Skip to content

Família e moral (49)

Há batismo de desejo para os nascituros?

Em várias publicações e sites pró-vida, a prática do “batismo” da criança ainda não nascida é defendida. Outros, também motivados por pensamentos piedosos, defendem que bebês abortados podem receber a graça do batismo de desejo, um desejo suprido por terceiros bem-intencionados. Infelizmente, essas teses não correspondem à doutrina católica. 

Em primeiro lugar, os sacramentos são apenas para seres humanos vivos, não para anjos ou almas separadas [do corpo]. Apenas aqueles que estão in statu viae, ou seja, vivos neste mundo, capazes de receber a graça por intermédio do sinal sensível da matéria e da forma do sacramento. Como consequência, uma criança morta, um bebê abortado, não pode receber esse sacramento.

Na Igreja primitiva, havia hereges e mesmo católicos mal orientados que tentavam “batizar” catecúmenos mortos, fazendo a profissão de fé no lugar deles e, após, aspergindo os corpos com água batismal. Essa prática foi condenada pelo terceiro Concílio de Cartago em 397.

Em segundo lugar, devemos compreender bem o que é o batismo de desejo. Santo Agostinho diz que a recepção do batismo de água pode ser suprida apenas de duas maneiras: pelo martírio e pela fé e conversão do coração (De Baptismo contra donatistas, IV, 22, 25). Isso significa que uma pessoa não-batizada que, sem culpa sua, não tem como receber o batismo sacramental, ainda pode receber a graça santificante através de um ato de perfeita caridade ou de uma contrição perfeita pelo pecado, atos que, em si mesmos, ao menos implicitamente, incluem o desejo de receber o sacramento, na medida em que eles incluírem o desejo de obedecer a todos os mandamentos de Cristo.

Pio XII, dirigindo-se às parteiras italianas em Outubro de 1951, claramente diz que tal ato de amor é suficiente para o adulto obter a graça santificante e para suprir a falta do batismo. Mas quanto ao nascituro e ao recém-nascido, esta via não está aberta. Na atual economia da salvação, além do batismo sacramental [de água], não há nenhuma outra maneira de comunicar essa vida à criança que ainda não atingiu a idade da razão. Isso é exatamente o que ensinava São Tomás de Aquino: antes de receber o batismo sacramental, as crianças não têm o batismo de desejo; apenas os adultos podem tê-lo (Summa Theologica, III, q. 73, a.3). Portanto, não, não existe batismo de desejo para o nascituro.

O que fazer quando precisarmos usar o computador?

Não apenas os jovens, mas também adultos de todas as idades são confrontados com o uso necessário desses aparelhos, seja para o trabalho ou para o estudo, e, portanto, devem ter bom senso e ser sinceros com eles mesmos em uma série de aspectos.

 

Primeiramente, é necessário estabelecer algumas medidas práticas que nos ajudam a permanecer no curto e apertado caminho do uso legítimo dessas tecnologias: 

Defina limites de tempo para esse uso. Siga uma rotina diária.

Defina limites para o uso – negócios, trabalho, estudos, e-mail, buscar informações necessárias, algumas compras. Não use para fins de “diversão”. Fique longe das “redes sociais”.

Se buscar informação, uma vez que a tenha encontrado, imprima-a, para que você não fique dependente da tela do computador e, ao mesmo tempo, evite perder tempo com assuntos paralelos, outras páginas, que só servirão para o distrair de seu propósito original.

Peça à sua família e a amigos que o ajudem a manter-se nos limites que você fixou, até puxando-o para fora do computador se for necessário. Para maior segurança moral, dê suas senhas para um membro da família ou um amigo.

Mas também precisamos disciplinar-nos em um nível mais profundo, indagando-nos acerca da vigilância necessária à nossa vida moral e espiritual.

Como eu deveria usar esse aparelho de uma maneira que mantenha meu intelecto aberto ao verdadeiro conhecimento e aos esforços para obtê-lo?

Como manter minha cabeça no lugar através de meios naturais para reter minha liberdade de julgamento?

O que eu devo fazer para evitar cair na preguiça intelectual e acabar sendo negligente com os livros e com a cultura?

Quais regras devo definir para mim mesmo para me manter no plano do estritamente útil e promover relações equilibradas e genuínas com minha família e meus amigos?

Há mudanças que devo fazer para me manter longe de certas ocasiões de pecado?

Refletir sobre um dever de estado omitido, ou praticado em intervalos; enorme quantidade de tempo desperdiçado; tempo demais dedicado à diversão.

Refletir sobre relacionamentos que podem ser perigosos para mim;

Refletir sobre o dano que eu poderia causar (ou que aceito ver sendo causado) à reputação de outros;

Refletir sobre a vida familiar, que pode ser enfraquecida ou comprometida;

Refletir sobre a virtude da pureza;

Refletir sobre a negligência com a vida espiritual.

Apenas se tivermos essa disciplina de vida podemos tirar vantagem do enorme progresso na tecnologia, seja para nosso trabalho, seja para promover a contrarrevolução; Esse uso saudável da tecnologia só é possível se nossa alma estiver treinada no combate espiritual. Se não, ela corre o risco de se perder na torrente de distração e de paixões desordenadas. Sem um verdadeiro aprofundamento da vida interior, desvios vão continuar a invadir nossas vidas. Imponhamo-nos silêncio a nós mesmos, momentos de solidão, de leitura, de reflexão; voltemos à realidade! Entreguemos nosso tempo a Deus

Como controlar o uso de aparelhos eletrônicos e internet?

O computador deve estar em uma área compartilhada da casa – jamais em um cômodo isolado. Dessa maneira, é fácil saber quem o está usando, para que e por quanto tempo. Essa falta de “privacidade” é um bom obstáculo para qualquer uso impróprio.

Nada mais apto a barrar a virtude que distribuir acesso à Internet sem fio para toda a casa, pois isso tornaria fácil que nossas crianças acessassem a Internet em seus celulares, tomassem o nosso emprestado ou o de um amigo que esteja na casa… E, uma hora ou outra, esse uso vai desbordar para o mal.

Limitar o tempo e o propósito do uso. Não podemos nos deixar absorver por esses aparelhos, e precisamos aprender a ligá-los apenas para uma quantidade de tempo especificamente. Quando usamos esses aparelhos, devemos nos perguntar se isso é necessário ou não no momento presente. Como em qualquer comportamento humano onde a paixão poderia dominar, devemos ter um verdadeiro espírito de penitência, e, portanto, devemos restringir-nos em certas coisas.

Na infância, até os 12 anos de idade, não há razão legítima para permitir que uma criança gaste tempo em frente a um computador. Um jogo – um jogo na realidade, se possível fora de casa – é o processo normal de [a criança] despertar para o mundo ao redor dela. Quando ela fica mais velha, acesso ao computador deve servir como iniciação para o que é útil, como trabalhar com editores de texto ou com fotografias. Mas mesmo essas experiências não devem ser prolongadas, nem fora da presença eficiente e atenciosa dos pais.

Restringir o tipo de aparelho ao qual seus filhos têm acesso. Se uma criança tem seu próprio smartphone ou tablet, não deveria ser surpreendente que eles veem filmes ou jogam jogos duvidosos escondidos dos pais!

Um leigo pode ter um diretor espiritual?

O Padre Tanquerey, no seu livro A Vida Espiritual, enumera quatro meios principais de perfeição que, normalmente, são necessários para a santificação das almas. Direção espiritual é o primeiro deles, pois “fornece uma orientação segura” (p. 257). Ele prossegue explicando que, embora a direção espiritual não seja absolutamente necessária para a santificação da alma, ela, ainda assim, é “um dos meios comuns de progresso espiritual” (ibid.).

O erro daqueles que sustentam que não precisamos de direção espiritual, na verdade, está bem refutado pelo Papa Leão XIII, na sua encíclica de 1899 condenando o Americanismo, Testem Benevolentiae. Censurando os inovadores, que colocam as virtudes naturais acima das virtudes sobrenaturais e as virtudes ativas acima das virtudes passivas, ele se baseia no todo da tradição católica sobre a vida espiritual e em como essa inovação é uma recusa de ser dirigido por nossos maiores. Ele invoca, para defender seu argumento, o exemplo de Saul no momento de sua conversão. A ele foi dito que se dirigisse a Damasco, para encontrar Ananias, “e lá vos será dito o que vós deveis fazer” (At 9, 7). O Papa prossegue explicando que Deus normalmente opera sobre os homens através do intermédio de outro homem, assim como o diretor espiritual atua sobre aqueles que confiam nele: “Deus, em sua infinita Providência, decretou que os homens, em sua maioria, devem ser salvos por homens; assim, Ele determinou que aqueles que são chamados a um grau mais elevado de santidade devam ser dirigidos a esse fim por outros homens, ‘para que’, como diz Crisóstomo, ‘sejamos ensinados por Deus por meio dos homens’” (As Grandes Cartas Encíclicas do Papa Leão XIII, p. 447).

Todos os autores espirituais falam sobre a necessidade de um diretor espiritual na vida religiosa, pois esta é um estado de perfeição e o religioso tem a obrigação de tender para a santidade e, consequentemente, [a obrigação] de ter um guia para o guiar e protegê-lo dos perigos e dos enganos do orgulho, da ilusão, do autoengano, de mortificações exageradas, de escrúpulos e coisas do gênero.

A questão é quanto às pessoas no mundo, que dizem não ter a mesma obrigação de tender para a perfeição. Certamente é verdade que eles não têm a obrigação especial dos votos, mas ainda têm a obrigação da vida cristã em si, contida no dizer de Nosso Senhor, “sede em tudo perfeitos como perfeito é Vosso Pai Celestial” (Mt 5, 48). Pois aquele que não avança na caridade, certamente retrocede. A vida interior não é estática.

São Francisco de Sales, o diretor espiritual mais renomado, em sua Introdução à Vida Devota, considera essa uma questão de grande importância: “Quereis avançar no caminho da perfeição e do amor de Deus? Então buscai alguém que possa dirigi-lo. Esse é o conselho mais importante que posso dar-lhe. Busque como quiser, jamais encontrarás a vontade de Deus com tanta segurança quanto no caminho da humilde obediência” (Livro I, Capítulo 4).

A direção espiritual geralmente vem em conjunto com a confissão, e é aconselhado a moças que a façam ali, nessas ocasiões. Ainda assim, não são a mesma coisa: a direção espiritual vai muito além. “A confissão se resume à acusação dos pecados; a direção vai bem além disso. Ela alcança as causas do pecado, inclinações enraizadas, temperamento, caráter, hábitos adquiridos, tentações, imprudências. Tudo isso para descobrir os remédios adequados, para ir às raízes do pecado. Para combater defeitos da melhor maneira; a direção também se ocupa das virtudes opostas aos pecados, das virtudes comuns a todos os cristãos, e daquelas peculiares a cada classe particular de pessoas...” (Tanquerey, p. 262)

Como consequência, o simples fato de ir regularmente à confissão não é uma direção espiritual. Precisamos pedir ao nosso confessor que dirija nossa alma, encoraje-nos adiante, dome nossos impulsos imprudentes e seja médico da alma: “Por que desejaríamos ser diretores de nossas próprias almas se não fazemos o mesmo com nossos corpos? Acaso não percebemos que os médicos, quando doentes, chamam outros médicos para determinar quais remédios são necessários?” (Tanquerey, p. 260).

Uma alma que esteja num momento de tomar decisões importantes na vida, ou uma alma que veementemente deseja crescer na vida interior precisa de um guia espiritual. Ele não precisa ser nosso confessor regular, mas precisa ser um Padre que entenda nossa alma com todas as suas falhas, fraquezas e mesquinharias. De que outra maneira ele poderia ser nosso médico? Embora não possamos esperar ter um Santo como diretor espiritual, que ele ao menos seja um homem de Deus que tem o conhecimento necessário de teologia ascética e mística. Ele também precisa entender as almas em razão da experiência acumulada em anos de confessionário. Finalmente, ele deve ser um Padre cheio de zelo divino que tenha em seu coração nosso progresso espiritual. Dificilmente podemos esperar direção espiritual adequada dos Padres imbuídos dos erros do Vaticano II e do modernismo pós-conciliar, que enfraqueceram toda busca pela santidade.

Membros de Ordens Terceiras devem considerar um meio necessário para o avanço na perfeição que tenham um Padre como diretor espiritual, que entenda profundamente a espiritualidade das suas ordens e que, preferencialmente, seja membro dela. Eles [membros de ordens terceiras] não devem cair na armadilha de buscar direção espiritual entre eles mesmos, mas de alguém que tenha essa responsabilidade perante Deus. Se se diz que o primeiro diretor espiritual de uma esposa é seu bom e prudente marido, também é verdade que uma mulher verdadeiramente espiritual precisa, também, de um segundo guia que, apenas ele, tem a graça de estado de confessor e diretor de almas. Ela avançará na perfeição se encontrar um pai espiritual que, em suas confissões regulares, encorajá-la-á a lutar contra suas falhas e buscar agradar seu marido em todas as coisas.

Quem é meu filho?

A mãe se debruça sobre o berço de seu filho: “Aqui está meu pequenino, a quem amarei, cuidarei e educarei pelos próximos vinte anos. Quem é você, pequeno Pedro, que foi confiado a mim por Deus?”. Com efeito, essa é uma questão fundamental. Quem é esse pequeno homem? Da resposta à essa questão depende a escolha do tipo de educação que ele irá receber. Se a resposta for de acordo com Jean-Jacques Rousseau (“A criança é boa por natureza”), ela será educada segundo os padrões da sociedade atual. O resultado, lamentavelmente, não é muito empolgante.

 

DAS SENSAÇÕES À INTELIGÊNCIA

Santo Tomás de Aquino baseou-se no filósofo grego Aristóteles ao dizer que o Homem é um “animal racional”. A mãe protesta: “Meu Pedrinho não é um animal!”. Não; claro que não! Há um abismo entre um felino e um homem: a inteligência. O pequeno Pedro, porém, tem um corpo e seus sentidos — e são esses que solicitam primeiramente a atenção dos pais. Ele precisa receber cuidados físicos, mas desde o início de sua vida, há os bons hábitos que também necessitam ser-lhe transmitidos. Essas são as primeiras bases da educação: ter uma rotina regular para as refeições e a hora de dormir, aprender a obedecer sem chorar, não pôr o dedo na tomada elétrica (e, caso o faça, receberá um tapinha na mão), sentar reto numa cadeira sem se contorcer etc.

É claro que não limitaremos seu desenvolvimento a isso porque sua inteligência e sua vontade precisam ser formadas. Porém, é somente de forma gradual que sua inteligência floresce. É também de forma gradual que a criança adquire a linguagem, que é a ferramenta do pensamento, e que será aperfeiçoada desde a infância até as dissertações filosóficas próprias do último ano escolar. Pouco a pouco ela adquire o hábito do julgamento e da reflexão, e terá muitos momentos de tentativa e erro antes de chegar aos pensamentos que serão totalmente seus. Por esse motivo faz-se necessária uma adaptação da educação à capacidade de compreensão da criança. No início, os pais é que pensam por ela, pela sua incapacidade de fazê-lo sozinha. É inútil dizer a uma criança de três anos que ela precisa comer feijão “porque esse alimento contém vitaminas indispensáveis ao seu crescimento”! É mais eficaz dizer apenas “Coma o feijão ou não terá sobremesa”. Pronto. O resto seria supérfluo. O que a criança é capaz de entender com essa idade, e o que precisa aprender, não são os princípios da boa nutrição, e sim que os pais mandam e o filho obedece. Somente mais tarde a criança entenderá que tudo isso é para o seu bem. 

Obviamente, quanto mais a criança cresce, mais receberá as explicações necessárias. Um adolescente não obedece simplesmente porque seu pai mandou. Mas o que ele precisa, entretanto, é de explicações, e não de justificativas. Uma autoridade não precisa “justificar” em detalhes os motivos de suas ordens. Os pais dão as ordens por serem os responsáveis, perante Deus, pela criança a eles confiada. Porém, para que as crianças obedeçam, é necessário dar-lhes alguns motivos e circunstâncias — afim de que aprendam, com isso, a caminhar sozinhas quando adultas. Por exemplo: “Não, Pedro, você não vai passar o fim de semana com o Kevin. Ele tem uma coleção enorme de video games e vocês passariam o tempo todo jogando. Você sabe bem o que penso desses jogos! Convide-o para vir até aqui. Ele pode se beneficiar do contato com um ambiente familiar sadio. O valor de uma amizade é medido pelo bem que um proporciona ao outro”. Esse exemplo poderia ser utilizado como uma boa ocasião para pai e filho conversarem sobre amizades verdadeiras.

Tomem cuidado! Mesmo que a criança ainda não saiba se expressar bem, a inteligência está nela; e os menores compreendem o que dizemos muito mais do que pensamos. Cuidado com os comentários feitos entre adultos sobre as crianças, porque elas certamente estão ouvindo, sem aparentar fazê-lo. “Minha amiga, como a Ágata está bonita com esses olhos azuis e esses cachinhos! E o vestido que você mesma costurou! Ela é adorável!”. Observe que esse tipo de declaração nunca deixa de ser ouvido...

 

DO PECADO À GRAÇA

Não teremos completado a descrição da criança dizendo apenas que é um animal racional. Pedrinho também é filho de Adão, marcado pelas consequências do pecado original. Após seu Batismo, foi elevado à categoria de filho de Deus e ao estado sobrenatural pela graça santificante, e destinado à vida eterna.

Pedrinho é marcado pelo pecado original, e pela tendência ao mal que dele decorre, como infelizmente se observa desde a mais tenra idade; isso é uma verdade muitas vezes confirmada pela experiência. As primeiras birras surgem muito cedo. Desde os seis meses, a criança já é capaz de criar complicações injustificáveis. Emília, por exemplo, cai no choro assim que sua mãe a coloca no berço, fazendo com que precisem pegá-la. Ela só dorme quando está no limite da exaustão. João tem fome de sobremesas, mas não de espinafre; está sempre cansado quando é hora de arrumar seu quarto, fazer lições ou ajudar sua mãe. Sua vitalidade reaparece, porém, quando quer jogar futebol ou implicar com sua irmãzinha. Sem falar na capacidade incrível que possui de inventar mentiras para soar importante. Não; não importa o que Rousseau disse, ao afirmar que o homem é naturalmente bom. Seria um crime deixar uma criança fazer exatamente o que quer e quando quer. Pobres crianças de hoje a quem nunca lhe negam nada e não são nada além do objeto de seus impulsos e suas paixões desenfreadas! Ao se tornarem adultas, perceberão que são essas mesmas paixões que as destróem (preguiça, impurezas, ambição, álcool, prazeres etc.). Porém, acorrentadas aos maus hábitos por vinte anos, já não possuem forças para resistir a eles.

Por sorte a graça de Deus está presente nas almas dos batizados para curar, pouco a pouco, essas tendências más e elevá-las às alturas de futuros habitantes do paraíso. Uma criança batizada abre-se muito rápida e espontaneamente para o universo sobrenatural. Ela prontamente sopra um beijo para Jesus antes de dormir — sinal de suas futuras orações noturnas. Há todo um universo sobrenatural no qual mergulha de cabeça. A história de Jesus e Maria chama a alma ungida pela graça a explorar os mistérios divinos. A prática do bem é outra motivação. Quanto entusiasmo a jovem alma mostrará ao perguntarem a ela: “O que você fará durante a Quaresma para consolar Jesus, tão triste por causa dos nossos pecados? Você fará um esforço e limpará seu quarto toda noite sem que eu precise mandar? Isso deixará Nosso Senhor muito feliz”. Para ajudar os missionários, por exemplo, as crianças podem ficar sem presentinhos e enviar o dinheiro que seria destinado a eles, com a ajuda dos pais, para missões em países pobres. Para converter os pecadores ou livrar almas do purgatório, crianças são capazes de grandes atos de generosidade. Cabe aos adultos provocar, encorajar e canalizar esses atos. No Batismo, essa vida de fé planta nas almas as sementes e precisarão de uma educação abundante para se desenvolverem integralmente: os bons exemplos, as orações em família, a educação religiosa e o recebimento dos sacramentos…

Dividido entre tantas tendências contrárias (É um animal; porém é inteligente. Pecador; porém assistido pela graça), como no surpreender que a alma de uma criança lembre por vezes um campo de batalha, onde tendências opostas se confrontam? É aqui que se encontra o equilíbrio da educação: ao nos darmos conta, como adultos, de que o pequeno indivíduo necessita compreender que é um general pronto para o combate. Ele deve assumir a responsabilidade de suas lutas durante a vida, para que a graça triunfe no objetivo de santificá-lo.

É possível acrescentar uma intenção a um terço já rezado?

É verdade que, em todas as nossas orações, assim como nas Missas a que assistimos, podemos ter várias intenções e que cada intenção adicional não diminui as outras. No entanto, o bom senso indica que a intenção deve preceder o ato, pois, se assim não fosse, ela não poderia dar o propósito ou a moralidade ao ato, nem poderia ser a causa final pela qual o ato é praticado. Se praticamos um ato de bondade, é pelo fim pelo qual ele foi praticado (finis operantis), que é a principal circunstância que determina seu valor e seu mérito. O mesmo pode ser dito de nossas orações e terços. As intenções são a razão pela qual praticamos esses atos, e, consequentemente, se queremos que elas tenham alguma influência nas nossas orações, devem ser formuladas preferencialmente no início, mas pelo menos antes do fim dessas orações ou terços. De outra maneira, elas não poderão ser consideradas como sendo as intenções dessas orações.
 
Esse princípio é confirmado pelo ensinamento dos teólogos morais acerca das intenções de um Padre que oferece o Santo Sacrifício da Missa. A intenção pela qual a Missa é rezada deve ser formulada antes da Missa. Ela não precisa ser formulada imediatamente antes, mas pode ser formulada com boa antecedência. O mais tardar, no momento em que a essência do sacrifício da Missa acontece, ou seja, durante o Cânon da Missa, antes da segunda consagração. De outra maneira, não se poderá considerá-la uma intenção pela qual a Missa foi rezada (Prummer, Man. Th. Mor: III. p. 183)
 
De maneira semelhante, o fiel deve formular as intenções de seus terços, orações e Missas antes do início, ou ao menos quando começam esses exercícios. É boa coisa ter uma intenção geral além das intenções particulares, como, por exemplo, por tal e tal pessoa doente. Essa intenção geral pode ser por todos aqueles que se recomendam às nossas orações, ou pela Igreja e pelas almas necessitadas. Outro tipo de intenção geral que se recomenda é aquela descrita por São Luís Maria Grignion de Montfort na prática da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora, qual seja, praticar todas as nossas ações e orações por Maria como nosso fim próximo, isto é, pelas intenções dela, pois, assim, damo-lhe o valor de todas as nossas boas ações e entregamos a ela pleno direito de dispor delas. Se essa é nossa intenção geral, não precisamos nos preocupar se não mencionamos uma intenção particular, seja porque nos esquecemos dela ou porque não a conhecíamos. Pois já que Maria, na glória do céu, conhece todas essas intenções, ela pode aplicar os méritos de nossas orações a essas intenções, e jamais teríamos que nos preocupar se houve alguma intenção que deixamos de mencionar e à qual precisamos aplicar nossas orações retroativamente.

É lícita a caça ou a pescaria? Moralmente falando, é preciso obter permissão legal para pratica-las?

Deus deu ao homem domínio sobre todas as criaturas, incluindo animais, o que permite que sejam usados pelo homem para propósitos justos, como alimentação, vestimenta, experimentos científicos, trabalho e mesmo lazer. Caçar e pescar por esporte enquadra-se nesse aspecto de lazer e recreação. Por outro lado, crueldade desnecessária com animais é pecaminosa, não porque viola supostos "direitos" dos animais (que não existem na realidade, pois apenas seres racionais podem ser sujeitos de direitos), mas porque macula a dignidade do homem como ser racional e como administrador da criação de Deus.

Como Deus deu os animais para o uso de todos os homens e também das gerações futuras, as autoridades civis — ministros temporais de Deus — têm o dever de garantir que os animais serão preservados, e não arbitrariamente eliminados, o que facilmente ocorreria se não houvesse regulações.

Nos nossos tempos, esse dever é exercido através das leis civis que regulam o tempo, o lugar e a espécie de animais que podem ser caçados ou pescados. Essas leis são impostas para cuidar de certos elementos particulares do bem comum dos homens — a preservação da vida selvagem, que foi criada para todos nós, e a garantia da vida humana e da propriedade.

Sendo esse o caso, as leis civis regulando a caça e a pesca esportivas são verdadeiras leis, de acordo com a definição tomista: "uma ordenação da razão, criada para o bem comum e promulgada pela autoridade responsável pela comunidade".

Portanto, sim, se alguém pratica pesca ou caça esportiva, há um dever moral de observar essas leis. Elas vinculam a consciência — ou seja, negligenciá-las e feri-las é um ato pecaminoso. Apesar disso, nem todas elas vinculam sob pena de pecado mortal, mas a depender da gravidade da matéria.

A piedade na família

I. Ponto de vista da questão.

Quando lamentamos a indiferença e a impiedade que crescem a cada dia no mundo atual; quando fixamos horrorizados os olhos no quadro tristíssimo que os costumes públicos hoje nos oferecem, rara é a vez em que, ao investigar as causas de espetáculo tão desolador, as procuramos em sua primeira origem, qual seja, a desordem que há anos vem se introduzindo na família. No entanto, é nessa sociedade menor, mais do que em qualquer outra parte, que se devem procurar os males da sociedade maior, e é a ela também que se devem aplicar os remédios. As teorias sociológicas retumbantes, como as atuais, não curarão o mundo, tampouco os debates sublimes ou os discursos mais ovacionados do parlamento e da academia. O saneamento deve começar por onde a gangrena começou, e é a família o organismo social mais atingido – mais atingido do que qualquer outra instituição.

Há anos se vem observando, dolorosamente, que a sociedade está se descristianizado. Sabem por quê? Porque se encontram pouquíssimas famílias cristãs. Essa afirmação parecerá ousada; contudo, não nos é difícil repeti-la, de novo e de novo. Sim, encontram-se pouquíssimas famílias cristãs no mundo atual.

Como! - diria alguém, alarmado: porventura não são batizados, graças a Deus, todos ou quase todos os filhos da Espanha? Não se sucedem as gerações sob as bênçãos de Cristo, que sanciona os matrimônios? Não se vive e morre em nossas casas à sombra da cruz?

Sim, tudo isso é verdade, o que não impede que também seja aquela minha afirmação, que tão ousada lhes pareceu. Encontram-se pouquíssimas famílias cristãs no mundo atual. Ouçam-me com alguma atenção, meus amigos, e talvez o assombro se desvaneça.

A família cristã, como a chamo, não é somente a família em que cada um de seus membros isoladamente seja cristão; não é somente a família que, para casar, nascer e morrer, cuida em conservar o uso do carimbo oficial da Igreja Católica, que intervém nesses atos da vida, em vez de recorrer à polícia ou ao registro civil. Para ser cristã, uma família deve professar algo para além dessa religião que se poderia apelidar de oficial e característica dos atos solenes, dessa religiosidade de meras práticas individuais, que cada um exerce por sua conta e razão, sem participação na vida coletiva da sociedade doméstica. Assim como não é católico o Estado cujas leis e cujos órgãos não estão inflamados de espírito católico, que não é obediente aos preceitos católicos e fundamentado nos princípios da verdadeira ortodoxia católica, por mais que delegue funcionários bem uniformizados para assistir a um cerimonioso Te Deum, ou mande celebrar exéquias pomposas, com orações fúnebres e tudo o mais; assim também, por mais que os filhos tenham nomes de santos, por mais que os defuntos descansem em túmulos consagrados e tenham os vivos uns laivos de obediência à Igreja, não se pode chamar de cristã a família que – no conteúdo, na trajetória e na vida do lar doméstico – não se harmonize com os documentos fundamentais da fé cristã, não se inspire neles e a eles não obedeça.

Digam-me, então: Quantas famílias hoje vivem assim?

A família moderna está perdendo aquele aroma puro que sempre vivificou a tradicional família espanhola: o aroma da piedade. Conheço muitas casas em que não é possível chamar a ninguém de incrédulo. Ninguém – nem o pai, nem a mãe, os filhos ou os sobrinhos – renegou a fé. Todos são vistos de vez em quando na Missa, e todos têm certidões de batismo, confirmação e casamento no arquivo paroquial. No entanto, essa fé, que sem dúvida se aninha em todos os corações, não se vê na casa, nem se reflete na vida doméstica: um protestante ou um ateu pode permanecer ali por dias sem que se sinta mortificado pela falta de crença ou a preocupação anticatólica. Os indivíduos são católicos, mas – oh, que pena! – a casa não é.

O tema “A piedade na família”, com o qual nos ocuparemos nas páginas seguintes, indica o aspecto da questão doméstico-religiosa que nos propomos a desenvolver. Nossos leitores podem ir refletindo desde já se esse tema é ou não é oportuno. Para nós, ele parece muito conveniente e apropriado ao apostolado benfazejo que todo propagandista católico deve procurar exercer nos lares espanhóis.

 

II. Por onde se começa com uma pergunta aparentemente ridícula, embora muito importante, no fundo.

Mas — perguntaria alguém — Deus tem o direito de reinar na família?

Por mais ridícula que seja a pergunta, não estranhem que comecemos o capítulo por ela. Hoje, tudo o que se refere aos direitos divinos é matéria de discussões. O homem se agarra tanto à própria vontade e soberania, que alimenta um temor perene de que elas sejam cerceadas por algum desmedido direito que se atribua a Deus. Este temor é a mania, ou melhor, a heresia do século, cujo nome é tão conhecido que não precisamos mencioná-lo aqui. Portanto, antes de começarmos a examinar se a família deve buscar o reinado de Deus pelo exercício da piedade, precisamos informar-nos de se Cristo-Deus tem ou não tem o direito de nela reinar.

Ainda que doa a quem doer, e se limite a liberdade indômita de quem quer que seja, afirmaremos que sim. Primeiro, porque Deus é Deus, e tem todos os direitos. Logo, não lhe pode faltar este. Segundo, porque Deus é rei em todos os lugares, e não há privilégio nem imunidade que eximam o domicílio do homem desta jurisdição real. Terceiro, porque, se Ele é o dono do homem, e tem direito absoluto a reinar sobre ele e seus costumes, tem, por conseguinte, direito a reinar, mais do que em qualquer outro lugar, no lar doméstico, onde se formam os homens, pois é nele sobretudo que se moldam os costumes.

Dessas três razões, as duas primeiras são evidentes por si mesmas, à guisa dos axiomas matemáticos, e é portanto ociosa a demonstração. E mais: de tão verdadeiras, são indemonstráveis. Passemo-las, pois, por alto, e finquemos pé na terceira, que oferece caráter mais prático e tem aspectos que se relacionam mais de perto com o nosso apostolado.

Com efeito, Deus instituiu desde o princípio a sociedade doméstica, para que fosse criadouro e viveiro das gerações humanas, não somente quanto ao aspecto material e físico, mas muito especialmente quanto ao aspecto moral. O varão e a mulher não se unem em matrimônio apenas para ter filhos, visto que essa finalidade única rebaixaria a nobilíssima instituição matrimonial a funções animais e rasteiras. Ambos se unem em matrimônio para ter filhos bons, o que, depois da revelação de Cristo-Deus, equivale a dizer: para ter filhos cristãos, ou seja, para constituir uma família cristã. Essa é uma verdade que nasce de outra, não menos fundamental e sólida: a de que os filhos são criados não para a terra, mas para o céu, e a de que os pais não são pais somente dos corpos, mas dos corpos unidos às almas. Portanto, a paternidade não deve almejar somente que os filhos saiam roliços e belos, nem muito instruídos e gentis, e nem mesmo muito ricos e ilustrados, e sim muito aptos ao fim último a que estão destinados, que é, segundo o sábio catecismo, “amar e servir a Deus nesta vida, para vê-lo e gozá-lo na outra”.

Essa é uma noção elevada demais para que a aceitem as gentes modernas, cujos ideais – até em matérias tão sublimes – conservam num nível baixo e rasteiro. Embora elevada demais, é a única noção que a boa filosofia cristã admite, e a única que se praticou durante os séculos em que a família se constituiu segundo os preceitos cristãos. Essa é a verdade, e o resto é absurdo naturalista e embuste mentiroso da Revolução. Os pais existem para dar os filhos ao céu antes de dá-los à terra. Não importa que precisem passar pela terra antes de ir ao céu, pois é preciso passar primeiro pelos meios antes de chegar ao fim, ainda que logicamente se prefira o fim aos meios. O certo é que sejam criados não para este mundo, porque a missão não termina aqui, mas sim para o outro, que é o destino definitivo.

Assentada essa verdade, depreende-se daí que o lar deve ter um caráter cristão para que os filhos saiam cristãos, assim como é preciso que o molde seja adequado à figura que se deseja extrair dele. A casa deve, pois, ser o caminho do céu, se quiserem que os indivíduos que morem nela e percorram os seus caminhos cheguem ao céu – a menos que se repute normal chegar a certo lugar percorrendo um caminho que dê em outro, diametralmente oposto. Deduz-se daí que o Cristo-Deus deve reinar no lar como reina em todas as partes, sendo este o princípio do seu glorioso reinado sobre a vida do homem, que é criatura sua.

Para ser mais claro e conciso: ou Deus não tem direito nenhum sobre o homem, e nesse caso não é Deus, ou Deus tem um direito muito especial sobre o lar e a família, porque é por aí que deve começar a exercer seus principais direitos sobre o homem.

Isso tudo talvez pareça muito metafísico a alguns leitores ingênuos dos nossos folhetos. Tenham paciência e esperem. Acabamos de apresentar o princípio e fundamento de todo o nosso plano; agora os senhores passarão a ver as consequências, simples e práticas, que decorrem desse princípio nos capítulos seguintes.

Conste desde já que, se alguém quiser pôr em dúvida o direito absoluto de Deus de reinar sobre a sociedade doméstica, visto que hoje infelizmente já se proclama que Ele não tem direito de reinar sobre a sociedade civil – esse alguém se limita a reafirmar um barbarismo liberal da pior espécie, oposto tanto à Religião quanto à sã filosofia e ao bom senso.

 

III. Do caráter prático que, acima de qualquer outra educação, possui a educação no lar doméstico.

Cristo-Deus tem direito de reinar sobre a família porque tem direito de reinar sobre o homem, e o homem, de ordinário, nasce e cresce na vida moral segundo o molde moral em que se enquadra os atos de sua vida – e a família ou lar doméstico é esse primeiro molde moral. Para falar de modo mais direto: para ser cristão, o homem deve ser formado segundo uma educação cristã, no seio de uma família constituída de maneira cristã; não há outro modo de se tornar cristão, a não ser por milagre especialíssimo de Deus, o que por si só é exceção, e não regra. 

Deve, pois, ser cristã a família que se dedica a formar cristãos, e deve ser cristã na prática. Porque a família é uma escola, não de sistemas, mas de costumes; não de discussões, mas de hábitos; não de árduas e áridas especulações do entendimento, mas de singelas e suaves inclinações do coração. Na família não se instrui o homem raciocinando, ou argumentando, ou contrapondo razões, mas vivendo, aprendendo e imitando os bons exemplos. Por isso, vê-se muitas vezes que pais estimados por muito sábios se revelam educadores medíocres dos filhos, ao passo que outros, muito rudes e iletrados, os educam maravilhosamente. Assim é porque nessa escola ensina melhor quem melhor obra, não quem sabe mais; do mesmo modo, não aprende mais quem ouve as coisas mais belas, mas sim quem presencia as melhores ações. A Religião, mais que tudo, se aprende mais com a prática do que com discursos. Sobre o alicerce da boa e leal prática religiosa assentam-se as razões e argumentos que a ilustram e esclarecem, e que a confirmam cientificamente em sua divina verdade. Mas, primeiro, cumpre abraçá-la com coração amoroso, e somente depois lhe compreender os ensinamentos de modo correto e preciso, com todas as luzes da inteligência apoiadas na fé. Esse procedimento, que parece invertido, é aqui o único lógico e natural. Credo, ut intelligam, dizia um grande Doutor da Igreja: “Creio primeiro, para entender depois”. Com igual razão, poderia ter dito: Amo, ut credam et intelligam: “Começo por amar e praticar com fervor, para bem crer e entender”.

Dado o caráter prático que a educação cristã deve ter e, por conseguinte, o caráter de cristianismo prático que a família deve ter – família que precisa ser a principal escola desse gênero de educação –, já não parecerá estranho que tenhamos intitulado estas notas de “A piedade na família”, e não “A religião, ou o Cristianismo, ou o Catolicismo na família”. Escrevemos “A piedade”, e julgamos que escrevemos bem, e que contamos com um forte fundamento filosófico.

Com efeito: Que é a piedade? Essa palavra, que a tantos espanta, significa apenas “a Religião na prática”, ou “a prática fiel e amorosa da Religião”. Ambas as definições vêm a dar no mesmo, embora a segunda seja mais clara. Depois de muito prestar atenção na piedade e nas pessoas piedosas, concluímos logicamente que ninguém pode ser bom cristão se não for cristão na prática, com amor e fidelidade às práticas cristãs; em conseqüência, ninguém pode ser bom cristão se não for perfeitamente piedoso. De modo que a piedade, a tão aborrecida e difamada vida de piedade, não é uma coisa só de padres e monges, ou de alguma senhora desenganada do mundo, ou de algum homem enfadonho e mal-humorado... De jeito nenhum! A piedade é, simplesmente, o dever de todo homem e toda mulher – que não for judeu ou gentio –, do homem que não se resigna a abandonar a fé do batismo; a piedade pertence a todos os estados, a todas as carreiras, a todas as idades, porque é simplesmente a Religião na prática, e não há estado, nem carreira, nem idade que  possa eximir-se da pratica da Religião.    

Daí concluímos que a família deve ser cristã na prática e, para tanto, deve ser perfeitamente piedosa; portanto, a piedade na família não é uma coisa que se possa licitamente deixar de lado, como um grau de maior perfeição que se pudesse livremente renunciar. Antes, ela é o primeiro dever, o dever fundamental, o dever religioso e essencial, o dever que abrange e sustenta todos os demais deveres domésticos, o dever sem o qual desaba toda a trama desse delicadíssimo edifício privado e, em decorrência, de todo o edifício social.  

Parece-nos que esse ponto já está provado o suficiente; por isso, podemos repousar antes de passar às aplicações consequentes.

Entretanto, cada um dos nossos estimados leitores pode começar a deduzi-las por si mesmo. E, sem dúvida, a primeira que lhes ocorrerá é que uma casa piedosa ou, o que dá no mesmo, uma casa cristã, se reconhece pelos mesmos sinais que distinguem um homem ou uma mulher cristã de um homem ou uma mulher não cristã. Como diz a máxima: “Dinheiro e amor ninguém consegue esconder”. O mesmo fenômeno acontece com o tesouro da Fé e o nobilíssimo amor pelas coisas da Fé: quando alguém os tem, é dificílimo ocultá-los; quando alguém de fato não os tem, é dificílimo fingi-los. 

A pessoa ou a casa piedosa proclama a própria virtude, sem fazer o menor esforço, por meio do aparato e da fisionomia exterior. Enxerga-se o espírito de fé prática, que influi em todos os seus atos, a uma légua de distância. Esses atos trazem Deus consigo, e Deus, como lume vivíssimo, irradia-se com todo o ser no mais puro esplendor.

 

IV. Aplicações mais concretas da doutrina anterior.

Uma vez demonstrado que, no cristianismo, a família, (pois dela falamos e a ela nos dirigimos), deve ser piedosa, agora é possível averiguar como ela deve ser piedosa ou, o que dá no mesmo, quais devem ser as formas da piedade. Temos aqui um largo campo a percorrer, um vastíssimo horizonte ante o nosso olhar; uma selva frondosa de reflexões nos convida, por assim dizer, a escolher. Portanto, para dar alguma unidade ao que possamos dizer sobre o tema, comecemos por propor a divisão tão conhecida dos atos de Religião, que se referem uns diretamente a Deus, outros diretamente a nós mesmos. Assim a família cristã, para que de fato seja cristã, quer dizer, para que seja cristãmente cristã, por mais que pareça redundante a expressão, precisa fazer com que se cumpram com bondade e perfeição estes deveres: o dever para com Deus, e o dever para com os próprios membros.

Temos assim uma rota traçada e um plano delineado. Vamos desenvolvê-lo com brevidade e ligeiras indicações.

Dever para com Deus. Esse é o primeiro dever do homem, e é, por consequência, o primeiro de toda família de homens. Contém em si o reconhecimento formal e expresso de Deus, a adoração à sua majestade, a obediência à sua lei, o agradecimento por seus benefícios, o recurso a Ele nas necessidades. Não cumprem, pois, esse dever primário e fundamental as famílias que em sua vida coletiva prescindem por completo de Deus, embora não incorram, formal e expressamente, nas negações ímpias do ateísmo. 

Deus, pois, deve ser visto em todas as partes do lar doméstico cristão. Nossos avós começavam por esculpir seu Nome Santíssimo e o de sua Santíssima Mãe no batente da porta, e coroavam com a cruz benta o cume das torres e claraboias. Esse era um bom sinal de Deus, que dizia com clareza a todos que aquela casa, que com tanto amor ostentava as divinas divisas, era sua. Hoje já não há nada disso – sinal de como estes tempos são péssimos, pois nos contentaríamos com menos, mesmo que trabalhemos e desejemos conseguir todo o resto.  Resignar-nos-íamos de imediato se o interior da casa tivesse o selo e o caráter cristão, e se nela tudo fosse uma declaração franca e explícita da fé que os indivíduos que ali habitam dizem professar.

Por exemplo, não deveria haver ali nenhum adorno que se opusesse à moral de Cristo; nenhum que fosse grosseiro ou impudico, ainda que sob pretextos históricos ou artísticos; nenhum que se deva furtar ruborizado aos olhos do sacerdote, se ele por acaso ali puser os pés; nenhum que não possa figurar dignamente num templo. Por que o cristão deverá ter em sua casa quadros, estátuas e relevos que o horrorizariam se os visse colocados na coluna da Igreja, ou junto do altar? Será ele menos cristão em sua casa do que é na casa de Deus?

Que dizer dos livros e jornais? Será ridículo, será irracional exigir que uma casa cristã não permita a entrada senão de publicações cristãs? Se essa casa abre as portas ao que vem em nome de Deus e também ao que vem em nome do diabo, seu inimigo, a quem pertencerá ela, que reparte entre ambos, com tanta equidade, a amizade e a simpatia? De quem é essa casa? De Deus ou de Belial? De Deus é que não é, porque Deus não reina senão só, sem competição.

Fazem-se refeições em família, mas em família não se reza nem se lê? Então essa é uma família só de corpos, já que só convive em função do corpo? Aquele pai e aquela mãe, que tão pouco zelam por elas, também não se enxergam como pais de almas? Será o bastante que o pai ou a mãe se contentem de rezar sozinhos, sem saber se as outras pessoas da casa satisfizeram essa dívida sagrada para com o Criador? E se ela não for satisfeita, sobre quem recai a responsabilidade dessa insolvência? Por acaso a lei humana não deposita sobre os pais a responsabilidade pelas dívidas que os filhos contraem e não pagam? Pois a Lei divina lhes faz a mesma e terrível exigência.

Divertir-se é pecado? Não; mas procurar e permitir diversões pecaminosas é. E assim o são a maior parte das diversões de hoje em dia, como ninguém ignora, por mais que sobre isso, como sobre tantas outras coisas, haja muito empenho em manter a consciência adormecida. Pecam os pais e as mães que autorizam essa corrupção calculada do lar, embora eles pessoalmente não frequentem os ambientes perigosos: pecam se souberem a que lugares empesteados vão os filhos e filhas, e pecam também se não souberem, porque deveriam saber. Do salão de baile e do espetáculo imoral os filhos maiores trazem para casa, a cada noite ou domingo, miasmas pestíferos que, depois de tê-los envenenado, minam aos poucos tudo quanto lhes estiver próximo, e preparam para a família inteira os germes da corrupção inevitável. O mal se torna gravíssimo se os próprios pais se transformarem no veículo dessa influência malsã. E que dizer dos simplórios ou pusilânimes que, apesar de acreditarem que a consciência não lhes permite participarem da função, ainda assim autorizam que com ela se corrompam aqueles a quem, por mandato divino, estão encarregados de vigiar e proteger?

Mas esse tema tem maior proximidade com o dever da família para consigo mesma.

 

V. Dos deveres da família cristã para consigo mesma.

Além dos deveres gerais para com Deus, teria a família cristã deveres para consigo mesma?

E como não teria? Um desses deveres, de certa maneira, resume e compendia a todos: a educação. Nesse sentido, diremos que a piedade não é apenas o pagamento da dívida de respeito, gratidão e amor que temos para com Deus: é também o meio mais eficaz de aperfeiçoamento moral para nós mesmos, a pedra angular de todo sistema de educação verdadeira, a grande tutora da alma por excelência; por conseguinte, é a grande educadora da família.

Parece coisa velha e gasta repetir aqui que o temor de Deus é o princípio da sabedoria, e, portanto, de toda educação sólida e verdadeira. Mas, por velho que seja esse axioma, e por repisado que o vejamos em púlpitos e livros, é palavra do Espírito Santo, e isso nos dispensa de demonstrá-lo. Se, no entanto, quiséssemos demonstrá-lo ao leitor, bastaria a simples observação e experiência do que vemos todos os dias à nossa volta. A educação doméstica sem Deus tem produzido tantos e tais frutos envenenados, que esse fato é o suficiente para convencer de uma vez por todas sobre o caráter maligno e infernal do sistema que os produz. A expulsão de Deus da educação da família levou embora todos os germes de respeito, amor, concórdia e boa ventura, além de trazer a ruína eterna, que se prepara, quase inevitavelmente, para tais almas desventuradas. 

E para nos cingirmos apenas ao presente, a cujos limites estreitos costuma reduzir-se o olhar do vulgo, declaramos que as virtudes domésticas não podem reinar, absolutamente, num lugar de onde se proscreveu, como ente inútil, o único inspirador de todas elas, que é o temor de Deus. Esse é o laço que a tudo une, o freio que a tudo sujeita, o contrapeso que a tudo equilibra, o norte que a tudo guia, o calor que a tudo vivifica, a esperança celestial a que tudo dulcifica. Na prosperidade nos faz sóbrios, na adversidade resignados, no gozo moderados, no mando discretos, na obediência humildes, na fidelidade constantes, no trabalho animosos. Para a infância é o mestre, para a adolescência o companheiro, para a maturidade o báculo e apoio, para a decrepitude a única esperança e consolo. “A piedade para tudo é útil”, disse o Apóstolo, pietas ad omnia utilis est, “tendo a promessa da vida presente e da futura”: promissionem habens vitæ quæ nunc est, et futuræ.

Por onde se vê que pouco trabalha para o bem dos seus o pai que não procura, antes de tudo, formá-los na piedade sólida e no temor de Deus, fazendo da casa a escola prática de tais virtudes. Pouco importa que tenha todo o resto em ordem: ao edifício que levanta falta o alicerce essencial, e portanto a mais ruína desastrosa é inevitável e certa. Essa ausência de solidez e coesão sobrenatural não se compensa com os procedimentos pedagógicos mais refinados que a brilhante França, a atilada Inglaterra ou a filosófica Alemanha trazem diariamente à nossa terra. Essas pedagogias humanas poderão dar formas à educação, mas não lhe darão fundo, porque para isso é preciso ter a chave do coração, e somente a Religião verdadeira é quem a tem. Os instintos poderosos e ferozes que prematuramente (sobretudo neste nosso século de precocidades) arrastam o jovem para o orgulho, a emancipação, o gozo de todas as liberdades, não podem ser vencidos; esses instintos poderosos e arrebatados não podem ser vencidos senão com algo que seja mais poderoso, e que tenha garras mais fortes que as suas para mantê-los cativos e acorrentados. E esse algo não existe abaixo de Deus; porque abaixo de Deus não há coisa que o homem não possa, num momento de orgulho, olhar como um igual. Assim vemos que, diante do furor das paixões desencadeadas na idade juvenil, cede como débeis arbustos arrastados por um rio impetuoso a fidelidade ao sangue, os olhares do interesse material, a lembrança dos benefícios recebidos, as máximas de moral universal tão pomposas quanto ocas e estéreis; numa palavra, tudo o que por si só oferece uma educação meramente humana e fundada em motivos meramente humanos. Só exerce alguma força sobre o homem aquilo que é superior ao homem; aquilo que flutua no naufrágio de todo o resto; aquilo que, ainda que por um instante pareça coberto pelas águas turvas, permanece ao menos como um penhor de arrependimento futuro.

Vejam, pois, como se perde miseravelmente o tempo e o trabalho de tantos pais desorientados, que pretendem que a família seja boa e morigerada sem contar com Deus para nada. A realidade quase sempre confirma neles aquela sábia sentença do salmista: “Se o Senhor não edificar a casa, é em vão que trabalham os que a edificam” (Sl 126, 1). Os pais que professam e praticam um sistema educacional tão ruim lavram a desventura temporal e eterna dos filhos, e com a deles a própria. Educam tão somente para a carne, portanto a carne prevalece e orgulha-se de todas as suas vilezas e ignomínias. Eles não cuidam da alma, imagem de Deus, de forma que os filhos costumam apresentar essa soberana imagem completamente obscurecida e desfigurada. Essa educação é uma horrenda calamidade dos nossos tempos, sem dúvida a pior entre todas as que tornam tão desastroso o nosso presente estado social.

    

VI. Do que poderíamos chamar de laicismo na família.

A última novidade revolucionária, a moda do dia em educação, é o laicismo, ou seja, a escola sem Deus e sem Religião. Mas o que mais espanta é ver que muitos pais e mães, que não podem ouvir falar na escola laica e dos professores laicos sem horror, tornam-se eles mesmos pais laicos e fazem laica a sua casa, sem sentir com isso escrúpulo no coração, nem vergonha no rosto. A menos que se tenha em conta uma estranha incoerência, tão comum ao homem, não se compreende como o laicismo da escola os horroriza tanto, se tão pouco os horroriza o laicismo na família, que é sem dúvida muito pior.

Advirta-se uma circunstância. A desculpa com que os pedagogos laicos pretendem abonar seu sistema funesto de prescindir na escola de toda idéia de Deus e de Religião é a de que essa idéia, dizem eles, diz respeito à missão especial do pai e da mãe de família, ou ao sacerdote no templo, não competindo aos mestres ingressar em outra esfera senão a puramente literária e científica. Por seu lado, os pais e mães que chamaremos de laicos dizem algo similar, porém em sentido inverso. Eles dizem que podem desencarregar-se da obrigação de ensinar a piedade aos filhos, pois para isso vão eles à escola e ao colégio, onde essas coisas lhes são ensinadas. De sorte que, conforme vão progredindo as idéias modernas sobre a questão, teremos o caso, certamente ridículo, dos mestres confiando a educação religiosa das crianças aos pais, e estes, por sua vez, confiando-a aos mestres, resultando inevitavelmente em menino e menina sem religião. Assim se vê o modo singular e engenhoso de Satanás urdir suas artimanhas, e como são ingênuos e simplórios muitos católicos da geração presente, que nunca as percebem.

Não, pais e mães descuidados, não existe desculpa para os senhores, mas sim grave, gravíssima responsabilidade. Se são más e abomináveis as escolas laicas, onde o mestre, que é uma espécie de assalariado a serviço do diabo, cuida de envenenar a infância inexperiente com uma educação naturalista e atéia, muito mais abominável e satânica é a família laica, onde a alma terna do menino ou da menina se vê privada do último refúgio de moralidade e crença que poderia ainda salvá-la da atmosfera corruptora da má educação escolar. O mundo lhe dá peçonha a mancheias em todas as partes; em casa, ao menos se poderia preparar um antídoto eficaz. Se essa atmosfera estiver também peçonhenta e adulterada, onde procurará socorro?

Por desgraça, há tanto desse laicismo doméstico na sociedade presente, que já ninguém se comove, de tão familiarizados que estamos com ele. Quem diria? São mestres e mestras laicos, sem perceber, uma infinidade de pais e mães que se têm talvez na conta de bons e honrados cristãos! E com isso servem à Revolução e à Maçonaria, como se para isso a seita lhes desse a paga de tantos ou quantos dinheiros por semana ou por mês como preço de seu ofício de corromper! E mansamente, eles que tanto dizem amar e vigiar os filhos, infundem-lhes nas almas o ateísmo prático que as paixões, os maus livros, as companhias perversas se encarregarão dia após dia de converter em doutrina! Pais! Mães! Os senhores já meditaram um minuto sequer, em toda a sua vida, no caráter gravíssimo de que se reveste a mera negligência em assunto tão vital? Pais! Mães! Se o maior perigo dos nossos dias é a escola teórica sem Deus, qual não será o imenso perigo dessa outra escola prática sem Deus que é a família sem piedade?

Dizíamos sem pensar muito, somente pela força do convencimento, que entre um laicismo e outro não sabíamos qual era o pior e de consequências mais espantosas. Olhando bem, porém, não há dúvidas de que podemos considerar mil vezes mais desastroso o laicismo da família que o da escola, porque a influência boa ou má daquela é mil vezes mais eficaz que a desta, e por muitíssimas razões. Primeiro, porque a criança experimenta a influência da família muito antes de experimentar a da escola, e sabe-se que, em matéria de impressões, as primeiras costumam ser mais decisivas ou, no mínimo, mais permanentes. Além disso, a criança vive quase sempre na atmosfera da família, e na da escola somente um pouco por dia. Além disso, porque a autoridade e a força moral que a criança geralmente reconhece no pai ou na mãe é infinitamente superior à que o mais fiel discípulo pode jamais reconhecer no mais respeitável dos mestres. E, finalmente, porque as noções religiosas que a piedade enraíza profundamente no coração da terna infância são de uma tal índole que, se a suavíssima e poderosíssima voz da autoridade familiar não as grava, somente a custo poderão ser infundidas.

Mas este último ponto oferece campo vasto a novas reflexões, que exigem um capítulo à parte.

 

VII. Por onde se demonstra o que foi dito anteriormente.

Por que uma casa sem práticas de piedade é uma casa sem Religião ou laica? Porque na casa a única forma cabível de ensinamento religioso é a prática piedosa.

Vejamos. Nem o caráter da Religião, nem o caráter dos pais, nem o caráter dos filhos consentem outro ensinamento religioso na família senão sob a forma do ensinamento prático, ou seja, das obras de piedade.

O caráter da Religião não o consente. A Religião como ciência é complicadíssima, vasta, profunda. Só consegue estudá-la em todo o conjunto uma vida inteira dedicada unicamente a isso; só consegue sondar além da superfície das suas profundezas o engenho perspicaz. Nada é tão grande e incomensurável quanto esse imenso saber que abarca todas as relações e mistérios de Deus, do homem e da eternidade. No entanto, a Religião deve ser patrimônio de todos, e todos devem possuí-la como o principal meio de felicidade presente e futura; todos, incluindo os mais rudes, dos mais alheios a toda investigação científica e até a mais vulgar alfabetização. Como se podem, pois, conciliar esses extremos? De um modo muito simples: ensinando-lhes bem a prática, até mesmo quem nem de longe é capaz de compreender a divina doutrina por trás dela; crendo, como também devemos crer todos, sob a fé de Deus e da Igreja, comunicada à sua débil inteligência por meio dos pais, que são o órgão de maior confiança que a criança pode ter neste mundo; e praticando e vendo a prática diária daquilo em que se crê. Esse é o meio mais seguro para que esses ensinamentos sobrenaturais desde cedo se identifiquem e se fundam com a vida natural num só hábito. E façamos uma observação. Essa mesma prática, que alguém talvez qualifique como inconsciente, traz consigo uma certa luz para a inteligência de quem amorosa e sinceramente a observa, até o ponto em que, iluminados por ela, muitos dos rudes e ignorantes chegam a entrever e a vislumbrar, em matéria de Religião, arcanos aos quais nunca chegou a ciência adquirida nos livros. A graça de Deus se compraz em dar-se aos pequeninos e aos pobres de espírito, e em fazer refletir seus esplendores principalmente sobre os limpos de coração, A prática fiel, humilde e amorosa da Religião é, pois, caminho para se saber muitas coisas a respeito dela, e é a única coisa indispensável tanto para o comum dos cristãos quanto para os que a estudam. Deve, pois, ser religiosa a família. Com maior clareza: uma vez que não deve ser laica nem atéia, o que dá no mesmo, deve ser piedosa. E deve ser piedosa pelo uso e pela repetição, até formar o hábito dos atos de piedade, o que o próprio caráter da Religião exige.

Mas o caráter dos pais também o exige. Os pais são os mestres natos da família. E quantos pais há que possam exercer esse delicado magistério, sem valer-se da eloquência e das razões do bom exemplo? Mesmo os pais mais instruídos não têm geralmente instrução nesse ramo da ciência religiosa, nem chegam a ser catedráticos medianos nela. Ou não serão, pois, mestres em sua casa, ou o serão do único modo que lhes é possível, ou seja, ensinando na prática aquilo que não podem ensinar de outro modo. E se afirmamos isso dos pais que têm conhecimentos regulares de letras e ciências humanas, que diremos então da imensa generalidade dos pais que nem isso têm, que mal sabem ler e escrever, ou que nem a isso chegam? E, no entanto, mestres devem ser, com responsabilidades e deveres iguais aos pais mais instruídos. Somente, pois, por meio da piedade, isto é, da prática fiel e constante dos atos de Religião em família, é que ela está capacitada a receber o ensinamento cristão de que necessita.

Finalmente, exige-o também o caráter dos próprios filhos. Eles devem receber esse ensinamento numa idade em que seja impossível adquiri-la de outro modo, senão por aquele que procede da impressão, e que se conserva e perpetua pelo hábito. Santo Agostinho ou Santo Tomás em pessoa, se estivessem encarregados de doutrinar na fé crianças de certa idade, dificilmente poderiam tirar outro fruto de suas inteligências insipientes. Não há ali força de abstração, não há ali destreza de raciocínio, não há olhar compreensivo e generalizador: só há terra disposta a receber as sementes que a seu tempo germinarão e crescerão. Essas sementes serão principalmente (além do hábito sobrenatural da fé infundido pelo Batismo) os hábitos criados pela autoridade do exemplo: hábito de crer, hábito de venerar, hábito de sujeitar-se, hábito de mortificar-se e outros semelhantes, eis aqui os cimentos da educação religiosa. Melhor: eis aqui quase toda a educação religiosa possível para a tenra idade. E como isso só é factível pelo exemplo constante da vida de piedade na família, eis aqui a necessidade da prática contínua dos atos piedosos em seu seio.

Mais brevemente, e resumindo:

Se a Religião deve ser ensinada para certa idade e classe de pessoas, só pode ser ensinamento prático. Se os pais devem ser mestres, só podem ser mestres práticos. Se os filhos devem ser discípulos, só podem ser discípulos ao modo prático.

Logo, não cabe outro ensinamento religioso na família senão o ensinamento por meio da piedade.

Logo, a piedade é a principal necessidade da família, e portanto é o primeiro dever dos indivíduos, especialmente dos chefes dela.

 

VIII. Acrescenta-se um exemplo a modo de conclusão.

Um correspondente, amigo nosso, residente numa das cidades mais belas e populosas da Andaluzia, levou tão a sério, segundo nos contou, essa piedade em família que vimos há tanto tempo pregando aos nossos leitores, que nos pareceu bem dar-lhes esse exemplo formoso como fim e coroa dos presentes capítulos.

O citado amigo, tão ilustrado quanto fervoroso, chegou a estabelecer em sua casa o que ele chama, com propriedade, de culto doméstico, o qual celebra com a exatidão e minúcia mais edificantes.

Começou por escolher um lugar especialmente dedicado a esses atos de piedade privada, e ali ergueu um oratório. Pôs nele as imagens dos santos padroeiros da família: a Imaculada Conceição, São José, São Roque e São Luís, presididos pelo Sagrado Coração de Jesus. Enfeitou-o com todo o gosto e primor que se pode permitir uma família sem muitas posses; gosto e primor que todos os lares poderiam mostrar para com Deus, já que os mostram tão facilmente no adorno de suas casas e pessoas, e até de seus cães e cavalos.

Todo dia aquele bom pai se reúne com sua família e criados naquele lugar para a prática da piedade. A oração do Santo Rosário e uma pequena leitura espiritual são as ações usuais de cada dia; nos dias de festa, se acrescenta alguma coisa a essa medida cotidiana. Os dias mais solenes do ano são festejados com iluminação mais esplêndida e com cantos que um dos próprios filhos acompanha ao harmônio. Uma tabela a modo de escala fixa na parede do oratório assinala os dias que poderíamos chamar de clássicos, e as diferentes funções com que devem ser celebrados os dias de preparação, as oitavas e novenas, os meses inteiros consagrados a São José, à Virgem de Maio, ao Sagrado Coração ou às almas benditas do Purgatório. O pai é, por direito natural, o oficiante dessa pequena Igreja doméstica, verdadeira filial da paroquial, da qual é obscuro e modesto satélite auxiliar.

Eis aqui o que é organizar a piedade na família de modo a nada deixar a desejar. Mas, sem precisar chegar a essa perfeição e primor de detalhes, não é certo que todo pai e mãe verdadeiramente cristãos podem providenciar em sua casa um culto doméstico análogo, senão igual, ao que acabamos de indicar? Que dificuldades apresenta, além da preguiça, a oração do Santo Rosário? Que custa ler por um quarto de hora a cada noite para a família reunida umas páginas de um livro apropriado, como As Vidas dos Santos, as obras do Padre Granada, que todo espanhol devia saber de memória, ou o popular e nunca assaz elogiado Exercício de Perfeição do Padre Rodríguez? Que perderiam os filhos e filhas se conhecessem, por meio da leitura do pai, todas ou quase todas as obras dos nossos admiráveis ascetas, o severo Nieremberg, a jovial Teresa de Jesus, o familiar e castiço Rivadeneira, alternadas com a leitura dos principais autores modernos, que a apologética católica dá à luz todos os dias?

Antigamente esse era o uso na Espanha, e era a esse uso sem dúvida que a antiga família espanhola devia a proverbial severidade e o caráter austero. São as idéias que dão a têmpera devida aos costumes, e as idéias, tanto na casa quanto na cidade, são as que formaram nossos atuais costumes civis ou domésticos, tão frouxos, tão desmazelados. Quem quiser restaurar a ambas e voltar à ordem primitiva deve começar a reformá-las sobre a base da piedade sólida, sem a qual edifica-se sobre a areia qualquer construção que se queira levar a cabo.

Se eu viajar para um lugar remoto no fim de semana, tenho que me deslocar por horas a fio para ir à Missa?

Pela lei natural e pela lei positiva divina, devemos render culto a Deus. A lei eclesiástica determina que essa obrigação deve ser cumprida assistindo à Missa nos domingos e nos dias santos. Esse preceito vincula sub gravi (ou seja, sob pena de pecado mortal) a todos aqueles que atingiram a idade da razão (sete anos de idade). Além disso, qualquer pessoa obrigada a obedecer a uma lei também está obrigada a fazer esforços para evitar qualquer obstáculo ao seu fiel cumprimento.

Como uma lei não pode obrigar ao impossível, a Igreja reconhece que, em certas circunstâncias, alguém pode ser escusado de observar a lei. Assim, uma causa moderadamente grave pode nos escusar de assistir à Missa em um domingo. As principais causas, normalmente, são: 

  1. impossibilidade física ou moral, como, por exemplo, em caso de doença, grande distância de uma Igreja, condições de tempo perigosas, risco de séria perda material, etc; 
  2. caridade que nos obrigue a ajudar o próximo, como, por exemplo, tomar conta de uma pessoa doente, ou estar presente para evitar que alguém caia em pecado; 
  3. obrigação imposta por certas funções ou ofícios, como, por exemplo, soldados, enfermeiras, bombeiras, etc, enquanto em serviço.

Mas, embora Deus não espere de nós que façamos o impossível, Ele espera que suportemos alguns inconvenientes ou obstáculos aos nossos planos para que consigamos cumprir Sua vontade.

Portanto, não nos é lícito criar um obstáculo ao cumprimento da lei, exceto se houver uma causa grave proporcional.

Relaxamento e recreação são, certamente, necessidades humanas legítimas, bem como dons de Deus. Mas, como existem várias formas de relaxar, devemos escolher aquela que não nos force a ausentar-nos da Missa dominical.

Portanto, se escolhemos uma atividade recreacional que nos impossibilite assistir à Missa dominical, a razão para isso deve ser de uma gravidade proporcional à gravidade do preceito eclesiástico. Um motivo dessa gravidade proporcional poderia ser, por exemplo, se acampar num local remoto for aconselhável como a maneira mais útil de fortalecer os laços de uma família que corre o risco de desabar. Outros motivos de gravidade proporcional poderiam ser, por exemplo, se não tivermos oportunidade de tirar férias anuais em outro período, ou se for o caso de uma viagem ao estrangeiro que jamais teremos a oportunidade de fazer novamente.

Em todo caso, devemos evitar fazer de nossas atividades recreacionais o ponto de partida da programação do nosso fim de semana, relegando pensar em Deus e na Missa a um momento posterior.

A Missa é um dom de Deus, e assistir a ela é um privilégio incrível para nós, especialmente na atual crise da Igreja, em que há um número decrescente de Missas e de fiéis indo à Missa para render a Deus o culto que Lhe é devido.

Portanto, não devemos tentar encontrar desculpas para não ir [à Missa de preceito], mas, ao contrário, fazer esforços para ir à Missa mesmo em outros dias da semana.

Com que frequência devo me confessar?

Em consonância com a lei divina, a Igreja enfatiza a necessidade de confessar todo e cada pecado mortal de que se lembre após exame diligente e adequado, com todas as circunstâncias que podem alterar a espécie do pecado. Nos tempos presentes, como consequência da obrigação de receber comunhão ao menos uma vez por ano, temos, também, por preceito eclesiástico, a obrigação grave de confessar, ao menos uma vez por ano, quaisquer pecados mortais ainda não acusados em confissão válida.
 
A Igreja não exige nada mais — nem uma frequência maior, nem a confissão dos pecados veniais — mas tanto a Igreja quanto todos os autores espirituais aconselham e encorajam-nos a duas coisas adicionais. Em primeiro lugar, buscar a absolvição dos nossos pecados mortais o quanto antes e tão frequentemente quanto preciso.
 
Em segundo lugar, também somos aconselhados e encorajados à confissão devocional mesmo de nossos pecados veniais. Como o Concílio de Trento estabelece:
 
"Pecados veniais, que não nos privam da graça de Deus, e nos quais caímos com maior frequência, podem retamente e com benefício ser acusados na confissão, como torna clara a prática das pessoas devotas. [Também] podem não ser declarados sem [que configure] qualquer falta, e podem ser expiados de várias outras formas".
 
A prática piedosa da confissão frequente assegura um progresso mais rápido no caminho da perfeição. Por exigir um exame frequente da consciência e o conhecimento de nossas fraquezas, aumenta o autoconhecimento e o crescimento na humildade; "nossos maus hábitos são corrigidos, a negligência e a tibieza encontram resistência, a consciência é purificada, a vontade fortalecida, um salutar autocontrole é atingido, e a graça é aumentada em razão do sacramento em si" (Pio XII, Mystici Corporis).
 
Se para os religiosos a lei canônica requer a confissão semanal, e para os sacerdotes, ao menos a cada duas semanas, para leigos, confissão “frequente" geralmente significa mensal, de acordo com as possibilidades e as necessidades dos indivíduos.
 
Para avançar na perfeição espiritual, a confissão frequente, ordinariamente, exige um confessor regular. Ele será a pessoa mais qualificada para sugerir a frequência adequada ao desenvolvimento espiritual e às possibilidades físicas e morais do penitente.
AdaptiveThemes