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História (55)

Perseguição à Igreja Católica sob o regime chinês.

Albert Galter

Foi pelo ano de 1920 que a ideologia marxista-leninista foi introduzida na China por agentes a serviço da Rússia. No espaço de trinta anos conseguiu ela impor-se a cerca de meio bilhão de homens, graças à hábil inserção dos seus profetas no jogo dos acontecimentos nacionais, e ao proveito que eles tiraram da situação internacional criada no Extremo-Oriente durante e após a Segunda Guerra Mundial.

Fundado em Shangai em 1921, o Partido Comunista Chinês precisou, pouco a pouco, o seu caráter revolucionário, com o auxílio da Missão de peritos industriais e militares russos que se achava na China desde 1920.

Quando Tchang Kai-Chek começou em 1927 a obra de reunificação interior do país, marchando contra o governo que sediava então em Nankin, os comunistas, aproveitando a guerra civil, formaram por seu lado um governo em Hankow e puseram à testa dele Mao Tsé-Tung (1928). (Continue a ler)

O que o ocidente medieval deve aos árabes, e o que não lhes deve

Jean Sévillia

Professor substituto de história e doutor em letras, Sylvain Gouguenheim ensina história medieval na prestigiosa École normale supérieure de Lyon. Até pouco tempo, era ele um professor sem história. Estimado pelos estudantes, reconheciam-no os seus pares como um especialista em Idade Média alemã. As suas doutas publicações e livros — sobre Hidelgarda de Bingen, mística da região da Renânia no século XII, sobre o terror do ano mil ou sobre os cavaleiros teutônicos[1] — granjeavam respeito para este medievalista que também é germanista.

Em 2008 a curiosidade o levou a pesquisar a transmissão da cultura helênica na Idade Média. Desempenharam os árabes um papel no processo, ninguém o ignora, mas em que medida? Um lugar comum reza que o conhecimento antigo, depois de desaparecer da Europa em razão da queda do Império Romano, refugiou-se no mundo muçulmano que, ao traduzir para o árabe os textos gregos, transmitiram-nos ao Ocidente – transmissão que possibilitou o florescimento da cultura ocidental.

As Raízes Católicas dos Estados Unidos

Pe. William J. Slattery

Ainda que a maioria dos acadêmicos há muito ignorem o fato, desde o início do século XX importantes historiadores não-católicos têm se dedicado a reavaliar as raízes católicas da América do Norte. Entre eles esteve o eminente Herbert Eugene Bolton (1870-1953), intelectual da Universidade da Califórnia que, em 1932, tornou-se presidente da American Historical Association. Honrado com as mais altas condecorações por uma dezena de faculdades e universidades nos Estados Unidos e no Canadá, foi também aclamado internacionalmente, notavelmente por Pio XII, que em 1949 o nomeou “Cavaleiro de S. Silvestre”. Em cerca de 90 publicações, tais como Outpost of Empire (1931), Rim of Christendom (1936) e o discurso The Epic of Greater America, Bolton mostrou que os americanos só poderão entender sua identidade nacional por meio de uma visão holística de todo o contexto pré-colonial e colonial, particularmente das influências espanholas e francesas.

Um terço de seu The Colonization of North America – 1492-1783 é dedicado às expedições e assentamentos católicos que ocorreram antes que os Peregrinos do Mayflower1 desembarcassem em Plymouth em 1620. Seus escritos revelam o pensamento de alguém de fora do catolicismo que freqüentemente se surpreende e admira com vigor aqueles católicos que, com inteligência, ousadia, braços e suor, construíram sociedades regionais católicas que beneficiaram todas as raças norte-americanas. Com a habilidade de um mestre em história, Bolton, juntamente com o agnóstico Francis Parkman entre outros, revelou quão verdadeira foi a declaração de Leão XIII aos americanos: “Os nomes originalmente dados a tantas de suas cidades, montanhas, rios e lagos mostram e testemunham claramente o quanto suas origens foram profundamente marcadas com as pegadas da Igreja Católica.” Ao nos confrontarmos com esses fatos, descobriremos que também houve Pais Fundadores Católicos dos Estados Unidos e do Canadá.

 

Os Vikings católicos que chegaram em terra firme

A saga da presença católica na América do Norte começa em dois lugares: na Groenlândia (entre as brumas da história) e em algum lugar da costa oriental do nosso continente.

A Groenlândia foi colonizada por Érico, o Vermelho, com 14 embarcações de colonos no ano 985 d.C. Em 999, seu filho, Leivo, então com 19 anos, “homem grande e poderoso, de comportamento admirável, sábio e muito justo em todas as coisas”, passou um inverno na corte do Rei Olavo Tryggvason2. Persuadido pelo Rei, Leivo converteu-se à Fé católica. Voltou à Groenlândia na companhia de um padre e, lá chegando, no inverno de 1000-1001, contou à família sobre sua fé recentemente descoberta. Seu pai ficou furioso, mas sua mãe, Thjodhild, abraçou o catolicismo e fundou a primeira capela em Brattahlid, “e lá, ela e aqueles do povo que haviam aceitado o cristianismo, e foram muitos, ofereciam suas preces.” Leivo “logo começou a pregar o cristianismo e a Fé católica pela terra, comunicando a mensagem do Rei Olavo Tryggvason ao povo e dizendo-lhes quanta excelência e glória havia nessa Fé.”

Muitos groenlandeses se tornaram católicos no início do século XII. Em 1124, de acordo com a Saga de Einar Sokkesson, os católicos enviaram uma delegação, chefiada por Sokkesson, ao Rei Sigurdo, o Cruzado3, pedindo que lhes enviasse um bispo residente. O rei propôs Arnaldo, sacerdote da corte real, como primeiro bispo de Gardar (atual Igaliku). Arnaldo, apesar de seus protestos quanto a sua indignidade, foi consagrado pelo arcebispo de Lund, que recebera autoridade de Roma para nomear e consagrar bispos para a região. O novo bispo chegou à Groenlândia em 1126, após um ano na Islândia, e fundou a Diocese de Gardar, a primeiríssima diocese norte-americana.

A diocese floresceu nos 26 anos em que esteve sob a liderança de Arnaldo, uma vez que “o Bispo Arnaldo parece ter sido um típico prelado medieval, humilde e devoto em sua vida privada, mas zeloso e inflexível em qualquer matéria que se referisse aos direitos de seu ofício e de sua diocese.” Ao longo dos anos, os católicos nórdicos construíram cerca de 16 igrejas de pedra, entre elas a catedral de arenito em forma de cruz, de 25m de comprimento, por cujas ruínas ainda podemos caminhar, parar e rezar em mística comunhão com nossos antigos irmãos e irmãs Vikings, cheios de admiração por sua fé.

A Igreja cresceu por três séculos na terra dos fiordes de gelo, planícies floridas e incontáveis geleiras, sob a liderança dos bispos de Gardar, cuja linhagem ao longo dos séculos podemos rastrear nos registros dos arquivos do Vaticano. A população parece ter chegado a cerca de 10.000 pessoas no século XIV.

“No entanto, a alvorada é breve, e o dia muitas vezes não corresponde à sua promessa.” 4. Um declínio gradual tomou conta da Igreja Católica na Groenlândia, causado por questões políticas, econômicas e negligência eclesiástica, exacerbado pelo clima severo e pelo isolamento geográfico. Em 1448, o Papa Nicolau V, preocupado com os relatos de uma Groenlândia sem padres, escreveu que os groenlandeses “têm estado, conseqüentemente, durante estes últimos 30 anos, sem o conforto e o ministério de bispo ou padre, a não ser pela presença de alguns de disposição muito zelosa, e a grandes intervalos, e apesar dos perigos do mar furioso, que se aventuram a visitar a ilha e a administrar-lhes os sacramentos naquelas igrejas que os bárbaros deixaram de pé.” Uma carta do pontífice Bórgia, Alexandre VI (1492-1503), escrita em 1492, apesar de silenciar sobre as causas eclesiásticas e políticas, ainda assim soa um sinistro alarme, lembrando-nos de que o destino da Igreja em qualquer terra ou século depende grandemente das ações e omissões dos homens.

E então aconteceu a misteriosa colonização da costa oriental dos Estados Unidos e do Canadá. A evidência documental é bem insistente: várias fontes antigas narram que monges irlandeses fundaram ali em algum lugar um oásis cristão, que nas sagas islandesas e em suas Crônicas da Groenlândia é chamado Hvitramannaland (Terra do Homem Branco) ou Irland It Mikla (Irlanda Maior), localizado a Oeste no mar, próximo à boa Vinlândia. Durou pelo menos até o ano 1000 com uma ativa presença católica, como se deduz pela narrativa no Landnámabók do islândes pagão Ari Marsson, que, perdido em viagem, lá aportou em 983 e foi batizado.

A arqueologia tem confirmado recentemente que os Vikings tiveram um ou mais assentamentos nas praias orientais dos atuais Canadá ou Estados Unidos, próximos a Irland It Mikla. Leivo, filho de Érico, o Vermelho, em sua viagem de retorno da Noruega para a Groenlândia no ano 1000, saiu do curso e descobriu a área que os Vikings chamaram de “Vinlândia”. Por essa informação, somos gratos aos sóbrios relatos nas sagas de Thorfinn Karlsefni, preservadas em 28 manuscritos. No ano 1003, foi o próprio Karlsefni que fundou uma colônia em algum lugar na costa americana, que, entretanto, acabou após três anos devido a dissensões internas.

Mas existiram outros assentamentos duradouros na Vinlândia, como sabemos graças às descobertas feitas nos anos 1960 sobre uma comunidade nórdica em L’Anse aux Meadows em Newfoundland5. Arqueólogos dataram a idade desse assentamento em 1000 anos. Uma vez que provavelmente a população nórdica da Groenlândia era significativamente católica por volta do ano 1090, a presença católica na Vinlândia é uma hipótese razoável. Há também a insistente referência em seis diferentes pergaminhos das crônicas islandesas mencionando secamente que em 1121 “o bispo Érico partiu da Groenlândia para chegar à Vinlândia.” Érico não era um bispo da Groenlândia, mas um missionário, provavelmente da Noruega ou da Islândia, que tinha ido à Groenlândia para ordenar sacerdotes e exercer outras funções, e que, enquanto lá, decidiu seguir caminho até a colônia da Vinlândia. Nada mais se sabe sobre o misterioso prelado, e, considerando o que sabemos, ele pode ter passado o restante de sua vida edificando a Igreja Católica no continente norte-americano.

Portanto, historicamente podemos dizer que o século XI viu o primeiro altar estabelecido nas costas da Groenlândia e provavelmente também na Vinlândia; que embarcações vikings lançaram âncora, um sacerdote católico pisou em terra firme, fincou a Cruz, e o continente norte-americano ouviu a entoação das palavras sagradas da Missa Tradicional Católica e viu a hóstia branca ser erguida para abençoá-lo e reivindicá-lo para Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Rumo à Flórida, às Montanhas Rochosas e ao Álamo

Cinco séculos depois, outros católicos desembarcaram e se aventuraram pelos ermos, planícies, montanhas, rios e lagos do Novo Mundo, desde St. Augustine na Flórida até Los Angeles na Califórnia, desde o Álamo (“San Antonio de Valero”) no Texas até Le Détroit du Lac Érie6.

Ponce de Léon chegou à Flórida em 1513. Com efeito, o nome da região vem do fato de ter sido avistada pela primeira vez pelos espanhóis na Pascua Florida [Domingo de Páscoa]. Em setembro de 1540, a expedição de Francisco Vásquez de Coronado, da qual fazia parte o Pe. Juan de Padilla, já havia alcançado o Grand Canyon e as Montanhas Rochosas. Em 1542, enquanto estabelecia a primeira Missão católica nos Estados Unidos que conhecemos hoje, o Pe. Padilla foi crivado por flechas nas planícies do Kansas, tornando-se assim o proto-mártir da nação.

Em 21 de maio de 1542, braços fortes sob mantos cobertos de poeira já haviam carregado a cruz na marcha mais longa até então já feita no continente americano, uma vez que sacerdotes acompanharam a expedição de De Soto através da Geórgia, pelas Carolinas, através do Tennessee, Alabama e Mississippi, prosseguindo pelo Arkansas e Oklahoma, Texas e Louisiana. “Se os padres que acompanharam De Soto”, escreve o historiador John Gilmary Shea, “tiveram a chance de rezar a Missa, a marcha do Santíssimo Sacramento e do Preciosíssimo Sangue através do continente foi completa.” De qualquer forma, padres já haviam pregado a Fé em ambos os lados do Mississippi, já cristianizado desde 1519 com o esplêndido nome de “Río del Espíritu Santo”.

O dia 8 de setembro de 1565 ouviu o Pe. Francisco López de Mendoza Grajales oferecer o Santo Sacrifício na fundação da cidade mais velha da nação, St. Augustine na Flórida. Dentro de 100 anos, os incansáveis missionários da região estabeleceram mais de 40 assentamentos para cerca de 26.000 nativos americanos. Os assentamentos chegavam ao norte até St. Catherine’s Island na costa da Geórgia, e recebiam nomes como Ascension, Our Lady of the Rosary e St. Joseph.

Em 1598, nove anos antes de os ingleses desembarcarem em Jamestown, dez frades franciscanos chegaram com Juan de Oñate e colonos espanhóis ao Novo México, que chamaram de Santa Fe. Lá construíram San Gabriel, o primeiro assentamento permanente na área.

Em 1691, Damian Massenet, capelão franciscano de uma expedição ao interior do Texas, acampou na localidade que atualmente é a cidade de San Antonio, cristianizando o novo assentamento com o nome do santo do dia, Antônio de Pádua. O ano 1718 viu a fundação da primeira Missão, “San Antonio de Valero” (mais conhecida hoje como o Álamo). O fundador da Missão de San José foi o Venerável Antonio Margil, popularmente conhecido como “o Padre Voador”, que viajava freqüentemente a pé cerca de 50 milhas por dia, e que deu início a centenas de Missões numa vida de atividades sem descanso, indo das florestas tropicais da Costa Rica até o leste do Texas e as fronteiras da Louisiana.

Entre os pioneiros no Centro-Oeste e no Oeste estavam padres como Francisco Garcés, que, em 1775, liderou os primeiros homens brancos de que se tem registro que entraram em Nevada. No mesmo ano, em Utah, os padres Escalante e Dominguez seguiram o rio que fluía através do Spanish Fork Canyon, chamando-o Río de Aguas Calientes (atualmente o Spanish Fork River). Em 24 de setembro, avistaram o lago e o amplo vale de Nuestra Señora de los Timpanogotiz (atualmente Lago e Vale Utah), que descreveram como “o local mais agradável, belo e fértil em toda a Nova Espanha.”

No século XIX, católicos eram geralmente homens da fronteira, de uma forma ou de outra. Entre eles são notáveis o Pe. Pierre-Jean De Smet, o Apóstolo das Montanhas Rochosas, Pe. Ravalli em Montana e Idaho, e Pe. Lucien Galtier em Minnesota, que construiu uma capela de toras de madeira dedicada a São Paulo em 1841, em torno da qual a cidade de mesmo nome (St. Paul) se desenvolveu.

 

Em direção a Quebec e à América Setentrional e Ocidental

Um exemplo claríssimo de “colonialismo católico”, radiante em sua pureza inicial, foi a fundação do que agora é a cidade de Montreal, na província de Quebec. A inspiração nasceu no coração de um leigo francês conhecido por sua vida de oração mística, Jérome de Dauversière, que estava convencido de que deveria fundar uma Missão na região superior do Rio St. Lawrence. Graças à fervente fé de Paul Chomedey de Maisonneuve, um soldado, e os esforços de 35 franceses que queriam estabelecer um centro de evangelização para os nativos americanos, o projeto decolou. Antes de zarparem, esses bravos homens e mulheres reuniram-se sob o grande Pe. Jean-Jacques Olier, na Catedral de Notre Dame, para consagrarem a si mesmos e seu projeto à Bem-Aventurada Virgem Maria. Ao chegarem ao destino, em maio de 1632, deram a seu assentamento o nome de “Ville Marie” (atualmente Montreal), cantaram o Veni Creator Spiritus e passaram o primeiro dia em adoração ao Santíssimo Sacramento.

Aquilo era o catolicismo em ação: nobres homens e mulheres dedicados a trazer tudo o que fosse bom, verdadeiro e santo a seus próximos na América do Norte, mesmo que isso significasse abandonar sua amada terra e seus parentes na Europa. A pureza de seus motivos e de sua conduta foi uma fragrância sempre presente na história dos outros católicos que fundaram o que se tornou a então intensamente católica terra de Quebec.

Notáveis entre eles foram os “Black Robes7, os padres e irmãos da Companhia de Jesus. Desde o início do século XVII, alguns dos mais admiráveis jovens da França cruzaram o Atlântico para derramar sua vida na América do Norte.

Sua primeira sede foi em Quebec, de onde os jesuítas se espalharam para inaugurar territórios de Missão entre os Hurons em Ontário, Michigan e Ohio; com os Iroquois de Nova Iorque e os Abnakis no Maine; entre os Chippewas, Algonquins e Ottawas no Wisconsin e em Michigan; com os Illinois; e finalmente, entre os Creeks e outras tribos na Louisiana.

O desbravador jesuíta mais famoso foi Jacques Marquette (1635-75). Descrito por seu superior como um homem de “comportamento maravilhosamente gentil”, causou profunda impressão nos nativos americanos, o que é compreensível, pois além de seu natural encanto, aos 38 anos de idade já havia aprendido seis dialetos nativos durante seu trabalho com os Illinois, os Pottawatomis, os Foxes, os Hurons, os Ottawas, os Mackinacs e os Sioux. Sua conduta deixava transparecer um amor excepcionalmente sensível por Deus. Parkman fala de maneira tocante da devoção do padre francês à Imaculada Conceição, em cuja honra nomeou a última Missão por ele fundada, sete semanas antes de sua morte “entre as florestas”.

Em 1673, ele e Louis Jolliet, juntamente com cinco companheiros, partiram de St. Ignace (Michigan) em canoas de casca de bétula em atendimento ao apelo de alguns índios, entre os quais alguns Illinois, que tinham vindo até o padre para pedir-lhe que visitasse sua terra natal próxima a um grande rio. Lançando seus remos nas águas, viajaram mais de 2.000 milhas através do ermo, tornando-se os primeiros europeus a ver e mapear a parte norte do Mississippi, que descobriram desembocar no Golfo do México e não — como se tinha pensado até então — no Pacífico em algum lugar da Califórnia. Em sua jornada, passaram o inverno de 1674 na área que agora é Chicago. Bancroft, escrevendo sobre esses jesuítas, exclama com admiração: “Não se dobrou um cabo, ou se entrou por um rio, mas um jesuíta liderou o caminho.”

Todos os católicos norte-americanos podem reivindicar filiação espiritual dos mártires Isaac Jogues (1607-1646), Jean de Brébeuf (1593-1649) e seus companheiros. Os Hurons chamaram Brébeuf de “Echon”, que significa “árvore que cura” ou “aquele que leva o fardo pesado”, seja porque lhes trazia remédios ou porque o padre, de forte compleição, geralmente carregava mais do que sua parte da carga nas jornadas, ou talvez por ambas as razões. Em 16 de março de 1649, os Iroquois capturaram Jean de Brébeuf e Gabriel Lalemant perto de Georgian Bay. O relato de suas mortes não é para os de coração fraco. Seus captores os amarraram a estacas, arrancaram-lhes o escalpo e os mutilaram, jogaram água fervente sobre seus corpos e aplicaram fogo, colares e machadinhas incandescentes sobre suas peles. Nem um único grito escapou dos lábios de Brébeuf. Os Iroquois, espantados com tamanha super-humana coragem, arrancaram-lhe depois o coração e o comeram, esperando receber algo de seu espírito.

Foi a consumação heróica de uma saga de 15 anos repleta de atos de heroísmo diário, como ele mesmo, de maneira resignada e com um toque de humor, escreveu numa carta de 1636 aos ardentes jovens jesuítas na França que esperavam juntar-se a ele: “Quando forem até os Hurons... vocês chegarão numa época do ano em que as pulgas os manterão acordados durante quase toda a noite. E esse pequeno martírio, para não falar dos mosquitos, biriguis, e outros de mesma linhagem, dura geralmente não menos que três ou quatro meses do verão.”

 

Os Católicos e os Nativos Americanos

As crônicas do Novo Mundo dos séculos XV a XIX abrem uma janela para uma paisagem repleta de padres que simplesmente são figuras maiores que suas próprias vidas: homens que aplicaram suas mentes aguçadas, corações nobres e corpos incansáveis como escudos para a dignidade dos nativos americanos. Eles não devem ser esquecidos jamais. Como em qualquer situação envolvendo homens pecadores, sempre haverá sombras. Entretanto, a verdade que resplandece é que graças a sacerdotes católicos, que abandonaram família, amigos, conforto e cultura para viver com e para os povos do Novo Mundo, a integração racial por meio do casamento, e não a segregação, tornou-se a norma nas Américas, ao menos onde os políticos não bloquearam os esforços da Igreja, como aconteceu na América do Norte anglo-saxã.

Historiadores protestantes e outros intelectuais são críticos da colonização anglo-saxã da América e às vezes chamam a atenção para o quão diferente foi a abordagem católica. C. S. Lewis observou: “Os ingleses... se contentaram com a colonização, que concebiam principalmente como um sistema social de fornecimento de saneamento básico, um alívio para ‘pessoas necessitadas que agora preocupam o império britânico’ e ‘que passam os dias cuidando dos enforcamentos’.” Quão diferente eram os católicos! Como observou o historiador John Tracey Ellis, ao comentar sobre os missionários espanhóis (embora o mesmo pudesse ser dito também dos franceses e dos portugueses):

“Havia um elemento de compaixão pelo pele-vermelha como filho de Deus, na forma de pensar dos missionários espanhóis, que estava completamente ausente na atitude da maioria dos colonos ingleses ao longo da costa do Atlântico. O que inspirava os extraordinários sacrifícios dos missionários, era a convicção de que o índio tinha uma alma digna de ser salva. Isso, e apenas isso, explica a persistência obstinada com a qual os missionários seguiam em frente diante de repetidos reveses e tragédias, tais como o assassinato do Frei Juan de Padilla, seu proto-mártir, nas planícies do Kansas em 1542. Como explicar de outra forma o fato de tantos sacerdotes altamente dotados, como o jesuíta tirolês, Eusébio Kino, e o franciscano de Majorca, Junípero Serra, ambos homens treinados na universidade, terem abandonado seu ambiente cultural para dedicarem suas vidas ao crescimento moral e espiritual desses povos selvagens?”

A cena profundamente tocante, descrita pelo historiador Francis Parkman, de padres jesuítas cuidando dos doentes entre os Hurons, que sofriam de uma epidemia de varíola, repetiu-se milhares de vezes pelas Américas do Norte e Latina:

“Mas quando os vemos, no sombrio fevereiro de 1637 e nos ainda mais sombrios meses subseqüentes, indo a pé de uma vila infectada até a outra, perambulando pela neve encharcada, sob florestas nuas e gotejantes, ensopados pelas chuvas incessantes, até avistarem ao longe através das tempestades as habitações agrupadas de algum vilarejo bárbaro; quando os vemos entrando um após o outro nessas infelizes moradas de miséria e escuridão, e tudo para um único fim, o batismo dos enfermos e moribundos... devemos admirar o zelo abnegado com que o fizeram.”

Não é possível superestimar a importância do que todo esse heroísmo sacerdotal conseguiu. Uma nova raça — os mestiços — passou a existir, nascidos dos casamentos entre católicos europeus e nativos americanos. Sob o ensinamento e a vigilância de tantos sacerdotes, os colonizadores espanhóis, franceses e portugueses reconheceram a igual dignidade dos nativos. Não era só uma questão de discursos floridos, mas de ações concretas. Qual ação poderia ter sido mais concreta do que os milhares de casamentos realizados pelos padres entre europeus e nativos americanos? Eles os casavam, batizavam seus filhos e os educavam. Então vinha a Igreja coroando e selando sua dignidade ao elevar alguns dos nativos ao mais alto grau no catolicismo — o de santo canonizado — como ocorreu com o mulato São Martinho de Porres — a quem todos os católicos, seja negro, mulato ou branco, papa ou camponês, dobram o joelho como a heróis, e rezam como a intercessores.

Se ao menos permitissem à Igreja fazer o mesmo na América Anglo-Saxônica, como ela fez na América Latina! As realizações da Igreja na América Latina apresentam-se como um contraste com a história das relações entre os nativos americanos e os colonizadores no Norte, onde a Igreja, num contexto sócio-político freqüentemente hostil ao catolicismo, foi impedida em seus esforços de evangelização e promoção da integração. É um tanto doloroso lembrar o grau de anti-catolicismo nos Estados Unidos, que impediu a Igreja de levar a cabo sua missão. Mesmo nas 13 colônias, católicos quase não eram tolerados desde o início do século XVIII, apesar do fato de a colônia católica em Maryland, fundada por Lord Baltimore, ter acolhido todos os grupos cristãos. O decreto de 1704 do Parlamento de Baltimore, proibindo os católicos de ensinar, ou mesmo de rezar a Missa em público, causa indignação até os dias de hoje.

Os próprios nativos geralmente reconheciam os benefícios das Missões e, com poucas exceções, amavam os sacerdotes católicos com quem tinham contato. Um relato enviado ao centro missionário da Igreja em Roma (Propaganda Fide) em 1821 dizia: “Eles têm uma grande veneração pelos Black Robes (assim chamam os Jesuítas). Contam como os Black Robes dormiam no chão, expunham-se a todo tipo de privação e não pediam dinheiro.”

Um convicto protestante escocês, Alexander Forbes, apesar de bastante crítico às Missiones em alguns aspectos, mesmo assim dizia:

“A melhor e mais inequívoca prova da boa conduta dos padres franciscanos encontra-se na ilimitada afeição e devoção invariavelmente a eles demonstrada pelos índios que lhes estão sujeitos. Estes os veneram, não apenas como a amigos e pais, mas com um grau de devoção que se aproxima da adoração. Por ocasião das remoções que aconteceram nos últimos anos por causas políticas, a aflição dos índios em se separarem de seus pastores foi extrema. Suplicaram que lhes fosse permitido seguir os padres em seu exílio, com lágrimas e lamentações, e com todas as demonstrações de verdadeiro pesar e irrestrita afeição. De fato, se alguma vez já existiu exemplo mais perfeito, em justiça e propriedade, na comparação do padre e seus fiéis com um pastor e seu rebanho, é no caso de que estamos tratando.”

A diferença católica devia-se à visão de mundo católica. Esta foi sumarizada pelas primeiras palavras no registro de viagem de um dos primeiros exploradores da América do Norte, um leigo protestante convertido ao catolicismo, Samuel de Champlain (1567-1635): “A salvação de uma única alma vale mais do que a conquista de um império.”

(Angelus Press, Julho/2020 - tradução: Permanência)

  1. 1. Assim são chamados os imigrantes ingleses puritanos que partiram da Inglaterra em setembro de 1620 a bordo do navio Mayflower, rumo aos Estados Unidos. [N. do T.]
  2. 2. Olavo I da Noruega (960-1000). [N. do T.]
  3. 3. Sigurdo I da Noruega (1090-1130). [N. do T.]
  4. 4. J. R. R. Tolkien, O Silmarillion, p. 124, Martins Fontes, 2002.
  5. 5. Extensa ilha na costa leste do Canadá. [N. do T.]
  6. 6. “O estreito do Lago Erie”, de onde vem o nome da cidade de Detroit. [N. do T.]
  7. 7. Literalmente “Túnicas Pretas”. [N. do T.]

De Deus não se zomba: a erupção da Montanha Pelée

Pe. N.-P

Eis a narração do drama que sucedeu em 8 de maio de 1902 na Martinica: a erupção da Montanha Pelée1 destruíra num piscar d’olhos a cidade de Saint-Pierre, e matou 40.000 almas das 100.000 com que a ilha contava nessa data. Ao visitar as ruínas da cidade, imaginamos qual não fora a violência do cataclismo.

Os partidários do P.A.C.S. 2 e doutras abominações modernas (aborto etc.) lucrariam se meditassem neste acontecimento, pois que há muito tempo já dizia o profeta Oséias: “Quem semeia vento, colhe tempestade” (Os. 8, 7); mais perto de nós escrevia São Paulo aos Gálatas: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba” (Ga. 6, 7).

Não acreditemos na obsolescência das palavras eternas, só porque Deus se cala. “Retarda-se a pena, porque Deus é bom – escreveu Joseph de Maistre em Os adiamentos da justiça divina – mas ela é certa, porque Deus é justo.”

Parece que essas verdades permitem a boa compreensão da terrível catástrofe de 8 de maio de 1902.

Depois de visitar, em Saint-Pierre o pequeno museu que reúne alguns objetos e fotografias da cidade após a destruição, perguntei a uma jovem antilhana morena que me servia de guia se os habitantes da Martinica não consideravam o cataclismo como um castigo. Sem hesitações respondeu-me ela que sim. Perguntei-lhe então qual seria a provável causa do castigo. Essa moça, de cerca de trinta anos, disse-me que a religião era desprezada e os ministros dela insultados, e acrescentou que durante o carnaval de 1902 parece que haviam matado um padre.

 

Sinais premonitórios

A Montanha Pelée é um maciço que ocupa o nordeste da Martinica, e cujo ponto culminante, Morne le Croix, antes da erupção tinha 1350m de altitude.

Havia dois séculos que as duas crateras deste local estavam inativas: o lago das Palmas, na vertente atlântica, e o fosso da Lagoa Seca, batizado em oposição ao lago sempre cheio, na vertente oposta desta mesma serrania. Em 5 de agosto de 1851 a cratera da Lagoa Seca dera sinais de vida: jatos de fumo e cinzas foram lançados a no máximo cem metros de altura.

Em 1902, a partir do mês de fevereiro, um cheiro forte de enxofre se sentiu, em primeiro lugar, ao redor da vila de Rivière Blanche. As serpentes e os pássaros abandonaram os flancos da montanha; os bois e as ovelhas arrebentavam as amarras quando os levavam a pastar nas encostas da Montanha Pelée; amiúde os cães latiam durante a noite.

Apareceram fumarolas pouco abaixo do cume; os objetos prateados cobriram-se duma tingidura azulada que se espalhava em raias.

Tais fenômenos duraram até sexta-feira, 25 de abril. Naquele dia, entre sete e oito horas da manhã, escutou-se um estrondo subterrâneo, logo seguido dum abalo. Duas horas depois, uma fina cinza azulada, cheirando a enxofre, começou a cair sobre a vila do Prêcheur. Ao meio-dia, de novo, a terra tremeu duas vezes.

Na segunda-feira, 28 de abril, ouviu a montanha rugir, enquanto colunas de vapor escapuliam dele. O débito do córrego Branco aumentou até chegar a triplicar o volume habitual.

Na véspera, em Saint-Pierre, acontecia o primeiro turno das acirradas eleições legislativas. As paixões estavam exacerbadas e a febre política ocupava os espíritos mais que o crescimento insólito dum rio vizinho ou a presença ameaçadora dumas nuvens de cinza que, demais a mais, ainda não haviam atingido Saint-Pierre. Os resultados do primeiro turno auguravam a vitória dos “republicanos”. Decerto os antigos moradores se lembravam desses fenômenos, já ocorridos há 51 anos: a montanha cuspira uma cinza inofensiva e voltou a dormir sem mais histórias.

Les Colonies, a principal folha socialista de Saint-Pierre, publicava em suas colunas de 30 de abril, na pluma do Sr. Hurard, seu diretor anticlerical:

Para nós, ilhéus da Martinica, abril foi duplamente trágico. Nós vimos duas erupções: uma nos espíritos e outra na Montanha Pelée; uma eleitoral e outra física; uma nos discursos, na propaganda, no rum, no dinheiro e nos boletins eleitorais, e outro da coluna de cinzas... Que a montanha se contente em fumaçar e lançar cinza, porém, com mil demônios!, que ela não se ponha a tremer! Os corações trepidariam e dançariam também, mas seria por causa do tremor... Para nós essa cinza é um poema: ele já está escrito em nossa imaginação e, se nós o escrevêssemos, o intitularíamos “A Cinza do Vulcão”. E que labaredas não poríamos entre as cinzas!

A Montanha Pelée, ao notar que os bons costumes foram embora daqui, quis simplesmente nos pregar uma peça. Querido abril, já que vais repousar, dorme bem! E tu, maio, sê bem-vindo!

O mês de maio acordou em meio a um espetáculo desolador. A paisagem estava recoberta de cinzas, nenhum pássaro havia nas árvores, reinava silêncio absoluto... De tempos em tempos, um estalido seco anunciava a queda dum galho, vencido pelo peso das cinzas. Enormes colunas escuras escapavam da montanha.

Na manhãzinha de 2 de maio os rugidos se multiplicaram e, por volta de 16h, uma coluna de vapor bem preta, intumescida e sulcada de raios, apareceu no pico da montanha. As cinzas continuavam a cair e, pela primeira vez, Saint-Pierre ficava recoberta.

Na madrugada de 2 para 3 de maio os habitantes da localidade de Morne Rouge acordaram no meio da noite por conta da mistura duma espécie de canhonaço subterrâneo, um tremor de terra e um estrondo altíssimo, tudo acompanhado dum como que ronco contínuo, semelhante ao rugido do leão. Todos saíram das casas. A montanha estava coroada dos raios que partiam da cratera. O pânico tomou conta dos habitantes, que se precipitaram para a igreja; os confessionários foram tomados de assalto. A mole de gente ficou lá, esperando a morte, até de manhã.

Debaixo duma chuva de cinzas, que espalhava um forte odor de enxofre, conta Mons. Parel, quis eu visitar Sainte-Philomène, o Prêcheur e Morne Rouge, que são as localidades mais próximas do vulcão. Esses três povoados estavam cheios de camponeses que fugiam das montanhas em direção ao litoral; as igrejas, abertas desde a véspera, não se esvaziavam; os curas não paravam de batizar, confessar e alimentar a coragem do povo descontrolado.

Em 3 de maio o governador Luís Mouttet deixou Fort-de-France a fim de examinar a situação pessoalmente. Quando chegou a noite, ele já estava tranqüilo, em razão das informações recebidas: o vulcão não se manifestava há meio século, não convém se alarmar além do necessário!

A “Sociedade de Ginástica” de Saint-Pierre, que havia organizado para o domingo uma grande excursão à montanha, refrescava a memória dos sócios nestes termos, numa nota publicada na imprensa:

Quem nunca foi aproveitar o panorama magnífico que se oferece aos olhos do espectador admirado, a 1300 m de altitude; quem deseja ver a bocarra por onde está escapando – nestes últimos dias – um fumo espesso que está metendo medo nas pessoas das vilas do entorno, tem de aproveitar esta ocasião especial. Se fizer bom tempo, os excursionistas vão passar um dia muito agradável, do qual lembrarão por muito tempo...

A curiosidade e o entusiasmo dos voluntários esfriaram após a erupção que aconteceu durante a noite. Adiou-se a excursão sine die. O domingo, dia 4 de maio, foi relativamente calmo.

Às nove horas celebrou-se a missa; no sermão o Pe. Maury, exortando os paroquianos à penitência, exclamou:

O fogo e a lava estão lá, meus irmãos, o fogo e a lava estão lá... Deus os sustenta sobre as vossas cabeças, pronto para derramá-los sobre vós, se não vos converterdes nem fizerdes penitência!

Na segunda-feira, 5 de maio, por volta de meio-dia e meia, um rio de lama negra e incandescente, com uns doze metros de altura, saiu da cratera e, como uma avalancha, num piscar d’olhos deslizou pela montanha e cobriu a Destilaria de rum Guérin, as quintas dos proprietários e os pavilhões de empregados. Somente a chaminé da usina, qual mastro de navio fantasma, ainda permaneceu visível por algumas horas em meio ao mar de lama que engolira cento e cinqüenta pessoas.

No momento da avalancha o mar, como que assustado, se retirou da enseada de Saint-Pierre. Logo em seguida, as vagas retornaram, já agora como montanhas, e invadiram a cidade, espalhando a consternação. Os habitantes começaram a fugir para os lugares altos, mas vinte minutos depois tudo retornara à ordem.

A comoção atingiu aqui o auge. Algumas famílias partiram em direção à ilha de Santa Lúcia, muitos outros em direção a outras comunidades onde parentes e amigos podiam recebê-los provisoriamente...

As autoridades se esforçaram em declarar às pessoas que não havia motivos de preocupação!

Atendendo a um pedido do prefeito o governador Mouttet e o coronel Gerbault, ambos acompanhados das esposas, foram à ilha e permaneceram em Saint-Pierre, o que lhes custaria a vida.

A “Comissão Científica” que o governador nomeou declarara na véspera do desastre para toda a cidade de Saint-Pierre, ao cair da noite e ao som dos tambores “... que a posição relativa das crateras e dos vales, ambos desembocando no mar, permite afirmar que a segurança de Saint-Pierre não corre riscos.”

As autoridades afixaram essa consulta solene em Fort-de-France três horas após o desastre! O criador zomba da ciência dos homens. O futuro só a Deus pertence.

Na tarde desse dia de 7 de maio o capitão dum barco italiano ancorado na enseada teve melhor inspiração: apressou-se ele em buscar seus papéis, que estavam com o contratante que o mandara retornar ao dia seguinte: “Pois sim! Eu vou é embora”, respondeu ele, e apontando a Montanha Pelée acrescentou: “Na Itália, quando a gente vê o Vesúvio fumaçar desse jeito, todo mundo trata de fugir rapidinho!”... No dia seguinte os quatrocentos barcos que estavam ancorados na enseada, exceto um, foram incendiados e engolidos.

A folha Les Colonies, no seu número de 7 de maio, quarta-feira – o derradeiro, que havia de encerrar a sua carreira – escrevia: “... A emigração de Saint-Pierre fica a cada momento mais intensa... Os vapores da Cia. Girard estão sempre lotados. A média de passageiros da linha Fort-de-France, que era de 80 por dia, elevou-se para 300 nestes últimos três dias. Confessamos que não entendemos a razão do pânico. Onde poderíamos ficar melhor do que em Saint-Pierre?”

Apesar dos discursos confiantes, escreveu uma testemunha, muitos tinham medo, e foi com terror que viram a noite chegar. Para aumentar a apreensão, a cidade inteira se viu mergulhada nas trevas, pois a luz elétrica, por causa dos fenômenos magnéticos que procediam do vulcão, não estava funcionando.

Estamos a algumas horas da catástrofe. Depois de tantos sinais premonitórios (tremores de terra, chuva de cinzas e de lapíli, cheiro de enxofre, água quente nos rios, ressecamento súbito do lago das Palmas, destruição da usina Guérin...), é espantoso que os habitantes de Saint-Pierre não fizessem uma idéia mais justa do perigo a lhes ameaçar. A montanha não parou de dar avisos convincentes.

Por que não evacuaram a cidade?

É difícil responder em nome de todos, declarou uma testemunha, pois evidentemente cada um reagia segundo o seu temperamento.

Sem dúvida, muitos achavam que teriam tempo de fugir das lavas, caso o vulcão se enfurecesse de todo. Pensavam outros que o derrame do imenso rio de lama acalmara o vulcão e a crise já havia passado.

Algumas pessoas, com medo dum maremoto, procuravam fugir para os “lugares altos”. A causa desse temor foi a erupção da ilha de Cracatoa: o vulcão do distrito de Sonde havia quicado como uma bomba gigantesca e provocado um extenso maremoto.

Abandonar a casa era decerto expô-la à pilhagem e arriscar-se à ruína.

Para um bom número de pessoas, as crianças, as pessoas dependentes, os doentes e os enfermos certamente foram um obstáculo à fuga.

Seria demasia pensar que o espetáculo assustador desse monstro furioso provocava uma espécie de fascinação? Não é impossível.

Enfim as eleições que sempre inflamavam a ilha fizeram naquele ano a temperatura social subir a graus jamais vistos; o segundo turno do escrutínio deveria acontecer no domingo seguinte, a 11 de maio. Para que houvesse eleitores, o povo teria de permanecer na cidade, por isso convinha tranqüilizá-lo; o relatório da comissão científica decerto contribuiu para isso!

 

A catástrofe

Em 8 de maio de 1902, após uma noite de tormenta e rugidos surdos, Saint-Pierre acordou tarde nesse que era o dia da Ascensão. Bulcões negros e compactos obscureciam o céu.

O vapor “Rubi”, que zarpou às 6.30h em direção a Fort-de-France, foi tomado de assalto por inúmeros viajantes. Ele foi literalmente invadido por ondas humanas que se dependuravam em todas as partes do navio. Vários habitantes, assustados com a noite que acabavam de passar, resolveram partir.

Os carrilhões soaram em todos os campanários, conclamando os fiéis para os primeiros ofícios da Ascensão.

De repente se escutou um estrondo terrível. Era 7.50h, a hora fatal que ficou inscrita no relógio encontrado no hospital dos Padres de São João de Deus. Um barulho, comparável ao de centenas de apitos que silvassem ao mesmo tempo, preencheu o ar, e uma nuvem vaporífera, intumescida, espessa, negra e sulcada de raios resvalou do vulcão entreaberto, e num piscar d’olhos precipitou-se por sobre a cidade – cobrindo-a, sufocando-a e abrasando-a – e deslizou até ao mar, onde se dilatou e inchou em forma de montanha de cinzas e fogo.

Depois de passar pela cidade, a nuvem parou bruscamente ao se deparar com um vento violento em sentido contrário. Foi só então que se pôde vislumbrar o véu negro e impenetrável duma fumaça opaca que cobria a infeliz cidade e donde a intervalos jorrava milhares de labaredas.

Na hora fatal o telefonista de Fort-de-France, Sr. Lodéon, estava já havia algumas horas conversando com seu colega de Saint-Pierre, quando de repente este se calou ao começar a pronunciar uma palavra; naquele instante, enquanto todas as campainhas do escritório se puseram a soar, o Sr. Lodéon sentiu de súbito um violento choque elétrico e ouviu um estertor de agonia e o barulho dum enorme colapso. A comunicação estava interrompida – e por uma boa razão!

Estava terminada a obra de destruição. Setenta segundos bastaram para apagar Saint-Pierre do mapa.

Daí então uma chuva de cinzas finas amortalhou o drama. A cidade era toda um braseiro, com muros derruídos e calcinados, e um pasmoso acúmulo de cascalhos e árvores carbonizadas. Nenhum dos 40.000 habitantes que viveram o drama escapou, mas foram queimados, asfixiados, destroçados e eletrocutados num instante.

As fotos da cidade destruída nos remetem imediatamente às de Hiroshima após a bomba atômica. Dá-nos a impressão que um gigantesco sopro devastara Saint-Pierre: a estátua de Nossa Senhora do Bom Porto, protetora dos marinheiros, foi encontrada a vários metros de sua base. Pesava ela a ninharia de 5 toneladas e costumava ficar a 5 km da cratera!

Sob efeito do calor, um dos sinos da catedral se deformou deveras. Exposto no museu do vulcão, talvez seja o objeto que provoque a maior impressão, ajudando-nos a imaginar a força do cataclismo; este sino, que pesa uma tonelada, parece que o esmagou um “punho de ferro”!

Só um dos 400 barcos que estavam na enseada no momento do cataclismo – o Roddam – escapara do desastre. Temos o relato dum dos passageiros da embarcação:

Quando a coluna de fogo e lava se abateu sobre a cidade, elevou-se um grande clamor de gritos de desespero e angústia. Este clamor lúgubre e pungente foi tão imenso que chegou a ultrapassar em volume o estrépito da inundação e o rugido do vulcão.

Víramos uma mole de gente se precipitar na praia, mas os desgraçados não conseguiam correr por muito tempo dentro do fogo que os envolvia – eles caíam como moscas; e quem conseguia chegar até a beira do mar, onde as pessoas acreditavam estar em segurança, foi num átimo engolido e arrastado por um imenso lamaceiro. Além disso, a inundação começou a ferver e as pobres vítimas eram ao mesmo tempo afogadas e assadas.

Dez toneladas de cinza incandescente cobriram a embarcação, apesar da distância que a separava da costa. Ela chegou a Santa Lúcia num estado lamentável; a bordo só se via mortos e moribundos: não houve um sequer que não tivesse sofrido queimaduras.

Mas por que seria um castigo o drama de 8 de maio de 1902?

Nestes últimos tempos o filme Titanic suscitou inúmeros artigos, porém nenhum deles jamais mencionou as inscrições blasfemas riscadas no casco durante a construção; jamais mencionou que a destruição do navio antes do término da primeira viagem poderia ser a resposta divina aos ataques dos homens.

Do mesmo modo, não se encontrará mencionada em nenhuma obra recente ou folhetos informativos uma explicação semelhante para a erupção de 1902, contudo ela persiste na mente dos anciões, e até os nem tão anciões já ouviram falar dela – como prova a guia antilhana da visita ao museu do vulcão...

 

A espada de fogo

Durante o ano precedente à catástrofe que acabamos de relatar aconteceram no Convento de Livramento presságios sinistros, sinais assustadores, pressentimentos e intuições dolorosas.

Nove meses antes da erupção duas irmãs que residiam em Saint-Pierre viram – no mesmo dia, embora estivessem separadas – uma espada de fogo pairar acima da cidade, como se impedida por mão invisível. Amedrontadas ambas se perguntavam, cada uma para si só, qual o significado daquilo... Como estivessem consternadas, elas guardaram o segredo até a hora da recreação. Então uma delas disse às irmãs reunidas: “Oh! Eu vi uma coisa extraordinária e assustadora!” A outra religiosa, testemunha do prodígio, lhe ripostou: “Duvido, cara irmã, que tenhas visto algo de mais extraordinário e assustador do que eu.” Instadas pelas intrigadas religiosas a se explicarem, ambas revelaram a visão claríssima duma espada de fogo pairando acima da cidade de Saint-Pierre.

Na mesma época se passou um fato extraordinário em Morne Rouge, numa outra casa da comunidade. Por vários dias seguidos “uma de minhas irmãs e eu – conta a Irmã Margarida Maria – encontramos os baldaquinos de nossas camas cobertos de grandes manchas vermelhas semelhantes a sangue. Trocaram-se as cortinas três vezes e três vezes se reproduziu o mesmo fenômeno: o baldaquino duma das camas estava particularmente manchado. A comunidade ficou estupefata. ‘Qual o sentido desse fato estranho?’, perguntavam-se as religiosas umas às outras... talvez seja prenúncio de martírio. “Pessoalmente, se considerarmos o crescimento progressivo da perseguição religiosa, vejo nisso um presságio de massacre...”

Ainda no convento de Livramento, em Morne Rouge, durante os três meses que precederam o cataclismo, escutavam-se de noite pelos corredores soluços, suspiros e orações; nos dias gordos do carnaval esses fenômenos se reproduziram até durante o dia: em vários pontos do convento se percebiam sons de soluços. Na Terça-Feira Gorda, no momento em que a comunidade fazia as orações de reparação na igreja, a Reverenda Madre Superior, que em razão duma doença ficara numa das salas da comunidade, escutou um choro à porta. O gemido foi tão forte que ela mandou a religiosa que lhe cuidava verificar se havia alguém no corredor... mas não encontrou ninguém.

Ainda há relatos de outros fatos misteriosos: uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes, que exibia um semblante alegre, sem mais assumiu uma expressão melancólica; num convento de religiosas ouvia-se o estridor de pratos quebrando-se; um lampião começou do nada a saltitar.

Um castigo... para punir qual crime?

Quando perguntei isso, a jovem guia do acanhado museu de que já falei não me respondeu:

- “para os brancos por causa da escravidão...”. Aliás, este ano festejamos os 150 anos da abolição da escravidão;

- nem “para punir os costumes licenciosos”. As uniões ilegítimas, é verdade, eram de longe as mais numerosas e a rua das “mulheres-damas”, muito freqüentada. A última instrução do Mons. de Cormont foi um comovido apelo aos diocesanos, a fim de lhes exortar à regularização das uniões ilegítimas e ao respeito da lei do casamento.

Não, ela mencionou sem pestanejar os pecados contra a religião.

Na obra de Louis Garoud, Três anos na Martinica, lê-se o seguinte:

...Nem as saturnais romanas nem as bacanais gregas jamais ofereceram um espetáculo semelhante; nunca na festa dos loucos, na Idade Média, exibiram-se tais mostras de exultante depravação. A imaginação não pode conceber semelhantes loucuras humanas nem delírio tão contagiante...

Saint-Pierre, classificada como a 101ª cidade da França no quesito de luxo e conforto, alimentava todos os vícios que os deleites podem engendrar. A fé não era tão-somente ignorada mas desprezada e insultada em público por um grupelho instigado pela “loja” de Saint-Pierre, poderosa e militante que era.

Algumas testemunhas afirmam que o Mons. de Cormont teve de encurtar a procissão de Corpus Christi do ano anterior [à catástrofe] devido às pedras e aos insultos lançados sobre o cortejo!

Mons. de Cormont teve de deixar a Martinica alguns meses antes da catástrofe para que se acalmassem os ânimos. Com efeito, suscitou-se uma vivíssima polêmica, pois ele queria promover um de seus novos párocos, ao passo que um mais antigo ambicionava o cargo... e cada qual com seus partidários!

Quando Mons. de Cormont estava partindo, certas pessoas - incitadas pela franco-maçonaria – chegaram a lhe jogar pedras. O prelado se voltou para eles e disse: “Vós nos lançais pedras, o vulcão lhas devolverá”. Isso aconteceu em 10 de abril!

No livro Peregrinação fúnebre às ruínas de Saint-Pierre U. Moerens escrevera a pág. 60:

Uma imprensa violentíssima e ímpia se esforçou em descristianizar esta terra desgraçada. Com uma visão estreita e um espírito intolerante, os responsáveis pela missão de dirigir a opinião pública eram infatigáveis – por qualquer ou sem nenhum motivo – em disseminar a blasfêmia e em lançar o desprezo sobre tudo o que havia de mais respeitável e sagrado.

A obra dos sectários deu frutos. Mas ao que parece foi a profanação ignóbil da Sexta-Feira Santa, em 28 de março de 1902, que provocara a cólera de Deus.

A partir do testemunho dum martinicano, ela foi noticiada com o título de “O Cristo no Vulcão”, em 5 de setembro de 1902, num dos maiores jornais parisienses:

Foi em 28 de março deste ano, Sexta-Feira Santa. Nossa alegre cidade colonial acordou neste lusco-fusco tão calmo e cheio de frescura das manhãs dos trópicos. Atrás das varandas entreabertas a gente percebe as donas de casa que se apressam em pôr tudo em ordem para irem à igreja. O sol sobe suavemente no horizonte. Chega a hora do almoço, e as pessoas vão quebrar o jejum, mas ao estilo créole3: bacalhau com arroz.  Entrementes um grupo barulhento vai em direção a um dos principais hoteis da cidade, onde preparavam um festim. São eles os representantes do livre-pensamento que, a fim de provar sua independência de espírito, vão promover uma comezaina com as comidas mais gordurosas e suculentas, em contraste com a abstinência universal. Eles abriram e esvaziaram rapidamente inúmeras garrafas, e quando já estavam bastante avinhados, a banda diabólica começou a andar pelas ruas da pequena capital, vociferando palavras sujas e ridicularizando a imagem do Cristo que estavam carregando.

Ei-los já fora da cidade, a caminho da montanha. Diante deles a elevação se erguia majestosa, com seu pico irregular se destacando contra o fundo azul do céu; por catorze vezes, em meio a blasfêmias infames, a tropa se detivera para parodiar a Via Crucis e achincalhar as cenas da Paixão, que naquele momento a Igreja pesarosa cantava. E eles continuam a subir, mais e mais excitados, inventando a cada trecho da caminhada mais blasfêmias horríveis. Finalmente chegam ao cume... Contornam o lago de águas tranqüilas e vão até a boca escancarada do vulcão e ali, numa sarabanda infernal, entre berros e momices, atiraram no fundo do abismo a imagem Daquele que, havia dezenove séculos, morrera na cruz para resgatar as almas dos condenados. No dia da Ascensão, entre estertores de morte e gritos de espanto, o vulcão respondia aos escarnecedores do Cristo e remetia a cruz aos céus.

Com efeito, no ano de 1902 o dia 8 de maio, quinta-feira, caia no dia da Ascensão... Acaso?

É claro, os livre-pensadores não tinham nenhum interesse na história: consideraram-na uma invenção dos católicos, uma fábula que hoje em dia já ninguém conta.

Verdade ou fábula?

Mélanie, a criança que viu Nossa Senhora em La Salette, autenticou esse triste acontecimento, ante a interrogação do Pe. Combe.

- Tu já sabias que iria acontecer a catástrofe?

- Sim, [respondeu Mélanie].

- Foi a aparição de 1846 que te alertou?

- Não [responde ela].

Convinha lhe tirar essa informação [insiste o Pe. Combe], mas ela se limitava a responder ou sim ou não.

- Tu viste bem a erupção, fala.

- Ah, padre! Eu estava lá.

Na sexta-feira, dia 16 de maio de 1902, anota o Pe. Combe:

Percebi no fogareiro, entre os papéis a queimar, uma carta de participação do falecimento da Sra. X, em cujo verso Mélanie escrevera a previsão dos vindouros castigos da Martinica:

“Nós não roubamos mas compramos e arrancamos das mãos de Deus. Ele não vai se contentar em advertir as criaturas racionais, às quais outrora dera tantas provas de amor; mesmo quando sua justiça exige de sua glória a vingança da misericórdia ultrajada, o bom e divino mestre trata de advertir com certa discrição sobre sua justiça. Ele há de enviar tremores de terra incomuns. É o que fará nas Antilhas Francesas. Durante uns seis dias haverá pequenos abalos entremeados dalguns grandes. Infelizmente os homens têm ouvidos e não escutam. Enfim, no dia 8 de maio, o fogo devorador cairá sobre uma das principais cidades da Martinica, Saint-Pierre, e a devorará e cobrirá de cinzas e de todos os tipos de destroços. Para além da destruição da cidade, outras três localidades também terão vítimas, afora os prejuízos materiais. O fogo não se recolherá à sua caverna: doze dias após o cataclismo, Fort-de-France e outras cidades também hão de chorar.”

- Escreveste esta meditação no dia 8, antes da erupção [pergunta-lhe o Pe. Combes]? Até aqui, só a cidade de Saint-Pierre foi destruída; já se fala de 30.000 vítimas.

- Pois são 40.000 [responde Mélanie].

- Já que previste a destruição de Saint-Pierre, podes me dizer o nome dessas localidades que vão compartilhar o mesmo destino [indagou o Pe. Combes]?

- Curbet ou Curbá, é algo assim [respondeu Mélanie].

Por ocasião duma nova catástrofe, que vitimou cerca de mil pessoas, os jornais (Le Pèlerin, de 14 de setembro de 1902) divulgaram – depois duma pesquisa feita no local – que a catástrofe do mês de maio já se estimava em 40.000 mortos.

Na quinta-feira, dia 22 de maio, anotou o Pe. Combe:

Eu desejava uma predição cuja anterioridade se provasse materialmente, e eis que meu desejo se cumpre: um telegrama chegou hoje de manhã: “Os cabogramas oficiais sobre a erupção de 19 e 20 de maio são mui sucintos, não obstante sabe-se que a vila de Carbet, situada na costa a poucos quilômetros de Saint-Pierre, foi em parte destruída.”

Fui até ela perguntar: - Que crimes terríveis, além da impureza, puderam atrair sobre a população – considerada catolicíssima – um semelhante flagelo?

Ela me contou que “na Sexta-Feira Santa passada, uma imagem de Cristo de cerca de um metro foi arrastada com uma corda pelas ruas de Saint-Pierre, e logo depois pela montanha vertente acima, até que a chutaram dentro duma fenda”.

- Esse sacrilégio foi obra duma multidão de homens e mulheres, para que atraísse a maldição de Deus sobre toda a região [raciocina o Pe. Combe].

- Somente duns poucos [explica Mélanie], mas os demais habitantes não os detiveram, e um grupo de crianças os seguia. Aquela vertente da montanha desmoronou no dia da Ascensão. Como Deus pode infligir tal castigo? está pensando o Sr. Isso lá é justiça? Nos tempos de fé verdadeira, também aconteciam profanações. A diferença era que as profanações eram apontadas, o poder civil condenava com rigor essas pessoas; já outras eram punidas de modo miraculoso. No caso da Martinica, a profanação foi pública, e a permitiram; até as crianças iam atrás do cortejo; entre a Sexta-Feira Santa e a Quinta-Feira da Ascensão, alguém teve notícias de que se fizeram orações de reparação ou de que o clero houvesse organizado procissões e penitências públicas para desarmar a cólera de Deus? [Ver: A Aparição da Virgem Santíssima, de M.-H Bourgeois – fita cassete nº 4b.]

Depois da destruição de Saint-Pierre, ainda tiveram de esperar dois dias antes que se pudesse pôr os pés sobre a cinza ardente que recobria o solo da cidade destruída. (Esse fato torna inconcebível a sobrevivência dum prisioneiro numa cela, como afiançavam ser o caso de Louis-Auguste Cyparis, que o circo Barnum durante anos exibiu como atração: “O homem que escapou de Saint-Pierre”.)

Um detalhe do testemunho das primeiras pessoas que se aventuraram a pisar na ilha parece confirmar que o cataclismo era um castigo da impiedade:

No meio do caos da ruína, já não reconheciam a geografia da cidade, que lhes era contudo bem familiar. Em todo lugar se amontoavam cadáveres carbonizados e putrefatos, exalando um odor pestilento que viciava o ar... Na catedral um confessionário ainda estava de pé – intacto. Não longe dali, num pano de muro, um cartaz mal fora chamuscado pelo fogo, ao passo que os demais em redor estavam completamente carbonizados: “Cristo no pelourinho! A Virgem no estábulo!”, dizia a inscrição assustadora, pois o espetáculo que se oferecia aos olhos afigurava-se a resposta a essa blasfêmia.

Uma coluna de 300m de altura permaneceu erguida sobre o pico do vulcão durante vários anos, mas com o tempo se esboroou e desapareceu. À noite ela ficava “incandescente”, o que não deixava de ser impressionante. Não seria o dedo de Deus assinalando a justiça divina: “Quem semeia vento, colhe tempestade’?

Nos dias 16 e 20 de maio novas erupções fizeram novas vítimas: alguns curiosos e sobretudo saqueadores que como urubus vinham despojar os cadáveres de seus bens. Após o dia 20 de maio encontraram-se algumas pessoas mortas, deitadas sobre um saco cheio de pratarias que se dispuseram a carregar; havia um outro sobre um cadáver, de quem parecia estava arrancando uma jóia!...

A erupção do dia 20, fortíssima, teve um efeito sanitário: ela sepultou os cadáveres, evitando assim o desenvolvimento de epidemias.

A última erupção devastadora foi a de 30 de agosto de 1902, que destruiu a vila de Morne Rouge, fazendo 2000 vítimas. A igreja foi totalmente destruída mas, em meio às ruínas, os sobreviventes encontraram meio enegrecida a estátua de Nossa Senhora do Livramento miraculosamente conservada. Ela permaneceu de pé e intacta sobre o pedestal, que não ficou abalado.

Desde então, os martinicanos fazem, no dia 30 de agosto, uma procissão solene em honra de sua padroeira.

Durante a tempestade, contemple a estrela, invoque Maria.

 

  1. 1. Litteris: Montanha Pelada ou Descascada [N. do T.]
  2. 2. O Pacto Civil de Solidariedade (Pacte civil de solidarité ou tão-somente P.A.C.S.) é um contrato de união civil entre dois adultos (de mesmo sexo ou sexos opostos) que regula a vida em comum de ambos, conferindo a cada membro direitos e responsabilidades, embora com força obrigante menor que a do casamento. [N. do T.]
  3. 3. A expressão créole se refere às culturas ou línguas mistas, nascidas do contato entre os europeus (neste caso, franceses), os africanos e a população local. {N. do T.]

A verdadeira face das cruzadas

Jacques Heers

Estes homens, certamente, acreditavam em Deus, e não iam para o combate sem rezar e colocar-se sob a proteção de Cristo e da Virgem, e dos seus santos protetores. Eles queriam-se como milícia de Cristo. Suportavam pesadas penas e ganhavam batalhas contra inimigos bem mais numerosos, enquanto proclamavam que os anjos estavam a seu lado, mostrando-lhes o caminho e apoiando-lhes nos piores momentos. Mas não era uma “guerra santa”, uma “guerra de religiões”. Os cruzados não iam exterminar o islã ou converter os muçulmanos, pela boa razão de que, nessa época, ninguém ou quase ninguém tinha a mínima idéia desse islã. Nenhuma das narrações da primeira Cruzada, escritas por homens que estavam no local e não por compiladores, fala de muçulmanos ou de maometanos. Para eles, os inimigos são os sarracenos, à semelhança dos piratas mouros do Mediterrâneo, ou sobretudo os babilônios e assírios, os persas e os partos, ou outros povos “bárbaros” da Antiguidade. As crônicas referem-se à História antiga do Oriente.

Guerra da conquista? Nada disso. É verdadeiramente curioso continuar-se a falar desta Cruzada como se os cristãos tivessem a caçar povos aí instalados desde sempre. É esquecer que as terras da Palestina e da Síria, berços do cristianismo, estiveram durante séculos sob a autoridade dos imperadores de Constantinopla, focos notáveis da civilização cristã. Jerusalém, Antióquia e Alexandria foram sedes de patriarcas da Igreja de Cristo. É esquecer, além disso, que os imperadores de Constantinopla tinham, mais de cem anos antes dos cruzados, conduzido os seus exércitos à reconquista destes países: Alepo foi retomada em 962, Antioquia em 969 e João Tsimiscis (imperador de 969 a 975) só parou diante de Trípoli, após ter reconquistado Beirute. Os turcos, vindos de muito longe, expulsaram as guarnições imperiais, mas é bom lembrar que quando os francos, em 20 de outubro de 1097, se apresentaram de Antióquia, estes turcos eram donos da cidade havia apenas catorze anos. Em relação a Espanha dizemos Reconquista, mas em relação ao Oriente aceitamos que nos imponham a terminologia e a idéia de uma simples conquista, açambarcamento de terras nas quais outros viviam em seu pleno direito.

 

Uma aventura espiritual

Intolerância? É preciso ser-se mau observador para acusar de intolerância os homens do passado, cristãos bem entendido, enquanto nós vivemos, aparentemente satisfeitos, num tempo em que todas as formas de escrita e de pensamento são submetidas a um controle cada vez mais severo. Certamente que se proclama a intolerância como detestável, mas dela só são acusados os homens livres que ousam manifestar as suas próprias convicções, e levam a insolência até à sua defesa contra-ataques odiosos. Os “intolerantes” são os dissidentes, apontados a dedo, agredidos, excluídos. Não são os guardiões estipendiados do templo, que não suportam a mínima resistência aos seus esquemas, nem a mínima crítica aos seus discursos sempre “conformes”, de um conformismo risível. Observemos a vida atual, antes de falar de tempos que não queremos sequer conhecer verdadeiramente e tentar compreender.

A Cruzada de 1095-1099 foi, primeiramente e antes de tudo uma aventura espiritual. Para pesquisar as origens e analisa-la, as teses materialistas visaram longe. Invocar a sede de conquista, ou a procura de novos espaços e a busca de especiarias, era de bom tom há cinqüenta anos, época em que o materialismo histórico era imposto nas universidades francesas. Os tempos, enfim, mudaram e sabemos que nenhuma destas afirmações pode ser seriamente defendida. Simples reflexões de bom senso deitam-nas a perder. Os camponeses dos anos mil eram, sem dúvida, mais numerosos que outrora. Freqüentemente, dividiam as suas heranças e procuravam novas terras de lavoura. Mas ir tão longe para isso, a idéia não se agüenta. Iniciava-se precisamente o arroteamento das grandes florestas da Germânia, da Europa central e do sudoeste francês. A secagem e beneficiação dos pântanos tinham apenas começado. Porque, então, afrontar tantas fadigas e tantos perigos, para se estabelecerem em terras longínquas, das quais se sabia, no dizer dos peregrinos que regressavam, serem áridas na maior parte, próprias para a vida pastoril semi-nômade, totalmente contrária à sua maneira de viver e de trabalhar? Negligenciar as terras próximas para ir tão longe, onde tudo teria de ser construído de novo ou reconstruído?

Ainda se lê, num ou noutro manual de ensino, que os “grandes mercadores” italianos foram os instigadores desta Cruzada, com o fim de trazer do Oriente as especiarias a preço mais baixo. Mas é falso: genoveses, venezianos e pisanos não participaram nas primeiras expedições; intervieram mais tarde, como guerreiros, com os seus cavalos e as suas máquinas de guerra, e não como mercadores. A Terra Santa não era muito de seu interesse. Estabelecidos em Constantinopla, onde beneficiavam-se de privilégios fiscais, e no Cairo, onde os negociantes se alojavam nos fondouks, já se encontravam no verdadeiro coração dos grandes tráficos do Oriente. A costa da Síria e da Palestina não ofereciam, nem de longe, os mesmos recursos; à margem das rotas das grandes caravanas, estes países não possuíam, então, nem culturas exóticas (cana-de-açúcar, algodão) nem manufatura de artigos de luxo. Para terminar, face a Constantinopla, a Damasco, Bagdá e Cairo, Jerusalém fazia, neste particular, figura de aldeia.

 

Historiadores sectários

Grandes senhores, apressados na fundação de principados sem vastos territórios e em cidades de sonho? São imagens forjadas de fio a pavio, para ilustrar a tese de historiadores sectários, entretidos a maldizer o cristianismo e o feudalismo. Os chefes dos cruzados, os das primeiras levas e os que se seguiam com reforços, não eram de nenhuma maneira cavaleiros andantes, filhos segundos ou excluídos da grei, à procura de pousada, obrigados a correr a louca aventura. Godofredo de Bulhões, duque da Baixa-Lorena, era senhor de bons feudos e castelos, no meio de ricas terras. Raimundo de Saint-Gilles, conde de Tolosa, sem contestação o mais ativo dos “barões”, o que reuniu maior número de homens de armas e gastou maiores somas, era, depois do rei, o mais poderoso príncipe do reino, nunca contestado ou ameaçado. A sua partida privou-o de uma magnífica herança, e morreu na Terra Santa antes de ter podido conquistar Trípoli.

A Cruzada, em 1095, respondia ao desejo dos fiéis de ver o túmulo de Cristo e aí rezar. É certo que as crônicas da época falam de “francos” e de “cristãos”, sempre qualificando-os como “peregrinos”. Os homens reuniam-se e armavam-se porque sabiam que os peregrinos que iam à Palestina o faziam com risco de vida, suportando duras humilhações e pesadas taxas que aumentavam a cada ano. A peregrinação foi, desde o princípio, o centro de todas as preocupações e iniciativas e os cruzados, na sua maioria, só queriam libertar a cidade santa, visitar os lugares de Cristo, da Virgem e dos Apóstolos, rezar e regressar à casa. Com Godofredo de Bulhões ficou apenas um punhado de cavaleiros. A construção de praças fortes, e a defesa do reino latino de Jerusalém contra os ataques dos egípcios ou dos turcos, só foi possível pela chegada de novos peregrinos, que participavam nos combates e nos trabalhos e depois partiam.

 

Peregrinos nas Cruzadas

Mais que uma Cruzada, correto seria, já para 1096-1099, dizer as Cruzadas, expedições que reuniram gente de diferentes origens, que não partiram juntas nem seguiram os mesmos caminhos. Falar de cristãos “de todo o Ocidente” respondendo ao apelo de Urbano II, é mera figura de estilo. A Cruzada foi pregada pelo Papa apenas em algumas partes do reino de França, principalmente em Auvergne e no Languedoc, mas não em Paris nem na Ile-de-France. A pregação não se estendeu a Alemanha e ao Norte da Itália, dada a querela existente entre o Papa e o imperador germânico, que apoiava ainda um anti-papa cismático. Além das quatro Cruzadas promovidas pelas pregações do Papa, dos legados e dos bispos (exércitos dos lorenos, dos normandos de Normandia e dos normandos do Sul da Itália, chefiados por Raimundo Saint-Gilles) deve mencionar-se uma outra Cruzada, dita da “gente humilde”. Esta foi fruto de pregações menos controladas, feitas por eremitas e monges errantes, por vezes em ruptura com o pregão das Cruzadas, que invocavam o Apocalipse e clamavam o extermínio dos impuros. Tal levou essa pobre gente, lançada numa longa e miserável caminhada, obrigada a comprar víveres por alto preço, à invasão das cidades, principalmente na Renânia, e a massacrar os seus burgueses, judeus ou não, denunciados como culpados. Tudo isto apesar da intervenção dos bispos locais, que tentavam protege-los.

Os exércitos dos “barões” são mal conhecidos e fazemos deles, geralmente, uma idéia errada. De fato, falar de “exércitos” é já um erro, porque faz pensar em tropas de homens aguerridos, armados e prontos para o combate. Os textos mostram coisa diferente: consideráveis multidões de pobres sem quaisquer meios, sem armas e sem experiência, freqüentemente acompanhados pelas suas mulheres e filhos, conduzidos e protegidos por uma milícia de cavaleiros pouco numerosa. Todos os testemunhos são concordes e os próprios historiadores muçulmanos, mais tarde, o reconhecem: não se tratava de verdadeiros exércitos, mas, realmente, de multidões heteróclitas. Eram milhares, talvez várias dezenas de milhares, de peregrinos expostos a todas as adversidades, à fome e às doenças. Conduzi-los, esperar e organizar a sua reunião antes de empreender a caminhada, reabastece-los de água e víveres, todas estas responsabilidades pesaram na condução desta multidão, aventurada para tão longe dos locais da partida.

Esta gente sofreu, no decurso dos meses e dos anos, de fome e de sede, de expectativa e de miséria. Na tarde da vitória, Jerusalém conquistada, invadiram as casas, pilharam tudo que encontraram, massacraram os habitantes. Hoje, a História retém esses massacres para cobrir de vergonha toda a empresa e tornar responsável (ora, pois!) a Igreja. Quer-se uma vez mais que peça perdão, e arrependida, confesse a sua culpa? Insistir deste modo, isolando o acontecimento, é falsear o debate, porque estes massacres são atrozes, revoltam os nossos sentimentos, mas são, todavia, vulgares nessa época... como em muitas outras. Deu-lhes origem a guerra de cerco, exarcebando as paixões e os ódios entre inimigos que se observavam e injuriavam durante muito tempo. Pode-se citar, no decorrer dos séculos, um grande número de cidades conquistadas pela força e que ficaram indenes? Menos de um ano antes dos cruzados, em 26 de agosto de 1098, os muçulmanos egípcios assenhorearam-se da mesma cidade de Jerusalém e massacraram todos os turcos, assim como uma grande parte dos habitantes seus aliados ou cúmplices.

Os nossos historiadores moralistas, sempre prontos a descrever em detalhes os atos de crueldade atribuídos aos homens dos tempos “medievais”, aos seus senhores, seus padres e monges, dizem alguma vírgula do saque de Cápua, em 24 de julho de 1501, pelos exércitos do rei Luís XII? E do saque de Roma pelos huguenotes alemães, os espanhóis e as tropas do contestável de Bourbon, que em 1517 puseram a cidade a fogo e sangue? E não foi no decorrer de uma Cruzada, durante a “noite da Idade Média”, mas na época da “Renascença”, tempos ditos de luz, de liberdade e de progresso. 

 

(Traduzido pela Semper, revista da Fraternidade Sacerdotal São Pio X n° 41, Maio-Junho de 1999, Lisboa.)

1517 d.C. - A Catástrofe protestante

“Mesmo se derramássemos todo o Rio Elba em lágrimas, não seria o suficiente para lamentar os desastres da Reforma: é um mal sem solução”. Por mais estranho que pareça, essas palavras não foram ditas por um católico, mas por Filipe Melâncton, amigo de Lutero e um dos principais realizadores da Reforma. O próprio Lutero, pouco antes de morrer, escreveu sobre a mágoa que sentia a respeito do caos e da proliferação das seitas propagadas por seus ensinamentos: 

“Devo confessar que minhas doutrinas produziram muitos escândalos. Não posso negá-los, e isso me assusta, especialmente quando minha consciência traz-me a lembrança de que destruí a situação na qual a Igreja se encontrava, calma e tranquila, sob o papado”.

Se até mesmo alguns líderes protestantes chegaram a ter essa percepção sobre a Reforma, não espanta que os católicos a vejam como uma verdadeira catástrofe. O historiador Paul Johnson chamou-a de “uma das maiores tragédias da história, e a tragédia central do cristianismo”. Ela foi uma catástrofe e um castigo para a Cristandade; um desastre levado até as últimas conseqüências, pois foi o apogeu de uma série de castigos sem precedentes, desatrelados no curso dos dois séculos anteriores.

Duzentos anos antes de Lutero pregar suas famosas teses em 1517, o primeiro dos castigos que demoliriam a civilização medieval já havia sido lançado: a grande fome de 1315 a 1322, que causou muitas mortes no norte da Europa, onde algumas áreas tiveram uma taxa de mortalidade de 10%. No mesmo século, houve sete outras grandes fomes no sul da França.

Desastres ainda piores vieram em seguida. Menos de trinta anos depois, a Peste Negra, a maior pandemia que o mundo já viu, tirou a vida de milhões. Iniciou-se a Guerra dos Cem Anos, entre França e Inglaterra, e o papado enfrentava uma série de adversidades, entre elas o Papado de Avignon, o Grande Cisma do Ocidente e a heresia do conciliarismo (que reivindicava para os concílios uma autoridade maior que a do papa). Como se já não bastasse, um novo grupo muçulmano, os turcos otomanos, invadiu o sudeste da Europa em 1354.

Por que Deus parecia estar punindo a Europa de Santo Tomás de Aquino e São Luís, de São Gregório VII, São Francisco de Assis e tantos outros grandes santos católicos? É claro que historiadores seculares negam que os desastres dos séculos XIV, XV e XVI tenham sido castigos divinos. Para eles, as coisas na história simplesmente acontecem, sem qualquer plano ou desígnio superior. Mudanças climáticas ocorrem periodicamente, guerras simplesmente estouram, epidemias podem se espalhar a qualquer momento. Para eles, o trabalho do historiador consiste apenas em analisar e registrar os acontecimentos e não buscar neles algum significado transcendente. O historiador católico, porém, vê a história como a ação de Deus no mundo em que Ele se encarnou. Para isso, Deus utiliza-se de instrumentos humanos, e nem sempre é fácil notar de que modo e em que lugar opera a Sua mão. 

Mas podemos examinar as pistas. Com efeito, desastres e catástrofes aparentam ser respostas de Deus a ações imorais. Por isso, enquanto o historiador secular considera a catastrófica dissolução da civilização medieval como um mero fenômeno interessante, eu me inclino a considerá-la um castigo. Mas um castigo contra o quê, visto que a era precedente parecia tão dedicada às coisas de Deus e à Sua Igreja?

 

A frieza

São Francisco de Assis já havia notado algo errado em sua época, o começo do século XIII. Apesar da impressão que se tem do século XIII como uma época fervorosamente devota, Francisco a via como uma nova “era do gelo” para a espiritualidade. “A caridade”, dizia ele, “congelou”.

Como é possível, no século em que o Papa Inocêncio III ordenara a internação gratuita dos pobres nos hospitais de todas as grandes cidades, no período em que até mesmo reis e duquesas se dispunham a cuidar dos doentes, em que se fundaram novas ordens para pregar, ensinar, curar e redimir prisioneiros? 

É evidente que São Francisco, ao utilizar a palavra “caridade”, não se referia somente aos trabalhos de misericórdia corporal — embora estivesse profundamente empenhado neles — mas pensava antes de tudo naquele terno amor por Deus, ordenado pelo que Nosso Senhor chama de “o primeiro e maior” dos mandamentos. Era o amor a Deus que havia esfriado. (Vale a pena observar que Dante, ao escrever na entrada do século XIV, representou as punições dos recantos mais profundos do inferno não com o tradicional fogo, mas com gelo).

A coleta da Festa dos Estigmas de São Francisco de Assis, em 17 de setembro (Missal Tridentino), se refere a esse crescente esfriamento:

Senhor Jesus Cristo, que no meio da indiferença do século Vos dignastes, para reacender os nossos corações no fogo da Vossa caridade, gravar na carne do bem-aventurado Francisco os estigmas da Vossa paixão, concedei-nos, por seus merecimentos e intercessão, a graça de sempre levar a cruz e produzir frutos dignos de penitência.

Outro sinal desse esfriamento espiritual é o fato de que o Quarto Concílio de Latrão, em 1215, viu-se obrigado a exigir o recebimento da Sagrada Comunhão ao menos uma vez por ano, sob pena de pecado mortal. O fato de que a expressão central da devoção católica — sem mencionar o inefável privilégio — precisasse ser transformada em obrigação em vez de ser naturalmente considerada uma alegria, mostra-nos uma vez mais como o fervor religioso havia diminuído. É claro que Deus não responde ao pecado somente com castigos, ele também envia graças especiais. Aqui, encontramos Deus se revelando de maneira extraordinária a duas almas santas desse mesmo século: Ele deu à bem-aventurada Juliana de Liège a missão de promover a Festa de Corpus Christi, para reviver a devoção ao Santíssimo Sacramento; e a Santa Gertrudes, no final do século, Ele revelou o Seu Sagrado Coração.

 

A sociedade medieval e o desenvolvimento do comércio

A questão permanece: o que causou essa diminuição do fervor e o crescimento da frieza, mesmo no século que parece ser o mais católico de todos? Alguns culpam as heresias que colocavam em dúvida a verdadeira presença de Cristo na Eucaristia. Todavia, a maioria delas havia fracassado e não trouxe muitos danos, embora tenha sido necessário o uso de grande força militar para reprimir a bizarra seita dos cátaros, que florescia no sul da França e em partes da Áustria e Itália. O ensinamento cátaro de que toda matéria era produzida por um espírito maligno atacava implicitamente o culto ao Corpo de Cristo no Santíssimo Sacramento. No século XIII, contudo, as heresias ainda não tinham a grande influência que viriam a ter mais tarde dentro da Cristandade; ainda não chegara o seu momento. As heresias medievais, portanto, não foram a causa principal do crescimento da frieza, tampouco a corrupção que existia em certas áreas do clero.

Logo, deve haver outro elemento envolvido no enfraquecimento da fé e do amor na Idade Média Plena, e o ambiente no qual São Francisco cresceu nos dá uma pista dele. Seu pai era um próspero comerciante de tecidos e residia numa movimentada cidade-Estado, num tempo em que a atividade comercial crescia por toda a Europa. Por si só, isso não foi algo ruim. Comerciantes e associações de artífices operavam sob princípios cristãos, prestando serviços sociais aos seus membros, regulando a qualidade do trabalho, pagando salários dignos e cobrando preços justos. Gradualmente, porém, aumentava a complexidade dos negócios e o individualismo dos comerciantes; no século XIII, ganhar dinheiro tornou-se uma preocupação muito maior do que nos séculos anteriores.

Um medievalista francês observou que embora o povo do começo da Idade Média pudesse ser ganancioso, ao cobiçar terras, prestígio, poder, entre outras coisas, o que ele vê no período final da Idade Média é diferente. É o crescimento da avareza: o amor pelo dinheiro. Enquanto a cultura dos negócios crescia rumo ao que por vezes se chama protocapitalismo, os corações católicos se mostravam cada vez mais divididos entre Deus e o mundo. Um mercador do século XV escreve no topo do seu livro de contabilidade: “Em nome de Deus e do lucro”. Como observa outro historiador da Idade Média Tardia: “Começou-se a manter dois tipos de condutas: uma voltada para o lucro e a outra voltada para Deus”.

Nosso Senhor afirma claramente: “Não podeis servir a Deus e a Mamom”. Daí a pobreza radical esposada por São Francisco: Deus enviara um santo que dizia aos católicos o que estava errado e o inspirara a lhes ensinar o remédio. Ao que parece, os ensinamentos de São Francisco não foram suficientemente praticados. A ordem franciscana cresceu rapidamente, e as massas ouviam os frades pregarem. Governantes santos como Isabel da Hungria e Luís de França entraram para a Ordem Terceira franciscana. Porém, tudo indica que esse grau de conversão não satisfez os pedidos de Nosso Senhor.

É difícil acreditar que essa crescente preocupação com lucro não teve efeitos sobre a vida espiritual dos habitantes cada vez mais ocupados das cidades do século XIV. O amor pelo dinheiro talvez não impeça que uma alma ame a Deus, mas pode facilmente destruir o ardor espiritual, o gosto pela contemplação, pelas devoções e o zelo pelos trabalhos de caridade. As crônicas nos contam que mesmo depois da Peste Negra, as pessoas não se tornaram menos avarentas, muito pelo contrário. As heresias que brotaram naquele momento, de algum modo, causaram mais danos e fincaram raízes mais fortes nas mentes do que as heresias anteriores; as ideias heterodoxas de John Wycliffe na Inglaterra e Jan Hus na Boêmia duraram bastante nos seus países de origem. Tudo isso, além dos problemas que prejudicaram o papado e neutralizaram sua resistência aos males da época, havia debilitado as almas dos católicos comuns, tornando-os mais vulneráveis aos heresiarcas do século XVI.

 

Subversão do pensamento

Quanto aos intelectuais, muitos haviam sido influenciados ao longo dos séculos XIV e XV pelas novas ideias de Guilherme de Ockham, cuja filosofia do nominalismo subverteu a grande síntese escolástica entre fé e razão, ao destruir sua fundação filosófica no realismo aristotélico. Ockham defendia que a mente humana é capaz de conhecer coisas individuais, mas não conceitos universais (defendidos pelos realistas), ou seja, não se pode conhecer Deus pela natureza; algo que é verdadeiro pela fé não o deve ser pela razão, e vice-versa. Esses são apenas alguns pontos de um amplo e complexo pensamento, mas eles já indicam uma mudança radical na mentalidade: da confiança dos medievais e clássicos no uso da mente, para o pessimismo teológico e filosófico. 

A perda de confiança na possibilidade de que a razão pudesse demonstrar a existência de Deus, e a ideia das “duas verdades” (uma de fé e outra da razão) geraram incerteza teológica e até mesmo futilidade. O nominalismo tornou-se popular entre círculos reformistas; é até possível que tenha sido o motivo de Lutero se voltar inteiramente contra a razão: “A razão é a prostituta, sustentáculo do Diabo”, escreve ele. “O Batismo deve eliminá-la”. 

O Renascimento do final do século XV e do século XVI desferiu o derradeiro golpe na estrutura cambaleante da civilização medieval. O individualismo, já alimentado pela nova cultura dos negócios, tornou-se um verdadeiro culto para escritores como Pico della Mirandola, que glorificava o homem de uma maneira nunca antes vista em cultura alguma, incluída aí a dos gregos e romanos. Outros exaltavam o “indivíduo heroico”, enquanto Maquiavel, com o seu infame mote “os fins justificam os meios”, conseguiu ser o mais imoral de todos os que estavam determinados a manter sua posição e poder. As ideias desses homens representavam a antítese do pensamento medieval, que valorizava a coletividade em vez do individualismo, a humildade em vez do orgulho e a moral católica em todas as áreas.

 

A revolta seguinte

Esses elementos não representam as causas inevitáveis do desastre conhecido como Reforma Protestante, mas contribuíram para favorecer sua emergência. A frieza espiritual, a preocupação excessiva com os afazeres mundanos, o individualismo, a exposição a diversas noções heréticas e a corrupção generalizada do pensamento (o que prejudicou a relação entre fé e razão): todos esses elementos contribuíram para deixar as mentes confusas e as almas indefesas perante o tsunami que estava prestes a atingi-las. 

Aqui já podemos notar a diferença entre essa análise e a versão convencional sobre as origens da Reforma. O mito da Reforma é descrito da seguinte maneira: No século XVI, a Igreja Católica havia se tornado mundana e corrupta. O clero era imoral, os mosteiros eram fossas de iniquidade e se praticava a compra e venda de coisas santas. A situação era intolerável por toda parte, todos sentiam que alguma medida precisava ser tomada. Havia uma insatisfação generalizada contra a Igreja Católica, e um grande anseio por uma religião mais simples, fiel aos Evangelhos e que colocasse as pessoas em contato direto com Deus. Por fim, um corajoso padre alemão, Martinho Lutero, revoltado com a venda de indulgências, indignou-se e protestou publicamente. Esse foi o começo de uma grande renovação do cristianismo, inevitável e historicamente necessária.

A maioria dos protestantes, evidentemente, tem aceitado esse enredo, e até mesmo historiadores católicos aceitaram partes dele, talvez intimidados com a difusão universal do mito nos livros didáticos e nas universidades. A verdade, porém, é muito diferente.

Em 1991, a Oxford University Press publicou uma revisão do assunto feita por Euan Cameron intitulada The European Reformation. É um resumo excelente e erudito sobre a Reforma, e inclui uma investigação das pequenas seitas e das práticas religiosas do povo comum. Contribuiu muito para desmantelar os elementos do mito reformista. A respeito da afirmação de que a corrupção no clero inflamou entre o povo um clamor generalizado por reforma, Cameron diz o seguinte:

Antes do ano 1500, padres extravagantes ou libertinos vinham sendo reprimidos em sermões havia pelo menos 150 anos. São Bernardo de Claraval, já no ano 1150, escrevia severamente contra a avareza no clero. A respeito de vícios e ambições políticas, João XII (955-964) ultrapassou facilmente o Papa Alexandre VI. Se os problemas eram antigos, também eram as críticas. Mas, os agitadores “reformistas” do ano 1500 pensavam que sua época era um tempo de declínio catastrófico, precedida por séculos de primordial piedade. É preciso que esse mito seja visto somente como mais um clichê.

Uma abordagem como essa traz novos ares para os estudos sobre a Reforma. Males existiam e sempre existiram. Os católicos comuns não esperavam que o homem — com sua natureza corrompida — fosse perfeito, e não mudariam da indignação com as “maçãs podres” dentro do clero para a ideia de que a própria Igreja devia ser fragmentada. Não há evidências de que a maioria dos católicos sequer quisesse que a Igreja ensinasse algo que já não fizesse antes. Muitos estavam conscientes da necessidade de reformas institucionais, para garantir, por exemplo, que os bispos fizessem seu trabalho adequadamente e que os padres fossem corretamente educados. Com efeito, o Quinto Concílio Geral de Latrão, realizado de 1512 a 1517, incluiu entre os diversos temas a serem discutidos a necessidade de reformas. O seu foco principal, porém, foram as questões políticas urgentes, e o seu trabalho foi dificultado pelas rivalidades entre alguns participantes. Talvez tenha sido uma última chance dada à Igreja para que respondesse com vigor à apatia e ao materialismo dentro do clero; pouco depois, naquele mesmo ano de 1517, era tarde demais, pois Lutero havia entrado em cena.

Ao analisar as origens da Reforma, é preciso lembrar também que grande parte da Europa não cedeu às suas ideias. Onde a Reforma de fato ocorreu, observa Cameron, o seu êxito estava ligado à prática de submeter o dogma ao debate público. Em lugar da verdade revelada por Deus, convidavam-se as pessoas a escolher aquilo em que desejavam acreditar. Nessas áreas, contudo, a religião misturou-se com a política. O historiador Carlton Hayes diz: “O protestantismo foi o aspecto religioso do nacionalismo”. Segundo Cameron: “A Reforma deu a muitos grupos da Europa as primeiras lições sobre o comprometimento político com uma ideologia universal. No século XVI, a religião se tornou política de massa”. 

 

Três “reformistas”: Lutero, Calvino e Henrique VIII

Não discutirei aqui em detalhes as posições teológicas dos fundadores das três novas religiões criadas na Reforma. Além da falta de espaço, seria inútil falar sobre a “posição teológica” de um homem como Henrique VIII. As principais novidades ensinadas pelos heresiarcas se encontram em diversas obras católicas conceituadas. Em todo caso, minha preocupação é menos com as complexidades teológicas do movimento herético do que com a questão de por que ele obteve sucesso. Irei simplesmente apontar algumas características do novo ensinamento protestante que parecem ter agravado o enfraquecido estado espiritual em que grande parte da Cristandade já se encontrava: esfriamento da devoção a Deus, a Nossa Senhora e à Santa Eucaristia, preocupação excessiva com dinheiro e aumento do individualismo. Até mesmo o abuso que levou Lutero a apregoar publicamente suas novas ideias religiosas — que ele já havia desenvolvido — era o tipo que interessava à sua época: a venda de indulgências.

 

A questão das indulgências

Essa afronta causou escândalo na época, e embora o Papa Leão X (Giovanni di Lorenzo de Médici) a tivesse ordenado, algumas autoridades da Igreja não a permitiam em suas dioceses. Leão — que queria dinheiro para a construção da nova basílica de São Pedro — e um arcebispo alemão endividado com jogos reuniram forças para implantar a venda de indulgências (reduções das punições temporais decorrentes do pecado, inclusive os pecados dos indivíduos que estão no purgatório). O famoso verso citado por Tetzel, “Assim que soa a moeda no fundo do cofre, sai do purgatório a alma que sofre”, talvez seja um pouco exagerado, mas sintetiza o objetivo da campanha: venda por atacado de benefícios espirituais em troca de dinheiro.

Esse tipo de comércio imoral não era algo novo; há um vendedor de indulgências trabalhando de modo semelhante nos Contos de Cantuária, obra de Geoffrey Chaucher, do final do século XIV. O mais interessante é a razão de esse comércio estar ativo naquele momento. Não se pode imaginar a venda de indulgências sendo tão lucrativa sem que houvesse uma economia florescente e uma mentalidade receptiva da parte das classes endinheiradas. É certo que o comerciante, não propenso a adquirir as indulgências mediante orações e boas obras, e sem tempo para rezar por seus parentes falecidos, viu o mercado de indulgências como uma bênção. Dinheiro, tinha-o; tempo livre, não. Mais tarde, quando Lutero dizer-lhe que não existe a necessidade de indulgências e que, portanto, ele poderia guardar seu dinheiro, o comerciante ficará ainda mais feliz.

 

As ideias de Lutero se adaptam a uma era comercial e individualista

Podemos agora examinar as ideias de Lutero no contexto de sua época. A sua afirmação de que “somente a fé” é necessária para a salvação, por exemplo, casou bem com a época, ao livrar-se da necessidade daquelas penosas boas obras. (Lutero não disse que não se devia fazer boas obras; na verdade, ele disse que se devia fazê-las; mas é natural ao homem concluir que, se algo não é estritamente necessário para a salvação, pode ser deixado de lado). Lutero também disse que “o cumprimento dos deveres temporais é a única maneira de agradar a Deus”. Essa perda na ênfase da contemplação e da vida espiritual provavelmente contribuiu para o fechamento dos mosteiros e conventos na Alemanha e para a concentração em objetivos seculares, entre eles o comércio. Isso soou bem aos ouvidos dos burgueses do Sacro Império Romano-Germânico, e se adaptou bem ao espírito da época. Devemos relembrar que desde a Idade Média reis e autoridades se esforçavam incansavelmente para controlar as terras da Igreja dentro do império. Não é de admirar que seus descendentes tenham se encantado ao ver esses valiosos territórios, que seus ancestrais tanto haviam cobiçado, desprotegidos e sem poder de reação.

Outro ponto que casou bem com a época e que seduziu mentes cada vez mais individualistas foi o princípio de que somente a Bíblia era a regra de fé e que cada indivíduo podia interpretá-la sozinho.

Como observa um autor moderno, “o mandato divino de decidir o que era verdade e o que era heresia passou da Igreja — a quem pertencia — para o indivíduo”.

 

A teologia de Calvino prepara o terreno para os negócios

O pregador francês João Calvino concordava com Lutero em muitos pontos, mas enfatizou a doutrina que se tornaria seu cartão de visitas: a Predestinação Absoluta. Calvino acreditava que, desde a eternidade, Deus havia determinado algumas almas ao Céu e outras ao Inferno, e nada que um indivíduo fizesse poderia mudar sua sentença eterna. Era horrível ter de conviver com uma ideia como essa, e os primeiros calvinistas freqüentemente se angustiavam com a noção de que talvez estivessem condenados e que não podiam fazer nada a respeito.

A teoria, porém, fora de algum modo abrandada pela ideia de que se o indivíduo fosse um dos “eleitos”, sabê-lo-ia mediante alguns sinais de Deus. Acreditar nos ensinamentos calvinistas seria um desses sinais, assim como se comportar bem; mas o sinal mais seguro, porque mais objetivo, seria o de que os negócios mundanos da pessoa estavam melhorando. Isso se inspira no modo como Deus lidava com os hebreus no Antigo Testamento, recompensando-os com prosperidade material quando eles O agradavam.

 

Henrique VIII promove o cisma da Inglaterra

Diferentemente de Lutero e Calvino, Henrique VIII não pretendia criar uma nova teologia; ele queria apenas um divórcio, mas o papa não queria concedê-lo. 

Quando fez de si mesmo o chefe da Igreja na Inglaterra, rompendo com Roma, ele primeiramente criou um cisma, e não uma nova igreja. Contudo, mesmo antes de morrer, depois de ter passado por mais dois divórcios e ter executado duas esposas, seus colegas de ideologia protestante haviam começado a introduzir mudanças na liturgia católica.

Durante o reinado do sucessor de Henrique, surgiu a Igreja da Inglaterra. Era uma nova seita protestante que costurara remendos católicos com diversas ideias heréticas e uma forte associação à coroa e aos deveres patrióticos. Mais tarde, alguns calvinistas — sempre radicais e militantes — se tornaram muito influentes no país, a ponto de, no século XVII, conseguirem implantar uma revolução e executar o rei legítimo (Carlos I). Essa influência calvinista afetaria a sociedade e a economia tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos, onde rebeldes puritanos fundaram as primeiras colônias da Nova Inglaterra em 1620 e 1630. As ideias calvinistas inglesas contribuiriam para moldar a perspectiva americana sobre a vida política, social e econômica. 

 

Os resultados

Conhecemos bem os resultados da Reforma. Criaram-se novas religiões hostis a Roma e, geralmente, submissas às novas monarquias sob as quais haviam emergido. A Cristandade foi fragmentada de modo irreversível, e a Igreja perdeu grande parte da Europa, a qual conseguira unificar a duras penas durante a Alta Idade Média. Os santos da Contrarreforma conseguiram recuperar alguns desses territórios e reformar os abusos na administração eclesiástica, mas grande dano já havia sido causado e grande parte da Civilização Ocidental permaneceria infestada com ideias protestantes. O Padre Frederick Faber, um convertido do anglicanismo, analisou diversos efeitos da mentalidade protestante nos católicos da Inglaterra do século XIX. “É difícil”, observa ele, “viver entre icebergs e não sentir frio”.

Em um de seus livros, ele aponta um dos resultados mais prejudiciais da convivência dos católicos com os descrentes:

As Sagradas Escrituras comparam a vida a uma terra cansada (...) Assim é com a religião. Não podemos viver entre descrentes e, ao mesmo tempo, gozar da brilhante vida espiritual dos que vivem nos tempos e regiões de fé. Os que passam a vida numa espécie de Éden doméstico, que deixariam senão com pesar, e convivem em demasia com os que não são filhos da Igreja, logo são prejudicados por estas relações, desde que vivam em paz com aqueles a quem nunca deveriam cessar de tentar converter. A fé, bem como a santidade, debilita-se e fenece no convívio de tal sociedade, cuja atmosfera não lhes é conveniente. Daí originam-se tantas opiniões estranhas sobre a facilidade da salvação para os hereges, indo até a baixeza de considerar a bondade de qualquer doutrina como medida de verdade. E bondade, entenda-se, não para com Nosso Senhor e a Sua Igreja, mas para com os que não estão ligados a Ele ou a Ela. 

Quem, hoje em dia, não tem na família ao menos um descrente, com o qual ninguém quer discutir, para não ter que perturbá-lo com incômodas questões religiosas?

O processo de mudança da civilização católica da Idade Média até a fragmentação do mundo cristão no século XVI pode se resumir da seguinte maneira: a cobiça e a mundanidade primeiro produziram indiferença às coisas de Deus, e o amor por Nosso Senhor esfriou. Quando nem sequer os numerosos santos que Deus enviou no século XIII puderam tocar os corações dos cristãos na medida que Ele desejava, a Europa sofreu os castigos da fome, da peste e da guerra. Conseqüentemente, os homens cresceram piores e não melhores. Até mesmo os papas foram punidos com cismas e heresias. O castigo seguinte, muito pior, foi a difusão de erros filosóficos e teológicos em toda a Cristandade por heresiarcas carismáticos e obstinados, pregadores de falsas doutrinas e ódio à Igreja.

Esse processo continua até hoje. Com efeito, o julgamento privado alcançou sua conclusão lógica no culto do homem moderno: a partir do conceito “todo homem é um papa” durante a Reforma, para a ideia de que “todo homem é seu próprio rei” no período revolucionário seguinte, chegando ao atual “todo homem é seu próprio deus”. É verdade que a Igreja da Contrarreforma, cuja ponta de lança foi o Concílio de Trento, reformaria abusos e conseguiria grandes vitórias. Papas exemplares a lideraram, e ela recebeu a graça de ser auxiliada por vários santos. O número total das legiões de almas que ela não pôde recuperar na Europa talvez tenha sido compensado pela conversão de milhões no Novo Mundo.

Entretanto, muito do que se perdeu nunca mais foi recuperado. A Igreja, no mundo moderno, tem permanecido na defensiva, e todos nós fomos afetados pela mudança do clima intelectual originariamente introduzido pela mentalidade protestante. 

 

Fonte: Dez datas que todo católico deveria conhecer, Castela Editorial, 2013.

Tradução de Gabriel Galeffi Barreiro

 

 

Os mártires irlandeses no século XVII

Matthew Brutton

[Nota da Permanência] Recomendamos a leitura do artigo “Os Mártires irlandeses do Século XVI”, do mesmo autor, traduzido e publicado na Revista Permanência 271.

 

A perseguição que se iniciou no reinado de Henrique VIII na Inglaterra se estendeu pela Irlanda e continuou até o século XVIII. Neste estudo, o leitor deve levar em consideração um aspecto particular da história da Irlanda: enquanto, em outros países, as autoridades e a população, ou aderiam todos ao protestantismo, ou permaneciam todos católicos, a Irlanda enfrentava a difícil posição de ser governada por estrangeiros cismáticos e heréticos, enquanto o povo permanecia católico. Assim, os irlandeses sofreram uma intensa perseguição que buscava abalar a perseverança na fé que São Patrício, no século V, lhes havia transmitido. Todos os meios foram empregados, desde restrições legais até brutalidades físicas, mas os Irlandeses deram mostras de um heroísmo exemplar.

Após um breve resumo histórico, apresentaremos os principais mártires da primeira metade do século XVII. Em seguida, deter-nos-emos mais particularmente no período em que o puritanismo (um ramo do calvinismo) tomou o poder, e veremos os mais importantes mártires tanto dessa época quanto da época seguinte.

A Irlanda do século XVII

No início do século XVII, a Irlanda mais uma vez estava em guerra contra a Inglaterra. Uma dessas guerras trouxe numerosas vitórias para os irlandeses; no entanto, o resultado final foi a derrota da Irlanda, e o exílio dos líderes e de muitas famílias nobres. Seguiu-se então uma época de dominação completa e tirânica dos ingleses sobre os irlandeses. Uma das primeiras medidas do governo Inglês foi a expulsão de milhares de católicos de suas terras, principalmente do norte da Irlanda, e o estímulo à vinda de colonos protestantes, ingleses ou escoceses, a quem se deram essas terras. Os protestantes permanecem no norte do país até os dias de hoje1.

Enquanto continuavam as perseguições contra os católicos, iniciou-se uma nova rebelião irlandesa, em 1642, com a particularidade de que, desta vez, a Igreja é que a organizava. O Papa a apoiou e chegou a enviar o núncio João Batista Rinuccini, arcebispo de Fermo. Infelizmente, a insurreição foi derrotada.

Após o assassinato do rei Carlos I, em 1649, instaurou-se um novo governo na Inglaterra, controlado pelos protestantes puritanos, cujo líder era Oliver Cromwell. Juntamente com seus companheiros, Cromwell nutria um intenso ódio contra os católicos irlandeses. Perseguiu-os, até 1660, numa das mais terríveis perseguições da história da Igreja.

Carlos II, filho de Carlos I, subiu então ao trono. Durante os reinados de Carlos II, Jaime II e Maria II, as perseguições continuaram e a lista de mártires aumentou. O último foi o Fr. Gerald Fitzgibbon O.P., em 1691. A partir de então, as perseguições físicas cessaram; no entanto, ainda vigoravam as leis severas contra o clero e os católicos.

 

Os primeiros mártires

Dom Cornelius O’Devany

O primeiro mártir que apresentamos é Cornelius O’Devany, bispo da diocese de Down e Connor. Originário do norte da Irlanda, tornou-se franciscano aos vinte anos e foi designado bispo aos quarenta e nove, por Gregório XIII, em 1582. Capturaram-no em 1611 e o julgaram em Dublin sob falsos pretextos, sofrendo denúncias de testemunhas perjuras. Ao final, seus adversários lhe acabaram revelando as verdadeiras intenções e disseram que lhe poupariam a vida se abandonasse a religião católica e abraçasse o anglicanismo. A estas palavras, ergueu a voz e chamou todos os cristãos para testemunharem que ele preferia morrer em defesa da sua fé católica.

De volta à prisão, passou o tempo meditando e rezando, até o dia da execução, em 1º de fevereiro, na festa de Santa Brígida, patrona da Irlanda. Quando o conduziam à morte, junto com outro padre, Patrick O’Lochran, disse a este último: “Venha, meu caro companheiro, nobre soldado de Cristo, imitemos o máximo possível a morte daquele que levaram ao patíbulo como um cordeiro ao abatedouro”. Em seguida, inclinando-se e beijando a trave posta sobre o cavalo que o carregava, montou e percorreu as ruas até o cadafalso. No percurso, a multidão de católicos invadia as ruas e, de joelhos, pedia-lhe a bênção, o que causou grande indignação do representante do rei. 

Quando o bispo chegou ao local onde estava montado o cadafalso, pediu ao algoz que executasse seu companheiro antes dele, pois temia que ele, vendo-o morto, perdesse a coragem. O carrasco lhe recusou a graça, mas Patrick O’Lochran tranqüilizou o prelado.

No momento em que Dom Cornelius se aproximou do cadafalso, os gritos da multidão se intensificaram. Por três vezes rezou: primeiro, pela multidão presente; segundo, pela cidade de Dublin e por todos os católicos do reino, para que servissem a Deus fiel e piedosamente; finalmente, rezou pela conversão dos heréticos. No instante em que o enforcaram, a multidão lançou um grito de angústia. Houve em seguida um profundo silêncio.

Morto, o rosto ainda lhe brilhava. Os algozes lhe cortaram a cabeça, retiraram as entranhas e deitaram fogo nelas. Ele foi enterrado junto com o outro padre na igreja de São Tiago de Kilmainham2

 

Pe. Peter O’Higgin O.P.

Até 1649, contam-se pelo menos cento e nove mártires, cujos arquivos ainda existem. Entre eles, há um arcebispo, três bispos, dezessete franciscanos, nove dominicanos, três jesuítas, três cistercienses e três carmelitas. 

Entre esses, destacamos o Pe. Peter O’Higgin. Ele era prior do convento de Nass, no sudoeste de Dublin e foi preso pelos heréticos. Um mensageiro, vindo em nome do Vice-Rei, assegurou-lhe que o libertariam caso abandonasse a religião católica. O padre contentou-se em responder:

Estou hoje a ponto de ser conduzido ao patíbulo e todo mundo sabe muito bem que a natureza humana não aceita a morte voluntariamente. Não estou cansado da vida a ponto de querer antecipar a morte, a não ser que a necessidade me obrigue. O Vice-Rei dignou-se enviar-me uma promessa escrita de próprio punho, pela qual me concede a escolha livre e total entre a vida e a morte, para que, por amor à vida, eu abandone minha religião. 

Pouco depois, no momento da execução, a mensagem do Vice-Rei foi-lhe novamente apresentada e ele a segurou, sorrindo. Os heréticos rejubilaram pensando que ele abandonaria sua religião, mas o padre subiu os degraus do patíbulo ainda mais alegre e à multidão dos católicos presentes disse:

Caros irmãos, membros da Santa Igreja Católica Romana. Desde que caí nas mãos destes heréticos aqui presentes, suportei a fome, os insultos e a prisão em lugares sombrios e repugnantes. Não sabia por que padecia tais penas e se iria receber a coroa do martírio; pois não é a pena, mas a causa dela que faz os mártires. O Deus Todo-Poderoso, que protege os inocentes e dispõe de todos com doçura, conduziu as coisas de modo que hoje eu fosse condenado por professar a religião católica, quando na verdade me acusam de crimes contra as leis deste reino. Eis a prova autêntica de minha inocência, uma carta assinada pelo Vice-Rei oferecendo-me a vida e ricas recompensas se eu abandonar a religião católica. Que Deus e os homens sejam testemunhas de que rejeito firmemente e sem hesitação tais ofertas e que voluntariamente e com alegria entro neste combate professando a fé.

Ele lançou a carta a um amigo e pediu ao algoz que procedesse à execução. Enfim, num profundo suspiro, disse: Deo gratias, e morreu.

 

A Irlanda durante o governo dos puritanos: o período mais negro da sua história

Desolação geral

Em 1641, de uma população de 1.466.000 habitantes, 1.240.000 eram católicos; em 1659, restavam apenas 420.0003. Como em todo período de guerra, é difícil saber em detalhes o que acontece com as populações. Sabe-se, no entanto, que 60.000 irlandeses foram vendidos como escravos por Cromwell, 40.000 fugiram para o continente e 20.000 se refugiaram nas ilhas escocesas4. Quanto aos outros, morreram à espada, de fome ou peste.

A fome na Irlanda não aconteceu por acaso, mas foi uma política deliberada dos governantes ingleses, que já havia sido experimentada durante o reinado de Elizabete I (1558 – 1603). Uma carta do vice-governador da Irlanda revelava: “O Sr. William Parsons aconselhou o governador a queimar o trigo e a matar cada homem, mulher ou criança”. A peste foi consequência da grande fome. Como declarou um membro do governo de Elizabete I: “tudo sucedeu para que os irlandeses acabassem devorando uns aos outros5”.

O exemplo mais notável desse massacre legalizado foi uma lei de 1664, promulgada pelo parlamento inglês, que estipulava: “Não haverá misericórdia para um irlandês ou papista nascido na Irlanda6”. Em um panfleto político da época, que convocava uma expedição militar contra os irlandeses, podia-se ler: 

Rogo-vos que a expedição levante-se contra eles com um coração ardente de vingança e que vossas mãos estejam ávidas de sangue. Não temo dizer a todos que me leem: Bem-aventurados aqueles que os recompensarem como merecem, e maldito os negligentes em executar esta obra do Senhor! Maldito seja quem retiver a espada; sim, maldito quem não banhar a espada em sangue irlandês7.

Os motivos desse ódio eram, sobretudo, de ordem religiosa. Um autor da época escreve:

Na verdade, por diversas vezes os magistrados (puritanos) assinalaram à burguesia católica que eles desejavam protegê-los, que todas as aflições cessariam se eles consentissem em renunciar ao Soberano Pontífice e, sobretudo, à missa 8

O Dr. John Lynch, arquidiácono de Tuam, historiador da época e testemunha das atrocidades, descreve o estado da Irlanda ao final do período:

Invejamos frequentemente as condições de vida de outras nações europeias que vivem em paz umas com as outras. Cada um vive em sua própria vinha e sob a própria figueira, já nós estamos famintos e miseráveis; os colonos tomaram posse de nosso país e nos tornamos estrangeiros. Nas cidades européias, constroem-se majestosos monumentos que sobem aos céus; quanto a nós, nenhuma casa é construída e as que existiam hoje são ruínas. Nesses países, os lugares sagrados são ornados com zelo, enquanto os nossos são destruídos, profanados e utilizados como tribunais ou para fins sacrílegos.

Os filhos dos europeus recebem boa educação, que é proibida em nosso país. Lá, os clérigos são honrados, mas aqui, são prisioneiros, ou estão escondidos nas florestas, nos porões ou nos pântanos. A lei universal da Igreja isentou da escravidão quem professasse a religião católica, mas os súditos irlandeses são arrancados dos braços das esposas e filhos pelos abutres do Estado, e deportados e vendidos como escravos para as Índias. Assim, os filhos dos irlandeses se transformaram em presas, as mulheres são levadas, as cidades destruídas, e os vasos sagrados profanados; os próprios irlandeses se veem reprimidos pelas outras nações... O inimigo infligiu toda espécie de injúria sobre os irlandeses; não fomos poupados de nenhuma maldade ou sofrimento 9.

 

A perseguição de Oliver Cromwell

Como a Irlanda, que tanto contribuiu para a Igreja, caiu num estado de tanta aflição?

Como já dissemos, a guerra, que começou em 1642, terminou por volta de 1648 ou 1649. Nesta época, o partido dos puritanos adquiria cada vez mais poder. Em 30 de janeiro de 1649, esse partido executou Carlos I. Dois meses mais tarde, Oliver Cromwell tornou-se o comandante geral. Foi com esse título que chegou à Irlanda em 14 de agosto do mesmo ano, dizendo a seus soldados que os irlandeses “deveriam ser tratados como os cananeus do tempo de Josué”.

A campanha militar durou perto de um ano. Cromwell sitiou e destruiu as cidades de Drogheda (norte de Dublin) e de Wexford (extremo sudeste da Irlanda). Exigiu então que, se os habitantes das outras principais cidades prezassem suas vidas, deveriam render-se e aceitar a seguinte condição: “Em cada local onde a autoridade do parlamento se estabelecesse, a missa não seria tolerada”. Sitiou, em seguida, diversas cidades do sul, entre as quais Waterford, New Ross, Cork, Kilkenny e Clonmel. Em 1651, as cidades de Limerick (sudoeste) e de Galway (oeste) caíram por sua vez sob o jugo de Cromwell.

Derrotadas, as tropas irlandesas deixaram o país. Os puritanos, já não encontrando nenhuma oposição militar, viram-se livres para decretar o primeiro édito de perseguição contra os católicos. Cromwell ordenou que todos os clérigos, seculares e regulares, deveriam, sob pena de traição, deixar o reino em vinte dias e, caso voltassem, sofreriam os confiscos e penas impostos ao tempo da rainha Elizabete, ou seja, seriam “enforcados, e ainda vivos seriam decapitados e esquartejados; as entranhas seriam retiradas e queimadas, e a cabeça exposta em praça pública”. Quem ousasse abrigar um clérigo estaria sujeito “ao confisco da propriedade e à morte imediata”. 

Dr. William Burgatt, contemporâneo da perseguição, escreveu:

Em 1649, contavam-se vinte e sete bispos, dos quais quatro eram metropolitanos. Em cada catedral havia dignitários e cônegos: cada paróquia tinha seus párocos; contava-se também grande quantidade de outros padres e numerosos conventos. Mas quando Cromwell, com extrema crueldade, perseguiu o clero, todos foram dizimados. Mais de trezentos sacerdotes, dos quais três bispos, foram executados à espada ou enforcados. Mais de mil foram exilados, entre os quais se encontravam todos os outros bispos, exceto um, o bispo de Kilmore que, devido à idade e enfermidades, não pôde deixar a ilha. Desta forma, privaram a Irlanda de seus bispos, coisa nunca vista há muito séculos, desde que recebemos a luz da fé católica. 

Não contentes, os puritanos confiscaram as propriedades da aristocracia irlandesa que permanecera na ilha. Todos os que não renunciaram à fé católica tiveram de entregar dois terços de suas terras. Pelo menos cinco milhões de hectares foram divididos entre os soldados puritanos; a uma grande parte da nobreza restou apenas vagar em busca de alimento, sendo obrigados inclusive a bater à porta das casas dos antigos locatários.

Decretaram-se ainda outras leis: quem não se dirigisse ao templo protestante no domingo deveria pagar uma multa de trinta pence; as crianças irlandesas foram declaradas propriedades da república, de forma que levaram muitas delas para que se instruíssem no protestantismo; além disso, todo irlandês que se distanciasse da região onde se registrara, por mais de uma milha (1,6 Km), sem passaporte, ou que participasse de alguma reunião, estava sujeito à pena de morte.

Os católicos foram excluídos das administrações públicas, a não ser que tivessem prestado o juramento de supremacia (juramento que definia a “Igreja da Inglaterra como autoridade suprema em domínio religioso”).

Em 1654, para impedir definitivamente que os irlandeses voltassem a se rebelar, os puritanos ordenaram que se deportassem os católicos para o oeste da ilha, onde as terras eram extremamente pobres, e que renunciassem a seus títulos de propriedade. Durante esse êxodo, milhares morreram de fome e enfermidades; alguns chegaram até mesmo a cometer suicídio. Instalaram-se guaritas de soldados a algumas milhas umas das outras, a pretexto de segurança, mas na verdade elas serviam de óbice para que os padres não se reunissem aos exilados.

Os puritanos então tentaram encontrar ingleses dispostos a ocupar as propriedades abandonadas, mas somente os mais pobres da sociedade aceitaram, pois as notícias dos horrores cometidos contra os irlandeses tinham chegado à Inglaterra.

Esses crimes hediondos não escaparam do castigo divino. Três meses depois de se estabeleceram na Irlanda, os 200.000 colonos sofreram uma invasão de vermes: as parasitas lhes infestaram os corpos, os cabelos, as barbas e os vestidos, enquanto nenhum irlandês foi atingido. Mais de 180.000 colonos morreram dessa epidemia e de outras doenças. 

Finalmente, em 1666, houve um grande incêndio em Londres. Muitos londrinos interpretaram o acontecimento como um castigo do céu, em razão do tratamento infligido aos irlandeses.

 

Mártires numerosos

As perseguições suscitaram numerosos mártires, para a maior glória da Igreja. De 1649 a 1660, contam-se mais de oitenta e seis, dos quais dois eram bispos, dezessete dominicanos, e vinte e um franciscanos.

 

Dom Albert Terence O' Brien

Um dos mártires mais célebres foi o bispo Albert Terence O’Brien. Ele era o provincial dos dominicanos da Irlanda. Em 1644, Urbano VIII o nomeou bispo da diocese de Emly. Em 1651, a cidade de Limerick (sudoeste da Irlanda) foi sitiada pelos puritanos. Os habitantes lutaram corajosamente e demonstraram grande piedade e confiança em Deus. Os puritanos ofereceram 40.000 moedas de ouro ao bispo se ele deixasse a cidade e parasse de lutar ao lado dos fiéis, ao que ele recusou. Quando a cidade caiu, ele foi capturado, acorrentado e levado à praça pública. Caminhou com alegria até o patíbulo e, muito calmamente, volveu-se em direção a seus amigos católicos, que estavam aos prantos em meio à multidão, e disse-lhes:

Guardai firmemente a fé católica e seus mandamentos. Não murmureis contra o que a Providência de Deus permite, e assim salvareis as almas. Não choreis por mim, mas rezai sobretudo para que nesta última prova eu possa, pela constância e firmeza, obter o céu como recompensa 10.

Em seguida, invadido por um espírito profético, condenou a ferocidade dos heréticos, declarou que a vingança divina lhes puniria os crimes e anunciou ao algoz, Henri Ireton, grande perseguidor dos católicos, que ele estaria diante do tribunal do justo Juiz em oito dias. A profecia cumpriu-se ao pé da letra: no oitavo dia, atingido pela peste, Ireton morreu gritando: “Sangue! Sangue! Quero mais sangue!” Antes de morrer, teve uma visão do bispo mártir, que era tão palpável que ele desviou os olhos para não vê-lo11.

Fixaram a cabeça decapitada do bispo na ponta de uma estaca, no alto de um castelo, de onde por muito tempo viam-se pequenas gotas de sangue fresco caírem. A pele e a carne permaneceram intactas, sem dúvida um sinal da pureza virginal de sua vida. 

 

São Vicente de Paulo e os católicos perseguidos da Irlanda

Antes de darmos continuidade à história dos mártires, ressaltemos a relação entre São Vicente de Paulo e a Irlanda. Este santo tinha uma afeição particular à Igreja perseguida da Irlanda. Contribuía sem cessar auxiliando os exilados e sobretudo os eclesiásticos que se refugiavam na França. Dava-lhes abrigo, paramentos e vestimentas. Como dizia um bispo irlandês, “Deus o suscitou neste tempo de perseguição para ser a salvação de nosso país12”. 

Naquela época, os religiosos de São Vicente de Paulo também estavam presentes na Irlanda, especialmente em Limerick, onde ajudavam os cidadãos nas necessidades espirituais e temporais. O texto a seguir é de uma carta que São Vicente escreveu ao superior da Ordem na Irlanda, incitando seus filhos missionários a defrontar os perigos que os ameaçavam:

Vós vos consagrastes a Deus, a fim de que, em meio aos perigos, permaneçam inquebrantáveis neste país, expondo-vos à morte para serem caridosos com o próximo... Vós agistes como verdadeiros filhos de nosso Pai adorável, a quem dou infinitas graças por ter produzido em vós esta caridade soberana, que é a perfeição de todas as virtudes. Rogo-lhe que vos cumuleis desta caridade até o final, de modo que, praticando-a sempre e em todo lugar, possais vertê-la no coração daqueles que a desejam. 

Vendo que vossos companheiros têm boas disposições para ficar, apesar dos perigos da guerra e das calamidades, somos da opinião de que eles assim devem fazer. Como conhecer a intenção de Deus para eles? Certamente, Ele não concede tal disposição em vão. Meu Deus, como vossos julgamentos são insondáveis! Eis uma das missões mais frutuosas que já tivemos, talvez uma das mais necessárias, e Vós vos detendes misericordiosamente nesta cidade penitente, e fazeis cair vossa mão ainda mais pesada sobre ela, acrescentando-lhe às penúrias da guerra, as calamidades da peste. Mas tudo isso é feito para a colheita dos eleitos, para a colheita do bom trigo no celeiro eterno. Nós adoramos vossos caminhos, oh Senhor13

Quando a cidade de Limerick finalmente caiu nas mãos dos puritanos, os mártires deram testemunho da obra consumada por seu clero. 

 

Thomas Stritch

Abelly, que acabamos de citar, relata ainda o martírio do chefe da cidade de Limerick, Thomas Strich.

Saindo de um retiro espiritual, ele recebeu as chaves da cidade, depositou-as diante da estátua da Santíssima Virgem rogando-Lhe que colocasse a cidade sob sua proteção, enquanto que em sua honra todos as corporações marchavam em procissão até a igreja. Ele pronunciou um discurso edificante diante de toda a assembleia, encorajando-a a permanecer inviolavelmente unida a Deus, à Igreja e ao Rei, aceitando oferecer a vida para uma tão justa causa.

Deus aceitou a oferta, e quando a cidade foi tomada, ele recebeu a coroa do martírio, juntamente com outros três companheiros com quem fizera o retiro espiritual. Todos os quatro caminharam para a morte não apenas com coragem mas também alegria. Antes da execução, dirigiram-se para a multidão e, comovendo até os heréticos, declararam diante do céu e da terra que davam as vidas pela propagação e defesa da fé católica. O exemplo heroico encorajou os outros católicos a permanecerem na fé e a enfrentarem as perseguições, antes de faltarem à fidelidade que deviam a Deus14

Quando São Vicente de Paulo soube da quantidade de mártires de Limerick, exclamou: “O sangue desses mártires não será esquecido diante de Deus, e cedo ou tarde produzirá uma colheita abundante de catolicidade”.

Foi exatamente o que aconteceu. No decorrer dos séculos XIX e XX, a Irlanda ofereceu um grande número de vocações para a Igreja (fato que Dom Lefebvre ressaltou quando a Irlanda recebeu pela primeira vez um padre da Fraternidade São Pio X15).

 

Pe. James Wolf, O.P.

Outro mártir foi o padre James Wolf, da Ordem dos Pregadores, também originário de Limerick. Ausente no momento em que sitiavam a cidade, soube que os eclesiásticos da cidade tinham sido condenados à morte ou banidos. Voltou, então, secretamente, para administrar os sacramentos aos fiéis.

Os heréticos prenderam-no enquanto celebrava a missa. Em poucas horas o condenaram à morte e o conduziram ao local de execução. Professou a fé em público e exortou aos católicos que perseverassem na fé de seus pais. Aos pés do cadafalso, exclamou com alegria: “Fomos considerados cativos diante de Deus, dos anjos e dos homens; mas Deus assim o permite para sua glória e alegria dos anjos, apesar dos murmúrios dos homens”. Em seguida foi enforcado, e recebeu a recompensa eterna16

 

Dom Oliver Plunkett

É preciso finalmente mencionar Oliver Pluncket.

Ele fizera os estudos de teologia em Roma, onde passou quase vinte anos. Em 1669, foi nomeado arcebispo de Armagh, diocese do norte da Irlanda. Aí exerceu o ministério com muita perseverança e fidelidade, em condições muitas vezes difíceis.

Tendo repreendido alguns padres, estes o acusaram de preparar um complô para derrubar o poder dos protestantes na Irlanda. Prenderam-no então em 1679, na Inglaterra. Na prisão, rezava continuamente e jejuava três ou quatro vezes por semana. Em 1681, compareceu diante do tribunal e foi condenado, apesar da evidente falsidade das acusações.

O conde de Essex enviou uma petição a Carlos II na tentativa de obter a anistia do bispo, mas o rei respondeu-lhe: “Que o sangue dele caia sobre sua cabeça e não sobre a minha!”

No dia 1º de julho, em Tyburn, o bispo foi enforcado. Eis suas últimas palavras: 

“Mostrei suficientemente, acredito eu, que sou inocente desse complô ou conspiração, e gostaria agora, se for possível, de me desculpar dos crimes cometidos contra os mandamentos da Majestade Divina, que por tantas vezes transgredi, e dos quais me arrependo de todo o coração. Se ainda vivesse mil anos, fá-lo-ia com a firme resolução e a forte intenção, por vossa santa graça, oh Deus, de nunca mais vos ofender. Suplico a vossa Majestade Divina, pelos méritos do Cristo, e a intercessão de sua bem-aventurada Mãe e de todos os anjos e santos, que perdoe meus pecados e me alcance o repouso eterno17.

Recitou em seguida o salmo Miserere Mei e outras orações fervorosas. Depois de enforcado, as entranhas e o coração foram retirados e lançados ao fogo. A cabeça ainda se conserva em Drogheda, ao norte de Dublin.

 

Conclusão

A Inglaterra não manifestou arrependimento nem mostrou sinal de conversão. Ao contrário, ainda durante muitos anos continuou a perseguir os católicos, tanto irlandeses quanto ingleses.

Os acontecimentos do século XVII na Irlanda e seus inumeráveis mártires, dos quais só apresentamos aqui algumas figuras, são um exemplo e um encorajamento em nosso próprio combate pela proteção da fé. A perseverança dos irlandeses e os numerosos milagres que acompanharam as perseguições sofridas ajudam-nos a permanecer firmes na certeza de que Deus jamais abandona aqueles que continuam fiéis a Ele. 

(tradução: Permanência - com autorização do autor)

  1. 1. [N. da T.] O norte da ilha é hoje a Irlanda do Norte, país integrante do Reino Unido, e é protestante, ao contrário da República da Irlanda, que compreende todo o resto da ilha, é independente e católica.
  2. 2. ROTHE, David. Analecta Nova et Mira de Rebus Catholicorum in Hibernia pro fide et religione gesti, Colônia, 1616-1619, p. 456 e Historiae Catholicae Iberniae, pág. 298. Disponível em www.archive.org .
  3. 3. Catholic World, vol. VIII, 1869, pág. 849.
  4. 4. Ibid.
  5. 5. Dominicus de Rosario O’ DALY, A History of the Geraldines, 1655, vol. II, pág. 350.
  6. 6. Pe. Francis Patrick MORAN, Historical sketch of the persecutions suffered by the Catholics of Ireland under the rule of Cromwell and the Puritans, 1862, pág. 3.
  7. 7. H. DE CHAVANNES DE LA GIRAUDIÈRE et HUILLARD, L’Irlande, son origine, son histoire et sa situation présente, 1867, Bréholles, pág. 148. Um livro francês, em geral considerado bom, mas que carece de um julgamento acertado sobre as revoluções irlandesas do final do século XVIII (ancestrais do moderno I.R.A e do Sinn Fein), que receberam auxílio do Diretório da França e exibiam em suas bandeiras a divisa “Liberty or Death” (Liberdade ou Morte, emprestada da França).
  8. 8. MS. Status Rei Cath. in Hibernia hoc anno 1654, no Colégio Irlandês de Roma.
  9. 9. Historical sketch…, pág. 120.
  10. 10. MURPHY S.J., Our Martyrs, 2010, pág. 338.
  11. 11. Duffy’s Hibernian Magazine, volume V, Jan-Jun 1864, pág. 259, disponível em Google books.
  12. 12. Historical Sketch…, pág. 52.
  13. 13. ABELLY, Vie de saint Vincent, pág. 212.
  14. 14. Ibid, págs. 218-219.
  15. 15. História da FSSPX pelo Pe. Ramon ANGLES (www.sspx.org/sspx_faqs/a_short_history_of_the_sspx-part-3.html).
  16. 16. Our Martyrs, pág. 345.
  17. 17. Our Martyrs, pág. 346

Os mártires irlandeses do século XVI

Matthew Bruton

O martírio dos católicos irlandeses estende-se por um período de mais de 150 anos. Neste modesto estudo, trataremos dos martírios do século XVI. Nesse lapso de tempo, mais de 300 irlandeses deram a vida em nome da fé. O governo de Londres derramou indiscriminadamente o sangue dos mártires, dentre os quais se contam oito bispos e arcebispos, incluídos os dois bispos da principal sé episcopal da Irlanda. Os métodos de tortura eram crudelíssimos, como bem veremos. Porém, examinamos antes de tudo o contexto político e religioso.

Em 1533, Henrique VIII da Inglaterra se casou em segredo, como se sabe, com Ana Bolena, tanto assim que, naquela ocasião, ele foi intimado a comparecer diante do Tribunal Romano para que respondesse à queixa da rainha Catarina. Catorze meses depois, o papa Clemente VII declarava a validade do casamento dele com a rainha Catarina e pronunciava sentença que o excomungaria, caso não obedecesse ao decreto. O rei já se decidira a rejeitar a autoridade papal, tomando neste sentido a iniciativa de aprovar várias leis no parlamento. A Irlanda, então, era alvo das reivindicações da coroa inglesa, apesar de esta na verdade controlar apenas a região limítrofe da capital, Dublin.

Na segunda metade do século XVI, aconteceram numerosas revoltas, dentre as quais algumas foram de tal vulto que chamaram a atenção e o apoio dos papas da época: a revolta da família Geraldine em 1546, a de Shaun O’Neill em 1561, a do Deão de Desmond em 1579 e enfim, a mais bem-sucedida de todas, a de Hugh O’Neill no começo de 1595.

Após Henrique três soberanos governaram a Inglaterra; foram eles Eduardo VI (1547-1553), Maria Tudor, filha de Henrique VIII (1553-1558), e Elizabeth Iª (1558-1603). Eduardo e Maria continuaram ambos a política de Henrique VIII, que era atacar a religião católica. Maria reconduziu o país à religião verdadeira, mas por pouco tempo1.

A primeira ação legal que Henrique VIII tentou empreender, a fim de implantar a nova religião na Irlanda, ocorreu em 1º de maio de 1537, quando o parlamento da Irlanda, sediado em Dublin, aprovou uma lei que incluía o seguinte parágrafo:

§ 5. O rei, seus herdeiros ou sucessores, reis de Inglaterra e senhores de Irlanda, serão admitidos e reconhecidos nesta terra como os únicos chefes supremos de toda a Igreja da Irlanda.

Na sessão seguinte, proclamou-se:

§ 1. Qualquer pessoa que por escrito, pregação, ensino ou ato semelhante, sustentar a autoridade e a jurisdição dos bispos de Roma ou de seus mandatários, incorrerá para cada delito na pena de praemunire.

§ 4. Os titulares de ofícios, laicos ou eclesiásticos, a partir de agora renegarão com juramento o bispo de Roma e sua jurisdição, e reconhecerão o rei como o único chefe supremo da Igreja de Inglaterra e de Irlanda.

§ 6. Qualquer pessoa, requisitada a prestar o sobredito juramento e recusando-se obstinadamente a fazê-lo, será punida de morte, além de sofrer as demais penas previstas em caso de alta traição.

O nosso primeiro mártir foi um padre chamado John Travers, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, doutor em teologia, que escrevera em anonimato um tratado célebre, cujo título era: Da Autoridade do Romano Pontífice, em que provava claramente que a primazia de Henrique VIII era pura ficção. Os delegados do rei o prenderam e custodiaram na torre de Londres durante quatro meses. Submetido à tortura, mas sempre intransigente, foi declarado culpado de alta traição. Em 20 de julho de 1535, com as mãos amarradas para trás e a corda ao pescoço, conduziram-no até o lugar da execução, que ficava sobre uma grade. Quando alcançou o alto da escada que o levava até ao patíbulo, ele exortou à assistência, de todo o coração, a fim de que rezasse com ardor a Deus – refúgio dos pecadores – para a conversão e salvação do Rei e de todos os heréticos que o seguiam.

Em seguida, bradou:

Não foi por um crime, caros cristãos, que me tiraram da Irlanda, a minha terra natal, mas sim porque professei a fé católica, com que me alimentei no seio maternal, a exemplo dos meus avós. Está próxima a hora da minha morte, que certamente me abrirá as portas da vida eterna. Declaro que sou padre da Igreja Católica e Apostólica, e foi com estes três dedos (mostrou três dedos da mão direita) que escrevi a obra sobre a autoridade do Romano Pontífice.

Após o pronunciamento, ao comando do oficial, ele foi enforcado, depois baixado ao solo, para que morresse esquartejado. Aconteceu então algo extraordinário: os verdugos arremessaram a mão direita e as entranhas dele ao fogo e, enquanto as outras partes se reduziam a cinzas, viram que os três dedos que mostrara sobre o cadafalso permaneciam na mesma posição em meio às chamas, e assim os encontraram inteiros e ilesos, como se nunca tivessem sido queimados. Eles ficaram intactos durante muito tempo após a morte do padre2.

Os próximos a sofrer o martírio foram os Trinitários de Adare, em Limerick, no sudoeste do país. Era Irmão Roberto o superior do convento. Quando se publicaram os decretos reais, ele os lera e, após reunir a comunidade que então contava com quarenta e dois membros, declarara que o rei era herege e cumpria não aquiescer com o crime. Causou ele uma tal impressão nos ouvintes que todos declararam que estavam prontos a perder a vida na defesa da fé católica. Ao saberem que o convento estava prestes a ser saqueado, eles distribuíram os bens aos pobres e esconderam os vasos sagrados e os ornamentos do altar. 

Quando os hereges chegaram, ofereceram altos cargos e benefícios ao Irmão Roberto, que os recusou, proclamando a sua devoção à fé católica. Nenhuma agressão, disse ele, afastá-los-ia, ele e a comunidade, dos princípios da verdade. Eles reconheciam tão-somente o Vigário de Cristo como Cabeça da Igreja; e no que respeitava ao Rei da Inglaterra, não o consideravam sequer membro da Santíssima Igreja, mas Chefe da Sinagoga de Satanás.

Assim que terminou o discurso, um oficial herético puxou a espada e de um só golpe separou a cabeça e o corpo do santo homem. Os outros membros da comunidade foram presos, alguns morreram em decorrência dos ferimentos, ao passo que outros foram assassinados ou enforcados em segredo3.

Enquanto isso, acontecia uma reunião dos diretores da ordem na casa principal dos Trinitários em Dublin, com a finalidade de discutir as medidas a serem tomadas ante o iminente perigo. Eles declararam que o rei era um manifesto herege e, depositando as esperanças na Santíssima Trindade, resolveram-se a dar a vida em prol da verdade. Mal terminara a conferência quando chegaram as notícias do que acabava de ocorrer em Adare. Irmão Teobaldo, o antigo Provincial, exclamara: “A Santíssima Trindade abençoou a nossa ordem com um bom começo, assegurando-nos assim que a graça há-de acompanhar-nos até o fim”.

Pouco tempo depois, os delegados reais chegaram a Dublin. O Provincial e o Irmão Teobaldo dirigiram-se ao povo; este último foi de imediato abatido, porque o consideravam artífice da resistência. Capturaram o Provincial e arrastaram-no pelas ruas; ele repetia aos berros a sua lealdade à fé católica. Os juízes advertiram os algozes para que cumprissem o dever e, por isso, com uma machadada puseram termo à vida do Provincial. Abriram-lhe as costelas e arrancaram-lhe o coração; já o corpo, arremessaram-no sobre um monte de estrume. Mas quando caiu a noite, os católicos vieram e resgataram os membros espalhados, a fim de enterrá-los. Os outros religiosos do convento conheceram destino semelhante. O triunfo desses gloriosos mártires aconteceu nos dias 25 e 26 de fevereiro de 1539.

Entre os demais soldados da fé mortos sob a tirania de Henrique VIII, há-de incluir-se os dezesseis franciscanos do condado de Monaghan, ao norte, e os cinqüenta cistercienses de Dublin – porém vejamos com mais detalhes o martírio do bispo de Limerick, Cornelius O’Neill. Era ele de ascendência nobre e de humildade e caridade notáveis. Exercera diferentes funções, dentre as quais a de Provincial da Ordem Trinitária. Quando o rei o consultou sobre o divorciar-se de sua legítima esposa, Cornelius ficou do lado da rainha. O rei irritou-se muitíssimo e prometeu vingança.

Ao tomar conhecimento das ameaças, o bispo convocou a comunidade trinitária e a ela falou nestes termos: “Um mau começo destes não chegará a bom fim. O rei e o reino estão perdidos. A Igreja Católica está em perigo iminente e a heresia há-de ganhar terreno entre nós, a não ser que o poder de Deus nos proteja.” Aconselhara à comunidade a venda do monastério e a distribuição do preço da venda aos pobres; aconselhara também às demais ordens religiosas e ao clero secular sob a sua jurisdição a venda dos bens. Quando soube do assassinato dos religiosos de Adare, convocou toda a fraternidade e, entoando solenemente o Te Deum, implorou com ardor à Santíssima Trindade para que lhes desse a coragem e força de imitar os irmãos que lhes precederam no martírio.

Próximo à festa de São João, o bispo Cornelius pregou na catedral ante uma grande audiência. Ele fez uma exposição acerca das provas da fé católica e da legitimidade da autoridade do papa; declarou que as ordens do rei eram heréticas e que ele, seus conselheiros e quem o obedecesse estavam anatematizados. Os representantes do rei hesitaram em agredirem-no dentro da igreja, porém mais tarde, durante a noite, dirigiram-se até a casa do bispo. Eles foram recebidos e disseram que o bispo devia obediência ao rei sob pena de morte imediata. Lançando-se ao solo e elevando os olhos ao céu, exclamou Cornelius: “Senhor, hoje Vos ofereci o sacrifício incruento do Corpo de Jesus Cristo, meu Senhor. Acolhei agora o sacrifício da minha vida, em honra e glória de Vosso Nome.” E fitando uma imagem da Santíssima Virgem, orou: “Sancta Trinitas, unus Deus, miserere nobis”. Após o quê, o algoz, com um só golpe de espada, separou-lhe a cabeça e o corpo4. Em seguida, os representantes do rei capturaram os religiosos que estavam na casa e os mataram. No dia seguinte, os quarenta e seis religiosos restantes, que recusaram prestar juramento, também foram assassinados. Mais seis conventos da ordem, a exemplo dos já mencionados, demonstram idêntica fortaleza moral.

Saltemos alguns anos até o momento em que Elizabeth chega ao poder. Esse episódio funesto aconteceu em 17 de novembro de 1558. Ela envia o conde de Sussex como deputado à Irlanda, ordenando-lhe “regulamentar o culto a Deus, segundo o modelo do culto da Inglaterra, e editar as prescrições mais recentes.” Em 1560, indiferente às leis de Felipe e Maria, o parlamento irlandês declarou o que segue:

§ 8. Todos os arcebispos, bispos e demais ministros eclesiásticos e juízes temporais, bem como oficiais e pessoas que recebam estipêndio de sua Alteza neste reino, prestarão juramento e declararão que sua Majestade, seus herdeiros e sucessores, são os únicos governantes supremos do reino, em assuntos espirituais e temporais.

§ 12. Qualquer pessoa que por escrito, impresso, ensino, pregação, declaração, ato, com conhecimento de causa e premeditação, sustentar de moto próprio a autoridade e a jurisdição de qualquer príncipe estrangeiro, prelado, etc., e seus auxiliares, será, na primeira infração, despojado de todas as posses e bens, e, se as posses e bens não alcançarem o montante de 20£, será aprisionado por um ano sem possibilidade de liberdade sob fiança e perderá todas as benesses e dignidades; na segunda infração, incorrerá na pena de praemunire; na terceira infração, será punido de morte como em caso de alta traição.

O primeiro mártir do governo de Elizabeth foi, em 1569, um franciscano chamado Daniel O’Dullian, do convento de Youghal, ao sul5. Sob as ordens do senhor deputado, o capitão Dudal e suas tropas o levaram à Porta da Trindade, amarram-lhe as mãos às costas e, ligando aos seus pés grandes pedras, ergueram-no por cordas três vezes, do solo até ao alto da torre, e o deixaram lá certo tempo. Após padecer vários golpes e torturas, penduraram-no de ponta cabeça a um moinho próximo ao mosteiro. Assim pendurado não murmurou, antes repetia as orações como bom cristão, quer em voz alta, quer em voz baixa. Enfim, os soldados receberam ordens de usarem-no como alvo; para que os sofrimentos fossem mais longos e cruéis, os artilheiros não deveriam atingir a cabeça ou o coração mas, quanto lhes aprouvesse, qualquer outra parte o corpo. Depois que muitas balas já o haviam atingido, alguém, num ato de cruel piedade, carregou a espingarda com duas balas e a descarregou no coração do mártir. Ele morreu em 22 de abril.

Dermot O’Mulrony e dois irmãos da mesma ordem foram os próximos a sofrerem o martírio, em 1570, no condado de Tipperary6. Em 21 de março soldados ingleses sitiaram o convento, de tal modo que ninguém conseguiria escapar. Os três subiram ao campanário da igreja e suspenderam a escada. Os soldados atearam fogo, a fim de incendiar a torre da igreja; foi então que o santo homem, baixando a escada, desceu voluntariamente para salvar a igreja; ao apoiar o pé no primeiro degrau, benzeu-se e entoou o salmo Miserere. Os soldados, que não se comoveram com a cena, socaram-no e machuram-no até que finalmente lhe golperam a cabeça. Viu-se então uma coisa extraordinária: quando lhe cortaram a cabeça, não escorreu do corpo sequer uma gota de sangue. Ao presenciarem o fato, os soldados esquartejaram o corpo, mas o sangue mesmo assim não escorrera.

Antes de contar os padecimentos de um dos mais eminentes mártires irlandeses, o arcebispo Dermot O’Hurley, de Cashel, em 1584, mencionemos de passagem alguns dos mártires mais notáveis desse intervalo de quinze anos. O primeiro é o arcebispo de Cashel, Maurice Gibon. Ele morreu na prisão em Cork, em 6 de maio de 1578, após recusar-se de prestar juramento. Outro mártir é Hugh Lacy, bispo de Limerick. Henrique VIII foi o primeiro a prendê-lo, e depois Elizabeth, quando o bispo contava 60 anos, porque recusava-se a prestar juramento. Ele morreu em decorrência dos maus tratos, em 26 de março. Nesse mesmo ano, soldados ingleses mataram dois franciscanos no interior do mosteiro, que se situava no condado de Mayo; eram eles os irmãos Phelim O’Hara e Henry Delahyde; o primeiro mataram diante do altar-mor do mosteiro, após o haverem despido.

Nesse mesmo ano, muitos foram os bispos martirizados. Edmund Tanner, bispo de Cork, foi o primeiro, morrendo na prisão de Dublin, após padecer cruéis torturas. O segundo foi Patrick O’Hely, bispo de Mayo. Alguns minutos antes da morte, profetizou o falecimento do chefe do condado, que era um impiedoso perseguidor dos católicos. Três dias depois, uma doença acometeu o homem que, às portas da morte, declarou que a doença era um castigo de Deus, porque matara o bispo. O semblante do bispo e dos mártires conservava uma expressão de calma e contentamento, durante os catorze dias em que os corpos ficaram dependurados. De mais a mais, exalava dos corpos um perfume de odor agradável7.

Agora examinaremos a vida e o martírio do arcebispo de Cashel, Dermot O’Hurley8. Nascido em Limerick, onde o pai ganhava o pão como criador de gado, ele estudara teologia e direito canônico em Lovaina, onde obteve o doutorado nessas duas matérias. Quando o nomearam arcebispo de Cashel em 1581, empreendeu uma viagem até à Irlanda.

Ele aportou ao norte de Dublin e dirigiu-se a Slane, ao célebre condado de Meath. Ali residiu em segredo na casa do proprietário do lugar, cujo nome de família era Flaming. Ele não queria que o vissem em público, nem à mesa, nem em conversas com ninguém, porém aos poucos começara a participar das refeições e a falar com os membros da família. Aconteceu de um dia um dos membros do Conselho Privado (que reunia os conselheiros da rainha Elizabeth), chamado Robert Dillon, foi jantar com a família. Quando estavam sentados à mesa, a conversa tomou um rumo que deu azo a uma interessante discussão; durante o colóquio, algumas palavras do bispo revelaram erudição. Imediatamente Robert Dillon começou a desconfiar de que se tratava de um sacerdote católico disfarçado e contou o fato ao tesoureiro do condado. A família deu-se conta do ocorrido e recomendou ao arcebispo a fuga. Porém, mais tarde, os ingleses ameaçaram Flaming e o obrigaram a atrair o bispo. Assim, Flaming persuadiu o prelado a retornar a Dublin, para que pudesse provar a inocência. Lá então o interrogaram, mas como os ingleses não conseguissem provar nada contra ele, após diversos processos, em primeiro lugar trataram de torturá-lo, para enfim executá-lo.

Os carrascos imaginaram para ele uma crudelíssima forma de tortura. Puseram-lhe os pés e as penas em botas repletas de azeite, prenderam-lhe os pés no pelourinho e atiçaram fogo embaixo. O azeite, aquecido nas chamas, infiltrara-se na planta dos pés e nas pernas, excruciando-os de modo que pedaços de pele despegaram-se das carnes e porções de carne, dos ossos expostos. O calor das labaredas devorou o corpo do bispo, que não obstante exsudava suor frio. Muitas foram as vezes que gritava: “Jesus, Filho de Davi, tende piedade de mim”.

Certa tortura chegou a tal ponto que ao fim o bispo ficara imóvel. O torturador, com medo de o haver matado – o que seria exceder as ordens recebidas – buscou um médico para reanimá-lo. Depois de duas semanas, o bispo melhorou um pouco, após o que os ingleses intentaram diversos meios de convencê-lo a abandonar a fé; propuseram-lhe altos cargos, e até mesmo a sua irmã levaram para que o persuadisse a deixar a luta, mas não conseguiram nada. Como um novo governador estivesse prestes a assumir o cargo, o titular decidira que era melhor encerrar o assunto, procedendo à execução. Em 29 de junho de 1584, ele foi enforcado. Conta-se que muitos milagres aconteceram sobre a sua sepultura. 

As leis então vigentes ainda não eram satisfatórias aos olhos dos protestantes, por isso um édito do governo inglês declarou o seguinte:

A partir de agora, se um padre for descoberto, será ipso facto culpado de alta traição; por isso, seja ele em primeiro lugar enforcado, e então, depois de o baixarem ainda vivo ao solo, decapitado, estripado e queimado; seja a sua cabeça pendurada num poste e exposta em lugar público e freqüentado. Se alguém receber ou sustentar um padre, sejam os seus bens confiscados e a pessoa enforcada sem piedade.

Já no ano seguinte, sobreveio o martírio de Richard Creagh9, arcebispo da principal sé episcopal da Irlanda, Armagh. Oriundo de Limerick, ele se estabeleceu primeiro como comerciante mas pouco tempo depois se decidiu a abraçar o sacerdócio. Estudou em Lovaina e mais tarde retornou a sua terra natal para administrar os seus concidadãos. Deixou-os após algum tempo e foi morar em Roma, onde conheceu o Papa Pio V, que o nomeou arcebispo. Por duas vezes meteram-no em prisão, e por duas vezes conseguiu escapar.

A terceira vez foi a última. Conduzido a Londres, levantaram falsas acusações contra ele, inclusive um bispo apóstata. A reclusão foi longa e no mais das vezes dura. Apesar disso, aproveitou o tempo para ajudar os outros sacerdotes aprisionados, aconselhando-os à prática da virtude e instruindo-os em temas sagrados. Certa vez o diretor da prisão tentou persuadi-lo a escutar o sermão de um herege, e como recusasse, arrastaram-no à força. Mas assim que o pregador começou a atacar a fé católica, o arcebispo Creagh interrompeu-o para contraditá-lo. Depois de numerosas e vivazes trocas de palavras, finalmente reconduziram o arcebispo de volta à cela.

Os seus raptores chegaram à conclusão de que não poderiam convencê-lo a abjurar a fé, a despeito de todas as tentativas. Dessa forma, certo dia envenenaram um pedaço de queijo, que lhe deram a comer. Sem nenhum temor, ele o comeu de boa vontade mas logo notou o que lhe prepararam. Logrou chamar a tempo um padre na cela vizinha, fez a derradeira confissão e entregou o espírito em 14 de outubro.

Falta ainda mencionar o Padre Walter Fernan, que morreu em 12 de março de 1597. Levado pelos hereges a Dublin, foi preso e forçado a ficar de pé durante quarenta horas sem dormir. Então o flagelaram, esfregaram sal e vinagre nas feridas, e depois lhe perguntaram se queria prestar o juramento de supremacia. Respondeu o padre com firmeza que preferia morrer a prestar um juramento que mencionasse uma mulher na qualidade de chefe da Igreja, porquanto São Paulo dissesse que a mulher deveria permanecer em silêncio na igreja. Enquanto o estripavam, exclamava Pe. Fernan: “Senhor, eu encomendo a minha alma às Vossas mãos” e entregou o espírito a Deus.

 

Conclusão

Que é possível concluir deste pequeno estudo dos mártires irlandeses do séc. XVI? Antes de tudo, que os ingleses eram agressivos: eles não conheceram limites nem medidas, ante um povo que era católico, na tentativa de lhes extirpar a antiga religião. Eram permitidos todos os métodos de tortura e ataques contra igrejas. Nem a hierarquia da Igreja se respeitou, vide os bispos assassinados. Em segundo lugar, que todas as regiões do país, de norte a sul e de leste a oeste, foram atingidas. Enfim, que foi total o ataque contra a fé e a população da Irlanda. E a situação não melhorou com o passar dos anos. Apesar de tudo, o povo irlandês permaneceu católico e, tal qual aconteceu em outros países, a perseguição não extinguira a chama da fé mas ao contrário a alimentou.

 

Para quem queira aprofundar-se:

MURPHY S.J., Our Martyrs, Sealy, Bryers & Walker, 2010.

Myles O’REILLY B.A, Memorials of those who suffered for the catholic faith in Ireland in the 16th, 17th and 18th centuries, Burns, Oates & Co., 1868. 

 

Com a aprovação do autor - Tradução: Permanência

  1. 1. Para uma história geral da Irlanda consultar HAVERTY, Martin, The History of Ireland, Ancient and Modern, Dublin, 1860 e D’ALTON, Rev E. A., History of Ireland from the Earliest Times to the Present Day, 1907.
  2. 2. BRIDGEWATER John, Historia Ecclesiae Catholicae in Anglia adversus Calvino-papistas et Puritanos sub Elizabetha Regina 1583-1594
  3. 3. Vide MORAN, Cardinal Francis Patrick, History of the Catholic Archbishops of Dublin since the Reformation, Dublin, 1864, p. 23
  4. 4. MORAN, Cardinal Francis Patrick, Ibid, p 26
  5. 5. Vide MORAN, Cardinal Francis Patrick, Specilegium Ossoriense, Vol III, p. 41
  6. 6. BRUODIN, Rev. Pe. Anthony O.S.F., Propugnaculum Catholicae Veritas, Catalogus Martyrum Hibernorum pro defensione Catholicae fidei occisorum regnantibus Henrico VIII, Eduardo VI, Elizabetha, et Jacobo, Libraria Franciscana, Merchants Quaym Dublin, 1669, p. 454.
  7. 7. Bruodin, Rev. Pe. Anthony O.S.F., Ibid, p. 432.
  8. 8. Vide Rothe, David, Bispo de Ossory, Analecta Nova et Mira de Rebus Catholicorum in Hibernia pro fide et religione gestis., Colônia, 1616-1619, p. 423.
  9. 9. Roathe, David, Ibid, p. 465.

A Cristiada e os mártires do México

A Cristiada (1926-29)

Está fora de dúvida que o século XX foi o mais acentuadamente martirizante de toda a história da Igreja. E nisto convém recordar que o testemunho impressionante dos mártires do México foi o modelo imediato para todos os católicos que mais tarde teriam de verter seu sangue por Cristo. Primeiramente, logo após, para os mártires espanhóis, tão numerosos. Antonio Montero, em La historia de la persecución religiosa en España (BAC 204, 1982, pp. XIII-XIV), diz que “em toda a história da Igreja universal não há um único precedente, nem sequer nas perseguições romanas, do sacrifício sangrento, em pouco mais de um semestre, de doze bispos, quatro mil sacerdotes e mais de dois mil religiosos”.

Mas alguns anos antes (1926-1929), também os mártires mexicanos foram modelo para tantas outras centenas de milhares, milhões de cristãos esmagados em nosso século pela Revolução em qualquer de suas formas, liberal ou nazista, socialista ou comunista. Muito nos interessa, pois, conhecer a perseguição religiosa no México, e entender bem a resposta daqueles católicos admiráveis, que com seu sangue seguiram escrevendo os Atos dos Apóstolos na América.

Encontramos informação sobre a Cristiada em obras como a de Aquiles P. Moctezuma, El conflicto religioso de 1926; sus orígenes, su desarrollo, su solución; Antonio Ríus Facius, Méjico cristero; historia de la Asociación Católica de la Juventud Mejicana, 1925-1931; Miguel Palomar y Vizcarra, El caso ejemplar mexicano. Possuímos relatos impressionantes dos mesmos cristeros, como o de Luis Rivero del Val, Entre las patas de los caballos, que vem a ser o diário do estudante cristero Manuel Bonilla, ou o do camponês Ezequiel Mendoza Barragán, Testimonio cristero; memorias del autor, cada qual mais admirável. E dispomos também de excelentes estudos modernos, como o de Jean Meyer, La cristiada, I-III, e Lauro López Beltrán, La persecución religiosa en México.

Será conveniente, em todo o caso, que comecemos nossa crônica pelo princípio: a perseguição liberal que ocasionou a Cristiada no século XX não era senão a continuação da que já se iniciara longamente no século XIX.

As perseguições religiosas do México no século XIX

Em 1810, com o grito do padre Miguel Hidalgo: “¡Viva Fernando VII y muera el mal gobierno!”, se inicia o processo que culminaria na independência do México. Ainda em 1821, o Plan de Iguala decide a independência completa do México como monarquia constitucional que, ao ser oferecida sem êxito a Fernando VII, fica sob a designação das Cortes Mexicanas. Pelo breve governo do imperador Agustín de Itúrbide (1821-24), rechaçado pela maçonaria e fuzilado em Padilla, proclamou-se a República (1824), que caminha vacilante até meados do século, e que perde, para os Estados Unidos, metade do território mexicano (1848).

Logo após a independência, já em 1855, desencadeia-se a revolução liberal com toda a sua virulência anticristã, quando obtém o poder Benito Juárez (1855-72), índio zapoteca de Oaxaca que aos 11 anos, com a ajuda do terciário carmelita Salanueva, aprende castelhano, a ler e escrever, o que lhe permite ingressar no Seminário. Advogado mais tarde e político, impõe, obrigado pela loja norte-americana de Nova Orleães, a Constituição de 1857, de orientação liberal, e as Leis de Reforma de 1859, ambas abertamente hostis à Igreja.

Por elas, contra todo o direito natural, estabelecia-se a nacionalização dos bens eclesiásticos, a supressão das ordens religiosas, a secularização de cemitérios, hospitais e centros beneficentes etc. Seu governo também deu apoio a uma Igreja mexicana, precária tentativa de criar, em torno de um pobre padre, uma Igreja cismática.

Todos estes atropelos provocaram um levantamento popular católico, semelhante, como assinala Jean Dumont, ao que iria produzir-se em nosso século. Com efeito, “a Cristiada [1926-1931] teve um precedente muito parecido nos anos 1858-1861. Também então a cristandade mexicana sustentou uma luta de três anos contra os Sem-Deus da época, aqueles laicistas da Reforma, também jacobinos, que haviam imposto a liberdade para todos os cultos, exceto o culto católico, submetido ao controle restritivo do Estado, à venda dos bens da Igreja, à proibição dos votos religiosos, à supressão da Companhia de Jesus e, portanto, de seus colégios, ao juramento de todos os funcionários do Estado em favor destas medidas, à deportação e ao encarceramento dos bispos ou sacerdotes que protestassem. Pio IX condenou estas medidas, assim como Pio XI expressou sua admiração pelos cristeros”. 

Naquela guerra civil, em que houve “deportação e condenação à morte de sacerdotes, deportação e encarceramento de bispos e de outros religiosos, repressão sangrenta das manifestações de protesto, particularmente numerosas nos estados de Jalisco, Michoacán, Puebla, Tlaxcala” (Hora de Dios en el Nuevo Mundo 246), o governo liberal prevaleceu graças à ajuda dos Estados Unidos.

A Reforma liberal de Juárez não se caracterizou somente pelo seu sectarismo anti-religioso, mas também porque, junto à desamortização dos bens da Igreja, eliminou as propriedades comunais dos indígenas. Estas medidas não evitaram ao Estado um grave colapso financeiro, mas enriqueceram a classe privilegiada, aumentando o latifúndio. Com tudo isso, segundo o historiador mexicano Vasconcelos, também filósofo e político, “Juárez e sua Reforma estão condenados por nossa história”, e ele passou, como outros “à categoria de agentes do Imperialismo anglo-saxão” (Breve hª 11). 

Sobre este último ponto, bastaria recordar as incríveis ofertas, vergonhosas, do governo de Juárez aos Estados Unidos nos tratados Mac Lane-Ocampo e Corwin-Doblado, ou nos convênios com os norte-americanos geridos pelo agente juarista José María Carvajal...

O período de Juárez viu-se interrompido por um breve período em que, por imposição de Napoleão III, ocupou o poder Maximiliano da Áustria (1864-67), fuzilado em Querétaro pouco mais tarde. Também nestes anos a Igreja foi sujeita a leis vexatórias, e os maçons “ofereceram ao Imperador a presidência do Supremo Conselho das Lojas, que ele declinou, aceitando porém o título de protetor da Ordem, e nomeando  como representantes seus dois indivíduos que, imediatamente, receberam o grau 33” (Acevedo, Hª de México 292).

A Juárez o sucedeu no poder Sebastián Lerdo de Tejada (1872-76). Este, que estudara no Seminário de Puebla, acentuou a perseguição religiosa, chegando a expulsar até “as Irmãs da Caridade — a quem o mesmo Juárez respeitara — apesar de que, das 410 que existiam, 355 eram mexicanas que atendiam a cerca de 15 mil pessoas em seus hospitais, asilos e escolas. Em contrapartida, favoreceu-se oficialmente a difusão do protestantismo, com apoio norte-americano. No mesmo ano de 1873 se proibiu que existisse qualquer manifestação ou ato religioso fora dos templos” (Alvear Acevedo 310). Tudo isto provocou a guerra chamada dos Religioneros (1873-1876), um levantamento armado católico, anterior também aos dos cristeros (Meyer II,31-43).

A longa permanência de Juárez no poder ocasionou, entre os mesmos liberais, uma oposição cada vez mais forte. O general Porfírio Diaz — que era, como Juárez, de Oaxaca e antigo seminarista – defendendo como lei suprema a não-reeleição do Presidente da República (Plan de la Noria, 1871; Plan de Tuxtepec, 1876), desencadeou uma revolução que o levou ao governo do México durante quase 30 anos: foi reeleito oito vezes, em farsas eleitorais, entre 1877 e 1910.

Neste longo tempo exerceu uma ditadura de ordem e progresso, muito favorável aos investidores estrangeiros — petróleo, redes ferroviárias — sobretudo norte-americanos, e às camadas nacionais mais privilegiadas. Também em seu tempo incrementou o latifúndio, e se mantiveram injustiças sociais muito graves (Kenneth Turner, México bárbaro). Quanto ao mais, o liberalismo do Porfiriato foi mais tolerante com a Igreja. Ainda que deixasse vigentes as leis persecutórias da Reforma, normalmente não as aplicava; mas manteve em seu governo, especialmente na educação preparatória e universitária, o espírito laicista anti-religioso.

As perseguições de Carranza y Obregón (1916-20, 1920-24)

Os últimos anos do Porfiriato e os seguintes, em meio a contínuas ingerências dos Estados Unidos, registram numerosas conspirações e sublevações, movimentos indígenas de reivindicação agrária, e guerras marcadas por crueldades atrozes. A revolução liberal, que tão duramente perseguia os católicos, ia devorando também, um após o outro, seus próprios filhos: é o horror do “processo histórico do liberalismo capitalista, que durante o século XIX e metade do XX conseguiu apoderar-se das consciências de nossos povos e não apenas de suas riquezas” (Vasconcelos, Hª de México 10). Surgem neste período nomes como os do presidente Madero (+1913, assassinado), Emiliano Zapata (+1919, assassinado), presidente Carranza (+1920, assassinado), Pancho Villa (+1923, assassinado), ex-presidente Alvaro de Obregón (+1928, assassinado)...

A revolução do general Venustiano Carranza, que o levou à presidência (1916-20), caracterizou-se pela dureza de sua perseguição à Igreja. No caminho para o poder, suas tropas multiplicavam os incêndios de templos, roubos e violações, atropelamentos de sacerdotes e religiosas. Ainda hoje, no México, carrancear significa roubar, e um agressor é um carrancista.

E, já no poder, quando os chefes militares se tornavam governadores dos Estados liberados, ditavam contra a Igreja leis tirânicas e absurdas: que houvesse Missa somente aos domingos e com determinadas condições; que não se celebrassem Missas de defuntos; que não se conservasse água para os batismos nas pias batismais, e que se desse o batismo com a água que corre das bicas; que se administrasse o sacramento da penitência somente aos moribundos, e, “na ocasião, em voz alta e de frente para um empregado do Governo” (López Beltrán 35).

A orientação anticristã do Estado cristalizou-se finalmente na Constituição de 1917, realizada em Querétaro por um Congresso Constituinte formado unicamente por representantes carrancistas. Com efeito, naquela grotesca Constituição, o Estado liberal moderno, agravando as perseguições já iniciadas com Juárez nas Leis de Reforma, estabelecia a educação laica obrigatória (art. 3), proibia os votos e o estabelecimento de ordens religiosas (5), assim como todo ato de culto fora dos templos ou das casas particulares (24). E não apenas perpetuava o confisco de bens da Igreja, mas proibia a existência de colégios de inspiração religiosa, conventos, seminários, bispados e casas curiais (27). Todas estas e outras muitas barbaridades semelhantes se impunham no México sem que nenhum liberal ortodoxo do Ocidente pestanejasse.

O governo do general Obregón (1920-24), novo presidente, levou adiante o impulso perseguidor da Constituição mexicana: pôs-se uma bomba em frente ao arcebispado do México; içaram-se bandeiras da revolução bolchevique — o que havia de mais progressista naqueles anos — sobre as catedrais de México e de Morelia; um empregado da secretaria do Presidente fez explodir uma bomba ao pé do altar da Virgem de Guadalupe, cuja imagem ficou ilesa; foi expulso Monsenhor Philippi, Delegado Apostólico, por bendizer a primeira pedra posta no Cerro Del Cubilete para o monumento a Cristo Rei... 

A perseguição de Calles (1924-29)

Depois da presidência de Juárez (1855-72), o México foi governado quase sempre, como vimos, por generais: general Porfirio Díaz (1877-1910), general Huerta (13-14), general Carranza (16-20), general Obregón (20-24). E agora, de forma ainda mais brutal, vai ser governado pelo general Plutarco Elías Calles (1924-29).

Reformando o Código Penal, a Lei Calles, de 1926, expulsa os sacerdotes estrangeiros, penaliza com multas e prisões os que dêem ensino religioso ou estabeleçam escolas primárias, ou se vistam como clérigo ou religioso, ou se reúnam de novo tendo sido retirados do claustro, ou induzam à vida religiosa, ou realizem atos de culto fora dos templos... Repetindo a estupidez dos tempos de Juárez, também agora, a partir de uma Secretaria do governo callista, se faz a ridícula tentativa de criar uma Igreja cismática mexicana, desta vez em torno de um precário Patriarca Pérez, que finalmente morreu em comunhão com a Igreja.

Os governadores dos diversos Estados rivalizam em zelo persecutório, e então o de Tabasco, general Garrido Canabal, um déspota corporativista, ao estilo mussoliniano, e mulherengo, exige dos sacerdotes que se casem, se quiserem exercer seu ministério (Meyer I,356). Em Chiapas, uma Lei de Prevenção Social “contra loucos, degenerados, toxicômanos, ébrios e vagabundos” dispõe: “Poderão ser considerados pessoas de má vida e submetidos a medidas de segurança, tais como reclusão em sanatórios, prisões, trabalhos forçados etc., os mendigos profissionais, as prostitutas, os sacerdotes que exerçam sem autorização legal, as pessoas que celebrem atos religiosos ou ensinem dogmas religiosos às crianças, os homossexuais, os fabricantes e vendedores de fetiches e estampas religiosas, assim como os vendedores  de livros, folhetos ou qualquer impresso com que se pretenda inculcar preconceitos religiosos” (+ Rivero del Val 27).

Cessação do culto (31-7-1926)

Os bispos mexicanos, em uma enérgica Carta pastoral (25-7-1926), protestam, unânimes, manifestando sua decisão de trabalhar para que “esse Decreto e os Artigos anti-religiosos da Constituição sejam reformados. E não cessaremos até o ter conseguido”. O presidente Calles responde friamente: “Nós nos temos limitado a fazer cumprir as [leis] que existem, uma desde o tempo da reforma, há mais de meio século, e outra desde 1917... Naturalmente que meu Governo não pensa sequer em suavizar as reformas e acréscimos ao código penal”. Era esta a tolerância dos liberais ante o fanatismo dos católicos. Eles pediam aos católicos somente que obedecessem às leis.

Poucos dias depois, em 31 de julho, e sem prévia consulta à Santa Sé, o Episcopado ordena a suspensão do culto público em toda a República. Imediatamente, doze bispos, entre eles o Arcebispo do México, são tirados de suas sedes, e expulsos do país sem julgamento prévio.

É de supor que os callistas haviam acolhido a suspensão dos cultos religiosos com frieza, e até com uma certa satisfação. Eles não esperavam, como tampouco a maioria dos bispos, a reação do povo cristão, ao ficar privado da Eucaristia e dos sacramentos, ao ver os altares sem mantéis e os sacrários vazios, com a portinhola aberta...

cristero Cecilio Valtierra narra aquela experiência com a eloqüência ingênua do povo: “Fechou-se o templo, o sacrário ficou deserto, ficou vazio, já não está Deus ali, foi ser hóspede de quem gostaria de dar-lhe pousada, já temendo ser prejudicado pelo governo; já não se ouviu o badalar dos sinos que chamam o pecador à oração. Só nos restava um consolo: estava a porta do templo aberta, e os fiéis, de tarde, rezavam o Rosário e choravam suas culpas. O povo estava de luto, acabara-se a alegria, já não havia bem-estar nem tranqüilidade, o coração se sentia oprimido, e, para completar, o governo proibiu as reuniões nas ruas: até o comum, ou seja, uma pessoa ficar em pé diante de outra, era um delito grave”.

Levantamento dos cristeros (agosto 1926)

Já em meados de agosto, por ocasião do assassinato do padre de Chalchihuites e de três leigos católicos com ele, levanta-se o primeiro foco do movimento armado. E, em seguida em Jalisco, em Huejuquilla, onde, em 29 de agosto, o povo insurreto dá o grito de fidelidade: Viva Cristo Rei!... Entre agosto e dezembro de 1926, produziram-se 64 levantamentos armados, espontâneos, isolados, a maior parte em Jalisco, Guanajuato, Guerreiro, Michoacán e Zacatecas.

Aqueles a quem o Governo, por zombaria, chamava cristeros não tinham armas no início, a não ser um machete ou, na melhor das hipóteses, uma escopeta; depois as foram conseguindo dos soldados federais, os juanes callistas, nas guerrilhas e ataques de surpresa. Sempre foi problema para os cristeros o provimento de munições; na realidade, “não tinham outra fonte de munições senão o exército, do qual as tomavam ou compravam” (Meyer I, 210)...

Em Aranas, um povoado de Los Altos, segundo refere J. J. Hernández, afluíam de todas as propriedades rurais novos contingentes, “alguns armando-se até com roçadeiras, machados, e, nas propriedades onde sabiam haver armas, iam pedi-las... Da pena ver esta gente; uns, além de trazer armas ruins, traziam umas garras de huaraches [sandálias], os chapéus rasgados, rotos, as roupas todas remendadas, outros iam a pêlo no cavalo, alguns não traziam nem freio, enquanto outros seguiam simplesmente a pé” (+ Meyer I,133).

À frente do movimento, para dar-lhe unidade de plano e de ação, pôs-se a Liga Nacional Defensora de la Liberdad Religiosa, fundada em março de 1925 com o fim que seu nome expressa, e que havia se estendido, em pouco tempo, por toda a república.

O levantamento vem assim expresso na carta de um cristero, camponês como quase todos o eram, Francisco Campos, de Santigado Batacora, em Durango:

“No dia 31 de Julho de 1926, alguns homens fizeram com que Nosso Senhor se ausentasse de seus templos, de seus altares, dos lugares dos católicos, mas outros homens fizeram com que voltasse outra vez; estes homens não viram que o governo tinha muitos soldados, muito armamento e muito dinheiro para fazer-lhes a guerra; isto eles não viram, o que viram foi defender seu Deus, sua Religião, sua Mãe, que é a Santa Igreja, isto é o que eles viram. A estes homens não importou deixar suas casas, seus pais, seus filhos, suas esposas e tudo o que possuíam; foram aos campos de batalha procurar Deus Nosso Senhor. Os rios, as montanhas, os montes, as colinas são as testemunhas de que estes homens falaram a Deus Nosso Senhor com o Santo Nome de Viva Cristo Rei, Viva a Santíssima Virgem de Guadalupe, Viva o México. Os mesmos lugares são o testemunho de que aqueles homens regaram o solo com seu sangue e, não contentes com isto, deram até suas vidas para que Deus Nosso Senhor voltasse de novo. E, vendo Deus Nosso Senhor que aqueles homens realmente o procuravam, dignou-se vir outra vez a seus templos, a seus altares, aos lugares dos católicos como estamos vendo agora, e recomendou aos jovens de hoje que, se no futuro aparecer novamente o problema, não se esqueçam do exemplo que nos deixaram nossos antepassados” (Meyer I,93).

Aprovações eclesiásticas da luta armada

Mas, antes de fazer a crônica desta guerra de mártires, temos de nos deter a analisar com cuidado, pois a questão é muito grave, a atitude da hierarquia eclesiástica contemporânea com relação aos cristeros. Prestemos atenção às datas.

18 de outubro de 1926. Em Roma Pio XI recebe uma Comissão de Bispos mexicanos, que lhe informa da situação de perseguição e de resistência armada. Poucos dias depois, tendo-se dirigido ao Cardeal Gasparri a questão de se os prelados podiam dispor dos bens da Igreja para a defesa armada, responde que “ele, o secretário de Estado de Sua Santidade, se fosse Bispo mexicano, venderia suas alfaias para o caso” (Ríus 138).

18 de novembro de 1926. Um mês depois, o Papa publica a encíclica Iniquis afflictisque, em que denuncia as agressões sofridas pela Igreja no México:

”Já quase não resta liberdade alguma à Igreja [no México], e o exercício do ministério sagrado se vê de tal maneira impedido, que é castigado, como se fosse um delito capital, com penas severíssimas”. O Papa elogia com entusiasmo a Liga Nacional Defensora de la Libertad Religiosa, espalhada “por toda a República, na qual seus membros trabalham concorde e assiduamente com o fim de ordenar e instruir a todos os católicos, para opor aos adversários uma frente única e solidíssima”. E comove-se ante o heroísmo dos católicos mexicanos: “Alguns destes adolescentes, destes jovens — como conter as lágrimas ao pensá-lo — foram lançados à morte com o rosário na mão, ao grito de Viva Cristo Rei! Inenarrável espetáculo que se oferece ao mundo, aos anjos e aos homens”. 

30 de novembro de 1926. Os dirigentes da Liga Nacional, antes de assumir efetivamente a direção do movimento cristero, quiseram assegurar-se do apoio do Episcopado, e, para isto, dirigiram aos bispos um Memorial, em que solicitavam:

“1) Uma ação negativa, que consista em não condenar o movimento; 2) Uma ação positiva, que consista: a) em sustentar a unidade de ação, pela uniformidade de um mesmo plano e um mesmo comandante; b) em formar a consciência coletiva, por meios que estejam ao alcance do Episcopado, no sentido de que se trata de uma ação lícita, louvável, meritória e de legítima defesa armada; c) em habilitar canonicamente párocos residentes...; d) em organizar e patrocinar uma campanha, desenvolvida energicamente, entre os católicos ricos, para que forneçam fundos destinados à luta, e para que, pelo menos uma vez na vida, compreendam a obrigação que têm de contribuir”.

Em 30 de novembro os chefes da Liga são recebidos por Monsenhor Ruiz y Flores e por Monsenhor Díaz y Barreto. O primeiro comunica-lhe alegremente que, “como de costume, se saíram bem”; que, estudadas as propostas pelos bispos reunidos na Comissão, “os diversos pontos do Memorial tinha sido aprovados por unanimidade”, menos os dois últimos, o dos párocos residentes e o dos ricos, não convenientes ou irrealizáveis.

15 de janeiro de 1927. O Comitê Episcopal, respondendo a algumas declarações incriminadoras do Chefe do Estado-Maior callista, afirma que o Episcopado é alheio ao levantamento armado; mas declara ao mesmo tempo “que há circunstâncias na vida dos povos em que é lícito aos cidadãos defender pelas armas os direitos legítimos que em vão procuraram salvar por meios pacíficos”; e faz recordar a todos os meios pacíficos utilizados pelos bispos e pelo povo, e desprezados pelo Governo. “Foi assim que os prelados da hierarquia católica deram sua plena aprovação aos católicos mexicanos para exercer seu direito à defesa armada, que a Santa Sé prognosticou que ocorreria, como único caminho que lhes restava para não ter de sujeitar-se à tirania anti-religiosa” (Ríus 135).

16 de janeiro de 1927. Em começos de 1927, no entanto, chegam a Roma notícias da imprensa nas quais se comunica que Monsenhor Pascual Díaz y Barreto, jesuíta, bispo de Tabasco, que havia sido desterrado do México, em diversas declarações feitas no exílio se mostra reservado quanto aos cristeros: “Como bispo e como cidadão reprova Díaz a Revolução, qualquer que seja sua causa” (Lpz. Beltrán 108).

Imediatamente, em 16 de janeiro, a Comissão de bispos mexicanos envia uma dura carta a Monsenhor Díaz y Barreto, então residente em Nova Iorque, lamentando com profunda tristeza suas declarações públicas feitas “contra os generosos defensores da liberdade religiosa e algumas favoráveis ao perseguidor, Calles”.

Os combatentes “dão o sangue e a vida para cumprir um santo dever, o de conquistar a liberdade da Igreja”. Ante o abuso gravemente injusto do poder, “existe o direito de resistir e defender-se, já que, tendo sido vãos todos os meios pacíficos postos em prática, é justo e devido recorrer à resistência e à defesa armada”. Recordam-lhe também os bispos que este “é o sentir da maioria de nossos irmãos [bispos] do México”, e também o “dos Padres da Companhia, não somente no México, mas na Europa, e especialmente aqui em Roma”. A propósito lhe citam as declarações feitas alguns dias antes (3-2-1927) pelo famoso moralista da Gregoriana, padre Vermeersch, jesuíta: “Fazem muito mal aqueles que, crendo defender a doutrina cristã, desaprovam os movimentos armados dos católicos mexicanos. Para a defesa da moral cristã não é necessário valer-se de falsas doutrinas pacifistas. Os católicos mexicanos estão valendo-se de um direito e cumprindo um dever”. Pouco depois chega um cabograma com a resposta de Monsenhor Díaz y Barreto: “Autorizo honorável Comissão negar aquilo que se assegura dito por mim, contrário o determinado por todos nós, aprovado, Bendito Santa Sé. Autorizo honorável Comissão publicar este cabograma, se conveniente” (Lpz. Beltrán 109-110).

22 de fevereiro de 1927. Em Roma, o presidente da Comissão de Bispos mexicanos declara à imprensa: “Fazem bem ou mal os católicos recorrendo às armas? Até agora não havíamos querido falar, para não precipitar os acontecimentos. Mas, uma vez que Calles mesmo empurra os cidadãos à defesa armada, devemos dizer: os católicos do México, como todo ser humano, gozam em toda a sua amplitude o direito natural e inalienável de legítima defesa” (107).

Pio XI bendiz o grito: Viva Cristo Rei!

17 de maio de 1927. Anos antes dos acontecimentos de que nos ocupamos, em 1914, São Pio X, a pedido dos bispos mexicanos, tinha autorizado, como “um projeto que nos é indizivelmente agradável”, consagrar a Cristo Rei a República do México, e pôr a coroa real nas imagens do Sagrado Coração de Jesus, pondo também um cetro em sua mão, para assim significar sua realeza.

A consagração do México a Cristo Rei, coisa aparentemente impossível —semelhantemente à realizada por García Moreno no Equador em 1873 — pôde, todavia, realizar-se, aproveitando a vênia do general Victoriano Huerta, presidente (1913-1914), índio puro de Jalisco, que, por rara circunstância, era católico e não maçom, sendo, ao contrário, odiado e caluniado pelas lojas. Foi então, em 6 de fevereiro de 1914, durante o soleníssimo ato realizado na Catedral, em presença de todas as primeiras autoridades religiosas e civis da nação, que pela primeira vez no México o povo cristão alçou o grito de Viva Cristo Rei!

Pois bem, nos começos da Cristiada, com a data de 17 de maio de 1927, enviam-se aos bispos mexicanos algumas respostas e licenças chegadas de Roma. E no documento se lê: “Outro rescripto que recebemos concede aos que estão no México, indulgência plenária in articulo mortis, se confessados e comungados, ou pelo menos contritos, pronunciem com os lábios, ou ao menos com o coração, a jaculatória Viva Cristo Rei!, aceitando a morte como enviada pelo Senhor em castigo de nossas culpas”. Jean Meyer nega a existência deste insólito documento (II, 344-345), mas, posteriormente, López Beltrán reproduziu sua fotografia na obra já citada (73).

2 de outubro de 1927. O Cardeal Gasparri, secretário de Estado, em algumas declarações ao The New York Times (2-10-1927), conta os horrores da perseguição sofrida no México pela Igreja, e denuncia o silêncio das nações, ao “tolerar tão selvagem perseguição em pleno século XX”.

Reservas quanto ao movimento armado

À medida que passavam os meses, as reticências da Igreja para apoiar os cristeros cresciam, até em Roma. Recordemos que a doutrina tradicional da Igreja reconhece a licitude da rebelião armada contra as autoridades civis com certas condições: 1. causa muito grave; 2. esgotamento dos meios pacíficos; 3. que a violência empregada não produza maiores males que os que pretende remediar; 4. que exista probabilidade de êxito (+ Pio XI, Firmissimam constantiam 1937: Dz 3775-76).

Pois bem, a perseguição de Calles preenchia claramente as duas primeiras condições. Mas alguns bispos tinham dúvidas quanto a se a terceira se preenchia, pois já havia muito tempo que o povo estava sem sacramentos nem sacerdotes, e a guerra produzia mais e mais mortes e violências. E ainda eram mais numerosos os que criam muito improvável a vitória dos cristeros. Não faltaram até alguns poucos bispos que chegaram a ameaçar de excomunhão quem partisse com os cristeros ou os ajudasse.

Aprovaram a rebelião armada os bispos Manríquez y Zárate, González y Valencia, Lara y Torres, Mora y del Río, e estiveram muito próximos dos cristeros o bispo de Colima, Velasco, e o arcebispo de Guadalajara, Orozco y Jiménez, os quais, com grave risco, permaneceram ocultos em suas dioceses, assistindo seu povo.

Reprovaram-na em maior ou menor medida outros tantos, entre os quais Ruiz y Flores, e Pascual Díaz, que sempre viu a Cristiada como «um sacrifício estéril», condenado ao fracasso. E os demais permaneceram indecisos. Pois bem, sendo discutíveis as condições terceira e quarta, há que evitar todo o juízo histórico cruel, que reparta entre aqueles bispos os qualificativos de fiéis ou infiéis, valentes ou covardes. Em todo o caso, é evidente que a falta de apoio mais claro de seus bispos foi sempre para os cristeros o maior sofrimento...

18 de janeiro de 1928. Por fim, em meados de dezembro de 1927, o arcebispo Pietro Fumasoni Biondi, Delegado Apostólico nos Estados Unidos e encarregado de negócios da Delegação Apostólica no México, transmite a Monsenhor Díaz y Barreto, Secretário do Comitê Episcopal, a quem o mesmo Monsenhor Fumasoni havia nomeado Intermediário Oficial entre ele e os bispos mexicanos, a disposição do Papa segundo a qual “os bispos não apenas devem abster-se de apoiar a ação armada, mas também devem permanecer fora e acima de todo o partido político”. Norma que Monsenhor Díaz comunicou a todos os prelados (18-1-1928) (Meyer I,18; Lpz. Beltrán 111, 150-52)...

Lançaram-se ao campo, «para buscar a Deus»

Agosto de 1926. Muitos camponeses, da zona central do México sobretudo, lançam-se ao monte, como Francisco Campos, “para buscar a Deus Nosso Senhor”.

“Em Cocula (Jalisco), desde 1 de agosto a igreja estava guardada noite e dia por 100 mulheres no interior e 150 homens no átrio e no campanário. Os cinco bairros de Cocula se revezavam em turnos, e a cada alarme se dava um sinal. Então todos acudiam imediatamente, como conta Porfiria Morales. No dia 5 de agosto tocou o sino quando ela estava na cozinha; sua criada María exclamou: Ave Maria Puríssima! Tirou o avental, tomou seu manto e um pedaço de pau, e, quando ela lhe perguntou aonde ia, respondeu-lhe: ‘Que pergunta de minha senhora! Não ouve o sino que chama os católicos daUnião Popular? Em primeiro lugar as coisas de Deus!’ E saiu deixando as panelas no fogo”. (Meyer I,103).

Não se poderá apreciar suficientemente o valor das mulheres católicas mexicanas na Cristiada, distribuindo propaganda, levando avisos, acolhendo perseguidos ou cuidando de feridos, ajudando clandestinamente o provimento de alimentos e armas. As Brigadas Femininas de Santa Joana d’Arc, as Brigadas Bonitas, escreveram histórias de lenda... Mas, enfim, a guerra é coisa de homens, e a ela foram vigorosos camponeses. Ezequiel Mendoza Barragán, um fazendeiro de Coalcomán, em Michoacán, cuja voz patriarcal iremos escutar em outras ocasiões, assim o conta:

“Centenas de pessoas assinamos os papéis, e eles foram enviados a Calles e a seus sequazes, mas tudo foi inútil... Os Calles se julgaram muito poderosos e nos oprimiram ainda mais, matando gente e confiscando bens particulares dos católicos. Eu, ignorante, mas com brio, ao saber dos novos procedimentos de tal governo, me exaltei e me armei de disposição, estes eram meus sentimentos, fui conquistar gente armada e disposta à guerra em defesa da liberdade de Deus e dos próximos” (Testimonio 17).

O curso da guerra

Jean Meyer, no volume I de sua obra, descreve com detalhes as vicissitudes por que passou no correr dos anos a guerra da Cristiada, que ele divide nestas fases:

— incubação, de julho a dezembro de 1926;

— explosão do levantamento armado, a partir de janeiro de 1927;

— consolidação das posições, de julho 1927 a julho de 1928, ou seja, desde que o general Gorostieta assume a direção dos cristeros até a morte de Obregón.

— prolongamento do conflitode agosto 1928 a fevereiro de 1929, tempo em que o Governo começa a entender que não poderá vencer militarmente os cristeros;

— ápice do movimento cristero, de março a junho de 1929;

— dissolução dos cristeros, em junho de 1929, quando se produzem os mal chamados Acordos entre a Igreja e o Estado.

O exército federal

O exército, “consubstancial com o governo” no México de então, “considerava a Igreja sua adversária pessoal. Agente ativo do anticlericalismo e da luta anti-religiosa, fez sua própria guerra, sua guerra religiosa. O general Eulogio Ortiz mandou fuzilar um soldado no pescoço do qual vira um escapulário. Alguns oficiais conduziam suas tropas ao combate com o grito de Viva Satã!” (Meyer I, 146).

“Cada arma recrutava por sua conta. O alistamento devia ser voluntário e firmado ao menos por três anos”, condição que muitas vezes não se cumpria, tanto que “continuavam utilizando cordas para atar os voluntários. Lançavam mão de quaisquer: condenados por crime comum, trabalhadores desempregados, camponeses” e sobretudo “o subproletariado rural e indígena, vencidos ou não” (149-150). A brutalidade e a indisciplina desta tropa é tal, que nem se pode descrever.

Por não existir serviço de intendência, “a copeiragem estava a cargo das mulheres dos soldados, as famosas soldaderas, que marchavam ao lado do exército em campanha e como gafanhotos caíam nas fazendas e nos povoados... A deserção, freqüente em tempo de paz, chegava a ser massiva em tempo de guerra” (152). O general Amaro, chefe do exército federal, não conseguia “pôr em linha de combate mais de 70.000 homens, ainda que se passasse todo o tempo recrutando: 20.000 desertores em um ano, de 70.000 soldados!” (153). Este general famoso, o índio Amaro, filho de um peão de Zacatecas, homem inteligente, implacável e sanguinário, o que mandou sua aviação bombardear no cerro do Cubilete o monumento a Cristo Rei, tornou-se muito culto, e reconciliou-se com a Igreja vários anos antes de morrer.

Os federais, maus cavaleiros, eram piores soldados, que disparavam de longe, gastavam muita munição, perdiam as armas com facilidade, e não conheciam bem o terreno por onde andavam. Isto explica por que os cristeros, cujas características de luta eram as contrárias, lhes infligiram tantas baixas. Os callistas, isto sim, eram muito cruéis, mas “a dureza da repressão, a execução de todos os prisioneiros, a matança dos civis, o saque, a violação, o incêndio dos povoados e das colheitas deixavam na esteira dos federais outros novos levantamentos em germe” (I,194).

A guerra também se fazia na imprensa do governo, ocultando a magnitude do conflito ou dando sempre a vitória por iminente. Unida à luta militar, o general Amaro propugnava uma campanha de “desfanatização”, como aquela pela qual deu ordem ao governador de Jalisco de mudar os nomes de todos os lugares que tinham nome de santo (I, 178). Todos os meios valiam, e também o suborno. Assim, em certa ocasião, o governou tentou comprar um chefe cristero chamado “o 14”, o qual respondeu: “Que a mim não dêem nada, que se arranjem com os padrecos e as igrejas, que eu estou em paz; mas, enquanto não o conseguirem, não pensem que com dinheiro vão comprar-me” (177).

O desespero do governo ia crescendo à medida que passavam os meses, e que se via incapaz de vencer — nas palavras do governador de Colima — “as hordas episcopais de fanáticos que, enganados pelo palavrório clerical, se lançaram à louca aventura de restaurar o predomínio dos padres”.

Balanço da guerra

Em meados de 1928, os cristeros, uns 25.000 homens em armas, “já não podiam ser vencidos”, diz Meyer, “o que constituía uma grande vitória; mas o governo, sustentado pela força norte-americana, não parecia prestes a cair” (I,248). Em verdade, a posição dos cristeros era, em meados de 1929, melhor que a dos federais, pois, combatendo por uma Causa absoluta, tinham melhor moral e disciplina, e operando em pequenos grupos que atacavam e fugiam — piquihuye — sofriam muito menos baixas que os soldados callistas. Depois de três anos de guerra, calcula-se que nela morreram 25.000 a 30.000 cristeros versus 60.000 soldados federais.

Em fevereiro de 1929, o embaixador norte-americano Morrow — que insistia com o governo e a imprensa que não falassem de cristeros, mas de “bandidos” (I, 301) — julgava improvável pacificar o Estado “antes que se solucione a questão religiosa”. Em fevereiro os mesmos políticos viam um panorama muito negro, e um senador dizia em um discurso a seus colegas: “Nossos soldados não sabem combater camponeses ou não se quer que a rebelião acabe? Pois diga-se de uma vez, e não fiquemos a pôr panos quentes. Não se esqueçam senhores de que com três Estados mais que se levantem de fato, cuidado com o Poder Público, senhores!” (I, 285).

Em meados de 1929 via-se já claramente que, a menos a curto prazo, nem um lado nem o outro podia vencer. Não obstante, neste empate havia uma grande diferença: enquanto os cristeros estavam dispostos a seguir lutando o tempo que fosse necessário até obter a derrogação das leis que perseguiam a Igreja, o governo, vendo-se quebrado tanto em termos econômicos como em termos de prestígio diante das nações, tinha extrema urgência em terminar o conflito quanto antes. Eram estas, pois, algumas condições favoráveis para negociar o reconhecimento dos direitos da Igreja...

Rumores de um possível acordo

Desde meados de 1927 estava no comando supremo dos cristeros o general Gorostieta, militar de carreira, a quem iam chegando, de quando em quando, rumores de possíveis acordos entre a Igreja e o Estado pelas costas da Guarda Nacional cristera. Como estes rumores iam aumentando, em 16 de maio de 1929 escreveu aos bispos mexicanos uma longa carta, de que citamos um trecho:

“Desde que começou nossa luta, não tem deixado de se ocupar a imprensa nacional, e até a estrangeira, de possíveis acordos entre o chamado governo e algum insigne membro do Episcopado mexicano, para terminar o problema religioso. Sempre que tal notícia apareceu, sentiram os homens em luta que um calafrio de morte os invade, mil vezes pior que todos os perigos que decidiram enfrentar. Cada vez que a imprensa nos diz que um bispo está possivelmente em entendimentos com o callismo, sentimos como uma bofetada no rosto, mais dolorosa ainda porque vinda de alguém de quem poderíamos esperar um consolo, uma palavra de alento em nossa luta; alento e consolo que, com uma única muito honrosa exceção (Monsenhor Martínez y Zárate, bispo de Huejutla, desterrado há 17 anos), de ninguém recebemos.

“Se os bispos, ao se apresentar para tratar com o governo, aprovam a atitude da Guarda Nacional, se estão de acordo em que era já a única atitude digna que nos deixava o déspota, terão de consultar nosso modo de pensar e atender  nossas exigências; nada temos que dizer neste caso...”

“Se os bispos, ao tratar com o governo, desaprovam nossa atitude, se não levam em conta a Guarda Nacional e tentam dar solução ao conflito independentemente do que nós ansiamos...; se se esquecem de nossos mortos, se não levam em consideração nossos milhares de viúvas e órfãos, então... rejeitamos tal atitude como indigna e traidora...

“Muitas e de mui diversa índole são as razões que cremos ter para que a Guarda Nacional, e não o Episcopado, seja quem resolva esta situação. Claro está, o problema não é puramente religioso; é este um caso integral de liberdade, e a Guarda Nacional se constituiu de fato em defensora de todas as liberdades e na genuína representação do povo, pois o apoio que o povo nos dá é o que nos fez subsistir...

“Como última razão, cremos ter direito a que nos escutem, se não por outra causa, pelo menos por sermos parte da Igreja Católica do México, precisamente por sermos parte importantíssima da Instituição que os bispos mexicanos governam” (+ Meyer I, 316-320).

Em 2 de junho de 1929 o general Gorostieta foi assassinado em uma emboscada pelos callistas, e o sucedeu à frente da Guarda Nacional o general Degollado.

Os «mal chamados Acordos» (21-6-1929)

A historia dos Acordos realizados em junho de 1929 é tão triste, que faremos dela uma referência muito breve, atendo-nos sobretudo à documentada informação que López Beltrán recentemente deu sobre o assunto. Monsenhor Ruiz y Flores, Delegado Apostólico ad referendum, escolheu como secretário para negociar Monsenhor Pascual Díaz y Barreto, o “único bispo que tinha mostrado decidido empenho em conseguir uma negociação com os callistas” (Lpz. Beltrán 499).

Ambos foram trazidos dos Estados Unidos ao México, incomunicáveis em um vagão de trem, pelo embaixador norte-americano Dwight Whitney Morrow, banqueiro e diplomata, protestante e maçom, cúmplice de Calles e do presidente Portes Gil. Já na cidade do México, continuaram incomunicáveis na luxuosa residência do banqueiro Agustín Legorreta. Não receberão nem os bispos mexicanos nem um enviado da Liga. Tampouco quiseram receber o bispo Miguel de la Mora, secretário do Subcomitê Episcopal, que mandou o aviso a Monsenhor Flores de que “tinha grandes e urgentes coisas para comunicar-lhe, e que não fosse firmar nada sem antes o ouvir”. As portas daquela casa, nestes dias, só estiveram abertas “para Morrow, para os sacerdotes estrangeiros: Wilfrid e Parsons e Edmundo Walsh, S.J. [especialista em política internacional da Universidade de Georgetown], para Cruchaga Tocornal, o embaixador do Chile, e para outros estrangeiros. Para os estranhos. Não para os mexicanos” (Lpz. Beltrán 516).

Pode-se afirmar, pois, que os dois bispos dos Acordos com Portes Gil não cumpriram as Normas escritas que Pio XI lhes havia dado, pois não levaram em conta o juízo dos bispos nem o dos cristeros ou da Liga Nacional; tampouco conseguiram, nem de longe, a derrogação das leis persecutórias da Igreja; e menos ainda obtiveram garantias escritas que protegessem os cristeros uma vez depostas as armas.

Só conseguiram do Presidente algumas palavras de conciliação e de boa vontade, e algumas Declarações escritas em que, sem derrogar lei alguma, se afirmava o propósito de aplicá-las “sem tendência sectária nem preconceito algum”. Dessa forma, os dois bispos, convencidos pelo embaixador norte-americano Morrow de que não era possível conseguir do Presidente mais que tais Declarações, e aconselhados por Cruchaga e pelo padre Walsh, que as “criam suficientes”, aceitaram o documento redigido pessoalmente em inglês pelo mesmo Morrow:

“O bispo Díaz e eu tivemos várias conferências com o Exmo. Presidente da República... regozijo-me em manifestar que todas as conversas se distinguiram por um espírito de mútua boa vontade e respeito. Em conseqüência de tais Declarações feitas pelo Exmo. Presidente, o clero mexicano renovará os serviços religiosos de acordo com as leis vigentes. Eu acato a esperança de que a renovação dos serviços religiosos [expressão protestante, própria de Morrow, seu redator] possa conduzir o Povo Mexicano, animado por um espírito de boa vontade, a cooperar em todos os esforços morais que existam para benefício de todos os da terra de nossos antepassados. México, D.F. 21 de junho de 1929. Leopoldo Ruiz, Arcebispo de Morelia e Delegado Apostólico” (Lpz. Beltrán 527).

As leis vigentes, claro, eram aquelas que haviam desencadeado a Cristiada. Para derrogar aquelas leis vigentes tinham morrido inutilmente vinte ou trinta mil cristeros?...

Frutos da Cristiada

Inutilmente lutaram, com tão grandes perdas e sofrimentos, os criteros e suas famílias? Em 1929, o jesuíta Eduardo Iglesias, com o pseudônimo de Aquiles P. Moctezuma, em El conflicto religioso de 1926, escrevia relativamente satisfeito: “Terminadas felizmente as conferências entre o Estado e a Igreja”... (441). Não é essa a interpretação mais comum. Mas também há atualmente aqueles que acreditam que os Acordos “foram um mal menor dentro das circunstâncias”. Assim o crê, por exemplo, Juan Landerreche Obregón, o qual, ademais, insiste em que os Acordos:

“de nenhuma maneira significaram que o esforço, o sacrifício e o sangue dos cristeros haviam sido inúteis para a liberdade da Igreja Católica e o respeito à religião e aos fiéis. Pelo contrário, os criteros demonstraram ao governo com seus sacrifícios, seus esforços e suas vidas que no México não se pode atacar impunemente nem a religião católica nem a Igreja... E tudo isto se demonstrou de forma tão convincente aos tiranos, que os obrigou não somente a desistir da perseguição religiosa, mas também a respeitar a religião e sua prática e seu desenvolvimento, apesar de todas as disposições da Constituição [de 1917] que a tanto se opõem, e que não são cumpridas, porque não se podem cumprir, porque  o povo as rejeita... Os frutos [da Cristiada] foram recolhidos e se seguem recolhendo sessenta anos depois de sua luta, e seguramente culminarão a seu tempo na realização plena pela qual lutaram aqueles que deram esse testemunho” (Prólogo a E. Mendoza, Testimonio 4, 7-8).

Em 1993 o governo do México concedeu à Igreja um precário reconhecimento legal, como associação religiosa, e restabeleceu relações diplomáticas com a Santa Sé.

Um triunfo da maçonaria

Alguns dias depois dos Acordos  alcançados, sobretudo, pelos maçons Morrow e Portes Gil, em 27 de junho de 1929, os maçons deram um grande banquete ao presidente Portes Gil, o qual falou, ao fim, “a seus reverendos irmãos”:

“Enquanto o clero foi rebelde às Instituições e às Leis, o Governo da República esteve no dever de combatê-lo... Agora, queridos irmãos, o clero reconheceu plenamente o Estado. E declarou sem reservas que se submete estritamente às Leis (aplausos). E eu não podia negar aos católicos o direito que têm de submeter-se às Leis... A luta [não obstante] é eterna. A luta foi iniciada há vinte séculos. Protesto ante a maçonaria que, enquanto eu estiver no Governo, se cumprirá estritamente esta legislação (aplausos).

No México, o Estado e a maçonaria, ultimamente, foram uma mesma coisa: duas entidades que caminham conjugadas, porque os homens que nos últimos anos estiveram no poder souberam sempre solidarizar-se com os princípios revolucionários da maçonaria” (+ Lpz. Beltrán 540-541).

Alude à mesma revolução que assassinou García Moreno, e que tantas vitórias alcançou nos séculos XIX e XX na América hispânica com o apoio da maçonaria local e norte-americana. Portes Gil, mais tarde, em seu livro La lucha entre el Poder Civil y el Clero, deixou bem claro que “sua aparente capitulação [dos Bispos], à que deram o nome de Acordo com o Governo, não foi outra coisa que sua submissão incondicionalmente à Lei” (547). Em 1958, estranho à Igreja, morreu em Mixcoac, e em nota fúnebre publicada pela “Mui Respeitável Grã Loja Vale do México” era citado como “Membro Ativo e Grão Capitão de Guardas deste Supremo Conselho do Grau 33” (546).

Dissolução dos cristeros

O Chefe supremo da Guarda Nacional, general Jesús Degollado Guízar, dirigiu a todos os cristeros, “ainda que nos rasgue a alma”, uma patética mensagem de licenciamento, da qual retiramos o último parágrafo:

“A Guarda Nacional desaparece, não vencida por nossos inimigos, mas, em verdade, abandonada por aqueles que deviam receber, em primeiro lugar, o fruto valioso de seus sacrifícios e abnegação. AVE, CRISTO! Os que por Ti vamos à humilhação, ao desterro, talvez à morte gloriosa, vítimas de nossos inimigos, com o mais fervoroso de nossos amores, te saudamos, e, uma vez mais, te aclamamos.

REI DE NOSSA PATRIA.

VIVA CRISTO REI!

VIVA SANTA MARIA DE GUADALUPE!

Deus, Pátria e Liberdade”.

“Talvez à morte gloriosa...” Com efeito, pouco depois dos Acordos, o Governo, mostrando “o espírito de boa vontade e respeito” assegurado aos Bispos negociadores, começou, através de sinistros agentes, “o assassinato sistemático e premeditado” dos cristeros que haviam deposto as armas, “com o fim de impedir qualquer renovação do movimento... A caça de homens foi eficaz e séria, já que se pode arriscar, apoiando-se em provas, a cifra de 1.500 vítimas, das quais 500 chefes, da a patente de tenente à de general”

Também “se deve dizer, e isto honra aqueles homens, que mais de um general federal advertiu os cristeros do perigo que os ameaçava” (Meyer I, 344-346). De qualquer modo, ainda assim, mais chefes cristeros foram mortos depois dos Acordos do que durante a guerra.

Isto envolveu uma longa e duríssima prova para a fé dos cristeros, que, porém, se mantiveram fiéis à Igreja com a ajuda, sobretudo, dos mesmos sacerdotes que durante a guerra os haviam assistido.

Depois dos Acordos

O capelão dos cristeros de Colima, padre Enrique de Jesús Ochoa, em Los cristeros del volcán de Colima, conta que “chorou de verdade o mesmo senhor Ruiz y Flores quando se viu ludibriado, quando viu o fracasso daqueles Acordos, “se acordos se podem chamar”, segundo ele mesmo disse, escrevendo com seu punho e letra (em 1º de agosto de 1929)”.

E acrescenta: “Eu mesmo vi chorar o Papa [Pio XI] ao tratar o assunto dos acordos do México: L’ho veduto piàngere, dizia o Cardial Boggiani ao vice-presidente da Liga Nacional, Dom Miguel Palomar y Vizcarra; e ao que isto escreve, em Roma no ano de 1930” (+ Lpz. Beltrán 517).

A verdade é que os dois bispos dos Acordos, e especialmente Monsenhor Pascual Díaz, sofreram muito nos anos posteriores, e, ao menos por parte de alguns setores, padeceram um verdadeiro linchamento moral.

Recentemente publicava a revista 30 Dias (1993, n. 66) uma entrevista com a pintora mexicana Dolores Ortega, de 85 anos, que viveu de perto a Cristiada com seu marido, Carlos Díez de Sollano, um dos responsáveis da Liga Nacional. À pergunta: Por que os bispos assinaram os acordos? Responde: “Estavam confusos, e os enganaram. Depois dos acordos, convidamos para jantar Monsenhor Díaz, arcebispo do México. Estávamos comendo, e meu esposo lhe disse: “Escute-me, Ilustríssimo: Que me diz o senhor dos acordos?” Baixou os olhos, quase lhe saltaram as lágrimas, e disse-lhe: “Veja, Carlinhos, esse assunto, não me toques nele, causa-me muita dor. Enganaram-nos”. E continua o jornalista: Também os senhores se enganaram. Ao que responde a senhora Ortega: “Não, de modo algum. Nós sabíamos que era uma armadilha, que o Governo não respeitaria nunca os acordos Nós o sabíamos todos, os da Liga e os cristeros”. Sabiam os senhores que era um engano, que entregando as armas e deixando a clandestinidade a morte seria certa. Por que então o fizeram? “Porque assim mandava a Igreja. Por fidelidade, por obediência à Igreja”.

Crônica dos mártires

Assim foi. E ainda hoje poucos povos católicos, como o mexicano, amam tanto a seus Bispos e sacerdotes. Mas façamos a crônica dos mártires, o mais importante de tudo quanto ocorreu em torno da Cristiada.

Anacleto González Flores

Os mártires cristeros — no sentido estrito da palavra — foram muitíssimos, ainda que, como é lógico, somente alguns sejam reconhecidos e canonizados pela Igreja como tais. Não é fácil, pois, entre tantos heróis destacar alguns, mas vamos fazê-lo com Anacleto Gonzálvez Flores, que organizou a União Popular em Jalisco, impulsionou a Associação Católica da Juventude Mexicana e se distinguiu como professor, orador e escritor católico. O Mestre Cleto, como costumavam chamar-lhe com respeito e afeto, era um cristão muito piedoso como mostra o seguinte dado:

“Ao final do Rosário, os cristeros de Jalisco diziam esta oração composta por Anacleto González Flores: “Jesus misericordioso! Meus pecados são mais numerosos que as gotas de sangue que derramastes por mim. Não mereço pertencer ao exército que defende os direitos de vossa Igreja e que luta por vós. Quisera nunca haver pecado para que minha vida fosse uma oferenda agradável a vossos olhos. Lavai-me de minhas iniqüidades e limpai-me de meus pecados. Por vossa Santa Cruz, por minha Mãe Santíssima de Guadalupe, perdoai-me, não soube fazer penitência por meus pecados; por isso quero receber a morte como um castigo merecido por eles. Não quero lutar, nem viver, nem morrer senão por vós e por vossa Igreja. Mãe Santa de Guadalupe! Acompanhai em sua agonia este pobre pecador. Concedei que meu último grito na terra e meu primeiro cântico no céu seja Viva Cristo Rei!” (Meyer III, 280).

Pois bem, em 1o. de abril de 1927, foi aprisionado com três rapazes colaboradores seus, os irmãos Vargas, Ramón, Jorge e Florentino. “Se me procuram”, disse, “aqui estou; mas deixem em paz os outros”. Foi inútil seu pedido, e os quatro, com Luis Padilla Gómez, presidente local da A.C.J.M., foram internados num quartel de Guadalajara. Ali interrogaram sobretudo o Mestre Cleto, pedindo-lhe nomes e dados da Liga e dos cristeros, bem como o lugar onde se escondia o valente arcebispo de Guadalajara, Francisco Orozco y Jiménez. Como nada obtiveram dele, despiram-no, suspenderam-no pelos polegares, flagelaram-no e sangraram-lhe os pés e o corpo com lâminas de barbear. Ele lhes disse:

“Só lhes direi um coisa: trabalhei com todo o desinteresse por defender a causa de Jesus Cristo e de sua Igreja. Os senhores me matarão, mas saibam que comigo não morrerá a causa. Muitos estão atrás de mim dispostos a defendê-la até o martírio. Vou-me, mas com a certeza de que verei prontamente, do Céu, o triunfo da Religião e da minha Pátria”.

Atormentaram, então, na sua frente, os irmãos Vargas, e ele protestou: “Não se aproveitem de moços; se querem sangue de homem, aqui estou!” E a Luis Padilla, que pedia confissão: “Não, irmão, já não é tempo de confessar-se, mas de pedir perdão e perdoar. É um Pai, não um Juiz, quem nos espera. O teu próprio sangue te purificará”. Atravessaram-lhe então o lado com um golpe de baioneta, e, como sangrava muito, o general ordenou a execução, mas os soldados escolhidos se negavam a disparar, e foi preciso formar outro pelotão. Antes de receber quatorze balas, ainda conseguiu Anacletro dizer: “Eu morro, mas Deus não morre! Viva Cristo Rei!”

E em seguida fuzilaram Padilla e os irmãos Vargas (+ Rivero 131-133).

Os beatos mártires do México

Uma vez suspenso o culto no México em 31 de julho de 1937, a imensa maioria do clero, uns 3.500, obedecendo a seus Bispos, recolheu-se nas grandes cidades, controladas pelo governo, com o que os civis e combatentes do campo ficavam sem pastores. Estes sacerdotes, ainda que sujeitos a estrita vigilância e, por vezes, a maus tratos, geralmente não correram perigo de morte.

Ao contrário, os sacerdotes que permaneceram no campo fizeram-no com seriíssimo risco, conscientes de que, se fossem presos, seriam executados, muitas vezes com sadismo, já que o governo pensava que “fuzilando sem compaixão todo sacerdote apanhado no campo, obrigava os demais, aterrorizados, a refugiar-se na cidade”, e esperava assim que, “deixando os camponeses sem sacerdotes, sufocaria rapidamente a rebelião” (Meyer I, 40).

Calcula-se que cem ou duzentos permaneceram no campo, escondidos com a proteção dos fiéis, que em muitos casos foram também executados por dar-lhes refúgio.  López Beltrán, considerando os anos 1926-1929, dá o nome de 39 sacerdotes assassinados, e o de um diácono, um menorita e seis religiosos (343-4). Guillermo Ma. Havers recolhe os nomes de 46 sacerdotes diocesanos executados no mesmo período de tempo (Testigos de Cristo en México 205-8). Muitos destes padres pertenciam à arquidiocese de Guadalajara (Jalisco, Zacatecas, Guanajuato) ou à diocese de Colima, pois seus prelados, Monsenhor Orozco y Jiménez e Monsenhor Velasco, permaneceram em seus postos, com boa parte de seu clero.

Em 22 de novembro de 1992, João Paulo II beatificou vinte e dois destes sacerdotes diocesanos, destacando que “sua entrega ao Senhor e à Igreja eram tão firmes, que, ainda tendo a possibilidade de se ausentar de suas comunidades durante o conflito armado, decidiram, a exemplo do Bom Pastor, permanecer entre os seus para não privá-los da Eucaristia, da palavra de Deus e do cuidado pastoral

Longe de todos eles acender ou avivar sentimentos que lançassem irmãos contra irmãos. Ao contrário, na medida de suas possibilidades procuraram ser agentes de perdão e reconciliação”. A Conferência do Episcopado Mexicano, no livro Viva Cristo Rei! (México, 1991), dá-nos breves resenhas biográficas dos 25 mártires que foram beatificados (outras resenhas deles e de outros tantos, também de leigos e religiosos: + Lpz. Beltrán 243-487; Havers, Testigos de Cristo en México). Aqui nos limitaremos a recordar seus santos nomes, com as datas de seu martírio.

Em 1915: David Galván Bermúdez, na perseguição de Carranza (30-1).

Em 1926: Luis Batis Sainz, e com ele três paroquianos da Ação Católica, Manuel Morales, casado, Salvador Lara Puente, e seu primo David Roldán Lara (15-8), também beatificados.

Em 1927: Mateo Correa Magallanes (6-2); Jenaro Sánchez (18-2); Julio Álvarez Mendoza (30-3); David Uribe Velasco (12-4); Sabas Reyes Salazar (13-4); Cristóbal Magallanes, com seu coadjutor Agustín Sánchez Caloca (25-5); José Isabel Flores (21-6); José María Robles (26-6); Miguel de la Mora (7-8); Margarito Flores García (12-11); Pedro Esqueda Ramírez (22-11).

Em 1928: Jesús Méndez Montoya (5-2); Toribio Romo González (25-2); Justino Orona Madrigal (1-7); Atilano Cruz Alvarado (1-7); Tranquilino Ubiarco (5-10);

Em 1937: Pedro de Jesús Maldonado (11-2), em uma perseguição desencadeada em Chihuahua, no tempo do presidente Lázaro Cárdenas, outro general (1934-40).

“A solenidade de hoje [Cristo Rei]”, destacava João Paulo II na cerimônia de beatificação, “instituída pelo Papa Pio XI precisamente quando era mais vigorosa a perseguição religiosa do México, penetrou muito fundo naquelas comunidades eclesiásticas e deu uma força particular a estes mártires, de maneira que ao morrer muitos gritavam: Viva Cristo Rei!”.

A todos, deve-se acrescentar o nome do padre jesuíta Miguel Agustín Pro Juárez, beatificado pelo papa João Paulo II em 25 de setembro de 1988. Diferentemente dos sacerdotes já recordados, ele estava na cidade do México, por ordem de seus superiores, dedicando-se ocultamente ao apostolado. Por ocasião de um atentado contra o presidente Obregón, foram aprisionados e executados os autores do golpe, e, com eles, foram também eliminados o Padre Pro e seu irmão Humberto, que eram inocentes (23-11-1927) (+ Rafael Ramírez Torres, Miguel Agustín Pro; e Luis Butera, Un mártir alegre. Vida del P. Miguel Pro).

O espírito dos cristeros

Mas voltemos aos cristeros, àqueles católicos que se alçaram em armas, lançando-se ao monte “para defender seu Deus, sua Religião, sua Mãe, que é a Santa Igreja”. Traremos acerca deles alguns dados e observações, seguindo principalmente Jean Meyer, que estudou largamente a Cristiada, e entrevistou durante quatro anos muitos antigos cristeros. Dois avisos prévios:

1. Note-se que os dados refletem um tempo, até 1970, em que o povo mexicano estava havia um século e meio independente de Espanha, e havia um século submetido a perseguição religiosa contínua por parte dos governos liberais, a partir de Juárez.

Recordemos que em 1917 a Constituição estabelece a educação leiga. Em 1934 se impõe ao povo a educação socialista, e Calles proclama indispensável que a Revolução se apodere “das consciências da infância e da juventude”, porque ambas “devem pertencer” à Revolução (353) — à revolução liberal ou à revolução socialista, dá no mesmo. E em 1946 se volta à educação arreligiosa. Mas sempre, e em todo o caso, “foi constante a atitude que supõe que é o Estado quem tem o direito de educar, direito negado expressamente à Igreja e não reconhecido aos pais de família” (Acevedo 357).

2. Advirta-se também que a imensa maioria dos cristeros era de agricultores modestos, gente do povo, ainda que também se unissem a eles alguns estudantes, acadêmicos ou trabalhadores. Os ricos católicos, diga-se de passagem, quase nunca os ajudaram, ainda que os cristerosnecessitassem sempre deles, sobretudo para comprar armas e munição. Pois bem, os questionários mostram que, entre os cristeros, “cerca de 60% não haviam ido jamais à escola”, ainda que nem todos fossem analfabetos, pois muitos tinham aprendido a ler em casa (III, 272).

Mostram, não obstante, uma surpreendente cultura, e, mais concretamente, uma profunda cultura cristã. Já conhecemos, por exemplo, a voz de Ezequiel Mendoza Barragán, camponês michoacano de Coalcomán, que nunca foi à escola, e que chegou a ser um célebre coronel dos cristeros. Jean Meyer, que conheceu Mendoza quando este tinha já 75 anos, confessa: “Fiquei deslumbrado, fascinado, pela misteriosa energia que dele irradiava” (pról. Testemunho). E em outro lugar diz que “todas as entrevistas confirmam o caráter representativo de Ezequiel Mendoza”, e que sua linguagem era “especialmente clara e bela” (III, 289). 

Espiritualidade católica. Em entrevistas, crônicas e cartas de cristeros, causa admiração comprovar a qualidade doutrinal, bíblica e poética de suas expressões. Tudo isso contradiz abertamente o menosprezo de alguns pedantes acerca da veracidade do cristianismo entre os indígenas da América. Os cristeros, concretamente, tinham em si toda a força de quem sabe estar fazendo a vontade de Deus. “Conscientes de fazer a vontade de Deus”, diz Meyer, “os cristeros podiam resistir a todas agressões militares, a todas as desditas espirituais e até à mais terrível de todas: os acordos e o pouco apoio clerical” (289). Essa fidelidade à vontade de Deus providente os fazia inquebrantáveis. 

Ezequiel Mendoza, por exemplo, dizia à sua gente: “Não, homens, lembrem-se de que aqui pedimos a Deus o que mais nos convier, e por isso não digamos, desatinados, ‘logo as coisas vão mudar, de um momento para outro’; ‘a folha da árvore não se move sem a grande vontade de Deus’, paciência e resignação” (289). Em certa ocasião, segundo ele mesmo refere, assim exortava os seus: “Não queremos companheiros que tragam fins torcidos, queremos homens que de todo o coração queiram agradar a Deus em tudo, sem outro interesse senão o de defender a sua Igreja, nossa Mãe; já que seus ferozes inimigos a querem exterminar, ainda que não o consigam, porque foi dito por Nosso Senhor Jesus Cristo que ‘as portas do inferno não prevaleceram contra ela’; e o que Cristo prometeu, o cumpre; também disse que ‘passarão os céus e a terra, mas suas palavras não passarão’. Além disso, temos nossa Rainha e Mãe, a Virgem de Guadalupe, e ela nos recomendará a seu Pai, a seu Filho, e a seu esposo, o Espírito Santo. Mais ainda, contamos com todos os santos e santas do Céu e da terra, para que eles roguem a Deus por nós em todo o tempo e lugar, e, se Deus está conosco, não tenhamos medo de morrer em defesa da Igreja e da Pátria, seremos mártires e iremos para o céu por todo o sempre” (Testemunho 31).

Por seu lado, Aurelio Acevedo, um simples agricultor de Zacatecas, assim animava a sua tropa: “Vós, valentes sem mácula, pensai sempre que ides rumo ao Calvário; pensai que ides ao martírio, cume por onde se entra no Céu da Paz e do eterno gozo. Todo redentor tem de ser crucificado a fim de que triunfe e seja glorificado. Não esqueçais que esta lição é mais clara que o sol que nos ilumina: lembrai-vos de Jesus!” (Meyer III, 275).

E outro chefe, Pedro Quintanar, dizia a suas tropas: “Todo o bem que há em vós é de Deus somente e... todo o mau que há em vosso regimento é vosso. A Deus deve-se atribuir todo o bem e toda a glória e todo o triunfo, pois vós sois instrumentos vis” (289).

Práticas religiosas. A guerra foi para muitos cristeros como exercícios espirituais continuados. A missa sobretudo era, quando havia sacerdote, o mais apreciado pelos cristeros, o centro de tudo, cada dia. Mais ainda, “nos acampamentos cristeros, quando isto era possível, o Santíssimo Sacramento ficava exposto, e os soldados, em grupos de quinze ou vinte, praticavam a adoração perpétua. A comunhão freqüente era a regra... Os sacerdotes que permaneciam com os cristeros passavam o tempo confessando, batizando, casando, organizando exercícios espirituais e fazendo missões” (III, 278).

Mas “era freqüente que já não existisse sacerdote, e então um irmão tomava a direção da vida religiosa, como Cecilio Valtierra, o qual todas as manhãs lia o Ofício da Igreja em presença dos fiéis, e todas as tardes conduzia o Rosário. Estas missas brancas iam acompanhadas de outras inovações” (III, 277). “Os cânticos e o Rosário acompanhavam todos os instantes da vida, na marcha ou no acampamento. Os cristeros oravam e cantavam a altas horas da noite, rezando coletivamente o Rosário, de joelhos, e cantando as laudes à Virgem ou a Cristo, entre as dezenas” (III, 279).

Está fora de dúvida que de sua fé cristã tiravam os cristeros toda a sua abnegação e coragem para a guerra. Não eram valentes apesar de serem homens piedosos; eram antes valentes porque eram piedosos.

Somente um exemplo: em certa ocasião, em que os cristeros haviam sofrido várias baixas e estavam tristes, o general “Degollado lhe fez rezar o rosário, após o qual os exortou: ‘Porque Cristo Rei levou os nossos, já vocês se acovardaram, já se esqueceram de que ao alistar-se nas fileiras de Seu exército Lhe ofereceram seus serviços e suas vidas? [...] Deus, sem necessidade de usar de combates, dispõe de nossas vidas quando a Ele Lhe apraz... Deixem suas armas ao pé do altar, que eu nunca serei chefe de covardes”. As tropas choravam e gritavam: “Não, meu general! Seguiremos sendo os valentes de Cristo Rei, e, se não, ponha-nos à prova” (Meyer I, 232).

Idéia do governo e da guerra. Os cristeros tinham da guerra, e da perseguição que a causou, uma idéia muito mais teológica que política. Nas entrevistas, algumas vezes também se reflete certa visão política do conflito. Por exemplo, “para os cristeros, o turco Calles, vendido à maçonaria internacional, representava o estrangeiro ianque e protestante, desejoso de terminar sua obra destruidora (a anexação de 1848 é conhecida de todos, e a situação de sub-homens dos chicanos do Texas e Novo México...), descatolicizando o país” (III, 285).

Não obstante, prevalecia largamente a visão teológica da guerra. Conheciam bem, em primeiro lugar, o dever moral de obedecer às autoridades civis, pois “toda autoridade procede de Deus”, mas também sabiam que “se deve obedecer a Deus antes que aos homens”, quando estes faziam guerra a Deus. Viam claramente na perseguição do governo uma ação poderosa do Maligno.

Ezequiel Mendoza, por exemplo, considerava os governantes de sua pátria “endiabrados callistas, maçons e protestantes maus, que somente buscam as comodidades do corpo e a satisfação de seus caprichos neste mundo enganador e não crêem que os espera um inferno de tormentos eternos, pobres morcegos que se crêem aves e são ratos” (III, 283). E dizia: “Ai dos tiranos que perseguem a Cristo Rei, bestas humanas de que nos fala o Apocalipse! Todos devemos ter muito presente as bem-aventuranças de que nos fala Nosso Senhor Jesus Cristo: pobreza de espírito, lágrimas de contrição, justa mansidão, fome e sede de justiça, misericordiosos, os de coração limpo, os pacificadores, os bons quando são perseguidos pelos maus, como nos perseguem os Calles agora, dizem que porque somos muito maus, que somos obstinados querendo defender a honra e glória daqu’Ele que morreu despido na cruz mais alta e entre ladrões, por ser Ele o pior de todos os humanos, que não quis submeter-se ao supremo da terra. É o que dizem eles, porque lhes falta um domingo e os redobres de tambor, mas nós os daremos com a ajuda de quem ressuscitou dos mortos no terceiro dia, e que, porque nos ama, nos deixou por Mãe a sua própria Mãe” (III, 287).

Este tom profundamente bíblico era o da Cristiada. É a visão do Apocalipse: Satã, o dragão infernal, a antiga serpente, dá sua força à Besta, poder maligno intramundano, que faz guerra aos santos e a quantos guardam o testemunho de Jesus. Neste sentido, os cristeros estavam indizivelmente mais próximos do Apocalipse de São João que da teologia da libertação moderna.

Com toda a razão o Cardeal Ratzinger afirmava que “a teologia da libertação, em suas formas conexas com o marxismo, não é certamente um produto autóctone, indígena, da América Latina ou de outras zonas subdesenvolvidas, nas quais teria nascido e crescido quase espontaneamente por obra do povo. Trata-se, em verdade, ao menos em sua origem, de uma criação de intelectuais; e de intelectuais nascidos ou formados no Ocidente opulento” (Informe sobre a fé, 207). A espiritualidade popular real é a de Ezequiel Mendoza e seus companheiros, cheia de ressonâncias da Bíblia e do catecismo.

O martírio. A teologia do martírio entre os cristeros não é menos rica que a das Paixões dos primeiros séculos, ainda que muitas vezes vá em clave de humor. “Que fácil está o céu hoje, mamãe!”, dizia o jovem Honório Lama, que foi executado com seu pai (III, 299). “É preciso ganhar o céu agora que está barato”, dizia outro (298). Norberto López, que rejeitou o perdão que lhe ofereciam se se alistasse com os federais, antes de ser fuzilado, disse: “Desde que me armei, tive o propósito de dar a vida por Cristo. Não vou perder o jejum 15 para o meio-dia” (302).

Em Sahuayo assassinaram, um a um, 27 cristeros, que morreram, um a um, dando vivas a Cristo Rei; mas pouparam a vida de Clarudio Becerra, por ser muito jovenzinho. Mais tarde, com grande tristeza, ia este pedir junto ao sepulcro de seus companheiros martirizados: “Companheiros, peçam a Deus que eu vá para o céu para acompanhá-los”. Bebia então demasiado, e, quando o padre o censurou, ele disse: “Embebedo-me, Padre, porque tenho a sensação de que Deus não me quis para mártir” (Lpz. Beltrán 66-70)...

Uma vez mais a voz do patriarca Mendoza: “Vocês e eu lamentamos de coração o falecimento destes homens que de boa-fé ofereceram suas vidas, família e demais interesses terrenos, derramaram seu sangue por Deus e por nossa querida pátria, como o fazem os verdadeiros mártires cristãos; pois seu sangue, unido com o de Nosso Senhor Jesus Cristo e com o de todos os mártires do Espírito Santo, nos alcançará de Deus Pai os bens que esperamos na terra e no Céu. Ditosos os que morrem por amor ao Deus que fez os céus e a terra, e que em tudo está por essência, presença e potência, não como os deuses falsos de Plutarco Elias Calles e de outros loucos desviados por Satanás, que lhes oferece os bois e a carreta desta vida e depois os faz coisa horrenda, quente e gorda no inferno dos tormentos” (III, 299).

A morte tranqüila dos cristeros, com freqüência depois de terríveis tormentos, impressionava sempre os federais. Morriam perdoando e gritando Viva Cristo Rei! E o povo guardava suas palavras, recolhia seu sangue, enterrava seus corpos, comparecia em massa a seus funerais, quando eram possíveis, em protesto silencioso e confissão de fé.

Alegria. A alegria também estava sempre presente, como é lógico, nestes homens que estavam arriscando a vida por Cristo, passando indizíveis misérias e penas. Em crônicas e escritos sempre há sinais de alegria e de humor. Conta Ezequiel Mendoza que seu pai, em certa ocasião, arriscando a vida, ficou segurando uma porteira para que escapasse um grupo de cristeros. Os federais atiravam repetidamente, sem notá-lo. Assim que ele, sem soltar a porteira, “como que raivoso, virou o rosto e repreendeu o inimigo, disse: Imbecis, atirar para cá, parece que não vêem gente” (Testemunho 37). Como estas, há inúmeras anedotas cristeras.

Espiritualidade bíblica e tradicional

Sendo a Bíblia e a Tradição eclesiástica as fontes permanentes da espiritualidade cristã, o qualificativo de tradicional, em seu sentido mais genuíno, é tão precioso como o de bíblico. Pois bem, a espiritualidade dos cristeros é claramente bíblica e tradicional. Jean Meyer sublinha com força ambas as notas: “Ficamos admirados pelo número e exatidão das citações bíblicas. A idéia de um povo católico ignorante da Bíblia não é válida para o camponês mexicano desta época. Nos casarios distantes da paróquia se liam-na de pé, ou melhor, formava-se um círculo em torno daquele que sabia ler” (307).

Tampouco há mariolatria na devoção à Virgem: “O culto da Virgem ee Guadalupe não é distinto do que recebe na Rússia (800 lugares de peregrinação marianos!), na Polônia ou na França” (309). Meyer afirma diversas vezes “a indiscutível catolicidade da fé mexicana” (309).

“A religião dos cristeros era, salvo exceção, a religião católica romana tradicional, fortemente enraizada na Idade Media hispânica. O catecismo do P. Ripalba, sabido de memória, e a prática do Rosário, notável pedagogia que ensina a meditar diariamente sobre todos os mistérios da religião, da qual ministra assim um conhecimento global, dotaram esse povo de um conhecimento teológico fundamental assombrosamente vivo. Cristo era conhecido em sua vida humana e em suas dores, e com Ele pode o fiel identificar-se com freqüência; era amado, ademais, no grupo humano que o rodeia: a Virgem, o patriarca São José, patrono da Boa Morte, e todos os santos, que ocupavam um lugar muito grande, completamente ortodoxo, na vida comum; adoravam-n’O no mistério da Trindade. Esta religião próxima do fiel, qualificam-na de superstição os missionários norte-americanos (protestantes e católicos), e os católicos europeus não a julgam de maneira distinta” (307). Não obstante, “o cristianismo mexicano, longe de estar deformado ou ser superficial, está sólida e exatamente fundamentado em Cristo, é mariano por causa de Cristo, e sacramentalmente, por conseguinte, orientado para a salvação, a vida eterna e o Reino. Durante a guerra, os santos se retraem notavelmente até seu próprio lugar, enquanto se manifesta o desejo ardente do céu” (310).

México católico

A profundidade da evangelização realizada no México durante séculos ficou absolutamente provada quando, depois de mais de um século de contínuas perseguições liberais, socialistas e revolucionárias, os cristeros ofereceram ao mundo este testemunho formidável de espiritualidade e de martírio.

Voltemos, pois, ao princípio, e escutemos a voz franciscana de um dos primeiros evangelizadores, Frei Toribio de Benavente, Motolinía. O que ele disse do México, di-lo-emos aqui, para terminar nossa história; e o diremos pensando em toda a América hispânica:

“Ó México, que tais montes te cercam e coroam! Agora com razão voará tua fama, porque em ti resplandece a fé e evangelho de Jesus Cristo! Tu, que antes era mestra de pecados, agora és professora de verdade; e tu, que antes estavas em trevas e obscuridade, agora dás resplendor de doutrina e cristandade” (Ha de los indios III, 6, 339). “Pois concluindo digo: Quem não se espantará vendo as novas maravilhas e misericórdias que Deus faz com esta gente?... Estes conquistadores e todos os cristãos amigos de Deus devem muito alegrar-se de ver uma cristandade tão completa em tão pouco tempo, e inclinada a toda a virtude e bondade. Portanto, rogo a todos os que isto lerem que louvem e glorifiquem a Deus desde o íntimo de suas entranhas; digam estes louvores que se seguem, segundo São Boaventura: “Louvor e bênçãos, engrandecimentos e confissões, graças e glorificações, exaltações, adorações e satisfações se façam a vós, Altíssimo Senhor Deus Nosso, pelas misericórdias para com estes índios recém-convertidos à vossa santa fé. Amém, Amém, Amém” (II, 11, 283).

(Extraído do livro Hechos de los Apóstoles en América, de José Maria Iraburu.)

Exemplo dos horrores da Guerra espanhola

 O TERROR VERMELHO INVADE TOLEDO —

      

O texto seguinte é o relato assustador da invasão anarquista na cidade de Toledo, Espanha, em plena guerra civil — a Espanha foi o único país da Europa onde os socialistas permaneceram fiéis ao puro anarquismo de Bakunin. Ao longo do texto, o leitor poderá ver fotografias de algumas das igrejas saqueadas e destruídas em Toledo, já pelos invasores anarquistas, já por outros milicianos. O que mais nos dói, muito mais que a destruição da bela arte da belíssima Toledo, é o desprezo dos homens pela santa Realeza de Cristo Jesus. 

As imagens, as tiramos do site do "Centro de Estudios Castilla-La Mancha" que, por sua vez, as tirou do acervo da "Biblioteca Nacional de Madrid".  Recomendamos, para uma visão histórica das causas e desenlaces do drama espanhol, a leitura das páginas de Corção sobre a Guerra Civil Espanhola.  

* * *

"... podemos apenas concluir que a luta contra a Igreja na Espanha não se deve tanto a uma ignorância
 com respeito a Fé Católica e suas instituições, mas a um ódio contra o Senhor e Seu Cristo..."
Pio XI, Dilectissima Nobis

Neste ínterim, o temível "terror vermelho", pesadelo da classe alta e média da Espanha, entrou em Toledo. Por volta do dia 23 de julho, os filetes de milicianos tinham-se transformado numa inundação. Bando deles, calçados de sandálias de sola de corda, vestidos de azul desbotado, vasculhavam as ruas, descobrindo fascistas e padres. Estes últimos eram enviados para interrogatórios e os primeiros, mortos onde fossem encontrados. Os homens das unidades tais como "Batalhão de Exterminação" e "Grupo de Vingança" pareciam acatar regras simples, sendo uma das principais matar qualquer pessoa de batina — monges principalmente. Toledo estava convertida numa barulhenta plaza de toros, mas o matador nunca se arriscava ser fisgado por sua vítima. Alguns padres foram avisados que escapariam à morte gritando "Viva o comunismo!". Muitos escaparam fazendo isto e alguma coisa mais que a milícia exigia — obscenidades, blasfêmias; muitos recusaram-se. O Padre Pascual Martin foi crivado de balas defronte à Igreja de São Nicolau, enquanto gritava "Viva Cristo Rey". Suas mãos estavam estendidas, apontando como as de Cristo, significando uma benção final para os seus assassinos ou estavam levantadas num instintivo esforço para arrancar as balas?

A maioria dos toledanos não ousava interceder em favor dos "bons padres" porque a intercessão implicaria em simpatias fascistas e a simples suspeita conduzia à execução e à prisão. Contudo, os padres mais populares foram escondidos por moradores da cidade durante o cerco. Uma mocinha, por exemplo, escondeu dois padres em seu apartamento, depois de uma apavorante perseguição pelas vielas por parte dos milicianos bebados. Mas estes ainda tiveram que enfrentar uma provação — das janelas podiam ver o corpo da Priora das Carmelitas atirado na rua e lá permanecendo por vinte e quatro horas sem ser molestado.

Diz-se que morreram em Toledo 107 padres; a maioria assassinada na via pública, nas primeiras horas de ocupação. As mulheres e as crianças rodeavam seus corpos, tirando dentre seus lábios migalhas de pão ou pedaços de cigarro. Contudo, as atrocidades cometidas em Toledo eram brandas, comparadas com as de Ciudad Real, a província vizinha do sul onde o terror causou a morte de todos os padres. Ninguém em Toledo diz ter visto milicianos dançando nas ruas com cadáveres de freiras desenterradas, rito este que teve lugar por toda a parte da Espanha (...)

Uma figura sempre presente desta época foi Romero, um caçador de rãs que seguia a milícia com sádico regozijo. Esfolava suas vítimas, amarrava-as em longos bambus, dos quais elas pendiam como miniaturas de seres humanos. Durante meses aterrorizou as matronas desacompanhadas nas portas das igrejas, arremessando as rãs em seus rostos e dizendo com uma risadinha: "É isto que você e suas filhas vão parecer quando nós as matarmos e escalpelarmos." Depois que a milícia entrou na cidade, e ele a seguia como um chacal e passava horas acocorado, comprazendo-se com o espetáculo dos padres assassinados.

Muitos toledanos pareciam chocados mais pela profanação do que pelos assassinatos. Um bando de milícia vestiu as batinas tintas de sangue, confiscou uma limusine aberta e saiu pelas ruas com uma imagem de São Francisco em tamanho natural, escorado no assento entre eles. Tinham-lhe arrancado os braços, posto um rifle em seus ombros e prenderam uma nota — rabiscada com o sangue dos padres — em seu peito: "Ele está conosco." Na praça da Igreja de S. Vicente, alguns milicianos imitavam uma tourada com capas bordadas a ouro e chapéus apanhados no museu diocesano. Mesmo o governador recentemente indicado, um homem de nome Vega, juntou-se à brincadeira. Vestido com paramentos pontificais, conduzia uma tumultuosa procissão com um báculo na mão, fingindo-se de Arcebispo, representando o rito de exorcismo na Frente Popular. Mas este espetáculo quase teve um desfecho violento quando um miliciano bêbado, tomando Vega pelo verdadeiro Arcebispo, deu-lhe um tiro bem no peito.

Os líderes republicanos responsáveis colocaram imediatamente guardas na catedral (apropriadamente conhecida na Europa como La Rica), no Museu de El Greco e em outros santuários da cidade, mas havia tantas igrejas em Toledo que era impossível protegê-las todas. São João da Penitência, São Lourenço e outras foram queimadas, só restando as paredes. Contudo, no Convento da Conceição, perto de Santa Cruz, uma súcia de anarquista fantasiados empurrava um retablo retratando a flagelação de Cristo. Depois de rápida discussão entre eles decidiram estraçalhar apenas a figura representativa de Cristo, e deixar ficar os flagelados — afinal, disseram eles, estão são os anarquistas antigos! Muitos camponeses abandonaram temporariamente sua tradicional piedade cristã. Um esfarrapado campesino destruiu uma imagem da Virgem na Igreja de São Vicente e depois caiu de joelhos pedindo, em prantos, o seu perdão.

Os cães e gatos desapareceram de Toledo; atirando em alvos vivos a milícia provava que era irresistível no manejo das armas. Arremesso de granadas, também, parecia intrigá-los. Nos quarteirões mais ricos atiravam-nas através das janelas dos andares superiores sem qualquer razão, uma vez que em Toledo não existiam os atiradores fascistas que infestaram Madri durante toda a guerra. O pessoal do Alcázar podia traçar o curso da milícia através da cidade pelo som das detonações de granadas.

(extraído de "O Cêrco do Alcázar de Toledo", de Cecil D. Eby, Nova Fronteira, Rio de janeiro)

 

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