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Ofícios (61)

Introdução ao segundo domingo da Quaresma

“Este é meu Filho bem-amado, escutai-O” 

 

Paramentos roxos

 

A estação de hoje reunia-se na Igreja de Santa Maria, chamada In Dominica, pelo fato de os cristãos aí se congregarem no Domingo. Era tradição ter sido nela que São Lourenço distribuía os bens da Igreja aos pobres. Era no século V paróquia de Roma.

Como nos três Domingos da Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima, são nos 2°, 3° e 4° da Quaresma os textos do Antigo Testamento que formam a trama da composição das missas, de sorte que os séculos passados continuam a preparar-nos para os mistérios da Páscoa. No 2° Domingo da Quaresma, lemos em Matinas a história da benção solene do velho Isaac dada no leito da agonia ao seu filho Jacó. Todos conhecem esta bela página da Escritura. A Abraão e Isaac sucede Jacó, de preferência ao primogênito Esaú, para se tornar o herdeiro e transmissor das promessas e bênçãos divinas. “Sê o senhor dos seus irmãos e que as nações se prostrem diante de ti. Todos os povos serão abençoados em ti e no que nascer de ti” (Gênesis). Os Santos Padres veem no Patriarca Jacó que suplanta o irmão para ser, em vez dele, o objeto dos favores divinos, uma figura de Cristo, o segundo Adão que se torna, em vez do primeiro, o chefe duma humanidade regenerada e abençoada por Deus, aquele em quem o Pai pôs todas as complacências e os povos serão abençoados. Comparando os dois textos, o do Gênesis e o do Evangelho da Missa, facilmente poderemos ver como concordam e se completam no pormenor mais insignificante. Deus abençoou o seu filho revestido da nossa carne, como Isaac abençoou Jacó revestido das vestes do irmão. Santo Agostinho, que olha as peles de cabrito como um símbolo do pecado, diz que Jacó, cobrindo com elas as mãos e o pescoço, é a imagem de Cristo, que, sendo sem pecado, tomou sobre Si os pecados dos outros1.

Isto deixa-nos ver como a história de Jacó é figura de Cristo e da Igreja. E lembremo-nos que Jesus Cristo, o Filho de Deus, que o Evangelho de hoje nos apresenta a transfiguração no Monte Tabor como sendo o objeto das complacências do Pai, solidarizou-se conosco, ao ponto de se vestir “com a carne” e de se deixar morrer por nós para nos tornar coerdeiros da sua glória e filhos queridos do Pai dos Céus. Em Jesus fomos abençoados por Deus — n’Ele que é o mais velho, o primogênito de muitos irmãos.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

  1. 1. O Pontifical oferece-nos, na oração que o Prelado diz ao calçar as luvas, um simbolismo idêntico “Cobri, Senhor, as minhas mãos com a pureza do Homem Novo que desceu dos Céus a fim de que, tendo Jacó obtido com as mãos cobertas de peles de cabrito, a benção de seu pai, possa eu alcançar também a benção da vossa graça, oferecendo-Vos esta vítima de salvação”

apresentação do primeiro domingo da quaresma

“E vieram os anjos e serviram-no”

 

Paramentos roxos

 

Neste domingo que era outrora o primeiro dia da Quaresma, reunia-se a estação na basílica de S. Salvador 1.

Toda a liturgia respira um pensamento de fortificante confiança, desde o Intróito, Gradual e Ofertório até a Comunhão, compostos todos com versículos do Salmo 90 que vem quase por inteiro no Tracto e se repete durante a Quaresma para ser, por assim dizer, o diapasão da vida nova, de bom combate, que devemos levar nestes dias. E não são acaso as lutas do Salvador, que se vão desenrolando diante de nós, para nos encorajar na batalha? A Igreja, pelo menos, assim nos dá a entender, propondo à nossa meditação o Evangelho que refere à tentação de Cristo. Era a missão que empreendera de esmagar Satã que começava, e referi-la a Igreja neste princípio da Quaresma parece querer indicar o verdadeiro motivo de confiarmos na vitória. O Senhor triunfou e a Igreja diz-nos que podemos triunfar com Ele, porque afinal a verdade é que a tentação e o combate que se desenrola em nós e à nossa volta, são a tentação e o combate e também a vitória de Cristo. O nosso esforço é d’Ele, as nossas forças são d’Ele e o nosso triunfo na Páscoa é d’Ele também. Empreendamos, pois, generosamente o bom combate cuja estratégia o Apóstolo em grandes linhas nos traça na Epístola da Missa. Encorajemo-nos com este pensamento de que o progresso espiritual nas almas é a vitória de Cristo que se prolonga e que o combate necessário para a garantir já foi dado. Estes dias da Quaresma são tempo de salvação, são o tempo favorável que nos permite marcar posições definitivas no combate incessante do espírito contra a carne. E a Igreja convida-nos com maternal solicitude a terçar armas neste combate glorioso, para celebrarmos purificados na alma e no corpo o mistério sublime da Paixão do Senhor.

É verdade, diz S. Leão em Matinas, que deveríamos viver sempre diante de Deus com as mesmas disposições requeridas para a condigna celebração dos mistérios pascais. Mas, porque isto é virtude e apanágio de poucos e porque a fragilidade humana tende sempre para o relaxamento, aproveitemo-nos ao menos da Quaresma para recuperarmos o tempo perdido e reparemos, pela penitência e boas obras, as faltas e negligências do outro tempo.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952

  1. 1. A Quarta-feira de Cinzas e os dias subsequentes até o 1° Domingo só mais tarde foram adicionados á Quaresma para completar os 40 dias de jejum.

Introdução ao domingo da Quinquagésima

Jesus disse-lhe: Vê; a tua fé te salvou.” (Evangelho)

Paramentos roxos

A Igreja estuda com particular diligência, nas três semanas da Septuagésima, as grandes figuras de Adão, Noé e Abraão, que respectivamente apelida: pai do gênero humano; pai de numerosa descendência; e pai dos crentes. Já estudamos nos domingos da Septuagésima e da Sexagésima os dois primeiros. Vamos estudar hoje Abraão. Na liturgia ambrosiana o Domingo da Paixão era chamado Domingo de Abraão e liam-se no ofício os responsórios de Abraão. Na liturgia romana o Evangelho desse Domingo é consagrado ainda ao grande patriarca. Mas depois, quando se juntou à Quaresma o Tempo da Septuagésima, reservou-se o Domingo da Quinquagésima para o Patriarca.

Querendo Deus criar um povo para Si e preservá-lo do contágio da idolatria, deu-lhe um chefe que o governasse, a quem chamou Abraão, que quer dizer pai de muitos povos. Retirou-o de Ur, cidade da Caldeia, e conduziu-o para a terra que lhe prometera e guardou-o em todos os seus caminhos. Foi pela fé, diz a Epístola aos Hebreus, que Abraão obedeceu ao apelo divino e partiu para o país que devia receber em herança. Partiu cheio de fé sem saber para onde ia. Foi pela sua fé que chegou a Canaã onde viveu 25 anos como estrangeiro. Foi pela sua fé que já na velhice se tornou pai de Isaac e que não duvidou, à voz de Deus, sacrificá-lo, não obstante, ser o filho único em quem tinha posta a esperança de ver realizar-se a promessa divina duma posteridade numerosa. Bem sabia o Patriarca que Deus era assaz poderoso para ressuscitar lhe o filho de entre os mortos. E por este motivo o recuperou, e isto em figura. De fato, Isaac, escolhido para ser gloriosa vítima de seu pai, foi uma figura de Jesus Cristo. Como Ele, levou às costas o instrumento do sacrifício e foi arrancado miraculosamente às garras da morte. Foi assim que Abraão, com a sua fé, acreditando sem hesitar na palavra de Deus, contemplou de longe o triunfo do Senhor na Cruz e alegrou-se. E foi então que Deus lhe confirmou a promessa: “Porque não recusaste sacrificar-Me o teu filho único, abençoar-te-ei e dar-te-ei uma descendência numerosa como as estrelas do Céu e como as areias das praias”. Estas promessas realizou-as Jesus Cristo com a sua Paixão. Jesus Cristo resgatou-nos, diz São Paulo, e deixou-se morrer na Cruz, a fim de que a benção de Abraão fosse comunicada por Ele aos gentios e recebêssemos pela fé a promessa do Espírito, quer dizer, do Espírito de adoção que nos fora prometido. E é por isso que a oração da 5ª leitura do Sábado Santo nos diz que Deus “Pai soberano dos crentes, derramando abundantemente sobre a Terra a graça da adoção, multiplica os filhos da promessa pelo mistério pascal constitui Abraão, seu servo, pai de todos os povos. É com efeito pelo Batismo (que outrora se ministrava na Páscoa e no Pentecostes) que nos tornamos filhos de Abraão e entramos na herança que Deus prometeu a nossos pais e que é a Igreja, simbolizada pela terra prometida”.

A fé em Jesus Cristo, que mereceu a Abraão a prerrogativa de pai dos crentes e nos dá a faculdade de nos tornarmos seus filhos, constitui o tema do Evangelho de hoje. Jesus Cristo anuncia a sua Paixão e triunfo e cura um cego dizendo-lhe: a tua fé te salvou. Este cego recobrou a vista, diz S. Gregório, na presença dos Apóstolos. E isto foi para confirmar a fé dos que não podiam ainda suportar toda a luz da revelação dum mistério celeste. Porque era necessário que, vendo-O mais tarde morrer pelo modo que lhes predissera, não duvidassem de que havia de ressuscitar também. A Epístola por seu lado põe em plena evidência a fé de Abraão. E não é como filhos carnais de Abraão que nos havemos de salvar, mas como filhos duma fé semelhante à de Abraão. Em Jesus Cristo, diz S. Paulo, nem a circuncisão (os Judeus), nem a não circuncisão (os Gentios) valem nada, mas a fé que opera na caridade. “Andai no amor, continua o Apóstolo, naquele amor de que nos amou Cristo”.

Neste domingo e nos dois dias seguintes costuma fazer-se uma adoração solene do SS. Sacramento, denominada, Adoração das 40 horas, pelos excessos cometidos nestes dias. Foi instituída por S. Antonio Maria Zacaria († 1539) e enriquecida com numerosas indulgências por Clemente XIII.

 

Do Evangelho: Este cego de que nos fala o Evangelho representa sem dúvida o gênero humano. Depois que foi expulso do Paraíso na pessoa do primeiro homem, ignora as claridades da luz sobrenatural e sofre as consequências do seu erro, mergulhado nas trevas do exílio.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao domingo da Sexagésima

“A semente é a palavra de Deus” (Evangelho)

 

Paramentos roxos

 

O Breviário fala-nos de Noé toda semana.

“Vendo Deus que era grande a malícia do homem sobre a Terra, disse: Vou exterminar o homem que criei. Faze, pois, uma arca de madeira e entra nela, que estabelecerei contigo a minha aliança. E Deus fez então chover sobre a Terra, quarenta dias e quarenta noites. A arca flutuava à superfície das águas que se elevaram acima das grandes montanhas. Os homens pereceram e Noé salvou-se com os seus na arca... Passou algum tempo e Noé soltou uma pomba, que regressou com um ramo de oliveira. Noé compreendeu que as águas tinham baixado. E então disse-lhe Deus: Sai da arca e multiplicai-vos sobre a Terra. E Noé levantou um altar e ofereceu a Deus um sacrifício de agradável odor”.

Esta narração, referida ao mistério pascal, é comentada por uma bela oração de Sábado Santo. Ei-la: “A justa cólera do Criador submergiu o mundo culpado nas águas da vingança, e só Noé se salvou na arca. Depois a virtude admirável do amor lavou o universo no sangue”. Foi o madeiro da arca que salvou o gênero humano e foi o da Cruz que resgatou o mundo. “Só tu foste digna, diz a Igreja ao falar da Cruz, de seres para o mundo naufragado a arca que o leva ao porto”. A porta aberta no costado da arca e por onde entraram os que se haviam de salvar do dilúvio nos é apresentada na liturgia como figura do mistério da Redenção; porque do lado de Jesus saiu sangue e água simbolizando os sacramentos do Batismo e da Eucaristia.

“Ó Deus que, lavando nas águas os crimes do mundo corrompido, nos destes no mesmo dilúvio a imagem da regeneração, para que um mesmo elemento fosse o fim dos vícios e a imagem das virtudes, olhai com bondade para a vossa Igreja e multiplicai nela a vossa intervenção regeneradora, abrindo por toda a Terra as fontes do batismais que devem renovar os povos”.

No tempo de Noé, diz S. Pedro, salvaram-se do dilúvio 8 pessoas somente, e isto foi símbolo do Batismo que nos salva a todos. E quando o Bispo benze na Quinta-feira Santa o azeite de oliveira que há de servir para os sacramentos diz:

“Quando os crimes do mundo tinham já sido expiados nas águas do dilúvio, veio uma pomba anunciar a paz à Terra com o ramo de oliveira no bico, que era símbolo então das graças que nos reservava o futuro. Este símbolo realiza-se, quando a unção do azeite, depois que água do Batismo nos lavou, nos vem dar ao rosto paz e beleza”.

Mas no que Noé se assemelha mais com Jesus Cristo é na missão que Deus lhe confiou de ser o pai de numerosos povos. Noé é, com efeito, o segundo progenitor do gênero humano e o símbolo da vida renascida.

“O ramo da oliveira simboliza a feliz fecundidade que Deus concederia a Noé depois de sair da arca, e a arca é denominada no Ofício de hoje por S. Ambrósio “seminarium”, quer dizer, lugar onde se guarda a semente da vida que deve recobrir o mundo. Ora, bem melhor que Noé, Jesus Cristo repovoou o mundo com a prodigiosa descendência das almas crentes e fiéis a Deus. É por isso que a oração da 2ª profecia do Sábado Santo pede ao Senhor que realize os seus desígnios eternos e complete na paz a obra da redenção do homem: “... possa ver o mundo sentir a reparação do que estava caído e a renovação do que envelhecera e todas as coisas restabelecidas na integridade primeira por aquele mesmo que deu a todos o ser”.

No princípio, foi pelo Verbo, quer dizer, pela Palavra, que Deus fez o mundo. E foi pela pregação do Evangelho, que Jesus, o Verbo de Deus, veio regenerar os homens. Fomos regenerados, diz S. Pedro, por uma semente incorruptível, que é a palavra de Deus, que nos foi anunciada pelo Evangelho. A esta luz, já vemos todo o relevo da parábola do Semeador, que vem na Missa de hoje.

Se nos tempos de Noé os homens pereceram, diz S. Paulo, foi por serem incrédulos. Noé que acreditou salvou-se na arca. Do mesmo modo, os que acreditarem e guardarem a palavra do Senhor serão salvos. E S. Paulo enumera na Epístola de hoje tudo o que é necessário para levar aos povos a fé no nome de Deus. Ele foi, com efeito, o pregador por excelência, o Ministro de Cristo que Deus escolheu para levar aos povos os clarões da Boa-Nova do Verbo Encarnado.

Do Evangelho: Jesus deita a semente da palavra nos corações bem dispostos. Procuremos recebe-la bem e façamo-la frutificar na paciência para que Aquele que passou a vida a lançar nas almas a boa doutrina continuando a fazê-lo por meio da sua Igreja, nos possa recompensar com o cêntuplo que prometeu aos que O escutarem e seguirem fielmente.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao domingo da Septuagésima

“Ide vós também para a minha vinha” (Evangelho)

 

Paramentos roxos

 

A aproximação dos textos do Breviário e do Missal, esta semana, esclarece-lhes singularmente o sentido e a importância. As lições e os responsórios do Ofício da noite são tirados do Gênese e relatam a história da criação do mundo e do homem, a queda dos primeiros pais, a promessa do Redentor e finalmente a morte de Abel e a sequela das gerações até Noé. “No princípio, diz o Livro Santo, Deus criou o Céu e a Terra, formou o homem e colocou-o num jardim delicioso para o cultivar”. Jesus Cristo, observa São Gregório, diz-nos que o Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que assalaria operários para a sua vinha. Ora, quem pode melhor representar o pai de família do que o Criador, que governa com a sua Providência tudo o criado e traz neste mundo os seus escolhidos como o Senhor traz os servos em sua casa? A vinha é a Igreja. Todos os que se aplicaram com retidão à prática do bem e exortaram os outros com a palavra ou com o exemplo a enveredar pelos caminhos da virtude, são operários desta vinha. Pelos da primeira, da terceira, da sexta e da nona hora, quis o Senhor designar o povo judeu, que desde o princípio se esforçou por servir a Deus na pessoa dos seus profetas e dos seus santos e não cessou de trabalhar no cultivo da vinha. Pelos da undécima, designou os gentios e a eles se dirige: “Porque estais aqui o dia todo sem fazer nada? ”Todos os homens são, pois, convidados a trabalhar na vinha do Senhor, quer dizer, na própria santificação e na alheia, e glorificar por este modo a Deus. Mas Adão, falhou à sua missão: “porque tu comeste do fruto da árvore que te ordenara não comesse, a terra será maldita e tirarás dela o teu sustento à força de trabalho. Só dará espinhos e cardos. Comerás o pão no suor do teu rosto até que voltes à terra donde saíste”. Exilados do Paraíso, diz S. Agostinho, o primeiro homem comunicou a pena de morte e reprovação a todos os descendentes. O gênero humano, assim condenado, foi, por assim dizer, afundado na desgraça que vai arrastando consigo através das misérias da vida. Os textos da Missa estão cheios dos mesmos pensamentos. “Dores de morte me cercaram”, diz o Intróito. E é com justiça, diz a Oração, que sofremos pelos nossos pecados. A Epístola apresenta-nos a vida como um circo onde é necessário lutar para ganhar a coroa. O denário da vida eterna, acrescenta o Evangelho, será dado só àquele que trabalhar na vinha do Senhor. Deus na sua sabedoria preferiu, diz S. Agostinho, tirar o bem do mal a não permitir mal algum. Deus com efeito compadeceu-se dos homens e prometeu-lhes um segundo Adão que restabeleceria a ordem perturbada pelo primeiro. O Paraíso era “a sombra duma vida mais perfeita”. Exilados de lá com Adão, perdêramos o direito a essa vida que ele representava. Porém, o segundo Adão veio reabrir-nos a porta e dar possibilidade de lá reentrarmos. Senhor, canta a Igreja, Vós sois o nosso auxílio na angústia e na indigência. Tendes o perdão convosco, iluminai sobre nós a Vossa face e salvai-nos.

A Missa da Septuagésima assim estudada prepara-nos para começar este novo período do ano litúrgico com uma compreensão mais perfeita dos mistérios pascais. Aprende-se melhor deste modo tudo o que a Páscoa representa e o que a Igreja nos ensina quando diz: “Deus criou o homem duma maneira admirável e resgatou-o de maneira mais admirável ainda”.

 

Do Evangelho: O amanhecer do mundo, a primeira hora, diz S. Gregório, pode entender-se do tempo que vai de Adão até Noé; a terceira, de Noé até Abraão; a sexta, de Abraão até Moisés; a nona, de Moisés até a vinda do Salvador; a undécima, desde a vinda do Salvador até o fim do mundo. Todos os homens são, portanto, chamados a trabalhar para a glória de Deus e a receber como salário o denário da vida eterna.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao terceiro domingo depois da Epifania

“Dizei uma só palavra e o meu servo será curado”

 

Paramentos verdes

 

Estes quatro domingos têm todos o mesmo Intróito, Gradual, Aleluia, Ofertório e Comunhão, e referem-se todos igualmente à realeza de Cristo. Os dois milagres referidos no Evangelho de hoje têm ambos a mesma significação. O primeiro é a cura dum leproso judeu. E o Senhor quer que os Príncipes dos Sacerdotes constatem oficialmente o prodígio. O segundo é o do Centurião, dum pagão, que humildemente confessa a sua indignidade e a sua fé. Todos os povos são, pois, convidados a tomar parte na herança do reino e no banquete da glória, em que a própria divindade será o pão da nossa alma. Filhos do reino de Deus, renovemos a nossa fé na divindade de Cristo e proclamemo-la com atos de virtude e daquela caridade que constitui o grande mandamento e que S. Paulo nos recorda na epístola de hoje. “A graça da fé em Jesus, diz S. Agostinho, opera a caridade”. Que nada nos separe desta caridade, e que ela produza na nossa alma sentimentos de paz e de amor para com todos os homens.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao segundo domingo depois da Epifania

Jesus transforma a água em vinho nas Bodas de Caná.

 

Paramentos verdes

 

Fiel à promessa que fizera a Abraão, Deus enviou o seu Filho para resgatar o povo eleito, que se não circunscrevia à órbita judaica somente, mas compreendia os homens de todos os lugares e de todos os tempos. Jesus é, pois, aquele rei que a terra toda deve adorar e servir. Havendo sido convidado às núpcias em Caná, diz S. Agostinho, aceita o convite para nos revelar o profundo mistério que nelas se encobre e que é a união de Cristo com a sua Igreja. Todos os Padres são unanimes em ver neste milagre aí operado, além da confirmação da missão redentora de Cristo, o símbolo da Eucaristia e da aliança que Jesus Cristo estabeleceu com as almas e selou com o sinete do seu sangue e a qual se consuma na sagrada comunhão. São as núpcias divinas na terra, prelúdio das eternas do céu. Éramos água e Cristo fez-nos vinho, vinho novo, duma vinha que é também nova e que foi regada com o sangue dum homem-Deus. Diz S. Tomás que a conversão da água em vinho é símbolo da transubstanciação, milagre tamanho que faz do vinho eucarístico o sangue da aliança de paz que Deus estabeleceu com a sua Igreja.

Do Evangelho: O milagre de Caná mostra-nos bem o que pode Maria junto do Coração do Filho. Mas diz S. Ambrósio que ela não Lhe pede serviços vulgares, mas aquilo que só Deus pode fazer.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução à festa da Sagrada Família

Jesus veio para Nazaré e vivia sujeito a eles (Evangelho).

 

Paramentos brancos

 

“Não era acaso conveniente, diz São Leão, celebrar o nascimento real do Filho do Pai eterno, a casa de David, e os nomes gloriosos dessa antiga linhagem? Mas é mais doce ainda para nós recordar a pequena casa de Nazaré e a humilde existência que aí se passa; é mais doce celebrar a vida obscura de Jesus. É aí que o Divino Infante se exercita no humilde ofício de carpinteiro, aí, na sombra, cresce em idade, mostrando-se feliz por partilhar dos trabalhos de São José.

Que o suor, diz ele, banhe os membros antes de os inundar a efusão do sangue redentor, que a mortificação do trabalho sirva também de expiação para o gênero humano. Junto do Menino se encontra sua terna Mãe, junto do Esposo a Esposa dedicada. Como ela se julga feliz em poder aliviar, com afetuosos cuidados, as sua penas e fadigas”. “Ó vós que não fostes isentos nem de preocupações nem de trabalhos, e que conhecestes o infortúnio, olhai para os desgraçados que lutam contra as dificuldades da vida e se veem na indigência”. (Hino de Matinas).

Na humilde casa de Nazaré, Jesus, Maria e José santificaram a vida familiar pelo exercício das virtudes domésticas (Oração). Praticaram a humildade, a paciência, a moderação, a ajuda mútua, a caridade, o respeito e a obediência, de que nos falam a Epístola e o Evangelho da Missa. Vivendo sempre no recolhimento e na oração, encontraram a alegria e a paz. Oxalá a grande família que é a Igreja e cada lar cristão pratique na terra as virtudes que praticou a Sagrada Família a fim de que possa viver um dia em sua santa companhia no Céu (Oração).

Da Epístola: Devido à grande misericórdia perdoou-nos Jesus as nossas faltas formando a grande família da Igreja que Ele é o Chefe. Saibam os que dela fazem parte agradecer a Deus e usar de misericórdia uns para com os outros.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução à festa do Santíssimo Nome de Jesus

“Que ao nome de Jesus todo o joelho se dobre: no Céu (Anjos), na Terra (Homens), e nos infernos (Demônios) ”. (Intróito)

 

Paramentos brancos

 

A Igreja revela-nos as grandezas do Verbo encarnado, cantando as glórias do Seu Nome.

Era por ocasião do rito da circuncisão que os judeus impunham o nome aos filhos; por isso a Igreja vai buscar hoje o Evangelho da Festa da Circuncisão fazendo realçar as últimas palavras: “e foi-Lhe dado o nome de Jesus, nome que já o Anjo Lhe havia dado antes de ser concebido no seio da Virgem”. O nome de Jesus significa Salvador, e diz São Pedro, que não foi dado aos homens outro Nome, pelo qual nos possamos salvar (Epístola).

É ao Nome de Jesus, diz São Bernardo, que os coxos andam, que os cegos veem e que os surdos ouvem. A pregação do Nome de Deus é a luz do mundo, o unguento que unge, reconforta e sustenta (Matinas). O Nome de Jesus “é mel para os lábios, melodia para os ouvidos e alegria do coração”. Que durante a nossa vida ele nunca saia dos lábios para termos um dia a alegria de vermos o nosso junto ao d’Ele inscrito no Céu (Depois da Comunhão).

As primeiras origens desta festa remontam ao século XVI em que era celebrada na Ordem de São Francisco. Em 1721, Inocêncio XIII, estendeu-a ao mundo inteiro.

 

(Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.)

Introdução ao domingo dentro da oitava do Natal

“Eis, diz Simeão, que este menino está posto para ruína e salvação de muitos” (Evangelho)

Paramentos brancos

 

Antes da vinda do Filho de Deus, enviado pelo Pai, para que também recebêssemos a adoção de filhos de Deus, o homem era como um herdeiro na sua menoridade que em nada se distinguia dum escravo. Pelo contrário, agora que a lei nova o emancipou da tutela da antiga, “ele já não é servo, mas filho” (Epístola). Desta maneira o culto dos filhos de Deus resume-se nesta palavra proferida com Jesus: “Pai” (Epístola).

O Evangelho descobre-nos qual será o grandioso papel, no futuro, deste Menino cuja manifestação começa hoje no templo. É o Rei cujo reino penetrará até o interior dos corações. Será para todos a pedra de toque, pedra de escândalo para os que O rejeitarem, e pedra angular de suporte para os que O receberem.

Do Intróito: Que beleza a escolha destes dois trechos da Sabedoria para evocar a vinda do Verbo que desce do trono real dos Céus para o meio das trevas da nossa noite.

Da Epístola: Só depois da maioridade é que o filho entra na posse da herança a que tem direito. Antes disso depende daqueles que em seu nome administram o patrimônio. Era assim para os judeus na lei mosaica. Esperavam pelo rico patrimônio da Nova Lei, mas estavam ainda sujeitos aos ritos e prescrições da Antiga Aliança, espécie de tutela do povo de Deus, enquanto esperava a herança que lhe fora prometida. Mas essa hora da herança chegou; o Filho de Deus fez-se homem para nos libertar da escravidão da Lei e tornar-nos filhos de Deus, coerdeiros do reino dos Céus. Com os tempos messiânicos cessa a lei mosaica e começa a maioridade do povo de Deus, alcançada por meio do Batismo.

Do Evangelho: O velho Simeão e a profetiza Ana (de mais de oitenta anos de idade), que passavam seus dias no Templo, dão testemunho de Jesus. Ele é o Messias e a sua vinda implica necessariamente uma separação ou um julgamento. Os pensamentos secretos de cada homem referentes a Cristo serão revelados no último dia, porque Ele perscruta os rins e os corações (8ª Lição de Mat.). Condenam-se os que O rejeitam, porque, fora d’Ele, não há salvação.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

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