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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Alexandre Bastos (2)

Quando os ímpios tomam o poder

Alexandre Bastos

“Nunca antes neste país”

O Partido dos Trabalhadores foi fundado em 1980, três anos antes da CUT e quatro anos antes do MST. A fundação se deu no Colégio Sion, em um bairro de classe média alta de São Paulo e o manifesto de criação advogava a criação de uma “sociedade igualitária” sem “explorados nem exploradores” e a “democratização da sociedade em todos os níveis”[1], inserindo o partido na continuidade da tradição do marxismo brasileiro, gestado no período 1954-1964.

Entre os fundadores do partido, encontram-se vários ex-membros de organizações “subversivo-terroristas” como o José Dirceu (líder da Ala Marighella, futura Ação Libertadora Nacional), Fernando Pimentel e José Genuíno. Dilma Rousseff, do VAR-Palmares, foi membro-fundadora do PDT e só ingressaria tardiamente no PT.

No entanto, em que pese a influência de vários “ex-guerrilheiros”, a principal base do partido deve ser procurada entre os sindicalistas e no progressismo "católico"[2]. Diz um historiador:

“Em muitos locais as reuniões do PT se davam dentro da Igreja, como em Bebedouro (SP), onde o partido foi fundado no salão paroquial. Em Barretos (SP) o PT nasceu da ação de estudantes da Engenharia Civil, mas só se enraizou socialmente com o apoio da Pastoral da Juventude. Mas isto dependia exclusivamente do local”.

Outra citação:

“No Piauí a formação do PT se deveu à Igreja Católica (um padre italiano muito contribuiu, inclusive financeiramente)...

“No Acre (...) o PT foi fundado em 12 de março de 1980 e fortaleceu-se no campo apropriando-se da ação da Igreja Católica na organização dos seringueiros em sindicatos rurais.”

A influência dos católicos progressistas se estendida à própria organização do partido:

“Os núcleos do PT não eram uma herança das células comunistas e nem das seções socialistas. Em parte eles mimetizaram as CEBs e foram a expressão política de uma organização popular originalmente religiosa.”[3]

Desnecessário dizer que essa ala progressista estava muito distante do catolicismo verdadeiro, aquele que condenou muitas vezes pela voz dos papas as ilusões socialistas, com Leão XIII – que chamou a essa doutrina de “Peste mortal” (Quod Apostolici Muneris) – ou Pio XI – que declarou que “ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista” (Quadragesimo Anno). A oposição a essas doutrinas é tão formal, que um decreto do Santo Ofício de 1949, tratando da licitude de um católico frequentar os sacramentos após propagar ou publicar livros comunistas, responde taxativamente: “Negativo”.

*

Além da ala progressista da Igreja, havia o sindicalismo, cujo líder máximo era então o Luís Inácio Lula da Silva, responsável pela organização de centenas de greves na década de 1970 e 1980[4], até ser detido nas instalações do DOPS paulista, na época dirigida por Romeu Tuma, que declarou:

“Lula era o nosso melhor informante. [...] Lula nos prestava informações muito valiosas: sobre quando e onde haveria reuniões sindicais, quando teriam greves, onde o patrimônio das multinacionais poderia estar em risco por conta dessas paralisações.”[5]

Essas greves, nos diz Romeu Tuma, eram combinadas antecipadamente com os empresários e o agente “Barba” – como era conhecido – avisava o Dops. O objetivo seria o de aumentar o valor de venda dos veículos, para lastrear moralmente a ideia de que “vamos repassar aos preços dos carros o aumento de salário obtido pela categoria”.

Sobre o tempo que passou detido, escreveu o insuspeito Mino Carta:

“Prenderam Lula, para quem foi mal menor ter sido entregue aos cuidados do Tuma. Todo dia, uma perua da polícia vai buscar Marisa e os filhos e os traz para visitar o preso em uma grande sala anexa ao gabinete de Tuma [...] De vez em quando, lulas à doré preparadas em restaurante próximo são almoçadas pelo homônimo. Me animo a ligar para o Tuma, que não conheço, para solicitar uma visita ao presidente do sindicato. ‘Venha quando quiser’”[6]

 Não se tratava de uma prisão, e sim de uma hospedagem!

*

Curiosamente, essa composição do partido fez com que ele não fosse bem-visto inicialmente pela esquerda mais purista, que o acusava de ser “a ideologia do golpismo”. Disseminava-se a ideia de que o partido fora criado com incentivo do General Golbery com o intuito de dividir a esquerda.

No entanto, ao abrigar uma espécie de pluralismo no seio do partido do partido – consagrado no chamado “direito de tendências” – o PT conseguiu, pouco a pouco, aglutinar quase todo o espectro da esquerda. Com efeito, ao cabo de vinte anos, muitos partidos acabariam por se reduzir a satélites do PT.

Desde o início, o partido dependeu do fundo partidário e de contribuições estatutárias, pois era desprezível a contribuição dos afiliados. Cada parlamentar deveria destinar 30% dos seus vencimentos líquidos ao partido bem como ceder assessores para tarefas partidárias – aparentemente, os petistas não viam nenhum problema ético nesse estranho uso da coisa pública.

Do ponto de vista intelectual, a produção dos petistas se compunha de alguns periódicos, como o “Brasil Agora”, o “Jornal dos Trabalhadores”, o “Boletim Nacional”, o “PT Notícias” e o “Linha Direta”. Havia ainda algumas revistas como “Teoria e Política”, “Esquerda 21” e a “Revista Práxis”. É preciso mencionar ainda a Fundação Perseu Abramo, com a publicação de livros e promoção de eventos.

A evolução do partido é impressionante: já em 1982 elege os primeiros deputados; em 1985, Eduardo Suplicy concorre à prefeitura de São Paulo[7] – por essa época, o PT já tinha 10% de preferência partidária entre os eleitores; em 1988, elegeu prefeitos em 36 municípios, incluindo aí as capitais São Paulo, Porto Alegre e Vitória. O número de vereadores eleitos saltou naquele ano para 992; em 1989, Lula concorreu pela primeira vez à presidência – era a campanha “Lula lá” – conseguindo chegar ao segundo turno à frente de Leonel Brizola, perdendo de Collor por uma pequena diferença de votos.

Segundo o historiador do lulismo André Singer, o povo brasileiro é naturalmente conservador no sentido de que procura a “ordem”. Em 1989, Lula perdera principalmente nos estratos mais pobres da população, que votaram em Collor, percebido como a manutenção da ordem contra o baderneiro de esquerda – os mais pobres, aliás, eram os que demonstravam maior hostilidade às greves. Segundo um analista:

“No núcleo de apoio recebido por Lula nas suas quatro tentativas prévias de chegar à presidência, ocorridas entre 1989 e 2002, encontravam-se os eleitores com maior nível de escolaridade, concentrados principalmente nos estados mais urbanos e industriais do Sul e do Sudeste.”[8]

Só no ano de 2006 a base de eleitores de Lula da Silva mudará, mas não adiantemos.

Ainda sobre essa primeira década de vida do PT, duas informações importantes: quem entrar no site do PT verá uma linha do tempo indicando o “Movimento das Diretas Já” e a “Constituição de 88”. Na verdade, não foi o PT que deu início ao movimento das Diretas – e sim o PMDB, então preferido dos eleitores – nem apoiou a Constituição cidadã de 88, pois não lhe parecia revolucionária o bastante.

 

O Foro de São Paulo

O muro de Berlim caíra em novembro de 1989 e, dois anos depois, a União Soviética oficialmente terminava, dando início a um movimento de questionamentos e redefinições na esquerda mundial. Nesse cenário, os petistas pareciam trilhar dois caminhos opostos: moderação – para consumo externo, certamente, tendo em vista as necessidades eleitorais; e reafirmação dos ideais socialistas.

Lula por pouco não ganhara a eleição contra Fernando Collor, o poder parecia estar perto. Os dirigentes percebiam, no entanto, que não seria possível chegar ao Planalto sem uma renovação profunda do discurso. Os marxistas, avaliam, tinham um discurso coeso e atraente para o seu público de esquerda, mas faltava-lhes conteúdo programático, propositivo – não seria possível disputar uma eleição sem apresentar respostas a problemas concretos como o da inflação, por exemplo.

Esse problema também se veria nas eleições de 1994, quando Lula, com apenas 27% dos votos, perdeu no primeiro turno. Segundo Lincoln Secco: “Sem um discurso econômico convincente o projeto democrático e popular não passava de uma colcha de retalhos de boas intenções abstratas. O que o PT tinha era um conjunto de políticas sociais e o compromisso cada vez maior de evitar rupturas que afetassem a lucratividade do setor financeiro e uma vaga defesa do mercado interno de massas.”[9]

Para resolver essa questão, Lula criou o “Instituto da Cidadania”, e passou a ter uma atuação mais “à margem dos debates ideológicos internos”. Membros de outros partidos e economistas não alinhados com o PT histórico serão convidados a falar. José Dirceu procurará estreitar laços com o PMDB[10] e chegará a declarar ser “preciso abandonar a identidade com o socialismo real, ´aquele cadáver insepulto´”.

Importante ressaltar que não se tratava de uma renúncia aos princípios originais, mas de uma mudança de tática – era o surgimento do que André Singer chamou de “espírito do Anhembi”. Em outras palavras, tratava-se da transição de um “reformismo forte” – a favor da distribuição de terras, tributação do patrimônio de fortunas e grandes empresas, diminuição da jornada de trabalho etc. – para um “reformismo fraco”. O objetivo final mudara muito pouco, fora a decisão de manter a “ordem econômica” e de não entrar em choque com “o grande capital”, mas o meio de perseguir os objetivos se tornara mais sutil (e seguramente mais perigoso). O PT parecia aqui seguir a máxima de Lenin: “Confundir o inimigo e o público: esta é a tarefa, enquanto se faz o que deve ser feito”

Um efeito colateral dessa mudança no discurso foi a fuga da militância, que, desde então, se profissionalizou – ou seja, passou a ser remunerada. É o que diz um autor petista:

“O comparecimento da militância à rua foi substituído pelos cabos eleitorais profissionalizados e os grandes comícios de primeiro de maio trocados por shows com prêmios para o público (automóveis e casas). Foi nítida a diminuição deste espaço da política.

“A primeira reação do PT foi contratar pessoas até para fazer suas campanhas de rua. Era a terceirização da militância...”[11]

*

Em paralelo, o partido renovava o radicalismo. No ano de 1990, com o intuito de “recuperar na América Latina o que se perdeu no Leste Europeu”, Lula e Fidel Castro convocaram conjuntamente um encontro com todos os partidos e organizações comunistas-socialistas da América Latina e do Caribe. Esse encontro viria a ocorrer no mês de julho de 1990 na cidade de São Paulo – daí o nome Foro de São Paulo – e se repetiria, anualmente, por mais de duas décadas em diversas cidades latino-americanas.

O primeiro encontro se encerrou com a declaração seguinte: “Neste marco, renovamos hoje nossos projetos de esquerda e socialistas.” Além de diversos partidos de esquerda, participaram do Foro diversas organizações revolucionárias, tais como o Túpac Amaru, o MIR, a Frente Sandinista de Liberación Nacional e as FARC – o PT procuraria posteriormente ocultar do grande público a participação das FARC no Foro de São Paulo, por seu envolvimento com o narcotráfico. O Partido Comunista Cubano, naturalmente, também era membro.

É importante dizer que não se tratava de um convescote de velhos idealistas, pois o Foro tinha caráter prático, deliberativo, tomando decisões que deveriam ser acatadas, assinadas e postas em prática por todos os membros permanentes do foro – esse é um ponto extremamente grave.

Alguma das deliberações levaram à criação das comissões da “Verdade, Reparação e Justiça”, implantadas inicialmente na Argentina e, em seguida, no Chile e no Brasil, com o objetivo de transformar terroristas em heróis, propiciando-lhes gordíssimas indenizações até os dias de hoje.

Outra deliberação visava a complementação e compensação das diferenças das economias da região. Em português claro, os países mais ricos deveriam ajudar os mais pobres. Pode-se aqui perguntar se esse pensamento não está na origem da conivente passividade do governo brasileiro frente à expropriação da Petrobrás na Bolívia pelo presidente cocaleiro Evo Morales, ou na revisão antecipada e injustificada da tarifa paga pelo Brasil ao Paraguai pela energia de Itaipú[12], onerando o Brasil em 240 milhões de dólares ao ano desde 2011. Também podemos mencionar os empréstimos bilionários, em condições diferenciadas e sem qualquer lastro, às ditaduras de Cuba[13] e da Venezuela – que evidentemente não tinham condição de quitar a dívida. Esses países estão hoje inadimplentes e devem cerca de R$ 4 bilhões ao BNDES.   

Outras deliberações englobavam desde o apoio a pautas feministas até o posicionamento comum em face de questões geopolíticas. No entanto, nem tudo que era discutido e decidido é conhecido pelo grande público, sendo reservado ao núcleo duro da organização.

Quem financiava o Foro de São Paulo? Segundo Graça Salgueiro, estudiosa do Foro de São Paulo:

“Deve-se considerar como financiadores da organização, o que envolve Encontros, reuniões do Grupo de Trabalho que ocorrem em vários países quatro vezes ao ano, participações como observadores de eleições nos países membros etc, o próprio PT (hoje sabemos das ações bilionárias que estão em curso nas operações conjuntas do Ministério Público e Polícia Federal e que muito raramente são para proveito próprio), as FARC, os petro-dólares venezuelanos – da época de Chávez porque hoje a Venezuela está falida – e do mega-investidor George Soros, através de incontáveis ONG que pertencem e participam dos eventos.”[14]

 

A morte de Celso Daniel

As eleições de 1998 se aproximavam e, a ambiguidade anteriormente mencionada da reafirmação do radicalismo e da necessidade de um discurso eleitoral mais ao centro, encerrou-se rapidamente com a eleição de José Dirceu para a presidência do PT[15], que soube unificar o discurso do partido. Apesar de atacar o Plano Real na campanha eleitoral e ameaçar rever as privatizações, em especial a da Vale do Rio Doce, Lula adotava um discurso mais conciliador. De todo modo, com apenas 32% dos votos, o petista voltou a perder no primeiro turno.

Apesar da derrota, o PT vinha conseguindo avanços importantes, como foram as eleições municipais em SP para as prefeituras de Campinas, Ribeirão Preto e Santo André, cujo prefeito acabou morto em condições até hoje não inteiramente elucidadas.

Ora, em Santo André, município da região industrial do grande ABC[17], havia um esquema de propinas: cada uma das companhias de ônibus e de coleta de lixo era obrigada a fazer pagamentos mensais no valor de até R$ 200 mil reais (corrigido para os dias de hoje). Esse dinheiro destinava-se principalmente para o custeio de campanhas[18] – era a “propina altruísta”, no dizer dos petistas.

Os cofres do município eram um dos principais ‘propinodutos’ do projeto de poder do Partido dos Trabalhadores, assim como os das cidades de Campinas e Ribeirão Preto, todas em SP[19].

O Prefeito Celso Daniel não ignorava os achaques aos empresários, mas se indignava com o fato do seu pessoal reter parte da propina para o enriquecimento pessoal, numa espécie de “Caixa três” – idealista, o prefeito queria que os recursos fossem integralmente destinados a campanha eleitoral, e a de 2002 era muito importante para o partido. Urgia interromper o esquema porque o Ministério Público já estava no encalço e, faltando apenas nove meses para as eleições, ninguém queria problemas.

Dia 18 de janeiro de 2002, Celso Daniel foi ao seu restaurante favorito, o Rubayat, com um dos operadores do propinoduto, um ex-segurança e amigo seu apelidado de Sombra. Após o jantar, o prefeito seguiu no carro de Sombra até ser interceptado por um grupo de sequestradores oriundos da “favela do Pantanal” – ao que tudo indica, Sombra destravou as portas do carro, entregando o prefeito para os bandidos[20].

Celso Daniel foi levado para um barracão onde foi despido, torturado, alvejado com 11 tiros e jogado no meio da rua como um pano velho. O delegado Romeu Tuma disse que, quando encontrado, o cadáver trazia as mãos juntas: morreu implorando para que não o matassem.

Em pouquíssimo tempo, a polícia capturou os sequestradores, declarou que Celso Daniel fora vítima da violência urbana e deu o caso por encerrado. Segundo a versão oficial, os sequestradores não estariam atrás do prefeito, mas de outro empresário, que conseguira escapar. Frustrados, atacaram o primeiro carro que viram. Ao descobrir que haviam sequestrado o prefeito, tiveram medo da repercussão e, para não serem pegos, o assassinaram.

Ora, essa tese não para em pé: os bandidos se contradiziam a todo momento, não havia sinal da tal perseguição anterior mencionada, e nenhum deles sabia dizer que empresário seria esse. Por outro lado, se não sabiam que se tratava do prefeito, por que sequestraram apenas um dos passageiros do carro? Por que o torturaram? Para piorar, enquanto o prefeito estava preso, o “sombra” foi visto entrando sorrateiramente à noite na casa do sequestrado.

Nos meses seguintes, sete homens com algum envolvimento com o caso morreriam: o garçom do Rubayat, o legista, o investigador da polícia civil, o funcionário da funerária etc. Uma das mortes que mais chamou a atenção foi a de Dionísio Severo – líder dos sequestradores. Prestes a revelar tudo que sabia para o caso, foi conduzido, para sua proteção, para uma penitência de segurança máxima a 400 km de São Paulo. Foi morto poucos dias após sua chegada ao presídio, tendo recebido mais de 40 facadas.  

Uma aura de mistério ainda cerca o caso, mas é certo, como concluiu posteriormente a CPI dos Bingos, que Celso Daniel foi vítima de crime de mando.

Segundo alguns autores, uma das dificuldades da investigação veio do próprio PT, que agiu para estancar a tese de um crime envolvendo corrupção[21]. Afirmou Silvio Grimaldo:

“O delegado Hermes Rubens Siviero Junior (...) até tentaria mergulhar na investigação. Chegara a expedir um mandado de busca e apreensão no apartamento de Celso Daniel, à procura de roupas do prefeito, mas foi barrado especialmente pela ação do deputado petista Luiz Eduardo Greenhalgh, que recorreu à chefia da PF para impedir a ação”[22]

Romeu Tuma, por sua vez, fala na criação de “laudos fajutos”, sumiço de provas, destruição de escutas e pressão sobre os investigadores.

Os familiares de Celso Daniel não aceitaram a tese oficial da polícia e, ameaçados de morte – por quem? – tiveram de deixar São Paulo.

 

Paz e amor

O segundo governo FHC foi severamente impactado pela desvalorização cambial de 1999, a crise argentina de 2001 e o apagão no mesmo ano que, no seu auge, deixou 60 milhões de brasileiros sem luz. Tudo isso, somado à falta de empenho do presidente em eleger o seu sucessor, contribuiu para a vitória de Lula em 2002 contra o tucano José Serra[25].

“O combate à corrupção e a defesa da ética no trato da coisa pública serão objetivos centrais e permanentes do meu governo”, declarou comicamente o novo presidente, que encerrou o seu discurso de posse exclamando: “viva o povo brasileiro”!

Foi uma apoteose: a cerimônia, que durou três horas, foi dirigida pelo publicitário Duda Mendonça, e dezenas de milhares de pessoas foram para a Esplanada dos Ministérios assistir os shows de Gilberto Gil e da dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano, ou presenciar o presidente-operário a bordo do Rolls-Royce 1953 que usou para ir até o Congresso Nacional. O que então não se sabia é que parte dos gastos da festa estava sendo paga pelo publicitário Marcos Valério...

O Globo concedeu mais de uma dúzia de páginas ao evento, a chamada de capa do jornal dizia: “Lula assumirá pregando conciliação”. Na capa do Estadão, lia-se: “Vamos mudar, sim. Mudar com coragem e com cuidado”. Já a Revista Veja estampava na capa os dizeres: “Lula de mel”, e iniciava a reportagem com o clichê: “Um dia para a história”. Os jornalistas perdiam a compostura: “O povo esteve no centro da cena como em nenhuma outra posse”, escrevia Tereza Cruvinel. No O Dia, Frei Beto era ridículo: “Obrigado, dona Lindu, por ter dado ao Brasil um presidente com capacidade de liderança, transparência ética e profundo amor ao povo [...] O Brasil merece este fruto de seu ventre: Luiz Inácio Lula da Silva”

*

O início do governo parecia seguir à risca as palavras de José Sarney: “governar é como tocar violino, você assume com a esquerda e toca com a direita”. Com efeito, inicialmente, Lula procurou se desvencilhar da imagem de sindicalista que fizera com que, às vésperas das eleições, o risco brasil disparasse e o dólar alcançasse algo em torno de R$12,50 (corrigido para valores de hoje)[26]. O primeiro movimento nesse sentido, antes mesmo da eleição, foi a “Carta ao Povo Brasileiro”, redigida a muitas mãos, contendo uma série de defesas à segurança jurídica, respeito aos contratos e ao tripé macroeconômico (superávit primário, câmbio flutuante e metas de inflação)[27].

Não houve aqui nenhum “estelionato eleitoral”, como ocorrerá anos mais tarde na reeleição de Dilma Rousseff. Lula preservou imagem favorável junto ao mercado seguindo um posicionamento que poderia ser descrito como uma continuidade e mesmo um aprofundamento do projeto neoliberal de seu antecessor. Para tanto, nomeou o ex-diretor do Bank Boston Henrique Meirelles para o Banco Central e, para o Ministério da Fazenda, não optou por nenhum dos quadros do PT responsáveis pelo programa econômico das eleições disputadas anteriormente, mas o ex-prefeito de Ribeirão Preto, Antônio Palocci, que procurou se cercar de nomes mais à direita, como o do economista Marcos Lisboa[28]. Nos primeiros meses do governo, a taxa de juros foi aumentada, assim como a meta de superávit primário (que passou para 4,25%), e foi anunciado um enorme corte do orçamento público, de 14 bilhões de reais. Algumas reformas importantes foram realizadas, como a da previdência do funcionalismo[29] – que Lula levou pessoalmente ao Congresso – a reforma do crédito e a do setor imobiliário[30].

Naqueles anos, a conjuntura não poderia ser mais propícia: ao longo do seu primeiro mandato, a economia mundial crescia a uma taxa média anualizada de 3,9% e vivia-se o chamado “superciclo das commodities”[31], causado pela demanda crescente da China e outros emergentes, beneficiando fortemente o Brasil e outros exportadores de matéria prima. A balança comercial agrícola no período disparou: passou de 19,9 bilhões de dólares em 2003 para 34 bilhões em 2006. Não fosse tudo, o período foi marcado pela redução das taxas de juros em todo o mundo, estimulada pelo banco central norte-americano[32], o que beneficiou todos os emergentes.

Era o cenário ideal para seguir com a promoção das reformas de que o país tanto necessitava, mas aparentemente o PT tinha outros planos...

O ano de 2003 foi um ano relativamente morno no noticiário político, mas, nos bastidores, a máquina pública era completamente aparelhada. No Planalto, o Ministro da Casa Civil, José Dirceu, corria para fazer tantas nomeações quanto pudesse para cargos de confiança – foram quinze mil em apenas oito meses[33]. No Rio de Janeiro, a maior empresa do país era tomada pelos sindicalistas:

“Nunca em sua história a Petrobras havia realizado tantas substituições de cargos de segundo, terceiro e quarto escalões como aconteceu a partir de 2003. Embora fossem funcionários da companhia, muitos dos gerentes nomeados por recomendação de sindicatos e legendas partidárias eram desconhecidos de suas equipes. Dedicavam-se a atividades políticas havia anos. Não tinham subido degrau a degrau, ocupando as funções mais baixas de chefia até chegarem ao cargo a que foram catapultados subitamente. Boa parte também tinha formação de nível médio, incompatível com os cargos ocupados, pelo menos considerando a prática da companhia até então. O plano de carreira da estatal foi totalmente subvertido.”[34]

O nível de intervenção na Petrobrás foi tal, que chegou a ser nomeado para a Estatal um sindicalista apelidado de “o homem da lista”, encarregado de validar a indicação de nomes para os postos da empresa. Caso o indicado fosse considerado um “inimigo dos trabalhadores”, seu nome era vetado, independente de quem o tivesse recomendado.

Infelizmente, as substituições não se limitaram aos escalões inferiores: os personagens centrais do chamado “Petrolão” – o maior esquema de corrupção da história do país – foram nomeados já nos primeiros meses do governo.

*

Os dois primeiros anos do governo Lula foram marcados por uma série de polêmicas e escândalos. Apresentamos a seguir uma lista não exaustiva:

  • A primeira denúncia de mal uso do dinheiro público surgiu já nos primeiros cem dias do novo governo, envolvendo a Ministra Benedita da Silva[35].
  • Denúncia de que o PT negociara a compra do apoio do PTB por R$10 milhões de reais[36].
  • A polêmica compra do chamado “AeroLula”.
  • O escândalo Waldomirio Diniz, onde o principal assessor de José Dirceu foi flagrado pedindo propina para o PT a um bicheiro.[37]
  • A “Operação Vampiro”, com o objetivo de desmantelar uma quadrilha que fraudava compra de remédios, e cuja ação fraudulenta causou prejuízo superior a R$2 bilhões.
  • Denúncia de nova “compra” de partido. Dessa vez, a vítima seria o PSDC em Osasco que teria sido “adquirido” por R$ 500 mil pelo PT que, aparentemente, tomou gosto pelo processo.

 

Ademais, 2004 era ano de eleição e os gastos do PT alcançaram a astronômica cifra de R$100 milhões. Ninguém sabia explicar de onde vinha tanto dinheiro, visto que PSDB, PMDB e PFL somados não dispunham de tanto. Em São Paulo, para a campanha de Marta Suplicy, quatro mil cabos eleitorais iam de casa em casa para panfletar.

Além disso, um personagem até então desconhecido rodava as ruas de Brasília. Como escreveu Gérson Camarotti:

“Delúbio Soares [tesoureiro do PT] mudou, da noite para o dia, sua forma de vestir e seus hábitos alimentares. Passou a beber vinhos e uísques caros, e a circular por Brasília com um forte esquema de segurança: ´Ele usava, em várias ocasiões, batedores e carros blindados para se locomover. O esquema de segurança era parecido com o de chefes de Estado. Além de dispor de pelo menos dois batedores de motocicletas, o tesoureiro usava carros-clones.”[38]

Tudo isso, no entanto, era mero prelúdio para o que estava por vir.

 

O mensalão

Segundo a Procuradoria Geral da República, o mensalão “foi o mais atrevido e escandaloso caso de corrupção, de desvio de dinheiro público flagrado no Brasil”.

O ex-ministro Celso de Mello foi ainda mais contundente:

“Estamos a tratar de uma grande organização criminosa que se constituiu à sombra do poder fomentando medidas ilícitas que tinham por finalidade a realização de um projeto de poder. Estamos a tratar de uma hipótese de macrodelinquência governamental.”

A singular gravidade do mensalão está em ter sido, nas palavras do historiador Marco Antônio Villa, “uma verdadeira tentativa de tomada de Estado” – um “golpe”, segundo Ayres Britto – envolvendo não apenas financiamento de campanhas eleitorais, mas um balcão de compra de votos no Congresso. Por meio do desvio de dinheiro público – e recursos privados adquiridos em troca de benefícios espúrios – o governo Lula comprava apoio de deputados para aprovar leis de seu interesse.

O deputado Roberto Jefferson foi o “whistleblower”, fazendo a denúncia numa entrevista, que se tornou célebre:

“Um pouco antes de o Martinez morrer, ele me procurou e disse: "Roberto, o Delúbio [Soares, tesoureiro do PT] está fazendo um esquema de mesada, um "mensalão", para os parlamentares da base. O PP, o PL, e quer que o PTB também receba. R$ 30 mil para cada deputado. O que você me diz disso?". Eu digo: "Sou contra. Isso é coisa de Câmara de Vereadores de quinta categoria. Vai nos escravizar e vai nos desmoralizar". O Martinez decidiu não aceitar essa mesada que, segundo ele, o doutor Delúbio já passava ao PP e ao PL"[39].

A repercussão foi imensa e, em poucas semanas, o poderoso ministro José Dirceu caiu.

O esquema do Mensalão se dividia em três núcleos: o financeiro (composto por empresas públicas e privadas), o operacional (composto por empresas de publicidade) e o político (deputados e membros do Planalto). Por meio de empréstimos simulados, uns R$350 milhões em valores de hoje foram distribuídos a políticos nas vésperas de votações importantes para o governo.  

O senador Arthur Virgílio fez na ocasião um violento ataque ao presidente da República, que afirmava desconhecer o esquema que lhe beneficiava diretamente:

“Vamos acabar também com essa história de que o sr. Lula não sabe de nada. Até o meu filho de dez anos sabe! Ou ele é um completo idiota, ou o sr. Lula sabe de toda a corrupção que se passou debaixo do seu nariz”. E continuava: “Na melhor das hipóteses, sr. Lula, o senhor é um idiota! Na melhor das hipóteses! Na pior, o senhor é um corrupto!”

O presidente não foi denunciado pela Procuradoria Geral da República. No entanto, Corrêa Barbosa, advogado de Roberto Jefferson, declarou o seguinte, perante a Suprema Corte:

“Se o presidente da República só poder ser julgado pelo STF, peço que esse tribunal cumpra a lei e que o procurador chame o presidente Lula para esta Corte, porque ele é o mandante de todo esse crime.”[40]

E Marcos Valério posteriormente declararia: “Não podem condenar só os mequetrefes. Só não sobrou para o Lula porque eu, o Delúbio [Soares] e o Zé [Dirceu] não falamos”[41].

*

Foi um ano complicado para o governo. Não bastasse a grave denúncia do mensalão, estourava o escândalo da Gamecorp. Empresa de Fábio Luís Lula da Silva, o “Lulinha”, que recebera a soma inexplicável de R$5 milhões da Telemar. Ora, a empresa do filho do presidente tinha capital social de apenas R$200 mil e era deficitária. Para piorar, longe de ser um empresário de sucesso, “Lulinha” era monitor de zoológico.

Veio em seguida o escândalo do irmão de José Genuíno, então presidente do PT, preso no aeroporto de Congonhas com US$ 100 mil na cueca, e R$ 200 mil em uma valisa. Genuíno deixou a presidência do partido, assim como antes fizeram Delúbio Soares e Silvio Pereira – respectivamente tesoureiro e secretário-geral do partido.

Em agosto, na CPMI dos correios, o publicitário Duda Mendonça foi ouvido e confessou ter recebido pelos serviços prestados para a campanha de Lula de 2002 dinheiro de caixa-dois depositado ilegalmente em uma conta no exterior. Uma bomba!

A confusão não parou e, já no início de 2006 estourava o escândalo do caseiro Francenildo. Na CPI dos Bingos, Francenildo declarou que o Ministro da Fazenda Antônio Palocci frequentava uma mansão alugada no Lago Sul, bairro nobre de Brasília, onde havia reuniões para distribuição de dinheiro e festas com prostitutas[42]. Na sequência, o sigilo bancário do caseiro foi quebrado e os extratos bancários divulgados por uma revista – uma tentativa falhada de tentar incriminar o caseiro, mas que acabou tornando a situação do Ministro insustentável. Palocci finalmente entregou o cargo. O presidente da Caixa Econômica Federal também colocou o seu cargo à disposição[43].

 

A reeleição

Após o mensalão uma nova fase do governo de Lula começaria, na qual a nomeação de Dilma Rousseff para a Casa Civil e de Guido Mantega na Fazenda afastavam o governo paulatinamente da ortodoxia econômica do início do governo para lançá-lo resolutamente em uma linha desenvolvimentista. A política de aumento real do salário mínimo – que subiu acima da inflação +8,2% em 2005 e +13% em 2006[44] – será a grande marca desse período e terá profundo impacto nas eleições de 2006.

Trata-se de medida de viés claramente populista e insustentável a longo prazo: os aumentos dos salários, ou são repassados ao consumidor aumentando a inflação, ou reduzem as margens das empresas – penalizando sobretudo as mais intensivas no uso de mão-de-obra – que se veem obrigadas a cortar pessoal ou fechar as portas, gerando desemprego. Essa política vigorou até o ano de 2019, ajudando a minar a competitividade da indústria nacional. Ademais, os gastos públicos cresciam a um ritmo de 6% ao ano no primeiro governo, obrigando a carga tributária bruta a subir de 32,16% para 33,42%[45]

Apesar das denúncias terem colocado Lula nas cordas, a oposição se recusava a confrontá-lo: Aécio demonstrará solidariedade dizendo que “Lula não é Collor” e “merece nosso respeito.” Fernando Henrique, por sua vez, chegará a demonstrar interesse até em se encontrar com Lula, posicionando-se resolutamente contra qualquer proposta de impeachment.

O PSDB não escolheu José Serra para disputar as eleições, apesar de ter aparecido nas pesquisas à frente do petista, mas o pouco competitivo Geraldo Alckmin, que declarava preferir mirar o futuro a “atacar o presidente” – Lula naturalmente ficou bastante contente!

Quando as urnas abriram o que se viu foi uma vitória esmagadora: 60,8% para o petista contra 39,1% do tucano. Isso sem sequer participar de debates e com o estouro de um novo escândalo no meio da campanha eleitoral – era o escândalo da compra de “dossiês”[46].

O bom desempenho nas urnas pode ser explicado pelo sucesso do programa Bolsa Família[47] – matéria da Revista Veja da época mostrava que a área em que o programa mais se concentrava coincidia com aquelas onde o petista obtivera anteriormente pior votação – e pelo desempenho relativamente bom da economia: o desemprego havia caído para 8,4% (em 2005, fora de 9,3%), a inflação estava em 3,1%[48] e o PIB cresceu 4% – é verdade que esse resultado ainda era inferior ao dos BRICs: no ano, a China cresceu 11%, a Índia 9,7% e a Rússia 6,7%.

Um fato importante nessa campanha foi a mudança da base de sustentação do governo, que passou a ser integrada pelos eleitores de baixíssima renda: “Lula foi eleito, sobretudo, pelo apoio que teve neste segmento, enquanto Alckmin contou, além dos votos dos mais ricos, com certa sustentação na faixa de eleitores de classe média baixa, que vagamente corresponde ao que o mercado chama de ´classe C´. Na faixa de mais de dois a cinco salários-mínimos de renda familiar mensal, por exemplo, Alckmin quase empatava com Lula às vésperas do primeiro turno, mas, entre os eleitores de baixíssima renda (até dois salários-mínimos de renda familiar mensal), Lula aparecia com uma vantagem de 26 pontos percentuais sobre Alckmin.[49] Não tinha sido assim em 2002.

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Ainda sobre esse primeiro período, é preciso mencionar que o governo petista representou um período de expansão dos grupos de sem-terra, que chegaram a 71. O principal deles era o MST. Em quatro anos, ocorreram quase mil invasões de terras[50] – praticamente uma a cada dia útil!

O MST tinha apoio das FARC e atuava “com uma logística de fazer inveja a muitos exércitos.”[51] Tinham o objetivo de “libertar” e “exercer o domínio” em um território que iria do Mato Grosso do Sul ao Uruguai. 

Já o Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST), criado por um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e financiado com dinheiro público[52], invadiu o Ministério da Fazenda em 2005 e o Congresso, em 2006. Nesse último episódio, com cerca de 600 militantes, depredando e vilipendiando a Câmara dos Deputados[53]. O presidente Lula chegou a aparecer em público com o boné do movimento.

A tudo isso acrescente-se à promoção de um Conselho Federal de Jornalismo, que visava “orientar, disciplinar e fiscalizar” a atividade dos jornalistas, com a sugestão de penas disciplinares.  A forte rejeição ao projeto, no entanto, fez com que o governo o deixasse em banho-maria na Câmara.

 

O Apogeu

O segundo mandato representou o período de apogeu do PT. Embora José Dirceu não ocupasse mais nenhum cargo no governo, Lula se tornou muito mais forte. Conseguiu reorganizar o partido, atrair os sindicatos, voltar a se aproximadas dos artistas e fechar apoio com o PMDB.

Para lidar com a imprensa, designou Franklin Martins (ex-membro do MR-8, e um dos participantes do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick) para a Secretaria de Comunicação Social. “Através de ´patrocínios´ do governo federal e de empresas estatais, milhões de reais foram destinados aos apoiadores do petismo, e se organizou, como nunca na histórica do Brasil, uma rede eficaz de propaganda dos êxitos – reais ou não – da administração de Lula. Aos críticos do lulismo – transformados em adversários – reservou-se o epíteto de membros do ´partido da imprensa golpista´.”[54]

As centrais sindicais foram completamente coaptadas, reservando-se ao PDT o ministério do Trabalho, aparelhado pelos pedetistas. “Entre 2003 e 2006, o governo transferiu R$72 milhões para as centrais sindicais. Nunca os sindicalistas tiveram tanto dinheiro e poder.”[55]

Em cada viagem que fazia, o presidente brasileiro era recebido com mais pompa por líderes e instituições esquerdistas. “Lula é o cara”, dirá o Presidente Obama em 2009. O mandatário brasileiro será eleito o líder mais influente do mundo pela revista Times – “O que Lula quer para o Brasil é o que costumávamos chamar de Sonho Americano”, dizia o editorial, escrito pelo documentarista Michael Moore. Em 2011, depois do fim do governo, receberá o título de doutor Honoris Causa no Instituto de Ciências Políticas, em Paris.

A confiança era tamanha que se chegou a ventilar extra oficialmente a possibilidade de uma reforma constitucional que garantisse um terceiro mandato para o Lula.

Os grandes empresários também foram cooptados, sobretudo com a criação, em 2008, do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), mais conhecido como o programa de “campeões nacionais”. Na prática, o governo colocava no mercado títulos públicos ao custo de 14% para emprestar o dinheiro levantado, a juros de 6% ao ano, a grandes corporações do país. Um grande subsídio, um "bolsa-empresário" para beneficiar companhias como JBS, OI, Odebrecht além das empresas do empresário Eike Batista. Nos anos seguintes seriam emprestados cerca de R$1,8 trilhão em crédito.

A economia ajudava a aumentar a popularidade do presidente. O ciclo de commodities estava a todo vapor, fazendo com que o dólar chegasse a valer menos de R$ 1,80 – com isso, a classe média passou a ver o governo com bons olhos. A oposição, que já não era forte e atuante, batia em retirada, e ninguém mais lembrava do mensalão ou prestava atenção aos novos escândalos, como o da “compra” por valor vil das refinarias da Petrobrás ocupadas em 2006 manu militari pelo governo da Bolívia.   

O populismo, no entanto, ganhava impulso. Após a crise de 2008, causada pela quebra do banco Lehman Brothers, nos Estados Unidos, o mundo inteiro iniciou medidas de estímulo à economia. No Brasil, alongou-se o crédito para ampliar o consumo familiar enquanto o salário-mínimo continuava a ser aumentado artificialmente. O setor privado era estimulado pelas desonerações fiscais e, para combater o desemprego, criou-se o Minha Casa Minha Vida que, em conjunto com outras medidas de crédito imobiliário, contribuirá para uma extraordinária alta dos preços dos imóveis até 2014-2015.  

O governo, no entanto, seguia sem aprovar as reformas necessárias e, com a alta dos salários e impostos, a economia estava cada vez mais nas mãos do Estado. Um artigo publicado em 2007 dizia:

“Em 2002, a participação no Estado no setor petroquímico era de 46%; hoje está em 63%; nas termelétricas, pulou de 11% para 44%; na distribuição de combustíveis, de 24% para 32%. Os Correios vão assumir o Banco Postal e criar uma empresa aérea para transporte de carga doméstica e internacional. Em vez de privatizar o banco do Estado de Santa Catarina, ele será absorvido pelo Banco do Brasil. O governo que ter ainda o controle da produção, venda e exportação do etanol e criar uma superconcessionária de telefonia só de capital nacional em que tenha direito de voz, voto e veto.”[56]

Os gastos públicos não paravam de crescer, estimulando artificialmente a economia.[57] O PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, lançado em 2007, previa investimentos na ordem de 500 bilhões até o ano de 2010. Pouco a pouco, os petistas preparavam uma bomba fiscal e flertavam com a inflação. No entanto, encantados com a popularidade do presidente, já não escondiam mais o seu ideal revolucionário, como fizeram no III Congresso Nacional do PT:

“Para extinguir o capitalismo e iniciar a construção do socialismo, é necessário realizar uma mudança política radical. Os trabalhadores precisam transformar-se em classe hegemônica e dominante no poder de Estado. Não há qualquer exemplo histórico de uma classe que tenha transformado a sociedade sem colocar o poder político do Estado a seu serviço.”

Em outras palavras, cumpria colocar o Brasil a serviço do PT.

*

A popularidade de Lula em 2010 era recorde (chegou a superar os 80%), a economia chegou a crescer 7,5% no ano (em Pernambuco, 16%). O país parecia ter enlouquecido, e Lula conseguiu eleger facilmente a sua sucessora Dilma Rousseff, terminando o mandato com bravatas:

“Foi gostoso passar a Presidência da República e terminar o mandato vendo os Estados Unidos em crise, vendo a Europa em crise...” E concluiu dizendo que a solução para o problema econômico brasileiro não tinha vindo de nenhum doutor, nenhum americano, nenhum inglês, mas de um torneiro mecânico pernambucano.

O PT elegeu uma grande bancada no Congresso Nacional, sendo o partido mais votado.

 

Mulher Sapiens

Dilma Rousseff era uma figura relativamente desconhecida – conta-se que Lula a escolheu como sua candidata ao vê-la manejando um notebook durante uma reunião ministerial. Durante o governo militar, atuara em grupos de luta armada, sem grande destaque. Filiou-se ao PDT, mas sempre foi uma figura politicamente inexpressiva. Tentou cursar pós-graduação em economia, mas não teve êxito. Abriu, em Porto Alegre, uma loja de mercadorias populares, ditas de “R$1,99”, fracassando novamente. Dilma caminharia para a obscuridade, mas a popularidade do mandatário petista era tamanha, que ela se tornou presidente do Brasil. 

O novo governo intensificou aquilo que costumamos chamar de “guerra cultural”[58]. Para o Ministério das Mulheres foi nomeada a feminista Eleonora Menicucci – militante do Partido Operário Comunista, que declarou ter se decidido pelo aborto do seu segundo filho após ouvir a opinião da direção do partido[59].

Era o tempo do “kit gay”, da “Comissão Nacional da Verdade”, da introdução do sistema de cotas nas universidades e de livros que ensinavam que erros de português eram apenas “variações linguísticas”.

Na época, Guilherme Fiuza escrevia uma crônica divertida a esse respeito:

“Nós pega o peixe”, ensina o livro didático de língua portuguesa Por uma vida melhor, de Heloísa Ramos.

Mas desse jeito a vida não vai melhorar tão cedo. O governo popular precisa ser mais ousado. Por que não “nós pega o dinheiro”?

“Ou nós faz caixa dois, ou ainda “nós é companheiro, por isso nós ganha umas boquinha nos governo”.

“(...) O Brasil finalmente caminha para a felicidade plena, com essa formidável evolução cultural “progressista”. As variações linguísticas e as variações éticas vão formando esse novo país igualitário, que nutre orgulhosa simpatia pela ignorância.

O ministro da Educação, Fernando Haddad, faltou à audiência pública no Senado sobre os livros didáticos. Está coberto de razão.

Se ele se recusa a recolher um texto que ensina os estudantes brasileiros a falarem “os livro”, tem mais é que se recusar a cumprir “os compromisso”. 

O Supremo Tribunal Federal aproveitou a onda “progressista” e reconheceu a união de homossexuais (2011) e descriminalizou o aborto de anencéfalos (2012).

Os anos Dilma serão também um período de aumento da violência, não apenas da violência urbana – essa certamente aumentou ao longo do seu governo e em especial nos Estados da Federação governados pelo PT[60] – mas sobretudo da violência política: o MST ameaçou invadir o STF e, num enfrentamento com a PM, deixou dezenas de policiais feridos (ainda assim, a presidente aceitou recebê-los)[61]; era o tempo dos Black Blocks[62], dos chamados “rolezinhos” em shoppings e da morte do cinegrafista Santiago Andrade. O evento mais relevante nesse sentido foi as Jornadas de Junho, de 2013.

Com o novo governo, denúncias de corrupção voltaram a explodir. Foi assim que, já nos primeiros cem dias, dois ministros deixaram o governo após denúncias de corrupção. Em junho, caiu o ministro da Casa Civil, Antônio Palocci que, segundo denúncia dos jornais, aumentara em vinte vezes o patrimônio quando deputado federal! O Ministro da Justiça e o PGR saíram em defesa do ministro – outro escândalo!

Poucos meses depois, foi a vez do Ministro do Turismo cair após denúncia de corrupção. Ocorreria o mesmo em outubro, com o ministro de Esportes; em dezembro, caiu o Ministro do Trabalho; em janeiro e fevereiro de 2012, caíram os ministros da Integração Nacional e o das Cidades. A cada vez, a presidente Dilma saia em defesa dos ministros.

 A coisa era tão escandalosa que o jornalista Juan Arias do periódico El País chegou a publicar um artigo com o título “Por que os brasileiros não reagem à corrupção de seus políticos”?

*

Do ponto de vista econômico, os erros do período lulista seriam intensificados, levando o país a maior crise de sua história.

A nova presidente escolhera para o seu governo o slogan “País rico é país em pobreza”. Por trás dessa frase estava o nobre objetivo de erradicar a pobreza. O método para fazê-lo, pensava a “mãe do PAC”, era estimular o crescimento do país.

Ora, existiam diversas razões estruturais impedindo o crescimento do Brasil: nossa infraestrutura era defasada – o modal ferroviário, por exemplo, continuava com os mesmos trinta mil quilômetros do tempo do Império – os encargos eram excessivos, o ambiente regulatório hostil, as leis trabalhistas defasadas e faltava mão de obra capacitada. Last not least, nossa taxa de juros em dois dígitos era a maior do mundo.

Dilma não queria esperar para aprovar as reformas estruturantes que o seu antecessor havia deixado de lado desde a crise do mensalão, e sim induzir o crescimento da economia à força, de modo inteiramente artificial. Resolveu fazê-lo estimulando o consumo das famílias: baixou os impostos sobre geladeiras, máquinas de lavar, fogões, automóveis. O importante era fazer com que a população gastasse. Só que as famílias já estavam bastante endividadas após o surto de crédito de 2010 que ajudara a eleger a presidente. Ademais, uma medida assim não poderia durar muito!

A cada problema estrutural, Dilma contrapunha uma solução artificial visando o crescimento, contribuindo para minar, pouco a pouco, o “tripé econômico” (metas de inflação, câmbio flutuante e responsabilidade fiscal) que estabilizava a economia brasileira.

Assim, já no primeiro ano do governo, o Banco Central – que na época não era independente – decidiu abruptamente reduzir a taxa de juros em meio a uma escalada inflacionária. Para a presidente, admiradora de Cristina Kirchner, “um pouco mais de inflação não faz mal.” Dizia ela: “Não concordo com políticas de combate à inflação que olhem a questão da redução do crescimento econômico (...) Eu vou acabar com o crescimento do país?”. É verdade que, naquela época, o Brasil não foi o único país a abandonar a ortodoxia – era o tempo da “crise de débito europeia” – mas aqui já se começava a abandonar a meta de inflação.

A indústria brasileira, além de sofrer com os problemas estruturais brasileiros, e com a política do aumento real de salários anual do governo Lula, era pressionada pelo dólar baixo – fruto da política de juros zero do mundo desenvolvido. Era a “guerra cambial”, como chamou o ministro Guido Mantega. A resposta do governo foi, por um lado, a adoção de medidas protecionistas como regras de conteúdo nacional e impostos, por outro a intervenção no câmbio. Explica Mônica de Bolle: “Essas intervenções não eram baratas. Ao fazê-las, o Banco Central aumentava o estoque de ativos em dólares, cujo rendimento é muito baixo, elevando seu passivo em reais e tendo, eventualmente, de pagar juros atrelados à Selic.” – Pouco a pouco, o segundo pilar do tripé era desprezado.

Atribui-se à Dilma a frase “Gasto é Vida”, que teria dito em resposta aos que lhe propunham a criação de algo semelhante a um teto de gasto. De fato, a gastança desenfreada e a multiplicação de desonerações tornava cada vez mais difícil atingir a meta de superávit e, para cumpri-la em 2012, o governo teve de lançar mão de recursos inusitados como a antecipação de dividendos de estatais – surgia assim a “contabilidade criativa” que contribuiu para estraçalhar o terceiro pilar do tripé econômico, o da responsabilidade fiscal. Mais adiante, Arno Augustin, chefe do Tesouro Nacional, começaria a cogitar a possibilidade de se remover as desonerações da meta de superávit.

Em julho de 2012, o Ministro da Fazenda anunciou oficialmente o enterro do “tripé econômico”, dando início à “Nova Matriz Econômica” que, mais adiante, colocará o país em uma situação de pré-insolvência fiscal e na maior recessão de sua história, revertendo os benefícios do Plano Real e fazendo com que quase duas décadas de balança comercial positiva se transformasse em déficit.

Os problemas se avolumavam e o governo não perdia a oportunidade de adotar alguma medida equivocada. Os juros cobrados pelos bancos estavam altos? A Caixa Econômica e o Banco do Brasil diminuíam suas taxas artificialmente. As tarifas de energia elétrica eram elevadas? A MP 579 resolvia isso em uma canetada, obrigando as distribuidoras a baixar os preços – o que contribuiu para desorganizar o setor e desestimular os investimentos[63].

E se a súbita ingerência do governo na economia assustava os empresários, estes últimos – como maus alunos levados à sala do diretor – eram convocados ao Planalto:

“Dilma ficou bastante irritada ao constatar, logo depois do anúncio sobre a cesta básica, cujo objetivo também era colher capital político para a campanha que começava muito antes do prazo, que os preços dos produtos não caíram como imaginara. Malditos donos de supermercado! Foram todos chamados ao Planalto. Desde 2012, a presidente adquirira o hábito de chamar ao Planalto empresários, banqueiros, representantes do setor privado em geral toda vez que constatava que suas medidas não surtiam os efeitos que pensara inicialmente”[64].

Dilma viria ainda a desonerar produtos de limpeza e pedir à população que fiscalizasse os preços nos supermercados! Eram os “fiscais da Dilma”.

Esse autoritarismo se via em outras áreas também. A saúde estava ruim? O programa Mais Médicos obrigava todos os estudantes de medicina a trabalhar por dois anos no SUS. E se a economia continuava demonstrando dificuldades em crescer, a presidente criava mais estímulos, como foi o caso do Programa “Minha Casa Melhor”, subsidiando a compra de móveis e eletrodomésticos.

 

Tchau querida

Já se disse com acerto que as eleições de 2014 foram as mais disputadas da nossa história, com direito a várias “viradas” – Marina Silva, Aécio Neves e Dilma Rousseff, cada qual liderou as intenções de voto em algum momento da campanha.

Denúncias de corrupção voltavam a pairar sobre o governo – dessa vez relacionadas com a Petrobrás. Dilma evitava compromissos públicos, fugia de entrevistas e do contato com o público. Apresentava-se sempre em ambientes controlados, como sindicatos ou diante de movimentos simpáticos ao PT. No entanto, liberava rios de dinheiro e aprovava medidas populistas para viabilizar sua eleição.

Na antevéspera da votação, a revista Veja exibia matéria de capa com o título “Eles sabiam de tudo” entre os rostos de Dilma e Lula. A reportagem transcrevia um trecho do depoimento do doleiro Alberto Youssef à Polícia Federal:

Perguntado sobre o nível de comprometimento de autoridades no esquema de corrupção da Petrobrás, o doleiro foi taxativo

- O Planalto sabia de tudo!

- Mas quem no Planalto? perguntou o delegado.

- Lula e Dilma, respondeu o doleiro.

Como retaliação, um grupo de militantes controlado pelo PC do B atacou a sede da Editora Abril, que publicava a Revista.

*

Além dos problemas econômicos, o segundo governo de Dilma Rousseff seria marcado pela Operação Lava Jato, que revelou ao Brasil o esquema do “Petrolão”, envolvendo, além da estatal brasileira, as principais empreiteiras do país e o Partido dos Trabalhadores. Segundo a jornalista Roberta Paduan:

“A cada contrato assinado com a estatal, as fornecedoras separariam um percentual do valor recebido, geralmente de 3%, no caso da diretoria de Abastecimento. Essa era a fonte de dinheiro que abasteceria os partidos políticos e executivos da estatal, como [Roberto] Costa, que facilitariam a concretização do esquema. As empresas, organizadas em cartel, combinavam entre si quem ficaria com cada contrato a ser fechado com a estatal. Depois, o coordenador do grupo procurava os diretores da petroleira e passava a lista das empreiteiras que deveriam ser chamadas para o certame. Bastava que a ganhadora da vez embutisse o valor da propina em seu serviço. Depois, era só combinar com as demais empresas para que elas apresentassem valores mais altos ou não entrassem na licitação [...]

“E haveria muitos contratos, pois a Petrobras não era apenas a maior empresa do país, mas também a maior investidora. Entre 2003 e 2014, a média anual de investimentos efetivamente realizados pela companhia foi de R$ 76 bilhões (a preços atualizados para 31 de dezembro de 2015. Em seus depoimentos, Costa revelou que todos os contratos fechados pela estatal com as empresas do cartel geravam propinas. Do total de recursos desviados das obras de Abastecimento, o PT ficava com dois terços, enquanto ao PP cabia um terço.”[65]

Além dos valores desviados – que fariam com que o “Mensalão” parecesse coisa de amadores – a empresa por pouco não foi arruinada pela má gestão e interferência do governo.

Depois da descoberta do Pré-Sal, a Petrobrás chegou a superar em valor de mercado ícones norte-americanos como a Microsoft, o Wal-Mart ou a General Eletric. Poucos anos depois, no entanto, seria a detentora de uma das maiores dívidas corporativas do planeta. A razão é dupla: por um lado, o governo forçava a companhia a investir para reanimar a economia – um terço de todos os recursos previstos no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), eram da Petrobrás – por outro, a fim de conter a inflação, fazia com que a estatal vendesse combustível a preços defasados – essa política gerou perdas calculadas em R$ 159 bilhões à companhia entre 2010 e 2014.

Talvez o investimento que melhor represente o desastre da gestão petista foi o da refinaria de Pasadena. Em 2006, uma empresa belga pagou US42,5 milhões pela refinaria, então apelida de “ruivinha” pela quantidade de ferrugem nas suas instalações. No ano seguinte, a empresa belga vendeu 50% da refinaria para a Petrobrás pela cifra de... US$359 milhões! Não parou por aí, anos depois a estatal brasileira decidiu comprar ao restante da refinaria por mais US$820 milhões, investiu mais US$685 milhões em melhorias nas instalações... apenas para revendê-la cinco anos depois por US$ 180 milhões – um décimo dos valores dispendidos! No entanto, ninguém do Conselho de Administração – na época presidido pela Sra. Dilma Rousseff – foi responsabilizado.

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Mal ganhou as eleições, Dilma praticou o que viria a ser chamado de “estelionato eleitoral”: após ter declarado diversas vezes na campanha que a situação econômica era sólida e que não haveria necessidade de medidas impopulares, assim que foi reeleita aumentou a taxa de juros, reajustou as contas de consumo e cortou o FIES. A população, sentindo-se enganada e não suportando mais a crise econômica e moral, voltou a ocupar as ruas. Manifestações contrárias ao governo ocorreriam por todo o país até o fim do governo, reunindo, literalmente, milhões de manifestantes.

Em 2015 o tribunal de contas da União rejeitou as contas do governo Dilma. A situação fiscal brasileira se deteriorava rapidamente, com o país voltando a apresentar o primeiro déficit primário em quase duas décadas. No entanto, esse resultado ainda era artificial, pois a realidade era ainda muito maior: para melhorar os números, o governo atrasava pagamentos e tomava empréstimo dos bancos públicos, incorrendo em crime de responsabilidade fiscal. Eram as chamadas “pedaladas”, que seriam a base do pedido de impeachment[66].

Não se trata de mero detalhe técnico: a irresponsabilidade fiscal foi um elemento importante da tragédia econômica em que nós mergulhamos. Para acrescentar ofensa à injúria, o Brasil finalmente perdeu o grau de investimento.

“O ano de 2015 terminaria em tragédia. A economia encolheria impressionantes 3,8%[67], a inflação alcançaria 11%, o desemprego começaria a subir de forma assustadora – no início de 2016 seriam 11 milhões os desempregados. A tão alardeada inclusão social começaria a sumir; a classe média, vulnerável, a encolher; a Classe C tornava-se D ou E. A política, cada vez mais enrolada no escárnio revelado pela Lava-Jato acabaria por dominar todo o cenário econômico e a selar os destinos de Joaquim Levy e Dilma.”[68]

O Brasil estava quebrado e, desde então, foi preciso um grande esforço para que o país se reerguesse – demoraria nada menos do que sete anos para o Brasil voltar a ter taxa de desemprego de um digito e superávit nas contas públicas.

Dilma Rousseff não tinha mais condição de governar o país. Nos seus confusos pronunciamentos, mais e mais demostrava indícios de confusão mental, como na “saudação da mandioca”, ao falar em “estocar vento” ou no discurso sobre as “mulheres sapiens”.

 

Conclusão

O Partido dos Trabalhadores é, antes de tudo, um partido revolucionário com o projeto de perenizar-se no poder, conforme a declaração do VIII Encontro do Foro de São Paulo:

“O objetivo não é meramente chegar ao governo, senão chegar para transformar a sociedade. E como isso não é tarefa de uns poucos anos, senão um processo complexo e longo, será imprescindível (...) manter-se no governo e realizar as grandes mudanças revolucionárias...” (grifos nossos).

Sua meta é o socialismo, suas bandeiras são a subversão da lei natural, o seu legado é um rastro nunca visto de corrupção e miséria. O governo do PT representou um período de profunda decadência moral e, em conjunto com os demais membros do Foro de São Paulo, é como um câncer disseminando-se pela América Latina. É de se lamentar a situação de Cuba, Venezuela e, mais recentemente, da Argentina.

A teia de corrupção armada pelo governo, envolvendo os demais poderes, a imprensa, empresários, universidades e intelectuais, fazia crer que seria impossível a sua remoção do Planalto. No entanto, “Deus destruiu os tronos dos chefes soberbos”: em 2016, Dilma Rousseff sofreu o impeachment e, em 2018, o ex-presidente Lula foi preso por corrupção e lavagem de dinheiro. Uma grande e misteriosa graça para o nosso país!

 


[1] Na Carta de Princípios, publicada no ano anterior, lê-se “O PT afirma seu compromisso com a democracia plena, exercida diretamente pelas massas, pois não há socialismo sem democracia nem democracia sem socialismo. Um partido que almeja uma sociedade socialista e democrática tem de ser, ele próprio, democrático nas relações que se estabelecem em seu interior.”

[2] “Socialmente, a base mais importante do PT depois dos operários de empresas multinacionais e do sindicalismo de funcionários públicos foi, seguramente a Igreja Católica. Sua influência popular era extensa através das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) que se multiplicaram nos anos setenta...”, Lincoln Secco, “História do PT”, pág. 45.

[3] Ibid., p. 78

[4] A Igreja faz sérias restrições às greves. Segundo o ensinamento de Pio XI: “É proibida a greve; se as partes não podem chegar a um acordo, intervém a autoridade.” (Quadragésimo Anno). Pio XII ensinou: “No domínio econômico, há uma comunhão de atividade e interesses entre os donos das empresas e os trabalhadores. Menosprezar este laço recíproco, trabalhar para destruí-lo, é tão somente o fato de uma pretensão de despotismo cego e irracional.” (Pio XII – Aos patrões, 7 de maio de 1949, Atos Pontif. No. 26, p. 21). Esse ensinamento foi mantido mesmo no pós-Concílio. Ensinou o Papa João Paulo II: “O abuso da greve pode conduzir à paralisação da vida socioeconômica; ora, isto é contrário às exigências do bem comum da sociedade, o qual também corresponde à natureza, entendida retamente, do mesmo trabalho” (Laborem exercens)

Há em certos casos um direito à resistência, como ensinou Santo Tomás em De Regno e, com ele, o Magistério da Igreja: foi, aliás, o que ocorreu gloriosamente na Cristiada mexicana ou na Vendéia contra a Revolução. Leão XIII é muito claro: “A única razão que os homens têm para não obedecer é quando algo demandado por eles repugna abertamente ao direito natural ou ao direito divino”. Ademais, além de uma causa justa é preciso haver uma reta intenção, entendendo-se por essa última a conformidade a justos limites.

[5] Romeu Tuma Jr., Assassinato de Reputações, p. 45.

[6] Ibidem, p. 51

[7] Suplicy, no entanto, não venceu as eleições, ficando com pouco mais de 18% dos votos. A primeira eleição importante que o PT ganhou no país foi para a prefeitura de Fortaleza – acredito que ninguém se surpreenderá se souber que a prefeita foi acusada posteriormente de nepotismo e má gestão!

[8] Wendy Hunter e Timothy Power, citado em André Singer, O sentido do Lulismo.

[9] P. 170

[10] Em 1989, o PT recusara “o apoio desinteressado do PMDB no segundo turno de 1989, o qual poderia ter significado a vitória de Lula.”, André Singer, “O Sentido do Lulismo”.

[11] Lincoln Secco, p. 182

[12] Com efeito, a revisão tarifária, feita para favorecer o presidente esquerdista Fernando Lugo – então envolvido em denúncias de pedofilia – ocorreu 12 anos antes do prazo previsto e as tarifas se multiplicaram por três, apesar da oposição dos técnicos e do evidente prejuízo aos consumidores brasileiros, que passaram a pagar mais pela energia elétrica. (Ver em https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/contraponto/golpe-do-para...)

[13] No caso de cuba, aceitou-se charutos como lastro para o empréstimo.

[14] O Foro de São Paulo, Graça Salgueiro, p. 171.

[15] Tido como “o arquiteto do moderno PT e estrategista da vitória de Lula”, Dirceu presidiu o partido com mão de ferro entre os anos 1995 e 2002. Agradecido, Lula declarará que Dirceu teria o cargo que quisesse em seu governo.

[17] A de Santo André, B de São Bernardo do Campo, C de São Caetano do Sul.

[18] Segundo familiares do prefeito de Santo André, as campanhas beneficiadas foram a de Marta Suplicy em São Paulo, e a de Luís Inácio Lula da Silva à presidência da República.

[19] “Na administração de Palocci em Ribeirão Preto teve o escândalo do lixo. São caminhos comuns para desviar dinheiro: contrato de lixo, transporte público. Certas pessoas contam isso como se fosse um ato de “heroísmo” desviar dinheiro público para financiar partidos e atividades políticas. É um assalto! (...) No caso específico do lixo, o que acontecia era o seguinte: o pagamento de um contrato é feito com base em uma quantidade de lixo recolhida. E é muito difícil fiscalizar, saber quantas ruas foram de fato varridas, quanto lixo foi de fato recolhido, pois muito do que é atestado para pagamento, não é realizado.” (Romeu Tuma, Assassinato de reputações, pág. 214-215).

[20] “Após anos, soube pela imprensa que nada de projétil ou cápsulas foram apreendidos quando do sequestro. Fico imaginando, um prefeito, num carro potente, à prova de balas, ser parado sem qualquer dificuldade, sem nenhuma ameaça ou tiros e, pior, sem que seu acompanhante, ex-segurança, armado, esboçasse qualquer reação? Ele só pode ter sido entregue mesmo.” (Romeu Tuma, Assassinato de Reputações, pág. 197)

[21] A Lava Jato reabilitou essa tese, no entanto. Investigando o pecuarista José Carlos Bumlai, um dos melhores amigos do então presidente Lula, descobriam que ele havia tomado R$12 milhões do banco da família Schahin. Segundo a força-tarefa esses recursos foram repassados, com a participação de José Dirceu, “para não envolver pessoas relacionadas à cúpula do Partido dos Trabalhadores no esquema de corrupção da prefeitura de Santo André.” –  Quanto à família Schahin, ela seria recompensada no segundo mandato de Lula, ao assinar sem licitação um contrato no valor de US$1,6 bilhões com a Petrobrás para operar um navio-sonda.

[22] Celso Daniel, Silvio Navarro, pág. 192.

[25] José Serra era um militante do grupo da esquerda católica Ação Popular (AP), que propugnava um “socialismo humanista” e se inspirava em Emmanuel Mournier, Teilhard de Chardin e no dominicano Louis-Joseph Lebret. Apoiado pelo Partido Comunista Brasileiro, Serra elegeu-se presidente da UNE em 1963.

[26] Corrigido pelo IPCA até 01/2022.

[27] A “Carta” não é de todo boa, mas traz alguns pontos que acalmaram o mercado: “O povo brasileiro quer mudar para valer. Quer abrir o caminho (...) da reforma tributária, que desonere a produção. (...) da reforma previdenciária, da reforma trabalhista e de programas prioritários contra a fome e a insegurança pública.” E, mais adiante: “Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país.” E ainda: “Queremos equilíbrio fiscal... Vamos preservar o superávit primário...”.

[28] É verdade, no entanto, que outros nomes da tradição desenvolvimentista do partido também foram nomeados, como é o caso de Carlos Lessa – convidado para presidir o BNDES – e Guido Mantega, então Ministro do Planejamento, para não falar em Celso Amorim, José Dirceu, Tarso Genro e da própria Dilma Rousseff.

[29] Dentre outras coisas, a PEC 40 acabava com a aposentadoria integral dos futuros servidores públicos.

[30] Lula também favoreceu a abertura financeira, permitindo que até 30% das receitas com exportações fossem mantidas no exterior e criando incentivos para investidores estrangeiros adquirirem títulos da dívida pública.

[31] Uma “regra de bolso” diz que, a cada 10% de aumento de preço em uma cesta de commodities, o PIB brasileiro cresce 0,4%. Ora, durante o governo Lula, o preço das commodities cresceu ao longo de todos os anos, com a única exceção em 2009. A taxa média anual composta de crescimento dos preços de commodities no primeiro mandato de Lula foi de impressionantes 19% a.a.

[32] “O estouro da bolha nos índices de bolsas das empresas do ramo de tecnologia (Nasdaq), os escândalos contábeis envolvendo grandes empresas de distribuição de energia elétrica, e os atentados terroristas de setembro de 2001 levaram o Federal Reserve (FED) a reduzir as taxas de juros, iniciando um novo ciclo expansivo de liquidez internacional. A economia brasileira se beneficiou dos fluxos de capitais direcionados para as economias emergentes. (...) A redução do prêmio de risco foi crucial para que o Banco Central iniciasse a redução da taxa Selic a partir do segundo semestre de 2003” (https://sep.org.br/anais/2019/Sessoes-Ordinarias/Sessao1.Mesas1_10/Mesa4...

[33] “A indicação era precedida por um atestado ideológico petista. O “nada consta” e, especialmente, o “é um dos nossos” garantiam o emprego” (Marco Antônio Villa, “A Década Perdida”).

[34] Petrobrás, uma história de orgulho e vergonha, Roberta Paduan, pág. 171

[36] “O PT comprou o PTB por R$10 milhões. O PTB tinha 52 deputaqdos. O compromisso era entregar R$150 mil a cada um, perfazendo R$8 milhões. Os outros R$2 milhões teriam a direção de Salvador e Recife, onde o partido tinha fortes candidatos à prefeitura” (A Década Perdida, M.A. Villa). Ver também: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2012/08/03/pt-prometeu-r-20-milhoes-a-ptb-de-roberto-jefferson-em-troca-de-apoio-diz-gurgel.htm

[37] “De acordo com Luiz Eduardo Soares, ex-secretário do governo, Waldomiro Diniz arrecadaria, por mês, R$300 mil – e ainda haveria mais um assessor de Dirceu envolvido.” (A Década Perdida, M.A. Villa)

[38] Citado em “A Década Perdida”, Marco Antônio Villa.

[42] Palocci viria a ser posteriormente condenado na Lava Jato a 12 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro em um esquema envolvendo R$200 milhões do Grupo Odebrecht para o Partido dos Trabalhadores.

[43] Na Revista Veja (no. 1950), uma matéria afirma que a Caixa chegou a oferecer R$1 milhão para funcionários assumirem a culpa pela quebra do sigilo.

[46] Foram presos no Hotel Íbis, na cidade de São Paulo, o petista Valdebran Padilha da Silva e o advogado do PT Gedimar Passos com R$1,7 milhões de reais em dinheiro vivo, dinheiro destinado a compra de um dossiê contra o tucano José Serra, então candidato ao governo de São Paulo contra o petista Mercadante.

[47] O programa era parte de uma política de transferência de renda que também incluía: aumentos do salário mínimo acima da inflação e do crédito bancário para as pessoas físicas.

[48] A meta de inflação foi atingida em todos os anos do governo.

[49] V. André Singer, O sentido do Lulismo.

[51] Carlos Alberto Brilha Ustra, A Verdade Sufocada, pág. 567

[53] Ferido, um segurança teve afundamento do crânio e teve de passar dois dias na UTI.

[54] M.A. Villa, A Década Perdida

[55] Ibid.

[56] O País dos Petralhas, Reinaldo Azevedo.

[58] No ano anterior, para ser exato, já havia começado com a tentativa de proibição de um livro de Monteiro Lobato por alegação de “racismo”.

[59] Eleonora – (...) E um detalhe importante nessa trajetória é que, seis meses depois de essa minha filha ter nascido, eu fiquei grávida outra vez. Aí junto com a organização nós decidimos, a organização, nós, que eu deveria fazer aborto porque não era possível...” (Citado em O País dos Petralhas II, Reinaldo Azevedo).

[60] O Piauí foi governado pelo PT de 2003 a 2010, nesse período, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes aumentou 25,7%; na Bahia do petista Jacques Wagner, a taxa de homicídios aumentou 60,4%; no Pará, 57,2%!

[63] “Tratava-se de uma medida que alteraria por completo o funcionamento do sistema elétrico brasileiro, a ponto de concessionárias e distribuidoras referirem-se a ela como o ’11 de setembro do setor elétrico brasileiro’. Seu objetivo era reduzir as tarifas de energia, porém de forma unilateral, sem levar em conta os efeitos que isso poderia ter sobre a rentabilidade das empresas do setor, seus fluxos de caixa e sua capacidade de investir”. Mônica de Bolle, “Como matar a Borboleta azul”, p. 125

[64] Ibidem, p. 144.

[65] Petrobrás, uma história de orgulho e vergonha, Roberta Paduan, p. 42

[66] O arcabouço fiscal brasileiro consiste em três leis fundamentais: a Lei de responsabilidade fiscal, a LOA e a Lei de diretrizes orçamentárias (LDO). Ora, além das pedaladas – que viola a primeira lei – Dilma emitiu decretos de despesas adicionais, também conhecidos como créditos suplementares, violando a LOA. A duas violações embasaram o processo de impeachment.  

[67] Número próximo a queda de 4,1% em 2020, o ano da pandemia. Os anos de 2015 e 2016, representam a maior contração econômica brasileira da história.

[68] Monica de Bolle, “Para matar a borboleta azul”, p. 233

Reflexos de Fátima

Alexandre Bastos

 

“Senhor Padre, a Santíssima Virgem está muito triste, por ninguém fazer caso da Sua Mensagem, nem os bons nem os maus; os bons, porque continuam no seu caminho de bondade, mas sem fazer caso desta Mensagem; os maus, porque, não vendo que o castigo de Deus já paira sobre eles por causa dos seus pecados, continuam também no seu caminho de maldade, sem fazer caso desta Mensagem. Mas creia-me, senhor Padre, Deus vai castigar o mundo, e vai castigá-lo de uma maneira tremenda. O castigo do Céu está iminente.”

Entrevista com Pe. Fuentes (Dezembro de 1957)

 

 

PRIMEIRA PARTE: “A TREZE DE MAIO NA COVA DA IRIA...”

Quem parte de Lisboa rumo à Serra do Aire, encontra a pitoresca aldeia de Aljustrel, que há um século contava exatas vinte e seis casinhas. O seu relativo isolamento poupara a aldeia da laicização promovida pela recente República liberal. Por todo o país, padres eram presos, igrejas eram fechadas e religiosos deportados. “A perseguição não assolava Fátima tão fortemente, talvez porque a distância da capital nos fazia passar quase despercebidos”, escreveria Lúcia.

Apesar da austeridade em que viviam, que parece excessiva à moleza do nosso tempo, não eram exatamente pobres para os padrões da região: os pais da Lúcia tinham um patrimônio modesto, formado por terras e um pequeno rebanho. A proximidade das casas do vilarejo explica um pouco a amizade entre as famílias dos pastorinhos, estreitada ainda mais pelo parentesco: Ti Olímpia (1864-1956), mãe de Francisco e Jacinta, era a cunhada da mãe da Lúcia, até casar-se em segundas núpcias com Manuel Pedro Marto (1873-1957), conhecido como “o homem mais sério do lugar”. 

Apesar de muito sisudo, Ti Marto foi seguramente o mais simpático dos coadjuvantes da história de Fátima. Ex-soldado, de porte ereto e olhar arguto, acreditou desde a primeira hora na veracidade dos fatos: “mentir, ai Jesus, os cachopos foram sempre tão contrários a isto”. Nós o vemos tomar o partido dos pastorinhos em todas as oportunidades e desde o começo.

Ele sempre teve grande simpatia pela sobrinha. Ao reencontrá-la em Maio de 1946, quando a Irmã Lúcia retornou ao lugar para identificar os locais das aparições do Anjo, travou com ela este simpático diálogo:

– Que bela cachopa tu estás!... Tu sim, que valeu a pena vires a este mundo! Lembras-te da minha Jacinta e do meu Francisco?

– Então, Tio, não me hei-de lembrar?!

– Se fossem vivos seriam como tu!...

– Seriam como eu!... Seriam melhores do que eu! Nosso Senhor desta vez enganou-se: devia ter deixado cá um deles, e deixou-me a mim!... 1

Era o exato oposto da mãe da Lúcia, Ti Maria Rosa, uma camponesa severa e corpulenta que não concebia que a filha pudesse estar a dizer a verdade. Para obrigá-la a desmentir-se, como dizia, não hesitava injuriá-la, castigá-la, cobri-la de pancadas com o cabo da vassoura. Algumas irmãs da Lúcia, sentindo-se abrigadas pelas opiniões da mãe, uniam-se a ela, debochando e rindo.

Um diálogo travado então com um tipo que insultava a pastorinha é revelador dos seus sentimentos:

– Então, ti Maria Rosa, que me diz das visões da sua filha?

– Não sei – respondeu. – Parece-me que não passa duma intrujona que traz meio mundo enganado.

– Não diga isso muito alto; senão, alguém é capaz de matá-la. Parece que há por aí quem Ihe tem boa vontade.

– Ah! Não me importa, contanto que a obriguem a confessar a verdade! Eu é que hei-de dizer sempre a verdade, seja contra meus filhos, seja contra quem for, nem que seja contra mim 2

Nosso Senhor, contudo, dobraria essa resistência da mãe da Lúcia do modo mais admirável, pois, no grande Milagre do Sol, de 13 de outubro de 1917, aquela que mais duvidou, pôde assistir a tudo ajoelhada ao lado da filha. 

Não devemos fazer uma opinião demasiado severa a respeito dos seus parentes, que formavam uma família simples e dedicada ao trabalho. A mãe de Lúcia era uma mulher de extrema honestidade e piedade, “uma santa”, no dizer do pároco de Fátima. Mãe de sete filhos, unia aos seus muitos afazeres domésticos o encargo de enfermeira de Aljustrel, e não havia ninguém que caísse doente, sem que ela largasse tudo para acorrer ao enfermo. Mesmo quando veio a gripe espanhola, apesar do risco real de contágio, não mudou em nada sua rotina, cuidando dos doentes como se fossem seus filhos. “O importante”, dizia a boa senhora, “é fazer o bem, ajudar os outros para que Deus também nos ajude”. Gabava-se de nunca ter perdido uma Missa, mesmo quando amamentava, e de já ter caminhado certa vez dez quilômetros para assistir a um ofício. “A grande virtude da minha mãe”, dirá Lúcia, “repousa sobre a rocha da lei de Deus e de sua Igreja”. 

Quanto ao seu marido, Antônio dos Santos, pequeno agricultor e criador de ovelhas, conhecido pelo apelido de “abóbora”, nunca deixou que mendigo algum passasse por sua residência sem receber esmola, e tinha em casa uma porção de carne sempre pronta para o caso de algum necessitado aparecer. Muito amigo e próximo da filha, foi ele quem a ensinou a chamar a lua de “candeia de Nossa Senhora”, e as estrelas de “candeias dos anjos”. “Exemplos admiráveis de família cristã”, descreveria Lúcia. 

 

Os pastorinhos

Foi nesse ambiente de Fé que cresceram os pastorinhos de Fátima, Lúcia, Francisco e Jacinta, que tinham, no momento das aparições da Santíssima Virgem, respectivamente 10, 9 e 7 anos. Suas personalidades, tão distintas, seriam marcadas de forma definitiva pelos acontecimentos.

Francisco Marto foi o consolador de Nosso Senhor, tão ofendido pelos nossos pecados. Muito manso e introspectivo, era essencialmente um contemplativo. “O desejo do Céu e a contemplação das coisas divinas”, escreveu o Pe. João de Marchi, “enchiam a transbordar o coraçãozito do Francisco”, a ponto de torná-lo estranho às coisas do mundo. Quando alguma criança roubava nas brincadeiras, dizia com indiferença: “Pensas que ganhaste tu? Pois sim! A mim isso não me importa”. Repetia o mesmo ainda quando outras crianças más apanhavam suas coisas, embora fosse suficientemente robusto para retomá-las à força. “Parece-me que, se houvesse crescido, o seu principal defeito seria o de não-te-rales”, declararia mais tarde a sua prima.

Mas este desapego, diga-se, nunca se traduzia em respeito humano. Certa vez, ele se deparou com uma pobre mulher que fingia benzer terços e objetos religiosos, e que o convidou a ajudá-la. Francisco respondeu com severidade: – Eu não posso benzer e vossemecê também não! São só os Senhores Padres.

Outra vez, a sua mãe, a sra. Olímpia, disse-lhe para aproveitar a ausência da madrinha para levar as ovelhas a pastorear na sua propriedade. Francisco retrucou: – Ah, isso é que eu não faço! – ganhou logo uma bofetada pela resposta. O menino respondeu sem alterar a voz: – Então, é a minha mãe que me está a ensinar a roubar? – Quando Lúcia, depois das aparições, cedendo a rogos de familiares e vizinhos, aceitou participar da organização de uma festança, o menino interpelou-a: – E tu voltas a essas cozinhadas e brincadeiras?

A sua irmã, Jacinta Marto foi, segundo a sentença da Irmã Lúcia, “aquela a quem a Santíssima Virgem comunicou maior abundância de graça, conhecimento de Deus e da virtude”. Dizia-se que só se assemelhava ao Francisco pelos mesmos olhos castanho-escuros e os traços bem-feitos. Muito expansiva e sensível, a voluntariosa Jacinta era alegre como um passarinho. Sua espiritualidade era apostólica e, sobretudo após a visão do inferno, terá como missão a conversão dos pecadores: Da mihi animas, tolle coetera, poderia ser seu lema. Não media esforços para convertê-los, e jejuava e vigiava e fazia mortificações dignas de um cartuxo, a tal ponto que escreveu Garrigou-Lagrange: “Jacinta é uma das almas mais generosas do século XX”. Dentre os inúmeros sacrifícios que fez, impressiona a resignação e o abandono com que se submeteu a uma dolorosa cirurgia no final da sua vida, como veremos. 

A mãe da Lúcia era a catequista de Aljustrel, e antes da primeira comunhão da filha, ensinou-lhe o que pedir ao receber Jesus no coração: “Sobretudo, pede a Nosso Senhor que te faça uma santa”. “Essas palavras”, dirá mais tarde a Lúcia, “se me gravaram tão indeléveis no coração, que foram as primeiras que disse a Nosso Senhor logo que o recebi”. Santa Lúcia de Fátima, santa pela obediência heróica, pela obscuridade e paciência da sua vida escondida – foi ela que ouviu primeiro de Nossa Senhora que iria para o Céu. Sua missão foi resumida por Jacinta pouco antes desta última ir para o hospital: “Tu ficas cá para dizeres que Deus quer estabelecer no mundo a devoção do Imaculado Coração de Maria. (...) que o Coração de Jesus quer que, a seu lado, se venere o Coração Imaculado de Maria”. Este será sempre seu ideal, e as aparições posteriores em Pontevedra (1925-26) e Tuy (1929) têm implicações consideráveis para nossas vidas.

 

1915 - O prelúdio

Ao completar sete anos, a mãe de Lúcia decidiu que era chegado o momento de a menina começar a trabalhar e a incumbiu da guarda das ovelhas da família. Antônio dos Santos e as demais filhas protestaram, julgando-a muito pequena para a tarefa. Mas Maria Rosa não era do mesmo sentimento: “É como todas”, disse, pondo fim à questão.

A nova responsabilidade não desagradava a Lúcia, que se sentia “uma menina grande”. Foi assim que, no dia combinado, partiu junto com três moças da aldeia vizinha, Maria Rosa, Maria Justino e Teresa Matias, que se ofereceram para acompanhá-la. O destino escolhido para as pastagens era um vale mais ermo conhecido pelo nome de Cova da Iria, aonde chegavam atravessando hortas e pomares. Costumavam passar ali boa parte do dia, quando não rumavam mais para o sul, para brincar num lugar chamado Valinhos, onde eram abundantes o capim para as ovelhas e a sombra para descansarem. Desse lugar, podia-se subir ao Cabeço, uma elevação mais escarpada, cercada por tojos e rosmaninhos, de onde se avistava uma espécie de gruta a que chamavam Loca do Cabeço.

Certo dia, por volta de uma da tarde, começaram a rezar o terço e uma delas chamou a atenção das demais para uma figura suspensa no ar, sobre o arvoredo – era a primeira de três manifestações que veria naquele ano com aquelas moças. A figura parecia-lhes uma estátua de neve atravessada pelos raios do sol, mas nunca disse palavra. 

– Que é aquilo? – perguntaram-se as companheiras, meio assustadas.

– Não sei!

Lúcia guardou silêncio sobre o que vira, mas as moças trataram de espalhar o acontecido por toda a aldeia. A mãe de Lúcia, desgostosa, perguntou à filha:

– Ouve lá: dizem que viste para aí não sei o quê. O que é que tu viste?

– Não sei! – respondeu Lúcia.

E como não sabia explicar-se, acrescentou:

– Parecia uma pessoa embrulhada num lençol. Não se lhe conheciam olhos nem mãos.

– Tolices de crianças! – sentenciou Ti Maria Rosa. 

 

1916 - As aparições do anjo

Havia algo de misterioso na forte amizade que Jacinta sentia pela prima: “Não sei por quê, a Jacinta, com seu irmãozinho Francisco, tinham por mim uma predileção especial e buscavam-me, quase sempre, para brincar”, escreveu Lúcia. De modo que, quando souberam que a prima começaria a pastorear, e não poderia portanto tornar a brincar com eles, correram inconformados a pedir à mãe autorização para acompanhá-la, mas isso lhes foi negado. Nesse tempo, portanto, Lúcia só os encontrava à noitinha, quando retornava do pasto.

Contudo, aos dois pequenitos custava-lhes conformar-se com a ausência da sua antiga companheira. Por isso, renovavam continuamente as instâncias junto de sua mãe, para que pudessem guardar o seu rebanho. Ti Olímpia, talvez para ver-se livre de tanta insistência, acabou consentindo, e foi assim que, no ano de 1916, Lúcia já não pastoreava com as antigas companheiras, mas com os primos.

Jacinta por vezes metia-se no meio do rebanho:

– Jacinta – perguntava-lhe Lúcia – para que vais aí, no meio das ovelhas?

– Para fazer como Nosso Senhor, que, naquele santinho que me deram, também está assim, no meio de muitas e com uma ao colo.

Foi nesse ano de 1916, espaçado pelas estações do ano (primavera, verão e outono), que Lúcia tornou a ver o anjo, que dessa vez comunica-se com ela. É pouco o que diz, mas que profundidade!

A primeira aparição ocorreu na Loca do Cabeço. O anjo disse-lhes: “Não temais! Sou o Anjo da Paz. Orai comigo”. É digno de nota que o anjo tenha se apresentado assim, pois Portugal acabara de entrar oficialmente na Grande Guerra e o país, governado pelos maçons, vivia intensa perseguição religiosa.

O Anjo da Paz prostrou-se e ensinou aos pastorinhos uma oração que consiste, na primeira parte, num ato de fé, esperança e caridade (“Meu Deus! Eu creio, adoro, espero e amo-vos”), e, na segunda, num ato de reparação (“Peço-vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não vos amam”).

– Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas.

Dito isso, desapareceu, deixando os pastorinhos a tal ponto subjugados e imersos no sobrenatural, que mal conseguiam falar: “A presença de Deus sentia-se tão intensa e íntima que nem mesmo entre nós nos atrevíamos a falar” 3, escreveu Lúcia.

Note-se que o anjo refere-se aos “Corações de Jesus e Maria”. Será assim nas três aparições, mas sempre obedecendo a uma gradação: aqui alude aos “Corações de Jesus e Maria”; na segunda aparição falará dos “Corações Santíssimos de Jesus e Maria” e, na terceira, do “Santíssimo Coração [de Jesus] e do Coração Imaculado de Maria”. Essa gradação tem um valor pedagógico e aponta para aquilo que escreveu o Cardeal Cerejeira: “Fátima será para o culto do Coração Imaculado de Maria o que foi Paray-le-Monial para o culto do Coração de Jesus. Fátima, de certo modo, é a continuação, ou melhor, a conclusão de Paray-le-Monial: Fátima reúne estes dois Corações que Deus mesmo uniu na obra divina da Redenção.” 

A segunda aparição do anjo ocorreu no verão do mesmo ano. Por conta do calor, as crianças fizeram a sesta em casa e foram brincar no poço do Arneiro, uns 50 metros da casa da Lúcia. Foi aí que o anjo lhes apareceu:

– Que fazeis? Orai, orai muito. Os Corações Santíssimos de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente, ao Altíssimo, orações e sacrifícios.

– Como nos havemos de sacrificar? – perguntou Lúcia.

– De tudo o que puderdes, oferecei um sacrifício em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores. Atraí, assim, sobre a vossa Pátria, a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo, aceitai e suportai com submissão o sofrimento que o Senhor vos envia.

Nota-se outra gradação pedagógica na fala do anjo. Na primeira aparição, pediu um ato de reparação, nesta pede sacrifícios. 

A terceira aparição do anjo ocorreu no outono. Foi aqui que ele deu a comunhão aos pastorinhos. Antes, porém, ensinou aos pastorinhos uma oração de reparação a Nosso Senhor:

– Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.

O anjo deu a comunhão aos serranitos pronunciando as palavras:

– Tomai e bebei o Corpo e Sangue de Jesus Cristo, horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus.

Repetiu ainda mais uma vez a oração acima, e desapareceu.

Mais tarde, Lúcia seria interrogada pelo Bispo de Viseu, D. José Pedro da Silva:

– Quando a Irmã comungou da mão do Anjo, sentiu na boca o contacto físico das Sagradas Espécies, tal como hoje quando comunga?

– Sim.

– Lembra-se de ter engolido a Sagrada Hóstia?

– Sim.

Eis aqui uma primeira prova de que, em Fátima, não se tratava de umas “visões imaginativas”, como quiseram alguns. Há outras provas. Por exemplo, quando os pastorinhos viam Nossa Senhora, por vezes baixavam os olhos, o que logo chamou a atenção de alguns. Eles explicaram que a luz da Virgem, de tão forte, cegava.

 

1917 - As aparições de Nossa Senhora

Em Maio de 1917 começaram as aparições de Nossa Senhora. Assim como o anjo, ela era toda de luz, e brilhava mais do que o sol, “luz sobre luz”, esclareceria a Lúcia. A Virgem aparecia-lhes de pé sobre a copa duma carrasqueira, árvore de folhas brilhosas e cheias de espinhos, com cerca de um metro de altura. Os pastorinhos ficavam bem próximos, dentro da luz que dela emanava. Embora tudo nela exprimisse a paz celestial, o seu olhar era triste – ela não sorriu nenhuma vez em todas as aparições – embora tomado de solicitude maternal; sua voz era fina, doce e melodiosa. Quanto às crianças, havia uma curiosa gradação: Francisco apenas via; Jacinta, via e ouvia; Lúcia, via, ouvia e falava com a Virgem4. As aparições duravam alguns minutos, menos do que o tempo de se rezar um terço. 

As crianças estavam a brincar antes da primeira aparição; construíam uma casinha com pequenas pedras, quando, subitamente, relampeou e elas, temendo chuva, resolveram voltar para casa. Novo relampear e, um pouco mais adiante, deram com a Virgem.

– Não tenhais medo. Eu não vos faço mal.

– De onde é Vossemecê? – perguntou-lhe a Lúcia.

– Sou do Céu.

Aqui, observa um autor, nota-se a precisão e a beleza da resposta de Nossa Senhora. Ela não diz que “veio” do Céu, como talvez responderia algum outro santo. Ela diz, ao contrário, “Sou do Céu” – isso é mais exato, pois trata-se da Imaculada Conceição, onde o pecado jamais teve morada, nem por um instante sequer.

 – E que é que Vossemecê me quer?

Nossa Senhora então pede que voltem para lá no dia 13 durante seis meses seguidos, que no final dirá quem é e o que quer. E afirma que virá ainda uma sétima vez.

Segue o diálogo conhecido. Lúcia quer saber se vai para o Céu. “Sim, vais”. Resposta que lhe encheu de uma alegria indescritível. E a Jacinta? “Também”. O Francisco? “Também, mas tem que rezar muitos terços.”5

– A Maria das Neves já está no Céu?

– Sim, está.

– E a Amélia?

– Estará no purgatório até o fim do mundo.

Ao ler isso, nossa atenção se volta naturalmente para o triste fim da Amélia – moça que morrera poucos meses antes e que, segundo os pesquisadores, pecava contra a pureza. Mas é preciso reconhecer que a sorte de Maria das Neves é muito consoladora: Ela está no Céu! Não foi nenhuma grande santa, nenhuma grande penitente, apenas uma boa católica – e está no Céu.

– Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?

– Sim, queremos – respondeu a Lúcia em nome dos três.

Desde aquele momento, comenta o Pe. João de Marchi, os três pastorinhos começaram a ser heróis.

– Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.

Em seguida, Nossa Senhora comunicou-lhe uma misteriosa luz, que era Deus. Finalmente, despediu-se com as palavras:

 – Rezem o terço todos os dias 6, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra.

Nossa Senhora se foi. Voltou as costas para os pastorinhos e foi-se embora em direção ao nascente, desaparecendo pouco a pouco. 

Os serranitos ficaram novamente imersos no sobrenatural, porém, desta vez, não sentiam o aniquilamento físico que a aparição do anjo lhes causava. Ao contrário, sentiam-se exultantes, eufóricos, e não lhes foi difícil contar imediatamente ao Francisco o que ouviram. Este, cruzando as mãos sobre o peito, exclamou contente:

 – Ó minha Nossa Senhora, terços rezo todos quantos Vós quiserdes. – Deve ter cumprido muito bem a exigência que lhe fora feita, porque já na segunda aparição Nossa Senhora lhe promete levar logo para o Céu, como veremos.

Passaram assim o resto da tarde, saboreando tudo que lhes acontecera, recordando a beleza da branca Senhora que se dignara aparecer-lhes:

– Ai, que Senhora tão bonita! – exclamava a Jacinta, para daqui a pouco tornar a exclamar:

– Ai, que bonita Senhora! – suspirava de novo a Jacinta, o rosto iluminado de alegria.

– Estou mesmo a ver – dizia Lúcia – ainda vais a dizer a alguém.

– Não, digo, não –  respondia Jacinta –  está descansada.

Eles voltaram a Aljustrel, Jacinta sempre repetindo “Ai, tão bonita!”. Lúcia, antes de despedir-se da prima, ainda chamou-a uma vez: 

– Psiu!… mesmo com a mãe.

– Pois sim! – assegurava-a novamente a Jacinta.

O Sr. Marto e a Sra. Olímpia ainda não haviam voltado do mercado, aonde foram comprar  uma porca para a engorda. A Jacinta os esperava inquieta. Mal os viu, saiu correndo toda alvoroçada ao encontro deles para publicar a sua alegria: 

– Ó mãe, vi hoje Nossa Senhora na Cova da Iria.

Certa de que era alguma brincadeira de criança, a mãe fez pouco caso: “És bem doidinha!” – disse, e foi direto para os seus afazeres. Isso se passou à porta de casa. Eles entraram e a Jacinta lhe disse:

– Minha mãe, vou rezar o terço com o Francisco, que foi o que Nossa Senhora mandou que nós fizéssemos. – E lá se foram rezar.

Na hora do jantar, contudo, junto à lareira, na presença de toda a família e também do pai da Lúcia, que lá estava por acaso, a mãe perguntou à filha:

– Ó, Jacinta, conta lá como foi isso de Nossa Senhora na Cova da Iria.

Era tudo o que Jacinta queria ouvir! A menina começou a falar com entusiasmo:

– Era uma Senhora tão linda, tão bonita!… Tinha um vestido branco, e um cordão de ouro ao pescoço até ao peito… Ai, que bonito!… Tinha as mãos juntas, assim – e a pequena levantava-se do banquinho, juntava as mãos à altura do peito para imitar a visão.

– Entre os dedos tinha as contas. Ai, que lindo tercinho ela tinha… todo de ouro, brilhante, como as estrelas da noite, e um crucifixo que luzia… que luzia… Ai, que linda Senhora!… Falou muito com a Lúcia, mas nunca falou comigo, nem com o Francisco… Eu ouvia tudo o que elas diziam… Ó mãe, é preciso rezar o terço todos os dias… A Senhora disse isso à Lúcia. E disse também que nos levava os três para o Céu, a Lúcia, o Francisco e mais eu… E mais outras coisas disse que eu não sei mas que a Lúcia sabe… Quando Ela entrou pelo Céu dentro, parece que as portas se fecharam com tanta pressa que até os pés iam ficando de fora entalados… Era tão lindo o Céu… Havia lá tantas rosas albardeiras! 7

Os adultos perguntaram ao Francisco se isso tudo era verdade. Ele confirmou a história e a notícia rapidamente se espalhou. O calvário de Lúcia apenas começava.

 

A segunda aparição (13 de junho de 1917)

A segunda aparição ocorreu no dia 13 de junho, na mesma hora e local. O rumor fez com que umas cinqüenta pessoas estivessem presentes na Cova da Iria. Eles não viram nem ouviram Nossa Senhora, mas notaram uns fenômenos estranhos no momento da aparição: os galhos da azinheira se vergaram repentinamente sob o peso de algo que não percebiam. Alguns puderam ouvir algo que não distinguiam, mas que se assemelhava a um zumbido de abelha. Foi suficiente para que retornassem entusiasmados com o pouco que viram, e dessem publicidade ainda maior aos fatos.

Nesta ocasião, Nossa Senhora pediu aos pastorinhos que voltassem no mês seguinte, rezassem o terço e aprendessem a ler. Disse que os primos iriam logo para o Céu, mas não a Lúcia, que haveria de ficar aqui para propagar a devoção ao seu Imaculado Coração, e acrescentou: A quem a abraçar, prometo a salvação”. Palavras importantes que deveriam ficar gravadas em nossos corações.

– Fico cá sozinha? – perguntou Lúcia.

– Não, filha. E tu sofres muito? – respondeu Nossa Senhora, para concluir com palavras que, segundo o sentimento de Lúcia, não se destinavam apenas a ela. – Não desanimes. Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus 8

Finalmente, Nossa Senhora abriu as mãos, comunicando o reflexo de uma luz imensa na qual os pastorinhos puderam ver o Imaculado Coração de Maria cravejado de espinhos. Anos depois, interrogada por Dom José Pedro da Silva:

– Poderá, de algum modo, descrever a luz que Nossa Senhora lhe “meteu no peito”?

– Não posso: porque não conheço palavras que a descrevam.

Uma observação interessante foi feita pelo Pe. Chautard. A representação clássica do Coração doloroso de Maria apresenta-o traspassado por uma espada: é nova a imagem do seu coração coroado de espinhos. Indica talvez que a dor que Nossa Senhora mais ressente é a recusa do reinado social de Cristo, inagurado pelo Liberalismo, após a Revolução em França, e que culminaria naquele mesmo ano no Comunismo, com a Revolução bolchevique.

 

O segredo (13 de julho de 1917)

A terceira aparição é a mais importante, pois foi a do grande segredo. Costuma-se falar em Terceiro Segredo de Fátima, mas trata-se na verdade de um único segredo em três partes, comunicado de uma só vez neste dia. Segundo o Irmão François de Marie des Anges, as três partes do Segredo referem-se: a primeira às almas; a segunda às nações; a terceira, à Igreja.

As semanas que precederam o grande dia 13 de julho foram particularmente sofridas para Lúcia, pois sua mãe redobrara os esforços para fazer com que a filha “se desmentisse”, levando-a para tanto até o pároco de Fátima.

 – Não me rales mais! Agora diz ao Senhor Prior que mentiste, para que ele possa, no domingo, dizer na Igreja que foi mentira e assim acabar tudo. Isto tem lá jeito! Toda a gente a correr para a Cova de Iria, a rezar diante duma carrasqueira!

O padre recebeu-a com muita amabilidade e, após interrogar a menina, encerrou dizendo:

 – Não me parece uma revelação do Céu. Quando se dão estas coisas, por ordinário, Nosso Senhor manda essas almas a quem se comunica, dar conta do que se passa a seus confessores ou párocos e esta, ao contrário, retrai-se quanto pode. Isto também pode ser um engano do demônio. Vamos a ver.

Influenciada pela dupla autoridade do pároco e da mãe, e percebendo que sua vida virara ao avesso desde o início das aparições, Lúcia concluiu que talvez estivesse mesmo sendo vítima de um engano diabólico e decidiu não tornar à Cova da Iria. 

Contudo, no dia 13 de julho, ao aproximar-se a hora em que deveria partir, sentiu-se impelida por algo que não lhe era fácil resistir, e pôs-se a caminho, passando antes pela casa dos seus tios a ver se Francisco e Jacinta ainda estavam lá. Encontrou-os chorando.

– Então vocês não vão? – perguntou-lhes

– Sem ti não nos atrevemos a ir. Anda, vem.

Os três pastorinhos partiram contentes rumo à Cova da Iria, e corriam tanto, que a gente pedia que reduzissem o passo.

Apesar do sol escaldante, havia cerca de 4 mil pessoas ao redor da azinheira. Dessa feita Ti Marto resolveu ir e ficou rente à sua Jacinta. Na sua linguagem simples, narrou o que viu:

“A Lúcia, ajoelhada um pouco mais à frente, passava as contas e todos respondiam em voz alta. Acabado o terço, levanta-se tão rápida que aquilo não era força dela. Olha assim para o nascente e grita: ‘Fechem os chapéus, fechem os chapéus, que já aí vem Nossa Senhora’. Eu, por mais que olhasse, nada via. Começando então a afirmar-me, vi assim a modo uma nuvenzinha acinzentada que pairava sobre a azinheira. O sol enturviscou-se e começou a correr uma aragem tão fresquinha que consolava. Nem parecia estarmos no pino do Verão. O povo estava mudo que até metia impressão. E então comecei a ouvir um rumor, uma zoada, assim a modo como um moscardo dentro dum cântaro vazio. Mas de palavras, nada!” 9

Ao ver Nossa Senhora, Lúcia entrou em êxtase e emudeceu. Jacinta despertou-a: 

– Anda, fala-Lhe, que Nossa Senhora já está a falar.

– Vossemecê o que me quer? – perguntou Lúcia.

Os presentes não ouviam as respostas. As crianças, inteiramente alheias à multidão silenciosa que as rodeava, adquiriam nesses momentos um não-sei-quê de angelical, os rostos cresciam em alvura e ganhavam uma beleza que não é deste mundo. Crisparam-se subitamente os pastorinhos de horror, e puseram-se a gritar: 

– Ai, Nossa Senhora! Ai, Nossa Senhora!

Era o início do grande Segredo. A Virgem mostrou-lhes o inferno, e os três viram um mar de fogo onde flutuavam sem peso nem equilíbrio os condenados ao lado de demônios de formas horríveis e asquerosas, como animais desconhecidos. “Creio que teríamos morrido de susto e pavor”, escreveu a Lúcia. Os pastorinhos não viram o inferno como que ao longe, mas desde muito perto; podiam ouvir a grita e o desespero dos condenados. Muitos anos mais tarde, quando alguém perguntava a Irmã Lúcia sobre o que viu nesse dia, a sua fisionomia imediatamente exprimira tamanho horror, que não era preciso mais nada para que o interlocutor acreditasse na realidade da visão.

Também a Jacinta ficaria profundamente marcada com o que viu. Desde esse dia, costumava dizer:

 – O inferno!, o inferno!, que pena eu tenho das almas que vão para o inferno! E as pessoas lá vivas a arder como a lenha no fogo!

Outras vezes dizia:

 – Francisco, Francisco, vocês estão a rezar comigo? É preciso rezar muito, para livrar as almas do inferno. Vão para lá tantas!, tantas!

Ora, nesse mesmo dia, após a espantosa visão, Nossa Senhora falou aos pastorinhos:

– Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre10. Para a impedir virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz. Em Portugal conservar-se-á sempre o dogma da Fé, etc. 11

 

A quarta aparição  (19 de agosto de 1917)

A quarta aparição foi precedida de grandes provações: os três foram seqüestrados pelo Administrador de Ourém, Artur Oliveira Santos, um maçom apelidado de “latoeiro”, que os levou para a Administração e os lançou na prisão para forçá-los a revelar o Segredo. Os demais presos diziam-lhes:

– Mas vocês, digam ao Senhor Administrador lá esse segredo. Que Ihes importa que essa Senhora não queira?

– Isso não! – respondia a Jacinta com vivacidade. – Antes quero morrer.

Quando a Jacinta chorava na prisão com pena de não tornar a ver a mãe, Francisco a consolava:

– A mãe, se a não tornarmos a ver, paciência, oferecemos pela conversão dos pecadores. O pior é se Nossa Senhora não volta mais! Isso é o que mais me custa! Mas também o ofereço pelos pecadores.

O Administrador trouxe um médico para examiná-los, na esperança de obter um diagnóstico que os declarasse desequilibrados, mas em vão. No dia seguinte, conduziu-os novamente para sua própria casa, onde, numa tentativa final, ameaçou de morte um a um, dizendo que os havia de queimar em óleo fervente. Todos resistiram bravamente e ao latoeiro só restou soltá-los.

No dia 13 de agosto, estando os pastorinhos presos, dez a vinte mil pessoas foram à Cova da Iria e, na hora prevista, novos fenômenos ocorreram: deu-se uma queda impressionante da luminosidade e umas nuvenzinhas se formaram perto da Carrasqueira e se ergueram por uns 6 metros até se desfazerem. O povo percebeu que havia ali qualquer coisa de sobrenatural, e voltou-se furioso contra o Administrador que seqüestrara os pastorinhos, e mesmo contra o Sr. Prior, que julgavam ser seu cúmplice. Tudo terminaria mal, não fosse pela intervenção de Ti Marto: “Sosseguem, rapazes! Não façam mal a ninguém. Quem merece castigo recebe-lo-á. Tudo isso é por desígnio do Alto.” 

Para provar sua inocência, o pároco de Fátima escreveu um texto sobre os fatos e o fez publicar em diversos jornais de Lisboa, dando aos acontecimentos uma repercussão em escala nacional.

A quarta aparição da Virgem, contudo, ocorreu no dia 19 de agosto nos Valinhos. Depois da aparição, os pastorinhos colheram uns raminhos da azinheira que tocaram nos vestidos da nívea Senhora, e correram muito depressa a levá-los para casa. A Jacinta mesma os mostrou para a mãe da Lúcia:

– Olhe, tia, Nossa Senhora colocou um pé neste raminho e outro neste.

– Dá-me cá! Deixa ver!

A Jacinta deu-lho e Ti Maria Rosa levou-o ao nariz.

– Mas a que cheira isto? – e continuava a cheirar. – Não é perfume… não é incenso… sabonete… cheiro de rosa também não é, nem de nada que eu conheça… Mas é um cheiro bom!12

Depois desse dia, apesar de sempre continuar a duvidar das aparições, proibiu as filhas de debocharem da Lúcia. 

 

A quinta aparição

A mais breve das aparições ocorreu no dia 13 de setembro de 1917, quando estiveram presentes em torno de 25 mil pessoas. O Pe. Manuel Nunes Formigão partiu numa charrete com um grupo de peregrinos da Benedita, ansiosos para ver os fenômenos que se produziam todo dia 13 na Cova da Iria:

“À hora aprazada subimos para o carro e partimos. Durante a jornada comovi-me imenso e por mais duma vez me assomaram as lágrimas aos olhos ao constatar a Fé e a piedade ardente de tantos milhares de romeiros.

“Os caminhos e atalhos iam cheios de gente. Não havia carreiro, por mais pequeno que fosse, que não trouxesse pessoas à estrada. Era uma peregrinação verdadeiramente digna deste nome, cuja vista, só por si, fazia chorar de comoção. Nunca me fora dado presenciar em toda a minha vida uma tão grande e tão empolgante manifestação de Fé. Não se via nem se ouvia coisa alguma que traduzisse o mais imperceptível sentimento de leviandade ou mesmo um propósito de divertimento inocente.”

Passaram em Aljustrel tão logo chegaram para fotografar e conversar com os videntes:

“Foi essa a cena que mais me impressionou. Fiquei positivamente encantado. Aquela simplicidade angélica e aquela absoluta despreocupação, que elas manifestavam, não pode mentir. Não têm o acanhamento próprio das crianças rudes dos campos e das serras na presença de pessoas desconhecidas. Tanto se lhes dá falar com uma pessoa estranha como com muitas. As respostas que dão são sempre as mesmas. Parecem adultos na maneira de se exprimir.”

Outro sacerdote presente na hora da aparição de setembro foi o Cônego José Galamba de Oliveira, que chegou a Fátima acompanhado de um grupo de seminaristas:

“Não dei por nada junto do local mas, após a aparição, não posso indicar o momento preciso, olho para o Céu, talvez porque alguém a isso me convidasse, e vejo à distância aparente de um metro do Sol um como globo luminoso que em breve começou a descer em direção ao poente e, da linha do horizonte, voltou a subir de novo em direção ao Sol.

“Apoderou-se de nós uma justificada comoção. Rezávamos de rijo a pedir não sei o quê. Todos os presentes puderam ver o mesmo globo à exceção de um meu condiscípulo, hoje sacerdote também, natural de Torres Novas. Tomei-o pelo braço para lhe mostrar mas nessa altura perdi o dito globo de vista sem que ele lograsse notá-lo, o que o levou a dizer entre lágrimas: ‘Por que será que eu não vejo? Quem sabe se estou em pecado mortal?’

“Antes ou depois, mas decerto no mesmo dia, começamos eu e outros, não sei se todos os presentes, a ver uma queda como de pétalas de rosas ou flores de neve que vinham do alto e desapareciam um pouco acima das nossas cabeças, sem que as pudéssemos tocar.

“Eu não vi mais nada. Mas isso bastou para nos encher de consolação e partimos com a certeza íntima, uma como intuição, de que estava ali o dedo de Deus.”

Nossa Senhora pediu mais uma vez o terço diário e prometeu fazer um milagre, para que todos pudessem crer, no dia 13 de Outubro.

 

O grande milagre

“O clero do lugar e das redondezas mantém uma atitude de prudente reserva, ao menos na aparência, em relação aos fatos. É o costume da Igreja. Ela proclama abertamente que, em tais circunstâncias, é lícito duvidar. Mas, secretamente, rejubila-se com a grande afluência de peregrinos, que desde o mês de maio aumentou cada vez mais.

“Existem até pessoas que sonham com uma igreja grande e magnífica, sempre cheia; nas proximidades, hotéis, esplendidamente instalados com os mais requintados confortos modernos; lojas imensas, perfeitamente apetrechadas com mil e um objetos de piedade e lembranças de Nossa Senhora de Fátima; estradas de ferro que conduzam convenientemente os peregrinos até ao futuro santuário milagroso, em vez desses ônibus que são um desrespeito à massa dos fiéis e dos curiosos…” 13

Essas linhas odiosas, anteriores aos acontecimentos do 13 de outubro, foram escritas pelo jornalista Avelino de Almeida, um maçom de quatro costados, para o jornal “O Século”, principal diário português. 

Sem acreditar na realidade dos fenômenos, foi como jornalista que se uniu aos milhares de peregrinos que se dirigiam então a Fátima para presenciar um milagre com dia, local e hora marcados para acontecer. Calcula-se em torno de 70 mil o número dos que foram à Cova da Iria, sem se importar com a chuva torrencial que então caía. 

Em Aljustrel, a tensão chegou ao cúmulo. “Tinha-se espalhado o boato que as autoridades haviam decidido fazer explodir uma bomba junto de nós, no momento da aparição”, recorda a Ir. Lúcia. Sua família temia pelo que lhes poderia suceder se não houvesse o tal milagre, e assim, às vésperas do dia, Ti Maria Rosa procurou a filha: 

– Ó, Lúcia, é melhor irmo-nos confessar. Dizem que havemos de morrer amanhã na Cova da Iria… Se a Senhora não faz o milagre, o povo mata-nos. Portanto é melhor que nos confessemos, a fim de estarmos preparados para a morte.

A filha não demonstrava medo algum: 

– Se a mãe quer confessar-se, eu vou também; mas não por esse motivo. Não tenho medo de que nos matem. Estou certíssima que a Senhora há-de fazer amanhã tudo o que prometeu 14.

Um vizinho procurou o pai do Francisco e da Jacinta:

 – Ó, tio Marto, é melhor não ir... Porque poderia calhar ser maltratado. Os pequenos, não; são crianças e ninguém lhes vai fazer mal. Mas você é que está em risco de ser enxovalhado.

O caminho até a Cova da Iria estava apinhado de gente, e não foi sem dificuldade que os pequenos venceram a distância que separava a sua casa materna da Cova da Iria. Lúcia vinha de mãos dadas com o pai, mas a mãe também a acompanhava: “Se a minha filha vai morrer, quero morrer ao seu lado!”, declarou.

Entre os circunstantes, percebiam-se alguns homens armados com varapaus que pareciam inclinados a iniciar uma confusão na primeira oportunidade. Muitos havia que lá foram movidos tão-somente pela curiosidade, como era o caso do Sr. Alfredo da Silva Santos, que poucos dias antes ouvira de um amigo numa cafeteria em Lisboa: 

– Lá em casa, depois de amanhã, vai tudo a Fátima. Parece que tem havido por ali qualquer coisa de extraordinário e está tudo cheio de curiosidade de ver o que há ao certo. 

– Pois também vou! – respondeu. O relato do que viu, como veremos adiante, é espetacular. 

Apesar da chuva, toda a multidão rezava o terço, estando os serranitos ajoelhados diante da azinheira. Por volta das doze horas, houve um princípio de confusão: um padre aproximou-se impaciente dos pequenos e começou a empurrá-los, querendo enxotá-los para longe: “Fora com tudo isto! É tudo uma ilusão!” Lúcia, quase a chorar, recusou-se a sair: “Veio das outras vezes e agora também há de vir!”. Murmúrios e queixas se ouviam, quando finalmente a Lúcia gritou: “Já vi o relâmpago”.

Naquele momento exato, a chuva cessou. O rosto da pequena transformou-se, adquirindo uma beleza indizível. Ela sorria enquanto, de uma ponta a outra do vale, reinava o silêncio mais absoluto:

– Que é que Vossemecê me quer? 

– Quero dizer-te que façam aqui uma capela em Minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas.

– Eu tinha muitas coisas para Lhe pedir: se curava uns doentes e se convertia uns pecadores, etc.

– Uns, sim; outros, não. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados.

E tomando um aspecto mais triste, Nossa Senhora encerrou as aparições na Cova da Iria com esta palavra que é como que um resumo de toda a mensagem de Fátima:

– Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido.

Abrindo as mãos, fê-las refletir no sol. A Lúcia, levada por um movimento interior, gritou a todos que olhassem para o sol. Deu-se então o grande milagre:

“Não posso então explicar o que se deu”, narrou o Sr. Alfredo da Silva Santos, que veio de Lisboa. “O sol começou a bailar e a certa altura pareceu deslocar-se do firmamento e, em rodas de fogo, precipitar-se sobre nós. Minha mulher – estávamos casados havia pouco – desmaiou e eu não tive coragem para a amparar. Foi o meu cunhado João Vassalo que a susteve nos braços. Caí de joelhos esquecido de tudo. E quando me levantei não sei o que disse; acho que me pus a gritar como os outros.” 15

Aos olhos da multidão, o sol adquiriu movimentos nunca antes vistos. Primeiro, deixou-se ver por longos minutos sem queimar a vista. Em seguida, descreveu no firmamento uma tripla dança, rodopiando ao redor do próprio eixo como um pneu de bicicleta e bailando para lá e para cá. Finalmente, o momento mais assustador: o sol se desprendeu do céu ameaçando cair sobre o povo aterrorizado:

“A gente gritava: ‘Ai, Jesus, que aqui morremos todos!, Ai Jesus, que aqui morremos todos!…’

“Outros bradavam: ‘Nossa Senhora nos valha!’, e rezavam o ato de contrição.

“Houve até uma senhora que fez confissão geral e dizia em altas vozes: ‘Eu fiz isto, aquilo e aqueloutro!’”

O fenômeno foi testemunhado não apenas pelas multidões em Fátima, mas mesmo em outras aldeias, como São Pedro de Muel (40 km de distância), ou Alburitel (18 km). O Padre Inácio Lourenço relata o que viu nesse dia:

«Tinha apenas 9 anos e freqüentava a escola de primeiras letras da minha aldeia (18 ou 19 quilômetros da Fátima).

…Era meio-dia mais ou menos quando fomos sobressaltados pelos gritos e exclamações de alguns homens e mulheres que passavam na rua diante da nossa escola. A professora, muito boa e piedosa, mas facilmente impressionável e excessivamente tímida, foi a primeira a correr para a rua, sem poder impedir que todas as crianças corressem atrás dela.

Na rua o povo chorava e gritava, apontando para o sol, sem atender às perguntas que, aflitíssima, lhe fazia a nossa professora.

Era o grande Milagre, que se via distintissimamente do alto do monte, onde fica situada a minha terra: era o Milagre do sol com todos os seus fenômenos extraordinários.

Sinto-me incapaz de o descrever, como o vi e senti então. Eu olhava fixamente para o sol, e parecia-me pálido, de modo que não cegava os olhos; era como um globo de neve a rodar sobre si mesmo.

Depois, de repente, pareceu que baixava em ziguezague, ameaçando cair sobre a terra. Aterrado, corri a meter-me no meio da gente. Todos choravam, aguardando de um instante para o outro o fim do mundo.

Junto de nós estava um incrédulo, sem religião, que tinha passado a manhã a mofar dos simplórios que faziam toda aquela caminhada a Fátima para irem ver uma rapariga. Olhei para ele: estava como paralisado, assombrado, com os olhos fitos no sol. Depois vi-o tremer dos pés à cabeça e, levantando as mãos ao Céu, caiu de joelhos na lama, gritando: “Nossa Senhora! Nossa Senhora!”» 16

Quando o sol retornou ao seu lugar, e todos perceberam que não havia perigo, foi uma ação de graças coletiva: – Milagre! Milagre! Bendita seja Nossa Senhora!

Conversões espantosas ocorreram, como a do jovem rico que fora com a mãe. Ela, voltando para o carro onde o deixara, perguntou-lhe:

– Meu filho, ainda duvidas da existência de Deus? 

– Não, minha mãe – respondeu-lhe o jovem com os olhos marejados de lágrimas. – Não, agora é impossível.

Um sujeito de barbas brancas, de Santarém, apostrofava contra os ateus: – Há ou não há sobrenatural? E a Lúcia, que subira nos ombros de um jovem advogado que viera lhe ajudar a deixar a Cova da Iria, gritava para o povo, como um pregador numa cátedra: – Penitência! Penitência! Nossa Senhora quer que façam penitência. Se fizerem, a guerra acabará! – Sua atitude enérgica, seu entusiasmo de fogo, calavam fundo. Era como se ouvissem a voz inspirada de um profeta.

Ao fim, enquanto o povo deixava o local cantando o Salve Rainha, via-se aqui e ali, largados pelo caminho, alguns livre-pensadores, confusos, embrutecidos.

E o que escreveu o jornalista Avelino de Almeida, cujas linhas desrespeitosas lemos acima? Após o fenômeno, publicou em “O Século”:

“Aos olhos deslumbrados daquele povo, cuja atitude nos transporta aos tempos bíblicos e que, pálido de assombro, com a cabeça descoberta, encara o azul, o sol tremeu, o sol teve nunca vistos movimentos bruscos, fora de todas as leis cósmicas – o sol bailou, segundo a típica expressão dos camponeses.”

Não foi o único jornal a relatar os acontecimentos. Lemos em “O Dia” as seguintes linhas, publicadas em 19 de Outubro de 1917:

“…o sol prateado, envolvido na mesma leveza cinzenta de gaze, viu-se rodar e girar em volta do círculo das nuvens afastadas! Foi um grito só em todas as bocas; caíram de joelhos na terra encharcada os milhares de criaturas de Deus que a fé levantava até ao Céu!”

O célebre Dr. Almeida Garrett, catedrático e escritor, esteve presente no dia e deixou narrado o que viu:

“Maravilhoso é que, durante longo tempo, se pudesse fixar o astro, labareda de luz e brasa de calor, sem uma dor nos olhos, sem um deslumbramento na retina que cegasse. Este fenômeno, com duas breves interrupções, em que o sol bravio arremessou os seus raios mais coruscantes e refulgentes, e que obrigaram a desviar o olhar, devia ter durado cerca de dez minutos. Este disco tinha a vertigem do movimento. Não era a cintilação de um astro em plena vida. Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada.

“De repente ouve-se um clamor, como que um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e, sangüíneo, avança sobre a terra, ameaçando esmagar-nos com o peso da sua ígnea e ingente mó. São segundos de impressão terrífica.”

 

SEGUNDA PARTE: “Deus quer estabelecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração…”

Depois dos prodígios tão admiráveis do dia 13 de outubro, quando toda a gente vira o sol bailar, suporíamos que Fátima ganharia o mundo, que o clero haveria de aderir em peso e aprovaria apressado o culto de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Mas, não foi assim: o selo oficial de aprovação do clero a Fátima teria de esperar ainda treze anos. 

No ínterim, o governo maçônico fez de tudo para impedir aquilo que chamavam de “reação jesuíta” e denegrir o “fanatismo obscurantista”, que supunham tramado pelos curas para derrubar a República. O clero, por sua vez, não saía de sua prudente indiferença: o pároco de Fátima mesmo não cedia aos que pediam sua aprovação para a construção de uma capelinha no local das aparições, declarando não “querer se meter com estas coisas”; e quando a capelinha foi finalmente construída, por iniciativa exclusiva dos fiéis, nenhum padre quis benzê-la. Em Lisboa, num Congresso Católico, um conferencista referiu-se à Jacinta, que acabara de falecer, como uma vidente, o que suscitou uma gargalhada geral, a que se associou Sua Eminência o Cardeal Patriarca de Lisboa, Dom Antônio Mendes Belo. Mesmo a família de Lúcia, que num primeiro momento constatara aliviada o milagre do sol, retornava pouco a pouco à sua descrença e hostilidade inicial. “Ocorreu-me pensar que tudo estava terminado. Senti uma amargura profunda de ver que a Santíssima Virgem não seria jamais venerada lá, como havia pedido. Pensava freqüentemente nisso. Esta idéia não me saía do espírito e me afligia”, escreveria Lúcia.

Aparentemente, era preciso mais do que um baile solar para Fátima conquistar a Igreja. 

 

Morte do Francisco 

Nos fins de 1918, um surto de gripe pneumônica chegava a Portugal. Na Serra do Aire, os sinos da igreja repicavam diariamente dando notícia de mais algum vizinho que partia – eram tantos os óbitos que, em algumas aldeias portuguesas, o dobre de finados foi proibido para evitar o pânico.

Francisco adoeceu primeiro, e o seu estado era grave.

– Se Nossa Senhora te curar – dizia-lhe a madrinha – prometo oferecer-Lhe o teu peso em trigo.

– Não vale a pena. Nossa Senhora não lhe fará essa graça – respondeu o Francisco, com um sorriso angélico. E a todos que lhe asseveravam que haveria de melhorar, respondia com ar misterioso: não.

A doença progredia e o pequeno ardia em febre. O desfecho parecia iminente.

– Ô, pai, queria receber o Pai do Céu, antes de morrer.

– Já vou tratar disso – respondeu o bom homem, e partiu a toda pressa a chamar o padre.

O sacerdote ouviu-lhe a confissão. Quis saber se era verdade que tinha visto Nossa Senhora, e o pequeno respondeu que sim. No dia seguinte, Francisco fez sua primeira e última comunhão. 

– Olhe, mãe, que luz tão linda ali, junto da porta! – Foram estas as suas últimas palavras. Francisco sorriu, dum sorriso angélico. “O Céu aproximava-se”, e o menino voou “nos braços da Mãe celeste”17.

 

Morte da Jacinta

A morte da Jacinta, cercada de tantos pormenores tocantes, aponta para a mão da Virgem Maria a guiar os últimos dias do seu anjinho na terra. Ela contou à Lúcia que a Bela Senhora lhe tornara a aparecer para comunicar novas cruzes, disse que iria para dois hospitais e depois morreria sozinha: 

– Ô, minha Mãezinha do Céu, então eu hei de morrer sozinha? – lamentava-se Jacinta.

– Que te importa morrer sozinha, se Nossa Senhora te vem buscar? – animava-a Lúcia.

– É verdade, não me importa nada. Mas não sei como é: às vezes não me lembro que Ela me vai a buscar, só me lembro que morro sem tu estares ao pé de mim.

– Coragem, então, Jacinta. A ti já te falta pouco para ires para o Céu, mas a mim!

– Coitadinha! Não chores… Lá hei-de pedir muito e muito por ti… Tu ficas… mas é Nossa Senhora que quer assim. 

Abriu-se um abcesso no lado esquerdo, o pus escorria, o peito alagava-se e ela não conseguia dormir. Os tratamentos que Jacinta recebera ao longo de dois meses no hospital de Vila Nova de Ourém revelaram-se inúteis, e a morte era iminente. Os pais não cogitavam enviar a menina para a capital, não só porque lá os custos do tratamento seriam elevados demais, mas por acreditarem que era tudo inútil. Mas não foi isso o que a Providência estabelecera.

Por aquele tempo, apareceu em Aljustrel um senhor acompanhado da esposa; tratava-se de um médico de Lisboa. O casal vinha de adquirir um carro, e decidira que a primeira viagem com o veículo seria para a Cova da Iria. De passagem por Santarém, cumprimentaram o Rev. Dr. Formigão, que se dispôs a acompanhá-los, e foi assim que chegaram à casa da família Marto. Ao ver o triste estado em que a Jacinta se encontrava, o médico não sossegou até convencer a família a levá-la para a capital, onde seria tratada pelos melhores pediatras portugueses.

O pai foi comunicar sua decisão à filha, que respondeu:

— Ó, meu pai ! (...) Se eu for para Lisboa, o pai pode dizer-me adeus.

Ela não tardou a partir. Suas últimas palavras de despedida para Lúcia são comoventes:

— Nunca mais nos tornaremos a ver!… Reza muito por mim até que eu vá para o Céu; depois lá eu peço muito por ti. Não digas nunca o segredo a ninguém, ainda que te matem. Ama muito a Jesus e ao Imaculado Coração de Maria e faz muitos sacrifícios pelos pecadores.

Chegando a Lisboa, a pequena hospedou-se provisoriamente no Orfanato Nossa Senhora dos Milagres, situado na Rua da Estrela, enquanto aguardava o internamento no Hospital D. Estefânia. Sua mãe não pôde ficar com ela, pois seus outros filhos seguiam doentes, e Jacinta ficou sozinha.

Contudo, longe de ser um lugar lúgubre e triste, o Orfanato lhe dava grandes alegrias, pois a Santa Missa era celebrada diariamente numa capela contígua, o que permitia à serranita, levada ao colo pela Madre Superiora, comungar diariamente. Passava todo o tempo que lhe permitiam rezando e meditando na capelinha — rezava sentada, pois já não conseguia ajoelhar-se. 

No orfanato moravam vinte e cinco crianças, mantidas à custa de esmolas. Jacinta dava-se bem com todas, mas preferia uma em especial, que regulava em idade com ela. Costumava-lhe fazer breves pregações. A madre superiora, sempre atenta a tudo o que se passava, ouvia às ocultas a conversa da pastorinha:

— Não deves mentir, nem faltar nunca à verdade — dizia-lhe. — Não deves ser preguiçosa; deves ser muito obediente e suportar tudo por amor de Nosso Senhor com paciência, se queres ir para o Céu.

Madre Maria da Purificação Godinho era o nome da superiora — uma religiosa franciscana que se vestia com trajes seculares, pois as leis da República proibiam o hábito religioso. Todas as crianças, porém, costumavam chamá-la de madrinha, costume que Jacinta logo adotou. A sua nova madrinha narra admirada a sabedoria precoce da criança, como prova de que algo verdadeiramente sobrenatural tocava a pequenita. Eis algumas sentenças que a superiora compilou da boca da menina, e que denotam uma espiritualidade profunda:

Se os homens soubessem o que é a eternidade, faziam tudo para mudar de vida.

Os homens perdem-se, porque não pensam na morte de Nosso Senhor e não fazem penitência.

A confissão é um Sacramento de misericórdia. Por isso é preciso aproximarem-se do confessionário com confiança e alegria. Sem confissão não há salvação.

Os médicos não têm luz para curar os doentes, porque não têm amor a Deus.

Quem foi que te ensinou estas coisas? Perguntou-lhe a Madre Godinho.

— Foi Nossa Senhora: mas algumas penso-as eu. Gosto muito de pensar.

A serranita parecia possuir ainda o dom da profecia. Certa vez, sua mãe foi visitá-la no orfanato. Madre Godinho perguntou então a ti Olímpia:

— Gostava que tuas filhas Florinda e Teresa seguissem vida religiosa?

— Deus me livre! — respondeu a boa mulher.

Momentos depois a Jacinta, que não tinha ouvido a conversa da mãe com a Superiora, disse muito séria a esta última:

— Nossa Senhora gostava muito que minhas irmãs se fizessem freiras. Minha mãe não quer, mas por isso Nossa Senhora não tardará a levá-las para o Céu.

Assim foi: as duas meninas morreram pouco depois da Jacinta. Florinda tinha sete anos e Teresa, dezesseis.

Quando finalmente ingressou no hospital Dona Estefânia, de Lisboa, ninguém sabia que se tratava de uma das videntes de Fátima. As enfermeiras relataram que, à primeira vista, parecia uma criança igual às outras, mas não tardariam a perceber que havia qualquer coisa de muito especial naquela menina: “Esta menina era muito diferente das outras. Muito paciente… uma santinha! Jamais nós a ouvimos chorar, jamais nós a vimos aborrecer-se”. Jacinta foi operada no dia 10 de fevereiro, e o cirurgião, o Dr. Castro Freire, que também ignorava tratar-se da pastorinha de Fátima, testemunhou a paciência heróica da serranita, que não pôde ser cloroformizada por sua extrema fraqueza. Diz ele: “Para a abertura de uma fístula, a anestesia local está longe de suprimir todas as dores… as únicas palavras que a ouvi pronunciar durante a operação foram ‘Ai! Jesus! Ai! Meu Deus!’”. Na cirurgia, foram-lhe tiradas duas costelas do lado esquerdo, deixando uma abertura do tamanho de um punho.

Passada a operação, a Jacinta melhorava dia após dia. Contudo, no dia 20 de fevereiro, a menina pediu pelo Prior da freguesia, querendo confessar-se e receber os últimos sacramentos, dizendo que havia de morrer em breve. O padre, vendo-a tão bem, não entendeu o pedido e recusou. Jacinta ainda insistiu, mas sem sucesso. Horas mais tarde, morreu sozinha, como Nossa Senhora disse que morreria.

O cadáver da santinha foi levado provisoriamente para a Igreja dos Anjos, em Lisboa. Imediatamente, iniciou-se uma verdadeira romaria de fiéis que levavam terços e imagens para tocar nos vestidos da pastorinha. Passados três dias e meio do falecimento, a face da Jacinta conservava uma cor viva e corada, e o corpo exalava um perfume delicado, semelhante a um ramalhete de flores, coisa que não se poderia explicar naturalmente e que causou grande impressão na agência funerária. 

A família recebeu com grande emoção o comboio que chegava com o corpo da serranita. O pai da Jacinta narrou o episódio:

“Quando cheguei à Vila e vi aquele grupo de pessoas em volta do caixãozinho da minha filha… desatei a chorar como uma criança. Fiquei esgotado. Nunca chorei tanto!..

Nada te valeu! Nada te aproveitou!…

Foste aqui dois meses e depois foste para Lisboa…

E lá morreste sozinha!…”

Anos mais tarde, em 1935, o Sr. Bispo de Leiria decidiu trasladar os restos mortais da pequena vidente para um jazigo novo localizado no cemitério de Fátima. Antes da partida, porém, o caixão de chumbo foi aberto e, para surpresa de todos os presentes, o rosto da criança apresentava-se incorrupto.

 

Lúcia parte para as Dorotéias

Francisco e Jacinta já haviam morrido quando S.Ex.a Rev.ma D. José Alves Coreia da Silva tomou posse da Diocese de Leiria 18. Um dos primeiros cuidados do novo bispo foi tirar Lúcia do local das aparições e mandá-la para um colégio distante — idéia que o Pe. Formigão acalentava desde o término das aparições. 

— Tu não dizes nada a ninguém para onde vais.

— Sim, Senhor Bispo — respondeu a pequena.

— No Colégio para onde vais não dizes quem és.

— Sim, Senhor Bispo.

— Nem dizes mais nada sobre as Aparições de Fátima.

— Sim, Senhor Bispo.

Esse procedimento não era sem razão: a menina expunha-se à graves perigos ficando em Fátima, tanto de ordem espiritual como físicos. Por aquele tempo, o clero mantinha certa distância dos acontecimentos, e Lúcia viu-se colocada no centro das atenções, alvo de incessantes interrogatórios e da adulação dos peregrinos. Por outro lado, não se deve diminuir o risco real de vida: a perseguição religiosa era intensa e fazia pouco que Sidónio Pais fora assassinado em Lisboa. A própria Lúcia sofrera ameaça de morte no ano de 192019.

Era preciso partir. Assim, por determinação do bispo, a pequenita deixou sua aldeia natal de madrugada rumo à cidade do Porto, sem se despedir de ninguém, nem informar aonde ia. A instrução era não retornar a Fátima, nem se corresponder com ninguém da aldeia.

Para uma menina que pouco se afastara de casa, a partida era dilacerante:

“Para onde o Sr. Bispo me quer levar, não sei como será, é com a condição de não voltar mais a casa, por isso não voltarei mais a ver a família, nem estes lugares benditos! Cova da Iria, Loca do Cabeço, Valinhos, Poço do Arneiro, a Igreja onde fica o meu Jesus Escondido e onde tantas graças tenho recebido! O sorriso da minha primeira Comunhão! Vila Nova de Ourém, onde fica a Jacinta, o cemitério onde ficam os restos mortais de meu querido pai e Francisco! Nunca mais voltar a pisar esta terra abençoada, para ir, sabe Deus para onde! Sem nem sequer poder escrever diretamente a minha Mãe! Impossível, não vou!”

Mas a menina de quatorze anos obedeceu, e partiu levando sobre os ombros a dura missão de espalhar a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Antes de subir no trem, na estação de Leiria, despediu-se comovida da mãe, que, sempre torturada pela dúvida, disse-lhe: “Vai, filha, que, se é verdade que viste Nossa Senhora, ela te guardará, mas se mentiste, então vais ser uma desgraçada.”20

 

Como Fátima conquistou a Igreja

Por todo o período que se sucedeu à série de aparições da Cova da Iria, o governo republicano português protagonizou uma verdadeira ópera bufa buscando impedir a repercussão dos acontecimentos. Não que suas intenções não fossem realmente hostis, mas eram acometidos de uma singular incompetência sempre que se lançavam contra Fátima.

O governo ordenou que a azinheira onde a Virgem aparecera fosse arrancada e arrastada a reboque de um carro pelas ruas da cidade, contando que este ultraje afastaria definitivamente o povo da nova devoção — foram pela noite e arrancaram… a árvore errada! Em seguida, foi a vez de uns livre-pensadores fazerem um comício contra as “fantochadas de Fátima” na saída da Missa paroquial. Chegado o dia, não encontram ninguém por lá — o Pároco havia transferido a Missa daquele dia para a Capela de Nossa Senhora de Urtiga. Para impedir as procissões, o governo lançava mão da Guarda Municipal e fechava nos dias 13 o trânsito para Fátima21. — Tudo inútil! O povo desvia caminho e chegava ao local das aparições atravessando as fazendas. 

Os guardas mesmos irritavam-se com as ordens que recebiam. Um deles declarou: 

— Se o senhor soubesse o que me custa estar aqui!… Cumpro ordens e cumpro-as à risca, mas creia que, cá por dentro, tudo isto me revolta. Eu sou religioso, senhor, e não compreendo que utilidade haja em estar a proibir essa pobre gente de ir rezar lá abaixo!… Isto até dá vontade de chorar!… Tenho uma irmã que foi a Senhora de Fátima que lhe salvou a vida22.

Não é tudo: em 1922, na ânsia de pôr um fim ao culto de Fátima, os maçons puseram bombas na capelinha das aparições bem como na azinheira — novo fiasco! A dinamite posta na azinheira não explodiu, e as demais apenas derrubaram o telhado da minúscula capelinha. O bispo de Leiria proibiu que fosse restaurada, pois raciocinava como Gamaliel: “se esta idéia ou esta obra vem dos homens, ela mesma se desfará; mas, se vem de Deus, não a podereis desfazer” (At 5, 38-39)

Enquanto tudo isso ocorria, de um extremo a outro de Portugal, desde as margens do Douro aos campos férteis do Algarve, almas atribuladas continuavam a vir a Fátima em busca de socorro para as suas angústias, remédio para as suas dores, lenitivo para os seus males. No ano mesmo do malogrado atentado ao santuário, quarenta mil peregrinos estiveram em Fátima. Dois anos depois, em 1924, o número aumentara para duzentos mil peregrinos — três vezes mais do que no milagre do Sol. Parecia que cada vez vinha mais gente, todos movidos pelas numerosas graças e milagres alcançados pela intercessão de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

Maria da Capelinha narra que, por esse tempo, eram muitos os que vinham apenas para agradecer. Uma vez, viu um homem de Torres Novas chorando diante da azinheira. Havia muitos anos que tinha uma ferida na perna que deitava pus, e parecia não ter cura. Sua esposa veio de Fátima com um punhado de terra e, misturando a terra com água, pediu-lhe que a deixasse lavar a sua perna com aquela lama. O homem, que não tinha crença alguma, retrucou que sua perna precisava de asseio, não de sujeira. A mulher insistiu e terminou por dobrar a resistência do marido. Durante nove dias, lavou sua perna com aquela lama e, a cada dia, parecia-lhe que a ferida ficava menor. No nono dia estava perfeitamente curado. Converteu-se e partiu logo para a Cova da Iria — caminhando com os próprios pés, como fazia questão de dizer. Outra vez foi um tuberculoso de Tomar, também descrente. A mulher lhe fez beber um chá com a terra da Cova da Iria. Contrariado, ele bebeu, e curou-se inexplicavelmente. 

O Pe. Formigão, assíduo nas peregrinações populares, foi mais de uma vez testemunha de curas espantosas. Uma senhora de nome Helena Violeta, de Foz do Douro, paralítica das mãos e membros inferiores, foi a Fátima. Carregada então por religiosos servitas até a Imagem de Nossa Senhora, sentiu-se subitamente curada. Soltou-se dos braços dos religiosos e ajoelhou em fervorosa ação de graças à Virgem. Em seguida, tomada de alegria e exultação, pôs-se à correr em direção à capela das missas, para adorar e agradecer a sua cura a Jesus Sacramentado. 

“Não foi a Igreja que impôs Fátima à fé popular; foi Fátima que se impôs à Igreja”, declarou o Cardeal Cerejeira, patriarca de Lisboa. O que ocorreu após as aparições da Cova da Iria foi um milagre de Fé! Em face de tantas conversões, e do espetáculo edificante de tantos devotos que acorriam à Fátima, o clero começou a aderir. Já no ano de 1926, o Núncio Apostólico veio visitar o Mosteiro da Batalha e, por curiosidade, quis ir ao local das aparições. A impressão que lhe causou foi tamanha, que três meses depois, em 21 de Janeiro de 1927, Roma concedia a Fátima o privilégio da Missa Votiva. A partir daí, os bispos portugueses começaram, um a um, a visitar a Cova da Iria e, em 1930, finalmente, o bispo de Fátima-Leiria declarou como dignas de crédito as visões dos pastorinhos e permitiu oficialmente o culto de Nossa Senhora de Fátima.

 

A renovação de Portugal

Os acontecimentos da Cova da Iria ultrapassaram a piedade individual e adquiriram uma repercussão profunda no tecido social do país: “Quem tivesse fechado os olhos há vinte e cinco anos e os abrisse agora já não reconheceria Portugal, tão vasta foi a transformação operada pelo fator modesto e invisível da aparição da Santíssima Virgem em Fátima. De fato, Nossa Senhora quer salvar Portugal”, declararam os bispos portugueses numa Pastoral Coletiva.

O renascimento católico que se seguiu aos acontecimentos de 1917 foi espantoso. As vocações dispararam: quase quadruplicou o número de religiosos num período de dez anos, enquanto os seminários encheram-se. Na diocese de Portalegre, por exemplo, havia 18 seminaristas em 1917; anos depois, em 1933, o número aumentou para 201. Na pequena diocese de Leiria, o seminário estava fechado nos tempos das aparições: dez anos mais tarde fora reaberto e contavam-se 75 seminaristas. No bastião católico do norte, o que ocorreu foi uma explosão de vitalidade: só em Braga o número alcançou 478 seminaristas. Ao lado de tudo isso, a imprensa e o rádio católico desenvolviam-se, bem como os retiros e outras obras de apostolado. 

A romaria a Fátima era cada vez mais concorrida: em 1937, o número de peregrinos na primeira grande peregrinação nacional chegou a meio milhão. O escritor William Thomas Walsh narrou o que viu:

“Entre as estrofes, elevavam-se súplicas individuais e esperanças incontidas, às vezes entremeadas de soluços comovedores: ‘Senhor, nós Vos adoramos!’, ‘Senhos, nós Vos amamos!’, ‘Jesus, tende piedade de nós!’, ‘Senhor, se quiseres, podes curar-me!’ Sim, essas vozes pareciam pertencer a outros tempos mais sinceros e mais ardorosos que o nosso. Pareciam vir das planícies de Esdrelon, das muralhas de Jericó e de Constantinopla, dos campos de Túnis, como pulsações da fé e da dignidade humana, irrompendo através da mediocridade e do nivelamento rasteiro da idade da máquina.” 23

Essa renovação espiritual repercutiu politicamente com a subida pacífica ao poder de um grande líder, António de Oliveira Salazar, que conduziu um programa verdadeiramente católico e contra-revolucionário. Adversário encarniçado do socialismo e do liberalismo, Salazar combatia tudo o que militava contra a família, e contribuiu para fazer do seu país, tido como o mais instável e caótico da Europa, no mais estável de todos — note-se que, entre 1910 e 1926, quarenta e cinco governos haviam se alternado, e o país via-se afundado em dívidas com uma inflação descontrolada. Com Salazar, Portugal viveu em paz, e foi preservado tanto do contágio comunista, que levou a vizinha Espanha a uma terrível guerra civil, como dos horrores da Segunda Guerra Mundial 24. Os estrangeiros que chegavam da Itália, Inglaterra ou França no início dos anos 40, não acreditavam no que viam: enquanto o continente vivia o horror, e boa parte da população viril era ceifada, nas cidades portuguesas a rotina seguia tão inalterada como antes. "O que teve lugar em Portugal proclama o milagre”, declarou o Cardeal Cerejeira, “e prefigura o que o Imaculado Coração de Maria preparou para o mundo”. 

 

Vilar, Porto (1921-1925)

Num subúrbio do Porto, ao lado de uma fábrica, ficava o Instituto Arcediago van Zeller, colégio destinado à educação de moças e administrado pelas senhoras dorotéias. A Ordem de Santa Dorotéia fora fundada em 1834 por Santa Paula Frassinetti (1809-1882) e aprovada por Pio IX, em 1863. Contando com doze estabelecimentos em Portugal, a ordem estava solidamente estabelecida quando sobreveio a revolução de 1910. A partir de então, perseguidas e maltratadas pelos republicanos, as irmãs foram impedidas de usar os hábitos religiosos e viram a maior parte dos seus estabelecimentos ser fechada pelo novo governo. 

Um dos poucos remanescentes era o Colégio do Vilar, cuja superiora chamava-se Madre Maria das Dores Magalhães. Pouco simpática às aparições de Fátima — que ainda não haviam sido aprovadas por aquele tempo — chegou a pedir a Dom José que a dispensasse da obrigação de receber a vidente, pois temia que contaminasse as outras com os modos rudes da gente do campo. “Sim, é uma simples — respondeu-lhe o bispo — mas não creio que vá achá-la simplória. E desejo que a pequena fique aí por uns tempos.”

A primeira impressão que Lúcia causou não foi exatamente favorável, e a madre superiora julgou que seus temores se mostrariam justificados. O confessor do Instituto, Pe. Manuel Pereira Lopes, mudou o nome da menina e tratou de lhe passar severas recomendações: 

— A menina agora muda de nome. A Senhora Diretora tem gosto que fique com o seu, por isso fica a chamar-se Maria das Dores. Se lhe perguntarem de que terra é, diz apenas que é de perto de Lisboa e nada mais. Não fale de Fátima, nem da sua família, nada.

Apesar da tristeza inicial, em que tudo parecia “uma sepultura em vida”, como ela mesma escreveu, a nova vida não iria desagradá-la de todo, sobretudo por ter-se livrado do interrogatório incessante dos curiosos. A rotina era rígida e bem diferente da que levava em Aljustrel: 5:30 despertar; 6:00 meditação; 6:30 missa e comunhão; 7:30 arrumação do dormitório; 7:45 café da manhã; 8:00 aulas e trabalho; 12:00 visita ao Santíssimo Sacramento; 12:15 almoço; 12:45 recreação; 13:30 aulas e trabalho; 16:30 lanche e recreação; 17:00 estudo e trabalho; 19:00 terço; 19:30 jantar; 20:00 recreação; 20:30 oração da noite e dormir. A Lúcia dormia num dormitório coletivo, mas isso não lhe impediria de manter suas práticas de mortificação, como a corda que trazia à cinta desde os tempos de pastorinha. 

Pouco a pouco, a menina perdia seus modos rudes, tornava-se uma boa aluna e conquistava a todos. Eis como a madre superiora a descreveu numa carta ao bispo de Leiria:

“Ao que pese minha total falta de crédito às aparições, observei que não era uma moça comum. Muitas vezes, as irmãs vinham dizer-me que Lúcia tinha qualquer coisa de extraordinário com Nossa Senhora, pois, quando falava dela, era sempre diferente das outras e percebia-se que possuía um amor extraordinário pela Santíssima Virgem. Suas companheiras do Asilo costumavam dizer que não havia quem a igualasse nas bonitas histórias que costumava contar durante o recreio”.

Sim, como em Aljustrel, onde Ti Maria Rosa exclamava “Não sei que atrativo possas ter; as crianças correm para junto de ti como se fossem para uma festa!” 25, Lúcia atraía para junto de si as moças do Asilo do Vilar que se encantavam com sua personalidade e suas histórias. Contudo, jamais falava sobre os acontecimentos que vivera em Fátima. Quanto a isso, nem uma palavra. Sua obediência era heróica: apesar de ter visto Deus Nosso Senhor e a Santíssima Virgem com os próprios olhos, e de tudo isto explodir em seu coração, a moça jamais tocou no assunto para as demais moças do Instituto. Mesmo com a mãe, que a visitou duas vezes, nunca falou a respeito. 

“Quanto à obediência”, continua a Madre superiora, “ela sempre se distinguia, pois fazia tudo muito bem, sem torcer o nariz, sempre de bom coração. Várias vezes, suas companheiras me disseram que Lúcia costumava escolher para si o trabalho menos agradável, deixando os melhores às demais. E fazia tudo com uma simplicidade encantadora.”

O silêncio a respeito das aparições era tão absoluto, que Madre Magalhães veio a supor que a menina havia se esquecido de todo do ocorrido. Para investigar, perguntou-lhe: 

— Lembras do que se passou em Fátima, entre Nossa Senhora e tu? 

A menina baixou os olhos e, ruborizada, respondeu simplesmente: 

— Se me lembro? Penso nisso a todo tempo. 

 

Pontevedra (10/1925-7/1926) - A devoção reparadora dos cinco primeiro sábados

O seu fervor deixava entrever uma vocação. “Suas companheiras dizem amiúde que não há menina mais piedosa e que a capela era onde mais se regozijava, tamanha era sua piedade. Lá, nunca a víamos sentada, mas longe do assento, com as mãos postas sobre o banco. Esta era a sua atitude, que encantava”, escreveu a Madre superiora. E, segundo uma companheira de colégio: “Observá-la na capela, era observar um anjo!“.

Quando a Lúcia procurou-a querendo entrar em religião, a madre pediu que esperasse, e passou-se um ano. Completos dezoito anos, porém, sua superiora interrogou-a se ainda pensava tornar-se religiosa. “Eu desejo, eu quero!”, explodiu a Lúcia. A menina queria entrar no Carmelo de Lisieux, como sua querida Santa Teresinha, mas a madre dissuadiu-a. “Não tens bastante saúde para tais austeridades, filha”. Na sua humildade, Lúcia aceitou esse conselho como se fosse a palavra mesma de Deus e, depois de refletir um pouco, pediu que fosse aceita na própria instituição das Irmãs de Santa Dorotéia, o que alegrou bastante a madre superiora e o bispo de Leiria, Dom José. 

Assim, tomou o trem e cruzou a fronteira de Espanha em outubro de 1925, para o Convento de Tuy, antiga cidade da Galícia, onde as dorotéias portuguesas exiladas estabeleceram seu noviciado poucos anos antes. Tão logo chegou, a Madre provincial conduziu-a à Capela e lhe pediu consagrar-se inteiramente a Nosso Senhor: “Meu Jesus! Eu me abandono toda a Vós. Minha Mãe do Céu, cuidai de mim”. O período de postulado, contudo, Lúcia o faria numa outra casa das dorotéias, na cidade de Pontevedra, distante três horas de carro, para onde seguiu dois dias depois.

A velha casa de Pontevedra não era a mais apropriada às exigências da sua vocação, pois, por também servir de internato a barulhentas crianças, não encontrava nela o recolhimento que desejava. Se isso a consternava tremendamente, era ocasião de oferecer novos e dolorosos sacrifícios a Nosso Senhor. Por aquele tempo, escreveu então ao seu confessor, o Pe. Pereira Lopes: “Estou feliz e não quero outra coisa senão tonar-me uma santa para maior honra e glória de Deus, para obter a salvação dos pobres pecadores e em reparação dos meus pecados”. 

A correspondência entre a superiora do instituto e o bispo de Leiria, Dom José, mostra que a postulante já tinha fama de santidade: 

“Quanto a mim, considero uma graça tê-la aqui por estes cinco meses de preparação, e conto mesmo que, por meio dela, Nossa Senhora concederá bênçãos especiais para esta casa. E para ser bem franca com Vossa Excelência, devo confessar que eu mesma já recebi grandes graças! 

“(...) Rogai a Nosso Senhor para que eu aprenda com ela a ser boa, para que ao menos na minha velhice eu seja aquilo que já deveria ser, depois de tanto tempo de vida religiosa. Por vezes, envergonho-me ao lado dela.”26

Foi na noite de 10 de dezembro de 1925 que a Santíssima Virgem dignou-se visitar mais uma vez a sua protegida, imersa então num mar de angústias. O quarto alumiou-se de repente e Lúcia viu-se diante da Virgem. Esta pousou docemente sua mão maternal no seu ombro, como que para encorajá-la, ao passo que mostrava o coração cravejado de espinhos na outra mão. O Menino Jesus, que a acompanhava, disse-lhe:

– Tem pena do Coração de tua SS. Mãe que está coberto de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos Lhe cravam sem haver quem faça um acto de reparação para os tirar.

Eis aqui, nas palavras de Nosso Senhor, o fim desta devoção: reparar pelos pecados e consolar Nossa Senhora. A comunhão deve ser feita com o propósito de desagravar o Imaculado Coração de Maria27. Sem esta intenção, insiste o irmão Marie des Anges, todo o resto perde valor.

A Santíssima Virgem, por sua vez, falou:

– Olha, minha filha, o Meu Coração cercado de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos Me cravam, com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de Me consolar e diz que todos aqueles que durante 5 meses, ao 1.° sábado, se confessarem, recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um Terço e Me fizerem 15 minutos de companhia, meditando nos 15 mistérios do Rosário, com o fim de Me desagravar, Eu prometo assistir-lhes, na hora da morte, com todas as graças necessárias para a salvação dessas almas.

Refletindo sobre o que viu, escreveu a Lúcia:

“Depois desta graça, como poderia me subtrair do mais pequeno sacrifício que Deus quisesse me pedir? Para consolar o Coração da minha querida Mãe do Céu, ficava contente em beber até a última gota do cálice mais amargo.

“Quereria sofrer todos os martírios para reparar o Coração Imaculado de Maria, minha querida Mãe, e um por um tirar-lhe todos os espinhos que o dilaceram, mas compreendi que estes espinhos são o símbolo dos numerosos pecados que vão contra o Filho, trespassando o Coração da Mãe. Sim, porque por eles, muitos outros filhos se perdem eternamente.” 28

É espantoso pensar o quanto nos é prometido com a devoção reparadora dos cinco primeiros sábados. A parte que nos cabe, porém, não poderia ser mais modesta – dir-se-ia que em tempos tão ingratos, o Céu reduziu suas exigências ao mínimo. Cinco sábados, poucas horas se somarmos tudo, em troca da promessa sem igual de não sermos reprovados. Uma devoção para tempos de apostasia. 

No entanto, é preciso dizer que costumamos considerar a devoção reparadora desde a ótica dos benefícios prometidos, e esquecemos que se trata de um pedido de Nossa Senhora: “virei pedir a consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados”, foram as suas palavras. Quem sabe não foi pela negligência em se atender a este pedido que a Rússia jamais foi consagrada ao Imaculado Coração? Nesse sentido, o Cardeal Alfredo Schuster comparava essa devoção a uma grande cruzada, e dizia que o que foi Lepanto contra o crescente deveria ser Fátima contra a foice e o martelo.

Apesar de não ter sido expressamente dito nas comunicações de Nossa Senhora, está no espírito de Fátima que esta devoção seja utilizada em prol da salvação dos nossos amigos e familiares – assim compreendia a Irmã Lúcia, que fazia todo mês a comunhão reparadora. Ela escreveu a propósito desta devoção: “Os Santíssimos Corações de Jesus e Maria amam e desejam este culto, porque se servem dele para atrair as almas, e é este todo o seu desejo: Salvar almas, muitas almas, todas as almas.”

Infelizmente, a Devoção reparadora dos primeiros sábados jamais recebeu um ato oficial de aprovação ou incentivo, quer da hierarquia portuguesa 29, quer de Roma. Há pior: a própria vidente viria a ser proibida de falar a respeito durante os pontificados de João XXIII e de Paulo VI 30

 

Tuy – A consagração da Rússia

Em 1926, a Irmã Maria das Dores foi abruptamente transferida para o noviciado de Tuy, após externar mais uma vez o desejo de fazer-se carmelita. Não era sem rigores a vida das irmãs – todas lançavam mão regularmente de uma dura rotina de cilícios e flagelos 31 – mas isso não era suficiente para a vidente de Fátima, que aspirava pelo perfeito recolhimento e obscuridade da vida de clausura. Dom José, bispo de Leiria, e a superiora das dorotéias não concordaram com seus anseios e a religiosa aquiesceu, pensando “Vontade de Deus, tu és o meu Paraíso!”

O Pe. Formigão, que a visitou por esse tempo, escreveu numa carta a seu respeito:

“A pequena continua a mesma, como tu a conheceste. Ela tem uma simplicidade e uma humildade admirável. Que piedade profunda, tão admirável e tão alegre! Que espírito extraordinário de obediência! Que amor do sacrifício e da mortificação!”

Atribuem-se milagres a ela durante esse período. Por exemplo, a cura de uma criança de três anos, de nome Teresinha do Menino Jesus, filha de um cônsul português, que sofria fortemente por conta de dois tumores. A intervenção cirúrgica não lhe servira de nada, e os pais angustiavam-se tremendamente. Lúcia tomou conhecimento da grave doença da criança e procurou os pais para dizer-lhes que não deviam se afligir, pois Teresinha ficaria boa. “Foi neste momento”, escreveu o pai, “que se deu um fenômeno inexplicável para nós. Durante a noite, e contrariamente ao que previa o doutor, tudo desapareceu: a febre, o tumor, o inchaço da perna. Quando nós vimos nossa filha pela manhã, tão desfigurada e tomada de febre poucas horas antes, e agora sem traços do mal que durante três meses a atormentou, ficamos verdadeiramente estupefatos! Teresinha ria e queria ir no chão”. O médico não ficou menos surpreso e declarou que não havia explicação natural para o fato.

No entanto, o grande favor do Céu que obteve em Tuy, e que marcaria definitivamente não apenas a sua própria vida, mas todo o nosso século, foi a Teofania do dia 13 de junho de 1929. Neste dia, dirigiu-se para a capela para fazer sozinha a hora santa. Estava tudo escuro, exceto pela luz de uma lamparina. De repente, contudo, toda a Capela iluminou-se com uma luz sobrenatural, e sobre o Altar apareceu uma Cruz que se erguia até o teto. Irmã Lúcia viu então a Santíssima Trindade, recebendo luzes que, conforme disse, não lhe era permitido revelar. Nosso Senhor pendia na cruz, tendo por cima uma pomba a representar o Espírito Santo e Deus Pai. Sangue pingava das faces do Crucificado e duma ferida do seu peito numa hóstia, e desta para um cálice. No lado direito, Nossa Senhora com seu Imaculado Coração cravejado de espinhos e ardendo num fogo, do outro lado, umas letras grandes que diziam “Graça e Misericórdia”. Nossa Senhora disse-lhe em seguida:

– É chegado o momento em que Deus pede ao Santo Padre que faça, em união com todos os Bispos do Mundo, a Consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio. São tantas as almas que a Justiça de Deus condena por pecados contra Mim cometidos, que venho pedir reparação: sacrifica-te por esta intenção e ora.

Aqui também se trata de um pedido de reparação: este é um dos sentidos profundos da Consagração da Rússia. Como escreveu a irmã ao seu confessor, o Padre Gonçalves; “Se não me engano, o bom Deus promete pôr fim à perseguição na Rússia, se o Santo Padre se dignar fazer, e ordenar aos bispos do mundo católico igualmente de fazerem um ato solene e público de reparação e de consagração aos Santíssimos Corações de Jesus e de Maria (…)”. 

Como escreveu um autor, a tomada de um país pelo comunismo é comparável à possessão de um demônio sobre um corpo. A Rússia foi desde o início o instrumento de Satanás para o castigo do triste século XX: Já em 1918, a Igreja foi praticamente declarada ilegal. No mesmo ano, surgiam os primeiros campos de concentração e tinha início a deskulakização. Escreveu Pio XI sobre a Rússia:

“A recrudescência e a publicidade oficial de tantas blasfêmias e impiedades requerem a mais universal e solene das reparações. Durante as últimas festas de Natal, não apenas muitas centenas de igrejas foram fechadas, inúmeros ícones foram queimados, mas os trabalhadores e estudantes foram todos obrigados a trabalhar; os domingos foram suprimidos, e chegou-se a obrigar os trabalhadores das usinas, homens e mulheres, a assinar uma declaração formal de apostasia e de ódio contra Deus, sob pena de serem privados de suas cartas de pão, vestuário e alojamento, sem as quais todo habitante dessa nação infeliz é reduzido a morrer de fome, miséria e frio.” 32

A promessa relacionada à Consagração da Rússia seria meramente a do fim da União Soviética? O Pe. Alonso, maior estudioso de Fátima, explica: “É preciso afirmar que Lúcia sempre julgou que esta conversão não se resume ao retorno do povo russo à religião ortodoxa, com a rejeição do marxismo ateu dos soviéticos. Antes, refere-se pura, simples e totalmente à conversão total da Russia à única verdadeira Igreja de Cristo, que é a Igreja Católica.” 33

Por que a necessidade de uma consagração? Ou, por outra, por que o bom Deus não converte a Rússia sem o concurso dos homens? Eis o que explicou Lúcia:

“(...) intimamente tenho falado a nosso Senhor do assunto e há pouco perguntava-Lhe por que não convertia a Rússia sem que Sua Santidade fizesse essa consagração.

– Porque quero que toda a minha Igreja reconheça essa consagração como um triunfo do Coração Imaculado de Maria, para depois estender o seu culto, e pôr ao lado da devoção do meu Divino Coração, a devoção desse Imaculado Coração.”

Assim como fizera com os cinco sábados, propondo um meio fácil para a salvação das almas, Nosso Senhor depositou nas mãos de seu Vigário o poder de repelir o grande flagelo do nosso tempo, mas, infelizmente!, nenhum papa desde Pio XI valeu-se dele: a Rússia nunca foi consagrada solenemente em união com todos os bispos do mundo 34. Por essa razão, ela não se converteu, nem o Imaculado Coração de Maria foi exaltado.

Irmã Lúcia adoeceu no ano de 1930 e, para repousar, foi enviada por suas superioras a uma pequena cidade marítima nas proximidades, de nome Rianjo. Foi provavelmente numa capela dedicada a Nossa Senhora, que ouviu esta terrível reprimenda do Céu: “Faça saber aos meus ministros que, dado que seguem o exemplo do rei de França retardando a execução do meu pedido, eles o seguirão no infortúnio. Jamais será tarde demais para recorrer a Jesus e a Maria.” 35

A verdade é que naquele mesmo ano, como nota o Irmão François de Marie des Anges, os castigos começam a ocorrer. Na Espanha, a revolução anti-monárquica levou a maçonaria ao poder, fazendo com que a lepra bolchevique se alastrasse pela Península Ibérica. Não passariam cinco anos até o terrorismo vermelho começar a destruir igrejas e conventos na Espanha, enquanto manifestantes desfraldavam bandeiras vermelhas nas ruas, aos gritos de Viva Rusia! 

Foi ainda naquele período que Moscou começou a instruir os partidos comunistas a infiltrarem os seminários católicos, a fim de minar a Igreja desde dentro. 

 

O Terceiro Segredo

Nos anos 30, a verdadeira identidade da Irmã Maria das Dores não era segredo para mais ninguém, e o Convento de Tuy começou a ser muito requisitado por devotos e curiosos. Para cúmulo, as superioras muitas vezes aquiesciam aos visitantes e faziam com que Lúcia fosse aqui ou ali apenas para exibi-la. Por essas razões, o desejo de se retirar para trás das grades do carmelo tornou-se dominante, mas ainda não seria dessa vez que a religiosa subiria esta montanha santa, pois, movidos talvez pelo desejo muito humano de ter no seu instituto a vidente de Fátima, suas superioras não acediam às suas aspirações. À Lúcia restava o consolo da sabedoria de Santa Gemma Galgani: “um pouco mais de morte para ti mesma, e teus problemas não serão nada”. 

Escreveu então:

“Ofereci-me, desejando ser aceite, para, enquanto que o Senhor me não abre as portas do Claustro, ir a terras africanas, ao lado dos Missionários, levar às almas o Amor que abrasa, a Esperança que fortifica, a Fé que guia e eleva da terra ao Céu! Ir com a Divina Pastora, conduzir as ovelhas às pastagens verdejantes, onde correm as águas cristalinas da eterna fonte.”

É admirável como algumas passagens do seu diário remetem-nos as mais belas páginas de Santa Teresinha:

“Mas não me explico, como sinto em mim aspirações tão opostas! Contente voaria pelos sertões da África, em conquista das almas dos meus queridos Irmãos distantes, e chego até a invejar os que têm essa sorte. Feliz me imolaria nos hospitais junto dos membros doloridos de Cristo, para, com os meus serviços, lhes prestar toda a classe de alívios. Mais feliz ainda me enterraria nas leprosarias, colhendo os gemidos da Humanidade em decadência, oferecendo-os a Deus como vítimas expiatórias pelos pecados do mundo.

“Gostaria de adquirir todas as ciências para transmiti-las às almas como reflexo da eterna Sabedoria, fonte donde emana toda a luz da inteligência e ciência adquirida, e poder assim elevá-las do rasto da terra, à luz do sobrenatural! Mas pobrezinha de mim que nada sou e nada tenho! Levanto-me do próprio nada e, na união da minha alma com Cristo, encontro tudo, porque é das profundezas da abjeção que Deus me eleva às alturas do sobrenatural, é pela humildade que se desce ao fundo do Oceano, é aí que se encontra a Luz, a força, a alegria e onde Deus concede a graça de atingir o cume do Amor! Daí o meu ardente desejo de imolar-me a sós com Ele no silêncio dum claustro, onde possa dar-Lhe tudo numa união mais perfeita, num encontro mais íntimo pela Igreja minha Mãe e pelas almas dos meus queridos Irmãos.” 36

No ano de 1943, Lúcia foi acometida de grave pleurisia: escarrava sangue, assim como a santa de Lisieux, e a febre não lhe deixava. O risco de morte era grande:

“Escrevo na cama, onde estou já há 17 dias com febre bastante alta… Talvez que tudo isto seja o princípio do fim, e estou contente”, escreveu então a Dom José, bispo de Leiria. “É bem que, à maneira que a minha missão na terra vai acabando, o bom Deus me vá preparando os caminhos para o Céu.” 

O Cônego Galamba, no entanto, desejoso de conhecer e fazer conhecer a mensagem de Fátima, inquietava-se, temendo que a vidente viesse a morrer sem nunca revelar a parte final do Segredo. Por isso, renovou suas instâncias para que o bispo a fizesse escrever, e assim, no dia 15 de setembro de 1943, Dom José sugeriu à vidente que, se quisesse, colocasse por escrito a terceira parte do segredo. A vidente respondeu que, para fazê-lo, precisaria receber do bispo uma ordem formal, pois não tinha recebido ainda “autorização de Nosso Senhor” para revelá-lo.

Como persistisse uma infecção purulenta na sua perna, Irmã Lúcia teve de ser hospitalizada e submetida a uma cirurgia. Temendo que, sob a medicação, fizesse alguma indiscrição a respeito do Segredo, pediu para não receber anestesia geral mas os médicos não concordaram. A operação transcorreu bem e não demorou para a vidente retornar a Tuy. Escrevia então no seu diário:

“Se o Bom Deus não tiver algo a mais a me pedir ou se não agravar a doença que me enviou, dentro em pouco poderei começar a trabalhar. Mas que Ele faça o que quiser. Não Lhe peço nem a saúde, nem a doença, nem a vida, nem a morte. Que me envie o que mais Lhe agradar!”

Em novembro de 1943, a religiosa finalmente recebeu de Dom José Correia da Silva uma ordem formal para redigir o terceiro segredo. Mas algo estranho se passou. Muito embora não sentisse nenhuma dificuldade para escrever sobre qualquer assunto, por mais que tentasse registrar o Segredo, nada saia do papel. “Ainda não escrevi o que V.Exª.Rev.ma me mandou: já o intentei cinco vezes e não fui capaz”, escreveu então a Dom José; “não sei o que é, no momento de pousar a pena no papel, põe-se-me a mão a tremer e não sou capaz de escrever letra alguma: parece-me que não é nervoso natural, porque no mesmo instante passo a escrever outra coisa diferente e tenho a mão firme”. Concluiu: “Mas, quem sabe, será o demônio que me queira impedir este ato de obediência?”

Passaram-se semanas nessa agonia. Até que uma tarde, estando a sós na capela durante uma visita ao Santíssimo, o rosto mergulhado entre as mãos, sentiu que lhe tocava o ombro a mão amiga da Rainha do Céu:

Não temas, quis Deus provar a tua obediência, Fé e humildade. Está em paz e escreve o que mandam, não porém o que te é dado entender do seu significado. Depois de escrito, fecha-o e lacra-o e escreve por fora, que só pode ser aberto em 1960, pelo Sr. Cardeal Patriarca de Lisboa ou pelo Sr. Bispo de Leiria.

Continua a Lúcia descrevendo o que sentiu:

“Senti o espírito inundado por um mistério de luz que é Deus e Nele vi e ouvi, A ponta da lança como chama que se desprende, toca o eixo da terra, Ela estremece: montanhas, cidades, vilas e aldeias com os seus moradores são sepultados. O mar, os rios e as nuvens saem dos seus limites, transbordam, inundam e arrastam consigo num redemoinho, moradias e gente em número que não se pode contar, é a purificação do mundo pelo pecado em que se mergulha. O ódio, a ambição provocam a guerra destruidora! Depois senti no palpitar acelerado do coração e no meu espírito o eco duma voz suave que dizia: No tempo, uma só Fé, um só Batismo, uma só Igreja, Santa, Católica, Apostólica. Na eternidade, o Céu! Esta palavra Céu encheu a minha alma de paz e felicidade, de tal forma que quase sem me dar conta, fiquei repetindo por muito tempo: O Céu! O Céu! Apenas passou a maior força do sobrenatural, fui escrever e fi-lo sem dificuldade, no dia 3 de janeiro de 1944, de joelhos, apoiada sobre a cama que me serviu de mesa.” 37

O escrito foi entregue ao Bispo devidamente envelopado. Este, temeroso com a alta responsabilidade que lhe incumbia, não queria lê-lo, o que levou a irmã fazê-lo prometer que abriria o envelope antes de 1960 ou assim que ela morresse, o que ocorresse primeiro. 

Por que o ano de 1960? O Cardeal Silvio Oddi, outrora Prefeito da Congregação para o Clero, tratou da questão:

“Que ocorreu em 1960 que poderíamos relacionar com o Segredo de Fátima? O evento mais importante foi sem dúvida o início da fase preparatória do Segundo Concílio Vaticano. Assim, eu não me surpreenderia se o Segredo guardasse alguma relação com a convocação do Vaticano II… Não me surpreenderia se o Terceiro Segredo fizesse alusão a tempos obscuros para a Igreja, graves confusões e apostasias perturbadoras dentro do próprio Catolicismo… Se considerarmos a grave crise por que temos passado desde o Concílio, os sinais de que esta profecia foi cumprida não parecem faltar…”

Diz ainda o mesmo cardeal que o Segredo não tem nada a ver com Gorbatchev: “a Santíssima Virgem nos alertou sobre a apostasia na Igreja”. 

Essa também é a opinião do Cardeal Mario Luigi Ciappi, teólogo da Casa Pontifícia, que escreveu: “No terceiro segredo se prevê, entre outras coisas, que a grande apostasia na Igreja começará do seu ponto mais alto”.

Também parece ser este o pensamento do Cardeal Alfredo Ottaviani, que leu o Segredo e foi a Portugal entrevistar a Irmã Lúcia: “Eu tive a graça e o dom de ler o texto do terceiro segredo. [...] Posso lhes dizer apenas isto: que virão tempos muito difíceis para a Igreja e que é preciso muita oração para que a apostasia não seja grande demais”.

O texto então tem relação com o Concílio? O jornalista Antonio Socci relata que João XXIII encontrou-se nos primeiros meses do seu pontificado com o Cardeal Fernando Cento, antigo núncio em Portugal, e tratou-se da leitura do Segredo: 

“... João XIII disse: ‘Não, espere’. Primeiro, ele queria anunciar a convocação do Concílio Vaticano II, quase como se quisesse colocar perante o Céu um fait accompli (…)

“João XXIII inquietava-se e quis adiar a leitura do Segredo obstinadamente, para o caso de ele conter algo que desaconselhasse este anúncio. Evidentemente, Roncalli quis tomar esta enorme decisão para a Igreja sem ser ‘influenciado’ pela Mãe do Bom Conselho, sem ser iluminado pela Rainha dos Apóstolos, sem ser assistido pela Mãe de Deus, pela Mãe da Divina Graça, pelo Auxílio dos Cristãos. Assim, depois que o anúncio foi feito, depois que a sua própria vontade foi realizada, João XXIII consentiu: agora que tudo já foi decidido, podemos ver o que a Senhora de Fátima disse.”38

Era então grande a expectativa do mundo católico, pois aproximava-se a data prevista para a revelação do segredo. Os bispos italianos vinham de consagrar solenemente o seu país ao Imaculado Coração de Maria e a devoção à Nossa Senhora do Rosário de Fátima ganhava o mundo. Acompanhado do seu confessor e de um tradutor de português, o papa leu o Segredo com desgosto: “isto não se refere ao meu pontificado”, resmungou. Pouco depois, por meio de um comunicado do Vaticano, foi anunciado que o Segredo não seria revelado, pois “[a Igreja] não deseja tomar a responsabilidade de garantir a veracidade das palavras que os três pastorinhos disseram ter ouvido da Virgem Maria” 39. Todo esse episódio serviu para lançar o descrédito nas aparições de Fátima. Em Portugal, o Cardeal Cerejeira, autoridade maior da hierarquia católica portuguesa, ficou sabendo de tudo pelos jornais, como se fosse um fiel qualquer. 

Anos antes, porém, o Cardeal Eugenio Paccelli havia compreendido a gravidade do que estava em jogo: 

“Suponha que o Comunismo foi somente o mais visível dos instrumentos de subversão usados contra as tradições da Revelação Divina. As mensagens da Santíssima Virgem à Lúcia de Fátima preocupam-me. Esta persistência de Maria sobre os perigos que ameaçam a Igreja é um aviso do Céu contra o suicídio de alterar a Fé na Sua liturgia, na Sua teologia e na Sua alma. Ouço à minha volta inovadores que querem desmantelar a Capela-Mor, destruir a chama universal da Igreja, rejeitar os Seus ornamentos e fazê-La ter remorsos do Seu passado histórico. Chegará um dia em que o Mundo civilizado negará o seu Deus, em que a Igreja duvidará como Pedro duvidou. Ela será tentada a acreditar que o homem se tornou Deus. Nas nossas igrejas, os Cristãos procurarão em vão a lamparina vermelha onde Deus os espera. Como Maria Madalena, chorando perante o túmulo vazio, perguntarão: – Para onde O levaram?”

 

O silêncio

Em março de 1948, Irmã Lúcia finalmente foi recebida no Carmelo de Coimbra – percebendo que o recurso aos seus superiores era inútil, teve de escrever uma carta ao próprio papa pedindo autorização para transferir-se, procedimento esse que lhe foi causa de grandes angústias. Ela chegou no mosteiro às cinco da manhã, e entrou “como os israelitas, muito cedinho antes do nascer do sol, para colher o maná no deserto”. A comunidade recebeu-a em absoluto silêncio. Uma a uma, as irmãs abraçaram-na com um amável sorriso, e seguiram para o coro: “Como é doce, sobretudo nestes dias, a solidão, o recolhimento, e o silêncio aos pés do Sacrário! Mistério admirável, diante do qual se esquecem todos os sofrimentos, todas as penas, todas as amarguras, porque nada há que se possa comparar às penas e dores do nosso Deus!”, escreveu a nova flos carmeli. 

Acompanhada da prioresa, uma espanhola de nome Madre Maria do Carmo, a Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado (este foi o nome que tomou ao receber o santo hábito) conheceu a sua célula, na qual uma grande cruz vazia dominava a parede branca:

– Sabes por que esta Cruz está aí na parede sem o Cristo?

E sem que a nova carmelita tivesse tempo de responder, completou:

– É para que te crucifiques nela.

*

Iniciava um longo período de reclusão de que pouca notícia temos. A vidente que se afastara do contato externo pela reclusão do carmelo, foi “desligada” por uma imposição romana em 1959. Não apenas estava proibida de falar do conteúdo do Segredo, como não poderia receber ninguém sem licença de Roma – nem mesmo o Cônego Galamba ou o Padre Aparício, seu antigo confessor, poderão falar com ela – apenas seus familiares estavam excetuados. Enquanto isso, sem que pudesse se defender, uma campanha de difamação era desferida contra as aparições por padres modernistas em periódicos tão importantes quanto o Civiltá Cattòlica.

Até hoje, dezessete anos após a publicação do Terceiro Segredo, seguem proibidas a publicação da entrevista da vidente com o Pe. Joseph Schweigl, bem como a obra monumental do Padre Alonso, maior especialista em Fátima. Seguem inéditas as cartas da vidente aos papas, os quatro volumes dos seus diários bem como um livro redigido por Lúcia no ano de 1955 e remetido à Santa Sé. O que querem nos ocultar?

Um livro posteriormente publicado, chamado Apelos da Mensagem de Fátima40, foi minuciosamente “revisado” por Roma, e há uma razoável dúvida a respeito da autenticidade de diversos escritos e declarações que lhe foram atribuídas no final de sua vida. 

Por essas razões, a sua entrevista com o Pe. Fuentes, de 1957, é considerada por alguns como a última sem restrições da vidente de Fátima, e seu testamento. Os trechos seguintes são dela:

 

"Senhor Padre, o que falta para 1960? E o que sucederá então? Será uma coisa muito triste para todos, e não uma coisa alegre, se, antes, o mundo não fizer oração e penitência. Não posso detalhar mais, uma vez que é ainda um segredo. Segundo a vontade da Santíssima Virgem, só o Santo Padre e o Bispo de Fátima têm permissão para conhecer o Segredo, mas resolveram não o conhecer para não serem influenciados. Esta é a terceira parte da Mensagem de Nossa Senhora, que ficará em segredo até 1960 (...)

"Senhor Padre, o demônio está travando uma batalha decisiva contra a Santíssima Virgem. E como o demônio sabe o que é que mais ofende a Deus e o que, em menos tempo, lhe fará ganhar um maior número de almas, trata de ganhar para si as almas consagradas a Deus, pois que desta maneira o demônio deixa também as almas dos fiéis desamparadas pelos seus chefes, e mais facilmente se apodera delas.

(...)

"Senhor Padre, eis por que a minha missão não é indicar ao mundo os castigos materiais que certamente virão se antes o mundo não rezar e se sacrificar. Não! A minha missão é indicar a todos o perigo iminente em que estamos de perder as nossas almas para toda a eternidade, se nos obstinarmos no pecado.

(...)

"Senhor Padre, não devemos esperar que venha de Roma, da parte do Santo Padre, um apelo ao mundo para que faça penitência. Nem devemos esperar que esse apelo à penitência venha dos nossos Bispos, nas nossas Dioceses, nem das congregações religiosas. Não! Nosso Senhor já usou muitas vezes destes meios, e o mundo não prestou atenção. Eis por que, agora, é necessário que cada um de nós comece a reformar-se espiritualmente. Cada pessoa deve não só salvar a sua alma como também ajudar a salvar todas as almas que Deus colocou no seu caminho."

 

 

ANEXO

(Terceira Parte do Segredo, tal como publicada em 26 de Junho de 2000)

 

“Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fogo em a mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que parecia iam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! E vimos n’uma luz imensa que é Deus: “algo semelhante a como se vêem as pessoas n’um espelho quando lhe passam por diante” um Bispo vestido de Branco “tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre”. Vários outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fôra de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas e várias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de várias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, neles recolhiam o sangue dos Mártires e com ele regavam as almas que se aproximavam de Deus.”

(Revista Permanência 288)

  1. 1. Francisco de Fátima, Fernando Leite S. J., p. 11.
  2. 2. Memórias de Fátima, 2a. Memória, p. 88.
  3. 3. Memórias da Irmã Lúcia, 4a. memória, p. 169.
  4. 4. Podemos nos indagar se essa misteriosa gradação não corresponderia à vocação particular de cada um. Francisco, o contemplativo, via apenas; Jacinta além de ver, ouviu do anjo e, depois, da Virgem o apelo de reparação para a conversão dos pecadores; e Lúcia, que falava, terá a missão de comunicar ao mundo os pedidos do Céu e pregar a devoção ao Imaculado Coração de Maria.
  5. 5. Daí em diante, o terço seria o companheiro inseparável de Francisco. “O meu irmão Francisco era inocente e piedoso”, falou João Marto, irmão do pastorinho de Fátima, “Diz a Lúcia que rezava muitos terços enquanto andava com o gado no monte. Isso não posso afirmar porque não vi. O que posso garantir é que em casa só queria rezar terços. Até digo com vergonha que fugia dele para me ver livre de tanto terço! À noite não nos largava enquanto o não rezássemos”.
  6. 6. O Irmão François de Marie des Anges faz uma observação importante: em algumas versões lê-se que Nossa Senhora pediu para se rezar o Rosário; outras dizem que foi o terço. Qual a verdade? Ora, anos mais tarde, Lúcia entrará num convento na Espanha, país em que se utiliza a palavra Rosario indiscriminadamente para significar tanto o terço como o Rosário propriamente dito. Essa é a origem da confusão. Lúcia esclarecerá posteriormente que Nossa Senhora se referia ao Terço.
  7. 7. Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, Pe. João de Marchi, Editora Missões Consolata, Fátima, p. 49.
  8. 8. “Creio que esta promessa não é para mim só, mas para todas as almas que queiram se refugiar no Coração da nossa Mãe do Céu e se deixar conduzir pelos caminhos traçados por ela. Parece-me que estas também são as intenções do Coração Imaculado de Maria: fazer brilhar nas almas sempre mais este raio de luz, mostrar-lhes sempre mais este porto de salvação, sempre prestes a acolher todos os náufragos deste mundo.” (Carta de 14 de abril de 1945.) Citado em Soeur Lucie, confidente du Coeur Immaculé de Marie, Ir. François Marie des Anges, CRC.
  9. 9. Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, Pe. João de Marchi, Editora Missões Consolata, Fátima, p. 80.
  10. 10. A “luz desconhecida” ocorreu na noite de 25 para 26 de janeiro de 1938, quando uma aurora boreal de amplitude extraordinária foi vista na Europa (da Noruega a Portugal), mas também no Norte da África, Canadá, América e México. Irmã Lúcia, que contemplava o céu com as irmãs do convento, sabia que essa era a luz que Nossa Senhora mencionara anos antes. – É impressionante constatar que, anos depois, num dia 25 de janeiro, aniversário do “grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo”, foi anunciado o Concílio Vaticano II.
  11. 11. Memórias da Irmã Lúcia, 4a. memória, p. 178.
  12. 12. Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, Pe. João de Marchi, cap. XVIII, p. 115.
  13. 13. Nossa Senhora de Fátima, William Thomas Walsh, Ed. Quadrante, p. 161.
  14. 14. Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, Pe. João de Marchi, cap. XXIII, p. 156.
  15. 15. Ibidem, p. 175.
  16. 16. Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, Pe. João de Marchi, p. 176.
  17. 17. Memórias da Irmã Lúcia, 4a. memória, p. 164.
  18. 18. A diocese fora restaurada dois anos antes por um breve de Bento XV. Até então, Fátima estava na dependência do patriarcado de Lisboa. Quanto ao bispo, diga-se que nos tempos da revolução de 1910, foi preso cinco vezes e torturado pelos republicanos – na prisão, viu-se obrigado a passar noite e dia com os pés imersos em água gelada – resultando em dificuldades de locomoção.
  19. 19. “Dois militares escoltavam-na em direção a Aljustrel, porém, ao ver um terreno com umas covas abertas, um disse ao outro: – Aqui estão covas abertas. Com uma das nossas espadas cortamos-lhe a cabeça e aqui a deixamos, já enterrada. Assim acabamos com isto duma vez para sempre.” (Memórias da Irmã Lúcia, 2a. Memória,  p. 107.)
  20. 20. Um caminho sob o olhar de Maria, Carmelo de Coimbra, Edições Carmelo, 2013, p. 124.
  21. 21. Um telegrama da época, redigido por José Dantas Baracho, Governador Civil, dava instruções muito claras:

    “Administrador do Concelho de V. N. de Ourém;

    “Conforme combinação ontem aqui... se proibirá qualquer manifestação religiosa, que será impedida aí, para o que se reforça posto no local, para onde foi numerosa força armada.”

  22. 22. Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, Pe. João de Marchi, p. 295.
  23. 23. Nossa Senhora de Fátima, William Thomas Walsh, Quadrante, São Paulo, 2015, p. 240.
  24. 24. Em 1945, a vidente de Fátima escreveu ao bispo de Leiria: “O bom Deus quer que os senhores bispos, nos poucos dias que antecedem as eleições, falem ao povo, por meio do clero e da imprensa, para dizer que Salazar é a pessoa escolhida para continuar a governar a nossa pátria, que é a ele que serão concedidas luz e graça para conduzir nosso povo pelos caminhos da paz e da prosperidade”. E, em 1958, escreveu: “Não podeis imaginar como sofri por nosso tão digno Salazar da ingratidão de tanta gente que não quer ver tudo o que lhe devemos!”. Citado em Soeur Lucie, Confidente du Coeur Immaculé de Marie, Ir. François Marie des Anges, CRC, pp. 360-361.
  25. 25. Memórias da Irmã Lúcia, 2a memória, p. 117.
  26. 26. Soeur Lucie, Confidente du Coeur Immaculé de Marie, Ir. François Marie des Anges, CRC, p. 175.
  27. 27. Numa aparição posterior, narrada pela vidente, a necessidade desta intenção particular fica clara. Grifos meus: “ [A Lúcia] Apresentou a Jesus a dificuldade que tinham algumas almas em se confessar ao sábado e pediu para ser válida a confissão de 8 dias. Jesus respondeu:

    – Sim, pode ser de muitos mais ainda, contanto que, quando Me receberem, estejam em graça e que tenham a intenção de desagravar o Imaculado Coração de Maria.

    Ela perguntou:

    – Meu Jesus, as que se esquecerem de formar essa intenção?

    Jesus respondeu: – Podem formá-la na outra confissão seguinte, aproveitando a primeira ocasião que tiverem de se confessar” (Memórias, p. 194)

  28. 28. Um caminho sob o olhar de Maria, Carmelo de Coimbra, Edições Carmelo, 2013, pp. 170-171.
  29. 29. O bispo de Leiria, Dom José Alves Correia da Silva, muito embora se mostrasse favorável à devoção, a recomendasse em sermões e aprovasse a sua propagação em Portugal, não chegou a recomendá-la oficialmente.
  30. 30. Por aquele tempo, relata o Irmão François Marie des Anges, uma religiosa, estranhando que Lúcia não mencionasse mais na sua correspondência a prática dos cinco primeiros sábados, escreveu-lhe perguntando a razão deste procedimento. Recebeu do Carmelo de Coimbra uma carta protocolar datilografada com os seguintes dizeres: “A Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado recebeu sua carta e reza nas vossas intenções. Quanto à questão: Por que ela não recomendou precedentemente a devoção dos primeiros sábados? Porque é preciso esperar pela autorização eclesiástica”. Soeur Lucie, Confidente du Coeur Immaculé de Marie, Ir. François Marie des Anges, CRC, p. 374.
  31. 31. A esses rigores, Lúcia somava, entre outros, a corda que trazia amarrada à cintura e abstinência de água três dias por semana. Quanto às práticas de piedade, além dos exercícios regulares da comunidade, Lúcia rezava diariamente o rosário e fazia a Via Sacra. Às quintas, fazia a hora santa, das 23h00 às 24h00
  32. 32. Fatima, joie intime, événement mondial, Irmão François de Marie des Anges, CRC, p. 211.
  33. 33. The Fourth secret of Fatima, Antonio Socci, Loreto Publications, 2006, p. 118.
  34. 34. Remetemos o leitor interessado numa análise detalhada sobre este ponto ao artigo Os papas e a consagração da Rússia, Dominicus, Revista Permanência 264. [Também publicado no nosso site: http://permanencia.org.br/drupal/node/5224 ]
  35. 35. Estas palavras de Nosso Senhor são misteriosas. Como é sabido, Santa Margarida Maria escreveu em 17 de junho de 1689 ao rei de França pedindo a consagração da França ao Sagrado Coração de Jesus. Luís XIV desprezou o pedido do Céu e, exatos 100 anos depois, ocorreu a sangrenta Revolução Francesa e o rei foi decapitado. Assim, as palavras de Nosso Senhor em Rianjo parecem indicar que o não cumprimento dos seus pedidos resultará numa terrível efusão de sangue. O Céu pediu reparação e propôs um meio fácil, mas a rejeição dos meios propostos terá de ser compensada de modo cruento. Esta é apenas uma interpretação, mas podemos corroborá-la com outros escritos da Irmã Lúcia, como a carta que escreveu em 1943 para Dom Garcia y Garcia, Arcebispo de Valladolid, a respeito da situação da Espanha: “Eu Lhe pedi instantemente que usasse de misericórdia para remediar os males da Espanha… mas Ele me respondeu que, se sua justiça não fosse apaziguada pelos meios que pedia, ela o seria pelo sangue dos mártires” (grifos meus). Tudo isso remete à visão do Terceiro Segredo, tal como publicada no ano 2000. Outra carta da Irmã Lúcia, escrita durante o início da Segunda Guerra Mundial ao Pe. Gonçalves, também vai neste sentido: “Deus quer que o momento da consagração da Rússia chegue bem rápido… Se este ato pelo qual a paz nos será concedida não se der, a guerra somente terminará quando o sangue derramado pelos mártires for suficiente para aplacar a justiça divina.
  36. 36. Um caminho sob o olhar de Maria, Carmelo de Coimbra, Edições Carmelo, 2013, p. 282.
  37. 37. Um caminho sob o olhar de Maria, Carmelo de Coimbra, Edições Carmelo, 2013, p. 267.
  38. 38. The forth secret of Fatima, Antonio Socci, p. 195.
  39. 39. Note-se que, na visão publicada no ano 2000, não há referência a palavras ditas pela Virgem Maria. Este é apenas um dos pontos que nos fazem suspeitar que o Segredo não foi integralmente revelado por Roma no ano 2000. Há outros argumentos neste mesmo sentido. Por exemplo, sabe-se que, em setembro de 1952, Pio XII enviou o Pe. Joseph Schweigl para entrevistar a irmã Lúcia a propósito do Terceiro Segredo. De regresso, afirmou: “Não posso revelar nada do que aprendi em Fátima acerca do Terceiro Segredo, mas posso dizer que ele possui duas partes. Uma diz respeito ao papa, a outra, logicamente, embora não possa dizer nada, teria de ser a continuação das palavras, ‘em Portugal o dogma da Fé será sempre preservado’”. Ora, a visão publicada no ano 2000 não contém a continuação destas palavras de Nossa Senhora.
  40. 40. O título original do livro era “A transmissão da mensagem de Nossa Senhora”. Antes de ser publicado, o texto foi todo revisado e corrigido “sob a autoridade direta de João Paulo II”, como explicou o Pe. Luis Kondor ao Irmão François Marie des Anges. Foram incluídas diversas citações de Encíclicas de Paulo VI e João Paulo II que não constavam dos originais, foram suprimidas diversas passagens, outras foram reescritas, além de alterada a ordem dos capítulos. O livro não faz menção à devoção dos cinco sábados, pois a vidente estava proibida de falar do assunto.
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