a pastores de almas qualificados do ponto de vista teológico, litúrgico e canônico que redigissem uma síntese de algumas dificuldades, entre as mais importantes, que suscita à fé dos católicos a liturgia surgida da reforma pós-conciliar.

            Este trabalho tentou elevar-se até as causas propriamente doutrinais da crise atual, revelando os princípios que estão na origem da reforma litúrgica, e confrontando-os com a doutrina católica.

            A leitura deste documento manifesta claramente, assim o cremos, que a “teologia do mistério pascal”, para a qual se abriram as portas por ocasião do Concílio Vaticano II, é a alma da reforma litúrgica. Ao reduzir o mistério da Redenção, ao considerar o sacramento unicamente em sua relação com o “mistério”, e ao alterar a dimensão sacrifical da missa pelo conceito que se faz do “memorial”, essa “teologia do mistério pascal” afasta perigosamente a liturgia pós-conciliar da doutrina católica, à qual, todavia, a consciência cristã segue vinculada para sempre.

            Santidade,

            A fé católica obriga-nos gravemente a não calar as perguntas que nos assaltam o espírito.

            Não se encontra nas deficiências desta teologia e da liturgia que dela provém uma das principais causas da crise que afeta a Igreja já faz mais de trinta anos? Semelhante situação não pede esclarecimentos doutrinais e litúrgicos por parte da Autoridade suprema? Os súditos para cujo bem se faz a lei não têm direito e obrigação, se a lei se revela prejudicial a eles, de pedir ao legislador, com confiança filial, sua modificação ou sua ab-rogação?

            Entre as medidas mais urgentes, não conviria fazer conhecer de modo público a faculdade que tem qualquer sacerdote de celebrar segundo o íntegro e fecundo missal romano revisado por São Pio V, tesouro precioso, tão profundamente enraizado na tradição milenar da Igreja, Mãe e Mestra?

            Esses esclarecimentos doutrinais e litúrgicos, unidos à renovação universal da liturgia romana tradicional, não deixariam de dar imensos frutos espirituais: restauração da verdadeira noção do sacerdócio e do sacrifício, e por conseguinte renovação da santidade sacerdotal e religiosa; aumento do fervor dos fiéis; reforço da unidade da Igreja; e forte impulso à evangelização dos países que foram cristãos, e dos países infiéis.

            Suplicamos encarecidamente a Vossa Santidade, que é o único que tem o poder de fazê-lo como sucessor de Pedro e Pastor da Igreja universal, que confirme seus irmãos na fé, e sancione com sua autoridade apostólica os esclarecimentos indispensáveis que exige a trágica situação atual da Igreja.

            Não obstante, tão necessária restauração não poderá realizar-se na Igreja sem uma ajuda extraordinária do Espírito Santo, alcançada pela intercessão da Santíssima Virgem Maria. Esta renovação tão desejada nos virá, pois, pela oração e especialmente pelo santo sacrifício da missa, e a isto é que nós, de nossa parte e com a graça de Deus, nos dedicamos e nos queremos dedicar cada vez mais.

            Receba Vossa Santidade nossos sentimentos de respeito filial em Jesus e em Maria.

+ Bernard Fellay,
Superior geral
Fraternidade Sacerdotal São Pio X

Flavigny, festa da Purificação,
2 de fevereiro de 2001

A nova Carta aos amigos e benfeitores de Dom Fellay

Há quase um ano, o Capítulo Geral da Fraternidade São Pio X reunificou em um mesmo espírito algumas diferenças que haviam surgido ao longo do ano de 2011 e início de 2012, diante da possibilidade de haver um acordo prático com as autoridades do Vaticano. Infelizmente, nessa ocasião, alguns padres da Fraternidade e outros de comunidades religiosas amigas da Fraternidade, resolveram precipitadamente romper com a Fraternidade, alegando que esta já havia traído a orientação de Dom Marcel Lefebvre. Não havia atos ou documentos que pudessem servir de base segura para tal atitude, e esses padres, insistindo em analisar argumentos anteriores ao Capítulo de julho de 2012, cometeram um grave equívoco que só serviu para dividir a Tradição. Da nossa parte, insistimos em que se devia desviar a atenção da internet e seus blogs e redes sociais, para nos dedicarmos à oração e ao silêncio, muito necessários nessas horas para guardarmos um mínimo de sabedoria. Após o Capítulo, o próprio Dom Fellay, assim como Dom Galarreta, fizeram sermões e conferências mostrando que o Capítulo tinha, de fato, sido um momento da graça, retomando critérios importantes para evitar quedas e divisões da Fraternidade. Mas os dissidentes insistiam em afirmar que um acordo já tinha sido feito e que Dom Fellay estava apenas enganando os resistentes. Uma calúnia, na verdade, sem fundamento. Hoje, queremos publicar a Carta aos amigos e benfeitores que Dom Fellay acaba de escrever, onde fica definitivamente marcada a defesa da fé, como sempre foi a pauta da Fraternidade São Pio X ao longo desses anos todos. Pedimos a São José que amanse os corações endurecidos trazendo-os à humildade, para que saibam retornar a essa unidade que, só ela, pode nos manter fortes no combate. 
 
Dom Lourenço Fleichman OSB
Leia a continuação
 

Carta do Superior Geral da Fraternidade São Pio X

FRATERNIDADE SACERDOTAL SÃO PIO X
Schwandegg
CH6313 MENZINGEN  -  SUIÇA
 
Caros fiéis,

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