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Pe. Robert Brucciani, FSSPX (5)

A liberdade gloriosa dos filhos de Deus

Pe. Robert Brucciani, FSSPX

 

Meus queridos fiéis, eu quero ser livre! Eu quero liberdade! Esse é um clamor universal. Ouvimo-lo cantado por pop stars e entoado por multidões efervescentes; vocês recebem a promessa dela por políticos em campanha eleitoral e em propagandas online; vocês a veem em pichações em muros e naqueles detidos contra sua vontade. Liberdade!

Pensar-se-ia que a ânsia universal de liberdade poderia trazer um certo grau de libertação, mas, ao invés, os homens encontram-se escravizados a suas paixões na ordem interior e a um totalitarismo crescente na ordem exterior.

Isso parece ser um grande paradoxo, mas não na realidade quando se compreende o que a liberdade é enquanto uma perfeição no homem e como ela é mal compreendida pelo mundo.

 

Noção moderna de Liberdade

Para o mundo liberdade significa três coisas:

- ausência de coerção externa (nenhum obstáculo exterior à escolha);

- ausência de limites internos (nenhuma limitação inerente à natureza);

- autonomia (permissão de escolher o bem ou o mal).

Essa definição é aprazível ao homem moderno e, por isso, é a moeda da cultura moderna.

 

Ausência de coerção externa

Para o mundo liberal, a liberdade, enquanto perfeição, é a ausência de coerção: a possibilidade de indulgência com qualquer capricho sem inibições, o gozo de todo prazer sem consequências, a abolição de todo tabu.

É a oportunidade sem qualquer regra, exceto, talvez, a regra “desde que eu não machuque ninguém” ou “desde que eu não viole os direitos do outro” ou “desde que todos consintam”. Portanto, um liberal pode proclamar “eu sou livre para usar meu corpo como desejar: embriagar-me, vestir-me como quiser, continuar ou não meu casamento. Sou livre para decidir matar a criança no meu útero. Sou livre para acreditar no que quiser e praticar qualquer religião que quiser – tanto em público, quanto em privado – sem restrições governamentais ou sociais”

 

Ausência de limites internos

A noção de liberdade do mundo não se resume à liberdade de coerções exteriores, mas liberdade das limitações inerentes à natureza humana.

“Eu posso ser aquilo que quiser: um homem ou uma mulher, até mesmo uma galinha. Posso fazer o que quiser se conseguir remover as consequências naturais indesejadas das minhas ações: posso ser promíscuo, se usar contraceptivos; não preciso trabalhar, porque o Estado não me deixará morrer de fome. Não preciso rezar, porque decidi que Deus não existe. Posso decidir, por mim mesmo, onde minha perfeição última (o céu) está: no prazer sensual, na fama, no poder ou no nirvana”

 

Autonomia completa

Para o mundo ser livre significa ter a possibilidade de escolher qualquer coisa: o bem ou o mal. É a posse da autonomia. Para o liberal, a liberdade, enquanto perfeição, é a vontade indeterminada: a vontade em potência, não em ato. A liberdade é pró-escolha: significa ser capaz de escolher como viver sem qualquer referência à natureza, à finalidade, ao bem, a Deus. Para o liberal, a glória do homem está na possibilidade de escolher, não em ter feito a escolha certa.

 

Problemas nas raízes da noção moderna de liberdade

Os problemas na noção liberal de liberdade enquanto perfeição advêm do fato do homem moderno (filósofos, cientistas, políticos e o público em geral) ter uma compreensão equivocada do ser em geral e do homem em particular.

 

Quatro causas do ser

A filosofia aristotélica nos ensina que todo ser criado pode ser definido por suas quatro causas:

- Causa eficiente: como uma coisa é feita;

- Causa material: do que é uma coisa é feita

- Causa formal: o que faz a coisa ser aquilo que é. No homem,

~ isso é a alma (enquanto coprincípio com o corpo);

~ é a essência: a coisa que faz um homem ser o que ele é, a coisa que dá a seu ser coerência, unidade e identidade;

 ~ é a natureza: aquele princípio de todo movimento e descanso da coisa: aquilo que faz o homem desejar o que deseja, odiar o que odeia; aquilo que determina onde sua perfeição última está – onde ele repousaria em estado definitivo

- Causa final: é o fim último, no qual um ser atinge a perfeição. Para o homem, trata-se da contemplação de Deus na Visão Beatífica.

A filosofia e a ciência modernas não têm noção da causa formal de uma coisa (alma, essência ou natureza) e, consequentemente, nenhuma noção da causa final dela. Eles apenas veem causas materiais, algo da causa eficiente, e forças (mecânica, elétrica, magnética e gravitacional).

Os cientistas modernos não conseguem detectar a ordem espiritual com seus instrumentos e, portanto, ou a desprezam, ou negam.

 

Problemas na definição de liberdade como “ausência de coerção externa”

Sem nenhum conceito da natureza da coisa, não há conceitos sobre as regras pertinentes àquela natureza.

Por exemplo, não temos liberdade de beber petróleo, voar por nossas próprias forças, respirar água. Essa coisas são contrárias à nossa natureza e levariam à nossa morte física. Semelhantemente, não temos liberdade de ser promíscuos, de mentir, de ignorar Deus, porque essas coisas levariam à nossa morte espiritual. Se a liberdade deve ser uma perfeição, então ela tem de levar à nossa perfeição quando a praticamos, tanto física quanto espiritualmente.

A Liberdade de fazer qualquer coisa que quisermos, na realidade, é perigosa para nós enquanto indivíduos e enquanto sociedade, porque a liberdade, necessariamente, está correlacionada à nossa natureza. Isso significa que a coerção externa que impede a escolha do mal é boa. Por exemplo, é bom proibir a pornografia, é bom que tenhamos várias de nossas leis civis (não todas) e uma força policial para as garantir, é bom que tenhamos corrimões nas escadas e lacres a prova de violação em frascos de medicamentos. Seria bom se, quando crianças, fôssemos forçados a rezar o terço em família por nossos pais.

Buscar a liberdade como se ela fosse, simplesmente, a ausência de limitações, na realidade, é pedir a escravidão: não apenas à nossa própria vontade desordenada, mas para toda a sociedade. Não apenas os indivíduos se tornam escravos de suas paixões – viciados nos vícios – mas também predispostos a se tornarem escravos do Estado, porque uma sociedade viciosa, muito provavelmente, tenderá ao totalitarismo que multiplica as leis e aumenta seus poderes de aplicar as leis em uma tentativa de escorar a desintegração inevitável da ordem.

E, então, em relação às limitações que o mundo aceita: quando as pessoas dizem que devemos ser livres para fazer tudo que quisermos, desde que não machuquemos alguém, elas esquecem que o homem é um ser social e que tudo que fazemos afetará o resto da sociedade. A garota que passa horas se admirando em segredo ou o menino viciado em jogos de computador no seu quarto, necessariamente, afetará aqueles próximos a ele.

Os que alegam que o consentimento é a condição da liberdade completa erram da mesma maneira, mas tendo cúmplices do seu erro.

“Meus direitos terminam onde os do outro começam” também é um dito popular, mas todos os direitos devem ter em vista o bem comum, não a coexistência ou a competição de bens individuais.

 

Problemas na definição de liberdade como "ausência de limitações interiores”

Crer que eu posso escolher minha natureza e minha própria finalidade é, claramente, uma ilusão. Isso reduz o mundo inteiro ao absurdo e, ironicamente, é mais restritivo:

- Se um homem escolher ser mulher, não terá a liberdade de atingir a perfeição da feminilidade (não poderá ter filhos, não poderá ser uma mãe).

- Se um homem escolher ser uma galinha, então estará mais inapto ainda a atingir a perfeição da natureza da galinha.

Consequentemente, ao escolher uma identidade e uma finalidade diferentes da minha identidade e finalidade reais, torno-me um escravo por minha escolha e causo dano real a mim mesmo. Jamais serei feliz ou atingirei a perfeição da minha real, imutável natureza, que me foi dada pelo meu Criador.

 

Problemas na definição de liberdade como “autonomia”

Para o mundo, liberdade é autonomia. É a vontade em potência com relação tanto ao bem quanto ao mal, o que é o mesmo que dizer: a vontade em potência com relação à perfeição ou à escravidão, ou até mesmo à autodestruição.

Uma perfeição muito maior da vontade é a potência de escolher entre um bem ou outro. E ainda maior é a vontade, já não em potência, mas no ato de escolher o bem. Essa é a liberdade tal qual existe em Deus.

A liberdade do mundo é a mesma prometida por Satã a Adão e Eva: “sereis como deuses, ao conhecerdes o bem e o mal” (Gn 3, 5). É uma liberdade ilusória da lei de Deus: liberdade do Direito Natural, de Jesus Cristo, da Igreja e até mesmo de Deus.

Tanto os homens decaídos quando Satã buscam essa falsa noção de liberdade e, portanto, são escravos. Os homens tornam-se escravos do mundo, da carne e do demônio. Satã é um escravo perpétuo do seu ódio de Deus.

 

A verdadeira Liberdade

Então, o que é a verdadeira liberdade, enquanto perfeição no homem? Essa pergunta é respondida por Santo Tomás no seu tratado sobre os anjos:

 

Se o anjo bem-aventurado pode pecar? (Ia. pars, q.62, a.8, ad 3)

… Por onde, à perfeição da liberdade do arbítrio pertence o poder de eleger diversos meios, conservada a ordem do fim; mas, será um defeito da sua liberdade se eleger algum meio divertindo da ordem do fim, e pecando. Donde, maior é a liberdade do arbítrio nos anjos, que não podem pecar, do que em nós, que podemos.”

A liberdade sempre deve estar relacionada com o fim visado: a finalidade de uma coisa. É livre aquele que se direciona à perfeição suprema relativa à própria natureza.

A maior liberdade, portanto, consiste em estar no céu, onde não podemos escolher nada além do que nos leva a Deus, porque a visão de Deus é inteiramente satisfatória, não terá nenhuma diminuição e é possuída sem o temor de perdê-la.

A verdadeira liberdade não consiste em estar livre da coerção, em ter a escolha entre o bem ou o mal. A verdadeira liberdade é a liberdade de conhecer, amar e servir a Deus Todo-Poderoso. Ela é:

- a liberdade interior de virtude, que nos faz escolher o bem,

- a liberdade exterior de uma sociedade ordenada que nos protege e encoraja a escolher o bem,

- e o ato em si de escolher o bem

Atingimos a Liberdade interior ao viver a vida cristã de oração, mortificação e prática religiosa. Buscamos a liberdade exterior pela Ação Católica. E, pela prática da nossa liberdade, somos livres da sujeição à corrupção, para participar da liberdade gloriosa dos filhos de Deus (Rom 8, 21).

 

(Ite Missa Est, editorial, Julho-Agosto de 2021. Tradução: Permanência)

À luz da verdade

Pe. Robert Brucciani, FSSPX

 

 

À luz da verdade

Tentando compreender a loucura

 

 

Queridos fiéis,

Parece haver um impressionante aumento de conflitos e de loucura generalizados na sociedade hoje. Um zeitgeist frenético de ideologias enlouquecidas está acelerando a morte da Igreja Católica e da civilização ocidental; liberalismo, feminismo, construtivismo, amor livre, ideologia de gênero, direitos reprodutivos, ambientalismo, ideologia pandêmica, teoria racial crítica e outros.

Tudo isso é promovido e, então, imposto pelos pilares do poder mundial: governos, universidades, multinacionais, mercado financeiro, mídia e celebridades. Nunca antes estiveram tão coordenados e encontraram tão poouca oposição aos seus esforços. A hierarquia da Igreja Católica, anteriormente poderosa no palco mundial como a guardiã da verdade e moralidade naturais e sobrenaturais, pateticamente repete essa mensagem em linguagem pseudoteológica para não ser deixara para trás.

Como é possível que tantos aceitem a loucura? De onde ela vem?

 

Motivos para aceitar a loucura

Que os novos ideólogos do zeitgeist são loucos é fácil de perceber, pois eles trazem contradições internas, que produzem consequências catastróficas na sociedade quando implementadas (ver Figura 1).

ideologia

Exemplo de contradição interna

consequências

liberalismo

tolerância para todos, exceto para os que discordarem

totalitarismo

construtivismo

a criança é o seu melhor professor

ignorância

amor livre

amor livre = amor infiel

egoísmo escravizante

ideologia de gênero

o gênero independe do sexo biológico, portanto devemos ajudar as pessoas a mudarem seu sexo para que se conforme a seu gênero

mutilação, depressão, suicídio

direitos reprodutivos

o aborto é um direito humano

40 milhões de seres humanos mortos por ano

ambientalismo

Defesa da contracepção e do aborto para preservação do planeta para nossos filhos

violência contra a natureza

ideologia pandêmica

a única maneira de voltarmos ao normal é redefinirmos o normal

totalitarismo

teoria racial crítica

a discriminação racial será resolvida com outra discriminação racial, que forçará um resultado igual

discriminação racial

 

Alguns não se importam se o zeitgeist é um leve vento ou uma iniquidade, mas cinicamente adotam várias ideologias loucas visando seu ganho pessoal – desde que a ideologia do mundo seja “boa para mim” eu a adotarei.

Alguns apenas querem sobreviver no mundo e, então, apesar de suas reservas quanto a essas ideologias, entregam-se às suas demandas.

Alguns, desconhecendo o amor de Deus, desejam o amor do mundo e, portanto, estão prontos para acreditar no mundo. Pensadores nesse grupo vão tentar malabarismos intelectuais elaborados para tentar dar algum sentido às ideologias, mas, ao falharem na tentativa de reconciliar proposições contraditórias, vão aceitá-las como fé, pois querem que o mundo os aceite.

Finalmente, há aqueles que querem reduzir o mundo inteiro à servidão. Esses são os que propõem e impõem ideologias malucas para desafiar (e com o objetivo de romper) a ordem estabelecida. Quando indagados quanto à natureza irreconciliável de suas ideologias enlouquecidas, eles estão prontos para mentir sem o menor escrúpulo e a proclamar “É a minha verdade!” e, então, partem para a destruição de qualquer oposição.

Esse ultimo grupo é diferente dos outros, pois eles não aceitam a loucura, mas, na realidade, eles mesmos são loucos. Nessa sua retorsão “é a minha verdade” nós temos a prova disso, além de uma explicação do zeitgeist.

o problema

motivo profundo

como erram

vício

remédio

muitas pessoas aceitam ideologias malucas

Querem “tirar proveito”

Não se importam com a verdade

concupiscência

temperança

muitas pessoas aceitam ideologias malucas

Querem sobreviver

Seguem o mundo

fraqueza

fortaleza

muitas pessoas aceitam ideologias malucas

Querem ser amadas pelo mundo

Acreditam no mundo

ignorância

prudência

muitas pessoas aceitam ideologias malucas

Querem ser os senhores do mundo

Reivindicam domínio da verdade

malícia

justiça

 

"É a minha verdade"

Explicando: o único ser que pode dizer “É a minha verdade” como expressão de domínio sobre a verdade é Deus. “Deus é o dono da verdade”, podemos dizer.

Assim como um carpinteiro pode contemplar sua obra e dizer com satisfação “essa porta é verdadeira”, pois ela se conforma perfeitamente ao plano, Deus pode olhar para uma de suas criaturas e dizer “essa criatura é verdadeira”, pois se conforma ao seu plano. Como Criador de todas as coisas, Deus é o autor de toda a verdade porque é o autor do plano que é a medida de todas as criaturas. Chamamos a isso verdade ontológica: a conformidade de um ser com o Plano Divino.

Como criaturas intelectuais, não podemos ser autores da verdade, mas podemos ser iluminados pela verdade. Isso acontece quando o intelecto é suficientemente informado por um objeto sob consideração, ou quando o intelecto se conforma ao seu objeto. Chamamos essa verdade de verdade lógica. Em Filosofia, verdade lógica é definida como “a conformidade do intelecto a uma coisa compreendida” (adequatio intellectus cum re intellecta).

É dessa verdade que precisamos, se pretendemos atingir nossa perfeição natural e sobrenatural. Devemos conhecer a Deus e conhecer todas as coisas em relação a Deus. Verdades naturais são possuídas pela simples apreensão, julgamento ou pela reflexão sobre as informações recebidas através dos sentidos. As verdades sobrenaturais são possuídas pela virtude sobrenatural da fé aplicada à Revelação Divina, contida na Escritura e na Tradição e ensinada a nós pela Igreja.

 

A natureza da loucura

A ironia naqueles que alegam domínio sobre a  verdade é que, ao reivindicarem uma prerrogativa divina para eles, ao invés de se tornarem mestres do universo como gostariam, limitam-se a um universo pessoal bastante restrito, separado de toda e qualquer outra criatura. Ao buscarem libertar-se de Deus, adentram uma prisão criada por eles mesmos e jogam a chave fora. Eles se enquadram perfeitamente na definição que Chesterton dava para o homem louco: “Um homem louco não é alguém que perdeu sua razão, mas alguém que perdeu tudo, menos a razão”1. Eles renunciam a qualquer referencial exterior; perdem o senso de proporção, porque não há modelos com os quais possam comparar as coisas (o que também explica por que não têm senso de humor); eles não têm qualquer ponto de partida sobre o qual possam ter consenso, nenhum fundamento comum sobre o qual possam construir um edifício universal de pensamento.

Como tal, sua recusa de aceitar a ordem da realidade – a ordem da verdade – é, simplesmente, um eco daquele coro de Lúcifer no princípio do tempo: “non serviam!”. Eles poderiam muito bem ter gritado “Eu não aceitarei Seu universo, Sua realidade, Sua verdade, mas criarei uma para mim!” Com Lúcifer, rejeitam a âncora da realidade e encontram-se sozinhos, recusando-se a aceitar que há uma referência suprema para todas as coisas, uma medida de todas as coisas exterior a eles, pela qual algo é objetivamente verdadeiro ou falso, bom ou mau. Eles semeiam o zeitgeist e colhem um turbilhão de males.

 

O remédio

Só há uma maneira através das quais essas pobres, isoladas e enganadas almas podem ser ajudadas. Apelar à razão danificada para restaurar a razão não ajudará: elas só podem ser auxiliadas pela graça sobrenatural.

O mesmo vale para os outros grupos: os escravos do prazer, os escravos do medo e aqueles que querem tão desesperadamente ser amados pelo mundo. Todos eles precisam das virtudes teologais e morais para retornar à sanidade da Verdade e à segurança do Bem.

Segundo cálculos meramente humanos, a loucura que testemunhamos aumentará até que a Igreja seja destruída, e a sociedade humana atinja a tirania para se tornar o inferno na terra. Pelo cálculo Divino, porém, a vitória já foi conquistada sobre o pecado e o inferno. Eles mataram o Autor da Vida e da Verdade e, sem intenção, geraram a salvação de muitos. Eles tentam matá-Lo novamente e novamente e estão, simplesmente, preparando o palco para o Seu retorno na glória, se Deus quiser, em suas próprias almas primeiramente antes de morrerem, e, então, no Último Julgamento.

 

Nossa parte no remédio

Essa inevitabilidade da vitória, porém, não significa que podemos cruzar os braços e deixar tudo nas mãos de Deus, pois somos chamados a ser instrumentos da graça sobrenatural que salvará almas. Nossas ações futuras, embora livres, já estão encaixadas no plano Providencial do universo. Devemos corresponder ao Plano Divino. Não apenas devemos rezar por todos aqueles que semeiam e seguem o zeitgeist, devemos tornar-nos para eles o que os Apóstolos no Pentecostes eram para os judeus e os gentios. Nossas vidas devem se tornar como o Círio Pascal que vimos nas Missas das últimas semanas. Devemos ser uma luz para o mundo, a luz das boas obras, um sacrifício de louvor, uma chama flamejante em honra a Deus, uma chama que se divida em várias chamas sem jamais ter seu esplendor diminuído. Estamos em uma batalha, queridos fiéis. Na Irlanda, outrora Ilha dos Santos, a Missa pública continua proibida, e ouvir confissões, agora, é uma infração criminal. Aqueles que reivindicam domínio sobre a Verdade querem nos forçar a aceitar suas mentiras e a juntar-nos a eles em suas prisões pessoais de loucura.

Mas nós temos a Bem-Aventurada Virgem Maria como nossa mãe! Temos todas as razões para aprofundar nossa devoção a ela rezando o terço em família e recitando a Ladainha de Loreto. Como podemos temer se ela mesma está aqui, para defender Aquele Que é a Verdade, não a minha verdade, mas A Verdade, o Caminho e a Vida? O mês de Junho também se aproxima; uma época perfeita para trazer a Luz da Verdade para nossas casas através da Consagração de nossas famílias ao Sagrado Coração de Jesus.

 

In Jesu et Maria,

Pe. Robert Brucciani

  1. 1. Ortodoxia, Chesterton.

Não vos inquieteis com nada

Não vos inquieteis com nada, mas em todas as circunstâncias manifestai a Deus as vossas necessidades
por meio de orações e de súplicas unidas à ação de graças
(Fp 4,6)

 

Queridos fiéis,

Enquanto o mundo moderno se precipita de cabeça rumo à tirania política, recessão econômica e perseguição cultural, é natural – e sobrenatural – para os católicos, dirigirem-se a Deus.

À medida que somos, forçadamente, desconectados do nosso controle sobre as coisas materiais, é natural que nos apeguemos com maior afinco aos bens espirituais em nossas vidas: nosso relacionamento com Deus, a família e os amigos, e com nós mesmos. Com a ajuda da graça de Deus, lucraremos dessa desconexão forçada não apenas por contemplarmos o valor das coisas espirituais, mas também por colocá-las em sua ordem devida: amar a Deus sobre todas as coisas e, então, amar ao próximo como a nós mesmos por amor de Deus.

Uma das consequências naturais desse rearranjo será uma vida de oração mais fervorosa e eficaz.

 

Definição de oração

A oração, em sentido estrito, é a elevação da mente e do coração a Deus para Lhe pedir, corretamente, algo: as graças ou dons de que precisamos para viver na terra e para atingir a vida eterna.

A oração, em sentido amplo, é a elevação da mente e do coração a Deus, não apenas para Lhe pedir algo, mas para O adorar, agradecer a Ele e fazer-Lhe reparação.

A oração, no sentido mais amplo, é uma conversa com Deus, às vezes chamada de colóquio. A oração é uma conversa, uma conversa de duas vias, porque Deus sempre responde às nossas orações, seja por inspirações interiores ou eventos exteriores; basta que estejamos ouvindo.

A natureza e finalidade da oração está explicada na Figura 1.

 

Necessidade da oração

A oração é nosso dever primário não apenas enquanto cristãos, mas mesmo enquanto homens. É natural e necessário (i. e., parte da lei natural) que peçamos graças a Ele, de Quem recebemos tudo – até mesmo nossa existência. É natural e necessário que reconheçamos, coloquemo-nos diante, honremos e agradeçamos ao Ser Supremo. É natural que conversemos com Deus, com Quem unir-nos é nosso fim último, o propósito último de nossa existência.

A oração frequente, portanto, é necessária para obter o céu àqueles que atingiram a idade da razão.

 

Tipos de oração

Há certos modos de classificar a oração:

– As orações podem ser classificadas de acordo com seu fim: culto (isto é, adoração, ação de graças e reparação) ou petição.

– A oração pode ser pública ou privada. As orações públicas, neste sentido, são as orações oficiais da Igreja, também chamadas de Liturgia. Essas orações estão contidas nos livros oficiais da Igreja: o Missal, o Ofício Divino (Breviário), o Ritual e o Martirológio e são rezadas por um ou com um ministro da Igreja.

– A oração pode ser pessoal ou coletiva.

– A oração pode ser vocal ou mental.

 

Os vários tipos de oração estão explicados na Figura 2.

 

*Figura 1*

 

*Figura 2*

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eficácia da oração na santificação

A oração produz três efeitos maravilhosos na alma:

– ela promove, em nós, o desapego das criaturas

– ela nos une inteiramente a Deus

– ela, gradativamente, transforma-nos em Deus

A oração promove, em nós, o desapego das criaturas na medida em que elas são um obstáculo para nossa união com Deus. Esse efeito da oração decorre da sua própria natureza como uma elevação do coração a Deus.

O segundo efeito da oração – a união – é realizada através da conversação íntima e é preservado pelo temor de perder a Deus através do pecado mortal, ou de afastar-se dEle através do pecado venial ou das imperfeições.

A oração, gradativamente, transforma-nos em Deus pela graça santificante que Deus nos dá. São Francisco de Sales diz:

“Se a oração é um colóquio ou uma conversação da alma com Deus, então que falemos a Deus, e Ele fale de volta a nós; que aspiremos a Ele e respiremos nEle, e Ele, reciprocamente, inspire-nos e respire sobre nós”

 

Eficácia das orações de petição

As orações de petição sempre serão atendidas, pois temos a promessa do próprio Cristo:

“Pedi, e vos será dado; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á" (Mt 7,7);

“Por isso vos digo: tudo o que pedirdes na oração, crede que o haveis de conseguir e que o obtereis” (Mc 11, 24)

Há, porém, algumas condições. Primeiramente, Deus só nos dá aquelas coisas que são verdadeiramente boas para nós, o que significa que nós só devemos rezar pedindo as coisas que, direta ou indiretamente, dizem respeito à nossa salvação ou à salvação de outro.

Então, quando rezamos, devemos rezar com atenção, fé firme, desejo ardente, esperança, docilidade e humildade.

Quando rezamos dessa maneira pedindo algo, jamais saímos sem ser recompensados. Pois, embora Deus já soubesse de cada necessidade nossa desde a eternidade, e tem Sua vontade fixa por toda a eternidade, Seu conhecimento prévio de nossas orações faz parte de Seu plano providencial para o universo. E, dessa maneira, podemos dizer que nossas orações, de fato, são a causa da munificência de Deus.

Se o que pedimos não for o melhor para nossa salvação, nossa oração, ainda assim, não deixará de nos trazer novas graças e um aumento da fé, esperança e caridade, desde que rezemos com humildade.

 

Oração vocal

Quando decidimos rezar, a maioria de nós, instintivamente, recorre à oração vocal, que envolve a recitação de textos fixos, como a Liturgia da Igreja, ou devoções como o Rosário, hinos, ladainhas, atos de consagração, etc, ou falando com palavras próprias.

A oração vocal, porém, não está na recitação de palavras; está na elevação da mente e do coração a Deus por atos afetivos de humildade, fé, esperança, caridade, gratidão e pesar que as palavras evocarem ou permitirem. É importante entender isso, pois nos ajudará a perceber que a atenção a Deus, a Quem nos dirigimos, é necessária e evitará que cometamos o erro de multiplicar nossas orações vocais sem atos afetivos de virtude. Não precisamos nos concentrar nas palavras, mas precisamos nos concentrar em Deus.

 

Oração mental

A oração mental é uma forma mais elevada de oração, pois é mais espiritual e, portanto, mais adequada à união com Deus. Também é mais difícil, razão pela qual muito poucos rezam bem dessa maneira.

A oração mental pode ser, de maneira ampla, dividida em oração meditativa ou oração contemplativa em razão das operações na alma de cada uma. Ela também é dividida de outros modos pelos autores espirituais.

A figura 3 contém a divisão da oração mental de Santa Teresa d’Ávila.

Oração

Sentidos exteriores

Vontade

Razão

Memória

Imaginação

Origem

Objetivo/resultados

Mental (deliberação)

Voluntariamente suspensos

Uso completo

Uso completo

Uso completo

Uso completo

Natural & sobrenatural

Discursivo

Refletir sobre verdades

Recoleção

Voluntariamente suspensos

Uso completo

Uso completo

Uso completo

Uso completo

Natural & sobrenatural

Consciência da presença de Deus

Quietude

Orações repetitivas/escrita

Absorta em Deus

Uso completo

Uso completo

Uso completo

Puramente sobrenatural

Quietude apesar de alguma distração parcial

União

Involuntariamente suspensos

Absorta em Deus

Absorta em Deus

Uso completo

Uso completo

Puramente sobrenatural

Paz no amor de Deus

Êxtase/arrebatamento

Involuntariamente suspensos

Absorta em Deus

Absorta em Deus

Absorta em Deus

Absorta em Deus

Puramente sobrenatural

Transes, êxtases, levitação

Meditação

A oração meditativa é a forma mais simples de oração mental e pode ser definida como “uma divagante reflexão amorosa das verdades religiosas”, através da qual elevamos nossas mentes e corações a Deus.

O que isso significa é que, após nos colocarmos na presença de Deus (imaginando-nos ajoelhados ante Seu trono, ou sentados aos Seus pés ou de qualquer outra maneira que nos seja conveniente para nos imaginar na Sua presença), começamos a pensar nEle ou em algum aspecto de Seu mundo criado e das suas criaturas como sendo ordenadas a Ele. Mas o objeto desse esforço de reflexão discursiva não é obter uma compreensão melhor das verdades da nossa fé (ou mesmo verdades da Filosofia ou ciência relacionadas com Ele), e sim descobrir manifestações de Seu amor por nós.

São João da Cruz afirma, sucintamente: “O fim da meditação e da consideração mental das coisas divinas é obter algum conhecimento do amor de Deus” Portanto, a meditação pode ser vista como uma parte do primeiro estágio de cortejo. Assim dois espíritos semelhantes atraem-se um ao outro, eles se encontram conversando com prazer e, quando a sós, ponderando sobre sua conversação, pela meditação ponderamos as palavras e ações de Deus na Escritura, na Teologia e nas vidas dos Santos ou em nossas próprias vidas para descobrir novas razões para amar a Deus e novos sinais do amor de Deus por nós.

A diferença entre amantes humanos e amantes divinos é que, em vez de nos indagarmos se o outro nos ama, sabemos que Deus nos ama com certeza da fé e da razão. Nossas meditações, portanto, são um exercício na descoberta e elucidação desse amor e na provocação do nosso amor por Ele através dessa descoberta.

A oração da meditação, embora mais livre que a oração vocal, não deve estar totalmente privada de uma estrutura, pois nossa frágil natureza humana requer algum tipo de apoio. Tipicamente, a oração meditativa deve incluir os seguintes passos:

– Colocar-se na presença de Deus,

– Refletir sobre o tema da meditação (p. ex., o Evangelho do dia)

– Ponderar os pontos da meditação

– Conversar com Deus

– Formar resoluções

Sta Teresa d’Ávila admitia ter grande dificuldade de se concentrar nas meditações e, portanto, defendia a meditação com um livro, para que seja possível ler e reler a seção de um texto.

Algo que devemos evitar quando meditamos é tornar-nos o objeto da meditação. Nossa oração não deve ser uma torturante extensão do exame de consciência.

 

Contemplação

A meditação é o primeiro estágio do cortejo; é uma oração-meio conducente à perfeição da oração, que é a contemplação. Sta Teresa d’Ávila descreve a contemplação como “nada além do íntimo comércio da amizade, na qual uma alma conversa um a um com esse Deus, que ela sabe que a ama”

No começo, é um colóquio íntimo, totalmente pessoal e espontâneo, sem preocupações com forma e ordem e procedente, apenas, do fluxo de amor do coração. Assim como dois amantes, convencidos de seu amor mútuo, sentem total liberdade e prazer na companhia um do outro, a contemplação é aquela relação de amor com Deus livre, desinibida. Às vezes a alma fala, às vezes mantém-se em silêncio, ouvindo interiormente, para perceber os movimentos da graça, que são a resposta de Deus

Quando todos os desejos de nosso amor foram falados, assim como dois amantes podem olhar um para o outro em silêncio, nosso colóquio cessa e nossa alma é acalmada em contemplação silenciosa de Deus. Essa é a consumação da oração de contemplação: uma intuição simples da Verdade. Na contemplação, a alma em busca de Deus é iluminada por Sua luz e é atraída intensamente a Ele.

Essa é a forma mais elevada de oração e não é algo que pode ser atingido por um método; é um dom livre que Deus dá em breves momentos ou por períodos prolongados, para encorajar as almas em sua obra de santificação

 

Não vos inquieteis

Após termos lembrado a natureza, necessidade e tipos de oração, enquanto contemplamos as nuvens da revolução se fechando, lembremos, ainda, que nenhuma tirania, nenhuma pobreza e nenhuma perseguição religiosa pode nos remover o maior bem, aquela pérola que é nosso relacionamento pessoal com nosso Deus de amor. Como São Paulo diz,

Não vos inquieteis com nada, mas em todas as circunstâncias manifestai a Deus as vossas necessidades por meio de orações e de súplicas unidas à ação de graças (Fp 4:6)

 

In Jesu et Maria,

Pe. Robert Brucciani

(Ite Missa Est, Março-Abril 2021. Tradução: Permanência)

Virando chinês

Pe. Robert Brucciani, FSSPX 

 

Sumário: o poder político, econômico e cultural na China está concentrado nas mãos do Partido Comunista Chinês (PCC). O poder cultural engloba o poder sobre a religião. Com ajuda direta do Ocidente, a China adotou o Capitalismo de Estado e, agora, é uma superpotência global. No Ocidente, o poder político, econômico e cultural está semelhantemente concentrado, não nas mãos de uma organização política ou de um Estado individual, mas nas mãos de uma elite financeira menos visível. Tanto na China quanto no Ocidente, o poder cultural tem sido exercido para promover uma antitética cultura da morte e para oprimir e subverter a Igreja Católica. À luz de eventos recentes, parece que a profecia de Nossa Senhora de Fátima sobre o comunismo global está se tornando realidade, e nós faríamos bem em imitar os fiéis católicos da China, que preservaram sua fé em um Estado comunista sem Deus.

 

Essência e propriedades do comunismo

A essência e as propriedades do comunismo são descritas pelo Papa Pio XI em sua encíclica Divinis Redemptoris. O comunismo é o materialismo ateu, no qual:

não há espaço para a ideia de Deus; não há diferença entre matéria e espírito, entre alma e corpo; não há sobrevivência da alma após a morte, nem nenhuma esperança em uma vida futura… O comunismo, além disso, retira do homem sua liberdade, despoja a personalidade humana de toda a sua dignidade e remove todas as limitações morais que controlam as erupções dos impulsos cegos. Não há o reconhecimento de nenhum direito do indivíduo em suas relações com o coletivo; nenhum direito natural é reconhecido à personalidade humana, que é apenas uma engrenagem no sistema comunista. Nas relações do homem com outros indivíduos, além disso, os comunistas sustentam o princípio da igualdade absoluta, rejeitando toda a hierarquia e a autoridade constituída por Deus, incluindo a autoridade dos pais.

 

O comunismo na China

Pouco após Mao Tse-Tung, o Secretário-Geral do Partido Comunista Chinês (PCC), subir ao poder absoluto após declarar a fundação da República Popular da China no dia 1º de outubro de 1950, na Praça Tiananmen, deu-se início ao desmantelamento da sociedade chinesa. O objetivo alegado do PCC era criar um Estado comunista ideal: uma sociedade sem classes, sem Deus, com a propriedade comum dos bens.

A ignorância de Mao Tse-Tung da natureza humana era talvez tão profunda que ele de fato acreditou na viabilidade da utopia comunista era possível; ou, talvez, ele apenas via a ideologia comunista como um meio para obter o poder absoluto. De qualquer modo, usou seu poder absoluto para criar um regime totalitário, um Estado servil.

O PCC começou com a destruição da ordem natural na sociedade: impôs a ideologia comunista e instigou medo em toda a população por meio de leis que mudavam constantemente, ameaças e prisões arbitrárias. Declarou classes inteiras (proprietários de terras, homens de negócios, intelectuais, toda a classe média) bem como as religiões como inimigas do PCC e as privou de suas posses. Chegou ao ponto de privar os camponeses de suas possessões – tomando deles a terra que lhes havia sido dada após as espoliações dos proprietários privados de terra. Ele destruiu a riqueza e os empreendimentos independentes. Matou 60 milhões de almas em suas prisões e campos de concentração. Os católicos foram perseguidos de maneira especial, e a Associação Patriótica Católica Chinesa (APCC), controlada pelo PCC, foi estabelecida em 1957, numa tentativa de substituir a Igreja Católica na China.

O único partido político permitido era o PCC; a economia foi planejada centralmente pelo PCC, a cultura era ditada pelo PCC, e a religião foi tornada subserviente ao PCC. O resultado foi um cruel fracasso. Como poderia ser de outra maneira, se a Lei natural era atropelada e toda a aspiração à virtude, exinta? Todos aqueles que detinham posições de comando eram oficiais do partido, e todos os oficiais do partido eram corruptos.

 

Comunismo chinês: Capitalismo com caraterísticas chinesas

Após uma disputa pelo poder em seguida à morte de Mao Tse-Tung em 1976, Deng Xiaoping foi proclamado “Lider político” pelo PCC. Deng Xiaoping lidou com o problema do fracasso econômico introduzindo o capitalismo de mercado na China, alegando que isso seria, apenas, uma adaptação temporária dos princípios comunistas para adequação às condições locais, visando garantir que, eventualmente, fosse atingida a utopia comunista de uma sociedade sem classes, com propriedade comum de todos os bens. As reformas tanto encorajaram o empreendedorismo quanto toleraram a propriedade, mas sempre sob controle do PCC. Esse é o modelo que o atual Secretário-Geral do PCC, Xi Jinping, tem desenvolvido desde que se tornou o “Lider político” em 2012.

Com uma enorme quantidade de mão de obra barata, enormes investimentos de multinacionais e bancos ocidentais, mercados ocidentais abertos, tecnologia prodigiosa do ocidente (garantida por espionagem industrial patrocinada pelo Estado), controle político total e tirania cultural, a China tem buscado uma estratégia vigorosa e inescrupulosa de imperialismo econômico. Ela tem comprado influência e garantido recursos no exterior ao remover ativos comerciais, financiar políticos e acadêmicos estrangeiros e escravizar países em desenvolvimento com projetos de infraestrutura que são bons demais para ser verdade. O resultado geral é que a China, agora, é uma superpotência com posição central nas questões globais, enquanto permanece sem Deus e desprezando a Lei natural. Esse desprezo se manifesta, claramente, no seu bárbaro programa de controle de população e no uso extensivo de “centros de reeducação” para dissidentes políticos e religiosos. É importante notar dois fatos: em primeiro lugar, nada do desenvolvimento chinês teria sido possível sem o capital ocidental, os mercados ocidentais e a colaboração ocidental; e, em segundo lugar, a China permanece totalmente dependente do ocidente para a continuação da sua prosperidade.

 

Poder concentrado no Ocidente

O poder político, econômico e cultural no Ocidente também tem seguido uma trajetória de concentração. A fonte do poder político no ocidente é, discutivelmente, a democracia, mas é a elite financeira que, na verdade, detém controle sobre a educação, a mídia, os grandes negócios e os políticos que lhes entregam o poder. O mesmo vale para o poder econômico porque quase todo governo, empresa e indivíduo depende dos bancos que lhes emprestam dinheiro, assim se tornando dependentes daqueles que controlam os bancos. Finalmente, a cultura ocidental, controlada pelas empresas de mídia globais, políticos e a academia e o conjunto de instituições do Capitalismo de Estado, também se conforma à elite financeira.

Até mesmo a Igreja Católica, antes uma poderosa força em prol da ordem natural e sobrenatural no mundo, parece estar sob o jugo da mesma elite. Desde o Concílio Vaticano II, os homens da Igreja, querendo se fazer amados pelo mundo, fecharam os olhos para o fim sobrenatural do homem e para o Reinado Social de Cristo Rei e abraçaram a nova cultura global com sua nova religião secular. Eles até se submeteram às autoridades chinesas, traindo assim seus filhos chineses perseguidos naquele país.

 

O partido não pode durar

Em suma, o poder tem sido comprado com dinheiro, mas esse recurso tem suas limitações. Quando todo o dinheiro em circulação for emprestado e não houver crescimento econômico suficiente para pagar os juros, todo o sistema financeiro está destinado a entrar em colapso. Isso é um problema urgente que o mundo, incluindo a China, está enfrentando. Desde a política de quantitative easing empregada pelos Bancos Centrais em 2009 para alavancar o vacilante sistema financeiro após a crise de 2008, o sistema financeiro mundial tem sobrevivido com aparelhos de sobrevida sem nenhum remédio real para o trazer de volta à saúde.

 

Tornando-se um comunista chinês com características ocidentais

Nesse contexto, veio a resposta ao vírus da Covid-19, com empréstimos governamentais enormes, erosões das liberdades individuais sem precedentes (notadamente a prática religiosa), aumento alarmante de vigilâncias e sabotagem econômica direcionada – tudo coordenado em escala global.

O que estamos vivendo agora parece muito com uma demolição controlada da antiga ordem mundial baseada no dólar americano para pavimentar o caminho para “O Grande Recomeço” (The Great Reset) que promete maravilhas, mas, na realidade, é um comunismo sem a intenção de resultar na propriedade comum dos bens. O Ocidente está se tornando chinês com características ocidentais: a saber, controle totalitário da política, economia e cultura à moda da República Popular da China, mas, em vez de haver um ápice visível de poder – o Líder político com seus asseclas – a fonte do poder no Ocidente está escondida e opera através de uma infinidade de instituições que formam o “Establishment”, seguindo o modelo de hegemonia cultural descrito pelo teórico marxista Antonio Gramsci (1891-1937); e, em vez do culto do chefe de Estado, uma nova religião de culto terreno e politicamente correto está sendo imposta.

 

Quem é o Líder Supremo do Ocidente?

Fizemos alusões à “elite financeira” como estando no controle direto de governos, da política econômica e da cultura no Ocidente e no controle indireto da China. Essa elite financeira, segundo se crê, é composta por membros dos Rothschild, Rockefeller, Carnegie e outras dinastias financeiras, em conjunto com estrelas globais que conseguiram adentrar esse círculo seleto. Há bastantes evidências para crer nessa alegação – até mesmo a confissão deles – mas estariam eles no topo da pirâmide? O que os une? É a maçonaria ou algo a que a própria maçonaria é subserviente? Quando se lembra que um tema comum das mudanças políticas, econômicas e culturais ao longo dos últimos 70 anos é a erosão deliberada da Lei Natural e a promoção da cultura da morte, parece que há forças mais sombrias do que a ganância e a megalomania de uma elite em jogo. Quando vimos, também, que a Igreja Católica tem sido objeto de uma infiltração organizada e tem sofrido sua própria revolução (no Concílio Vaticano II), podemos discernir os traços de Satanás no mundo.

 

Virando católico chinês.

O que estamos testemunhando agora pode, muito bem, ser o cumprimento da profecia de Nossa Senhora de Fátima em 13 de julho de 1917: os erros da Rússia – os dogmas da ideologia comunista – se espalharão pelo mundo.

Para os católicos, principalmente por estarmos em números tão pequenos e porque grandes setores da hierarquia da Igreja são cúmplices da revolução, é irreal imaginar que podemos vencer as forças do mal lançando-nos contra aquelas instituições onde a cultura da morte reina. Como na China, a rota natural está fechada; devemos, portanto, empenhar toda nossa energia no sobrenatural.

Se nossa sociedade está caindo no comunismo chinês com características ocidentais, faríamos bem ao observarmos como a Igreja Católica sobreviveu e até cresceu face à perseguição do PCC. Desde 1952, a Igreja na China tornou-se clandestina, e, apesar de isolamentos sociais, prisões, multas, lavagens cerebrais, torturas e execuções, muitos católicos perseveraram. Os fiéis católicos correram a Nossa Senhora quando foram ameaçados: eles recitaram o terço na ausência da Missa e ingressaram na Legião de Maria na ausência de uma estrutura paroquial. Eles correram para os santuários dela, os terços eram suas armas, a Legião de Maria, seu exército. Trazida da Irlanda para a China pelo Pe. Aedan McGrath, da Sociedade Missionária de São Columba, a Legião de Maria, tornou-se um instrumento da sobrevivência da Igreja Católica quando a hierarquia visível era desmantelada pelo PCC entre 1950 e 1955. Os legionários treinavam catequistas, batizavam, testemunhavam casamentos e encorajavam a devoção e a perseverância entre os fiéis quando não havia Padres. Eles trabalhavam em segredo, dando aos católicos e aos catecúmenos uma formação que os ajudaria a suportar o sofrimento da perseguição e a espalhar a fé a outras almas aflitas que, privadas das distrações do mundo material, eram terra fértil para a vida divina.

É improvável que os católicos no ocidente serão submetidos aos mesmos sofrimentos físicos que os católicos chineses, mas pressão moral, financeira e legal pode, certamente, ser esperada. Devemos imitar os católicos chineses em suas virtudes de oração, penitência e perseverância, e, talvez, seja o tempo de reformar a Legião de Maria no Distrito.

Em Fátima, Nossa Senhora revelou a Lúcia, Francisco e Jacinta que os erros da Rússia podem ser evitados pela consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, pela devoção dos cinco primeiros sábados e pela recitação diária do terço. Apesar de apenas o Papa, em união com todos os Bispos do mundo, poder consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, essa é uma causa pela qual podemos rezar e divulgar. Quanto à devoção dos cinco primeiros sábados e à recitação diária do terço, isso é algo que a maioria dos católicos pode fazer – certamente o terço diário.

Devemos estar prontos para seguir o exemplo dos católicos chineses perseguidos, que eram, de várias maneiras, como a Sagrada Família. A Sagrada Família estava sem abrigo, pois ela foi forçada a fugir de sua casa para cumprir uma lei governamental, foi mal recebida e tratada como gado pelo establishment de Belém e teve de abandonar tudo na sua fuga de Herodes. Tendo perdido tudo no mundo, eles, ainda assim, possuíam o maior de todos os tesouros: a Divina Criança – Deus em carne e Deus em suas almas.

Enquanto adoramos o Menino Jesus na manjedoura neste Natal, peçamos as graças de fidelidade e fortaleza para o que pode ser um ano dramático. Em nome de todos os membros da Fraternidade, queridos fiéis, por favor, aceitem meu agradecimento por toda sua ajuda espiritual e temporal ao longo do último ano, e estejam certos de nosso desejo, nossas orações e sacrifícios para que vocês possam encontrar paz verdadeira no único lugar onde ela pode ser encontrada: nos braços de nossa Mãe Celestial, que estende Seu Filho a nós.

Nossa Senhora da China, rogai por nós!

(Ite Missa Est)

Politicamente correto, o que é?

Pe. Robert Brucciani, FSSPX

 

Definição comum

O politicamente correto, normalmente, é definido como “evitar formas de expressão ou ações que excluam, marginalizem ou insultem grupos de pessoas que estão socialmente desavantajadas ou que sofrem discriminação” (Dicionário de Oxford)

Essa definição normal apresenta o politicamente correto como uma louvável expressão da lei da caridade fraterna, mas seus efeitos mostram que essa definição pode ser gravemente enganadora.

 

Os efeitos

Exemplos do poder destrutivo do politicamente correto são incontáveis: feministas que creem, sinceramente, que o aborto é uma questão de saúde, crianças tendo contato com pornografia e contracepção na idade mais tenra por parte do Estado para sua proteção, pobres crianças suicidas que realmente creem que podem decidir seu sexo, negação do Direito Natural pelo Judiciário, a perpétua re-escrita da história para transformar nossos ancestrais em monstros, demonização dos Santos e da Igreja Católica. A lista prossegue indefinidamente.

 

Verdadeira definição

O politicamente correto é uma aplicação do marxismo cultural através da qual a civilização é deliberadamente minada por meio da supressão legal e moral do direito do indivíduo de recorrer ao bom senso e à tradição (ou seja, à cultura).

 

Background

O marxismo econômico, de um lado, alega que toda a história é determinada pela propriedade dos meios de produção. Se se puder adquirir os meios de produção, adquire-se, enfim, poder absoluto. O marxismo cultural, de outro lado, alega que toda a história é determinada pelo poder de certos grupos sobre outros grupos. Conquistar o poder absoluto, portanto, é possível através de um processo de fortalecimento de certos grupos em detrimento de outros. Politicamente correto é o nome dado ao instrumento pelo qual essa revolução se torna realidade.

Os teóricos marxistas Antonio Gramsci, da Itália, e George Lukacs, da Hungria, alegaram que o fracasso da Revolução Russa (1917) em se espalhar por toda a Europa se deveu ao apego das classes trabalhadoras à cultura ocidental, que era definida pelo Cristianismo. O triunfo do marxismo econômico não seria possível, portanto, até que a cultura ocidental fosse destruída.

Em 1923, um think-tank dentro da Universidade de Frankfurt formou-se na Alemanha para definir o marxismo em termos culturais e recebeu o nome de Instituto para a Pesquisa Social, para esconder seus objetivos marxistas. O think-tank foi forçado a mover-se para os EUA quando os nazistas chegaram ao poder em 1933, mas, no final dos anos 1930, o instrumento do politicamente correto estava quase pronto.

 

Como  funciona

1. Certos grupos são apresentados por uma “autoridade” (a mídia, o Estado, grupos ativistas) como sendo vítimas de opressão por outros grupos. Os grupos vítima são definidos com base em sua origem, suas características físicas ou comportamento (ao qual eles têm um direito absoluto de acordo com a “autoridade”) e, em alguns casos, realmente são grupos que sofrem opressão real

2. A “autoridade” rejeita a compreensão usual do mundo, que é definida pela cultura (incluindo o significado comum das palavras), e adota uma visão binária do mundo, na qual toda ação é interpretada como sendo a favor ou contra um dos seus proclamados grupos vítimas

3. A “autoridade” acusa abertamente qualquer um que julgue ter agido contra o grupo vítima (de acordo com a autoridade), mas essa conclusão não se baseia em nenhum ato em si mesmo, nem nas intenções dos acusados, nem nas circunstâncias dos fatos, mas no dano causado aos sentimentos das vítimas (de acordo com a conclusão da “autoridade”)

4. Um brado de fúria é insuflado e termina por ser aceito por quem teme ser objeto de semelhantes acusações (incluindo legisladores)

5. Indivíduos saudáveis, então, terminam adotando o mindset da aberrante “autoridade” por medo, desejo de ser acolhido, ou apenas por hábito; legisladores aprovam leis para “proteger” o grupo vítima, assim destruindo os princípios do bom senso e da tradição e consagrando, na lei, uma nova moralidade e um novo “pensamento”. A “autoridade”, assim, recebe poder para levar a revolução adiante.

O processo é eficiente porque apela para um senso natural de justiça no homem comum (p. ex., punir alguém que debocha de uma criança aleijada), mas é traiçoeiro porque uma “autoridade” oculta se torna apta a:

(a) inserir uma nova moral na sociedade (assim rompendo os laços da sociedade com seu bom senso e sua cultura) através de uma onda de falsas indignações morais

(b) julgar os outros baseando-se em sentimentos subjetivos, e em fatos reais; e

(c) demolir, brutalmente, a oposição sem qualquer justiça ou direito de contraditório.

 

Definição real

A definição real, portanto, pode ser mais ou menos assim: “O politicamente correto é a deliberada provocação de uma indignação moral desproporcional com o propósito de remover qualquer oposição a uma nova ordem social”

O politicamente correto é a tirania mascarada de caridade fraterna. Seu uso tem sido fundamental para uma revolução muito pior que a Reforma que dividiu a Cristandade há 500 anos atrás. Estamos vivendo uma destruição indiscriminada dos restos da civilização ocidental (cristã).

 

O remédio

O remédio para o politicamente correto não é atacar os grupos de vítimas, reais ou fabricadas. O remédio é (a) bom senso, cultivado por boas leituras, estudo e oração, para conhecer a verdade; (b) entender como o politicamente correto funciona; e (c) coragem sobrenatural para defender a verdade mesmo que o mundo inteiro esteja contra você.

(Ite Missa Est)

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