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O casamento e a moral segundo Bertrand Russell

No quinto capítulo do livro escrito sobre casamento e moral, Bertrand Russell faz da ética cristã um resumo que, por sua singularidade e pela importância do autor, merece um comentário. Começa por dizer: "O Cristianismo, e mais particularmente São Paulo, introduziu um ponto de vista inteiramente novo sobre o casamento, pelo qual o casamento não existe primeiramente para a procriação, mas para evitar o pecado da fornicação".

Ora, como sabemos, a doutrina católica, desde Santo Agostinho, ensina explicitamente, e insistentemente, que a procriação é o fim principal do casamento. Como se explica que o famoso pensador (que para muita gente é o maior filósofo vivo) tenha tido a coragem de abordar tema tão grave, e tenha tido o desembaraço de expor o pensamento que pretende criticar, sem o prévio cuidado de compulsar os mais autorizados e divulgados textos? Por mim, não sei explicar. Sei que o pensador se apega à idéia que em diversas passagens de seu livro reaparece. Pouco adiante, no mesmo capítulo, lemos: "O reconhecimento de que os filhos são um dos propósitos do matrimônio é muito parcial na doutrina católica". Ora, torno a dizer que na doutrina católica, desde o De Bono Conjugali de Santo Agostinho, até a encíclica Casti Connubii de Pio XI [1], a prole é apontada como fim principal do casamento.

Abordando o problema do divórcio, com sua peculiar desenvoltura, o autor inglês assinala, com ar de quem está descobrindo uma coisa nova, que entra em jogo uma ética completamente diferente (da de São Paulo) quando o casamento é concebido em função dos filhos. Ora, como fartamente sabemos, é principalmente em torno da salvaguarda dos filhos que os católicos costumam argumentar para provar a malignidade do divórcio.

Em apoio de sua esquisita interpretação do pensamento católico, o autor se vale de uma passagem paulina (I Cor. VII, 1 a 9) onde efetivamente o apostolado aborda o problema sob o ponto de vista do remédio da concupiscência. Em outras epístolas, como por exemplo naquela que é lida na missa do matrimônio (Ef. V, 22 a 33), o Apóstolo apresenta o aspecto mais positivo, o companheirismo sobrenatural ou a procriação mútua, mas é inegável que naquele tópico aos Corintios cuida de uma aspecto negativo. Esse ponto de vista (remédio contra a concupiscência) existe também dentro do corpo de doutrina, mas não é ele que dá a nota essencial da questão. Ignorará o laureado filósofo que uma mesma coisa pode ser abordada sob ângulos diversos, conforme o problema proposto, e que é mister, entre as várias perspectivas, discernir aquela que fornece os traços positivos e característicos da coisa estudada?

Se Bertrand Russell tivesse lido o Gênese ou Santo Agostinho com a mesma atenção que leu Havelock Ellis e Albert Londrés, teria encontrado passagens como esta: "O casamento também tem a vantagem de remediar a juvenil incontinência". Mas logo a seguir leria: "Nós não dizemos que o casamento é um bem relativo, ou um bem em comparação com a fornicação. Teríamos assim dois males, e o casamento seria um mal menor". Ao longo de  muitas páginas, onde se vê a preocupação de combater os maniqueus, Santo Agostinho apregoa enfaticamente a intrínseca bondade do casamento. Cita o mesmo São Paulo (Tm. I, V, 16) para dizer que é bom casar, e logo acrescenta: "porque é bom ter filhos e ser mãe de família".

 Convencido de haver achado o tutano da doutrina católica, Bertrand Russell dá mais um passo e descobre no mesmo São Paulo ( I Cor. VII, 32 a 34) que mesmo no casamento a relação sexual é obstáculo no caminho da salvação. Ora, isto não é somente, como no caso anterior, um erro de quem toma uma nota acidental por definição essencial. O erro agora é mais grave. O pensador britânico, talvez por não haver compreendido o texto, inventa uma interpretação em conformidade com seu preconceito. Na referida passagem, São Paulo se dirige aos que buscam a vida religiosa mais direta (que hoje chamamos vida contemplativa ou monástica) e diz que o casamento tem a desvantagem de dividir e dispersar os movimentos da alma. Mas de modo algum ensina que o casamento seja obstáculo à salvação. Será preciso mostrar ao famoso filósofo que aqui se aborda o problema dos meios e não do fim? O mesmo fim, o céu, pode ser atingido por diversos caminhos. Todos os católicos, por preceito, têm de orientar a vida para aquele fim; mas nem todos terão de seguir o mesmo itinerário. A recomendação paulina tem, como se diz em teologia, caráter de conselho e não de preceito, e baseia-se, evidentemente, na idéia de que um estilo de vida é superior ao outro, sendo ambos bons. E note-se que, na referida passagem não há a menor alusão ao sexo, e sim aos múltiplos cuidados que a vida doméstica exige. Tudo isso pode ser constatado e detestado. Uma pessoa pode achar ridícula a fé católica, mas se quer criticá-la deve conhecer os seus artigos. E se não quer ter esse trabalho, deve então falar de outra coisa, que assuntos não faltam.

Mais adiante, e com crescente desembaraço, Bertrand Russell ensina que, na moral católica, "o ato sexual só é legítimo dentro do matrimônio, e além disso, passa a ser pecado, mesmo no matrimônio, se não houver esperança de provocar gravidez". E acrescenta: "Com efeito, segundo a Igreja Católica, o único motivo que pode justificar o ato sexual é o desejo de procriar". Ora, a parte grifada nunca, jamais, foi ensinada pela Igreja. Aquilo não existe. O filósofo sonhou. Não há pecado algum, nem sombra dele, nos atos sexuais entre pessoas estéreis ou entre cônjuges durante o período de gravidez. Ao contrário do que imagina o maior filósofo dos tempos modernos — e qualquer cozinheira católica sabe disto — a Igreja só proíbe os atos que contrariam o curso da natureza e ensina que também se ordena à alegria dos cônjuges o uso dos corpos.

Não sei bem conciliar tamanha leviandade com os títulos do autor e com o Prêmio Nobel. Como disse atrás, admito perfeitamente que um festejado filósofo deteste nossa doutrina. Já me custa um pouco mais admitir que um grande pensador a tal ponto ignore os detalhes de um Fato que há dois mil anos incomoda os pensadores. E muito menos aceito que se aventure a discorrer sobre alguma coisa tão exuberantemente ignorada.

No que concerne à idéia de um certo pessimismo católico em relação ao sexo, e até em relação à vida, compreendo que se engane um jornalista apressado, ou um dos que, com o lançamento dos satélites, passaram a entender de balistica e de mecânica celeste. Há realmente uma certa burrice em nosso meio, como em todos, que pende na direção de uma moral sexocêntrica. Muito católico saboreia, como creme da mais autêntica procedência evangélica, aquilo mesmo que o inglês ridiculariza. Poderíamos discorrer longamente a esse respeito, e não seria difícil mostrar que esse tipo de pessimismo foi sempre visto pela Igreja como falsificação da verdade. Foram os maniqueus, e depois os albigenses, e depois os jansenistas — todos denunciados como herejes — que pretenderam introduzir na ortodoxia o rigorismo e o infecto pessimismo. A marca desses assaltos ficou, e manifesta-se na burrice piedosa. Compreende-se pois que o ignorante, que identifica o pensamento da Igreja com os sermões, com as opiniões literárias ou políticas dos eclesiásticos, ou com as conversas de algumas freiras, seja capaz de concluir que é inerente ao cristianismo a aversão ao sexo. Mas de um letrado, de um laureado em Filosofia, temos o direito de esperar pensamentos um pouco menos elementares. E sobretudo, temos o direito de exigir um pouco mais de cuidado com os textos, e de amor pela verdade.

Com o mesmo humorístico desembaraço, lembrando textos que não entendeu, e citando um que nada tem de católico, conclui Bertrand Russell que a ética cristã contribuiu "para degradar a posição da mulher". É bem verdade que alguns personagens de nossa história deixaram por escrito consignado um sagrado terror pela mulher, coisa que considero muito sensata, porque estou pessoalmente convencido de que a mulher é realmente terrificante. Mas esse sentimento é mais de admiração do que aversão. E se houver aversão, será por motivos puramente táticos. Se não me falha a memória, há um episódio na história de Pickwick em que diversas mulheres acham um homem atrás da porta e se põem a gritar apavoradas: "A man! A man behind the door!" Devo eu concluir que as mulheres inglesas têm acentuada aversão ao mundo masculino? Ou quem sabe se não ganharia o Prêmio Nobel em Filosofia se desenvolvesse em doze volumes tão original trouvaille?

Na verdade, amigo leitor, salta aos olhos que não há nos evangelhos e na tradição a menor má vontade com o casamento, e muito menos com a mulher. Podemos admitir que as antigas civilizações, que colocavam a mulher em situação de inferioridade, tenham resistido e não tenham assimilado com rapidez o fermento de emancipação contido nos evangelhos. Mas é inegável que foi o cristianismo que trouxe a primeira contribuição de dignificação da mulher, e isso o próprio Bertrand Russell foi obrigado a reconhecer, depois de ter dito o contrário. Quanto ao casamento, basta lembrar a dileção que Jesus tinha pela idéia de núpcia, que freqüentemente tomou como símbolo do amor divino. Basta lembrar o seu comparecimento às bodas de Caná, que certamente não foi ditado pelo respeito às convenções sociais. E basta lembrar que foi nesta festa que Jesus realizou seu primeiro milagre, que era um prenúncio de seu futuro sacrifício. São Paulo, o severo e monástico São Paulo, firmava pé nas boas casas de família, que chamava de igrejas. São Pedro era casado.

Quanto a mulheres, para mostrar a extensão do âmbito que o mundo delas tem nos evangelhos, lembremos que Maria Madalena, a prostituta, foi uma das mais diletas amigas de Jesus, e é considerada uma das maiores santas da Igreja. E lembremos também aos grandes filósofos dos tempos modernos que é uma mulher, esta agora sem mancha de pecado que reina e reinará sempre no Céu e na Terra.

No mesmo livro Bertrand Russell diz que o "sexo é uma necessidade natural, como o comer e o beber". Quero crer que não sejam frases assim que tenham trazido para o autor inglês sua imensa popularidade e seus elevados títulos. Trata-se efetivamente de uma proposição que tem sido formulada em muitos idiomas sem que possamos descobrir, na mais exaustiva das pesquisas, quem foi o felizardo que, pela primeira vez, num momento de iluminação, a enunciou com todas as silabas. Daí para cá tem sido repetida a frase e todos nós já tivemos ocasião de observar a satisfação e o ar de finura que geralmente acompanha o enunciado. Nós outros, que afirmamos a terrível diferença que existe entre o sexo e a alimentação, costumamos às vezes trair um certo acabrunhamento, como se nos pesasse a singularidade, a peculiaridade do sexo; mas o emancipado, que assevera a semelhança, que equipara o sexo ao comer e ao beber, ostenta sempre o ar jubiloso e superior de quem acabou de descobrir uma verdade libertadora. Tudo se passa como se quiséssemos fugir da realidade do sexo, como freqüentemente queremos fugir das implicações da racionalidade ou das obrigações da cidadania. Há na fragilidade da natureza humana uma tendência à fuga, não somente à fuga das prisões formadas pela palissada de preconceitos que nos ferem as asas da alma, mas à evasão daquilo mesmo que somos. O homem é o único ser que tem a estranha volúpia de evadir-se, não das grades externas, mas dos eixos internos. 

Na verdade, aquela proposição, como todo lugar comum solidamente estabelecido, é falsa. De dois modos podemos comparar duas coisas que não sejam idênticas: pelas semelhanças, ou pelas diferenças. De início observemos que há um traço de semelhança entre todas as coisas. De Deus ao átomo há um denominador comum que os filósofos — não os da escola do sr. Bertrand russell — chamam de analogicidade de ser. Além desse denominador comum transcendental, existem analogias menores, mais superficiais, mais visíveis, e de certo modo mais aproximadoras. Posso dizer, por exemplo, que uma borboleta se parece com uma flor, que certos homens são como montanhas, e outros como juncos ao vento. Posso jurar que vi passar uma mulher ao fogo; e posso asseverar, como o poeta, que existem as lágrimas das coisas. De analogias se alimentam os metafísicos e os poetas, porque existe um vínculo de parentesco real entre todos os seres.

Considerada sob o largo ângulo da analogia, a frase do autor inglês é inatacável. O sexo é realmente uma coisa natural como natural é o estômago. Mas nesse caso o autor inglês poderia ter construído assim a sua frase: "Os homens e as mulheres têm sexo, como têm pernas, braços, esôfago, imaginação, etc." Creio que nenhum de nossos autores jamais pretendeu que o sexo fosse no homem um acidente sobrenatural. Sexo é natural. Estamos todos de acordo. Ainda mais: tanto o sexo como o comer, segundo Bertrand Russell, geram desejos que são ampliados pela abstinência e temporariamente apaziguados pela satisfação. Creio também que ainda não houve no mundo um filósofo tão desvairado e tão mal informado que tenha chegado a negar que o sexo produz desejo. Além disso cumpre notar que não se reduz àquele esquema tão simplificado o misterioso aparelho dos desejos humanos. O homem é um ser extravagante, sob esse ponto de vista, e capaz dos mais variados desejos. Tem desejo de comprar um disco de Bach, e desejo de passear livremente na praia. Sendo contrariado, pelas leis cambiais do país num caso, ou por interferência da polícia no outro, o desejo pode se ampliar e tomar proporções inquietantes. Não é portanto o desejo que especifica o sexo e que o aproxima daquelas outras funções naturais. Nem me parece que valesse a pena escrever um capítulo de um livro para provar que o sexo gera desejos. Os psicólogos modernos provaram que existe um entrosamento interno entre os instintos de conservação da vida, pela nutrição, e o instinto sexual; e todos nós sabemos que há certas polarizações ambíguas no corpo humano, que tanto funcionam numa direção como em outra. É antigo como o mundo o gosto dos beijos amorosos, por onde se vê que a mesma boca, que já servia para falar e para comer, serve também para beijar. Tudo isto prova a existência de interações muito íntimas enfeixadas pela imanência vital, mas não prova que os desejos de falar, de comer ou de beijar sejam da mesma espécie. E muito menos prova que, sendo todos eles desejos naturais, devam ser atendidos com o mesmo grau de naturalidade. Consultando agora o lado exterior da questão, isto é, o objeto que especifica aqueles desejos; e depois ponderando a finalidade de cada uma das funções, começaremos a ver a diferença, bastante apreciável, que separa o amar do comer. O objeto da fome é o alimento que pode ser vegetal, ou eventualmente animal. O homem tem fome, como sabemos, tem atração por uma maionese ou por um bife. Em certos casos pode ter preferência por um bife de carne humana, mas não é essa espécie de alimento que especifica a fome humana. No caso do amor físico, o homem sente atração por um corpo humano. Concluiríamos então, se quiséssemos insistir no aparelho, que o amor é mais particularmente parecido com a antropofagia do que com um jantar trivial. Quanto à finalidade, o homem come para se manter vivo; mas não é para isto , por mais veemente que seja o impulso, que o homem procura mulher. Tão imprudente é às vezes, que até chegamos a pensar que mais se parece com suicídio como acontece com as abelhas, do que com sustento.  Objetivamente, esquecendo os ímpetos da paixão, todos nós sabemos que o sexo tem por finalidade principal a geração de vida. A essa orientação produtora, diríamos nós, corresponde um instinto de morte, ou de despedida, já que plantamos aquela nova árvore da vida. Seja como for, esteja a razão com Freud ou com os poetas românticos que sempre viram no ato de amor uma espécie de morte, há uma profundíssima diferença entre a finalidade da boca que come e da boca que beija. Aliás, buscando agora nos moralistas uma contribuição, veremos que há uma chocante diferença entre as duas coisas que o autor inglês aproxima. Todo o homem tem direito à existência, e por isso, segundo os mais austeros moralistas, pode roubar para comer, para salvar a vida. O faminto tem direito de roubar um pão sem cometer sombra de pecado. O padeiro, de seu peculiar ponto de vista, não poderá distinguir os casos autênticos dos falsos e tem todo o direito de chamar a polícia. Mas suposto o conhecimento perfeito do ato interior, o moralista católico dirá que não há culpa, nem merece o nome de roubo, o ato daquele faminto. Transpondo o problema para o lado do sexo, teríamos que admitir o estupro se admitirmos a equivalência de naturalidade entre sexo e fome. E então, para atender a uma parte da humanidade que quer se alimentar, teríamos de achar natural que a outra parte da humanidade não se opusesse a servir de alimento. O próprio Bertrand Russell, páginas adiante, reconhece a necessidade de impor alguns limites ao uso do sexo, mas então, pergunto eu, se nós admitimos, depois de todas essas considerações, que o uso do sexo deva se inscrever num universo ético, por que começar por aquela equiparação entre o sexo e o comer?

A tendência do autor inglês é tirar, daquela sentença, que mostra o sexo tão natural quanto o comer, uma norma de maior naturalidade no uso do sexo. Ele quer o amor livre, quer a libertação dos preconceitos que exasperam os problemas do sexo, quer derrubar os tabus, os dogmas, as práticas ascéticas, mas não ousa dilatar até o infinito os domínios da naturalidade. Subsistem os limites; subsiste portanto uma ética reguladora. Não se vê bem qual seja, porque esse mesmo autor que procura o máximo rigor nos problemas da matemática, tem uma impressionante imprecisão de linguagem nos problemas de filosofia prática. Nesse campo, o laureado filósofo fala como qualquer orador político. Não se embaraça com a preocupação da nitidez, e por isso ficamos ignorando quais são as novas fronteiras, e sobretudo, quais são os novos eixos de sua filosofia moral.

Aceito o universo ético, sabemos que doravante a naturalidade dos atos humanos tem nova significação. Para nós passa a significar espontaneidade adquirida no exercício das virtudes, e não espontaneidade instintiva. Para Bertrand Russell não sei o que quer dizer naturalidade, amor livre, etc. Sei apenas que ele admite a idéia de uma regulação do uso das coisas, ainda que se trate de atos tão naturais como o amar ou o comer. A rigor, posso dizer que Bertrand Russell fala todo o tempo como um moralista, sim, como um moralista que está irritado com o sistema que encontrou mas não nos diz exatamente e que consiste o novo sistema que apregoa. Negando o direito de estupro, o pensador parece ter descoberto uma coisa enorme, que no ato de amor estão envolvidas duas pessoas, enquanto que, numa merenda, há uma só pessoa versus um sanduíche. Há duas pessoas, ao menos nos atos normais, e por conseguinte haverá aquilo que deve regular as relações entre duas pessoas, e que os antigos chamavam de justiça. Mas recomendando o amor livre, onde haja mútuo consentimento, o autor inglês parece não ter ainda descoberto uma coisa muito trivial mas muito importante, que é a sociedade humana com todas as suas dimensões e complicações. Em outras palavras, nós sabemos, há séculos, que duas pessoas não logram jamais se isolar do grande conjunto humano. De onde se conclui que o livre consentimento das duas não deve bastar, em nosso sistema ético, para legitimar o que juntas fizerem. É verdade que nosso autor afiança que o mundo será melhor, na base do amor livre e da emancipação sexual. Afiança, mas não prova, nem sequer encaminha o raciocínio nessa direção. O que se pode prever do hedonismo, que está na base da moral de Russell, ao contrário do que ele anuncia, é um mundo muito mais egoísta e muito mais feroz do que este que já possuímos. Há portanto uma incoerência entre a generosa aflição de Bertrand Russell diante das ameaças tremendas que pairam sobre o mundo, e a sua pregação de emancipação sexual.

 

 

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