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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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A República e a mesa falante

MICROCOSMOS
 
Sumário: — Um pensamento de Pascal — Não crer no Cristo mas na mesa falante — O Cagliostro desta República — Entre Voltaire e Mesmer — Algumas notas sobre a Cabala e os cabalistas — Um anagrama notável — A visão do Sr. Múcio — Esconjuro e interpretação... — Do que dependem as instituições.  

"Incrédulos são os mais crédulos — escreveu Pascal; acreditam nos milagres de Vespasiano para não acreditarem nos de Moisés."
 
Isto é um dos pensamentos mais profundos e notáveis do grande filósofo. (Pensées, 2me. partie, art. 17, p. 120, na edição de Firmin Didot.)
 
E com toda a razão. O espírito humano tem uma sede insaciável do desconhecido: e onde ele rejeita o ensinamento da revelação, onde orgulhoso se despe de tradições veneráveis, onde campeia unicamente confiado em si próprio, logo miserandamente sucumbe, aceitando quantas praxes abstrusas se lhe inculcam por via da superstição.
 
Não é raro, posso afirmá-lo, encontrar-se um livre pensador que tenha medo a defuntos e que conte histórias pavorosas de almas de outro mundo.
 
O espiritismo é uma dessas decadências da razão humana desajudada da religião. Recusa a lição do Cristo e aceita as frioleiras que supõe promanarem de hipotéticas entidades. Não quer saber de padres, mas submete-se a médios, verdadeiros energúmenos como as pitonisas da antiguidade. Repele por misteriosos os sacramentos e ávido recebe os oráculos da mesa falante. É deplorável.
 
Não admira, pois, que na quadra que atravessamos, quando a opinião, conturbada e aflita, em torno de si apenas avista os escombros da república, sem discernir o que provavelmente lhe suceda — não admira, repito, que a todo instante se voltem para o preternatural as almas sedentas de verdade e infelizmente dissociadas da fonte que, única, lha poderia dar.
 
Destarte se explicam as profecias do Sr. Mucio Teixeira que, depois do seu último livro de versos, Esmulambações (o qual ainda não tive tempo de ler) parece agora destinado a ser o Cagliostro da vigente república, semelhantemente ao que ocorreu na outra, em que o cepticismo de Voltaire se cruzava com as famosas sessões de Mesmer.
 
O Sr. Mucio profetiza, e, o que mais é, com diferença de uns dias acertou no triste prognóstico da morte de Afonso Pena.
 
Forte com esse triunfo o poeta, que mais do que qualquer outro se pode agora chamar de vate, regala o público oferecendo-lhe novas predições.
 
Sua especialidade é lúgubre. O Sr. Mucio especialmente se consagra a prenunciar óbitos de pessoas notáveis; no que ainda se lobriga a maligna astúcia do poeta, porque, no fim das contas, todas elas hão de morrer, e o engano, quando haja, somente oscila dentro de certos limites, tão curta e passageira é em verdade a existência do homem, que, como lá diz o Jó, célere do ventre materno se transfere ao túmulo: — de utero translatus ad tumulum...
 
Os meios a que se socorre o Sr. Mucio para a descoberta do futuro, cujos lobregos esconderijos tão porfioso está devassando, não são como os do Sr. Torterolli, a evocação de espíritos, nem tampouco os da cartomancia, vulgarmente explorados pelas centenas de damas que todos os dias se anunciam pelos jornais a despeito do que sobre o caso reza o código criminal. O Sr. Mucio é cabalista, não ainda como o Sr. Irineu ou Sr. Monteiro Lopes, mas no genuíno sentido do vocábulo.
 
Cabala etimologicamente só quer dizer tradição, e, neste sentido empregavam os Judeus tal vocábulo em contraposição à lei escrita — o que (dito seja de passagem) bem mostra a inanidade e improcedência do protestantismo, pois, rejeitando todo o ensino tradicional, está em diametral oposição a tudo quanto antes de Lutero se havia praticado, assim no mundo cristão como também no judaico.
 
Não é, porém, nesta acepção que o Sr. Mucio estuda a cabala, que a dele é a chamada cabala prática, isto é — a ciência (?) pela qual os Judeus pretendiam operar milagres, conversar com o sol e a lua (e não já com simples estrelas, como o outro poeta Bilac), ler no futuro como em livro aberto, dominar sobre os anjos bons e maus, atrair ou conjurar, ao sabor do cabalista, os flagelos mais formidáveis.
 
Tudo isto, segundo rezam os códices, estaria consignado em um grande alfarrábio que Adão teria recebido para se consolar da queda e que ele, tantos anos antes da invenção do alfabeto, cuidadoso houvera guardado no intuito de, em testamento, o legar ao Sr. Mucio e aos outros cabalistas.
 
Estes, em suas operações, não desdenham o themurah ou mudança, isto é, o tirar-se de um ou mais vocábulos outro sentido oculto, quer transpondo, quer separando as letras de que eles se compõe. É, realmente, a teoria do calemburgo (assim Garrett traduziu calembourg) e também a do anagrama. Sobre o calemburgo nada direi, podendo os curiosos abastecer-se em casa do meu amigo Dr. Raul Pederneiras; mas a respeito de anagramas peço licença para lembrar que os há singularmente proféticos. Assim é que o lema positivista da bandeira da república — ORDEM E PROGRESSO — letra por letra dá está outra divisa: REGRESSO POR MEDO. É curioso, é talvez triste, mas o anagrama está certo. 
 
Já muita gente hoje se entrega a especulações cabalísticas sobre a nova ordem de coisas criadas pela inundação, quero dizer, pelo advento do Sr. Nilo às plagas governamentais. Muitos dos cavaleiros (e também damas) que o têm procurado são oficiosos cabalistas que mediante adequadas preces querem arredar qualquer cataclismo, aliás não muito de recear, graças ao espírito de cordura com que, novo Augusto, o ardego político está inaugurando seu reinado. O ministério da agricultura fará o resto.
 
Longe, bem longe destes sectários da cabala, o Sr. Mucio, tetricamente envolvido no seu mistério, esmulamba o porvir, deixando-nos antever alguns horrores.
 
Ouçamo-lo apavorados:
 
"Teremos ainda este ano três mortes sensacionais. Vejo em dia ímpar de novembro um catafalco, com altos brandões acesos e lacrimejantes; e, na negrura do pano mortuário, brilham duas iniciais douradas: um R. e um B."
 
Quem não havia de gostar muito disto foi o Sr. Rui Barbosa, que, aliás, pela sua fúnebre teoria do traumatismo político, transportou para o cemitério a questão das candidaturas, e a uma competência entre vivos deu o soturno caráter da exploração de um morto.
 
Sucede, porém, que R. B. também são as letras iniciais do festejado Sr. Rio Branco, sem já falar em outros políticos de menor porte e que nessas condições estão livres dos botes da cabala.
 
Qualquer que seja o conceito formado sobre os dois concidadãos supracitados, creio poder afirmar que gerais, senão unânimes, são os votos que todos formulamos para que a benévola Providência lhes prolongue a vida, deixando-os coroados de cãs no meio de seus amigos e compatriotas. Possam eles tranqüilamente conhecer os netos de seus netos, usque ad tertiam et quartam generationem! Queira Deus, supremo doador da existência humana, conservá-los no planeta até que advenha o termo deste regime e a restauração do outro, ao qual com a dedicação e zelo de antigos tempos, fielmente sirvam estes eméritos brasileiros!
 
Assim, com todas as veras do meu coração (porque pessoalmente não desamo a nenhum dos dois citados próceres) eu repilo e exconjuro a fúnebre revelação do vidente Mucio: — mas então logo entro a inquirir qual poderá ser a entidade prestes a sucumbir, moralmente traumatizada pelos sucessos que se desdobram.
 
Receando enganar-me, tenho consultado vários republicanos, de ótima água e boa feição; mas todos eles se excusam, prenhes de agourentos pavores, que me não querem comunicar.
 
Por fim, nas apreciadas colunas do Estado de S. Paulo, edição de 19 de junho fluente, encontrei o que desejava.
 
Estampou o provecto órgão republicano um artigo ao que ele chama a candura militar, isto é, a do Sr. Marechal Hermes, como se forense podera ser chamada, por exemplo, a do Sr. Rodrigues Alves, pelo fato de ser ele advogado... E em tal escrito leio este pedacinho:
 
"A conciliação (a efetuar pelo Sr. Nilo) mais que possível, é provável; e, se não se realizar, então não há dúvida: esta atribulada República nasceu inviável, e caiba a responsabilidade do seu miserável destino a quem realmente deve caber. Nós sabemos quem seja e o futuro também o saberá."
 
Ora, aí está. Na opinião do conceituado órgão paulistano, a próxima sorte, o "miserável destino" da república depende, tão somente, do bom êxito da tentativa conciliadora que, dizem, ora se está operando na retorta presidencial...
 
Que frágil sustentáculo para tão grave almanjarra!
 
Combinando-se, pois, estes dizeres do Estado de S. Paulo com as profecias do Sr. Mucio, eu começo a perguntar-me se as indigitadas iniciais, R. B., quererão significar, não Rio Branco ou Rui Barbosa, mas sim — República Brasileira...
 
A cabala, como é sabido, usa muito de alegorias, despende uma cópia enorme de consumo de outras figuras, com as quais disfarça, envolve e embrulha as suas revelações. Nada, portanto, mais razoável do que ver, nas palavras do poeta e cabalista, uma sentença de morte para as instituições, aliás tão combalidas, que até já se reputam meramente apensas aos cordéis do Sr. Nilo.
 
Enfim, com estas minhas observações, julgo ter prestado o meu contingente para a decifração do futuro, interpretando a visão cabalística do Sr. Mucio.
 
O melhor de tudo, claro está, será vivermos sem tal curiosidade; mas, uma vez que ela se agita, não me parece descabida essa profecia dos funerais da república, em dia ímpar do vindouro mês de novembro.
 
(23 de Junho de 1909)

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