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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Mons. Henri Delassus (1)

Familias tradicionais

[Nota da Permanência: O texto seguinte foi tirado do livro "O Espírito de Família", de Monsenhor Henri Delassus, à venda na nossa livraria. Agradecemos à Editora Castela a permissão de publicá-lo.]

 

“Interroga as gerações passadas e re­corda diligentemente a experiência dos antepassados: porque somos de ontem e não sabemos, pois os nossos dias sobre a terra passam como a sombra. E eles instruir-te-ão e falarão contigo, e tirarão sentenças do seu coração: Acaso pode crescer o papiro fora da terra úmida e o junco germinar sem água?” (Jó 8, 8-11)

 

Devolver aos pais de família a liberdade de reconstituir um patrimô­nio — bem de família transmissível de geração em geração — é apenas parte da tarefa a executar para povoar novamente a Europa com autênti­cas famílias, na plena acepção da palavra. A outra tarefa é fazer renascer nelas as tradições. A primeira está ao nosso alcance apenas indiretamente, através do legislador; a segunda pode e deve ser a obra de cada um de nós no seu próprio meio social. Só se pode esperar a abolição das leis revolu­cionárias a partir de um grande movimento de opinião. Mas o que cada um pode fazer é reavivar em torno de si o espírito de família. Desse modo, fará aos seus o que de melhor está ao seu alcance e ao mesmo tempo prepa­rará a renovação da sociedade. Porque é necessário que existam tradições subjacentes às leis, para que elas tenham a força que o assentimento do coração lhes dá, da mesma forma que é necessária uma educação familiar subjacente às tradições para as sustentar e fazer com que elas se tornem o princípio dos costumes, sem os quais as boas leis nada são e contra os quais as leis más nada podem.

“Enquanto um vestígio de tradição uniu a França nova à França antiga — escreveu Émile Montégut — a Revolução não pôde chegar às suas últi­mas consequências. Mas quando a roda do tempo girou o suficiente para que não subsistisse qualquer resíduo do passado, a hora da lógica soou; e as gerações contemporâneas, educadas em uma sociedade na qual só a Revolução permanece de pé, ouvem sem estranheza palavras que, trinta anos antes, as teriam enchido de horror e de medo.”1

Hoje assiste-se impassível a atos que teriam revoltado os povos mais bárbaros na antiguidade pagã. Nas escolas, onde antes se ensinava as crianças a conhecer, amar e adorar a Deus, agora formam-se, por ação ou omissão dos responsáveis, pessoas sem religião e sem moral.

De onde vem essa impassibilidade? Do fato de já não haver nos espíri­tos ideias claras nem princípios solidamente ancorados nas almas, mas só ideias vagas e flutuantes, incapazes de inflamar os corações. E por que são assim flutuantes as ideias nos nossos dias? Porque as ideias-matrizes, as ide­ias-princípios, não foram impressas nas almas das crianças por pais que as tivessem haurido nos ensinamentos dos avós, por sua vez imbuídos dessas verdades pelos antepassados. Em uma palavra, porque as famílias já não têm tradição.

Havia antigamente uma ideia muito difundida, uma ideia quase religio­sa, ligada à expressão tradições de família, entendida esta no sentido mais alto: uma herança de verdades e virtudes, no seio das quais se formaram os caracteres que proporcionaram a uma casa de família a sua duração e grandeza.

Hoje em dia, essa expressão nada diz às novas gerações que vêm ao mundo. Surgem em um dia para desaparecer no seguinte, sem ter recebido e sem deixar depois delas um conjunto de recordações e afetos, de princípios e costumes que outrora se transmitiam de pai para filho e davam às famílias que lhes eram fiéis a possibilidade de ascenderem na sociedade. A família que possui tradições, geralmente deve-as a um antepassado seu, no qual o sentimento do bem foi mais forte do que nos seus semelhantes e a quem foram dadas sabedoria e vontade para inculcar nos seus.

“A verdade é um bem — diz Aristóteles —, e uma família na qual os homens virtuosos se sucedem é uma família de homens de bem. Esta sucessão de virtudes tem lugar quando a família remonta a uma origem boa e honesta, porque é no início onde normalmente se conhecem as futuras consequências, boas ou más. [...] Portanto, quando existe em uma família um homem muito dedicado ao bem, a sua bondade comunica-se aos descendentes, ao longo de muitas gerações, e daí provém necessariamente uma família virtuosa.”

O homem que quiser fundar uma família virtuosa deve persuadir-se de que os seus deveres não se limitam, como pretende Rousseau, a prover às necessidades físicas do seu filho, enquanto este não puder cuidar de si mesmo. Deve dar-lhe também uma educação intelectual, moral e religiosa.

Os animais têm forças e recursos para satisfazer às necessidades corpo­rais das crias, e isto basta-lhes. Mas a criança, ser moral, tem muitas outras necessidades, e é por isso que Deus deu aos pais, além da força, a autoridade para educar a vontade dos filhos e fazê-los ingressar nas vias do bem, manter-se nelas e progredir. Deus quis que esta autoridade fosse perma­nente, porque o progresso moral é obra de toda uma vida. E como, segundo os desígnios da Providência, o progresso deve desenvolver-se ao longo dos tempos, é necessário que a família humana não se extinga em cada geração: o vínculo familiar deve subsistir entre os que já partiram e os que estão vivos, entrelaçando entre si todos os descendentes de uma estirpe vigorosa.

O homem de bem não pensa unicamente nos seus filhos, mas nas gerações que se seguirão a estes e empenha-se para que a virtude se torne tradição familiar.

É por isso que o livro de família tem grande importância. Começar este livro, ordenar ao primogênito que o continue e transmita essa injunção ao seu próprio filho, é o meio mais fácil e seguro de inculcar em uma família as tradições. Com uma condição: ter-se-á como regra inviolável procurar só alianças matrimoniais nas famílias que pratiquem as virtudes que se deseja transmitir aos próprios filhos.

“Aliar-se a uma família — diz Lacordaire — é aliar-se a bênçãos ou a maldições, e o verdadeiro dote não é aquele que o notário consigna no papel. Só Deus conhece o verdadeiro dote, mas até certo ponto a memória dos homens também o pode conhecer. Perguntai se o sangue que se vai unir ao vosso contém as tradições de virtudes humanas e divinas, e se foi purificado há muito tempo pelos sacrifícios que o dever impõe. Perguntai se a alma está cheia das graças de Deus. Remontai tão longe quanto possível na sua história genealógica, a fim de que, ex­plorando todos os ramos de antepassados, como se explora uma mina, fiqueis a saber o que vale diante de Deus esta geração que desconhecíeis e que vai unir-se à vossa para tomar-se uma só na posteridade” 2.

Charles de Ribbe empregou o melhor da sua vida em revalorizar os livros de família. Depois de editar os manuscritos de muitas famílias antigas, publicou diversas obras para divulgar os ensinamentos que ne­les se encontram. Por fim redigiu, baseando-se nos modelos que tinha diante de si, o Livre de Famille, para servir de modelo aos pais que qui­sessem pôr em prática os exemplos dos antepassados. Recomendamos com insistência a aquisição, leitura e meditação deste livro, que pode contribuir para levantar a nossa sociedade3.

Daremos aqui apenas algumas indicações.

O livro de família, ou livre de raison, é assim chamado porque nele se transmitem aos filhos e seus descendentes as razões ou motivos da posição da família, os seus antecedentes, trabalhos, ideias e sentimen­tos que a guiaram no caminho da vida e dos costumes, que devem garantir a transmissão dos mesmos sentimentos e virtudes. Constitui desse modo um vínculo moral entre as gerações, cujos elos, graças a tal livro, permanecem estreitamente unidos em uma comunidade de ideais e sentimentos.

Era dividido em três partes, correspondentes às três fases da existência da família. O passado, que é a genealogia e a história das origens da estirpe. O presente, que é a geração atual. O futuro são os ensinamentos deixados pelos pais e avós aos seus descendentes. O livro de família, quando bem elaborado, resume tudo o que material e moralmente diz respeito à família.

E em primeiro lugar a genealogia. André Lefèvre d’Ormesson, já citado, diz no seu livro de família:

“Que os nossos filhos conheçam aqueles de quem descendem, por parte de pai e mãe, para que se sintam estimulados a rezar a Deus pelas suas almas e a bendizer a memória daqueles que, com a graça de Deus, honraram a sua casa e adquiriram os bens de que os seus descendentes desfrutam, e que passarão às outras gerações, se na sua bondade o Criador quiser dar para isso a sua bênção, como eu Lhe suplico de todo o meu coração.” 4

Em outros termos, a genealogia da família é a condição primeira para cri­ar e manter o espírito de família.

Sempre que possível, acrescentava-se uma pequena nota a cada nome. Todas as famílias deveriam ter uma história. O livro de família é o guardião dessa história. Os livros de família publicados ultimamente mostram-nos, nessas curtas notas, como muitas famílias modestas conseguiram, pela força dos costumes, perpetuar-se durante muitos séculos na mesma região, na prática das mesmas virtudes.

Depois da genealogia vem o diário, onde se registram sucessivamente os atos importantes da família: nascimentos, casamentos e óbitos, com as informações que cada um destes fatos comporta. O livro de tombo, onde se registram as cópias dos títulos de propriedade. O livro das contas e negócios. A exposição dos métodos de trabalho, onde se consignam conselhos para melhorar a sorte da família por uma experiência doméstica comprovada.

Os ensinamentos só excepcionalmente formam uma parte distinta. Normalmente as ideias e reflexões morais aparecem ao lado do relato dos fatos. Aproveita-se os acontecimentos para dizer aos filhos: eis a verdade, eis o bem. Evitai tal erro; tomai cuidado com tal falta. Estes avisos, formu­lados quase sempre com palavras tiradas da Sagrada Escritura, são curtos. Espera-se que desta forma eles se gravem melhor no espírito e penetrem no fundo dos corações:

“Eu gostaria de chamar este livro — dizia Antoine de Couston — a sabedoria da família. É necessário que ele continue a ser escrito em cada geração, que seja o depositário dos nossos êxitos, bem como dos nossos erros, de modo que, revertendo o bem e o mal dos que hoje vivemos em benefício dos que virão, ligue umas gerações às outras, trans­formando-as em uma só família sempre viva e animada do mesmo espírito. Se assim não for, as gerações rolarão umas atrás das outras em um círculo de ignorância e erros.”

Joubert descreveu bem a situação moral contemporânea, resultante da falta de ensinamentos tradicionais:

“Poucas ideias firmes e muitas ideias peregrinas, sentimentos muito vivos mas nada constantes, incredulidade em relação aos deveres e confiança nas novidades, espíritos decididos e opiniões vacilantes, afirmações categóricas no meio das maiores dúvidas, confiança em si mesmo e desconfiança em relação ao próximo, ciência das doutrinas loucas e ignorância das opiniões dos sábios: tais são os males do século. Tendo sido destruído o costume, cada um cria para si hábitos e maneiras de acordo com a sua natureza. Deploráveis épocas aquelas em que cada homem mede tudo pela sua bitola e caminha, como diz a Bíblia, iluminado pela própria candeia” 5.

É propriamente esse o nosso tempo. Havia antigamente, em cada casa, uma característica própria que a distinguia, em virtude da qual se podia dizer: eis aí um membro de tal família. Essa característica tinha sido formada pelos antepassados e mantivera-se pela tradição. Isso já não existe e as consequências são bem visíveis. Enquanto viveram alguns dos representantes das antigas gerações, havia sempre uma luz que iluminava a vida. Mas à medida que desapareceram os velhos, cuja educação fora feita de tradições, os jovens encontraram-se diante de uma tábua rasa. Nada sabem das antigas verdades que constituem a família e a sociedade. Estes jovens tornam-se pais de família em um meio invadido pelo luxo e por todo o gênero de facilidades, que os faz esquecer o pouco que aprenderam; sem falar das revoluções que neste nosso século têm acabado por destruir no coração do país o que lhe restava de vida. ­

Após as desordens que abalaram a Europa do século XVI, muitíssimos pais esforçaram-se por defender os filhos e os seus servidores contra o contágio do mal. Desta época datam os melhores livros de família. Eles foram os guias e os sustentáculos das famílias nobres que ilustraram a época de Henrique IV e Luís XIII.

Que bom seria se isso voltasse a acontecer! Não é temerário esperá-lo. Nos mais diferentes meios sociais recomeça-se a compreender a necessidade das tradições.

Logo após a morte do seu pai, o antigo redator do Petit Journal, Ernest Judet, publicou no Éclair estas palavras incisivas:

“Eu nunca compreendera tão bem o poder da tradição, a lição da hereditariedade, a carga que uma pessoa lega a outra dela nascida e a responsabilidade de nos desenvolvermos de acor­do com o espírito daqueles que nos criaram!”

É bem conhecida a impressão profunda que produziu no público o livro de Paul Bourget intitulado L’Étape, em que o autor defende idênticos princípios.

Charles de Ribbe pesquisou a fundo as tradições familiares da velha França e tirou dos seus estudos a seguinte conclusão:

“Baseando-nos em testemunhos irrefutáveis, podemos afirmar: quando as famílias caminharam nas vias traçadas por Deus, vencendo os vícios e elevando-se pela virtude, o trabalho e a poupança, graças a uma séria educação cristã, alcançaram sem­pre uma grande riqueza material, que possuíram de maneira estável” 6.

No livro intitulado Quelques réflexions sur les lois sociales, o duque d’Harcourt fez uma observação muito oportuna para as famílias contemporâneas. Falando dos sentimentos íntimos da aristocracia do sécu­lo XVIII, escreveu:

“Sabemos que, entre eles, a irreligião estava na moda. Zombavam dos dogmas e das tradições. Nos nossos dias, pelo contrário, os representantes das famílias nobres são, de modo geral, católicos praticantes”.

Pergunta em seguida como se operou essa mudança, e responde:

“Seria possível, no fim do século passado, que um grande número de indivíduos, por ódio à Revolução, mudasse assim de sentimentos? Não. Não foram os filhos dos ímpios que, espontaneamente, passaram a ter sentimentos piedosos, opostos aos dos seus pais. Pode ser que isso tenha ocorrido, mas muito raramente. Essa transformação explica-se simplesmente pela extinção quase completa da descendência dos céticos do século passado. Muitas des­sas famílias desapareceram e, quanto às outras, perpetuaram-se, seja porque faziam parte da minoria que na Corte escapou ao contágio, seja porque descendem de parentes obscuros perdidos na província, mas que ali conser­varam, juntamente com as antigas tradições, as ideias religiosas sem as quais as famílias não se perpetuam”.

Possa este memorável exemplo persuadir as famílias que querem per­petuar-se, a restabelecer as tradições que fizeram a antiga aristocracia! E para isso, que se retorne em toda parte nas famílias cristãs o belo costume dos livros de família. Estes tiveram outrora um grande prestígio em quase todos os países da Europa e até do Oriente. Uma instituição nascida espontaneamente em tantos e tão diversos países só pode ser inspirada pela própria natureza, ou melhor, pelo Autor da nossa natureza. Foi-nos terrivelmente funesto abandoná-la. Ser-nos-á extremamente favorável recuperá-la.

  1. 1. Cf. Émile Montégut, in Révue des Deux Mondes, 15 de novembro de 1871.
  2. 2. Cf. P. Jean Baptiste Henri Dominique Lacordaire, Conférences de Paris, Paris, 1835-1851.
  3. 3. Cf. Charles de Ribbe, Livre de Famille, Ed. Maison Alfred Mam et Fils, Paris, 1879. Ver também, do mesmo autor e sobre o mesmo tema, além dos livros já citados, Une famille au XVI siècle, Ed. Alfred Mam et Fils, Tours, 1894; Une famille au XVII siècle, Ed. Société ibliographique, Paris, 1882; La vie domestique, ses modèles et ses règles, Ed. Baltenweck, Paris, 1878.
  4. 4. Falando da organização tradicional da família, transmitida e fortalecida de geração em geração, Funck-Brentano mostra como a hereditariedade contribuía para vincar o caráter das famílias nas diferentes classes sociais. Assim, cada família tinha as suas próprias ideias, maneiras e sentimentos, que se transmitiam com energia crescente de época para época. Cita vários exemplos, como os Guise, os Retz e os d’Ormesson. Sobre esta última estirpe, diz: “A expressão probo como D’Ormesson chegou a ser um provérbio” (Cf. Frantz Funck-Brentano, El Antiguo Régimen, idem, p. 31). — [N. do T.]
  5. 5. Cf. Joubert, Pensées, Livro XVI.
  6. 6. Cf. Charles de Ribbe, La famille et la société en France avant la Révolution, Paris, 4ª edição, 1879, 2 vols.
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