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História (49)

Perseguição à Igreja Católica sob o regime chinês.

Albert Galter

Foi pelo ano de 1920 que a ideologia marxista-leninista foi introduzida na China por agentes a serviço da Rússia. No espaço de trinta anos conseguiu ela impor-se a cerca de meio bilhão de homens, graças à hábil inserção dos seus profetas no jogo dos acontecimentos nacionais, e ao proveito que eles tiraram da situação internacional criada no Extremo-Oriente durante e após a Segunda Guerra Mundial.

Fundado em Shangai em 1921, o Partido Comunista Chinês precisou, pouco a pouco, o seu caráter revolucionário, com o auxílio da Missão de peritos industriais e militares russos que se achava na China desde 1920.

Quando Tchang Kai-Chek começou em 1927 a obra de reunificação interior do país, marchando contra o governo que sediava então em Nankin, os comunistas, aproveitando a guerra civil, formaram por seu lado um governo em Hankow e puseram à testa dele Mao Tsé-Tung (1928). (Continue a ler)

O que o ocidente medieval deve aos árabes, e o que não lhes deve

Jean Sévillia

Professor substituto de história e doutor em letras, Sylvain Gouguenheim ensina história medieval na prestigiosa École normale supérieure de Lyon. Até pouco tempo, era ele um professor sem história. Estimado pelos estudantes, reconheciam-no os seus pares como um especialista em Idade Média alemã. As suas doutas publicações e livros — sobre Hidelgarda de Bingen, mística da região da Renânia no século XII, sobre o terror do ano mil ou sobre os cavaleiros teutônicos[1] — granjeavam respeito para este medievalista que também é germanista.

Em 2008 a curiosidade o levou a pesquisar a transmissão da cultura helênica na Idade Média. Desempenharam os árabes um papel no processo, ninguém o ignora, mas em que medida? Um lugar comum reza que o conhecimento antigo, depois de desaparecer da Europa em razão da queda do Império Romano, refugiou-se no mundo muçulmano que, ao traduzir para o árabe os textos gregos, transmitiram-nos ao Ocidente – transmissão que possibilitou o florescimento da cultura ocidental.

A Cristiada e os mártires do México

A Cristiada (1926-29)

Está fora de dúvida que o século XX foi o mais acentuadamente martirizante de toda a história da Igreja. E nisto convém recordar que o testemunho impressionante dos mártires do México foi o modelo imediato para todos os católicos que mais tarde teriam de verter seu sangue por Cristo. Primeiramente, logo após, para os mártires espanhóis, tão numerosos. Antonio Montero, em La historia de la persecución religiosa en España (BAC 204, 1982, pp. XIII-XIV), diz que “em toda a história da Igreja universal não há um único precedente, nem sequer nas perseguições romanas, do sacrifício sangrento, em pouco mais de um semestre, de doze bispos, quatro mil sacerdotes e mais de dois mil religiosos”.

Mas alguns anos antes (1926-1929), também os mártires mexicanos foram modelo para tantas outras centenas de milhares, milhões de cristãos esmagados em nosso século pela Revolução em qualquer de suas formas, liberal ou nazista, socialista ou comunista. Muito nos interessa, pois, conhecer a perseguição religiosa no México, e entender bem a resposta daqueles católicos admiráveis, que com seu sangue seguiram escrevendo os Atos dos Apóstolos na América.

Encontramos informação sobre a Cristiada em obras como a de Aquiles P. Moctezuma, El conflicto religioso de 1926; sus orígenes, su desarrollo, su solución; Antonio Ríus Facius, Méjico cristero; historia de la Asociación Católica de la Juventud Mejicana, 1925-1931; Miguel Palomar y Vizcarra, El caso ejemplar mexicano. Possuímos relatos impressionantes dos mesmos cristeros, como o de Luis Rivero del Val, Entre las patas de los caballos, que vem a ser o diário do estudante cristero Manuel Bonilla, ou o do camponês Ezequiel Mendoza Barragán, Testimonio cristero; memorias del autor, cada qual mais admirável. E dispomos também de excelentes estudos modernos, como o de Jean Meyer, La cristiada, I-III, e Lauro López Beltrán, La persecución religiosa en México.

Será conveniente, em todo o caso, que comecemos nossa crônica pelo princípio: a perseguição liberal que ocasionou a Cristiada no século XX não era senão a continuação da que já se iniciara longamente no século XIX.

As perseguições religiosas do México no século XIX

Em 1810, com o grito do padre Miguel Hidalgo: “¡Viva Fernando VII y muera el mal gobierno!”, se inicia o processo que culminaria na independência do México. Ainda em 1821, o Plan de Iguala decide a independência completa do México como monarquia constitucional que, ao ser oferecida sem êxito a Fernando VII, fica sob a designação das Cortes Mexicanas. Pelo breve governo do imperador Agustín de Itúrbide (1821-24), rechaçado pela maçonaria e fuzilado em Padilla, proclamou-se a República (1824), que caminha vacilante até meados do século, e que perde, para os Estados Unidos, metade do território mexicano (1848).

Logo após a independência, já em 1855, desencadeia-se a revolução liberal com toda a sua virulência anticristã, quando obtém o poder Benito Juárez (1855-72), índio zapoteca de Oaxaca que aos 11 anos, com a ajuda do terciário carmelita Salanueva, aprende castelhano, a ler e escrever, o que lhe permite ingressar no Seminário. Advogado mais tarde e político, impõe, obrigado pela loja norte-americana de Nova Orleães, a Constituição de 1857, de orientação liberal, e as Leis de Reforma de 1859, ambas abertamente hostis à Igreja.

Por elas, contra todo o direito natural, estabelecia-se a nacionalização dos bens eclesiásticos, a supressão das ordens religiosas, a secularização de cemitérios, hospitais e centros beneficentes etc. Seu governo também deu apoio a uma Igreja mexicana, precária tentativa de criar, em torno de um pobre padre, uma Igreja cismática.

Todos estes atropelos provocaram um levantamento popular católico, semelhante, como assinala Jean Dumont, ao que iria produzir-se em nosso século. Com efeito, “a Cristiada [1926-1931] teve um precedente muito parecido nos anos 1858-1861. Também então a cristandade mexicana sustentou uma luta de três anos contra os Sem-Deus da época, aqueles laicistas da Reforma, também jacobinos, que haviam imposto a liberdade para todos os cultos, exceto o culto católico, submetido ao controle restritivo do Estado, à venda dos bens da Igreja, à proibição dos votos religiosos, à supressão da Companhia de Jesus e, portanto, de seus colégios, ao juramento de todos os funcionários do Estado em favor destas medidas, à deportação e ao encarceramento dos bispos ou sacerdotes que protestassem. Pio IX condenou estas medidas, assim como Pio XI expressou sua admiração pelos cristeros”. 

Naquela guerra civil, em que houve “deportação e condenação à morte de sacerdotes, deportação e encarceramento de bispos e de outros religiosos, repressão sangrenta das manifestações de protesto, particularmente numerosas nos estados de Jalisco, Michoacán, Puebla, Tlaxcala” (Hora de Dios en el Nuevo Mundo 246), o governo liberal prevaleceu graças à ajuda dos Estados Unidos.

A Reforma liberal de Juárez não se caracterizou somente pelo seu sectarismo anti-religioso, mas também porque, junto à desamortização dos bens da Igreja, eliminou as propriedades comunais dos indígenas. Estas medidas não evitaram ao Estado um grave colapso financeiro, mas enriqueceram a classe privilegiada, aumentando o latifúndio. Com tudo isso, segundo o historiador mexicano Vasconcelos, também filósofo e político, “Juárez e sua Reforma estão condenados por nossa história”, e ele passou, como outros “à categoria de agentes do Imperialismo anglo-saxão” (Breve hª 11). 

Sobre este último ponto, bastaria recordar as incríveis ofertas, vergonhosas, do governo de Juárez aos Estados Unidos nos tratados Mac Lane-Ocampo e Corwin-Doblado, ou nos convênios com os norte-americanos geridos pelo agente juarista José María Carvajal...

O período de Juárez viu-se interrompido por um breve período em que, por imposição de Napoleão III, ocupou o poder Maximiliano da Áustria (1864-67), fuzilado em Querétaro pouco mais tarde. Também nestes anos a Igreja foi sujeita a leis vexatórias, e os maçons “ofereceram ao Imperador a presidência do Supremo Conselho das Lojas, que ele declinou, aceitando porém o título de protetor da Ordem, e nomeando  como representantes seus dois indivíduos que, imediatamente, receberam o grau 33” (Acevedo, Hª de México 292).

A Juárez o sucedeu no poder Sebastián Lerdo de Tejada (1872-76). Este, que estudara no Seminário de Puebla, acentuou a perseguição religiosa, chegando a expulsar até “as Irmãs da Caridade — a quem o mesmo Juárez respeitara — apesar de que, das 410 que existiam, 355 eram mexicanas que atendiam a cerca de 15 mil pessoas em seus hospitais, asilos e escolas. Em contrapartida, favoreceu-se oficialmente a difusão do protestantismo, com apoio norte-americano. No mesmo ano de 1873 se proibiu que existisse qualquer manifestação ou ato religioso fora dos templos” (Alvear Acevedo 310). Tudo isto provocou a guerra chamada dos Religioneros (1873-1876), um levantamento armado católico, anterior também aos dos cristeros (Meyer II,31-43).

A longa permanência de Juárez no poder ocasionou, entre os mesmos liberais, uma oposição cada vez mais forte. O general Porfírio Diaz — que era, como Juárez, de Oaxaca e antigo seminarista – defendendo como lei suprema a não-reeleição do Presidente da República (Plan de la Noria, 1871; Plan de Tuxtepec, 1876), desencadeou uma revolução que o levou ao governo do México durante quase 30 anos: foi reeleito oito vezes, em farsas eleitorais, entre 1877 e 1910.

Neste longo tempo exerceu uma ditadura de ordem e progresso, muito favorável aos investidores estrangeiros — petróleo, redes ferroviárias — sobretudo norte-americanos, e às camadas nacionais mais privilegiadas. Também em seu tempo incrementou o latifúndio, e se mantiveram injustiças sociais muito graves (Kenneth Turner, México bárbaro). Quanto ao mais, o liberalismo do Porfiriato foi mais tolerante com a Igreja. Ainda que deixasse vigentes as leis persecutórias da Reforma, normalmente não as aplicava; mas manteve em seu governo, especialmente na educação preparatória e universitária, o espírito laicista anti-religioso.

As perseguições de Carranza y Obregón (1916-20, 1920-24)

Os últimos anos do Porfiriato e os seguintes, em meio a contínuas ingerências dos Estados Unidos, registram numerosas conspirações e sublevações, movimentos indígenas de reivindicação agrária, e guerras marcadas por crueldades atrozes. A revolução liberal, que tão duramente perseguia os católicos, ia devorando também, um após o outro, seus próprios filhos: é o horror do “processo histórico do liberalismo capitalista, que durante o século XIX e metade do XX conseguiu apoderar-se das consciências de nossos povos e não apenas de suas riquezas” (Vasconcelos, Hª de México 10). Surgem neste período nomes como os do presidente Madero (+1913, assassinado), Emiliano Zapata (+1919, assassinado), presidente Carranza (+1920, assassinado), Pancho Villa (+1923, assassinado), ex-presidente Alvaro de Obregón (+1928, assassinado)...

A revolução do general Venustiano Carranza, que o levou à presidência (1916-20), caracterizou-se pela dureza de sua perseguição à Igreja. No caminho para o poder, suas tropas multiplicavam os incêndios de templos, roubos e violações, atropelamentos de sacerdotes e religiosas. Ainda hoje, no México, carrancear significa roubar, e um agressor é um carrancista.

E, já no poder, quando os chefes militares se tornavam governadores dos Estados liberados, ditavam contra a Igreja leis tirânicas e absurdas: que houvesse Missa somente aos domingos e com determinadas condições; que não se celebrassem Missas de defuntos; que não se conservasse água para os batismos nas pias batismais, e que se desse o batismo com a água que corre das bicas; que se administrasse o sacramento da penitência somente aos moribundos, e, “na ocasião, em voz alta e de frente para um empregado do Governo” (López Beltrán 35).

A orientação anticristã do Estado cristalizou-se finalmente na Constituição de 1917, realizada em Querétaro por um Congresso Constituinte formado unicamente por representantes carrancistas. Com efeito, naquela grotesca Constituição, o Estado liberal moderno, agravando as perseguições já iniciadas com Juárez nas Leis de Reforma, estabelecia a educação laica obrigatória (art. 3), proibia os votos e o estabelecimento de ordens religiosas (5), assim como todo ato de culto fora dos templos ou das casas particulares (24). E não apenas perpetuava o confisco de bens da Igreja, mas proibia a existência de colégios de inspiração religiosa, conventos, seminários, bispados e casas curiais (27). Todas estas e outras muitas barbaridades semelhantes se impunham no México sem que nenhum liberal ortodoxo do Ocidente pestanejasse.

O governo do general Obregón (1920-24), novo presidente, levou adiante o impulso perseguidor da Constituição mexicana: pôs-se uma bomba em frente ao arcebispado do México; içaram-se bandeiras da revolução bolchevique — o que havia de mais progressista naqueles anos — sobre as catedrais de México e de Morelia; um empregado da secretaria do Presidente fez explodir uma bomba ao pé do altar da Virgem de Guadalupe, cuja imagem ficou ilesa; foi expulso Monsenhor Philippi, Delegado Apostólico, por bendizer a primeira pedra posta no Cerro Del Cubilete para o monumento a Cristo Rei... 

A perseguição de Calles (1924-29)

Depois da presidência de Juárez (1855-72), o México foi governado quase sempre, como vimos, por generais: general Porfirio Díaz (1877-1910), general Huerta (13-14), general Carranza (16-20), general Obregón (20-24). E agora, de forma ainda mais brutal, vai ser governado pelo general Plutarco Elías Calles (1924-29).

Reformando o Código Penal, a Lei Calles, de 1926, expulsa os sacerdotes estrangeiros, penaliza com multas e prisões os que dêem ensino religioso ou estabeleçam escolas primárias, ou se vistam como clérigo ou religioso, ou se reúnam de novo tendo sido retirados do claustro, ou induzam à vida religiosa, ou realizem atos de culto fora dos templos... Repetindo a estupidez dos tempos de Juárez, também agora, a partir de uma Secretaria do governo callista, se faz a ridícula tentativa de criar uma Igreja cismática mexicana, desta vez em torno de um precário Patriarca Pérez, que finalmente morreu em comunhão com a Igreja.

Os governadores dos diversos Estados rivalizam em zelo persecutório, e então o de Tabasco, general Garrido Canabal, um déspota corporativista, ao estilo mussoliniano, e mulherengo, exige dos sacerdotes que se casem, se quiserem exercer seu ministério (Meyer I,356). Em Chiapas, uma Lei de Prevenção Social “contra loucos, degenerados, toxicômanos, ébrios e vagabundos” dispõe: “Poderão ser considerados pessoas de má vida e submetidos a medidas de segurança, tais como reclusão em sanatórios, prisões, trabalhos forçados etc., os mendigos profissionais, as prostitutas, os sacerdotes que exerçam sem autorização legal, as pessoas que celebrem atos religiosos ou ensinem dogmas religiosos às crianças, os homossexuais, os fabricantes e vendedores de fetiches e estampas religiosas, assim como os vendedores  de livros, folhetos ou qualquer impresso com que se pretenda inculcar preconceitos religiosos” (+ Rivero del Val 27).

Cessação do culto (31-7-1926)

Os bispos mexicanos, em uma enérgica Carta pastoral (25-7-1926), protestam, unânimes, manifestando sua decisão de trabalhar para que “esse Decreto e os Artigos anti-religiosos da Constituição sejam reformados. E não cessaremos até o ter conseguido”. O presidente Calles responde friamente: “Nós nos temos limitado a fazer cumprir as [leis] que existem, uma desde o tempo da reforma, há mais de meio século, e outra desde 1917... Naturalmente que meu Governo não pensa sequer em suavizar as reformas e acréscimos ao código penal”. Era esta a tolerância dos liberais ante o fanatismo dos católicos. Eles pediam aos católicos somente que obedecessem às leis.

Poucos dias depois, em 31 de julho, e sem prévia consulta à Santa Sé, o Episcopado ordena a suspensão do culto público em toda a República. Imediatamente, doze bispos, entre eles o Arcebispo do México, são tirados de suas sedes, e expulsos do país sem julgamento prévio.

É de supor que os callistas haviam acolhido a suspensão dos cultos religiosos com frieza, e até com uma certa satisfação. Eles não esperavam, como tampouco a maioria dos bispos, a reação do povo cristão, ao ficar privado da Eucaristia e dos sacramentos, ao ver os altares sem mantéis e os sacrários vazios, com a portinhola aberta...

cristero Cecilio Valtierra narra aquela experiência com a eloqüência ingênua do povo: “Fechou-se o templo, o sacrário ficou deserto, ficou vazio, já não está Deus ali, foi ser hóspede de quem gostaria de dar-lhe pousada, já temendo ser prejudicado pelo governo; já não se ouviu o badalar dos sinos que chamam o pecador à oração. Só nos restava um consolo: estava a porta do templo aberta, e os fiéis, de tarde, rezavam o Rosário e choravam suas culpas. O povo estava de luto, acabara-se a alegria, já não havia bem-estar nem tranqüilidade, o coração se sentia oprimido, e, para completar, o governo proibiu as reuniões nas ruas: até o comum, ou seja, uma pessoa ficar em pé diante de outra, era um delito grave”.

Levantamento dos cristeros (agosto 1926)

Já em meados de agosto, por ocasião do assassinato do padre de Chalchihuites e de três leigos católicos com ele, levanta-se o primeiro foco do movimento armado. E, em seguida em Jalisco, em Huejuquilla, onde, em 29 de agosto, o povo insurreto dá o grito de fidelidade: Viva Cristo Rei!... Entre agosto e dezembro de 1926, produziram-se 64 levantamentos armados, espontâneos, isolados, a maior parte em Jalisco, Guanajuato, Guerreiro, Michoacán e Zacatecas.

Aqueles a quem o Governo, por zombaria, chamava cristeros não tinham armas no início, a não ser um machete ou, na melhor das hipóteses, uma escopeta; depois as foram conseguindo dos soldados federais, os juanes callistas, nas guerrilhas e ataques de surpresa. Sempre foi problema para os cristeros o provimento de munições; na realidade, “não tinham outra fonte de munições senão o exército, do qual as tomavam ou compravam” (Meyer I, 210)...

Em Aranas, um povoado de Los Altos, segundo refere J. J. Hernández, afluíam de todas as propriedades rurais novos contingentes, “alguns armando-se até com roçadeiras, machados, e, nas propriedades onde sabiam haver armas, iam pedi-las... Da pena ver esta gente; uns, além de trazer armas ruins, traziam umas garras de huaraches [sandálias], os chapéus rasgados, rotos, as roupas todas remendadas, outros iam a pêlo no cavalo, alguns não traziam nem freio, enquanto outros seguiam simplesmente a pé” (+ Meyer I,133).

À frente do movimento, para dar-lhe unidade de plano e de ação, pôs-se a Liga Nacional Defensora de la Liberdad Religiosa, fundada em março de 1925 com o fim que seu nome expressa, e que havia se estendido, em pouco tempo, por toda a república.

O levantamento vem assim expresso na carta de um cristero, camponês como quase todos o eram, Francisco Campos, de Santigado Batacora, em Durango:

“No dia 31 de Julho de 1926, alguns homens fizeram com que Nosso Senhor se ausentasse de seus templos, de seus altares, dos lugares dos católicos, mas outros homens fizeram com que voltasse outra vez; estes homens não viram que o governo tinha muitos soldados, muito armamento e muito dinheiro para fazer-lhes a guerra; isto eles não viram, o que viram foi defender seu Deus, sua Religião, sua Mãe, que é a Santa Igreja, isto é o que eles viram. A estes homens não importou deixar suas casas, seus pais, seus filhos, suas esposas e tudo o que possuíam; foram aos campos de batalha procurar Deus Nosso Senhor. Os rios, as montanhas, os montes, as colinas são as testemunhas de que estes homens falaram a Deus Nosso Senhor com o Santo Nome de Viva Cristo Rei, Viva a Santíssima Virgem de Guadalupe, Viva o México. Os mesmos lugares são o testemunho de que aqueles homens regaram o solo com seu sangue e, não contentes com isto, deram até suas vidas para que Deus Nosso Senhor voltasse de novo. E, vendo Deus Nosso Senhor que aqueles homens realmente o procuravam, dignou-se vir outra vez a seus templos, a seus altares, aos lugares dos católicos como estamos vendo agora, e recomendou aos jovens de hoje que, se no futuro aparecer novamente o problema, não se esqueçam do exemplo que nos deixaram nossos antepassados” (Meyer I,93).

Aprovações eclesiásticas da luta armada

Mas, antes de fazer a crônica desta guerra de mártires, temos de nos deter a analisar com cuidado, pois a questão é muito grave, a atitude da hierarquia eclesiástica contemporânea com relação aos cristeros. Prestemos atenção às datas.

18 de outubro de 1926. Em Roma Pio XI recebe uma Comissão de Bispos mexicanos, que lhe informa da situação de perseguição e de resistência armada. Poucos dias depois, tendo-se dirigido ao Cardeal Gasparri a questão de se os prelados podiam dispor dos bens da Igreja para a defesa armada, responde que “ele, o secretário de Estado de Sua Santidade, se fosse Bispo mexicano, venderia suas alfaias para o caso” (Ríus 138).

18 de novembro de 1926. Um mês depois, o Papa publica a encíclica Iniquis afflictisque, em que denuncia as agressões sofridas pela Igreja no México:

”Já quase não resta liberdade alguma à Igreja [no México], e o exercício do ministério sagrado se vê de tal maneira impedido, que é castigado, como se fosse um delito capital, com penas severíssimas”. O Papa elogia com entusiasmo a Liga Nacional Defensora de la Libertad Religiosa, espalhada “por toda a República, na qual seus membros trabalham concorde e assiduamente com o fim de ordenar e instruir a todos os católicos, para opor aos adversários uma frente única e solidíssima”. E comove-se ante o heroísmo dos católicos mexicanos: “Alguns destes adolescentes, destes jovens — como conter as lágrimas ao pensá-lo — foram lançados à morte com o rosário na mão, ao grito de Viva Cristo Rei! Inenarrável espetáculo que se oferece ao mundo, aos anjos e aos homens”. 

30 de novembro de 1926. Os dirigentes da Liga Nacional, antes de assumir efetivamente a direção do movimento cristero, quiseram assegurar-se do apoio do Episcopado, e, para isto, dirigiram aos bispos um Memorial, em que solicitavam:

“1) Uma ação negativa, que consista em não condenar o movimento; 2) Uma ação positiva, que consista: a) em sustentar a unidade de ação, pela uniformidade de um mesmo plano e um mesmo comandante; b) em formar a consciência coletiva, por meios que estejam ao alcance do Episcopado, no sentido de que se trata de uma ação lícita, louvável, meritória e de legítima defesa armada; c) em habilitar canonicamente párocos residentes...; d) em organizar e patrocinar uma campanha, desenvolvida energicamente, entre os católicos ricos, para que forneçam fundos destinados à luta, e para que, pelo menos uma vez na vida, compreendam a obrigação que têm de contribuir”.

Em 30 de novembro os chefes da Liga são recebidos por Monsenhor Ruiz y Flores e por Monsenhor Díaz y Barreto. O primeiro comunica-lhe alegremente que, “como de costume, se saíram bem”; que, estudadas as propostas pelos bispos reunidos na Comissão, “os diversos pontos do Memorial tinha sido aprovados por unanimidade”, menos os dois últimos, o dos párocos residentes e o dos ricos, não convenientes ou irrealizáveis.

15 de janeiro de 1927. O Comitê Episcopal, respondendo a algumas declarações incriminadoras do Chefe do Estado-Maior callista, afirma que o Episcopado é alheio ao levantamento armado; mas declara ao mesmo tempo “que há circunstâncias na vida dos povos em que é lícito aos cidadãos defender pelas armas os direitos legítimos que em vão procuraram salvar por meios pacíficos”; e faz recordar a todos os meios pacíficos utilizados pelos bispos e pelo povo, e desprezados pelo Governo. “Foi assim que os prelados da hierarquia católica deram sua plena aprovação aos católicos mexicanos para exercer seu direito à defesa armada, que a Santa Sé prognosticou que ocorreria, como único caminho que lhes restava para não ter de sujeitar-se à tirania anti-religiosa” (Ríus 135).

16 de janeiro de 1927. Em começos de 1927, no entanto, chegam a Roma notícias da imprensa nas quais se comunica que Monsenhor Pascual Díaz y Barreto, jesuíta, bispo de Tabasco, que havia sido desterrado do México, em diversas declarações feitas no exílio se mostra reservado quanto aos cristeros: “Como bispo e como cidadão reprova Díaz a Revolução, qualquer que seja sua causa” (Lpz. Beltrán 108).

Imediatamente, em 16 de janeiro, a Comissão de bispos mexicanos envia uma dura carta a Monsenhor Díaz y Barreto, então residente em Nova Iorque, lamentando com profunda tristeza suas declarações públicas feitas “contra os generosos defensores da liberdade religiosa e algumas favoráveis ao perseguidor, Calles”.

Os combatentes “dão o sangue e a vida para cumprir um santo dever, o de conquistar a liberdade da Igreja”. Ante o abuso gravemente injusto do poder, “existe o direito de resistir e defender-se, já que, tendo sido vãos todos os meios pacíficos postos em prática, é justo e devido recorrer à resistência e à defesa armada”. Recordam-lhe também os bispos que este “é o sentir da maioria de nossos irmãos [bispos] do México”, e também o “dos Padres da Companhia, não somente no México, mas na Europa, e especialmente aqui em Roma”. A propósito lhe citam as declarações feitas alguns dias antes (3-2-1927) pelo famoso moralista da Gregoriana, padre Vermeersch, jesuíta: “Fazem muito mal aqueles que, crendo defender a doutrina cristã, desaprovam os movimentos armados dos católicos mexicanos. Para a defesa da moral cristã não é necessário valer-se de falsas doutrinas pacifistas. Os católicos mexicanos estão valendo-se de um direito e cumprindo um dever”. Pouco depois chega um cabograma com a resposta de Monsenhor Díaz y Barreto: “Autorizo honorável Comissão negar aquilo que se assegura dito por mim, contrário o determinado por todos nós, aprovado, Bendito Santa Sé. Autorizo honorável Comissão publicar este cabograma, se conveniente” (Lpz. Beltrán 109-110).

22 de fevereiro de 1927. Em Roma, o presidente da Comissão de Bispos mexicanos declara à imprensa: “Fazem bem ou mal os católicos recorrendo às armas? Até agora não havíamos querido falar, para não precipitar os acontecimentos. Mas, uma vez que Calles mesmo empurra os cidadãos à defesa armada, devemos dizer: os católicos do México, como todo ser humano, gozam em toda a sua amplitude o direito natural e inalienável de legítima defesa” (107).

Pio XI bendiz o grito: Viva Cristo Rei!

17 de maio de 1927. Anos antes dos acontecimentos de que nos ocupamos, em 1914, São Pio X, a pedido dos bispos mexicanos, tinha autorizado, como “um projeto que nos é indizivelmente agradável”, consagrar a Cristo Rei a República do México, e pôr a coroa real nas imagens do Sagrado Coração de Jesus, pondo também um cetro em sua mão, para assim significar sua realeza.

A consagração do México a Cristo Rei, coisa aparentemente impossível —semelhantemente à realizada por García Moreno no Equador em 1873 — pôde, todavia, realizar-se, aproveitando a vênia do general Victoriano Huerta, presidente (1913-1914), índio puro de Jalisco, que, por rara circunstância, era católico e não maçom, sendo, ao contrário, odiado e caluniado pelas lojas. Foi então, em 6 de fevereiro de 1914, durante o soleníssimo ato realizado na Catedral, em presença de todas as primeiras autoridades religiosas e civis da nação, que pela primeira vez no México o povo cristão alçou o grito de Viva Cristo Rei!

Pois bem, nos começos da Cristiada, com a data de 17 de maio de 1927, enviam-se aos bispos mexicanos algumas respostas e licenças chegadas de Roma. E no documento se lê: “Outro rescripto que recebemos concede aos que estão no México, indulgência plenária in articulo mortis, se confessados e comungados, ou pelo menos contritos, pronunciem com os lábios, ou ao menos com o coração, a jaculatória Viva Cristo Rei!, aceitando a morte como enviada pelo Senhor em castigo de nossas culpas”. Jean Meyer nega a existência deste insólito documento (II, 344-345), mas, posteriormente, López Beltrán reproduziu sua fotografia na obra já citada (73).

2 de outubro de 1927. O Cardeal Gasparri, secretário de Estado, em algumas declarações ao The New York Times (2-10-1927), conta os horrores da perseguição sofrida no México pela Igreja, e denuncia o silêncio das nações, ao “tolerar tão selvagem perseguição em pleno século XX”.

Reservas quanto ao movimento armado

À medida que passavam os meses, as reticências da Igreja para apoiar os cristeros cresciam, até em Roma. Recordemos que a doutrina tradicional da Igreja reconhece a licitude da rebelião armada contra as autoridades civis com certas condições: 1. causa muito grave; 2. esgotamento dos meios pacíficos; 3. que a violência empregada não produza maiores males que os que pretende remediar; 4. que exista probabilidade de êxito (+ Pio XI, Firmissimam constantiam 1937: Dz 3775-76).

Pois bem, a perseguição de Calles preenchia claramente as duas primeiras condições. Mas alguns bispos tinham dúvidas quanto a se a terceira se preenchia, pois já havia muito tempo que o povo estava sem sacramentos nem sacerdotes, e a guerra produzia mais e mais mortes e violências. E ainda eram mais numerosos os que criam muito improvável a vitória dos cristeros. Não faltaram até alguns poucos bispos que chegaram a ameaçar de excomunhão quem partisse com os cristeros ou os ajudasse.

Aprovaram a rebelião armada os bispos Manríquez y Zárate, González y Valencia, Lara y Torres, Mora y del Río, e estiveram muito próximos dos cristeros o bispo de Colima, Velasco, e o arcebispo de Guadalajara, Orozco y Jiménez, os quais, com grave risco, permaneceram ocultos em suas dioceses, assistindo seu povo.

Reprovaram-na em maior ou menor medida outros tantos, entre os quais Ruiz y Flores, e Pascual Díaz, que sempre viu a Cristiada como «um sacrifício estéril», condenado ao fracasso. E os demais permaneceram indecisos. Pois bem, sendo discutíveis as condições terceira e quarta, há que evitar todo o juízo histórico cruel, que reparta entre aqueles bispos os qualificativos de fiéis ou infiéis, valentes ou covardes. Em todo o caso, é evidente que a falta de apoio mais claro de seus bispos foi sempre para os cristeros o maior sofrimento...

18 de janeiro de 1928. Por fim, em meados de dezembro de 1927, o arcebispo Pietro Fumasoni Biondi, Delegado Apostólico nos Estados Unidos e encarregado de negócios da Delegação Apostólica no México, transmite a Monsenhor Díaz y Barreto, Secretário do Comitê Episcopal, a quem o mesmo Monsenhor Fumasoni havia nomeado Intermediário Oficial entre ele e os bispos mexicanos, a disposição do Papa segundo a qual “os bispos não apenas devem abster-se de apoiar a ação armada, mas também devem permanecer fora e acima de todo o partido político”. Norma que Monsenhor Díaz comunicou a todos os prelados (18-1-1928) (Meyer I,18; Lpz. Beltrán 111, 150-52)...

Lançaram-se ao campo, «para buscar a Deus»

Agosto de 1926. Muitos camponeses, da zona central do México sobretudo, lançam-se ao monte, como Francisco Campos, “para buscar a Deus Nosso Senhor”.

“Em Cocula (Jalisco), desde 1 de agosto a igreja estava guardada noite e dia por 100 mulheres no interior e 150 homens no átrio e no campanário. Os cinco bairros de Cocula se revezavam em turnos, e a cada alarme se dava um sinal. Então todos acudiam imediatamente, como conta Porfiria Morales. No dia 5 de agosto tocou o sino quando ela estava na cozinha; sua criada María exclamou: Ave Maria Puríssima! Tirou o avental, tomou seu manto e um pedaço de pau, e, quando ela lhe perguntou aonde ia, respondeu-lhe: ‘Que pergunta de minha senhora! Não ouve o sino que chama os católicos daUnião Popular? Em primeiro lugar as coisas de Deus!’ E saiu deixando as panelas no fogo”. (Meyer I,103).

Não se poderá apreciar suficientemente o valor das mulheres católicas mexicanas na Cristiada, distribuindo propaganda, levando avisos, acolhendo perseguidos ou cuidando de feridos, ajudando clandestinamente o provimento de alimentos e armas. As Brigadas Femininas de Santa Joana d’Arc, as Brigadas Bonitas, escreveram histórias de lenda... Mas, enfim, a guerra é coisa de homens, e a ela foram vigorosos camponeses. Ezequiel Mendoza Barragán, um fazendeiro de Coalcomán, em Michoacán, cuja voz patriarcal iremos escutar em outras ocasiões, assim o conta:

“Centenas de pessoas assinamos os papéis, e eles foram enviados a Calles e a seus sequazes, mas tudo foi inútil... Os Calles se julgaram muito poderosos e nos oprimiram ainda mais, matando gente e confiscando bens particulares dos católicos. Eu, ignorante, mas com brio, ao saber dos novos procedimentos de tal governo, me exaltei e me armei de disposição, estes eram meus sentimentos, fui conquistar gente armada e disposta à guerra em defesa da liberdade de Deus e dos próximos” (Testimonio 17).

O curso da guerra

Jean Meyer, no volume I de sua obra, descreve com detalhes as vicissitudes por que passou no correr dos anos a guerra da Cristiada, que ele divide nestas fases:

— incubação, de julho a dezembro de 1926;

— explosão do levantamento armado, a partir de janeiro de 1927;

— consolidação das posições, de julho 1927 a julho de 1928, ou seja, desde que o general Gorostieta assume a direção dos cristeros até a morte de Obregón.

— prolongamento do conflitode agosto 1928 a fevereiro de 1929, tempo em que o Governo começa a entender que não poderá vencer militarmente os cristeros;

— ápice do movimento cristero, de março a junho de 1929;

— dissolução dos cristeros, em junho de 1929, quando se produzem os mal chamados Acordos entre a Igreja e o Estado.

O exército federal

O exército, “consubstancial com o governo” no México de então, “considerava a Igreja sua adversária pessoal. Agente ativo do anticlericalismo e da luta anti-religiosa, fez sua própria guerra, sua guerra religiosa. O general Eulogio Ortiz mandou fuzilar um soldado no pescoço do qual vira um escapulário. Alguns oficiais conduziam suas tropas ao combate com o grito de Viva Satã!” (Meyer I, 146).

“Cada arma recrutava por sua conta. O alistamento devia ser voluntário e firmado ao menos por três anos”, condição que muitas vezes não se cumpria, tanto que “continuavam utilizando cordas para atar os voluntários. Lançavam mão de quaisquer: condenados por crime comum, trabalhadores desempregados, camponeses” e sobretudo “o subproletariado rural e indígena, vencidos ou não” (149-150). A brutalidade e a indisciplina desta tropa é tal, que nem se pode descrever.

Por não existir serviço de intendência, “a copeiragem estava a cargo das mulheres dos soldados, as famosas soldaderas, que marchavam ao lado do exército em campanha e como gafanhotos caíam nas fazendas e nos povoados... A deserção, freqüente em tempo de paz, chegava a ser massiva em tempo de guerra” (152). O general Amaro, chefe do exército federal, não conseguia “pôr em linha de combate mais de 70.000 homens, ainda que se passasse todo o tempo recrutando: 20.000 desertores em um ano, de 70.000 soldados!” (153). Este general famoso, o índio Amaro, filho de um peão de Zacatecas, homem inteligente, implacável e sanguinário, o que mandou sua aviação bombardear no cerro do Cubilete o monumento a Cristo Rei, tornou-se muito culto, e reconciliou-se com a Igreja vários anos antes de morrer.

Os federais, maus cavaleiros, eram piores soldados, que disparavam de longe, gastavam muita munição, perdiam as armas com facilidade, e não conheciam bem o terreno por onde andavam. Isto explica por que os cristeros, cujas características de luta eram as contrárias, lhes infligiram tantas baixas. Os callistas, isto sim, eram muito cruéis, mas “a dureza da repressão, a execução de todos os prisioneiros, a matança dos civis, o saque, a violação, o incêndio dos povoados e das colheitas deixavam na esteira dos federais outros novos levantamentos em germe” (I,194).

A guerra também se fazia na imprensa do governo, ocultando a magnitude do conflito ou dando sempre a vitória por iminente. Unida à luta militar, o general Amaro propugnava uma campanha de “desfanatização”, como aquela pela qual deu ordem ao governador de Jalisco de mudar os nomes de todos os lugares que tinham nome de santo (I, 178). Todos os meios valiam, e também o suborno. Assim, em certa ocasião, o governou tentou comprar um chefe cristero chamado “o 14”, o qual respondeu: “Que a mim não dêem nada, que se arranjem com os padrecos e as igrejas, que eu estou em paz; mas, enquanto não o conseguirem, não pensem que com dinheiro vão comprar-me” (177).

O desespero do governo ia crescendo à medida que passavam os meses, e que se via incapaz de vencer — nas palavras do governador de Colima — “as hordas episcopais de fanáticos que, enganados pelo palavrório clerical, se lançaram à louca aventura de restaurar o predomínio dos padres”.

Balanço da guerra

Em meados de 1928, os cristeros, uns 25.000 homens em armas, “já não podiam ser vencidos”, diz Meyer, “o que constituía uma grande vitória; mas o governo, sustentado pela força norte-americana, não parecia prestes a cair” (I,248). Em verdade, a posição dos cristeros era, em meados de 1929, melhor que a dos federais, pois, combatendo por uma Causa absoluta, tinham melhor moral e disciplina, e operando em pequenos grupos que atacavam e fugiam — piquihuye — sofriam muito menos baixas que os soldados callistas. Depois de três anos de guerra, calcula-se que nela morreram 25.000 a 30.000 cristeros versus 60.000 soldados federais.

Em fevereiro de 1929, o embaixador norte-americano Morrow — que insistia com o governo e a imprensa que não falassem de cristeros, mas de “bandidos” (I, 301) — julgava improvável pacificar o Estado “antes que se solucione a questão religiosa”. Em fevereiro os mesmos políticos viam um panorama muito negro, e um senador dizia em um discurso a seus colegas: “Nossos soldados não sabem combater camponeses ou não se quer que a rebelião acabe? Pois diga-se de uma vez, e não fiquemos a pôr panos quentes. Não se esqueçam senhores de que com três Estados mais que se levantem de fato, cuidado com o Poder Público, senhores!” (I, 285).

Em meados de 1929 via-se já claramente que, a menos a curto prazo, nem um lado nem o outro podia vencer. Não obstante, neste empate havia uma grande diferença: enquanto os cristeros estavam dispostos a seguir lutando o tempo que fosse necessário até obter a derrogação das leis que perseguiam a Igreja, o governo, vendo-se quebrado tanto em termos econômicos como em termos de prestígio diante das nações, tinha extrema urgência em terminar o conflito quanto antes. Eram estas, pois, algumas condições favoráveis para negociar o reconhecimento dos direitos da Igreja...

Rumores de um possível acordo

Desde meados de 1927 estava no comando supremo dos cristeros o general Gorostieta, militar de carreira, a quem iam chegando, de quando em quando, rumores de possíveis acordos entre a Igreja e o Estado pelas costas da Guarda Nacional cristera. Como estes rumores iam aumentando, em 16 de maio de 1929 escreveu aos bispos mexicanos uma longa carta, de que citamos um trecho:

“Desde que começou nossa luta, não tem deixado de se ocupar a imprensa nacional, e até a estrangeira, de possíveis acordos entre o chamado governo e algum insigne membro do Episcopado mexicano, para terminar o problema religioso. Sempre que tal notícia apareceu, sentiram os homens em luta que um calafrio de morte os invade, mil vezes pior que todos os perigos que decidiram enfrentar. Cada vez que a imprensa nos diz que um bispo está possivelmente em entendimentos com o callismo, sentimos como uma bofetada no rosto, mais dolorosa ainda porque vinda de alguém de quem poderíamos esperar um consolo, uma palavra de alento em nossa luta; alento e consolo que, com uma única muito honrosa exceção (Monsenhor Martínez y Zárate, bispo de Huejutla, desterrado há 17 anos), de ninguém recebemos.

“Se os bispos, ao se apresentar para tratar com o governo, aprovam a atitude da Guarda Nacional, se estão de acordo em que era já a única atitude digna que nos deixava o déspota, terão de consultar nosso modo de pensar e atender  nossas exigências; nada temos que dizer neste caso...”

“Se os bispos, ao tratar com o governo, desaprovam nossa atitude, se não levam em conta a Guarda Nacional e tentam dar solução ao conflito independentemente do que nós ansiamos...; se se esquecem de nossos mortos, se não levam em consideração nossos milhares de viúvas e órfãos, então... rejeitamos tal atitude como indigna e traidora...

“Muitas e de mui diversa índole são as razões que cremos ter para que a Guarda Nacional, e não o Episcopado, seja quem resolva esta situação. Claro está, o problema não é puramente religioso; é este um caso integral de liberdade, e a Guarda Nacional se constituiu de fato em defensora de todas as liberdades e na genuína representação do povo, pois o apoio que o povo nos dá é o que nos fez subsistir...

“Como última razão, cremos ter direito a que nos escutem, se não por outra causa, pelo menos por sermos parte da Igreja Católica do México, precisamente por sermos parte importantíssima da Instituição que os bispos mexicanos governam” (+ Meyer I, 316-320).

Em 2 de junho de 1929 o general Gorostieta foi assassinado em uma emboscada pelos callistas, e o sucedeu à frente da Guarda Nacional o general Degollado.

Os «mal chamados Acordos» (21-6-1929)

A historia dos Acordos realizados em junho de 1929 é tão triste, que faremos dela uma referência muito breve, atendo-nos sobretudo à documentada informação que López Beltrán recentemente deu sobre o assunto. Monsenhor Ruiz y Flores, Delegado Apostólico ad referendum, escolheu como secretário para negociar Monsenhor Pascual Díaz y Barreto, o “único bispo que tinha mostrado decidido empenho em conseguir uma negociação com os callistas” (Lpz. Beltrán 499).

Ambos foram trazidos dos Estados Unidos ao México, incomunicáveis em um vagão de trem, pelo embaixador norte-americano Dwight Whitney Morrow, banqueiro e diplomata, protestante e maçom, cúmplice de Calles e do presidente Portes Gil. Já na cidade do México, continuaram incomunicáveis na luxuosa residência do banqueiro Agustín Legorreta. Não receberão nem os bispos mexicanos nem um enviado da Liga. Tampouco quiseram receber o bispo Miguel de la Mora, secretário do Subcomitê Episcopal, que mandou o aviso a Monsenhor Flores de que “tinha grandes e urgentes coisas para comunicar-lhe, e que não fosse firmar nada sem antes o ouvir”. As portas daquela casa, nestes dias, só estiveram abertas “para Morrow, para os sacerdotes estrangeiros: Wilfrid e Parsons e Edmundo Walsh, S.J. [especialista em política internacional da Universidade de Georgetown], para Cruchaga Tocornal, o embaixador do Chile, e para outros estrangeiros. Para os estranhos. Não para os mexicanos” (Lpz. Beltrán 516).

Pode-se afirmar, pois, que os dois bispos dos Acordos com Portes Gil não cumpriram as Normas escritas que Pio XI lhes havia dado, pois não levaram em conta o juízo dos bispos nem o dos cristeros ou da Liga Nacional; tampouco conseguiram, nem de longe, a derrogação das leis persecutórias da Igreja; e menos ainda obtiveram garantias escritas que protegessem os cristeros uma vez depostas as armas.

Só conseguiram do Presidente algumas palavras de conciliação e de boa vontade, e algumas Declarações escritas em que, sem derrogar lei alguma, se afirmava o propósito de aplicá-las “sem tendência sectária nem preconceito algum”. Dessa forma, os dois bispos, convencidos pelo embaixador norte-americano Morrow de que não era possível conseguir do Presidente mais que tais Declarações, e aconselhados por Cruchaga e pelo padre Walsh, que as “criam suficientes”, aceitaram o documento redigido pessoalmente em inglês pelo mesmo Morrow:

“O bispo Díaz e eu tivemos várias conferências com o Exmo. Presidente da República... regozijo-me em manifestar que todas as conversas se distinguiram por um espírito de mútua boa vontade e respeito. Em conseqüência de tais Declarações feitas pelo Exmo. Presidente, o clero mexicano renovará os serviços religiosos de acordo com as leis vigentes. Eu acato a esperança de que a renovação dos serviços religiosos [expressão protestante, própria de Morrow, seu redator] possa conduzir o Povo Mexicano, animado por um espírito de boa vontade, a cooperar em todos os esforços morais que existam para benefício de todos os da terra de nossos antepassados. México, D.F. 21 de junho de 1929. Leopoldo Ruiz, Arcebispo de Morelia e Delegado Apostólico” (Lpz. Beltrán 527).

As leis vigentes, claro, eram aquelas que haviam desencadeado a Cristiada. Para derrogar aquelas leis vigentes tinham morrido inutilmente vinte ou trinta mil cristeros?...

Frutos da Cristiada

Inutilmente lutaram, com tão grandes perdas e sofrimentos, os criteros e suas famílias? Em 1929, o jesuíta Eduardo Iglesias, com o pseudônimo de Aquiles P. Moctezuma, em El conflicto religioso de 1926, escrevia relativamente satisfeito: “Terminadas felizmente as conferências entre o Estado e a Igreja”... (441). Não é essa a interpretação mais comum. Mas também há atualmente aqueles que acreditam que os Acordos “foram um mal menor dentro das circunstâncias”. Assim o crê, por exemplo, Juan Landerreche Obregón, o qual, ademais, insiste em que os Acordos:

“de nenhuma maneira significaram que o esforço, o sacrifício e o sangue dos cristeros haviam sido inúteis para a liberdade da Igreja Católica e o respeito à religião e aos fiéis. Pelo contrário, os criteros demonstraram ao governo com seus sacrifícios, seus esforços e suas vidas que no México não se pode atacar impunemente nem a religião católica nem a Igreja... E tudo isto se demonstrou de forma tão convincente aos tiranos, que os obrigou não somente a desistir da perseguição religiosa, mas também a respeitar a religião e sua prática e seu desenvolvimento, apesar de todas as disposições da Constituição [de 1917] que a tanto se opõem, e que não são cumpridas, porque não se podem cumprir, porque  o povo as rejeita... Os frutos [da Cristiada] foram recolhidos e se seguem recolhendo sessenta anos depois de sua luta, e seguramente culminarão a seu tempo na realização plena pela qual lutaram aqueles que deram esse testemunho” (Prólogo a E. Mendoza, Testimonio 4, 7-8).

Em 1993 o governo do México concedeu à Igreja um precário reconhecimento legal, como associação religiosa, e restabeleceu relações diplomáticas com a Santa Sé.

Um triunfo da maçonaria

Alguns dias depois dos Acordos  alcançados, sobretudo, pelos maçons Morrow e Portes Gil, em 27 de junho de 1929, os maçons deram um grande banquete ao presidente Portes Gil, o qual falou, ao fim, “a seus reverendos irmãos”:

“Enquanto o clero foi rebelde às Instituições e às Leis, o Governo da República esteve no dever de combatê-lo... Agora, queridos irmãos, o clero reconheceu plenamente o Estado. E declarou sem reservas que se submete estritamente às Leis (aplausos). E eu não podia negar aos católicos o direito que têm de submeter-se às Leis... A luta [não obstante] é eterna. A luta foi iniciada há vinte séculos. Protesto ante a maçonaria que, enquanto eu estiver no Governo, se cumprirá estritamente esta legislação (aplausos).

No México, o Estado e a maçonaria, ultimamente, foram uma mesma coisa: duas entidades que caminham conjugadas, porque os homens que nos últimos anos estiveram no poder souberam sempre solidarizar-se com os princípios revolucionários da maçonaria” (+ Lpz. Beltrán 540-541).

Alude à mesma revolução que assassinou García Moreno, e que tantas vitórias alcançou nos séculos XIX e XX na América hispânica com o apoio da maçonaria local e norte-americana. Portes Gil, mais tarde, em seu livro La lucha entre el Poder Civil y el Clero, deixou bem claro que “sua aparente capitulação [dos Bispos], à que deram o nome de Acordo com o Governo, não foi outra coisa que sua submissão incondicionalmente à Lei” (547). Em 1958, estranho à Igreja, morreu em Mixcoac, e em nota fúnebre publicada pela “Mui Respeitável Grã Loja Vale do México” era citado como “Membro Ativo e Grão Capitão de Guardas deste Supremo Conselho do Grau 33” (546).

Dissolução dos cristeros

O Chefe supremo da Guarda Nacional, general Jesús Degollado Guízar, dirigiu a todos os cristeros, “ainda que nos rasgue a alma”, uma patética mensagem de licenciamento, da qual retiramos o último parágrafo:

“A Guarda Nacional desaparece, não vencida por nossos inimigos, mas, em verdade, abandonada por aqueles que deviam receber, em primeiro lugar, o fruto valioso de seus sacrifícios e abnegação. AVE, CRISTO! Os que por Ti vamos à humilhação, ao desterro, talvez à morte gloriosa, vítimas de nossos inimigos, com o mais fervoroso de nossos amores, te saudamos, e, uma vez mais, te aclamamos.

REI DE NOSSA PATRIA.

VIVA CRISTO REI!

VIVA SANTA MARIA DE GUADALUPE!

Deus, Pátria e Liberdade”.

“Talvez à morte gloriosa...” Com efeito, pouco depois dos Acordos, o Governo, mostrando “o espírito de boa vontade e respeito” assegurado aos Bispos negociadores, começou, através de sinistros agentes, “o assassinato sistemático e premeditado” dos cristeros que haviam deposto as armas, “com o fim de impedir qualquer renovação do movimento... A caça de homens foi eficaz e séria, já que se pode arriscar, apoiando-se em provas, a cifra de 1.500 vítimas, das quais 500 chefes, da a patente de tenente à de general”

Também “se deve dizer, e isto honra aqueles homens, que mais de um general federal advertiu os cristeros do perigo que os ameaçava” (Meyer I, 344-346). De qualquer modo, ainda assim, mais chefes cristeros foram mortos depois dos Acordos do que durante a guerra.

Isto envolveu uma longa e duríssima prova para a fé dos cristeros, que, porém, se mantiveram fiéis à Igreja com a ajuda, sobretudo, dos mesmos sacerdotes que durante a guerra os haviam assistido.

Depois dos Acordos

O capelão dos cristeros de Colima, padre Enrique de Jesús Ochoa, em Los cristeros del volcán de Colima, conta que “chorou de verdade o mesmo senhor Ruiz y Flores quando se viu ludibriado, quando viu o fracasso daqueles Acordos, “se acordos se podem chamar”, segundo ele mesmo disse, escrevendo com seu punho e letra (em 1º de agosto de 1929)”.

E acrescenta: “Eu mesmo vi chorar o Papa [Pio XI] ao tratar o assunto dos acordos do México: L’ho veduto piàngere, dizia o Cardial Boggiani ao vice-presidente da Liga Nacional, Dom Miguel Palomar y Vizcarra; e ao que isto escreve, em Roma no ano de 1930” (+ Lpz. Beltrán 517).

A verdade é que os dois bispos dos Acordos, e especialmente Monsenhor Pascual Díaz, sofreram muito nos anos posteriores, e, ao menos por parte de alguns setores, padeceram um verdadeiro linchamento moral.

Recentemente publicava a revista 30 Dias (1993, n. 66) uma entrevista com a pintora mexicana Dolores Ortega, de 85 anos, que viveu de perto a Cristiada com seu marido, Carlos Díez de Sollano, um dos responsáveis da Liga Nacional. À pergunta: Por que os bispos assinaram os acordos? Responde: “Estavam confusos, e os enganaram. Depois dos acordos, convidamos para jantar Monsenhor Díaz, arcebispo do México. Estávamos comendo, e meu esposo lhe disse: “Escute-me, Ilustríssimo: Que me diz o senhor dos acordos?” Baixou os olhos, quase lhe saltaram as lágrimas, e disse-lhe: “Veja, Carlinhos, esse assunto, não me toques nele, causa-me muita dor. Enganaram-nos”. E continua o jornalista: Também os senhores se enganaram. Ao que responde a senhora Ortega: “Não, de modo algum. Nós sabíamos que era uma armadilha, que o Governo não respeitaria nunca os acordos Nós o sabíamos todos, os da Liga e os cristeros”. Sabiam os senhores que era um engano, que entregando as armas e deixando a clandestinidade a morte seria certa. Por que então o fizeram? “Porque assim mandava a Igreja. Por fidelidade, por obediência à Igreja”.

Crônica dos mártires

Assim foi. E ainda hoje poucos povos católicos, como o mexicano, amam tanto a seus Bispos e sacerdotes. Mas façamos a crônica dos mártires, o mais importante de tudo quanto ocorreu em torno da Cristiada.

Anacleto González Flores

Os mártires cristeros — no sentido estrito da palavra — foram muitíssimos, ainda que, como é lógico, somente alguns sejam reconhecidos e canonizados pela Igreja como tais. Não é fácil, pois, entre tantos heróis destacar alguns, mas vamos fazê-lo com Anacleto Gonzálvez Flores, que organizou a União Popular em Jalisco, impulsionou a Associação Católica da Juventude Mexicana e se distinguiu como professor, orador e escritor católico. O Mestre Cleto, como costumavam chamar-lhe com respeito e afeto, era um cristão muito piedoso como mostra o seguinte dado:

“Ao final do Rosário, os cristeros de Jalisco diziam esta oração composta por Anacleto González Flores: “Jesus misericordioso! Meus pecados são mais numerosos que as gotas de sangue que derramastes por mim. Não mereço pertencer ao exército que defende os direitos de vossa Igreja e que luta por vós. Quisera nunca haver pecado para que minha vida fosse uma oferenda agradável a vossos olhos. Lavai-me de minhas iniqüidades e limpai-me de meus pecados. Por vossa Santa Cruz, por minha Mãe Santíssima de Guadalupe, perdoai-me, não soube fazer penitência por meus pecados; por isso quero receber a morte como um castigo merecido por eles. Não quero lutar, nem viver, nem morrer senão por vós e por vossa Igreja. Mãe Santa de Guadalupe! Acompanhai em sua agonia este pobre pecador. Concedei que meu último grito na terra e meu primeiro cântico no céu seja Viva Cristo Rei!” (Meyer III, 280).

Pois bem, em 1o. de abril de 1927, foi aprisionado com três rapazes colaboradores seus, os irmãos Vargas, Ramón, Jorge e Florentino. “Se me procuram”, disse, “aqui estou; mas deixem em paz os outros”. Foi inútil seu pedido, e os quatro, com Luis Padilla Gómez, presidente local da A.C.J.M., foram internados num quartel de Guadalajara. Ali interrogaram sobretudo o Mestre Cleto, pedindo-lhe nomes e dados da Liga e dos cristeros, bem como o lugar onde se escondia o valente arcebispo de Guadalajara, Francisco Orozco y Jiménez. Como nada obtiveram dele, despiram-no, suspenderam-no pelos polegares, flagelaram-no e sangraram-lhe os pés e o corpo com lâminas de barbear. Ele lhes disse:

“Só lhes direi um coisa: trabalhei com todo o desinteresse por defender a causa de Jesus Cristo e de sua Igreja. Os senhores me matarão, mas saibam que comigo não morrerá a causa. Muitos estão atrás de mim dispostos a defendê-la até o martírio. Vou-me, mas com a certeza de que verei prontamente, do Céu, o triunfo da Religião e da minha Pátria”.

Atormentaram, então, na sua frente, os irmãos Vargas, e ele protestou: “Não se aproveitem de moços; se querem sangue de homem, aqui estou!” E a Luis Padilla, que pedia confissão: “Não, irmão, já não é tempo de confessar-se, mas de pedir perdão e perdoar. É um Pai, não um Juiz, quem nos espera. O teu próprio sangue te purificará”. Atravessaram-lhe então o lado com um golpe de baioneta, e, como sangrava muito, o general ordenou a execução, mas os soldados escolhidos se negavam a disparar, e foi preciso formar outro pelotão. Antes de receber quatorze balas, ainda conseguiu Anacletro dizer: “Eu morro, mas Deus não morre! Viva Cristo Rei!”

E em seguida fuzilaram Padilla e os irmãos Vargas (+ Rivero 131-133).

Os beatos mártires do México

Uma vez suspenso o culto no México em 31 de julho de 1937, a imensa maioria do clero, uns 3.500, obedecendo a seus Bispos, recolheu-se nas grandes cidades, controladas pelo governo, com o que os civis e combatentes do campo ficavam sem pastores. Estes sacerdotes, ainda que sujeitos a estrita vigilância e, por vezes, a maus tratos, geralmente não correram perigo de morte.

Ao contrário, os sacerdotes que permaneceram no campo fizeram-no com seriíssimo risco, conscientes de que, se fossem presos, seriam executados, muitas vezes com sadismo, já que o governo pensava que “fuzilando sem compaixão todo sacerdote apanhado no campo, obrigava os demais, aterrorizados, a refugiar-se na cidade”, e esperava assim que, “deixando os camponeses sem sacerdotes, sufocaria rapidamente a rebelião” (Meyer I, 40).

Calcula-se que cem ou duzentos permaneceram no campo, escondidos com a proteção dos fiéis, que em muitos casos foram também executados por dar-lhes refúgio.  López Beltrán, considerando os anos 1926-1929, dá o nome de 39 sacerdotes assassinados, e o de um diácono, um menorita e seis religiosos (343-4). Guillermo Ma. Havers recolhe os nomes de 46 sacerdotes diocesanos executados no mesmo período de tempo (Testigos de Cristo en México 205-8). Muitos destes padres pertenciam à arquidiocese de Guadalajara (Jalisco, Zacatecas, Guanajuato) ou à diocese de Colima, pois seus prelados, Monsenhor Orozco y Jiménez e Monsenhor Velasco, permaneceram em seus postos, com boa parte de seu clero.

Em 22 de novembro de 1992, João Paulo II beatificou vinte e dois destes sacerdotes diocesanos, destacando que “sua entrega ao Senhor e à Igreja eram tão firmes, que, ainda tendo a possibilidade de se ausentar de suas comunidades durante o conflito armado, decidiram, a exemplo do Bom Pastor, permanecer entre os seus para não privá-los da Eucaristia, da palavra de Deus e do cuidado pastoral

Longe de todos eles acender ou avivar sentimentos que lançassem irmãos contra irmãos. Ao contrário, na medida de suas possibilidades procuraram ser agentes de perdão e reconciliação”. A Conferência do Episcopado Mexicano, no livro Viva Cristo Rei! (México, 1991), dá-nos breves resenhas biográficas dos 25 mártires que foram beatificados (outras resenhas deles e de outros tantos, também de leigos e religiosos: + Lpz. Beltrán 243-487; Havers, Testigos de Cristo en México). Aqui nos limitaremos a recordar seus santos nomes, com as datas de seu martírio.

Em 1915: David Galván Bermúdez, na perseguição de Carranza (30-1).

Em 1926: Luis Batis Sainz, e com ele três paroquianos da Ação Católica, Manuel Morales, casado, Salvador Lara Puente, e seu primo David Roldán Lara (15-8), também beatificados.

Em 1927: Mateo Correa Magallanes (6-2); Jenaro Sánchez (18-2); Julio Álvarez Mendoza (30-3); David Uribe Velasco (12-4); Sabas Reyes Salazar (13-4); Cristóbal Magallanes, com seu coadjutor Agustín Sánchez Caloca (25-5); José Isabel Flores (21-6); José María Robles (26-6); Miguel de la Mora (7-8); Margarito Flores García (12-11); Pedro Esqueda Ramírez (22-11).

Em 1928: Jesús Méndez Montoya (5-2); Toribio Romo González (25-2); Justino Orona Madrigal (1-7); Atilano Cruz Alvarado (1-7); Tranquilino Ubiarco (5-10);

Em 1937: Pedro de Jesús Maldonado (11-2), em uma perseguição desencadeada em Chihuahua, no tempo do presidente Lázaro Cárdenas, outro general (1934-40).

“A solenidade de hoje [Cristo Rei]”, destacava João Paulo II na cerimônia de beatificação, “instituída pelo Papa Pio XI precisamente quando era mais vigorosa a perseguição religiosa do México, penetrou muito fundo naquelas comunidades eclesiásticas e deu uma força particular a estes mártires, de maneira que ao morrer muitos gritavam: Viva Cristo Rei!”.

A todos, deve-se acrescentar o nome do padre jesuíta Miguel Agustín Pro Juárez, beatificado pelo papa João Paulo II em 25 de setembro de 1988. Diferentemente dos sacerdotes já recordados, ele estava na cidade do México, por ordem de seus superiores, dedicando-se ocultamente ao apostolado. Por ocasião de um atentado contra o presidente Obregón, foram aprisionados e executados os autores do golpe, e, com eles, foram também eliminados o Padre Pro e seu irmão Humberto, que eram inocentes (23-11-1927) (+ Rafael Ramírez Torres, Miguel Agustín Pro; e Luis Butera, Un mártir alegre. Vida del P. Miguel Pro).

O espírito dos cristeros

Mas voltemos aos cristeros, àqueles católicos que se alçaram em armas, lançando-se ao monte “para defender seu Deus, sua Religião, sua Mãe, que é a Santa Igreja”. Traremos acerca deles alguns dados e observações, seguindo principalmente Jean Meyer, que estudou largamente a Cristiada, e entrevistou durante quatro anos muitos antigos cristeros. Dois avisos prévios:

1. Note-se que os dados refletem um tempo, até 1970, em que o povo mexicano estava havia um século e meio independente de Espanha, e havia um século submetido a perseguição religiosa contínua por parte dos governos liberais, a partir de Juárez.

Recordemos que em 1917 a Constituição estabelece a educação leiga. Em 1934 se impõe ao povo a educação socialista, e Calles proclama indispensável que a Revolução se apodere “das consciências da infância e da juventude”, porque ambas “devem pertencer” à Revolução (353) — à revolução liberal ou à revolução socialista, dá no mesmo. E em 1946 se volta à educação arreligiosa. Mas sempre, e em todo o caso, “foi constante a atitude que supõe que é o Estado quem tem o direito de educar, direito negado expressamente à Igreja e não reconhecido aos pais de família” (Acevedo 357).

2. Advirta-se também que a imensa maioria dos cristeros era de agricultores modestos, gente do povo, ainda que também se unissem a eles alguns estudantes, acadêmicos ou trabalhadores. Os ricos católicos, diga-se de passagem, quase nunca os ajudaram, ainda que os cristerosnecessitassem sempre deles, sobretudo para comprar armas e munição. Pois bem, os questionários mostram que, entre os cristeros, “cerca de 60% não haviam ido jamais à escola”, ainda que nem todos fossem analfabetos, pois muitos tinham aprendido a ler em casa (III, 272).

Mostram, não obstante, uma surpreendente cultura, e, mais concretamente, uma profunda cultura cristã. Já conhecemos, por exemplo, a voz de Ezequiel Mendoza Barragán, camponês michoacano de Coalcomán, que nunca foi à escola, e que chegou a ser um célebre coronel dos cristeros. Jean Meyer, que conheceu Mendoza quando este tinha já 75 anos, confessa: “Fiquei deslumbrado, fascinado, pela misteriosa energia que dele irradiava” (pról. Testemunho). E em outro lugar diz que “todas as entrevistas confirmam o caráter representativo de Ezequiel Mendoza”, e que sua linguagem era “especialmente clara e bela” (III, 289). 

Espiritualidade católica. Em entrevistas, crônicas e cartas de cristeros, causa admiração comprovar a qualidade doutrinal, bíblica e poética de suas expressões. Tudo isso contradiz abertamente o menosprezo de alguns pedantes acerca da veracidade do cristianismo entre os indígenas da América. Os cristeros, concretamente, tinham em si toda a força de quem sabe estar fazendo a vontade de Deus. “Conscientes de fazer a vontade de Deus”, diz Meyer, “os cristeros podiam resistir a todas agressões militares, a todas as desditas espirituais e até à mais terrível de todas: os acordos e o pouco apoio clerical” (289). Essa fidelidade à vontade de Deus providente os fazia inquebrantáveis. 

Ezequiel Mendoza, por exemplo, dizia à sua gente: “Não, homens, lembrem-se de que aqui pedimos a Deus o que mais nos convier, e por isso não digamos, desatinados, ‘logo as coisas vão mudar, de um momento para outro’; ‘a folha da árvore não se move sem a grande vontade de Deus’, paciência e resignação” (289). Em certa ocasião, segundo ele mesmo refere, assim exortava os seus: “Não queremos companheiros que tragam fins torcidos, queremos homens que de todo o coração queiram agradar a Deus em tudo, sem outro interesse senão o de defender a sua Igreja, nossa Mãe; já que seus ferozes inimigos a querem exterminar, ainda que não o consigam, porque foi dito por Nosso Senhor Jesus Cristo que ‘as portas do inferno não prevaleceram contra ela’; e o que Cristo prometeu, o cumpre; também disse que ‘passarão os céus e a terra, mas suas palavras não passarão’. Além disso, temos nossa Rainha e Mãe, a Virgem de Guadalupe, e ela nos recomendará a seu Pai, a seu Filho, e a seu esposo, o Espírito Santo. Mais ainda, contamos com todos os santos e santas do Céu e da terra, para que eles roguem a Deus por nós em todo o tempo e lugar, e, se Deus está conosco, não tenhamos medo de morrer em defesa da Igreja e da Pátria, seremos mártires e iremos para o céu por todo o sempre” (Testemunho 31).

Por seu lado, Aurelio Acevedo, um simples agricultor de Zacatecas, assim animava a sua tropa: “Vós, valentes sem mácula, pensai sempre que ides rumo ao Calvário; pensai que ides ao martírio, cume por onde se entra no Céu da Paz e do eterno gozo. Todo redentor tem de ser crucificado a fim de que triunfe e seja glorificado. Não esqueçais que esta lição é mais clara que o sol que nos ilumina: lembrai-vos de Jesus!” (Meyer III, 275).

E outro chefe, Pedro Quintanar, dizia a suas tropas: “Todo o bem que há em vós é de Deus somente e... todo o mau que há em vosso regimento é vosso. A Deus deve-se atribuir todo o bem e toda a glória e todo o triunfo, pois vós sois instrumentos vis” (289).

Práticas religiosas. A guerra foi para muitos cristeros como exercícios espirituais continuados. A missa sobretudo era, quando havia sacerdote, o mais apreciado pelos cristeros, o centro de tudo, cada dia. Mais ainda, “nos acampamentos cristeros, quando isto era possível, o Santíssimo Sacramento ficava exposto, e os soldados, em grupos de quinze ou vinte, praticavam a adoração perpétua. A comunhão freqüente era a regra... Os sacerdotes que permaneciam com os cristeros passavam o tempo confessando, batizando, casando, organizando exercícios espirituais e fazendo missões” (III, 278).

Mas “era freqüente que já não existisse sacerdote, e então um irmão tomava a direção da vida religiosa, como Cecilio Valtierra, o qual todas as manhãs lia o Ofício da Igreja em presença dos fiéis, e todas as tardes conduzia o Rosário. Estas missas brancas iam acompanhadas de outras inovações” (III, 277). “Os cânticos e o Rosário acompanhavam todos os instantes da vida, na marcha ou no acampamento. Os cristeros oravam e cantavam a altas horas da noite, rezando coletivamente o Rosário, de joelhos, e cantando as laudes à Virgem ou a Cristo, entre as dezenas” (III, 279).

Está fora de dúvida que de sua fé cristã tiravam os cristeros toda a sua abnegação e coragem para a guerra. Não eram valentes apesar de serem homens piedosos; eram antes valentes porque eram piedosos.

Somente um exemplo: em certa ocasião, em que os cristeros haviam sofrido várias baixas e estavam tristes, o general “Degollado lhe fez rezar o rosário, após o qual os exortou: ‘Porque Cristo Rei levou os nossos, já vocês se acovardaram, já se esqueceram de que ao alistar-se nas fileiras de Seu exército Lhe ofereceram seus serviços e suas vidas? [...] Deus, sem necessidade de usar de combates, dispõe de nossas vidas quando a Ele Lhe apraz... Deixem suas armas ao pé do altar, que eu nunca serei chefe de covardes”. As tropas choravam e gritavam: “Não, meu general! Seguiremos sendo os valentes de Cristo Rei, e, se não, ponha-nos à prova” (Meyer I, 232).

Idéia do governo e da guerra. Os cristeros tinham da guerra, e da perseguição que a causou, uma idéia muito mais teológica que política. Nas entrevistas, algumas vezes também se reflete certa visão política do conflito. Por exemplo, “para os cristeros, o turco Calles, vendido à maçonaria internacional, representava o estrangeiro ianque e protestante, desejoso de terminar sua obra destruidora (a anexação de 1848 é conhecida de todos, e a situação de sub-homens dos chicanos do Texas e Novo México...), descatolicizando o país” (III, 285).

Não obstante, prevalecia largamente a visão teológica da guerra. Conheciam bem, em primeiro lugar, o dever moral de obedecer às autoridades civis, pois “toda autoridade procede de Deus”, mas também sabiam que “se deve obedecer a Deus antes que aos homens”, quando estes faziam guerra a Deus. Viam claramente na perseguição do governo uma ação poderosa do Maligno.

Ezequiel Mendoza, por exemplo, considerava os governantes de sua pátria “endiabrados callistas, maçons e protestantes maus, que somente buscam as comodidades do corpo e a satisfação de seus caprichos neste mundo enganador e não crêem que os espera um inferno de tormentos eternos, pobres morcegos que se crêem aves e são ratos” (III, 283). E dizia: “Ai dos tiranos que perseguem a Cristo Rei, bestas humanas de que nos fala o Apocalipse! Todos devemos ter muito presente as bem-aventuranças de que nos fala Nosso Senhor Jesus Cristo: pobreza de espírito, lágrimas de contrição, justa mansidão, fome e sede de justiça, misericordiosos, os de coração limpo, os pacificadores, os bons quando são perseguidos pelos maus, como nos perseguem os Calles agora, dizem que porque somos muito maus, que somos obstinados querendo defender a honra e glória daqu’Ele que morreu despido na cruz mais alta e entre ladrões, por ser Ele o pior de todos os humanos, que não quis submeter-se ao supremo da terra. É o que dizem eles, porque lhes falta um domingo e os redobres de tambor, mas nós os daremos com a ajuda de quem ressuscitou dos mortos no terceiro dia, e que, porque nos ama, nos deixou por Mãe a sua própria Mãe” (III, 287).

Este tom profundamente bíblico era o da Cristiada. É a visão do Apocalipse: Satã, o dragão infernal, a antiga serpente, dá sua força à Besta, poder maligno intramundano, que faz guerra aos santos e a quantos guardam o testemunho de Jesus. Neste sentido, os cristeros estavam indizivelmente mais próximos do Apocalipse de São João que da teologia da libertação moderna.

Com toda a razão o Cardeal Ratzinger afirmava que “a teologia da libertação, em suas formas conexas com o marxismo, não é certamente um produto autóctone, indígena, da América Latina ou de outras zonas subdesenvolvidas, nas quais teria nascido e crescido quase espontaneamente por obra do povo. Trata-se, em verdade, ao menos em sua origem, de uma criação de intelectuais; e de intelectuais nascidos ou formados no Ocidente opulento” (Informe sobre a fé, 207). A espiritualidade popular real é a de Ezequiel Mendoza e seus companheiros, cheia de ressonâncias da Bíblia e do catecismo.

O martírio. A teologia do martírio entre os cristeros não é menos rica que a das Paixões dos primeiros séculos, ainda que muitas vezes vá em clave de humor. “Que fácil está o céu hoje, mamãe!”, dizia o jovem Honório Lama, que foi executado com seu pai (III, 299). “É preciso ganhar o céu agora que está barato”, dizia outro (298). Norberto López, que rejeitou o perdão que lhe ofereciam se se alistasse com os federais, antes de ser fuzilado, disse: “Desde que me armei, tive o propósito de dar a vida por Cristo. Não vou perder o jejum 15 para o meio-dia” (302).

Em Sahuayo assassinaram, um a um, 27 cristeros, que morreram, um a um, dando vivas a Cristo Rei; mas pouparam a vida de Clarudio Becerra, por ser muito jovenzinho. Mais tarde, com grande tristeza, ia este pedir junto ao sepulcro de seus companheiros martirizados: “Companheiros, peçam a Deus que eu vá para o céu para acompanhá-los”. Bebia então demasiado, e, quando o padre o censurou, ele disse: “Embebedo-me, Padre, porque tenho a sensação de que Deus não me quis para mártir” (Lpz. Beltrán 66-70)...

Uma vez mais a voz do patriarca Mendoza: “Vocês e eu lamentamos de coração o falecimento destes homens que de boa-fé ofereceram suas vidas, família e demais interesses terrenos, derramaram seu sangue por Deus e por nossa querida pátria, como o fazem os verdadeiros mártires cristãos; pois seu sangue, unido com o de Nosso Senhor Jesus Cristo e com o de todos os mártires do Espírito Santo, nos alcançará de Deus Pai os bens que esperamos na terra e no Céu. Ditosos os que morrem por amor ao Deus que fez os céus e a terra, e que em tudo está por essência, presença e potência, não como os deuses falsos de Plutarco Elias Calles e de outros loucos desviados por Satanás, que lhes oferece os bois e a carreta desta vida e depois os faz coisa horrenda, quente e gorda no inferno dos tormentos” (III, 299).

A morte tranqüila dos cristeros, com freqüência depois de terríveis tormentos, impressionava sempre os federais. Morriam perdoando e gritando Viva Cristo Rei! E o povo guardava suas palavras, recolhia seu sangue, enterrava seus corpos, comparecia em massa a seus funerais, quando eram possíveis, em protesto silencioso e confissão de fé.

Alegria. A alegria também estava sempre presente, como é lógico, nestes homens que estavam arriscando a vida por Cristo, passando indizíveis misérias e penas. Em crônicas e escritos sempre há sinais de alegria e de humor. Conta Ezequiel Mendoza que seu pai, em certa ocasião, arriscando a vida, ficou segurando uma porteira para que escapasse um grupo de cristeros. Os federais atiravam repetidamente, sem notá-lo. Assim que ele, sem soltar a porteira, “como que raivoso, virou o rosto e repreendeu o inimigo, disse: Imbecis, atirar para cá, parece que não vêem gente” (Testemunho 37). Como estas, há inúmeras anedotas cristeras.

Espiritualidade bíblica e tradicional

Sendo a Bíblia e a Tradição eclesiástica as fontes permanentes da espiritualidade cristã, o qualificativo de tradicional, em seu sentido mais genuíno, é tão precioso como o de bíblico. Pois bem, a espiritualidade dos cristeros é claramente bíblica e tradicional. Jean Meyer sublinha com força ambas as notas: “Ficamos admirados pelo número e exatidão das citações bíblicas. A idéia de um povo católico ignorante da Bíblia não é válida para o camponês mexicano desta época. Nos casarios distantes da paróquia se liam-na de pé, ou melhor, formava-se um círculo em torno daquele que sabia ler” (307).

Tampouco há mariolatria na devoção à Virgem: “O culto da Virgem ee Guadalupe não é distinto do que recebe na Rússia (800 lugares de peregrinação marianos!), na Polônia ou na França” (309). Meyer afirma diversas vezes “a indiscutível catolicidade da fé mexicana” (309).

“A religião dos cristeros era, salvo exceção, a religião católica romana tradicional, fortemente enraizada na Idade Media hispânica. O catecismo do P. Ripalba, sabido de memória, e a prática do Rosário, notável pedagogia que ensina a meditar diariamente sobre todos os mistérios da religião, da qual ministra assim um conhecimento global, dotaram esse povo de um conhecimento teológico fundamental assombrosamente vivo. Cristo era conhecido em sua vida humana e em suas dores, e com Ele pode o fiel identificar-se com freqüência; era amado, ademais, no grupo humano que o rodeia: a Virgem, o patriarca São José, patrono da Boa Morte, e todos os santos, que ocupavam um lugar muito grande, completamente ortodoxo, na vida comum; adoravam-n’O no mistério da Trindade. Esta religião próxima do fiel, qualificam-na de superstição os missionários norte-americanos (protestantes e católicos), e os católicos europeus não a julgam de maneira distinta” (307). Não obstante, “o cristianismo mexicano, longe de estar deformado ou ser superficial, está sólida e exatamente fundamentado em Cristo, é mariano por causa de Cristo, e sacramentalmente, por conseguinte, orientado para a salvação, a vida eterna e o Reino. Durante a guerra, os santos se retraem notavelmente até seu próprio lugar, enquanto se manifesta o desejo ardente do céu” (310).

México católico

A profundidade da evangelização realizada no México durante séculos ficou absolutamente provada quando, depois de mais de um século de contínuas perseguições liberais, socialistas e revolucionárias, os cristeros ofereceram ao mundo este testemunho formidável de espiritualidade e de martírio.

Voltemos, pois, ao princípio, e escutemos a voz franciscana de um dos primeiros evangelizadores, Frei Toribio de Benavente, Motolinía. O que ele disse do México, di-lo-emos aqui, para terminar nossa história; e o diremos pensando em toda a América hispânica:

“Ó México, que tais montes te cercam e coroam! Agora com razão voará tua fama, porque em ti resplandece a fé e evangelho de Jesus Cristo! Tu, que antes era mestra de pecados, agora és professora de verdade; e tu, que antes estavas em trevas e obscuridade, agora dás resplendor de doutrina e cristandade” (Ha de los indios III, 6, 339). “Pois concluindo digo: Quem não se espantará vendo as novas maravilhas e misericórdias que Deus faz com esta gente?... Estes conquistadores e todos os cristãos amigos de Deus devem muito alegrar-se de ver uma cristandade tão completa em tão pouco tempo, e inclinada a toda a virtude e bondade. Portanto, rogo a todos os que isto lerem que louvem e glorifiquem a Deus desde o íntimo de suas entranhas; digam estes louvores que se seguem, segundo São Boaventura: “Louvor e bênçãos, engrandecimentos e confissões, graças e glorificações, exaltações, adorações e satisfações se façam a vós, Altíssimo Senhor Deus Nosso, pelas misericórdias para com estes índios recém-convertidos à vossa santa fé. Amém, Amém, Amém” (II, 11, 283).

(Extraído do livro Hechos de los Apóstoles en América, de José Maria Iraburu.)

Exemplo dos horrores da Guerra espanhola

 O TERROR VERMELHO INVADE TOLEDO —

      

O texto seguinte é o relato assustador da invasão anarquista na cidade de Toledo, Espanha, em plena guerra civil — a Espanha foi o único país da Europa onde os socialistas permaneceram fiéis ao puro anarquismo de Bakunin. Ao longo do texto, o leitor poderá ver fotografias de algumas das igrejas saqueadas e destruídas em Toledo, já pelos invasores anarquistas, já por outros milicianos. O que mais nos dói, muito mais que a destruição da bela arte da belíssima Toledo, é o desprezo dos homens pela santa Realeza de Cristo Jesus. 

As imagens, as tiramos do site do "Centro de Estudios Castilla-La Mancha" que, por sua vez, as tirou do acervo da "Biblioteca Nacional de Madrid".  Recomendamos, para uma visão histórica das causas e desenlaces do drama espanhol, a leitura das páginas de Corção sobre a Guerra Civil Espanhola.  

* * *

"... podemos apenas concluir que a luta contra a Igreja na Espanha não se deve tanto a uma ignorância
 com respeito a Fé Católica e suas instituições, mas a um ódio contra o Senhor e Seu Cristo..."
Pio XI, Dilectissima Nobis

Neste ínterim, o temível "terror vermelho", pesadelo da classe alta e média da Espanha, entrou em Toledo. Por volta do dia 23 de julho, os filetes de milicianos tinham-se transformado numa inundação. Bando deles, calçados de sandálias de sola de corda, vestidos de azul desbotado, vasculhavam as ruas, descobrindo fascistas e padres. Estes últimos eram enviados para interrogatórios e os primeiros, mortos onde fossem encontrados. Os homens das unidades tais como "Batalhão de Exterminação" e "Grupo de Vingança" pareciam acatar regras simples, sendo uma das principais matar qualquer pessoa de batina — monges principalmente. Toledo estava convertida numa barulhenta plaza de toros, mas o matador nunca se arriscava ser fisgado por sua vítima. Alguns padres foram avisados que escapariam à morte gritando "Viva o comunismo!". Muitos escaparam fazendo isto e alguma coisa mais que a milícia exigia — obscenidades, blasfêmias; muitos recusaram-se. O Padre Pascual Martin foi crivado de balas defronte à Igreja de São Nicolau, enquanto gritava "Viva Cristo Rey". Suas mãos estavam estendidas, apontando como as de Cristo, significando uma benção final para os seus assassinos ou estavam levantadas num instintivo esforço para arrancar as balas?

A maioria dos toledanos não ousava interceder em favor dos "bons padres" porque a intercessão implicaria em simpatias fascistas e a simples suspeita conduzia à execução e à prisão. Contudo, os padres mais populares foram escondidos por moradores da cidade durante o cerco. Uma mocinha, por exemplo, escondeu dois padres em seu apartamento, depois de uma apavorante perseguição pelas vielas por parte dos milicianos bebados. Mas estes ainda tiveram que enfrentar uma provação — das janelas podiam ver o corpo da Priora das Carmelitas atirado na rua e lá permanecendo por vinte e quatro horas sem ser molestado.

Diz-se que morreram em Toledo 107 padres; a maioria assassinada na via pública, nas primeiras horas de ocupação. As mulheres e as crianças rodeavam seus corpos, tirando dentre seus lábios migalhas de pão ou pedaços de cigarro. Contudo, as atrocidades cometidas em Toledo eram brandas, comparadas com as de Ciudad Real, a província vizinha do sul onde o terror causou a morte de todos os padres. Ninguém em Toledo diz ter visto milicianos dançando nas ruas com cadáveres de freiras desenterradas, rito este que teve lugar por toda a parte da Espanha (...)

Uma figura sempre presente desta época foi Romero, um caçador de rãs que seguia a milícia com sádico regozijo. Esfolava suas vítimas, amarrava-as em longos bambus, dos quais elas pendiam como miniaturas de seres humanos. Durante meses aterrorizou as matronas desacompanhadas nas portas das igrejas, arremessando as rãs em seus rostos e dizendo com uma risadinha: "É isto que você e suas filhas vão parecer quando nós as matarmos e escalpelarmos." Depois que a milícia entrou na cidade, e ele a seguia como um chacal e passava horas acocorado, comprazendo-se com o espetáculo dos padres assassinados.

Muitos toledanos pareciam chocados mais pela profanação do que pelos assassinatos. Um bando de milícia vestiu as batinas tintas de sangue, confiscou uma limusine aberta e saiu pelas ruas com uma imagem de São Francisco em tamanho natural, escorado no assento entre eles. Tinham-lhe arrancado os braços, posto um rifle em seus ombros e prenderam uma nota — rabiscada com o sangue dos padres — em seu peito: "Ele está conosco." Na praça da Igreja de S. Vicente, alguns milicianos imitavam uma tourada com capas bordadas a ouro e chapéus apanhados no museu diocesano. Mesmo o governador recentemente indicado, um homem de nome Vega, juntou-se à brincadeira. Vestido com paramentos pontificais, conduzia uma tumultuosa procissão com um báculo na mão, fingindo-se de Arcebispo, representando o rito de exorcismo na Frente Popular. Mas este espetáculo quase teve um desfecho violento quando um miliciano bêbado, tomando Vega pelo verdadeiro Arcebispo, deu-lhe um tiro bem no peito.

Os líderes republicanos responsáveis colocaram imediatamente guardas na catedral (apropriadamente conhecida na Europa como La Rica), no Museu de El Greco e em outros santuários da cidade, mas havia tantas igrejas em Toledo que era impossível protegê-las todas. São João da Penitência, São Lourenço e outras foram queimadas, só restando as paredes. Contudo, no Convento da Conceição, perto de Santa Cruz, uma súcia de anarquista fantasiados empurrava um retablo retratando a flagelação de Cristo. Depois de rápida discussão entre eles decidiram estraçalhar apenas a figura representativa de Cristo, e deixar ficar os flagelados — afinal, disseram eles, estão são os anarquistas antigos! Muitos camponeses abandonaram temporariamente sua tradicional piedade cristã. Um esfarrapado campesino destruiu uma imagem da Virgem na Igreja de São Vicente e depois caiu de joelhos pedindo, em prantos, o seu perdão.

Os cães e gatos desapareceram de Toledo; atirando em alvos vivos a milícia provava que era irresistível no manejo das armas. Arremesso de granadas, também, parecia intrigá-los. Nos quarteirões mais ricos atiravam-nas através das janelas dos andares superiores sem qualquer razão, uma vez que em Toledo não existiam os atiradores fascistas que infestaram Madri durante toda a guerra. O pessoal do Alcázar podia traçar o curso da milícia através da cidade pelo som das detonações de granadas.

(extraído de "O Cêrco do Alcázar de Toledo", de Cecil D. Eby, Nova Fronteira, Rio de janeiro)

 

As missões guaraníticas

A expressão “REDUÇÕES GUARANÍTICAS” designa as Missões de evangelização dos índios guaranis organizadas pelos missionários jesuítas no século XVII inicialmente no Paraguai e que se estenderam até o Brasil, na região do atual Rio Grande do Sul. Estes religiosos não se contentaram com um apostolado em pontos de catequese longínquos, isolados uns dos outros. Em vez disso, reuniram os índios em “mini-cristandades”, dedicando-se a uma evangelização profunda, protegida de uma possível má vontade dos colonizadores em relação aos índios.

Infelizmente, a cobiça, conflitos políticos europeus, e a influência da maçonaria provocaram o trágico desaparecimento dessas admiráveis Missões, mas a boa semente, cujos frutos Deus conhece, foi plantada e o exemplo dos missionários ficou como testemunho perene da caridade apostólica da Igreja.

Percorramos um pouco essa página da história...

I – Origem das Reduções

Em 1603, o governador Hernandarias reuniu em sínodo os prelados do território de Assunção (atual capital do Paraguai) e lhes anunciou sua intenção de:

  • pedir ao Conselho das Índias e ao Rei da Espanha a vinda de missionários jesuítas para evangelizar 150.000 indígenas guaranis
  • promulgar leis proibindo a escravização dos índios, praticada por espanhóis.

Seu desejo foi atendido, pois em 1608, o Rei enviou 13 jesuítas europeus decididos a empregar sua fé e suas forças a serviço deste nobre ideal: a conquista espiritual dos guaranis. Além disso, um visitador, Francisco de Alfaro, foi enviado para investigar sobre a situação miserável dos aborígines nas províncias. Como conseqüência dessa visita foram promulgadas Ordens visando melhorar a situação dos índios.

Os missionários estrangeiros aprenderam o guarani e reuniram os indígenas em Missões ou “Reduções” para melhor promover sua evangelização. Eles tiveram de enfrentar o ressentimento dos chefes das províncias e mais tarde as incursões dos bandeirantes de São Paulo, que fizeram calúnias e intrigas contra os missionários sob o pretexto de que eles “super-protegiam” os índios. O conhecido filme “A Missão” nos dá, sobre este ponto, uma idéia exata do terrível conflito em que os religiosos se tornaram corajosos advogados de defesa dos guaranis.

           

II – Os índios guaranis

Na época da descoberta da América, os povos guaraníticos se distribuíam de maneira descontínua por praticamente toda parte sul do continente americano. Eles são descendentes dos índios caraíbas que viviam ao norte da América do Sul. Alguns pesquisadores crêem que os caraíbas são de origem fenícia, outros afirmam que eles são de raça amarela, e muitos situam seus ancestrais na Polinésia. O certo é que provêm de regiões longínquas.

Ao longo de suas migrações, os guaranis se dividiram em diversos grupos, cujos nomes se originavam numa característica de seu território ou de seu chefe, o cacique. Por exemplo: os que viviam na região de Assunção, os índios cariós devem sua denominação ao cacique Caracará.

Alguns se cobriam com um manto de pele de onça ou com um avental de algodão adornado de plumas em toda volta, mas a maioria vivia praticamente nua. Os homens se enfeitavam com penachos e as mulheres com colares e pulseiras de garras e dentes de macacos. Todos andavam descalços.

A palavra “guarani”  significa “guerreiro”. De índole belicosa, eles estavam sempre em guerra uns contra os outros, por motivo de rivalidades de caça ou pesca. Entretanto, o historiador Werner Hoffman afirma que “o povo guarani foi o mais dócil e o mais receptivo à educação entre todos os índios sul-americanos”!

Bem proporcionados, eles eram robustos, de altura mediana e rosto redondo. Seus olhos eram muito escuros, o cabelo negro e liso e a pele de tom amarronzado. Eles não exteriorizavam seus sentimentos com gritos ou choros; seus sentimentos interiores nunca apareciam em seus rostos.

Era a murros e socos, jamais com uma arma, que resolviam os litígios entre parentes e amigos. Os homens se ocupavam da guerra e da caça, as mulheres, da tecelagem, do cultivo da terra e da cozinha.

Na guerra, eram fiéis ao chefe e se mostravam ferozes, corajosos e infatigáveis no combate.

Para se orientar, utilizavam o Ñandú-Pisá, o Cruzeiro do Sul. Esse povo nômade não era apegado a um solo e ignorava o patriotismo e a economia. Filhos de uma floresta rica em frutos e animais que lhe serviam de alimento, eles eram indolentes, aproveitavam o momento presente sem medo do futuro e não desconfiavam dos estrangeiros.

Os guaranis viviam pobremente, na dependência das semeaduras, da caça e da pesca. Para semear, guiavam-se pela posição das estrelas, depois de abater as árvores esperavam a chuva umedecer a terra e então plantavam as sementes. Obtinham colheitas abundantes de milho, mandioca. Sua alimentação era completa e equilibrada, suficiente para lhes assegurar uma boa saúde. Conhecendo perfeitamente o mundo animal e vegetal que os rodeava, eles apreciavam em particular a infusão de ‘mate’.

O sentimento religioso do guarani era interior. Eles ignoravam os ídolos. Seu templo era a natureza. Acreditavam em Tupã, o deus bom, o Ser supremo do universo que se encontrava na brisa e nos sons da floresta. Espiritual,Tupã não podia ser representado. Esse deus criou primeiro os animais e a floresta; depois, de muitas luas, criou o homem, a quem deu inteligência para dominar a natureza e vencer as feras. Um dia deus se retirou para ir viver no sol, que anuncia a alegria, a força e a saúde.

O ser mau é “Añá” e seu astro, a lua minguante, anúncio de desgraças e doenças.

Os guaranis acreditavam na imortalidade da alma e achavam que passariam a uma vida mais feliz, junto às estrelas do céu. Eles eram muito supersticiosos: sempre usavam um saco de couro sobre o ombro contendo três amuletos que o feiticeiro lhes dava, e que deviam lhes trazer felicidade: algumas garras, dentes e pedaços de pele de jaguar para obter uma caça abundante, espinhas de peixe para uma boa pesca e o “payé” para o amor: penas de caburé de irresistível poder.

Seus mitos vinham da natureza que os rodeava: havia o deus do raio, do trovão, da tempestade, das planícies, das águas e outros gênios tropicais. O “Caáyary”, espírito da erva, o “Caagüi-porá”, senhor da floresta, o “Chochí”, pássaro-bússola na imensidão da natureza. Recitavam cantos simples em que os personagens eram o macaco, o papagaio, a raposa, a tartaruga, o jaguar... e a lenda do peregrino branco que percorreu estas regiões, ensinando o cultivo do milho, transformada com o tempo na lenda cristã de “Pai-Zumé”, São Tomás, cujos passos ficaram gravados principalmente no Paraguai.

O guarani contava o tempo em luas que equivaliam aos meses, e em invernos que representavam os anos. Ele conhecia as estações e algumas estrelas como o Cruzeiro do Sul e as Sete Cabras.

Tinham bons conhecimentos de botânica, zoologia e medicina. O médico, na realidade, era o feiticeiro, um homem que se consagrava aos cuidados dos doentes, e transmitia sua ciência de geração a geração. Os mais experientes eram tidos como sábios. O bruxo usava analgésicos e praticava a cirurgia, abria os abscessos, usava cataplasmas, ventosas, utilizava a argila para as fraturas. A flora da região lhes oferecia numerosos remédios naturais para qualquer tipo de doença. Respeitado, o feiticeiro facilmente recebia presentes de sua escolha: peles de jaguar e alimentos variados. Rico, ele podia ter várias mulheres, a exemplo do chefe da tribo.

Os guaranis não sabiam ler nem escrever; seu maior patrimônio cultural era a própria língua, e eles se mostravam orgulhosos disso, esforçando-se por falar com fineza e eloqüência. O padre Lozano escreveu em 1754: “Esta língua é uma das mais ricas e eloqüentes do mundo. Ela foi o francês da América antiga, a língua de referência entendida por todas as tribos”. O guarani dizia que sua língua fazia murmurar as águas e as florestas, porque tinha sido criada pelos ventos. A língua guarani, de fato, sobreviveu à contingências históricas posteriores ao descobrimento e perpetuou-se até nossos dias, no Paraguai e no nordeste argentino.

Gostavam de dança e de música.

Os guaranis dançavam desde os tempos mais remotos; com a dança eles expulsavam os castigos, a tempestade, o inimigo e triunfavam do mal.

Gostavam muito de cantar. Cantavam em honra de “Tupã”, pedindo-lhe uma vida longa; cantavam também uma espécie de “melisma” antes de sair de casa, para encontrar numerosos javalis. Eles cantavam para que “Tupã” diminuísse a ferocidade dos ventos que arrancam as árvores onde as abelhas guardam o mel. Seu único instrumento musical era uma simples flauta de bambu, com a qual eles imitavam os sons da floresta.

Mais tarde, os missionários acharam na música um aliado precioso para atrair e conquistar os guaranis. É claro que precisariam também, sobretudo, de paciência, de bondade e abnegação para civilizar a cristianizar essas almas pagãs. As Reduções constituirão o campo fértil e privilegiado de sua ação.

 

III ― As primeiras Reduções guaraníticas

Os primeiros jesuítas chegaram ao Paraguai em 1609. Os R.P. Roque Gonzáles de Santa Cruz e Vicente Griffi foram designados para o trabalho junto aos guaycurués, os R.P. Marcial Lorenzana e Francisco San Martin junto aos Paranaés e os R.P. José Cataldino e Simon Masseta foram enviados a Guayrá. O governador Hernadarias fez de tudo para facilitar a instalação dos missionários, oferecendo-lhes guias guaranis e o material necessário; foi oferecida até mesmo uma soma de dinheiro correspondente ao que podia receber um “Cura nas Índias”.

A primeira redução jesuíta foi a de “San Ignácio-Guazú” (Santo Inácio o Grande), fundada no Paraguai em 1609 pelos padres Lorenzana e San Martin. Os aborígines paranaés mostraram-se muito receptivos à ação dos missionários, que conseguiram lhes mostrar as vantagens de ter uma família e um lugar estável para viver. Suas paixões selvagens foram vencidas pela força da convicção, da paciência, da bondade e exemplo dos jesuítas.

Infelizmente o mesmo não ocorreu com os índios guaycurués: depois de dois anos de intensos esforços para civilizá-los, o zelo do Padre Roque, futuro mártir, ainda não tinha dado resultados. Nem mesmo a música foi capaz de movê-los. O missionário juntou-se então à redução de “San Ignácio-Guazú”, onde substituiu o P. Lorenzana no comando da missão.

Em Guayrá, os Padres Cataldino e Masseta fundaram, em 1610, as reduções de Loreto e San Ignácio-Mini, que reuniram várias tribos; o Padre Montoya, eleito mais tarde superior da missão, fundará as missões de San Javier de Tayatí, Encarnacion de Nantinguin, San José de Tucutí, Concepcion e San Pedro de Gualacós, Siete Angeles de Tayaobá, Santo Tomás, San Pablo, San Antonio e Jesus e Maria.

Os esforços sobre-humanos dos missionários foram recompensados espiritual e materialmente: as missões eram tão prósperas que as tribos vizinhas por pouco não as atacavam para pilhá-las; os jesuítas criaram então um pequeno exército de guaranis comandados pelo cacique Maracanã que destacou-se em famosos combates.

O bem-aventurado Roque Gonzáles de Santa Cruz

Nascido em Assunção em 1507, esse padre trabalhou no Paraguai, no Brasil, na Argentina e no Uruguai, especialmente junto dos indígenas mais humildes. Jesuíta enérgico e culto, cognominado o “Demóstenes paraguaio”, compôs inúmeros escritos em guarani, assim como numerosas orações aprovadas por todas as reduções (antes disso, o Padre Bolaños, franciscano, tinha composto um catecismo em guarani, cuja capa vemos aqui). Ignorando o repouso, ele percorreu distâncias consideráveis, afrontando os feiticeiros e os chefes de províncias espanhóis. Venerado pelos indígenas, foi agricultor, criador de gado, mineiro, pedreiro, lenhador, médico, artesão... Ensinou o canto, a pintura e o comércio, edificou as igrejas e moradias para o bem-estar de seus guaranis. A redução de San Ignácio-Guazú brotou de suas mãos. Seus habitantes viviam felizes sob sua paternal direção. Ele fundou a missão de Itapuã em 1615, logo depois a de Yaguapuá em 1618 onde os guaranis formaram uma grande comunidade; atacado pela peste, o Pe. Roque conseguiu curar-se preparando um licor à base de plantas da região.

Por ordem de seu superior, ele explorou em uma piroga o rio Paraná, depois fundou, em 1620, a redução de Conceição num afluente do Uruguai. Os habitantes da região eram conhecidos por sua ferocidade; o Pe. Roque não temia a morte, trazendo sempre consigo um quadro da Virgem Maria, a Conquistadora, ao qual ele atribuía seus sucessos apostólicos.

Mais tarde, em 1626, atravessou o Uruguai e fundou a missão de São Nicolau, em terra brasileira.

Depois, ele iniciou a missão de Yapeyú, destinada a ligar as reduções a Buenos Aires; após essa fundação, organizou a de Santa Maria Del Iguazú, nas proximidades do magnífico espetáculo das cataratas. Ele fundará em seguida, perto da embocadura do rio Ibicuy, a vila de Purificação. Os indígenas da região, nômades, não gostavam de cultivar a terra e, aproveitando-se de uma ausência de seu pai espiritual, eles fugiram em direção ao norte. O missionário partiu a procura deles e explorou em sua companhia a região, atualmente os estados brasileiros de Rio Grande do Sul e Santa Catarina, famosos por suas florestas exuberantes e suas terras ricas em pedras preciosas. O Pe. Roque fundou então a redução de Candelária, onde os indígenas finalmente acharam seu equilíbrio.

Em seus últimos anos de vida, o Pe. Roque teve como colaboradores dois jovens jesuítas: os Padres Alonso Rodriguez e Juan de Castillo. Ele penetou com eles as florestas de Caaró, ricas em flores de perfumes exóticos, povoadas de pássaros esplêndidos mas também de animais ferozes. Reinava nessa região Ñezú, cacique poderoso, chefe de 500 famílias. O Pe. Roque os catequizou e reuniu-os numa vila antes de confia-los ao Pe. Juan de Castillo que construiu sua cabana perto da de Ñezú. O cacique era rebelde e orgulhoso. Arrependendo-se de ter prometido deixar suas numerosas esposas, ele negou a religião cristã e resolveu eliminar os jesuítas.

Os Padres Roque e Alonzo, longe de suspeitar das intenções do cacique, tinham-se afastado das redondezas de Ñezú para construir, com a ajuda dos indígenas, uma nova vila. Ñezú, com o coração cheio de ódio, procurava livrar-se dos jesuítas, que passou a considerar como rivais. Ele encarregou os caciques Cuniaracuá, Carupé e Caaburá de matar os religiosos, de incendiar a capela e de atirar ao fogo os corpos para que nenhum vestígio de cristianismo ficasse em sua vila. Ñezú, em pessoa, se encarregaria de fazer desaparecer o Pe. Juan Del Castillo.

Seu plano foi realizado: no dia 15 de novembro de 1628, quando o Pe. Roque instalava o sino da nova capela, um aborígine bateu violentamente em sua cabeça; o Pe. Rodriguez foi morto da mesma maneira enquanto recitava seu breviário. Os indígenas arrastaram os corpos até a capela, incendiaram-na e destruíram a estátua de Nossa Senhora Conquistadora, o cálice e o crucifixo. Um cacique, catecúmeno, tendo repreendido os assassinos, também foi morto imediatamente.

No dia seguinte, eles constataram que os corpos dos missionários tinham sido poupados pelas chamas e do coração do Pe. Roque elevou-se subitamente uma voz: “Vocês mataram aquele que os amava e que queria seu bem; mas vocês só mataram o corpo porque minha alma está no céu. O castigo não tardará a vir, meus filhos virão puni-los por terem maltratado a imagem da mãe de Deus. Mas eu voltarei para os ajudar porque vocês hão de sofrer muito por causa de minha morte”. Trinta e três testemunhas assistiram a esse prodígio. Ouvindo esta voz, os assassinos encolerizados arrancaram o coração, transpassaram-no com uma flecha e lançaram de novo os restos mortais dos padres no fogo. O coração do Pe. Roque ainda permaneceu intacto.

Na sexta-feira, 17 de novembro, às 15 horas, começou o martírio do Padre Juan Del Castillo, que tinha acabado de rezar vésperas. Os emissários de Ñezú amarraram-lhe os braços, alguns índios cobriram-no de golpes enquanto o empurravam em direção à floresta. O missionário, surpreso, perguntou: “Meus filhos, o que estão fazendo?” Eles responderam que iam matar todos os missionários e que os padres Roque e Alonzo já estavam mortos. “Nesse caso, conduzam-me para perto deles e matem-me em sua companhia”, respondeu oreligioso que foi imediatamente jogado por terra. Seu corpo, ferido pelas pedras e espinhos, tornou-se rapidamente, da cabeça aos pés, uma só ferida. O mártir repetia: “Tupanrekê”. “seja por amor de Deus”, em guarani, e “Jesus, Maria”; um testemunho ouviu-o dizer também: “Prendei-me! Vós matareis meu corpo; mas eu irei para o céu!” Depois de ter transpassado seu corpo com flechas, eles lapidaram-no às margens do Ijui e abandonaram-no dizendo: “Que as onças o devorem!” Estas feras, numerosas naquela região, foram menos cruéis que os homens e respeitaram o seu corpo. Mais tarde, alguns índios queimaram o cadáver. Eles entraram também na cabana do jesuíta, destruíram seu cálice e paramentos. Ñezú, triunfante, vestiu-se com a alva e a casula do mártir e, enfeitado de penas, dirigiu-se ao povo: “Doravante, todos vocês serão felizes, suas plantações prosperarão e vocês poderão viver segundo os costumes de seus antepassados. Sou eu quem agora batizará seus filhos”. Fez então que se aproximassem alguns batizados, raspou-lhes a língua para tirar o sabor do sal bento, raspou-lhes a cabeça para eliminar a unção do Santo Crisma, e por fim, lavou-lhes a cabeça, pretendendo assim poder arrancar-lhes todas as graças batismais.

O superior dos religiosos, O Padre Romero, rapidamente informado, enviou duzentos guerreiros a Caaró para recolherem os restos mortais dos mártires. Eles combateram e venceram os indígenas rebeldes. Ñezú teve um trágico fim, seus cúmplices (doze dos principais assassinos, dentre os quais onze se converteram) foram condenados à morte pela justiça espanhola, mesmo tendo os religiosos pedido indulgência. A profecia do coração do Pe. Roque realizou-se ao pé da letra. Esta insigne relíquia foi colocada em seguida num relicário e encontra-se hoje no Paraguai, em Assunção, na Igreja de Cristo Rei, onde muitos milagres lhe são atribuídos.

No dia 22 de janeiro de 1934, o Papa Pio XI declarou bem-aventurados os “Três Mártires das Missões”. O local do martírio, perto da Missão de São Miguel, tornou-se rapidamente um centro de peregrinação, inaugurado pelos próprios guerreiros do Padre Romero.

 

IV ― A organização e a vida nas missões

As Reduções, compostas de três ou mais jesuítas e mais ou menos 4.000 indígenas, eram sempre construídas segundo um mesmo plano.

A planta (abaixo) da Missão de São Miguel mostra muito bem o esquema de uma Redução: uma praça central (com 130m de extensão) em torno da qual se encontrava a igreja, com a casa das viúvas e órfãos (“cotiguaçu”) de um lado e a escola, a casa dos missionários e os ateliês do outro; atrás da igreja se estendiam o pomar e a horta. As moradias dos guaranis se erguiam do outro lado da praça. Nos outros dois lados situavam-se o conselho da Missão, uma portaria, uma hospedaria, capelas, um relógio de sol e mais adiante, uma prisão. No centro erguia-se uma imagem da Santíssima Virgem  ou do santo padroeiro da Missão. A praça servia para as grandes festas religiosas ou civis.

As casas eram de pedra, retilíneas, separadas por corredores largos; os tetos eram de telha, os muros tinham um metro de espessura. Essas habitações tinham uma chaminé e, às dependências principais juntavam-se outros aposentos. Mais além, ao redor da Missão, trincheiras e um muro de defesa a protegiam contra os indígenas selvagens e os bandeirantes.

A igreja era o único luxo da vila. Os talentos artísticos dos guaranis e suas aptidões manuais permitiram a edificação de verdadeiras obras primas de pedra talhada. O altar mor era dourado, os cálices ornados de pedras preciosas brasileiras, os sinos fundidos na redução de ‘Apóstolos’ com o cobre da região. As imagens de madeira pintada também eram feitas por escultores indígenas, sob a direção dos jesuítas.

Os altares eram abundantemente ornados de flores, muito numerosas na região durante todo o ano. Cerimônias esplêndidas, com coros e orquestras embelezavam as festas solenes. A Semana Santa era acompanhada de representações da Paixão; Natal e festas de Nossa Senhora eram particularmente solenizadas, assim como Corpus Christi, com uma magnífica procissão, e também a festa de Santo Inácio, padroeiro ilustre das Reduções. Depois da missa da manhã, seguiam-se uma procissão e alguns exercícios militares na praça, assim como provas de cavalaria e um simulacro de luta. Ao meio dia, todos se reuniam para uma grande refeição. À tarde, uma peça de teatro, alusiva ao acontecimento, era interpretada; seguiam-se danças coreográficas acompanhadas de uma orquestra; nos entreatos, artistas recitavam poesias ou tocavam música com instrumentos de sopro ou de corda.

A perfeição artística era tal que as representações podiam ser dignamente feitas diante de reis e imperadores.

E quando a noite estendia seu manto estrelado, fogos de artifício multicolores concluíam essas horas de alegria e de luzes.

O Governo Civil era exclusivamente indígena: era constituído de um conselho (“cabildo”) composto pelo cacique ― a maior autoridade ― por três oficiais reais, três administradores, alguns almotaceis e pelos representantes dos bairros da Missão. O cargo do cacique era hereditário, mas em certos casos o governo civil de Buenos Aires e do Paraguai o designava, sob a recomendação dos padres jesuítas. Todos os outros membros do conselho eram eleitos por votos (o novo Conselho era eleito pelo anterior) ao fim de cada ano. Outros dois cargos eram importantes: o de “Carapiraracuara” (porteiro) e o de “Tuparerecuara” (sacristão). A execução da justiça era atribuição dos jesuítas: a pena era um autocastigo ou chicotadas; algumas vezes a prisão. Certas fontes falam do exílio como pena suprema.

Se eram os jesuítas que davam as instruções, eram os próprios guaranis que asseguravam a organização e o cumprimento dos trabalhos. Assim reinavam a harmonia e a disciplina sob a presença da silhueta amiga do missionário. O sino chamava às atividades: orações, catecismo, escola, trabalho...; ir à Missa durante a semana era voluntário. O trabalho durava seis horas por dia. A partir de sete anos, a criança participava da vida civil e religiosa da Redução. Completava sua educação cristã e sua instrução musical e coreográfica num atelier se tivesse dons artísticos. Caso contrário, trabalhava nos campos. As escolas tinham bons professores indígenas que ensinavam os pequenos a ler, escrever, contar, assim como as bases da doutrina cristã. As mulheres aprendiam também a cozinhar e a costurar. Os mais jovens trabalhavam, colhiam frutos, cuidavam das flores do jardim, caçavam os insetos e animais nocivos, treinavam o arco e flecha.

Cada família dispunha de partes de terra, uma chamada “Tupambae” (propriedade de Deus), a outra “abambae” (propriedade do guarani), que ela devia trabalhar e cultivar para mais tarde passar a seus descendentes.

As primeiras culturas eram a de milho, mandioca, batata, legumes, árvores frutíferas e erva mate, muito consumida na Redução. Como falamos acima, esses tipos de trabalho eram novos para os guaranis, especialmente o de fazer provisões.

A “propriedade de Deus” era destinada à comunidade e para as necessidades de base da Missão: pagamento de impostos , trocas, vendas, etc. O indígena devia trabalhar nesse local dois dias por semana, três horas pela manhã e três pela tarde. A “propriedade do indígena” era destinada ao seu próprio consumo.

Além do mais, os guaranis consagravam-se também à extração de pedras para o trabalho de construção. Faziam pontes de pedra, moinhos hidráulicos, subterrâneos, canais de irrigação e fontes de água pura (fotos).

Aprimoravam também a criação de gado, sobretudo na atual região de Corrientes. Em 1768, contavam-se 656.333 cabeças, sem falar dos outros animais que completavam sua economia.

Faziam trocas entre eles mesmos e com as Reduções vizinhas. Vendiam também nos centros urbanos espanhóis de Santa Fé, Córdoba, Buenos Aires e exportavam para outros países. O mercado central das Reduções situava-se em Santa Fé (Bs. As.). Os padres procuradores, ecônomos da Companhia de Jesus nas Reduções, faziam as trocas comerciais e defendiam os interesses da ordem face às autoridades. Iam também à Europa para vender o couro. Podiam levar numa só viagem 30.000 vacas, o que era uma fortuna. Os navios voltavam carregados de papel, livros, seda, telhas, pinturas, ferramentas, instrumentos de cirurgia, metais e sal em abundância...

A capital das trinta Reduções era Candelária e a sede principal de todas elas encontrava-se em Córdoba.

 

Atividades do dia

4h00: O hebdomadário tocava o sino para o despertar.

4h30: Oração mental.

5h00: O porteiro abre as portas para os sacristãos, os cozinheiros e os tocadores de tambor acordam as crianças. Os padres do setores são informados.

5h30: O sino chama para a Missa.

6h00: Missa.

7h00: Os trabalhos do dia são distribuídos de acordo com a autoridade civil. O café da manhã é servido às crianças. Ensaio de orações.

8h00: Visita aos doentes, cerimônia de enterros. Depois tomam mate, antes de se aplicarem ao trabalho.

8h30: As crianças vão para a escola. Os professores dirigem seus trabalhos.

9h00: Confissão dos adultos, controle de atividades escolares e dos trabalhos nos ateliês.

11h00: Os cozinheiros levam o almoço aos doentes.

12h00: Almoço.

13h00: Descanso.

14h00: Retomada dos trabalhos.

16h00: Catecismo.

18h00: Oração, colação, acompanhamento dos defuntos.

19h00: Recitação do Ofício; cada um volta para sua casa.

20h00: Jantar.

20h30: “Apaga-se a fogueira”

A vida artesanal e cultural

Os artesãos e artistas guaranis: tecelãos, escultores, pintores, metalúrgicos, impressores, historiadores rivalizavam em competência, segundo o testemunho de numerosa peças que chegaram até nós.

O mais surpreendente foi, talvez, a criação da primeira gráfica na Redução de Loreto em 1700 pelos padres Serrano e Neuman; a de Buenos Aires é posterior. Lá foram feitos um ‘Martirológio romano” (a obra impressa mais antiga, conservada na Argentina, realizada em 1705 pelo indígena Juan Yapai), “A diferença entre o temporal e o eterno”, de Juan José Nieramberg e numerosos outros livros como calendários, tabelas astronômicas, partituras de canto...

As Missões possuíam geralmente uma boa biblioteca (Loreto, mais de 300 livros, Corpus por volta de 400, Santiago mais de 180, Candelária, 4724).

No colégio aprendia-se a ler e escrever em três línguas: guarani, espanhol e latim. Aplicavam-se particularmente à música. Em San Ignacio, funcionou um dos primeiros conservatórios de música (a foto mostra a entrada da sala de música), com seus próprios cantores e instrumentalistas: violinistas, violonistas, flautistas e organistas. As orquestras guaraníticas eram compostas de violinos, trompetes, címbalos, harpas, violões, etc., e não tinham rival no Rio da Prata nem no Paraguai. Sua competência era tal que os governadores os convidavam para apresentarem-se em Buenos Aires, na festa de San Ignacio. Pouco a pouco os indígenas começaram a fabricar seus próprios instrumentos ( o melhor artesão foi um índio de São Miguel, Ignacio Paira ), sob a direção de grandes profissionais jesuítas, como o Pe. Sepp, que construiu em Candelária o primeiro órgão de madeira da América. Fez igualmente, em Yapeyu, as primeiras harpas indígenas que obtiveram grande sucesso. O primeiro mestre de orquestra foi o padre belga Juan Vaseo, antigo músico da corte.

O teatro ocupava também um lugar importante. Os índios mais dotados interpretavam vidas de santos ou de personagens célebres. Certas obras, vindas da Europa, eram traduzidas para o guarani, outras eram escritas na própria Redução. A língua Guarani, com muitas nuances, exprimia perfeitamente o pensamento e os sentidos. Quase sempre os grupos de teatro eram convidados para ir interpretar obras clássicas.

No século VIII os aborígines forneceram intelectuais e artistas de valor, como Nicolás  Yapuguay, cacique e músico da Redução de Santa Maria. Ele escrevia em guarani com grande clareza e elegância, tendo dois de seus livros sido levados à gráfica. O índio Melchor  escreveu a história de sua cidadezinha Corpus Christi. O índio Vásquez de Loreto era também um bom escritor. O guarani Kabiyú era um excelente pintor, que por volta de 1618 fez maravilhas, como uma Virgem das Dores, que hoje em dia se encontra em Buenos Aires. Em São Tomé vivia o ourives e escultor Gabriel Quiri; ele trabalhava com ouro, prata, pedras preciosas (ametista e topázio) e quartzo como os melhores especialistas europeus.

Com os metais extraídos das minas (ouro, cobre, prata, ferro) os indígenas faziam verdadeiras obras de arte destinadas principalmente à ornamentação das igrejas. Fabricavam também utensílios e armas.

O trabalho na madeira suscitou também artistas talentosos,  autores de numerosas estátuas policromadas. Dentre eles destacamos o índio José, que fez em 1780 uma estátua do “Senhor da humildade e da paciência”, conservada na Igreja de São Francisco de Buenos Aires, e considerada um dos marcos iniciais da arte nacional argentina.

Numerosos jesuítas que chegaram às missões já eram conhecidos na Europa por sua habilidade num ou noutro domínio técnico ou artístico. Contribuíram muito para a excelente formação dos guaranis. A tal ponto que a cultura geral das missões jesuítas ultrapassava aquela de algumas cidadezinhas espanholas! Eis alguns nomes destes jesuítas, entre os mais famosos:

―    Juan Primoli (que construiu a igreja de São Miguel, cuja maquete vemos ao lado) e Andrés Blanqui, arquitetos.

―    José Brassanelli, arquiteto, pintor e escultor.

―    Luis Verger e José Grimau, pintores.

―    Carlos Frank, carpinteiro e engenheiro mecânico.

―    Cristián Mayer, relojoeiro.

―    Buenaventura Suárez, fundidor de sinos e astrônomo, que ficou célebre até na Ásia por seu lunário publicado na Europa.

―    Antônio Sepp, considerado o pai da siderurgia argentina.

E outros geógrafos, botânicos, médicos, especialistas em armas e zoólogos, chamados pelos jesuítas para ensinar os guaranis. Todos estes mestres se fizeram guaranis com os guaranis para civilizá-los. Merece menção à parte a estátua de São Miguel, da missão de mesmo nome, representando o Arcanjo tendo sob os pés o demônio... com os traços e vestimentas dos bandeirantes, cuja crueldade e cupidez foram uma das causas do fim das Reduções

 

V ― Os bandeirantes

Os jesuítas fundaram cerca de 60 missões, mas somente 30 (com mais de 100.000 aborígines) alcançaram um verdadeiro desenvolvimento: 8 no Paraguai, 7 no Brasil e 15 na Argentina (4 na província de Corrientes e 11 na de Misiones) – ver mapa abaixo. De fato, muitas sofreram ataques incessantes dos bandeirantes, cujo objetivo era caçar guaranis e vendê-los como escravos. Em 4 anos eles destruíram 4 vilas das Missões e capturaram 60.000 aborígines. Porque essa terrível caça ao ser humano e esse obstáculo ao apostolado da Igreja? Quem eram esses bandeirantes?

A Companhia de Jesus, instalada em Guayrá, começou a procurar um caminho através do Brasil que conduzisse ao Atlântico. Apesar de viverem mais ao norte, em São Paulo, os bandeirantes interditaram qualquer avanço jesuíta ou espanhol. Eles reagiram violentamente ao impulso missionário e à tentativa de colonização espanhola, atacando as reduções e capturando os indígenas civilizados. No começo, os jesuítas tentaram resistir a essas agressões, não hesitando a partilhar a sorte dos indígenas quando não conseguiam livrá-los do cativeiro. Desse modo chegou-se a ver os Padres Masseta, Mansilla e Ruiz acompanharem os guaranis acorrentados para pedir  justiça às autoridades de São Paulo.

Os missionários escreveram relatórios ao Conselho das Índias sobre esses ataques assim como sobre as intromissões dos mestiços bandeirantes ― filhos de portuguesas e de índios ― até em regiões pertencentes à Espanha.

A Coroa portuguesa, sensível a esses pedidos, tinha ordenado que os escravistas fossem castigados e os aborígines, libertados. Foi em vão. Os paulistas utilizaram como pretexto um documento do rei de Portugal, Dom Sebastião, datado de 1570, que autorizava pegar como escravos os indígenas prisioneiros de guerra; legitimavam dessa maneira todo abuso, aproveitando-se de que os escravos tinham sido capturados em território português. O Guayrá era espanhol, mas porque privar-se de ir lá e capturar aborígines bastante úteis para trabalhar no campo e nas minas? Além disso, os indígenas civilizados pelos jesuítas eram mais capazes e menos agressivos do que os indígenas selvagens!

Os famosos bandeirantes Antônio Raposo Tavares e Manuel Pires atacaram o Guayrá com 2.000 índios tupis (tribo do leste do Brasil dominada pelos paulistas). O assalto foi extremamente violento, um padre jesuíta foi morto, os outros maltratados e, apesar de sua bravura, 30.000 indígenas guaranis foram aprisionados e conduzidos algemados a São Paulo.

Os padres Masseta  e Mansilla acompanharam-nos a pé até São Paulo e depois foram ao Rio de Janeiro para pedir justiça. Mas os ricos bandeirantes lusitano-brasileiros não quiseram ouvir nada, afirmando que as Reduções guaraníticas eram “um império cultivado, mas tirânico e injusto, uma república infame, um órgão perverso”. Em Portugal, repetiam-se as mesmas mentiras: “Os jesuítas acusavam Portugal de roubar indígenas catequizados nas Reduções para fazê-los trabalhar como animais, mas, na realidade, as missões eram, elas próprias, um império de índios escravizados” ou “os religiosos incitavam os índios a uma resistência armada, dando-lhes boas armas e ensinando-lhes as estratégias e táticas modernas”. Os bandeirantes detestavam as Reduções construídas no Guayrá, nas terras meridionais do Brasil, porque elas lhes impediam de alcançar a fronteira oeste até o rio Paraguai, limite geográfico pretendido de seu país.

É verdade que o imenso Brasil deve sua amplitude geográfica e uma boa parte de sua configuração atual às “realizações” dos bandeirantes, mas é igualmente evidente que eles foram a causa mais direta da ruína das Missões do Guayrá e do Tapé.

Essas contrariedades acabaram por vencer os jesuítas que, de comum acordo com os caciques guaranis, decidiram abandonar para sempre as treze Missões do Guayrá, fundadas com tanto sacrifício e abnegação. Foi o grande êxodo de 1631.

 

O grande êxodo

Essa migração lenta e dolorosa de 12.000 indígenas guaranis teve por chefe o jesuíta Antônio Ruiz de Montoya, seguido pelos padres Suarez, Martinez, Espinosa, Contreras, Masseta, Cataldino e outros ainda. A perda nas cataratas no Iguaçu de várias pirogas com o carregamento de provisões, chuvas torrenciais, insetos de incrível voracidade, os obstáculos naturais, a peste e outras tantas dificuldades consideráveis fizeram do Padre Montoya um verdadeiro herói que, como um pai, conduziu os guaranis sãos e salvos até as Reduções argentinas.

Os nomes das antigas Reduções foram conservados; o mapa (abaixo) nos mostra o lugar definitivo das Missões jesuítas. Deve-se notar que as sete Reduções brasileiras se estabeleceram definitivamente depois da vitória de Mborore, que impediu por muito tempo ataques posteriores de bandeirantes paulistas.

 

A batalha de Mborore

Em 1639, os bandeirantes atacaram a vila de Xerez, em terra paraguaia, e ameaçaram Assunción, sempre com o pretexto de chegar até o rio Paraguai, limite geográfico, diziam eles, do Brasil. O governador do Paraguai, Don Pedro Lugo de Navarra, pediu ajuda a 4.000 indígenas das Missões guaraníticas. A administração colonial espanhola tinha dado autorização aos guaranis para utilizar armas de fogo, autorização que será, em 1643, confirmada pela coroa espanhola.

Numa manhã de março de 1641, chegaram ao rio Mborore 450 paulistas, acompanhados de 2700 índios tupis, navegando 300 pirogas.

O general guarani Ignacio Abiaurú, ajudado pelos irmãos leigos Domingo Torres e Antonio Bernal, reuniu seus 4.200 soldados, munidos de flechas, lanças, canhões e de 250 arcabuzes. A luta, de uma violência extrema, durou três dias. Os paulistas foram vencidos e vários índios tupis passaram para  lado dos guaranis civilizados.

O general Abiaurú tornou-se uma figura célebre entre os heróis guaranis. Outras vitórias se seguiram em 1647, 1651 e 1655. Depois disso, as tropas paulistas não ousaram mais avançar por longo tempo na direção oeste, onde as sete reduções brasileiras de São Francisco Borja (1682), São Nicolau (1687), São Miguel (1687), São João Batista (1697) e Santo Anjo da Guarda (1706) alcançaram um pleno florescimento até 1750, ano do Tratado de Madri.

 

VI ― O FIM DAS REDUÇÕES

O tratado de Madri (1750)

Uma novidade surpreendente chegou um dia às Missões: “Um tratado de permuta”, um tratado de troca, tinha sido assinado em Madri entre Espanha e Portugal em favor dos interesses portugueses. A colônia de Sacramento (o Uruguai) e as ilhas Filipinas tornavam-se espanholas, enquanto que as sete Reduções do Rio Grande do Sul (chamadas “Os Sete Povos das Missões”) tornavam-se portuguesas. Tinha sido decidido que os índios sairiam das Reduções e o governo português daria 4.000 pesos a cada vila. Esse tratado pode ser explicado pelo parentesco entre Fernando VI de Espanha, casado com Bárbara de Bragança, e o monarca português, pai de Bárbara, mas também pela poderosa influência da maçonaria portuguesa, da qual era membro ativo o tristemente célebre ministro português, Marquês de Pombal, inimigo ferrenho dos jesuítas...

 

A guerra guaranítica

Os 3.104 guaranis das sete Reduções se recusaram a deixar suas terras, suas casas, suas igrejas. Os padres jesuítas não conseguiram convencê-los a ir embora... Eles consideravam injusta a ordem do rei, a quem eles tinham sempre servido fielmente. Iam eles deixar para os bandeirantes, seus terríveis inimigos, os frutos de tantos anos de trabalho? Impossível; preferiam desobedecer, com armas na mão, à ordem injusta do rei.

Seu chefe era o general de cavalaria Tiarayu, muito popular, conhecido pelo nome de Sepé. Era considerado, pela sua coragem e sua habilidade no combate, como o mais terrível guerreiro da época. Não muito longe, as tropas espanholas e portuguesas aguardavam prontas para o combate, caso as ordens reais não fossem respeitadas.

A guerra durou de 1753 a 1756.

O primeiro assalto terminou com a vitória dos espanhóis e dos portugueses, fortemente armados. Por ocasião de um segundo combate, Sepé foi feito prisioneiro, conseguindo fugir. Em 1756, ele chefiou novamente um exército guarani, agora mais forte do que nunca. Mas o exército espanhol-lusitano obteve a vitória e Sepé, a alma de seus soldados, foi morto em combate. A piedade popular conta que os indígenas viram então um cavalheiro montado num cavalo de fogo entrar no céu...

O número de guaranis mortos em combate foi enorme; entre os corpos sem vida estendidos sobre o campo de batalha, contavam-se vários jesuítas que tinham tentado proteger seus filhos revoltados.

O general Nicolas Languirú sucedeu Sepé. Mas ele também sucumbiu durante a sangrenta batalha de Caybaté. Com sua morte, os guaranis, vencidos, tiveram de deixar suas terras. Assim terminaram as guerras guaraníticas.

É claro que essas guerras são conseqüências das manobras do Marquês de Pombal, desejoso de acabar com o poder militar indígena que punha obstáculo, sob a proteção e o controle do inimigo jesuíta, à expansão territorial portuguesa no Brasil. Além do mais, os adversários dos jesuítas eram numerosos, poderosos e cobiçavam a riqueza das Reduções guaraníticas, cuja organização era admirada da Europa...

 

A expulsão dos jesuítas e o fim das Reduções

Uma campanha de difamação foi lançada contra os jesuítas na Europa e na América. Os missionários eram acusados de suscitar a guerra guaranítica e de conspirar contra a monarquia  para instaurar uma república independente. Os ministros liberais Aranda, Floridablanca e Campomanes acusavam particularmente os jesuítas de frear o desenvolvimento da população da América, proibindo os indígenas de trabalhar nas comendas (das quais conhecemos os métodos); eles os acusavam também de não exigir dos indígenas o uso da língua espanhola e de fazê-los trabalhar de maneira excessiva para poder enviar milhões de pesos ao Superior Geral da Companhia , etc., etc....

O ímpeto dos detratores foi tal que o Imperador espanhol Carlos III terminou por escutá-los e assinou o decreto de expulsão dos jesuítas, aprovado pelo papa Clemente XIV, no dia 27 de fevereiro de 1767. O Papa depois arrepender-se-á amargamente dessa decisão. Carlos III, sem querer, legalizou as conquistas portuguesas e fixou os limites atuais das fronteiras do Brasil naquela região.

Carlos III, em 1761, tinha assinado o Tratado do Pardo que anulava o de Madri e ordenava os guaranis a voltar a suas terras, agora espanholas. Mas suas queridas Missões estavam em ruínas e eles tiveram de escolher entre duas opções: ou aceitar um novo sistema  que suprimia a organização comunitária dos jesuítas e impunha uma língua e um estilo de vida europeu, ou abandonar a vila. Os guaranis escolheram, evidentemente, a segunda opção. A decadência instalou-se rapidamente, com seu triste cortejo de miséria, fome, doenças e vícios.

As ruínas das Missões dos guaranis fazem, infelizmente, parte do Patrimônio Mundial da Humanidade. Se os olhos do turista as admiram, seu coração geralmente permanece indiferente porque não compreende a razão de ser dessas Missões. O próprio turista tornou-se um selvagem munido de computador, afastado de Deus e do doce Reino de Cristo Rei.

Os missionários jesuítas tinham compreendido que se deve “Tudo restaurar em Cristo (Ef 1,10), OMNIA INSTAURARE IN CHRISTO”: as almas, as famílias, a sociedade política, a economia, as artes. As Reduções guaraníticas foram a realização dessa divisa de São Paulo, que também foi a de São Pio X, e é a da Igreja. Saibamos combater por esse ideal.

 

Bibliografia:

 

―    Las reducciones guaraníticas, Ana Maria Galleano.

―    Las Misiones Jesuíticas, San Ignacio Miní, César Omar Balbuena.

―    São Miguel das Missões, Secretaria Municipal de turismo e cultura de São Miguel, Brasil.

―    Santos Mártires das Missões, Estanislau  A. Kreutz.

―    Missões jesuíticas dos guaranis, CD-ROM da Associação Amigos das Missões

 

(Publicado originalmente no jornal "Guarde a Fé", da FSSPX no Brasil)

As mártires de Compiègne

O texto que se vai ler foi tirado do apêndice histórico da edição brasileira da obra de Gertrud von le Fort (A Última ao Cadafalso, trad. de Roberto Furquim, Quadrante, São Paulo, 1998), e tem por base o livro de Bruno de Jesus Maria, O.C.D, Le Sang du Carmel ou la véritable passion des seize carmelites de Compiègne, Plon, Paris, 1954 e o informe do Secretariatus pro monialibus, Curia Generalis O.C.D., As Bem-aventuradas mártires de Compiègne, Roma, S.d. As citações entre aspas, exceto quando é indicado o contrário, provêm dos manuscritos da Irmã Maria da Encarnação. 

 

Praça do Trono, 17 de Julho de 1794       

São cerca de oito horas da tarde. É verão e o céu ainda está claro. A multidão comprime-se em volta da guilhotina, erguida no centro da antiga Place du Thrône, atual Barrière de Vincennes. Junto dos degraus que conduzem ao cadafalso, o carrasco, Charles-Henri Sanson, espera respeitosamente de pé, flanqueado por dois ajudantes. Há quarenta anos vem prestando esse serviço ao governo, com inalterável resignação. O calor é opressivo, e em toda a praça reina um odor mefítico de sangue.

Vindos da cidade, despontam os carroções. Hoje são dois, e vêm bastante cheios: ao todo, serão quarenta vítimas. Recebem-nas as exclamações e ameaças habituais, mas o barulho logo se abafa em murmúrios de espanto. Acontece que, entre os condenados, se vêem diversas mulheres de capa branca: são as dezesseis carmelitas do convento de Compiègne. Ao contrário dos seus companheiros de infortúnio, não deixam pender a cabeça nem choram ou gritam; trazem o rosto erguido, e a linha firme do corpo é sublinhada pelas mãos amarradas às costas. E cantam: aos ouvidos de todos, ressoam as notas esquecidas da Salve Rainha em latim e do Te Deum. Até para o mais empedernido dos basbaques presentes, é um espetáculo inaudito.

Quando os carroções param ao pé do cadafalso, o burburinho faz-se silêncio absoluto. Até essas mulheres histéricas, as chamadas "fúrias da guilhotina", que sempre estão na primeira fila dos espectadores, emudecem.

As primeiras a descer são as carmelitas. Uma delas, a priora, Madre Teresa de Santo Agostinho, aproxima-se do carrasco e pede-lhe que lhes conceda uns minutos para poderem renovar os seus votos e que a deixe ser a última a sofrer a execução, para que possa animar cada uma das suas filhas até o fim. Sanson, alma delicada, concorda de bom grado.

Todas juntas, cantam o Veni Creator Spiritus. A seguir, renovam os seus votos religiosos. Enquanto rezam, uma voz de mulher sussurra na multidão: "Essas boas almas, vejam se não parecem anjos! Pela minha fé, se essas mulheres não forem diretas ao paraíso, é porque o paraíso não existe!"

A priora recua até a base da escada. Tem nas mãos uma estatueta de cerâmica da Virgem Maria com o Menino Jesus ao colo. A primeira a ser chamada, a mais jovem de todas, é a noviça Constança. Ajoelha-se diante da Madre e pede-lhe a benção. Segundo uma testemunha, ter-se-ia também acusado nesse momento de não haver terminado o ofício do dia. Com um sorriso a Madre diz-lhe: "Vai, minha filha, confiança! Acabarás de rezá-lo no Céu"... e dá-lhe a beijar a imagem.

Contança sobe rapidamente os degraus, entoando o salmo Laudate Dominum omnes gentes, "Louvai o Senhor, todos os povos". "Ia alegre, como se se dirigisse para uma festa". O carrasco e seus ajudantes, com gesto profissional, dispõem-na debaixo da guilhotina. Ouve-se o golpe surdo do contrapeso, o ruído seco da lâmina que cai, o baque da cabeça recolhida num saco de couro. Sem solução de continuidade, o corpo é lançado ao carroção funerário.

Uma por uma, as freiras ajoelham-se diante da priora e pedem-lhe a benção e permissão para morrer. Cantam o hino iniciado por Constança. Quando chega a vez da Irmã de Jesus Crucificado, que tem 78 anos, os jovens ajudantes do carrasco têm de descer para ajudá-la a vencer os degraus. Ela diz-lhes afavelmente: "Meus amigos, eu vos perdôo de todo o coração, tal como desejo que Deus me perdoe".

Só falta a Madre. Com gesto simples e firme, beija a estatuinha e confia-a à primeira pessoa que tem ao lado. Tem 41 anos, um rosto expressivo, nem muito bonito nem feio; o porte é, mais do que altivo, descontraído. Os olhos castanhos, sofridos mas irradiando bondade, procuram os do pe. Lamarche, que as confessara no dia anterior na prisão e que se encontra entre a multidão. Como quem tem pressa em concluir uma tarefa urgente, sobe por sua vez os degraus.

Agora tudo terminou. Pode-se cortar o silêncio como se fosse um queijo. Muitos dos assistentes choram baixinho. Anos mais tarde, encontrar-se-ão — registrados em cartas pessoais, diários íntimos e memoriais — os ecos da emoção que experimentaram e dos efeitos que ela lhes causou: muitos sentiram a necessidade de mudar de vida, de retomar a prática dos sacramentos, um ou outro de ingressar num convento... Um deles, um menino que presenciara a cena das janelas de um prédio situado em frente da guilhotina, guardou dela uma impressão tão profunda que, anos mais tarde, quando fazia o serviço militar, carregava sempre consigo as obras de Santa Teresa de Ávila e acabou por fazer-se sacerdote. "O amor vence sempre", costumava dizer a Madre priora; "o amor vence tudo".

Os corpos foram levados às pressas para o antigo convento dos agostinianos do Faubourg de Picpus. Lá foram lançados na fossa comum e cobertos de cal viva. Hoje há ali um gramado cercado de ciprestes, com uma simples cruz de ferro. É um lugar de silêncio e oração.

[...]

Céu de Chumbo [4 anos antes]

A 13 de fevereiro de 1790, a Assembléia suprimia, de uma penada, todas as Congregações religiosas que não estivessem dedicadas ao ensino e aos hospitais. É curioso ler, nas atas das sessões anteriores, os grandes argumentos em defesa dessa medida: os religiosos contemplativos já não exerciam, segundo os deputados, nenhuma função útil, uma vez que "as terras de cultivo já tinham sido desbravadas (!) e os pobres constituíam uma dívida pública que cabia à sociedade inteira resgatar". Por que então roubar à agricultura e à indústria, à economia nacional, todos esses braços que poderiam ser tão úteis se não tivessem permanentemente as mãos postas para orar? Nada mais lógico, pois, do que descartar dessas Ordens e atribuir aos seus membros alguma ocupação "proveitosa".

Evidentemente, as resoluções tomadas em Paris tardavam algum tempo a ser postas em prática na província. Assim, as carmelitas puderam ainda desfrutar de quase seis meses sem serem perturbadas. A secularização dos bens do clero estava já em pleno andamento, e fazia uns quinze dias que tinham tido a dolorosa notícia de que fora aprovada a Constituição Civil do Clero, quando os membros do Diretório local de Compiègne se apresentaram no convento, no dia 4 de agosto, de papel e pena na mão, a fim de fazer o inventário do mobiliário, títulos e papéis. Tudo parece ter corrido sem maiores incidentes; as relações ainda eram cordiais, uma vez que todos no vilarejo conheciam e queriam bem às carmelitas. Terminado o levantamento, o Diretório encarregou oficialmente as "cidadãs" residentes no convento, agora pertencente à municipalidade, de administrarem esses bens em nome do poder público.

No dia 5, porém, voltaram à carga, desta vez para perguntar a cada uma as religiosas se preferia permanecer ou abandonar o convento. Tratava-se ainda de uma dessas tarefas burocráticas desagradáveis, mas de que, enfim, era preciso desincumbir-se. O notário escrevinhava ansiosamente enquanto as religiosas compareciam uma por uma diante dos membros do Diretório para registrarem a sua resposta.

O inventário dessas declarações, unânimes na sua completa fidelidade, é todo um testemunho. A anciã Irmã de Jesus Crucificado afirmou que, "carmelita há cinqüenta e seis anos, a única coisa que quereria, por tudo no mundo, seria dispor ainda do mesmo número de anos para consagrá-los ao Senhor"; a Irmã Eufrásia, beligerante, exprimiu "a firme decisão de conservar o seu hábito, mesmo que tivesse de conquistar essa felicidade ao preço do seu sangue"; a Madre Croissy declarou com nobreza que "assumira os seus compromissos para a vida inteira, e era com pressa que agarrava essa ocasião de renová-los"; a analfabeta Irmã São Francisco Xavier respondeu belamente que "uma esposa bem-nascida permanece unida ao seu esposo, e nada neste mundo seria capaz de fazê-la abandonar o seu divino esposo, Nosso Senhor Jesus Cristo"; e assim, todas e cada uma.

No entanto, e não há nada mais natural, um certo nervosismo tomou conta da comunidade. "Coragem, animava-as a priora, nada de temores pusilânimes, que seriam uma ofensa ao poder e à bondade de um Pai em cujo seio devemos lançar-nos com a mais terna e a mais firme confiança".

Em nome de todos os Carmelos franceses, a priora do mosteiro de Grenelle enviou por esses dias um Memorial à Assembléia Nacional, assinado também pelas prioras dos outros três Carmelos de Paris. "As riquezas das Carmelitas", diz o texto, "nunca foram objeto de cobiça. A nossa fortuna consiste nessa pobreza evangélica que, mesmo depois de quitadas todas as dívidas para com a sociedade, ainda assim encontra meios para ajudar os necessitados e socorrer a pátria e em todas as circunstâncias nos torna felizes com as privações que passamos. A liberdade mais completa preside aos nossos votos; a igualdade mais perfeita reina nas nossas casas; entre nós, não há ricas nem nobres [...]. No mundo, comprazem-se em publicar que os mosteiros só encerram vítimas que se vão consumindo lentamente pelos seus sofrimentos; mas nós declaramos diante de Deus que, se há na terra autêntica felicidade, nós desfrutamos dela [...]. Depois de terdes proclamado com tanta solenidade que o homem é livre, querereis obrigar-nos a pensar que já não o somos?"

Mas essas palavras, belas e nobres, caíam em ouvidos ensurdecidos pela algazarra da rua e dos debates parlamentares. Os representantes da Liberdade continuarão a apertar, volta sobre volta, o torniquete com que pretendiam estrangular aqueles que cometiam o horroroso crime de orar e de oferecer-se em sacrifício por eles. "Ó Liberdade, quantos crimes se cometem agora em teu nome!", teria suspirado Mme. Roland — aliás em parte "eminência parda" na elaboração dessas leis — quando a corraça que a levava à guilhotina passou diante de uma estátua da "deusa".

No dia 11 de Janeiro de 1791, os oficiais municipais voltaram a apresentar-se no convento para acompanhar e supervisionar as eleições da priora e da ecônoma; "Mme Lidoine" — já não era politicamente correto usar o nome de religiosa, Madre Teresa de Santo Agostinho — foi reeleita por unanimidade e "Mme. Croissy", Madre Henriqueta de Jesus, foi eleita ecônoma. A seguir, fixaram-lhes uma pensão no valor de 7425 libras anuais, aproximadamente meio salário mínimo por cabeça.

No mês seguinte, começaram os preparativos para a instalação local da Igreja constitucional. O bispo de Beauvais, diocese a que pertencia Compiègne, foi obrigado a retirar-se; tratava-se do ancião mons. de Rochefoucauld, homem de grande santidade, que em setembro deste ano estaria entre os Mártires do Carmo de Paris, por puro ódio à santidade, pois já não exercia qualquer função pastoral. Substituiu-o o antigo pároco de Cergy, Jean-Baptiste Massieu, eleito bispo constitucional.

Passou-se mais de um ano em angustiosa expectativa, sob um aguaceiro contínuo de más notícias que não cessavam de piorar. "O bispo [juramentado] é o maior objeto das nossas angústias; não temos intenção de reconhecê-lo. Cada dia nos traz uma calamidade nova; estamos, como a senhora, oprimidas sob o peso da cruz e da dor" [Carta de uma religiosa de Sentis à Madre Teresa de Santo Agostinho]. O breve com que o Papa condenou a Constituição Civil foi muito mal recebido em Paris. Por toda a parte, só se ouvia falar de desordens, tumultos, violências contra os católicos fiéis.

Sob um céu carregado, sem perspectivas de melhora, as carmelitas de Compiègne esmeravam-se na sua vida de entrega e sacrifício. Ofereciam as suas penitências, a Missa, a oração. O pe. Courouble, que se recusou a prestar o juramento, continuava ainda a atendê-las regularmente com a maior discrição possível.

 

O Sacrifício

 Na Páscoa de 1792, enquanto lêem no recreio umas crônicas antigas do convento, deparam com o relato de um sonho que tivera uma antiga freira, falecida lá pelos idos de 1720. Contava ela que, nesse sonho, vira a comunidade inteira subir ao Céu: "Vi a glória que as religiosas deste convento terão ali. E vi também o Cordeiro de Deus imolado pelos pecados do mundo; os seus olhos dirigiam-se para nós cheios de ternura". Durante algum tempo, este passa a ser o tema mais freqüente das suas conversas. Teria Deus preparado para elas a glória do martírio? Que alegria se pudessem ir todas juntas para o Céu!

Nessa época, a priora sofre pesadamente com as responsabilidades que o seu cargo lhe impõe em circunstâncias tão dolorosas. Que fazer? Que decisão tomas? A sua saúde ressente-se. No entanto, se chegar a vergar sob o peso, não quebra. Ainda encontra energias suficientes no seu interior para compor uns versos que refletem bem a sua disposição combativa.

 

Ici-bas notre partage

Est la croix, l'adversité,

Mais elles nous sont le gage

D'une hereuse eternité [...]

Armons-nous donc de courage

Comme de braves soldats

Le grand Roi qui nous engage

A bravé bien de combats. [...]

Aqui em baixo, a nossa parte

É a cruz, a adversidade

Mas são elas o penhor

Da feliz eternidade [...]

Armemo-nos pois de coragem

Como bravos soldados.

O grande Rei que nos recruta

Já enfrentou muitos combates...

 

Nessa época, um sacerdote cujo nome desconhecemos — porque já era demasiado perigoso assinar as cartas — toma a seu cargo a direção espiritual da comunidade. Alguns supõe tratar-se do pe. Lamarche, que acompanhará as carmelitas até ao pé do cadafalso. Seja como for, é um homem de intensa vida interior, que conduz a priora e as suas filhas pelo caminho do abandono nas mãos de Deus: "Consolai-vos, minha filha, consolai-vos: é o próprio Pai das misericórdias quem usa desta linguagem para convosco; já não tenhais medo, amai-O acima de todas as outras coisas, entregai o vosso coração ao Deus que o inflama [...] Nunca mais essa tristeza que abate, nunca mais esse medo que enfraquece, numa mais essas dúvidas, essas ansiedades que esgotam; Amor divino, só Vós, sim, só Vós sereis o grande, o único objeto dos meus desejos" [carta do diretor desconhecido à priora, 11/05/1792]

Mas a triste situação da Igreja e da Nação pesam sobre a Madre. "Ó minhas irmãs em Cristo!", exclama ela diante de todas, "ajudai-me a pedir esta graça ao Senhor. É com este fim que Ele nos reuniu aqui, esta é a nossa vocação, esta a nossa tarefa": expiar o pecado que domina o mundo, abrir essas trevas à graça de Deus. Por fim, entre junho e agosto de 1792, a priora conta às irmãs que "ao fazer a sua meditação, tinha-lhe vindo ao pensamento fazer um ato de consagração mediante o qual a comunidade se ofereceria em holocausto para aplacar a cólera divina, e para que fosse concedida à Igreja e ao Estado essa paz que o seu Filho amado tinha vindo trazer ao mundo". Quando lhes lê essas palavras, todas concordam e prometem unir-se a ela.

Apenas as duas mais velhas, a Irmã de Jesus Crucificado e a Irmã Carlota da Ressurreição, ambas com 76 anos na ocasião, não conseguem deixar de exprimir o horror que experimentam ante a idéia de terminarem os seus dias na guilhotina. "Minhas queridas irmãs", responde-lhes a priora, "não pretendo impor-vos a obrigação de pronunciar este ato, e crede que teria evitado até falar-vos dele se tivesse previsto o efeito que a sua leitura produziria em vós. Meu pensamento dirigia-se inteiramente para os motivos que levaram a nossa santa Madre (Teresa de Jesus) a fundar a sua Reforma: fazer cessar os males que afligiam a Igreja e o Estado do reino de França. Se esta Santa teve tanto zelo em orar por uma pátria que não era a sua, com quanto maior razão não devemos fazê-lo nós, tratando-se do nosso próprio reino?" As duas retiram-se para a cela, de onde não voltam a sair durante todo aquele dia; mas à noite vêm procurar a Madre, comovidas e humilhadas, e pedem-lhe que lhes permita reparar o "escândalo" que causaram e tomar parte também nesse ato de consagração.

A inspiração da priora era quase profética: poucos dias depois, a 2 de setembro, inicia-se o período negro dos massacres e perseguições, enquanto saraivam os decretos raivosos da Assembléia. Suprimem-se também as Ordens dedicadas ao ensino e aos hospitais, e, diante disso, as autoridades de Compiègne fariam má figura se continuassem a tolerar por mais tempo um convento de freiras contemplativas. O Comitê de Vigilância Revolucionária local vem avisá-las de que terão de deixar a clausura.

No dia 14 de setembro, festa da Exaltação da Santa Cruz, as religiosas deixam o convento, vestidas de roupas civis. Distribuem-se em quatro grupos, acolhidos em casas de família relativamente próximas umas das outras, no bairro de Saint-Antoine. Antes de despedir-se, comentam entre si "que o Senhor, por meio desse sacrifício que lhes exigia ou permitia nessa data, haveria de enriquecê-las com uma porção mais forte de sua Cruz".

Mas as vexações não param por aí. Exige-se delas que prestem o novo juramento de fidelidade à Revolução, chamado de "liberde, igualdade": "Juro que serei fiel à Nação e manterei a liberdade, a igualdade ou morrerei em sua defesa". Embora lhes repugnasse mais pelo contexto do que pela fórmula, submetem-se a essa imposição a conselho do superior, o pe. Rigaud. Durante o seu processo em Paris, o promotor público Fouquier-Tinville acusá-la-ia de não o terem prestado. O mais provável é que, ao tomarem conhecimento de que a Sagrada Congregação encarregada dos assuntos franceses tinha considerado ilícito também esse juramento, a 1o. de abril de 1794, elas se tenham retratado publicamente; Maria da Encarnaçào afirma ter visto, em 1795, o texto da retratação com as assinaturas das freiras.

É impressionante observar que, nessas circunstâncias em que teriam todos os motivos para ceder ao desânimo, essas mulheres souberam manter-se fiéis à Regra da sua Ordem. Como as casas eram próximas e costumava haver, nos vilarejos, portas de comunicação entre os jardins, podiam reunir-se de tempos a tempos sem dar muito nas vistas. "O profundo consenso que havia entre todas as irmãs fazia com que nenhuma delas se desviasse das suas obrigações; podia-se dizer que praticavam a obediência com toda a exatidão do convento".

A Madre Teresa de Santo Agostinho levou consigo as duas freiras mais velhas, a Irmã conversa Santa Marta, adoentada, e a mais velha das duas porteiras, Therèse Soiron. A fim de preparar e fortalecer as suas filhas, pedia-lhes com muito tato que rezassem todos os dias o oferecimento de suas vidas que ela lhes tinha posto por escrito. Era cada vez mais difícil conseguir quem lhes celebrasse a Santa Missa, pois em novembro o capelão, o pe. Courouble, foi denunciado como contestatário por dez "cidadãos ativos" da cidade e condenado ao exílio, na Bélgica. Mas elas mantiveram absoluta regularidade na recitação do Ofício e nas horas de oração.

"Não estamos nem em tempo nem em lugar de satisfações -- escrevia a priora à Irmã Teresa do Coração de Maria, que se encontrava em um dos outros grupos; renunciar a elas para sempre e não ater-nos senão à ajuda caritativa do próximo por amor a Deus, a quem devemos sempre ver em tudo, este deve ser o nosso exercício diário [...] Bendigo de todo o coração a resoluçào que tomamos de pôr mais ordem no nosso horário, do qual tivemos necessariamente de afastar-nos nestes últimos tempos, e certamente sem que isso desgostasse Aquele cujos desígnios sempre adoráveis e santos permitiram as tristes circunstâncias que levaram a esta desordem. [...] Na medida do possível, renovemos pois o recolhimento, a oração, o silêncio nas mesmas horas em que costumávamos observá-los, e igualmente as leituras (do Ofício divino). Muitas pessoas não duvidam de que continuamos a observar esses exercícios, e comovem-me os cuidados que têm para não nos perturbarem [...] Façamos, pois, tudo o que é possível, enquanto pudermos e sem o menor escrúpulo, já que a nossa situação atual comporta exceções que um coração reto deve reconhecer, mas das quais um coração fiel não abusa. [...] No coração de Jesus encontrareis o de uma terna mãe" [Carta da priora à Irmã Teresa do Coração de Maria, 1/10/1792]

Foram vinte e um meses desse "petit-martyre", desse "pequeno martírio" oculto. Esperar por uma ameaça que não se sabe bem qual será, sem prazos nem esperanças de alívio, numa situação de provisoriedade que se prolonga indefinidamente... não é pequena tortura. Em contrapartida, contavam com a fidelidade de muitos católicos, e os membros da confraria do escapulário do Carmo visitavam-nas com freqüência.

Enquanto isso, as autoridades de Compiègne dançavam segundo a música de Paris, estimuladas pela presença de dois "representantes do povo em missão", membros da Convenção, Em Paris caçavam-se os "fanáticos"? Pois, em Compiègne, também o fariam! O clube jacobino, transformado em Sociedade dos Amigos da República e presidido por um certo Bertrand Quinquet, elaborará zelosamente uma lista de 64 suspeitos e os deixará à disposição de 36 "cidadãos patriotas". Em Paris fechavam-se as igrejas e celebrava-se o culto da Razão? Compiègne não lhe ficaria atrás! A 16 de maio, o Comitê diretivo local pode permitir-se um ufano relatório das suas atividades descristianizadoras, adornado com as mais belas flores da retórica revolucionária-burocrático-servil-aduladora:

"Cidadãos representantes [...] vós vos queixais de que o fanatismo se agita nesta comuna, e exigis de nós uma prestação de conts das medidas que tomamos para reprimir a audácia daqueles que, sob pretexto da liberdade de Cultos, teriam ousado fomentar agitações e estimular movimentos.

"Eis as contas que podemos prestar-vos, e estas contas são sinceras e verdadeiras. Fundadas nos fatos, elas vos provarão que Compiègne não deve ser confundida com certas comunas dos arredores, que ainda não estão à altura dos princípios revolucionários.

"Desde o mês de vendimiário (setembro-outubro de 1793), os fanáticos desta comuna foram presos e recluídos.

"No começo de brumário (meados de outubro), as ex-igrejas foram fechadas e todas as futilidades do fanatismo queimadas.

"Durante esse mesmo mês, o templo principal da localidade foi solenemente dedicado à Razão.

"Desde então, em todos os décadis (décimos dias), ao som do sino da Casa Comunal, os cidadãos reúnem-se nesse templo e a li escutam com satisfação discursos de moral, sermões patrióticos, a leitura dos decretos etc etc [...]

"Aqui, Cidadãos representantes, o fanatismo foi esmagado, triturado, aniquilado. Cortamos a última cabeça desta temível desordem e não permitiremos que esse monstro abominável renasça das cinzas [...] Viva a República: Viva a Convenção: Viva a Montanha!".

Infelizmente, a vigilante Sociedade dos Amigos da República não parece ter compartilhado as opiniões da administração. Num informe datado de pouco antes, do dia "3 de floreal do ano II" (22 de abril de 1794), Bertrand Quinquet queixava-se diretamente ao Comitê Geral de Segurança de Paris: "Os dias chamados de páscoa no estilo fanático são os do furor da superstição [...] Com viva dor, sou obrigado a informá-los de que, nestes dois últimos décadis (20 dias), a chama da Razão se apaga e a lâmpada da superstição se reanima. Não tenho senão a voz da representação, e faltam-me os meios repressivos; se não me ajudardes com as vossas ordens, o espírito público evaporar-se-á pouco a pouco".

 

"Marchemos para a Conquista"

Em junho de 1794, com a suspensão de todas as garantias individuais previstas na Constituição, o Terror chegou ao seu paroxismo. Em Compiègne, o Comitê, inquieto e precisando urgentemente "mostrar serviço", lembrou-se de que havia nos seus arquivos uma denúncia contra as carmelitas porque "continuavam a viver em comunidade; mantinham-se ainda submetidas ao regime fanático do seu claustro; podia haver entre elas e os fanáticos de Paris uma correspondência criminosa; e suspeitava-se que celebravam entre elas reuniões dirigidas pelo fanatismo". Bem a tempo!

Em março de 1794, a Irmã Maria da Encarnação viajara a Paris. Na sexta-feira, 13 de junho, a instâncias do Pe. Rigaud, também a Madre priora teve de dirigir-se à capital para visitar a sua mãe, já anciã, que tinha enviuvado tempos atrás e precisava da assinatura da filha para liquidar a sucessão do marido. Ao voltar de diligência para Compiègne, no entardecer do dia 21 de junho, foi recebida por algumas das suas filhas, que a informaram de que naquele mesmo dia o Comitê viera revistar as casas em que moravam e estava apreendendo tudo o que encontrava.

No dia seguinte, continuou a busca e apreensão. Encontrou-se em poder das irmãs amplo material "subversivo", que seria exaustivamente listado na infinita papelada burocrática em que se envolveu este episódio burlesco e sangrento. À tarde, as religiosas receberam voz de prisão e foram levadas ao antigo convento da Visitação de Santa Maria. Na ala vizinha, estavam presas as beneditinas inglesas de Cambrai, detidas desde outubro de 1793 por serem estrangeirais; estas freiras contribuiriam mais tarde para difundir a fama de santidade das carmelitas.

O cativeiro foi duríssimo: um pouco de pão tresamanhecido, impossível de comer, e de água em péssimas condições para as que estavam doentes, como a Irmã Carlota e a Madre Henriqueta. Uma ex-meretriz cuidava delas mediante pagamento. Foram mantidas incomunicadas, e a abadessa das beneditinas só pôde trocar umas poucas palavras com as carmelitas em duas ocasiões durante esse período, que durou pouco menos de três semanas.

Já no terceiro dia (25), o Comitê de Vigilância enviou a Paris o expediente em que as irmãs eram acusadas de atividades contra-revolucionárias. Acrescentaram também uma carta ao Comitê de Salvação Pública: "Fazia já muito tempo que suspeitávamos que as antigas religiosas carmelitas desta comuna, embora alojadas em diversas casas, ainda viviam em comunidade, submetidas às regras do seu antigo convento. As nossas suspeitas não foram vãs, pois, no decorrer de diversas visitas rigorosas que lhes foram feitas, descobrimos uma correspondência a mais criminosa possível. Não somente impediam o progresso do espírito público, recebendo nas suas casas pessoas que admitiam numa confraria chamada do escapulário (do Carmo), mas ainda continuavam a desejar, elas próprias, a contra-revolução. [...] Podereis julgar vós mesmos a partir dos documentos que vos enviamos".

e segue a lista do corpus delicti: um retrato do "tirano" (era uma dessas imagens impressas em série do rei, já decapitado a essas alturas, e representado na forma tradicional, debaixo do Espírito Santo e entre os corações de Jesus e de Maria), inúmeras cartas que "transpiravam fanatismo" (a familiares e parentes, e sobretudo as do diretor espiritual), e, horror dos horrores!, uns versinhos sarcásticos em que se dizia que "o frio acabará por comer os insetos e toda a espécie de jacobinos" [*]... Eis tudo.

No dia 10 de julho, o Comitê Geral de Segurança de Paris mandou que se enviassem as carmelitas, "culpadas e acusadas de cumplicidade diante do tribunal revolucionário", à Conciergerie de Paris, a parte medieval do antigo Palácio de Justiça, que servia de prisão. No dia 12, três membros do Comitê de Compiègne apresentaram-se na Visitação, intimando-as a partir imediatamente. Como as carretas destinadas ao transporte já tinham chegado, não lhes permitiram nem tomar uma refeição nem lavar as suas roupas, e aparentemente foi nesse momento que voltaram a vestir os seus hábitos religiosos ou, pelo menos, as capas brancas. Enquanto subiam, com as mãos amarradas às costas, "um grande número de mulheres, a quem a comunidade tinha ajudado de mil maneiras, as insultava, agitando os braços e gritando: "Está muito bem! Acabem com elas, com essas bocas inúteis! Bravo, muito bem!".

O cortejo, escoltado por um gendarme e dez dragões da cavalaria, só se deteve em Senlis, no meio da noite, para troca de cavalos e rendição da guarda. Chegaram a Paris no domingo, 13 de julho, por volta das três ou quatro da tarde. No pátio da Conciergerie, fizeram-nas descer aos empurrões, pois continuavam a ter as mãos atadas. A Irmã Carlota da Ressurreição que, aos seus 78 anos, só podia andar de muletas, foi simplesmente lançada para fora da carroça. Depois de uns minutos de imobilidade, conseguiu levantar-se, som o rosto todo ensangüentado, e disse aos guardas: "Creiam-me, não lhes guardo rancor por isso. pelo contrário, agradeço-lhes que não me tenham matado, porque se tivesse morrido às vossas mãos, não teria a dita e a glória de chegar ao martírio".

"A Conciergerie não se assemelhava em nada às restantes prisões de Paris", escreve o historiador Gustave Lenôtre. "Ali não se vive, apenas se passa. Ali se desafiam os juízes, os verdugos, a morte; já nada intimida. É um tumulto contínuo, um estado febril, uma agitação perpétua; os recém-chegados cruzam-se, nos corredores, com os que saem para o cadafalso.

"No setor das mulheres, há mais calma, mas nem por isso se deixa de rondar a morte. O local é infecto; um labirinto de corredores tortuosos; uma grade sólida a cada vinte passos; escadas de pedra subindo em caracol por entre a espessura das paredes; abóbadas em ogiva; e, por todo o lado, camas, enxergões de palha lançados sobre as pedras. Nada de refeitório: apenas umas mesas toscas aqui e ali".

Foi nesse "depósito de cadáveres" que as carmelitas passaram quatro dias à espera do julgamento. Um companheiro de prisão, o católico Blot, que exercia diversos pequenos ofícios e por isso dispunha de uma certa liberdade de ir e vir dentro do prédio, conta que as ouvia rezar os ofícios todas as noites, por volta das duas da manhã. Foi ele também que conseguiu passar um pedaço de papel e um pouco de carvão à irmã Luísa de Jesus, na véspera da festa de Nossa Senhora do Carmo. A religiosa usou-os para escrever um comovente plágio da Marselhesa, hino da revolução:

  

Entreguemo-nos à alegria

que o dia da glória chegou.

Longe de nós toda a covardia

ao vermos o estandarte que chegou.

Preparemo-nos para a vitória,

marchemos todas para a conquista

sob as bandeiras de um Deus moribundo...

 

No dia 17 de julho, às nove da manhã, foram conduzidas à Sala da Liberdade, onde deviam ser julgadas juntamente com outros 19 acusados de diversas procedências. O Tribunal Revolucionário compunha-se de três juízes e nove jurados. O promotor público, significativamente chamado "acusador", era Fouquier-Tinville, célebre pela sua eficiência em obter condenações à morte, pois atuava em diversos processos simultâneos nas Salas da Liberdade e da Igualdade. Quando chegasse o momento de as acusadas se defenderem, Tinville se ausentaria para a sala ao lado: afinal de contas, tudo não passava mesmo de uma simples pantomima. A ata da acusação e da condenação eram pré-impressas, e o escrivão não costumava dar-se a grandes trabalhos para corrigir o que lá constava; aliás, não se ouviu nenhuma testemunha nem nenhum advogado. Em suma, é como diz o provérbio: "A hipocrisia é o tributo que o vício presta à virtude".

"Comenta-se — escreve a Irmã Maria da Encarnação — que quando as nossas madres foram introduzidas no Tribunal, a Irmã Maria Henriqueta (da Providência) Pelras, ao ouvir que o acusador público lhes chamava de fanáticas, disse-lhe: "Poderia dizer-nos, cidadão, que entendeis por essa palavra, fanático?" O promotor, irritado, respondeu-lhe com uma torrente de insultos. A nossa irmã, nem um pouco desconcertada, disse-lhe num tom digno e firme: "Cidadão, é vosso dever responder e dizer-nos o que entendeis pela palavra fanático". "Entendo por essa palavra — respondeu Fouquier-Tinville — o vosso apego a crenças pueris, às vossas sórdidas práticas religiosas". A Irmã Henriqueta, depois de lhe ter agradecido, voltou-se para a Madre priora: "Minha querida Madre e minhas irmãs, acabais de ouvir o acusador. Felicitemo-nos, alegremo-nos com a alegria do Senhor por morrermos pela causa da nossa santa religião, da nossa fé, da nossa confiança na santa Igreja Católica e Romana".

O longo e tedioso libelo de acusação repetia o que já conhecemos. Terminava assim: "Quanto às ex-religiosas carmelitas Lidoine, Touret etc., constituem tão somente um conjunto de rebeldes sediciosas, que alimentam nos seus corações o desejo e a esperança criminosas de ver o povo francês posto novamente a ferros sob o jugo dos seus tiranos e submetido à escravidão dos padres sanguinários e impostores."

Pelo visto, o regime da liberdade de consciência não tolerava nem "desejos" nem "esperanças", mesmo que fossem apenas "alimentadas nos corações".

Passou-se à "defesa", isto é, ao interrogatório das acusadas pelo presidente do Tribunal Revolucionário. A líder das "rebeldes sediciosas sedentas de sangue" ainda procurou assumir sozinha a responsabilidade por todos os pontos de que eram acusadas e livrar as suas irmãs.

— Sois acusadas de ter escondido no vosso convento armas para os emigrados — disparou o presidente do tribunal.

A priora tirou um crucifixo que trazia sobre o peito:

— Estas são as únicas armas que tivemos na nossa casa, e nunca poderei provar que tenhamos tido outras.

— Mantivestes correspondência com os emigrados e fazíeis chegar-lhes dinheiro.

— As cartas que recebemos eram do capelão da nossa casa, condenado pelas vossas leis à deportação. Essas cartas não contêm senão conselhos espirituais. Além disso, se essas cartas constituem um delito para vós, esse delito recai unicamente sobre mim, e de forma nenhuma sobre a comunidade, à qual a nossa Regra proíbe qualquer tipo de correspondência, mesmo com os parentes mais próximos, sem permissão da superiora. Sou, portanto, a única a quem deveis aplicar a pena: as minhas irmãs são inocentes.

— Elas são tuas cúmplices.

— Se elas são minhas cúmplices, de que podeis acusar as nossas duas porteiras?

— De que? Não são elas mandadas tuas para levar as cartas ao correio?

— Mas, se elas ignoravam o conteúdo das cartas e não sabiam para onde eram enviadas? Além do mais, a sua condição de assalariadas obrigava-as a fazer o que lhe mandavam.

— Cala-te!d Era dever delas prevenir a Nação.

E assim por diante. Finalmente, o júri delibera durante uns minutos e manda ler a ata de condenação:

"Estão convictas de se terem feito Inimigas do Povo e de terem conspirado contra a sua soberania, a saber: [após os nomes de cinco outras pessoas, com os motivos de condenação, enumeram-se os das religiosas:] as senhoritas Croisy, Trézelle, Hanisset, Lidoine, Pellerat, Thouret, Piedcourt, Brideau, Brard, Chrétien, Dufou, Roussel, Vézotal, Meunier, Catherine Soiron, Therèse Soiron [**], todas religiosas carmelitas, por realizarem reuniões e conciliábulos contra-revolucionários, manterem correspondências fana'ticas, conservarem escritos liberticidas; [seguem-se os nomes de outros nove condenados]. O Tribunal, depois de ter ouvido o Acusador Público no que diz respeito à aplicação da lei, condena à pena de morte todos os acima mencionados. [...] Esta sentença será executada no prazo de vinte e quatro horas na praça pública desta cidade, chamada Barrière de Vincennes".

Eram 17 horas. A terrível pressão de um dia inteiro passado sob tensão, as esperas intermináveis em corredores e ante-salas, o calor abafado e opressivo, sem um momento para tomar alguma coisa, tudo isso pareceu cair-lhes das costas, substituído pela cristalina certeza das decisões definitivas. As dezesseis — conta Maria da Encarnação — escutaram a leitura da sentença "com serenidade e alegria nos seus corações". Somente Therèse Soiron teve um desfalecimento, e a Madre pediu um copo de água para reanimá-la.

A Madre — mãe — lembrou-se de vender a um dos carcereiros um velho abrigo de uma delas e, com esse dinheiro, conseguiu que trouxessem uma chicara de chocolate quente para cada uma.

Despediram-se do seu amigo Blot "com os rostos radiantes de alegria". Ao ver que chorava, disseram-lhe: "Que vos acontece, querido senhor, para chorardes assim? Deveríeis antes sentir-vos feliz por ver-nos chegar ao termo dos nossos males. Rezai muito por nós ao Senhor e à Santíssima Virgem, para que Eles se dignem assistir-nos nestes últimos momentos da nossa vida; e nós prometemos orar por vós assim que tivermos a alegria de chegar ao céu."

Num canto do pátio, a Madre cuida de preparar as suas irmãs para a guilhotina, não seja que os carrascos tenham de fazê-lo: tira-lhes a touca que cobre a cabeça, deixando o pescoço exposto, e puxa-lhes as vestes para trás. Blot ainda insiste em abraçá-las uma por uma enquanto sobem, com as mãos atadas às costas, às duas carretas que devem conduzi-las a Vincennes, junto com os outros 24 condenados nesse dia. Por volta das dezoito horas, os carroções saem com grande estrépito pelos portões do pátio, rumo à Praça do Trono.

 

   

 [*] "Le froid mangera les insectes, des jacobins toutes les sectes", etc. Esses versos estavam incluídos numa carta dirigida à Irmã Eufrásia por um certo Mulot de la Menardière, um tipo originalíssimo que participara inicialmente de umas manifestações anticatólicas, mas acabara por converter-se. Suspeito de ser um sacerdote refratário, foi processado e executado junto com as carmelitas. No início, revoltou-se contra Deus, mas, já no carroção que os conduzia a todos a Paris, a priora Lidoine acalmou-o e preparou-o para bem morrer.

 

[**] Como se vê, vários nomes estão errados por faltas ortográficas do notário.

Carta Aberta ao meu General

Dom Lourenço Fleichman OSB

Queria agradecer as palavras que o senhor me dirigiu por causa do meu artigo defendendo o Movimento militar de 1964 que salvou o Brasil do comunismo.
De fato, os livros que nossos oficiais da reserva têm escrito mostram ao povo brasileiro não somente a bravura dos nossos soldados, que deram suas vidas pela Pátria, como também a crueldade, a maldade e a traição que os terroristas usaram, quando ainda não estavam no poder, para impor ao Brasil sua ideologia de morte e escravidão.

Trago de minha formação em torno de Gustavo Corção a admiração pelos feitos das nossas Forças Armadas nesta luta terrível, nesta guerra. E é com minha lembrança ainda viva que recordo as notícias que lia, ainda muito jovem, nos jornais, sobre assaltos a bancos, seqüestros de aviões, seqüestros de embaixadores, entre outros crimes. Movido, talvez, pela imaturidade dos meus quatorze ou quinze anos, nunca percebera que estes crimes não eram cometidos por assaltantes comuns, mas por terroristas guiados por um desejo de levar a luta armada ao campo, e dominar as cidades com sua doutrina escravagista.

O Genocídio da Armênia

 

Às portas do século XX, o mundo viu renascer as hostilidades do islamismo contra a religião e a civilização cristã. Por ocasião da Primeira Guerra Mundial, o Império Otomano lançou-se furioso contra a população da Armênia, num episódio hoje largamente considerado como Genocídio, o primeiro do século XX. Deportações, destruições de igrejas, conversões forçadas ao islamismo e o sistemático massacre de homens, mulheres e crianças, foram marcas do holocausto armênio, cujo número de vítimas se estima em mais de um milhão.

O dominicano Jacques Rhétoré, missionário, vivia em Mossul, atual Iraque, quando foi deportado para a província de Mardin, na Armênia. Lá, em companhia de outros religiosos, testemunhou a coragem e a paciência de um povo perseguido por sua fé.

O texto a seguir é um capítulo do seu livro de memórias “Les Chrétiens Aux Bêtes”, Les Éditions Du Cerf, 2005.  

 

Jean Madiran (1920 - 2013)

Dom Lourenço Fleichman OSB

Faleceu neste dia 31 de julho, aos 93 anos, Jean Madiran, o famoso diretor da Revue Itinéraires, revista fundada por ele em 1956, e que congregou a nata do pensamento católico francês na 2ª metade do século XX. Dono de um pensamento lógico imbatível, tornou-se temido por seus adversários, sobretudo no campo da política francesa e no combate ao progressismo católico.  CONTINUE LENDO

Visita a uma exposição

Quando me recomendaram visitar a exposição Brasil 500 anos - Arte Barroca, realizada no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro, alertaram-me para alguns detalhes que poderiam me desagradar. Fui e saí chocado com o que vi, e principalmente com o que ouvi.
 
A exposição, realizada com todo o requinte da modernidade, agrupa um impressionante acervo de estátuas barrocas, todas religiosas, cada uma delas merecendo do visitante alguns bons momentos de olhar contemplativo, silencioso, para poder assimilar na lentidão de nossas parcas almas, a grandeza do que estes grandes homens fizeram antes de nós.
 
Mas toda essa impressionante grandeza é jogada no chão, achatada, pela parvoíce, pela pequenez, pela submissão ao modismo (que é falsa cultura), dos curadores. E quando digo que é achatada, não falo apenas no sentido figurado,  mas até fisicamente, pois inventaram uma entrada e saída onde somos forçados a nos abaixar, talvez para procurar nos nossos intestinos algum traço dos tempos dos macacos!
 
Quando entramos na primeira sala temos a impressão que a mostra será excelente. Uma naveta de carregar incenso litúrgico, de prata, pequenina como é, enche literalmente a sala toda. É aqui que devemos nos abaixar e vai tudo por água abaixo. Na sala seguinte um ambiente escuro ornado por centenas de paus, troncos lisos, formando um cenário com pretensões ecológicas ou lá o que seja, abriga aqui e ali algumas estátuas barrocas. Esse cenário passaria desapercebido não fosse a sonorização, que nos lança de supetão, não no ambiente barroco e católico do século XVII ou XVIII, mas num sincretismo religioso pseudo-ecumênico, onde os sons misturam gregoriano com batuque do candomblé, o berimbau com as cordas de uma viola da gamba. E isso não é uma sucessão de músicas diferentes, mas uma mixagem que joga nossa alma num liquidificador espiritual, de onde só sentimos uma única sensação: ir embora o mais rápido possível. E só não saímos correndo de verdade porque as imagens são belíssimas e merecem o esforço e o sacrifício.
 
As outras salas são ornadas com uma espécie de campo florido, composto de bolas de papel colorido fixados no alto de pontas de vergalhão. Se já não é mais a ecologia, não saberia dizer o que quiseram representar; o fato é que a pobreza do cenário nada tinha de religioso, de espiritual, o que era necessário para bem apreciar obras de arte religiosa de um tempo revoluto. Senti muitas saudades da Mostra dos Espanhóis.
 
Duas coisas mantinham-se como na sala anterior: a beleza sem par da estatuária e o distúrbio mental e espiritual causado pela mistura das músicas.
 
Ao nos aproximarmos do fim, entramos numa sala onde foram expostas as pratarias cinzeladas e o ouro cintilante dos objetos litúrgicos. Belíssimos. A curiosidade dessa vez fica por conta da forma como são expostas as peças. Andamos sobre um piso de vidro blindex e as peças ficam debaixo do vidro. Invenção apenas desnecessária e "modernosa", se não tivessem tido o mau-gosto (já não é o primeiro) de expor uma imagem de Jesus Cristo crucificado, debaixo dos nossos pés! Para quê? Só para dar o gostinho aos infiéis de dizer que "pisaram" em Cristo? Pois é o que os curadores dessa exposição fizeram com a desfiguração do Barroco Brasileiro que ali criaram. E digo isso levado pelo choque que senti ao entrar na última sala. Ali estava estampada a razão de ser daquela música sincretista e irracional: a última sala é dedicada à macumba, às imagens da macumba; e no fundo dela, uma parede inteira com a foto do Cristo coberto de plástico que a afronta, o sacrilégio e o desrespeito dos carnavalescos levaram para o Carnaval alguns anos atrás. Nessa eu não fiquei. Mas entendi o porquê daquela música: a grande mensagem da mostra Barroco Brasileiro é de nos fazer crer que a continuação da arte religiosa brasileira encontra-se na macumba, e que a cultura desse povo é o carnaval!
 
Dizem que cada povo tem o governo que merece. Pois também é verdade dizer que cada povo tem a cultura que merece. E a cultura da barbárie é falsa cultura, como o culto dos demônios e dos espíritos é falso culto. E se essa é a cultura do Brasil de  hoje, então não existe mais cultura no Brasil.
 
Foi o que procurei dizer numa carta que deixei aos curadores, lá no museu. Carta que certamente não será lida. E se for, não mudará nada, pois os homens não querem mais conhecer a verdade e desconhecem que o Belo é o eterno esplendor da Verdade que é Deus.
 


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