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Espiritualidade (166)

Necessidade e apetite

Pe. Manuel Bernardes

Perguntado S. Francisco de Assis porque se negava ao necessário para a sustentação da vida humana, respondeu:

— Dificultosa coisa é satisfazer à necessidade do corpo e não obedecer à lei dos apetites.

É muito dificultoso discernir quais são os precisos limites por onde confrontam estes dois vizinhos: necessidade e apetite; porque ambos se fundam na natureza, e o mesmo ramo que leva uns frutos bons ou indiferentes leva outros ruins e venenosos. Quem há de definir ao justo: “Até aqui é necessidade de comer, ou beber, ou dormir, ou conversar, daqui por diante já é vício”?

No Prado Espiritual se conta de um virtuoso monge a quem o seu abade mandou guardar os porcos do convento, que andavam pastando debaixo das azinheiras da mesma casa. Alguns vizinhos, cujas fazendas do mesmo gênero confinavam com aquela, instigados de inveja e malícia, se punham à espreita para, tanto que algum daqueles animais saísse fora dos seus limites, toma-lo por perdido e mata-lo. 

Andando os dias, desejou o monge pastor subir ao seu convento para tomar alguma refeição de espírito com os santos exercícios que costumava. Não tendo, porém, quem por entretanto ficasse de guarda, e confiado na virtude divina, chamou a toda a grei e lhe intimou, da parte do Senhor, que até ele tornar nenhum deles passasse de tal marco, que era os das próprias terras.

Caso maravilhoso!

Tao pontuais obedeceram todos que, em chegando ali em busca da lande, nem um só pé punham fora, e logo voltavam para dentro. Até que os vizinhos, enfadados da espera, entraram, e às vergastadas os procuravam desencaminhar para fora; porém, por muita instância que nisto puseram, nunca puderam conseguir; porque, tanto que os perseguidos animais chegavam ao termo sinalado pelo monge, como se topassem com um muro de pedra e cal, tornavam a fugir para dentro. Reconhecida, enfim a maravilha, pediram aqueles homens perdão do seu depravado intento, contando o caso.

E, aplicando eu este ao nosso, digo que, se os brutos dos nossos apetites foram tais que lhes pudéramos impor semelhante preceito: “Até aqui chegai, até aqui não” — fácil fora largar à natureza o que lhe compete, sem perigo de se desmandar. Porém este mau gado anda solto à bolota, sem distinguir a que é sua da que é alheia; e, quanto mais engorda, mais grunhe. E não se divisam bem os marcos destes dois terrenos. Logo, é conveniente encurtar o da necessidade para que se não confunda com o do apetite.

A esta dificuldade de distinguir o necessário do supérfluo acresce outra, que é de negar o supérfluo e ilícito, se nos não negarmos também em parte no lícito e necessário. Usemos para o declarar de outros símiles:

Quero endireitar uma vara que está torcida. Bastará porventura trazê-la com moderada força até aquele ponto em que fique direita? Não, por certo; senão que é necessário repuxar para a parte contrária, como se a minha tenção fosse, não tirar-lhe o torcimento, senão trocá-lo por outro. Quero passar um rio caudaloso de ribeira a ribeira. Bastará meter a proa em direitura da paragem onde pretendo desembarcar? Não, por certo; senão que é necessário metê-la muito mais arriba, porque a força da corrente me fará insensivelmente vir descaindo.

Pois, assim também para uma pessoa endireitar as suas más inclinações, não basta que procure pôr a natureza em uma mediania razoável, senão que é necessário puxar para o extremo contrário; e, para vir sair com a mortificação ou negação do ilícito, é necessário emproar mais alto, abraçando a negação do lícito. Para que o apetite não peça o almoço que era supérfluo, é bem negar à natureza a ceia que era necessária. Por que o apetite não cobice o alheio, que é ilícito, é bem negar à natureza ajuntar e guarda o próprio, que é lícito.

De semelhante indústria usava São Pedro de Alcântara, que, quando o corpo lhe pedia mais roupa, porque estava frio, tirava o manto e ficava mais frio; e, quando depois lho restituía, já ficava satisfeito e contente com aquilo mesmo que dantes lhe não bastava...

(Nova Floresta, Apetites)

Exercícios preparatórios para a Consagração à Nossa Senhora

 Exercícios espirituais preparatórios à consagração solene conforme o método de S. Luís Grignion de Monfort 

DOZE DIAS PRELIMINARES
Empregados em desapegar-se do espírito do mundo

Reza-se:

- Veni, Creator Spiritus
- Ave, Maris Stella.

 

VENI, CREATOR SPIRITUS 

 

Veni, Creátor Spíritus, Mentes tuórum visita, Imple supérna gratia, Quae tu creásti péctora. 

Qui diceris Paráclitus, Altissimi donum Dei, Fons vivus, ignis, charitas Et spiritális únctio. 

Tu septiformis múmere, Dígitus patérnae déxterae Tu rite promissum Patris, Sermone ditans gúttura. 

Accénde lúmen sénsibus: Infunde amórem cordibus: Infirma nóstri córporis 

Virtute firmans pérpeti. 

Hostem repéllas longius, Pacémque dones prótinus; Ductóre sic te praevio, Vitémus omne nóxium. 

Per te sciamus da Patrem Noscamus atque Fílium; Teque utriúsque Spíritum Credámus omni tempore. 

Deo Patri sit gloria,
Et Filio, qui a mortuis Surrexit, ac Paráclito
In saeculorum saecula. Amen. 

V: Emitte Spiritum tuun et creabuntur R: Et renovabis faciem terrae. 

Oremus. Deus qui corda fidelium Sancti Spiritus illustratione docuitis, da nobis in eodem Spiritus recta sapere et de eius semper consolatione gaudere. Per Christum Dominum nostrum. Amen.

Vem , ó criador Espírito, as almas dos teus visita; os corações que criastes, Enche de graça infinita. 

Tu, Paráclito és chamado Dom do Pai celestial, Fogo, caridade, fonte viva unção espiritual. 

Tu dás septiforme graça; Dedo és da destra paterna; Do Pai, solene promessa, dás força da voz suprema. 

Nossa razão esclarece, Teu amor no peito acende, Do nosso corpoa fraqueza Com tua força defende. 

De nós afasta o inimigo.
Dá que Deus Pai e seu Filho Por ti nós bem conheçamos, E em ti, Espíritto de ambos Em todo tempo creiamos. 

A Deus Pai se dá a glória E ao Filho ressuscitado, Paráclito e a ti também 

Com louvor perpetuado. Amém 

V. Envia o vosso Espírito, e a tudo será criado. R. E renovareis a face da terra. 

Oremos. Ó Deus, que intruíste os corações de vossos fiéis com a luz do espírito para que conheçamos o que é reto, e gozemos sempre as suas consolações. Por Cristo Nosso Senhor. Amém

 

AVE, MARIS STELLA

Ave, maris stella, Dei Mater alma, Atque semper virgo, Felix caeli porta. 

Sumens illud Ave, Gabrielis ore,
Funda nos in pace, Mutans Hevae nomen. 

Solve vincla reis, Profer lumen caecis, Mala nostra pelle, Bona cuncta posce. 

Monstra te esse matrem, Sumat per te precem Qui pro nobis natus Tulit esse tuus. 

Virgo singuláris, Inter omnes mitis, Nos culpis solútos M.ites fac et castos. 

Vitam praesta puram. Iter para tutum,
Ut vidéntes Iesum Semper collaetemur. 

Sit laus Deo Patri, Summo Christo decus, Spritui Sancto
Tribus honor unus. Amen.

Ave do mar Estrela,
De Deus Mae bela,
Sempre Virgem, da morada Celeste feliz entrada. 

O’ tu que ouviste da boca Do anjo a saudação; Dá-nos paz e quietação; E o nome de Eva troca. 

As prisões aos réus desata.
E a nós cegos alumia;
De tudo que nos maltrata
Nos livra, o bem nos granjeia. 

Oatenta que és Mãe fazendo Que os rogos do povo seu Ouça aquele que, nascendo Por nós quis ser filho teu. 

O’ Virgem especiosa, Tôda cheia de ternura, Extintos nossos pecados , Dá-nos pureza e brandura, 

Dá-nos uma vida pura, Põe-nos em via segura, Para que a Jesus gozemos, E sempre nos alegremos. 

A Deus Pai veremos;
A Jesus Cristo também.
E ao Espírito Santo demos Aos três um louvor. Amém.

 

II 

PRIMEIRA SEMANA 

empregada em adquirir o conhecimento de si mesmo

Reza-se: 

- Ladainha do Espírito Santo 
- Ladainha de Nossa Senhora
 

LADAINHA DO ESPÍRITO SANTO

 

 

 

Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Divino Espírito Santo, ouvi-nos.
Espírito Paráclito, atendei-nos.
Deus Pai dos céus, tende piedade de nós.
Deus Filho, redentor do mundo,
Deus Espírito Santo,
Santíssima Trindade, que sois um só Deus.
Espírito da verdade,
Espírito da sabedoria,
Espírito da inteligência,
Espírito da fortaleza,
Espírito da piedade,
Espírito do bom conselho,
Espírito da ciência,
Espírito do santo temor,
Espírito da caridade,
Espírito da alegria,
Espírito da paz,
Espírito das virtudes,
Espírito de toda graça,
Espírito da adoção dos filhos de Deus,
Purificador das nossas almas,
Santificador e guia da Igreja Católica,
Distribuidor dos dons celestes,
Conhecedor dos pensamentos e das intenções do coração, Doçura dos que começam a vos servir,
Coroa dos perfeitos,
Alegria dos anjos,
Luz dos patriarcas,
Inspiração dos profetas,
Palavra e sabedoria dos apóstolos,
Vitória doa mártires,
Ciência dos confessores,
Pureza das virgens,
Unção de todos os santos,
Sede-nos propício, perdoai-nos, Senhor.
Sede-nos propício, atendei-nos, Senhor. 

De todo o pecado, livrai-nos, Senhor.
De todas as tentações e ciladas do demônio,
De toda a presunção e desesperação.
Do ataque à verdade conhecida,
Da inveja da graça fraterna,
De toda a obstinação e impenitência,
De toda a negligência e torpor do espírito,
De toda a impureza da mente e do corpo,
De todas as heresias e erros,
De todo o mau espírito,
Da morte má e eterna,
Pela vossa eterna procedência do Pai e do Filho, 

Pela milagrosa conceição do Filho de Deus, Pela vossa descida sobre Jesus Cristo batizado, 

Pela vossa santa aparição na transfiguração do Senhor, Pela vossa vinda sobre os discípulos do Senhor,
No dia do juízo,
Ainda que pecadores,nós vos rogamos, ouví-nos. 

Para que nos perdoeis,
Para que vos digneis vivificar e santificar todos os membros da Igreja,
Para que vos digneis conceder-nos o dom da verdadeira piedade, devoção e oração,
Para que vos digneis inspirar-mos sinceros afetos de misericórdia e de caridade,
Para que vos digneis criar em nós um espírito novo e um coração puro,
Para que vos digneis conceder-nos verdadeira paz e tranqüilidade no coração,
Para que vos digneis fazer-nos dignos e fortes, para suportar as perseguições pela justiça, Para que vos digneis confirmar-nos em vossa graça,
Para que vos digneis receber-nos o número dos vossos eleitos,
Para que vos digneis ouvir-nos,
Espírito de Deus,
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, envia-nos o Espírito Santo.
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, mandai-nos o Espírito prometido do Pai. Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, dai-nos o Espírito bom.
Espírito Santo, ouví-nos.
Espírito Consolador, atendei-nos.
V. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado.
R. E renovareis a face da terra.
Oremos: Deus, que instruístes o coração de vossos fiéis, com a luz do Espírito Santo, concedei-mos que, no mesmo Espírito, conheçamos o que é reto,
e gozemos sempre as suas consolações.
Por Cristo, Nosso Senhor. Amém.

 

LADAINHA DE NOSSA SENHORA

 

 

 

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Pai Celeste que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho Redentor do mundo que sois Deus, tende piedade de nós. Espírito Santo que sois Deus, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade que sois um só Deus, tende piedade de nós Santa Maria, rogai por nós.
Santa Mãe de Deus,
Santa Virgem das virgens,
Mãe de Jesus Cristo,
Mãe da divina graça,
Mãe puríssima,
Mãe castíssima,
Mãe Imaculada,
Mãe intemerata,
Mãe amável,
Mãe admirável,
Mãe do bom conselho,
Mãe do Criador,
Mãe do Salvador,
Virgem prudentíssima,
Virgem venerável,
Virgem louvável,
Virgem poderosa,
Virgem clemente,
Virgem fiel,
Espelho de justiça,
Sede da sabedoria,
Causa da nossa alegria,
Vaso espiritual,
Vaso digno de honra,
Vaso insigne de devoção,
Rosa mística,
Torre de David,
Torre de marfim,
Casa de ouro,
Arca da aliança,
Porta do Céu,
Estrela da manhã,
Saúde dos enfermos,
Refúgio dos pecadores, 

Consoladora dos aflitos,
Auxílio dos cristãos,
Rainha dos Anjos,
Rainha dos Patriarcas,
Rainha dos Profetas,
Rainha dos Apóstolos,
Rainha dos Mártires,
Rainha dos Confessores,
Rainha das Virgens,
Rainha de todos os santos,
Rainha concebida sem pecado original, Rainha assunta ao Céu, 

Rainha do sacratíssimo Rosário, Rainha da Paz, 

Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos Senhor. Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos Senhor. Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós. 

V/ Rogai por nós, santa Mãe de Deus. 

R/ Para que sejamos dignos das promessas de Cristo. 

Oremos. Senhor Deus, nós Vos suplicamos que concedais aos Vossos servos perpétua saúde de alma e de corpo; e que, pela gloriosa intercessão da bem-aventurada sempre Virgem Maria, sejamos livres da tristeza do século e gozemos da eterna alegria. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.

 

III
SEGUNDA SEMANA Empregada em adquirir o conhecimento da Santíssima Virgem 

Reza-se:

- Ladainha do Espírito Santo
- Ave, Maris Stella
- Um rosário ou ao menos um terço

 

IV
TERCEIRA SEMANA empregada em adquirir o conhecimento de Jesus Cristo 

Reza-se:

- Ladainha do Espírito Santo
- Ave, Maris Stella
- Oração de Santo Agostinho
- Ladainha do Santíssimo Nome de Jesus
- Ladainha do Sagrado Coração de Jesus

 

Oração de Santo Agostinho 

“Vós sois, ó Jesus, o Cristo, meu Pai santo, meu Deus misericordioso, meu Rei infinitamente grande; sois meu bom pastor, meu único mestre, meu auxílio cheio de bondade, meu pão vivo, meu sacerdote eterno, meu guia para a pátria, minha verdadeira luz, minha santa doçura, meu reto caminho, sapiência minha preclara, minha pura simplicidade, minha paz e concórdia; sois, enfim, toda a minha salvaguarda, minha herança preciosa, minha eterna salvação... 

Ó Jesus Cristo, amável Senhor, por que, em toda a minha vida, amei, por que desejei outra coisa senão vós? Onde estava eu quando não pensava em vós? Ah! que, pelo menos, a partir deste momento meu coração só deseje a vós e por vós se abrase, Senhor Jesus! Desejos de minha alma, correi, que já bastante tardastes; apressai-vos para o fim a que aspirais; procurai em verdade aquele procurais. Ó Jesus anátema seja quem não vos ama. Aquele que não vos ama seja repleto de amarguras. Ó doce Jesus, sede o amor, as delícias, a admiração de todo coração dignamente consagrado à vossa glória. Deus de meu coração e minha partilha, Jesus Cristo, que em vós meu coração desfaleça, e sede vós mesmo a minha vida. Acenda-se em minha alma a brasa ardente de vosso amor e se converta num incêndio todo divino, a arder para sempre no altar de meu coração; que inflame o âmago de minha alma; para que no dia de minha morte eu apareça diante de vós inteiramente consumido em vosso amor... Amém”.

 

LADAINHA DO SANTÍSSIMO NOME DE JESUS 

 

 

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Pai Celeste que sois Deus, tende piedade de nós. Filho, redentor do mundo, que sois Deus. Espírito Santo, que sois Deus,
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, Jesus Filho de Deus vivo,
Jesus, esplendor do Pai,
Jesus, pureza da luz eterna,
Jesus, Rei da glória,
Jesus, sol de justiça,
Jesus, Filho da Virgem Maria,
Jesus amável,
Jesus admirável,
Jesus, Deus forte,
Jesus, Pai do futuro século,
Jesus, Anjo do grande conselho,
Jesus poderosíssimo,
Jesus pacientíssimo,
Jesus obedientíssimo,
Jesus, brando e humilde de coração
Jesus, amante da castidade,
Jesus, amador nosso,
Jesus, Deus da paz,
Jesus, autor da vida,
Jesus, exemplar das virtudes,
Jesus, zelador das almas,
Jesus, nosso Deus,
Jesus, nosso refúgio,
Jesus, pai dos pobres,
Jesus, tesouro dos fiéis,
Jesus, bom Pastor,
Jesus, verdadeira luz,
Jesus, Sabedoria eterna,
Jesus, bondade infinita,
Jesus, nosso caminho e nossa vida,
Jesus, alegria dos Anjos,
Jesus, Rei dos Patriarcas,
Jesus, Mestre dos Apóstolos, 

Jesus, Doutor dos evangelistas, Jesus, fortaleza dos Mártires, Jesus, luz dos Confessores Jesus, pureza das virgens, Jesus, coroa de todos os santos, 

Sede-nos propício: perdoai-nos, Jesus. Sede-nos propício, ouví-nos, Jesus.
De todo o mal, livrai-nos Jesus.
De todo o pecado, 

Da vossa ira,
Das cidades do demônio,
Do espírito da impureza,
Da morte eterna,
Do desprezo das vossas inspirações,
Pelo mistério da vossa santa Encarnação,
Pela vossa natividade,
Pela vossa infância,
Por toda a vossa santíssima vida,
Pelos vossos trabalhos,
Pela vossa agonia e pela vossa paixão,
Pela vossa cruz e pelo vosso desamparo,
Pelas nossas angústias,
Pela vossa morte e pela vossa sepultura,
Pela vossa ressurreição,
Pela vossa ascensão,
Pela vossa instituição da santíssima Eucaristia. Pelas vossas alegrias,
Pela vossa glória, 

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos Jesus.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos Jesus.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós, Jesus. 

Jesus, ouvi-nos. Jesus, atendei-nos. 

Oremos: Senhor Jesus Cristo que dissestes: Pedi e recebereis; buscais e achareis; batei e abrir-se-vos-á,nos vos suplicamos que concedas a nós, que vo-lo pedimos, os sentimentos afetivos de vosso divino amor, a fim de que nós de todo coração e que esse amor transcenda por nossas ações, sem que deixemos de vos amar. Permiti que tenhamos sempre, Senhor , um igual temor e amor pelo vosso santo nome; pois não deixais de governar aqueles que estabeleceis na firmeza do vosso amor.Vós que viveis e reinais pelos séculos dos séculos. Amem.

 

LADAINHA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Pai celeste que sois Deus,
tende piedade de nós.
Filho, Redentor do mundo, que sois Deus,
tende piedade de nós.
Espírito Santo, que sois Deus,
tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus,
tende piedade de nós.
Coração de Jesus, Filho do Pai Eterno, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, formado pelo Espírito Santo no seio da Virgem Mãe,
Coração de Jesus, unido substancialmente ao Verbo de Deus,
Coração de Jesus, de majestade infinita,
Coração de Jesus, templo santo de Deus,
Coração de Jesus, tabernáculo do Altíssimo,
Coração de Jesus, casa de Deus e porta do céu,
Coração de Jesus, fornalha ardente de caridade,
Coração de Jesus, receptáculo de justiça e de amor,
Coração de Jesus, cheio de bondade e de amor,
Coração de Jesus, abismo de todas as virtudes,
Coração de Jesus, digníssimo de todo o louvor,
Coração de Jesus, Rei e centro de todos os corações,
Coração de Jesus, no qual estão todos os tesouros da sabedoria e ciência,
Coração de Jesus, no qual habita toda a plenitude da divindade,
Coração de Jesus, no qual o Pai põe as suas complacências,
Coração de Jesus, de cuja plenitude nós todos participamos,
Coração de Jesus, desejo das colinas eternas,
Coração de Jesus, paciente e misericordioso,
Coração de Jesus, rico para todos os que vos invocam,
Coração de Jesus, fonte de vida e santidade,
Coração de Jesus, propiciação pelos nossos pecados,
Coração de Jesus, saturado de opróbrios,
Coração de Jesus, atribulado por causa de nossos crimes,
Coração de Jesus, feito obediente até à morte,
Coração de Jesus, atravessado pela lança,
Coração de Jesus, fonte de toda a consolação,
Coração de Jesus, nossa vida e ressurreição,
Coração de Jesus, nossa paz e reconciliação,
Coração de Jesus, vítima dos pecadores,
Coração de Jesus, salvação dos que esperam em vós,
Coração de Jesus, esperança dos que expiram em vós,
Coração de Jesus, delícia de todos os santos,
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo,
perdoai-nos Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo,
ouvi-nos Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo,
tende piedade de nós.
V. Jesus, manso e humilde de coração,
R. Fazei nosso coração semelhante ao vosso.
Oremos.
Deus onipotente e eterno, olhai para o Coração de vosso Filho diletíssimo e para os louvores e as satisfações que ele, em nome dos pecadores vos tributa; e aos que imploram a 

vossa misericórdia concedei benigno o perdão em nome do vosso mesmo Filho Jesus Cristo, que convosco vive e reina por todos os séculos dos séculos.
Amém.

 

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CONSAGRAÇÃO DE SI MESMO A JESUS CRISTO, SABEDORIA ENCARNADA, PELAS MÃOS DE MARIA 

( A consagração deve ser escrita de proprio punho e assinada no final)

Ó Sabedoria Eterna e Encarnada! Ó amabilíssimo e adorável Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, unigênito Filho do Eterno Pai e da sempre Virgem Maria, adoro-vos profundamente no seio e nos esplendores do vosso Pai, durante a eternidade, e no seio virginal de Maria, vossa Mãe digníssima, no tempo de vossa Encarnação. 

Eu vos dou graças por vos terdes aniquilado a vós mesmo, tomando a forma de escravo, para livrar-me do cruel cativeiro do demônio. Eu vos louvo e glorifico por vos terdes querido submeter a Maria, vossa Mãe Santíssima, em todas as coisas, a fim de por Ela tornar-me vosso fiel escravo. 

Mas, ai de mim, criatura ingrata e infiel! Não cumpri as promessas que vos fiz solenemente no Batismo. Não cumpri com minhas obrigações; não mereço ser chamado vosso filho nem vosso escravo, e, como nada há em mim que de vós não tenha merecido repulsa e cólera, não ouso aproximar-me por mim mesmo de vossa santíssima e augustíssima Majestade. 

É por esta razão que recorro à intercessão de vossa Mãe Santíssima, que me deste por Medianeira junto a Vós, e é por este meio que espero obter de Vós a contrição e o perdão de meus pecados, a aquisição e conservação da Sabedoria.
Ave, pois, ó Maria Imaculada, Tabernáculo vivo da Divindade, onde a Eterna Sabedoria escondida quer ser adorada pelos anjos e pelos homens!
Ave, ó Rainha do céu e da terra, a cujo império está sujeito tudo o que está abaixo de Deus! Ave, ó refúgio seguro dos pecadores, cuja misericórdia jamais a ninguém falece! Atendei ao desejo que tenho da Divina Sabedoria, e recebei, para este fim, os votos e as oferendas, apresentadas pela minha baixeza.
Eu, N..., infiel pecador, renovo e ratifico hoje, em vossas mãos, os votos do Batismo. Renuncio para sempre a Satanás, suas pompas e suas obras, e dou-me inteiramente a Jesus Cristo, Sabedoria Encarnada, para segui-lo levando minha cruz, em todos os dias de minha vida. E, a fim de lhe ser mais fiel do que até agora tenho sido, escolho-vos neste dia, ó Maria Santíssima, em presença de toda a corte celeste, para minha Mãe e minha Senhora. Entrego-vos e consagro-vos, na qualidade de escravo, meu corpo e minha alma, meus bens interiores e exteriores, e até o valor de minhas boas obras passadas, presentes e futuras, deixando-Vos direito pleno e inteiro de dispor de mim e de tudo o que me pertence, sem exceção, a vosso gosto, para a maior glória de Deus, no tempo e na eternidade.
Recebei, ó benigníssima Virgem, esta pequena oferenda de minha escravidão, em união e honra à submissão que a Sabedoria Eterna quis ter à vossa Maternidade; em homenagem ao poder que tendes ambos sobre este vermezinho e miserável pecador; em ação de graças pelos privilégios com que Vos favoreceu a Santíssima Trindade.
Protesto que quero, de agora em diante, como vosso verdadeiro escravo, procurar vossa honra e obedecer-Vos em todas as coisas.
Ó Mãe admirável, apresentai-me a vosso amado Filho, na qualidade de escravo perpétuo, para que, tendo-me remido por Vós, por Vós também me receba favoravelmente.
Ó Mãe de misericórdia, concedei-me a graça de obter a verdadeira Sabedoria de Deus, e de colocar-me, para este fim, no número daqueles a quem amais, ensinais, guiais, sustentais e protegeis como a filhos e escravos vossos.
Ó Virgem fiel, tornai-me em todos os pontos um tão perfeito discípulo, imitador e escravo da Sabedora Encarnada, Jesus Cristo, vosso Filho, que eu chegue um dia, por vossa intercessão e a vosso exemplo à plenitude de sua idade na terra e de sua glória nos céus. Assim seja.

A mortificação cristã

Nota: Todas as práticas de mortificação que reunimos aqui são recolhidas dos exemplos dos santos, especialmente Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, Santa Teresa, São Francisco de Sales, São João Berchmans, ou são recomendadas por reconhecidos mestres da vida espiritual, como o Venerável Louis de Blois, Rodriguez, Scaramelli, Abade Allemand, Abade Hamon, Abade Dubois, etc.

Artigo 1 – Objeto da mortificação cristã

A mortificação cristã tem por fim neutralizar as influências malignas que o pecado original ainda exerce nas nossas almas, inclusive depois que o batismo as regenerou. Nossa regeneração em Cristo, ainda que tenha anulado completamente o pecado em nós, nos deixa sem embargo muito longe da retidão e da paz originais. O Concílio de Trento reconhece que a concupiscência, ou seja, o triplo apetite da carne, dos olhos e do orgulho, se deixa sentir em nós, mesmo depois do batismo, a fim de excitar-nos às gloriosas lutas da vida cristã (Conc. Trid., Sess. 5, Decretum de pecc. orig.).

A Escritura logo chama esta tripla concupiscência de “homem velho“, oposto ao “homem novo” que é Jesus que vive em nós e nós mesmos que vivemos em Jesus, como “carne” ou natureza caída, oposta ao “espírito” ou natureza regenerada pela graça sobrenatural. Este velho homem ou esta carne, ou seja, o homem inteiro com sua dupla vida moral e física, deve ser, não digo aniquilado, porque é coisa impossível enquanto dure a vida presente, mas sim mortificado, ou seja, reduzido praticamente à impotência, à inércia e à esterilidade de um morto; há que impedir-lhe que dê seu fruto, que é o pecado, e anular sua ação em toda a nossa vida moral.

A mortificação cristã deve, portanto, abraçar o homem inteiro, estender-se a todas as esferas de atividade nas quais a natureza é capaz de mover-se. Tal é o objeto da virtude de mortificação. Vamos indicar sua prática, recorrendo sucessivamente às manifestações múltiplas de atividade em que se traduz em nós:

I) A atividade orgânica ou a vida corporal;

II) A atividade sensível, que se exerce seja sob a forma do conhecimento sensível pelos sentidos exteriores ou pela imaginação, seja sob a forma de apetite sensível ou de paixão;

III) A atividade racional e livre, princípio dos pensamentos e dos juízos, e das determinações da nossa vontade;

IV) Consideraremos a manifestação exterior da vida da alma, ou as ações exteriores;

V) E, finalmente, o intercâmbio das relações com o próximo.

  

Artigo 2 – Exercício da mortificação cristã

A. Mortificação do corpo

1º Limite-se, tanto quanto possa, em matéria de alimentos, ao estritamente necessário. Medite estas palavras que Santo Agostinho dirigia a Deus: “Tu me ensinaste a considerar os alimentos como remédios. E quem é, Senhor, que não se deixa arrastar às vezes além dos limites do necessário? Se existe alguém assim, é de fato grande, e deve engrandecer teu nome” (Confissões, liv. X, cap. 31);

2º Rogue a Deus com freqüência, rogue a cada dia que lhe impeça, com sua graça, de transpassar os limites da necessidade, ou deixar-se levar pelo atrativo do prazer;

3º Não coma nada entre as refeições, a menos que haja alguma necessidade ou razões de conveniência;

4º Pratique a abstinência e o jejum, mas os pratique somente sob obediência e com discrição;

5º Não é proibido experimentar satisfação corporal, mas o faça com intenção pura, bendizendo a Deus;

6º Regule o sono, evitando nisto toda relaxação ou moleza, sobretudo pela manhã. Se puder, fixe uma hora para se deitar e levantar, e se obrigue a ela energicamente;

7º Em geral, não descanse senão na medida do necessário; entregue-se generosamente ao trabalho, e não meça esforços e penas. Tenha cuidado para não extenuar o corpo, mas guarde-se também de agradá-lo: quando sentir que ele está disposto a rebelar-se, por pouco que seja, trate-o como a um escravo;

8º Se sente alguma ligeira indisposição, evite irritar-se com os demais por seu mau humor; deixe aos seus irmãos o cuidado de queixar-se; pelo que lhe cabe, seja paciente e mudo como o divino Cordeiro que levou verdadeiramente todas as nossas enfermidades;

9º Guarde-se de pedir uma dispensa ou revogação da ordem do dia pelo mínimo mal-estar. “Há de se fugir como da peste de toda dispensa em matéria de regras“, escrevia São João Berchmans;

10º Receba docilmente, e suporte com humildade, paciência e perseverança a penosa mortificação que se chama doença.

 

B. Mortificação dos sentidos, da imaginação e das paixões

1º Feche os olhos, diante de tudo e sempre, a todo espetáculo perigoso, e inclusive tenha a valentia de fechá-los a todo espetáculo vão e inútil. Veja sem olhar; não se fixe em ninguém para discernir a beleza ou a feiura;

2º Mantenha os ouvidos fechados às palavras bajuladoras, aos louvores, às seduções, aos maus conselhos, às maledicências, às zombarias que ferem, às indiscrições, à crítica malévola, às notícias sobre suspeitas, a toda palavra que possa causar o menor esfriamento entre duas almas;

3º Se o sentido do olfato tem de sofrer algo por consequência de certas doenças ou debilidades do próximo, longe de queixar-se disso, suporte-o com uma santa alegria;

4º No que concerne à qualidade dos alimentos, tenha muito respeito pelo conselho de Nosso Senhor: “Comei o que vos for apresentado”. “Comer o que é bom sem comprazer-se nisto, o que é mau sem mostrar aversão, e mostrar-se indiferente tanto em um como no outro, esta é a verdadeira mortificação”, dizia São Francisco de Sales;

5º Ofereça a Deus as refeições, imponha-se à mesa uma pequena privação: por exemplo, negue-se uma pitada de sal, um copo de vinho, uma guloseima, etc.; os demais não perceberão, mas Deus levará em conta;

6º Se o que lhe apresentam excita vivamente a atração, pense no fel e no vinagre que apresentaram a Nosso Senhor na cruz: isto não lhe impedirá de saborear o manjar, mas servirá de contrapeso ao prazer;

7º Há de se evitar todo contato sensual, toda carícia em que se poria certa paixão, em que se buscaria ou teria um gozo sobretudo sensível;

8º Prescinda de ir aquecer-se, a menos que lhe seja necessário para evitar uma indisposição;

9º Suporte tudo o que aflige naturalmente a carne; especialmente o frio do inverno, o calor do verão, a dureza da cama e todas as incomodidades do gênero. Faça boa cara em todos os tempos, sorria a todas as temperaturas. Diga com o profeta: “Frio, calor, chuva, bendizei ao Senhor”. Felizes somos se podemos chegar a dizer com gosto esta frase tão familiar a São Francisco de Sales: “Nunca estou melhor do que quando não estou bem”;

10º Mortifique a imaginação quando ela lhe seduz com a isca de um cargo relevante, quando se entristece com a perspectiva de um futuro sombrio, quando se irrita com a recordação de uma palavra ou de um ato que o ofendeu;

11º Se sente em você a necessidade de sonhar, mortifique-a sem piedade;

12º Mortifique-se com o maior cuidado sobre o que se refere à impaciência, à irritação ou à ira;

13º Examine a fundo os desejos, e submeta-os ao controle da razão e da fé: Você não deseja antes uma vida longa a uma vida santa? Prazer e bem-estar sem tristeza nem dores, vitórias sem combates, êxitos sem contrariedades, aplausos sem críticas, uma vida cômoda e tranquila sem cruzes de nenhum tipo, ou seja, uma vida completamente oposta à de nosso Divino Salvador?

14º Tenha cuidado de não contrair certos costumes que, sem ser positivamente maus, podem chegar a ser funestos, tais como o costume de leituras frívolas, dos jogos de azar, etc.;

15º Trate de conhecer seu defeito dominante, e quando o tiver conhecido, persiga-o até os últimos recantos. Por isso, submeta-se de boa vontade ao que poderia haver de monótono e de aborrecido na prática do exame particular;

16º Não é proibido ter um bom coração e mostrá-lo, mas fique atento ao perigo de exceder o justo meio. Combata energicamente os afetos demasiado naturais, as amizades particulares, e todas as sensibilidades moles do coração.

 

C. Mortificação do espírito e da vontade

1º Mortifique o espírito proibindo-lhe todas as imaginações vãs, todos os pensamentos inúteis ou alheios que fazem perder o tempo, dissipam a alma, e provocam o desgosto do trabalho e das coisas sérias;

2º Distancie do espírito todo pensamento de tristeza e inquietude. O pensamento do que poderá suceder no futuro não deve preocupá-lo. Quanto aos maus pensamentos que o molestam, deve fazer deles, distanciando-os, matéria para exercer a paciência. Se são involuntários, serão para você uma ocasião de méritos;

3º Evite a teimosia das ideias, e a obstinação dos sentimentos. Deixe prevalecer de boa vontade o juízo dos demais, salvo quando se trate de matérias em que você tem o dever de se pronunciar e falar;

4º Mortifique o órgão natural do espírito, ou seja, a língua. Exercite de boa vontade o silêncio, seja porque a Regra o prescreve, seja porque você o impõe espontaneamente;

5º Prefira escutar os demais do que falar você mesmo; mas, sem embargo, fale quando convenha, evitando tanto o excesso de falar demais, que impede os outros de expressar os pensamentos, como o de falar de menos, que denota indiferença ofensiva pelo que as outras pessoas dizem;

6º Não interrompa nunca quem fala, e não corte com uma resposta precipitada quem lhe pergunta;

7º Tenha um tom de voz sempre moderado, nunca brusco nem cortante. Evite os “muito”, os “extremamente”, os “horrivelmente”, etc.: não seja exagerado ao falar;

8º Ame a simplicidade e a retidão. A simulação, os rodeios, os equívocos calculados, que certas pessoas piedosas se permitem sem escrúpulo, desacreditam muito a piedade;

9º Abstenha-se cuidadosamente de toda palavra grosseira, trivial ou inclusive ociosa, pois Nosso Senhor nos adverte que nos pedirá conta delas no dia do Juízo;

10º Acima de tudo, mortifique a vontade; é o ponto decisivo. Sujeite-a constantemente ao que sabe ser do beneplácito divino e da ordem da Providência, sem ter em nenhuma conta os próprios gostos e aversões. Submeta-se até a seus inferiores nas coisas que não interessam para a glória de Deus e os deveres de estado;

11º Considere a menor desobediência às ordens, inclusive aos desejos de seus superiores, como dirigida a Deus;

12º Lembre-se de que praticará a maior de todas as mortificações quando amar ser humilhado e quando tiver a mais perfeita obediência àqueles a quem Deus quer que se submeta;

13º Ame ser esquecido e tido por nada: é o conselho de São João da Cruz, é o conselho da Imitação: não fale apenas de si mesmo nem para bem nem para mal, mas busque pelo silêncio fazer-se esquecer;

14º Diante de uma humilhação ou repreensão, sente-se tentado a murmurar? Diga como Davi: “Melhor assim! É-me bom ser humilhado!”;

15º Não alimente desejos frívolos: “Desejo poucas coisas, e o pouco que desejo, o desejo pouco”, dizia São Francisco;

16º Aceite com a mais perfeita resignação as mortificações ditas da Providência, as cruzes e os trabalhos ligados ao estado em que a Providência o pôs. “Quanto menos há de nossa eleição, mais há de beneplácito divino”, dizia São Francisco de Sales. Queríamos escolher nossas cruzes, ter outra diferente da nossa, levar uma cruz pesada que tivesse ao menos algum brilho, antes que uma cruz leve que cansa pela continuidade: ilusão! Devemos levar a nossa cruz, e não outra, e o mérito disto não se encontra na qualidade dela, mas na perfeição com que a levamos;

17º Não se deixe turbar pelas tentações, pelos escrúpulos, pelas securas espirituais: “O que se faz durante a aridez é mais meritório diante de Deus do que o que se faz durante a consolação”, dizia o santo bispo de Genebra;

18º Não devemos entristecer-nos demais pelas nossas misérias, mas nos humilhar bastante. Humilhar-se é uma coisa boa, que poucas pessoas compreendem; inquietar-se e impacientar-se é uma coisa que todo o mundo conhece e que é má, porque nesta espécie de inquietude e de despeito, a maior parte pertence ao amor próprio;

19º Desconfiemos igualmente da timidez e do desânimo, que despendem as energias, e da presunção, que nada mais é do que o orgulho em ação. Trabalhemos como se tudo dependesse dos nossos esforços, mas permaneçamos humildes como se nosso trabalho fosse inútil.

 

D. Mortificações que deve praticar nas ações exteriores

1º Deve observar a maior exatidão em todos os pontos da sua regra de vida, e obedecer sem demora, lembrando-se de São João Berchmans, que dizia: “Minha maior penitência é seguir a vida comum”; “Fazer o maior caso das menores coisas, esse é o meu lema”; “Antes morrer que violar uma só de minhas regras!”;

2º No exercício de seus deveres de estado, trate de estar muito contente com tudo o que parece feito de propósito para desagradá-lo e molestá-lo, lembrando-se também aqui da frase de São Francisco de Sales: “Nunca estou melhor do que quando não estou bem”;

3º Não conceda jamais um momento à preguiça; da manhã à noite, esteja ocupado sem descanso;

4º Se dedica a sua vida, ao menos em parte, ao estudo, pratique os seguintes conselhos de Santo Tomás de Aquino aos seus alunos: “Não se contentem em receber superficialmente o que lêem ou escutam, mas tratem de penetrar e aprofundar o sentido. – Não fiquem nunca com dúvidas sobre o que podem saber com certeza. – Trabalhem com uma santa avidez em enriquecer o espírito; classifiquem com ordem na memória todos os conhecimentos que possam adquirir. – Sem embargo, não tratem de penetrar os mistérios que estão acima de sua inteligência”;

5º Ocupe-se unicamente da ação presente, sem voltar-se ao que precedeu nem adiantar-se pelo pensamento ao que vem a seguir; diga com São Francisco: “Enquanto faço isto, não estou obrigado a fazer outra coisa”; “Apressemo-nos com bondade: será tão logo tanto quanto esteja bom”;

6º Seja modesto na compostura. Nenhum porte era tão perfeito como o de São Francisco; tinha sempre a cabeça direita, evitando igualmente a ligeireza que a gira em todos os sentidos, a negligência que a dobra adiante e o humor orgulhoso e altivo que a inclina para trás. Seu rosto estava sempre tranqüilo, livre de toda preocupação, sempre alegre, sereno e aberto, sem ter, todavia, uma jovialidade indiscreta, sem risadas ruidosas, imoderadas ou demasiado freqüentes. Quando se encontrava só mantinha-se em tão boa compostura como diante de uma grande assembleia. Não cruzava as pernas, não apoiava a cabeça no encosto. Quando rezava, ficava imóvel como uma coluna. Quando a natureza lhe sugeria gostos, não a escutava em absoluto;

7º Considere a limpeza e a ordem como uma virtude, e a sujeira e a desordem como um vício: evite os vestidos sujos, manchados ou rasgados. Por outra parte, considere como um vício ainda maior o luxo e o mundanismo. Faça de modo que ao lhe verem a vestimenta e adereços, ninguém diga: está desarrumado; nem: está elegante; mas que todo o mundo possa dizer: está decente.

 

E. Mortificações para praticar nas relações com o próximo

1º Aguente os defeitos do próximo: faltas de educação, de espírito, de caráter. Aguente tudo o que nele lhe desagrada: o modo de andar, a atitude, o tom de voz, o sotaque, e todo o resto;

2º Aguente tudo de todos e aguente até o fim e cristãmente. Não se deixe levar jamais por essas impaciências tão orgulhosas que fazem dizer: Que posso fazer de tal ou qual? Em que me interessa o que diz? Para que preciso do afeto, da benevolência ou da cortesia de uma criatura qualquer, e desta em particular? Nada é mais distante de Deus que esses desprendimentos altaneiros e essas indiferenças depreciativas; melhor seria, certamente, uma impaciência;

3º Encontra-se tentado a irar-se? Por amor de Jesus, seja manso. De vingar-se? Devolva bem ao mal. Diz-se que o segredo de chegar ao coração de Santa Teresa, era fazer-lhe algum mal. De mostrar a alguém uma cara má? Sorria com bondade. De evitar seu encontro? Busque-o por virtude. De falar mal dele? Fale bem. De falar-lhe com dureza? Fale doce e cordialmente;

4º Ame elogiar os irmãos, sobretudo aqueles a quem a sua inveja se dirige mais naturalmente;

5º Não diga acuidades em detrimento da caridade;

6º Se alguém se permite na sua presença palavras pouco convenientes, ou mantém conversações próprias a danificar a reputação do próximo, poderá às vezes repreender com doçura a quem fala, mas antes será melhor distanciar-se habilmente da conversação ou manifestar por um gesto de descontentamento ou desatenção proposital que o assunto o desagrada;

7º Quando lhe custar fazer um favor, ofereça-se a fazê-lo: terá duplo mérito;

8º Tenha horror de apresentar-se diante de si mesmo ou dos demais como uma vítima. Longe de exagerar suas cargas, esforce-se em considera-las leves. Em realidade, elas são leves, muito mais vezes do que parece, e o seriam sempre se você tivesse um pouco mais de virtude.

 

Conclusão

Em geral, negue à natureza o que ela pede sem necessidade. Saiba fazê-la dar o que nega sem razão. Seus progressos na virtude, disse o autor da Imitação de Cristo, serão proporcionais à violência que cometa contra si.

Dizia o santo Bispo de Genebra: “Há de se morrer a fim de que Deus viva em nós: porque é impossível chegar à união da alma com Deus por outro caminho, senão o da mortificação. Estas palavras: Há de se morrer! são duras, mas serão seguidas de uma grande doçura, porque não se morre a si mesmo sem se unir a Deus por essa morte”.

Quisera Deus que pudéssemos referir a nós com pleno direito as seguintes palavras de São Paulo: “Em todas as coisas sofremos a tribulação… Trazemos sempre em nosso corpo a morte de Jesus, a fim de que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos” (2Cor 4, 10).

O sacrifício da Cruz tornado visível

Uma das missões do Padre Pio foi “tornar a Cruz de Jesus Cristo visível”. Cristo assumiu forma humana para tornar o invisível visível. Essa revelação de Deus não terminou com Sua Ascensão, pois, quando retornou a Seu Pai, Nosso Senhor enviou o Espírito de Santidade. Desde então, cada século teve seus santos, cujas vidas perfeitas, em imitação de Cristo, parecem renovar sua Encarnação. A vida exterior de alguns Santos, às vezes, conforma-se a de Cristo com tamanha perfeição que eles revivem sua Paixão no seu próprio corpo.

São Francisco de Assis é o mais conhecido de todos eles, e vários artistas ilustraram o Poverello recebendo os estigmas. Outros Santos também experimentaram esse fenômeno extraordinário: Santa Catarina de Sena, ou a Madame Acarie (Beata Maria da Encarnação), cujos estigmas eram invisíveis.

 

O Sacrifício da Cruz tornado visível

Mas, até 20 de setembro de 1918, nenhum Padre, apesar de sua união sacramental com Cristo, o Sumo Sacerdote, havia sido escolhido ainda para renovar na sua carne o mistério do Sacrifício da Cruz.

No dia 20 de setembro de 1918, enquanto ele rezava em frente a um crucifixo pendurado em frente ao coro dos monges, raios de luz vindos do crucifixo perfuraram suas mãos, pés e seu lado como flechas. O jovem Capuchinho de 31 anos não sabia ainda, mas, pelos próximos 50 anos, até o dai 20 de setembro de 1968, ele traria visíveis as marcas da Paixão de Cristo, que ele revivia todos os dias.

Uma das missões do Padre Pio havia começado: a de tornar a Cruz de Jesus Cristo visível, de iluminar as almas para a realidade do sacrifício renovado no altar e de relembrar Padres e fiéis da vocação do Padre como vítima: “Se o grão de mostarda não morrer, não dará fruto.” “Fazei como me vistes fazer”

 

Virtudes heróicas

Nascido em 25 de maio de 1887, numa família camponesa, o pequeno Francesco Forgione era o quarto de sete filhos. Seus pais levavam uma vida muito simples e viviam numa casa pobre em Pietrelcina. Eles eram bons cristãos e trabalhavam duro.

A Igreja paroquial é dedicada a São Pio I, Papa e mártir, e foi em sua honra que o jovem Capuchinho escolheu o nome de Frei Pio.

Quando garoto, Francesco já era favorecido com visões e fenômenos extraordinários. Desde seus primeiros anos até o fim de sua vida, Padre Pio estava acostumado a receber visitas de anjos, aparições marianas e… via-se sujeito a violência diabólica. No início, o garoto pensava que todos as crianças da sua idade experimentavam as mesmas coisas.

Cuidado, caro leitor, pois é aqui que a devoção ao Padre Pio pode se desviar [do reto caminho]. Como os autores espirituais explicam, fenômenos extraordinários não são santidade; esses fenômenos, às vezes, e mesmo com frequência, costumam vir de mãos dadas com a santidade; mas eles podem, porém, acontecer sem a santidade e devem ser cautelosamente distinguidos dela. Se o Padre Pio é um santo, não é por causa de sua bilocação ou de outros fenômenos extraordinários, mas por causa de suas virtudes heróicas.

E o pequeno Francesco praticou a virtude heróica desde o começo. Sua mãe não o encontrava dormindo no chão, com sua cabeça numa pedra? Sua piedade era sólida, sua obediência absoluta, sua diligência nos estudos e deveres mais que admirável, e sua amizade, exemplar.

Aos 15 anos, uma estranha visão implicitamente revelou a ele seu futuro: um anjo o convidou a lutar contra um gigante muito mais forte que ele. Relutando, o jovem adolescente lutou e venceu. Com essa comemoração divina de Davi e Golias, a Providência anunciou a Francesco a violência das batalhas que estavam por vir.

Algumas semanas mais tarde, no dia 22 de janeiro de 1903, aos 15 anos, ingressou no noviciado capuchinho de Morcone e tomou o nome Frei Pio de Pietrelcina.

Sua mãe estava lá, mas seu pai estava nos Estados Unidos, trabalhando para pagar os estudos de seus filhos. Por sete anos no total (3 e, depois, 4), esse pai admirável esteve separado de sua não menos admirável esposa e de seus filhos queridos para lhes prover.

Os estudos do jovem noviço continuaram até 1909. O jovem monge se mostrou sério e estudioso, seus resultados eram satisfatórios, mas não brilhantes. No fim de seus estudos, ele rapidamente ascendeu os passos do santuário: após receber as primeiras ordens menores em 1908, foi ordenado diácono no ano seguinte, em julho de 1909.

 

Desafios de saúde

Mas problemas de saúde começaram a atormentar o jovem monge. Ele teve que interromper seus estudos e até a vida conventual, recebendo ordens de ir descansar na casa de sua família em Pietrelcina. Esse descanso temporário duraria… sete anos. Apesar dessa dificuldade, foi ordenado padre na Catedral de Benevento no dia 10 de agosto de 1910 e celebrou sua primeira Missa em Pietrelcina, em 14 de agosto.

Separado dos demais capuchinhos e vítima de tormentas interiores terríveis, ele trocava correspondências regularmente durante esse período com o Padre Agostinho, seu diretor espiritual, que lhe recomendou escrever seu combate interior e as graças extraordinárias que recebia.

Um superior planejava enviá-lo para viver como padre secular, mas ele foi instruído a retornar ao convento em 1911. O demônio estava enfurecido; atacava e batia no jovem místico com tanta violência que o guardião do convento, movido por uma inspiração muito franciscana, ordenou Padre Pio a pedir a graça de ser doravante atormentado… em silêncio. Essa graça foi alcançada naquela mesma noite, para grande alegria dos capuchinhos, um pouco cansados do barulho, e dos aldeões, que começavam a se mostrar preocupados.

No entanto, a saúde frágil do Padre Pio forçou-o a retornar a Pietrelcina. Os médicos tiveram dificuldade de encontrar um diagnóstico, a ponto de um deles chegar a anunciar que o padre não duraria mais que uma semana.

O capuchinho deixou Pietrelcina novamente para ir a Foggia, onde o ar não lhe fez bem. No dia 28 de julho de 1916, foi aconselhado a ir a San Giovanni Rotondo para descansar por algumas semanas. Ele permaneceria ali até sua morte...

Meio vivo e meio morto, foi alistado, até que o olharam mais de perto. Há uma foto desse período do frade Capuchinho como recruta, trajando um uniforme e segurando uma arma; ele nunca havia dado um tiro e parece meio deslocado na foto. Foi durante esse período que ele bilocou pela primeira vez. Os italianos haviam acabado de ser duramente derrotados em Caporetto em 24 de outubro de 1917, e seu comandante, General Cardonna, decidiu cometer suicídio; quando ele estava levantando sua arma, um capuchinho entrou em seu escritório e convenceu-o a mudar de ideia. O general assim fez, e, então, agradeceu ao bom padre e dispensou-o. Ele imediatamente perguntou aos seus subordinados quem era aquele padre que eles deixaram entrar, mas ninguém o havia visto entrar ou sair. O general só o reconheceu em uma foto muitos anos mais tarde.

 

Uma ferida de amor

Ao retornar a seu convento depois do período nas forças armadas, ele recebeu a graça de uma ferida de amor no dia 30 de maio de 1918. No dia 05 de agosto, recebeu uma transverberação e, no dia 20, os estigmas, com muita dor. Mas não se enganem. Como ele escreveu ao Frei Agostinho, seu diretor espiritual, “em comparação com o que eu sofro em meu corpo, os combates espirituais que estou travando são muito piores (…); estou vivendo numa noite perpétua… Tudo me atormenta, e não sei se estou fazendo o bem ou o mal. Eu percebo que isso não são escrúpulos, mas a dúvida que sinto sobre se estou agradando ou não a Deus me esmaga.

No início, Padre Pio tentou curar suas feridas. Não adiantou. Tentou escondê-las. Em vão. As peregrinações a San Giovanni Rotondo começaram.

De 1918 a 1921, o apostolado do Padre cresceu, e os médicos que examinaram suas feridas estavam convencidos de sua natureza inexplicável. O Papa Bento XV chegou mesmo a dizer que “Padre Pio é um desses homens que Deus envia à terra de tempos em tempos para converter nações.”

O ano de 1921 mudou o curso das coisas. Uma conspiração eclesiástica de Padres corruptos vivendo com mulheres e presidida por um Bispo que praticava simonia teve influência em Roma. O Bispo de Manfredonia, a diocese à qual pertencia o convento de San Giovanni Rotondo, chegou a clamar que havia visto o Padre Pio usar perfume e talco e derramar ácido nítrico nas suas feridas para piorá-las! E os cônegos de San Giovanni Rotondo, ao menos alguns deles, faziam fofoca sobre os lucros que os capuchinhos estavam tendo com o “estigmatizado”. O pior é que elas foram levadas a sério.

Preocupada com essas alegações episcopais e revelações, Roma tornou-se muito cautelosa… com os Capuchinhos. Um período difícil para o Padre Pio se seguiu, pois o apostolado confiado a ele foi, pouco a pouco, tirado dele. Houve mesmo conversas sobre transferi-lo a outro convento. Isso foi suficiente para mexer com os locais, que estavam determinados a manter e a defender o “santo” deles. Uma rebelião não era coisa impossível. Pensando que iria deixar esse pequeno vilarejo situado no Cabo de Gargano, Padre Pio escreveu essa carta tocante, cujas palavras finais, hoje, estão inscritas na cripta onde ele estava enterrado.

“Eu sempre me lembrarei desse povo generoso na minha pobre e assídua oração, pedindo paz e prosperidade para si; e, como sinal da minha afeição, não podendo fazer nada mais, eu expresso meu desejo de que, enquanto meus superiores não se objetem, meus ossos sejam enterrados nesta terra”

Um superior Capuchinho até pensou em levar o Padre Pio embora escondido em um barril num carrinho. Obediente, porém nem servil, nem burro, o Padre Guardião recusou essa farsa.

Punições continuaram caindo sobre o pobre Padre. No dia 23 de março de 1931, o Santo Ofício proibiu-lhe qualquer ministério, qualquer celebração pública da Missa e qualquer contato com outro capuchinho fora do seu convento. Após ter permanecido estoico quando descobriu, no refeitório, a carta que seus irmãos não lhe haviam revelado (por discrição), ele desabou em lágrimas ao chegar a sua cela. Um bom irmão que testemunhou a cena se sentiu mal por ele, mas o Padre Pio deu-lhe uma resposta digna daquela dada às santas mulheres de Jerusalém: ele estava chorando não por ele, mas por todas as almas que seriam privadas das graças da conversão.

Como um recluso, Padre Pio aproveitou seu tempo lendo. A História da Igreja de Rohrbacher e, em um único dia, a Divina Comédia – paradoxalmente sofrendo de dores de cabeça ao chegar ao 'Paraíso'.

Em 1933, as sanções começaram a ser levantadas. Padre Pio retomou seu ministério, especialmente no confessionário, onde passava, regularmente, até 10 horas por dia.

 

Projeto de hospital

Os anos pacíficos passaram. Em 1940, já era um homem doente quando lançou o projeto do que viria a ser a Casa Sollievo della Sofferanza, um grande hospital com material moderno e médicos eminentes. Como em todas as obras providenciais, não houve ausência de obstáculos, mas o hospital foi inaugurado em maio de 1956. Ele ainda existe hoje.

Ao mesmo tempo, Padre Pio criou grupos de orações ao redor de todo o mundo, principalmente graças a seus filhos e filhas espirituais, que incluíam [antigos] maçons, vigaristas, um tenor famoso (Gigli) e mulheres de pouca virtude.

Pio XII pediu-lhe orações, mas sua morte em 1957 iniciou um novo e doloroso capítulo na vida do Capuchinho. Alguns dos seus irmãos de elevado grau na Ordem demostravam tudo, menos interesse religioso pelas somas enormes de dinheiro que passaram pelas suas mãos. Eles queriam esse dinheiro para eles mesmos. Uma conspiração “filial” apoiada pelas autoridades da Ordem se formou; eles chegaram até mesmo a colocar microfones na cela e no confessionário do Padre. O caso foi descoberto – o Padre reclamou a um dos seus amigos – e os irmãos culpados dessa vigilância nada evangélica foram dispensados de suas funções e enviados a outros conventos.

O fim da sua vida foi mais pacífico, embora ainda empregado no desgastante ministério às almas.

Dois eventos nos últimos meses da sua vida são dignos de menção. A Missa Nova promulgada em 1968 foi precedida por Missas normativas. Padre Pio pediu que lhe fosse permitido celebrar a Missa de todos os tempos, e essa permissão lhe foi dada.

No mesmo ano, 1968, a encíclica de Paulo VI sobre controle de natalidade foi promulgada. Padre Pio, com apenas dois meses de vida restantes e no ápice da sua vida mística, enviou uma carta ao Papa agradecendo-lhe por essa Encíclica, que causou tanta controvérsia.

Esse segundo Cura d’Ars sentia o fim aproximando-se. Na noite de 20 a 21 de setembro, 1968, cinquenta anos após aparecerem, seus estigmas desapareceram: a pele das suas mãos ficou macia e limpa, sem qualquer marca de cicatriz. Seu jubileu de sangue foi completado. A Eternidade se aproximava, e, na noite de 22 a 23 de setembro, Padre Pio foi se encontrar com seu Criador.

 

DOM LEFEBVRE E PADRE PIO

No fim do verão de 1967, Dom Lefebvre estava na Itália e viajou a San Giovanni Rotondo. O encontro foi breve. Dom Lefebvre pediu a bênção do Padre para o Capítulo vindouro dos Padres do Espírito Santo. O humilde capuchinho se negou, respondendo a Dom Lefebvre que era ele quem devia abençoá-lo. Educação entre santos.

Esses dois grandes homens da Igreja eram muito diferentes. Um era padre, o outro, bispo; um experimentou vários fenômenos extraordinários, o outro deixou apenas uma memória enigmática de um sonho misterioso em Dakar.

E, ainda assim, ambos trazem semelhanças importantes.

Ambos sofreram pela Igreja através da Igreja.

Ambos foram vítimas de verdadeiras perseguições por parte das autoridades, apesar de essas perseguições terem sido por razões muito diferentes, e eles reagiram de maneira muito diferente a elas.

As perseguições do Padre Pio eram pessoais, inspiradas pela inveja de Padres seculares dissolutos e pela ganância de certos capuchinhos. Essas perseguições levaram a punições injustas, que Padre Pio aceitou com obediência heróica.

O caso de Dom Lefebvre era diferente. As perseguições vieram da sua determinação de manter a Fé e a Missa de todos os tempos e da sua recusa aos erros conciliares e à nova liturgia. Razões de fé guiavam essas perseguições, que iam muito além de uma simples questão de disciplina. Dom Lefebvre, portanto, resolveu desobedecer a essas injunções por uma razão mais elevada que a obediência formal pura. Sua Fé foi heróica, enquanto sua obediência não teria sido nada além de um servilismo confortável e uma prudência mundana.

Outra semelhança é o entendimento profundo de ambos do Santo Sacrifício da Missa. Ambos relembraram incessantemente a natureza sacrificial e expiatória da Missa que a nova liturgia queria esconder, um através de sua maneira muito mística de celebrar a Missa como o caminho do Calvário, o outro através da sua espiritualidade centrada no Santo Sacrifício. Ambos relembraram o papel central do Padre na obra da Redenção, um por uma vida literalmente crucificada, o outro por seu apostolado do sacerdócio.

 

(Originalmente publicado na edição de Julho-Setembro de 2018 (Nº 340) de Le Chardonnet)

Sermão Germinet Terra

Sermo Geminet terra:

que se cubra de verdura a terra!

 

Breve preâmbulo

Produza a terra erva verde, e que dê semente, e árvores frutíferas, que dêem fruto segundo sua espécie, cuja semente esteja nelas mesmas (para se reproduzirem) sobre a terra. E assim se fez.(Gn. 1, 11). Declara Isaías sobre o Cristo: Quem falará de sua geração? (Is. 53, 1) De certo modo depende a geração do Cristo da geração de Maria (falo da geração temporal do Cristo). Ora para se descer a detalhes da geração de Maria, não basta a inteligência humana. Invoquemos pois a graça do Espírito Santo, por que se santificou Maria, e imploremos ao Divino Espírito que me conceda dizer algo de valor.

 

Primeira Parte

[Maria, remédio enquanto erva verdejante]

É regra da divina providência diligenciar por cada ser, segundo sua conveniência. Por isso dispõe ao homem, porque é humano, remédio tirado da terra. Assim conforme lemos em Sirácida: O Altíssimo é quem produziu da terra o medicamento (Eclo. 38, 4). Oferecem-se dois remédios tirados da terra: a erva verdejante e as árvores frutíferas. A erva verdejante é a bem-aventurada Virgem, cuja festa celebra a Igreja por esses dias. Com efeito, ela se chama erva pela humildade, verdejante pela virgindade, e frutífera pela fecundidade. Considerando as propriedades da erva, podemos apanhar três características: a erva é mirrada em tamanho, suave ao tato, benfazeja em virtude.

Em primeiro lugar, digo que a erva é mirrada em tamanho. Se comparássemos a erva à árvore, veríamos que ela pouco cresce em altura, contrariamente à árvore, que se avulta para cima. Ora a altura significa orgulho. Assim aquilo do Salmo: Vi o ímpio arrogante, e elevando-se como o cedro frondoso (Sl. 37 [36], 35). O ímpio, i. é, o orgulhoso, pois que o orgulho é princípio de impiedade, se eleva pela riqueza do mundo, contra a qual escreve o Apóstolo: Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem confiem na incerteza das riquezas, mas em Deus vivo (1 Tm. 6, 17). Eleva-se no conhecimento, porque o orgulho do conhecimento se exalta a si mesmo. Se sua soberba subir até ao céu, e sua cabeça tocar nas nuvens, por fim perecerá como o esterco (Jó 20, 6). Percebe que a prosperidade mundana e a alta idéia que tem de si, que o eleva como o cedro do Líbano, exaltam o ímpio. Donde o profeta Amós: Sua altura era como a altura dos cedros (Amós 2, 9).

A erva não cresce muito, mas permanece mirrada em tamanho, significando humildade. [Deus] faz germinar a erva (...) para serviço do homem (Sl 147 [148], 8). Por serviço entenda-se a humildade. Eleva-se a árvore muito acima da terra, permanecendo fixada a ela; a erva pouco se fixa a terra, sendo rapidamente arrancada dela. Assim o orgulhoso, conquanto se magnifique deveras e se exalte, tem o coração plantado em terra, donde não se pode arrancá-lo. O humilde nada possui na terra; assim, o coração se arranca facilmente dali. Em razão dessa pequenez o humilde se compara à erva.

Possuía a bem-aventurada Virgem inúmeras qualidades por que se deve louvá-la. Era ela cheia de graça, segundo o testemunho do anjo. Foi escolhida Mãe de Deus, e em se tornando Mãe de Deus, só glorificava de si a humildade ao dizer (Lc. 1, 48): Porque se curvou sobre sua humilde serva. Buscava o Senhor a mulher por que se salvaria o gênero humano, para que o contrário curasse o contrário. O orgulho perdeu o gênero humano, pois a origem de todo o pecado foi o orgulho. Não convinha que o humilde Filho, que com a humildade veio salvar o gênero humano, habitasse mãe orgulhosa. Assim, Deus é todo atenção para a humildade. A propósito da humildade da bem-aventurada Maria escreve Agostinho num sermão sobre a Assunção: Ó verdadeira humildade de Maria, que engendrara Deus para a humanidade, revelara a vida aos mortais, franqueara os céus, purificara o mundo, desvendara o Paraíso ao homem, libertara as almas dos homens!. A pequenez da erva significa a humildade de Maria.

Em segundo lugar, a erva não é dura, mas tenra. Tenra ou cediça ao tato, como um coração tenro que não se obstina. Há de se notar a existência de certa ternura de coração, [que é] virtuosa e natural, e de outra viciosa e supurativa. [Ora] localiza-se a vontade ou coração humano entre duas realidades: a que lhe é superior, e a que lhe é inferior. Caso ceda facilmente ao inferior – à concupiscência da carne ou à cobiça do mundo – trata-se de ternura antinatural, de que fala o livro dos Provérbios: Para guardar-te da mulher estrangeira, da desconhecida de palavras lisonjeiras (Pr 2, 16), e Jeremias: Sai do meio dela, povo meu, para que salve cada um a sua vida da ira do furor do Senhor (Je 51, 45). Não era essa a ternura da erva [Virgem Maria]. Do mesmo modo a vontade do homem tem a de Deus acima, devendo ceder à moção divina, pois o coração duro conhecerá a tristeza no último dia (Eclo. 3, 26). Acerca da ternura escreve Jó: Deus amolgou meu coração, e o Onipotente me turbou (Jó 23, 16). Compara-se a juventude à erva, no Salmo 90[89], 6: De manhã, i. é, na juventude, floresce e rebentade noite, abate-se e resseca. Durante a juventude, deixa-se o homem facilmente conduzir. A bem-aventurada Virgem teve essa fineza de obediência, porque logo obedeceu a palavra do anjo, e acreditou fosse conceber do Espírito Santo. Ela se submete sem vacilar: Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a vossa palavra! (Lc. 1, 38). Assim se dá com os santos, que só ensinam o que experimentaram. Como fosse a bem-aventurada Virgem a mais obediente das criaturas, ensina-nos a obediência. De tudo quanto se diz dela no Evangelho, lê-se que ensinara sobretudo o mandamento da obediência: Fazei tudo quanto ele vos disser (Jo 2, 5). Diz ela: Tudo quanto vos disser, e não: Tudo quanto vos ordenar, pois ela é a mesma prontidão de obediência, obedecendo à mera palavra do superior. Assim escreve São Paulo a Tito: Sejam sujeitos aos príncipes e às autoridades, que lhes obedeçam (Tito 3, 1). A obediência é virtude primordial. Deste modo se refere a ela Gregório, nas Morais (XXXV, 14): “A obediência é a única virtude que introduz n’alma as demais virtudes, para em seguida guardá-las ali”. Certas pessoas saem a murmurar e dizer que é melhor obedecer à vontade espontânea que à vontade alheia, mas isso é falso. Dentre todas as boas ações exteriores, nenhuma se compara ao oferecimento de sacrifício, e a obediência é mais agradável que holocaustos. Por isso diz Gregório: “É justo preferir obediência a sacrifícios, porque estes imolam carne estranha, enquanto aquele imola a vontade própria” (ibid). A bem-aventurada Virgem propusera ensinamentos em atos e palavras sobre a obediência. Pela desobediência de um só homem, todos somos pecadores; era conveniente que fôssemos salvos pela obediência, e como a obediência do filho se inicia pela mãe, deste modo a bem-aventurada Virgem foi obediente.

Em terceiro lugar, a erva possui virtude benfazeja para a saúde: serve para cuidar das doenças; se ela não tivesse virtude medicinal, escrever-se-ia em vão no livro da Sabedoria: Nem erva nem ungüento recobravam-lhe a saúde (Sb. 16, 12). O gênero humano estava doente: Tende piedade de mim, Senhor, porque sou enfermo: sara-me (Sl. 6, 3). A doença é conseqüência do pecado; quisera Deus aplicar remédio medicinal, agindo como bom médico. Quando os bons médicos querem demonstrar sua ciência médica, aplicam-se em primeiro às doenças gravosas, tornando-se deste modo célebres. O gênero humano definhava, nascendo em corrupção no ventre da mulher. É o que afirmava Salomão: Constatei que a mulher era mais amarga que a morte (Sb. 7, 26). Querendo manifestar a bondade do remédio, o Senhor aplicou-o antes do mais na mulher, para que o remédio se estendesse aos demais, como está escrito: O remédio de todos esses males é uma nuvem que venha depressa (Eclo. 43, 24). Na oração Salomão diz: O Senhor disse que habitaria numa névoa (1 Re 8, 12). Dentro da nuvem, i. é, da bem-aventurada Virgem, encontra-se a salvação e a cura do gênero humano. Assim se afirma em Sirácida: Em mim há toda a graça do caminho e da verdade, em mim toda a esperança da vida e da virtude (Eclo. 24, 25). Como se encontrasse o remédio de todos na nuvem, a saber, a bem-aventurada Virgem, escreve o Apóstolo: Aproximemo-nos, pois, confiadamente do trono da graça, a fim de alcançar a misericórdia (Hb. 4, 16). Ele diz: [O remédio] é uma nuvem que venha depressa, pois a virtude [desse remédio] rapidamente se manifesta. Já que é rápida para quem recebeu a graça durante a infância, quanto mais para a Virgem, que a recebe desde o seio maternal, donde foi purificada do pecado original [...]. Deus está no meio dela; não será comovida (Sl. 46 [45], 6), nem pelo pecado mortal, nem pelo venial. Também diz Agostinho: “Não hei de falar coisa alguma, quando se trata de pecado na mãe de Deus”. Igualmente o texto de Jerônimo no saltério traz: “Deus a socorreu desde o despontar da manhã” (Sl. 46 [45], 6). Assim sendo celebramos seu nascimento acima daquele dos outros santos, exceto os do Cristo e de São João Batista. A bem-aventurada Virgem fora erva pela humildade.

De igual modo, foi ela erva verdejante pela virgindade. Em Jerônimo se diz: Toda a erva da região ressecará; mas a bem-aventurada Virgem era erva verdejante pela virgindade. Assim em Lucas: O anjo Gabriel foi enviado a Maria, [que era] virgem (Lc. 1, 27).

Vede como neste verdejar observamos a humildade, a beleza e a utilidade ou necessidade. [Traduzida] nesta verdura, vemos [simbolizadas] a frescura, a beleza, a utilidade ou necessidade.

Em primeiro lugar, digo que nisso constatamos a humildade como causa, pois a humildade é causa do verdejar. Assim em Sirácida: A verdura que cresce sobre as águas (Eclo. 40, 16). Deveis saber que a erva se resseca por causa do sol ou do fogo. Do mesmo modo a concupiscência da carne resseca a verdura da virgindade. Segundo Jó: É fogo que consome até o extermínio (Jó 31, 12). Que alimenta a verdura da virgindade? Sem dúvidas o amor celeste, pois a virgindade tem algo de celeste. Deste modo escreve Jerônimo: “Viver na carne como se fora dela não é comportamento terrestre ou humano, mas celeste.” E o Apóstolo, ao encorajar a virgindade, apostrofa: Cada um tem de Deus seu próprio dom; uns dum modo, e outros doutro (1 Co. 7, 7). A virgindade é dom da graça de Deus, com o concurso do livre arbítrio. Assim o adolescente diz: Não poderia ser casto se Deus me não concedesse (Sb. 8, 21). Não continha a Virgem a água da graça? Claro, porque lhe declarara o anjo: Não temais, Maria, pois encontrastes graça diante de Deus (Lc. 1, 30). Ela foi cumulada de graça, como também afirmou o anjo: Ave, cheia de graça; porque ela continha em plenitude as águas da graça, não se contentara em preservar a virgindade do modo habitual, a saber, pela continência conjugal, mas se propusera firmemente à preservação da virgindade perpétua para além do uso comum. Desta feita respondeu ela: “Como poderá ser, se não conheço varão?” (Lc. 1, 34), i. é: “Não me proponho a conhecer nenhum”.

Em segundo lugar, vemos neste verdejar beleza deleitável. Diz-se em Sirácida: A graça e a beleza deleitam a tua vista; mas a verdura dos campos leva vantagem a ambas essas coisas (Eclo. 40, 22). A pureza da carne e a virgindade regozijam o olhar de Deus e dos santos. Por quê? A bem falar, quem regozija é a ordem ou beleza da ordem. Fala Agostinho: “Se algum percebe janelas mal postas numa casa, não se regozija”. No homem a ordem natural é a carne submissa à alma; onde a ordem é respeitada existe beleza, mas onde a perturbam deforma-se o homem. Daí vem que os pecados da carne, embora uns e outros difiram em gravidade, desonrem o homem, por vergonhosos e desordenadores: o que no homem é inferior se torna superior, e vice-versa. Na bem-aventurada Virgem nada era desordenado, nem ato, nem desejo, estando isenta das inclinações pecaminosas. Por isso se diz nos Cânticos: Toda és formosa, minha amiga, e em ti não há mácula (Ct. 4, 7). Por causa disso escreve-se a seu respeito: O rei desejará tua beleza (Sl. 45, 12).

Igualmente concluímos que o verdejar é útil. Enquanto a erva permaneça verde, espera-se que produza frutos. Mas à ressecção, já não se espera mais frutos. Vaticina Isaías: Secou-se a erva, não vingaram as sementes, pereceu toda a verdura(Is. 15, 6). Ao contrário, verde a erva, espera-se dela fruto. Assim Jeremias: Será sempre verde sua folha e em tempo de seca não terá mingua (Je. 17, 8). Quando alguém floresce em virgindade, produzirá fruto de caridade. Mas quando ressequido na concupiscência, então suas obras são estéreis para a vida eterna. Aquele semeia na carne, da carne colherá corrupção (Ga. 6, 8). Só tem serventia a erva seca se jogada no fogo. Em paralelo, quem arde no fogo da concupiscência não tem serventia, senão jogado no fogo do inferno. Contudo a bem-aventurada Virgem sublimou-se em virgindade, melhor, ela é a rainha das virgens. Como possuísse em grau excelente a verdura da virgindade, produziu fruto admirável. As demais, porque virgens, produziram fruto espiritual, sobre o qual diz o Apóstolo: O fruto do Espírito é caridade, contentamento, paz (Gl. 6, 8). Como abundava nesta verdura, a bem-aventurada Virgem produziu fruto em seu seio. Disseram acerca dela: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto de teu ventre! (Lc. 1, 42). A propósito diz Isaías: Uma virgem concebera e dará luz a um filho (Is. 7, 16). Seu coração arderá de admirável ardor, e por isso faz maravilhas em sua carne. As demais virgens produziram fruto espiritual, mas esta produziu fruto no ventre. Foi ela então erva verdejante. Disse [Deus]: Produza a terra erva verde, e que dê semente! (Gn. 1, 11).

Que tipo de semente? Semente santa, semente virtuosa, semente necessária.

Em primeiro lugar, produziu a bem-aventurada Virgem semente santa. Segundo Isaías (6, 13): Estabelecer-se-á nela uma semente santa. Por que santa? Porque será a semente do que é santo. Em primeiro lugar, será a santidade de Deus, que é o mesmo Santo dos Santos. Diz-se: Sereis santos como eu sou santo (Lv. 11, 45). Essa é a casta santa que brota da semente, por isso semente santa. A semente é a palavra de Deus (Lc. 8, 11), e o Cristo é o Verbo de Deus. A propriedade da semente é produzir algo semelhante a si; assim, a semente do Verbo de Deus produz algo semelhante a si, fabricando deuses. Por isso afirma João: Deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus (Jo 1, 12). Louva-se Abraão por sua santidade; o Cristo é semente de Deus segundo o Espírito, e descendente de Abraão segundo a carne, a quem se dirigiram as promessas, assim como à sua descendência (Gl. 3, 6). Na tua descendência serão benditas todas as nações da terra (Gn. 22, 18). A semente, pois, é santa. Pela semente do Verbo de Deus nos tornamos filhos de Deus, tanto quanto pela semente de Abraão somos filhos de Abraão. Bendita a semente que nos traz a benção!

Ela é também semente virtuosa. No Evangelho comparam-na ao grão de mostarda, o menor dentre os grãos, que produz árvore de longos ramos, onde se refugiam os pássaros do céu. O Cristo é uma semente pequenina: na cruz, apequenou-se, mas crescera até preencher o céu e a terra. Subiu aos céus para abarcar todas as coisas.

Igualmente é semente necessária. Assim concluiu Isaías: Se o Senhor dos Exércitos não nos conservasse alguma semente, teríamos sido como Sodoma (Is. 1, 9). O bem-aventurado Pedro diz: Não existe, sob os céus, outro nome dado aos homens por que possamos ser salvos (At. 4, 12). A semente é admirável, e admirável sua germinação. A terra é a natureza humana privada da umidade da graça. Assevera Jeremias: Observei a terra; eis que estava vazia, e não havia coisa alguma (Je. 4, 23) Como pudera produzir erva? Dalguma forma, certamente. A terra estava árida da concupiscência do pecado. Eis aquilo do Sirácida: Ao meio-dia queima a terra (Eclo. 43, 3). Com efeito estava a terra mais abaixo, pois acima Deus criara o céu, e embaixo a terra. Como ela germinou? Está escrito em Gênese: Disse Deus: produza a terra erva verde (Gn. 1, 11). Uma palavra, i. é, a geração do Verbo, e se produz o fruto. De igual modo em Provérbios: A Sabedoria construiu sua casa (Pr 9, 1), a saber, na bem-aventurada Virgem, fazendo-lhe produzir erva. [Lemos] nos Salmos: Nela nasceu um homem etc. (Sl 87 [86], 5). Tal homem preencheu a terra, porque estava vazia. Visitaste a terra e a regaste, cumulaste-a de riquezas (Sl. 65 [64], 10). Igualmente, por que estava ressecada, ele a regou com o Espírito Santo. Lemos nos Salmos: Ressumam os pastos do deserto, e as colinas cingem-se de alegria (Sl. 65 [64], 13). Também, porque era pequenina, infiltrou-se na terra para dar-lhe semente celeste. Prega Isaías: Assim será a minha palavra, que sair da minha boca: não tornará para mim vazia, mas fará tudo o que eu quero, e produzirá os efeitos para os quais eu enviei (Is. 55, 11). Se alguém se esvaziou pelo pecado, volva-se a esta erva, e será cumulado de bens. Lemos nos Salmos: Seremos cumulados dos bens da tua casa (Sl. 65 [64], 5). Se há alguém que ressecou, recorra a esta palavra, e será regado. Lemos nos Salmos: Nele confiou meu coração, e fui ajudado (Sl. 28 [27], 7). Se há alguém mergulhado em profundezas, recorra a esta palavra, e será conduzido à luz celeste. Salmo 43 [42], 3: Envia tua luz e tua verdade; elas me guiarão, me levarão à montanha santa, e me introduzirão nas tuas moradas.

Que se digne o Senhor em nos conceder etc.!

 

Segunda Parte

[A cruz, remédio semelhante à árvore frutífera]

 

Produza a terra erva verde, etc. (Gn. 1, 11).

O Altíssimo nos retirou da terra dois remédios: a erva verdejante e a árvore frutífera. Falamos da erva, a bem-aventurada Virgem. Resta falar da árvore frutífera, a árvore da venerável cruz do Senhor, cuja celebração agora se inicia. Ambosremédios se ligam de modo conveniente, pois a erva verdejante nos traz a salvação, mas a árvore frutífera no-la garante e eleva, já que o Filho de Deus se fez obediente etc., e mais a frente: Por isso também Deus o exaltou (Fl. 2, 7). Deste modo lê-se no Evangelho que estavam de pé junto da cruz de Jesus sua mãe [...] (Jo. 19, 25).

Vejamos em que se constitui essa árvore. A propósito da árvore Moisés parece descrever três características: a espécie, a aparência e o fruto. Se tu te interrogares sobre a espécie, ele responde: de madeira; se sobre a aparência, ele responde: frutífera; se sobre o fruto, ele responde: carregado.

Primeiramente, se te interrogares sobre a espécie da árvore, digo que é de madeira. A madeira convém como remédio por três razões: convém em relação a nossa ferida, à nossa reparação, e àquele quem repara.

Em primeiro lugar, digo que a árvore da cruz nos convém como remédio porque convém à ferida. Uma árvore feriu o gênero humano, pois o primeiro homem comeu da árvore proibida. Assim encontrou a sabedoria divina remédio numa árvore. A desobediência feriu o gênero humano, porque o primeiro homem subtraiu o fruto da árvore proibida. O homem novo restituiu à árvore comum o fruto de salvação. Salmo 69 [68], 5: Restitui aquilo que não roubei. Ele se deu a si na árvore para compensar o dano e trazer o remédio. O madeiro, do qual se faz bom uso, é bendito (Sb. 14, 7).

Prestai atenção: comparemos o madeiro [da cruz] à árvore. A propósito da árvore proibida, diz-nos três coisas a Escritura: A mulher viu que a árvore era boa para comer e agradável aos olhos... tirou do fruto dela e comeu (Gn. 3, 6-7). Antes de tudo a árvore é boa para comer: por isso é apta à alimentação. Ao contrário a árvore da cruz nos ensina a mortificação da carne. Daí se afirmar: Aquele que os vossos príncipes suprimirão. Aquela árvore é morta: Se viverdes segundo a carne, morrereis (Rm 8, 13). Ao contrário a árvore da cruz vivifica a carne, matando-a: Porque também Cristo morreu uma vez pelos nossos pecados, ele, justo pelos injustos, para nos oferecer a Deus, sendo efetivamente morto segundo a carne, mas vivificado pelo Espírito (1 Pe. 3, 18); e ainda: Se pelo Espírito fizerdes morrer as obras da carne, vivereis (Rm. 8, 13).

Em segundo lugar, encontrava-se beleza terrestre na árvore proibida: Ela viu a árvore, que era agradável ao olhar (Gn. 3, 6). [Disse] Isaías: Toda sua glória é como a flor dos campos (Is. 40, 6). A flor carrega a beleza e a glória do mundo, mas é maldita porque por ela os homens são levados à danação. Lamenta Jó: Eu vi o insensato com profundas raízes, e logo amaldiçoei a sua prosperidade (Jó 5, 3). Ao contrário a árvore da cruz é ignominiosa. Assim se descrevera acerca deste momento: É maldito de Deus o que pende do madeiro (Dt. 21, 23). Reparai a afirmação de que a árvore era agradável aos olhares de Adão e Eva, e disso se gloriavam. Primeiro, fala-lhes a serpente sobre a ciência: sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal (Gn. 3, 5). Desta feita se denominava árvore da ciência do bem e do mal. Existem bens que os homens aplicam corretamente, como as virtudes; mas ter experiências de certas coisas não é experimentar virtudes. Há quem abunde em bens do mundo, e os utiliza mal. Esta árvore possuía beleza de olhar, mas a árvore da cruz possuía a vergonha da loucura. Assim aquilo do Apóstolo: Proclamamos um Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios (! Co. 1, 23). Oséias: Transformarei a beleza dessa árvore em ignomínia (Os. 4, 7). Mas a ignomínia da cruz se transmudou em glória. Assim encontramos em Ezequiel: Eu, o Senhor, humilhei a árvore alta e exaltei a árvore humilde (Ez. 17, 24). Vede com o madeiro da cruz está exaltado. Cosroes, rei da Pérsia, tomara de Jerusalém como despojo a árvore [da cruz], que foi devolvida à Cidade Santa por Heráclius; e é em memória desse acontecimento glorioso que até hoje apregoam a festa da exaltação da Santa Cruz. À cruz sempre se exaltou, porque o Senhor confirma o justo (Sl. 37 [36], 17). Num panegírico sobre a Santa Cruz escreve Agostinho: “Cessou a cruz como pena, mas permanece [como glória]: de suplício de condenados, gravou-se na fronte dos imperadores.” (Enarrationes in Psalmos, 36, Sermo 2, 4). Assegura São João Crisóstomo: “Em todo canto resplende a cruz sobre a coroa dos reis, as armas dos soldados, os altares consagrados; coroadas as cabeças, os reis tomam a cruz.” Exaltaram pois a árvore da cruz, a qual o Senhor há de exaltar muito mais. Vê-se em Mateus: Escurecer-se-á o sol, e a lua não dará sua luz, e então parecerá o sinal do Filho do Homem no céu (Mt. 24, 29-30), i. é, a árvore da cruz. Crisóstomo sustenta que “após o obscurecimento do sol e da lua, o Filho do Homem só haveria de aparecer em presença duma cruz mais resplendente que os raios do sol”.

De igual forma a árvore é agradável. Assim no Gênese: Era ela agradável aos olhos (Gn. 3, 6). A deleitação da cruz não é verdadeira deleitação, pois que é mais amarga que agradável. Por isso diz Salomão: Por isso declarei o riso como um devaneio; e disse ao gozo: por que te enganas assim vãmente? (Ecle. 2, 2). Ao contrário a árvore da cruz tem a beleza da amargura, que no livro de Reis se fala assim: Armar-se-á de ferro e de pau de lança (2 Re. 23, 7). Escreve o apóstolo Pedro: Tendo o Cristo padecido na carne, armai-vos deste mesmo pensamento (1 Pe. 4, 1). Transforma-se em doçura este transporte de amargura, sendo significado em Êxodo quando se diz que os filhos de Israel encontraram águas amargas: ordenou o Senhor a Moisés estendesse o cajado sobre elas, para se adoçarem. Os justos padecem tribulações, mas o madeiro da cruz os torna doces. Sob o signo da cruz, o fiel exalta-se na tribulação: Que eu jamais me glorie senão na cruz de Nosso Senhor (Gl. 6, 14); diz Tiago: Meus irmãos, tende por um motivo de maior alegria para vós as várias tribulações que caem sobre vós (Ti 1, 2) Por quê? Devido ao gosto pela cruz. Afirma o Apóstolo: Considerai, pois, aquele que sofreu tal contradição dos pecadores contra si, para que não vos fatigueis, desfalecendo em vossos ânimos (Hb. 12, 3), porque foi tomado como salteador. Quem deve considerar um mal ser alvo de contradição? Convém à ferida o madeiro da cruz.

Igualmente ele convém à reparação. Vede nas Escrituras: onde estava o perigo? Sabe-se que um remédio foi dado. Por uma árvore, adveio o primeiro mal ao homem, na expulsão do Paraíso. Qual fora o remédio? A árvore da vida. Mas como não pudesse o homem alcançar a árvore da vida, não haveria de ter o remédio. Disse então o Senhor: “Tende cuidado de não tomarem do fruto da árvore da vida!”. O Cristo nos trouxe o fruto dessa árvore. É árvore da vida para quem dela comer (Pr.3, 18). Outro perigo foi o dilúvio. O remédio veio da madeira da arca. Se estás no dilúvio, nas águas do século, acorre em direção à árvore da cruz. Lê-se num salmo: Se ando em meio à sombra da morte etc.tua vara, teu cajado, i. é, a cruz, etc. (Sl 23 [22], 4). Sou conduzido à boa direção pela madeira da cruz; igualmente, a madeira foi o remédio para o povo de Israel, ao ser perseguido pelo opressores egípcios, uma vez que Moisés os feriu com seu cajado e com ele dividiu o mar. Se sofres assaltos dos inimigos espirituais, acorre em direção ao madeiro da cruz. Está escrito no livro de Reis que os filhos de Israel combatiam contra os filisteus, e levaram a Arca do Senhor até o campo de batalha; os filisteus temeram, e diziam: Deus chegou ao acampamento!” (1 Re. 4, 7), devido à arca transportada ao campo. A arca era feita de madeira imputrescível. Vê-se num salmo: Os habitantes dos confins [da terra] temem pelos seus prodígios (Sl. 65 [64], 9). Os vencidos temem o estandarte adversário; assim os demônios vencidos pelo Cristo temem o estandarte, o madeiro da cruz. Daí canta a Igreja: “Eis o madeiro da cruz; fugi, inimigos!” Convém a cruz à ferida e à reparação.

Em terceiro lugar, ela convém ao reparador; nela o Cristo é exaltado. Por isso se escreve: É preciso que o filho do Homem seja elevado (Jo 12, 34). Como foi ele exaltado? Decerto como combatente. A ele convém o que se prediz em Números: Eu o verei, mas não agora; eu o contemplarei, mas não de perto; nascerá uma estrela de Jacó; e levantar-se-á uma vara de Israel (Nm. 24, 17). Escreve o Apóstolo: Despojando os principados e as potestades (infernais), levou-os (cativos) gloriosamente, triunfando em público deles em si mesmo (pela cruz) (Col. 2, 15). O madeiro da cruz é um como carro de triunfo exaltado em Cristo. Compara-se ele ao baldaquino de Salomão (Ct. 3, 9), ou ao cetro que dirige o povo: O cetro do teu reino é um cetro de eqüidade (Sl. 45 [44], 7). O Cristo foi exaltado como combatente. De mesmo modo foi exaltado como a um mestre [que ensinasse] desde a cátedra. Acerca dessa exaltação escreveram: E eu, quando for levantado da terra, atrairei tudo para mim (Jo 12, 32). Hoje contemplamos a esperança que nos trouxe o remédio.

Vejamos a aparência da árvore. A árvore aparece carregada de frutos; diz-se de tal árvore que é frutífera. E quais seus frutos? Fala-se neles nos Cânticos: temos à nossa porta frutos excelentes, novos e velhos que guardei para ti, meu bem-amado (Ct. 7, 14). Os frutos velhos são figuras que remontam à árvore. A propósito dos frutos, aquilo de Oséias: vi os vossos pais como os primeiros frutos da figueira (Os. 9, 10). Quais são os frutos novos?  Durante a benção de Josué, no Deuteronômio, faz-se menção de três frutos, a saber, frutos do céu, frutos do sol e da lua, e frutos das colinas eternas. Quais são os frutos do céu? Os membros do Cristo. Os membros do Cristo ornaram a cruz como os frutos a uma árvore, e não apenas os membros corporais do Cristo, mas também os de seu corpo místico, dos quais se proclamam: Estou pregado à cruz do Cristo (Gl. 2, 19). Dos frutos se diz nos Cânticos: Entre meu amado no seu jardim, prove-lhe os frutos deliciosos. (Ct. 5, 1). Os frutos do sol e da lua são os exemplos das virtudes que manifestou o Cristo na cruz. Tu tens na cruz a demonstração da caridade do Cristo, pois que ele nos amou e entregou-se por nós: Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos. (Jo 15, 13). De igual modo deu-nos exemplo de humildade, porque humilhou-se a si mesmo (Fi. 2, 8). Deu exemplo de obediência, porque ele se fez obediente (ibid.) ao Pai. Ensinou a paciência, Ele, ultrajado, não retribuía com idêntico ultraje (1 Pe. 2, 23). São estes os frutos daquele vale, sobre o qual se canta: Eu desci ao jardim das nogueiras para ver os novos frutos dos vales (Ct. 6, 11). Quais são os frutos das colinas eternas? Afirmo serem os ensinamentos, impregnados de sabedoria, dos doutores. O esplendor luminoso de vosso poder manifestou-se do alto das eternas montanhas (Sl. 76 [75], 5). Encontrarás doutores que ensinam a fé; o Cristo ensina a fé na cruz, ao dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? (Mt. 27, 46). Ele demonstra que sua humanidade padeceu a paixão, mas não em razão da impotência de [sua] divindade. Ainda encontrarás doutores que ensinam a paciência; o Cristo ensina a paciência na cruz, ao dizer: Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem (Lc. 23, 34). Encontrarás alguns que ensinam o comportamento humano; o Cristo fê-lo na cruz, ao demonstrar a sua mãe o que devia a ela e ao discípulo, ao falar: “Mulher, eis aí teu filho!”. Depois, disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe!” (Jo 19, 27). Tais são os frutos das colinas eternas, de que falam os Cânticos: Teus rebentos são como um bosque de romãs com frutos deliciosos (Ct. 4, 13). Ele é então uma árvore frutífera.

Existem árvores que estão continuamente carregadas de flores e de frutos – é o caso a árvore da cruz, carregadas de flores. Vede que a árvore da cruz carrega um fruto triplo, a saber, fruto de purgação, de santificação e de glorificação.

Em primeiro lugar, digo que a árvore da cruz produziu fruto de purgação, pois pela cruz somos todos libertados do pecado. Assim aquilo do bem-aventurado Pedro: Carregou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro (1 Pe. 2, 24). Acerca do fruto escreve Isaias: Este é o fruto do perdão do seu pecado (Is. 27, 9). Em segundo lugar, produz o madeiro da cruz fruto de santificação, de que se afirma: Frutificais na santidade (Rm. 6, 19). Em que consiste a santificação? No apego do homem à cruz. O pecado distanciou de Deus o homem, que se reconciliou pela cruz. Deste modo em Romanos 5, 10: Fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, e: Reconcilia-te com Deus e faze as pazes com ele: deste modo terás melhores frutos (Jó 22, 21), a saber, os frutos do Espírito: a caridade, a paz, o contentamento. A fim de nos purificar[o Cristo] padeceu fora das portas (Hb. 13, 12); em toda santificação, os ministros da Igreja utilizam o sinal da cruz. Em terceiro lugar, o fruto da cruz é a glorificação, de que nos diz João: O que ceifa recebe o salário e ajunta fruto para a vida eterna (Jo 4, 36); no livro da Sabedoria: É esplêndido o fruto de bons trabalhos, e a raiz da sabedoria é sempre fértil (Sb. 3, 15). Como já se falou, o fruto se adquire pela cruz. Pelo pecado o homem foi excluído do Paraíso; por isso, padeceu o Cristo a paixão para que, através da cruz, fosse aberto o caminho entre a terra e o Céu. Assim a cruz do Cristo é aquela escada de Jacó: E viu em seus sonhos uma escada posta sobre a terra, cujo cimo tocava o céu, e os anjos de Deus subindo e descendo por ela, e o Senhor apoiado na escada (Gn. 28, 12). Os santos ascendem aos céus pela virtude da cruz. Assim aquilo do Apóstolo: Temos ampla confiança de poder entrar no santuário eterno, em virtude do sangue de Jesus etc.. (Hb. 10, 19).

Imploremos ao Senhor etc..

 

Tradução: Permanência

(a partir da tradução francesa de Dominique-Raphael Kling, 2005)

Sermão Lux Orta est

Lux orta est:

Nasce a luz.

 

Prólogo

[Os bens verdadeiros: graça e glória eternas]

 

Nasce a luz para o justo, e a alegria para os retos de coração (Sl. 97 [96], 11). Toda dádiva excelente, todo dom perfeito vem do alto e descende do Pai das luzes. Estas últimas palavras são extratos do cap. 1 de São Tiago (1 ,17). Os bens temporais são boas dádivas; os bens naturais, sejam alma e corpo, são dádivas melhores; os bens da graça e glória eternas são dádivas excelentes.

Toda a dádiva excelente, qual seja, a graça, provém do Pai das luzes. Da graça se diz dádiva excelente por sua ação meritória; donde aquilo de João 15, 5: Sem mim, nada podeis fazer. Igualmente da graça se diz dádiva perfeita por alcançar as benesses da glória. E tais dádivas, quem no-las distribui é o Pai das luzes. Salmo 84 [83], 12: O Senhor dá a graça, no presente, e a glória, no futuro. Porque a graça de Deus é de tamanha eficácia para a boa ação no presente, em vistas à glória eterna no futuro, imploremos antes ao Senhor de nos conceder a graça etc..

 

Primeira Parte

[Por que chamam de “luz” a Virgem?]

 

Nasce a luz para o justo. Breve é a expressão, e de sentidos mui diversos; encontramo-la no Salmo 97 [96], 11. Lemos que o nascimento da Virgem se havia anunciado no Antigo Testamento, em numerosas figuras; dentre as várias figuras, representam-na três de modo singular, a saber, a aurora, a aparição da estrela e o broto da raiz. A aurora significa o nascimento [da Virgem], sob o aspecto da santificação. Na aparição da estrela ela está prefigurada sob o aspecto da integridade da virgindade. No broto da raiz, sob o aspecto de sua elevação e grande contemplação.

A propósito da aurora, em que se prefigura o nascimento da Virgem sob o aspecto da santificação, lê-se em Gênese 32, 27, no que o anjo fala a Jacó: Larga-me, porque já vem vindo a aurora. O combate de Jacó significa a assembléia dos patriarcas que outrora lutavam contra o anjo usando dois braços, i. é, lágrimas e orações. Assim em Oséias 12, 4: Prevaleceu sobre o anjo, e ficou vencedor; chorou e suplicou-lhe. Após reconhecer o nascimento da bem-aventurada e gloriosa Virgem na aurora, declarou o anjo: Larga-me, como se dissesse: “Não me supliques mais, antes recorra à bem-aventurada Virgem.” A aurora é o termo da noite precedente e início do dia vindouro. De igual modo, no nascimento da bem-aventurada Virgem Maria, termina a noite da culpa, e começa o dia da graça. Declara Sedúlio: “Ela pôs cobro aos vícios e deu medida aos costumes.”

Em segundo lugar, o nascimento da Virgem gloriosa está prefigurado na aparição da estrela, representando a integridade da virgindade. Assim pontifica Balaão em Números 24, 17: Nascerá uma estrela de Jacó; e levantar-se-á uma vara de Israel. Ora, compara-se seu nascimento à integridade da virgindade duma estrela; assim como o astro emite seus raios sem corrupção, nem diminuição ou perda de luz, assim a bem-aventurada Virgem engendrou seu Filho sem desprendimento violento na carne, e sem a perda da virgindade. Afirma São Bernardo: “É de justiça que se compare a bem-aventurada Virgem a um astro, pois assim como o astro emite seu resplendor sem se corromper a si mesmo, e sem diminuir a claridade, assim o Filho [da Virgem] não suprime em nada a virgindade de sua mãe.”

Em terceiro lugar, o nascimento da gloriosa Virgem se prefigurou no broto da raiz, representando a contemplação. Isaías 11, 1: Sairá uma vara do tronco de Jessé, e uma flor brotará da sua raiz. O broto retesa-se em direção ao céu, significando a contemplação da bem-aventurada Virgem, que tinha o coração elevado ao alto, acima as coisas terrestres. Daí São Bernardo: Ó Virgem sublime! Em que sois sublime? Vós elevais tua alma àquele que se assenta no trono, ao Senhor da glória.”

Deste modo, nesta tríplice figura, anunciaram-nos o nascimento da bem-aventurada Virgem Maria. Houve uma como aurora em seu nascimento; e uma como estrela que nasceu na formação do Filho de Deus; e um como broto que germinava em seu comportamento honesto. Num só versículo resume David a tríplice figura: Nasce a luz para o justo etc.. A luz encerra a noite, e faz romper o dia, emite seu resplendor sem incorrer em corrupção e, abandonando as coisas inferiores, tende em direção ao alto. No Evangelho chamam a assembléia dos apóstolos de “luz”. Assim Mateus 5, 14: Vós sois a luz do mundo. São os anjos  também chamados “luz”, Gênese 1, 3: E Deus disse: “Que a luz seja”. E a luz foi. A Glosa afirma que tal se declara dos espíritos bem-aventurados ou anjos. Como a Virgem ultrapassasse a assembléia dos apóstolos e dos anjos, em razão de sua excelência, ela é denominada convenientemente “luz”.

Por outra razão, pode ela também ser denominada “luz”. Vemos Deus dizer em João 8, 12: Eu sou a luz do mundo, e a bem-aventurada Virgem germinar essa luz. Ora, é impossível se engendrar a luz, em geração unívoca, por algo que não seja luz. Eis porque convém à Virgem o apelido de “luz”.

Vestem-lhe bem estas palavras: Nasceu a luz para o justo etc.. É necessário sublinhar dois fatos em particular: em primeiro lugar, o nascimento da gloriosa Virgem, quando se lê: Nasceu a luz; em segundo lugar, o fruto do nascimento, neste passo: Nasce a luz para os justos, e a alegria para os retos de coração! Nasceu a luz para o justo, i. é, para seu pai, Joaquim, porque era sua filha, e para o justo, i. é, o Cristo; nasceu a luz, i. é, a bem-aventurada Virgem havia de se tornar um tipo singularíssimo de mãe. Ainda: Nasceu a luz para o justo, i. é, ela será advogada do arrependido. Assim se canta: “Ó Virgem, advogada nossa!”. Ainda: Nasceu a luz para o justo, i. é, para os praticantes da justiça, os [homens] ativos; e a alegria para os retos de coração, i. é, para os [homens] contemplativos. Denomina-se “ativos” os praticantes da justiça, e “contemplativos” os espirituais, que necessitam de luz que os oriente ao bom comportamento e à contemplação de Deus.

Revela-se assim porque a bem-aventurada Virgem é denominada “luz” e por quais figuras fora anunciada.

Tratará o sermão deste trecho: Nasceu a luz para o justo; a conferência [da noite] tratará do resto.

Até agora se tratou das razões por que a bem-aventurada Virgem foi chamada “luz”; acrescente-se pois algumas mais. Observamos que a luz corporal é fonte de alegrias, que guia os viajantes e os que se mantém na via; dissipa as trevas; difunde as semelhanças; é a mãe das cores e a mas bela das criaturas; dá agrado e consolação aos olhos. Encontram-se tais qualidades na bem-aventurada Virgem, e por isso se diz que é bom contemplá-la.

Em primeiro lugar, afirmo que a luz é fonte de alegrias, pois aquele que se acha no mar é mui desejoso da luz, e nela se compraz. Assim ela convém à Virgem, figurada em Ester 8, 16: E aos Judeus parecia-lhes ter-lhes nascido uma nova luz, a alegria, a honra e o júbilo. Assim se declarou aos judeus, i. é, aos que têm fé, e aos cristãos que confessam o Cristo, Deus e homem, que existe uma nova luz, i. é, a bem-aventurada Virgem, chamada de nova luz, pois que parece que não houve alguma antes dela, nem haverá outra depois dela. Denominam-na de “luz” porque lhe são estranhas as trevas do pecado e da ignorância. Parecia ela alçar os olhos da alma, como agora fazia com os do corpo: felicidade para o íntimo, honra para o próximo, triunfo para Deus! Acerca da alegria de seu nascimento, diz-se nos Provérbios de Salomão 13, 9: A luz dos justos, i. é, a bem-aventurada Virgem alegra; porém a candeia dos ímpios apagar-se-á.

Em segundo lugar, essa luz é vereda e guia dos viajantes. De igual modo a bem-aventurada Virgem é aquela que indica a direção nesta estrada da vida. Está em João 12, 35: Andai enquanto tendes luz, para que não vos surpreendam as trevas, i. é, as obras das trevas, ou os anjos das trevas, i. é, os demônios, ou ainda as trevas, i. é, o suplício dos infernos. Assim fala Provérbios 4, 18: A vereda dos justos, como luz que resplandece, vai adiante, e cresce até ao dia pleno. A vereda dos justos, i. é, a bem-aventurada Virgem, que é vereda estreita e direita, e é pura da pureza da virgindade – aperta-se pelo rigor de sua fidelidade religiosa, e alonga-se pela direitura de seu caminho. A vereda dos justos é a bem-aventurada Virgem, como luz que luz para si mesma e para outrem, como progresso do bem em direção ao melhor, crescendo até ao dia pleno, até ao gozo da eternidade.

Em terceiro lugar, a luz dispersa as trevas. De igual modo o poder da gloriosa Vigem extirpa os vícios. Isaías 9, 2: Este povo, que andava nas trevas, viu uma grande luz, i. é, a bem-aventurada Virgem, que fora grande luzeiro pois que, como o Filho ilumina o mundo inteiro, a Virgem [ilumina] todo o gênero humano. Desta luz declara o Gênese 1, 3: “Que a luz seja!”. E Deus separou a luz das trevas, e a luz foi. “Que a luz seja!”, quando da criação da alma da bem-aventurada Virgem e a luz foi, quando de [sua] santificação. Gênese 1, 4: E Deus separou a luz das trevas, por que, no seguimento, [a Virgem] não pecou. Desta luz se diz em Gênese 32, 27: Larga-me, porque já vem vindo a aurora. À aurora fogem as trevas e aparece a luz. Do mesmo modo a bem-aventurada Virgem espanta as trevas do pecado e desvenda-nos a luz da graça. Chamam-na de “aurora”, que quer dizer “hora do orvalho” [hora rorans], pois que, ao seu nascimento, tornaram-se os céus doces como mel. É denominada “aurora”, que quer dizer “brisa suave”, pois naquele momento silvavam os passarinhos, demonstrando um como gozo de alegria e felicidade. Igualmente viram os Padres no nascimento da Virgem a alegria do céu. Chamam-na também de “aurora”, i. é, “sopro d’ouro” [aurea aura], em razão de sua preciosidade. Assim aquilo de São Bernardo: “Retirai o sol que ilumina o mundo inteiro: onde o dia? Retirai Maria, a estrela do mar grande e extenso, i. é., do mundo: que sobrará senão obscuridade e trevas espessíssimas? Que se conclui daí? Se ela está presente, dissipam-se as trevas; se ela está presente, aurora o dia.”

Em quarto lugar, a luz difunde e comunica seu resplendor. A bem-aventurada Virgem difunde e partilha para todos os raios de sua graça. Assim, em Sirácida 24, 19-20: Vinde até mim, vós que me desejais, e abastecei-vos de meus víveres, pois meu hálito é mais doce que o mel etc.. Vinde, i. é, “Passai das vaidades do mundo para mim, que sou cheia de graças”; ou então: “Vinde até mim, abandonai as delícias, que amo a castidade.” De meus víveres,. i. é, das dádivas da graça, abastecei-vos. Não recebereis pouco, senão muito, pois meu hálito é mais doce que o mel, porque a bem-aventurada Virgem é vigilante e misericordiosa com todos. Assim prega Bernardo: “A todos abre a bem-aventurada Virgem os braços da misericórdia, e todos recebem algo de sua plenitude: o doente a cura, o aflito a consolação, o pecador o perdão, o justo a graça; mais ainda, o Filho de Deus recebeu dela a substância da carne, de sorte que não há quem fuja a seu calor.”

Em quinto lugar, a luz é a mãe generosa das cores. Deste modo é a bem-aventurada Virgem a mãe das virtudes. Como as cores embelezam o corpo, assim as virtudes embelezam a alma, porque a bem-aventurada Virgem é a mãe das virtudes. Consta em Sirácida 24, 24: Eu sou a mãe do amor formoso [dilectio], i. é, do amor que leva a Deus. “Dileção” quer dizer “ação de ligar duas coisas”. A Virgem liga-nos a Deus: [Eu sou a mãe do amor formoso] e do temor, por que fugimos ao pecado. Diz [Salomão], em Provérbios 14, 16: O sábio teme e desvia-se do mal. Demais, o Sirácida, em 1, 27: O temor do Senhor baniu o pecado. [Eu sou a mãe...] do conhecimento, i. é, da fé santa, e da santa esperança, i. é, da esperança da beatitude futura. Deste modo escreve Bernardo: “Se em nós há traço de virtude, se existe algo de salvação e graça, sabemos que tudo isso transborda daquela que abunda em delícias. Aqui [em Maria] encontra-se o jardim sobre o qual se dispersa a divina viração que vem do sul, e seus perfumes transbordam em dádivas da graça.”

Em sexto lugar, a luz é das criaturas a mais esplêndida. Assim a bem-aventurada Virgem. No livro [da Sabedoria] 7, 29 se lê: Ela é mais formosa do que o sol, i. é, que o justo que fulge na Igreja Militante; [ela é mais formosa] do que todas as constelações de estrelas, i. é, que os santos da Igreja Triunfante. Comparada com a luz, i. é, com a criatura angélica, ela vence em dignidade e formosura.

Em sétimo e último lugar, a luz é o agrado e a consolação dos olhos. De igual modo a bem-aventurada Virgem é a consolação dos homens. Assim se encontra no [livro da] Sabedoria 7, 10: Eu amei [a Sabedoria] mais do que a saúde, que põe em fuga a doença, e que a formosura de corpo, por que se retira a feiúra, e resolvi-me tê-la por luz de uma boa vida. Os demônios e os perversos detestam a luz, que praz aos bons. Prega Santo Agostinho que “no palato enfermo, o pão é amargo, enquanto é doce no palato saudável; aos olhos doentes, a luz é insuportável, enquanto é amável aos olhos puros”. A luz é amável à inteligência curada pela fé, e desejosa da alma curada pela caridade. Não é de admirar que a bem-aventurada Virgem seja amável, pois se diz dela no livro de Ester 5, 1: Ela era bem feita e de inacreditável formosura, parecendo aos olhos de todos amável e graciosa. De também aquilo dos Provérbios 11, 16: A mulher gentil obterá glória, i. é, a glória eterna, à qual nos conduz Aquele que, com o Pai e o Espírito Santo, vive etc..

 

Segunda Parte

[Maria é a jóia das almas retas]

 

Nasceu a luz para o justo, e a alegria para os retos de coração (Sl 97 [96], 11). Dissemos hoje como a bem-aventurada Virgem, em seu nascimento, é luz esplendorosa. Resta falar de como ela é uma jóia para os homens retos, pois se escreve no Salmo: ...alegria para os retos de coração.

Na Santa Escritura, não se promete a jóia aos que fazem prova de retidão, senão aos retos de coração, i. é, aos perfeitamente retos. Poremos de manifesto o significado de Jó 1, 1, de quem se diz: Este homem era sincero e reto, e temia a Deus, e fugia do mal, i. é, do pecado. Em Provérbios 14, 16 doutrina Salomão: O sábio teme e desvia-se do mal. Ao homem com tal retidão se promete a alegria.

Convém notar que existem dois homens: o homem interior e o homem exterior. De acordo com isso, é preciso que o homem perfeitamente reto possua a retidão do homem interior e [a do homem exterior]. O homem interior tem-na dentro d’alma. Ora, possui a alma duas partes, a saber, o intelecto e a vontade. É pois necessário que exista retidão no homem interior; em primeiro lugar, para aquilo que é ato da inteligência [intellectus], porque a retidão consiste no conhecimento da verdade; em segundo lugar, é necessário que exista também junto ao ato da vontade a retidão [affectus], que é a deleitação no verdadeiro bem, pois o conhecimento da caridade retifica a inteligência, e o amor do verdadeiro bem a vontade.

Em primeiro lugar, afirmo que o conhecimento da maior dentre as verdades retifica a inteligência. Assim aquilo do Salmo 72 [71], 1: Quão bom é Deus – i. é, boníssimo – para com os retos, o Senhor para com os puros de coração! Ele é bom, i. é, espalha suas benesses sobre os retos de coração, sobre os possuidores do altíssimo conhecimento da verdade pela fé. A fé é luz particular em vistas ao conhecimento do Senhor e do que lhe respeita. Salmo 125 [124], 4: Senhor, faze bem aos bons – no que respeita à potência afetiva – e aos retos de coração – no que é próprio à inteligência. Está claro agora que, para que o homem seja perfeitamente reto, exige-se a retidão da luz interior, de sua alma, para o que é próprio ao intelecto.

Em segundo lugar, exige-se a retidão do homem interior para o que é próprio ao afeto. Acerca deste gênero de retidão, diz Bernardo que “a retidão da criatura racional é o conformar-se com a vontade divina”. Ora, consiste essa conformidade na caridade, que transforma o amador no ser amado, não segundo a substância, mas na conformidade da vontade.

Igualmente é preciso que tudo seja reto no homem exterior; por isso, se requerem três condições: em primeiro lugar, que seja reto em sua vista e seu olhar; em segundo lugar, que seja reto em sua língua; em terceiro lugar, que seja reto em seu caminhar.

Em primeiro lugar, afirmo que é necessário que o homem exterior seja reto em sua vista e seu olhar. Salomão em Provérbios 4, 25 diz: Os teus olhos olhem direito, e a tua vista preceda os teus passos. Escreve: Os teus olhos olhem direito, não apenas interior, senão que exteriormente, o que é permitido ver; vaticina Gregório: “Não é permitido contemplar o que é interdito desejar.” Também diz: olhem direitos, a saber, os exemplos dos santos e as boas obras dos próximos. E a tua vista etc..: o homem deve abater o olhar em direção aos seres inferiores e humildes. Mas a verdade é que os olhos se alçam, por causa do orgulho e da arrogância do coração; está consignado em Provérbios 6, 16-17: Seis são as coisas que o Senhor abomina, e a sua alma detesta uma sétima: olhos altivos, língua mentirosa. Quando o pavão, que se glorifica da cauda, observa seus pés, imediatamente recolhe a cauda. Do mesmo modo se alguns homens de bem são arrastados pelo orgulho, o que não praz a Deus, contemplem os pés para seu escarmento. Diz-se: teus olhos, no plural, e não no singular; e completa: olhem direito, e não à esquerda.

Em segundo lugar, o homem exterior deve ser reto em sua língua, para o que é próprio ao afeto. De fato, escreve o Apóstolo: Esforça-te por te apresentares a Deus [como um homem] digno de aprovação, como um operário que não tem de quê se envergonhar, que distribui retamente a palavra da verdade (2 Tm. 2, 15). Dirige-se aqui sobretudo a um prelado e, em seguida, num timbre diferente, a todos. Diz: Esforça-te, pela dor de contrição; por te apresentares a Deus digno de aprovação, como um operário que não tem de quê se envergonhar, i. é, que não seja suscetível à vergonha, mas ao louvor e a recompensa. Este é aquele que diz palavras úteis. São os perversos os suscetíveis à vergonha. Dispensando com diligência a linguagem da verdade. Há pessoas que não dispersam diligentemente a linguagem da verdade, a saber, aqueles que predicam em nome da glória, ou da excelência dos bons, ou ainda da vaidade própria. Ao contrário dispensam corretamente a linguagem da verdade os que o fazem em vistas à glória de Deus e à edificação do próximo.

Ouvi falar dum mestre que ensinara teologia por vinte e cinco anos, vinte dos quais exercera, como confessou quando de sua morte, mais em nome da vanglória que por reconhecimento de Deus e edificação do próximo. Mal uso faremos duma bela espada, feita para cortar, caso a tomemos para atiçar o fogo, pois não será utilizada em consideração à finalidade para que foi concebida. De mesmo modo, a palavra da verdade foi concebida para a glória de Deus e edificação do próximo. Serve-se mal quem dela se serve de outra maneira ou para outra finalidade. Daí aquilo do Sirácida 28, 25: Faze uma balança para pesares tuas palavras, i. é, pesa tuas palavras para saber se são ou não para a glória de Deus, se são ou não mofinas a teu próximo; e um freio bem ajustado para tua boca. Um freio está bem ajustado quando ambos os lados estão igualmente firmes; caso um lado esteja frouxo, enquanto o outro firme, então não está bem ajustado. Por vezes, ocorre a uma pessoa em prosperidade conservar corretamente o freio de sua boca, mas durante a tribulação, blasfemar e murmurar. Deles se fala na epístola de Tiago 1, 26: Se alguém, pois, julga que é religioso, não refrando a sua língua, para guardá-la das palavras más e blásfemas, sua religião é vã.

Em terceiro lugar, o homem exterior deve ser reto em sua inteligência. Ensina o Apóstolo, em Hebreus 12, 13: Dirigi os vossos passos pelo caminho direito, para que o que manqueja não se desvie, devido à infidelidade da inteligência, antes, porém, seja sanado, a saber, pela graça de Deus. A afetividade pode fazer alguém manquejar das duas pernas. Assim em 1 Reis 18, 21: Até quando claudicareis vós para os dois lados? Se o Senhor é Deus, segui-o. Manquejam dum pé só os que possuem a fé na inteligência, mas tem aversão ao bem em sua afetividade.  Manquejam de dois pés os que cometem infidelidade na inteligência e detestam o bem em sua afetividade, ou os que exultam no tempo de prosperidade, mas murmuram no tempo da tribulação. Por isso afirma o Apóstolo: (Hebreus 12, 13): Dirigi os vossos passos pelo caminho direito etc.., i. é, onde há a paciente humilde, a verdadeira fé, o amor verdadeiro. Se deparamos com um homem reto tanto interior quanto exteriormente, temos nele promessa de alegria.

Mas tu perguntarás por que quem descreveu os retos de coração não fê-lo, do mesmo modo, com os retos de corpo, andar ou olhar? Quando existe a retidão do homem interior, existe a do homem exterior. Mateus 6, 22 diz: Se teu olho for são, i. é, sem marca de duplicidade, todo o teu corpo será luz, o conjunto inteiro de tuas obras será bom e reto. De fato, porque depende o homem exterior do homem interior, limitou-se ele a descrever o homem reto de coração.

Está claro quais são os retos de coração. Sabeis o que fazem os que possuem um coração reto? Ao Senhor reembolsam três coisas: primeiro, reformam a vida; segundo, amam ao Senhor; terceiro, bendizem ao Senhor e lhe rendem graças pelas benesses que Deus lhes concedera.

Em primeiro lugar, afirmo que eles reformam a vida. Assim em Provérbios, o ímpio, o que não tem piedade diante do Senhor nem compaixão diante do próximo, afrouxa a brida, i. é, não modera seu olhar, i. é, seu coração; o reto corrige suas veredas com previdência.  Este é o reto de coração, reto em justiça perante o próximo, reto em contemplação perante Deus. Por sua vez, o ímpio não modera seu olhar, de tal sorte que não acolhe os mandamentos de Deus e, se os acolhe, não os pratica.

Em segundo lugar, os retos de coração apegam-se a Deus por amor. Assim no Cântico 1, 3: os retos amam-te. Salmo 17, 5: Os inocentes e os justos se acercam de mim, a saber, pelo fervor e pelo habitus da caridade.

Em terceiro lugar, os retos de coração rendem a Deus graças pelas benesses recebidas, como no último capítulo de Esdras (Neemias 8, 5): Quando Esdras terminou o livro da lei, todos os justos puseram-se de pé. Quando Esdras terminou, i. é, quando Esdras lera e explicara o inteiro teor [da lei] (fala-se de “lei” porque esta nos obriga). Bendisse ao Senhor, o Altíssimo, o Senhor Todo-Poderoso dos Exércitos, e o povo respondeu: “Ámen!”. Em seguida: Reuniram-se todos em Jerusalém para celebrar seu contentamento etc..

 

Tradução: Permanência

(a partir da tradução francesa)

Regina sine labe originali concepta

[Nota da Permanência] Dentro das comemorações dos 150 anos da proclamação do dogma da Imaculada Conceição (8 de dezembro de 1854), reproduzimos aqui um editorial da Revista Permanência (que eram escritos por Gustavo Corção). A espiritualidade mariana é sempre a mesma, católica, eterna. Já os desmandos e invenções dos modernistas estavam, naquela época, em sua fase de "destruições". Tudo o que era católico, tudo o que "cheirava a incenso", tudo o que era da Tradição, era simplesmente dilapidado, destruído, chutado, desprezado. Tábula rasa, era o lema dos progressistas. Depois virão outras fases que nos conduzirão à construção do monstro que hoje tenta nos devorar. Porque os modernistas instalados no Vaticano, quando toda a Tradição já estava destruída, construíram uma nova religião que tem uma carapaça pintada com "catolicismos", mas cujo conteúdo, tirado de Vaticano II, já não é mais católico. Este editorial pode parecer defasado na sua crítica aos progressistas, mas não é. O monstro cresceu mas é o mesmo daquela época. "Eis que o diabo, como um leão rugidor, vos cerca querendo vos devorar. Resisti-lhe fortes na Fé" (Ep. de S. Pedro)

Jesus se entregou inteiro às dores e à morte

Tudo é perfeito no sacrifício de Jesus: o amor que o inspira e a liberdade com que o executa. Perfeito também no dom oferecido: Jesus Cristo se oferece a si mesmo.

Jesus Cristo se oferece a si mesmo e de maneira total: alma e corpo ficam esgotados, quebrantados, de tanta dor: não existe dor desconhecida por Nosso Senhor. Ao ler o Evangelho com atenção, vê-se que os sofrimentos de Jesus Cristo de tal modo foram dispostos que alcançaram todos os membros de seu sagrado corpo, e que todas as fibras de seu coração ficaram esgarçadas na ingratidão das turbas, no desamparo dos seus e nas dores de sua Santíssima Mãe, e que sua alma bendita sofreu tantas afrontas e humilhações quantas podem pesar sobre um homem. Cumpriu-se literalmente em Jesus Cristo aquele vaticínio da profecia de Isaías: “Como pasmaram muitos à vista de ti; não tinha aparência do que era...ele não tinha beleza, nem formosura...por isso não fizemos caso dele...nós o reputamos como um leproso”.

Na agonia do Horto das Oliveiras, Jesus Cristo, que não exagera, declara aos apóstolos que sua alma “está triste até a morte”. Oh, abismo insondável! Um Deus, Poder e Glória infinitos, “começou a sentir temor, angústias e tristeza”. O Verbo Incarnado conhecia todos os sofrimentos que sobre ele iam descarregar-se naquelas longas horas da Paixão; esta visão produzia em sua natureza sensível o efeito que uma simples criatura poderia sentir ante um purgante – viam sua alma e divindade, de forma claríssima, todos os pecados dos homens, os ultrajes à santidade e ao amor infinito de Deus. 

Carregara todas as iniqüidades, como que revestira-se delas e sentira sobre si o peso da cólera da justiça divina: “Sou um verme e não um homem, o opróbrio dos homens e a abjeção da plebe”. De antemão sabia que o sangue derramar-se-ia em vão para muitos homens, e este pensamento levava ao cúmulo a amargura da alma santíssima. Mas, como vimos, Jesus Cristo tudo aceitou. Agora se levanta, sai do Horto, e vai ao encontro de seus inimigos.

Aqui começa para Nosso Senhor a série de humilhações e padecimentos que mal podemos descrever. Denunciado no beijo de um dos discípulos, preso pela soldadesca como um facínora, levam-no à casa do sumo sacerdote. Ali, entre as muitas acusações falsas proferidas contra Ele, Jesus “calava-se”.

Só abre a boca para proclamar que é o Filho de Deus: “Vós o dizeis, eu o sou”. Esta é a mais solende das confissões sobre a divindade de Jesus Cristo: Jesus, Rei dos mártires, morre por confessar sua divindade, e todos os mártires darão a vida pela mesma causa.

Pedro, cabeça dos apóstolos, seguira ao longe seu Divino Mestre; prometera-lhe não o abandonar jamais. Pobre Pedro! Negou Jesus três vezes. Sem dúvidas, esta foi uma das maiores provações por que passou nosso Divino Salvador naquela espantosa noite. 

Os soldados que vigiam Jesus o injuriam e o maltratam, e não resistindo àquele olhar tão doce, vendam-lhe os olhos por escárnio, dão-lhe insolentes bofetadas e ainda se atrevem a sujar de modo vil com sua imunda saliva o rosto adorável, espelho em que se contemplam a si os anjos, com deleite indizível.

Depois disso, narra-nos o Evangelho como à alvorada reconduziram Jesus ante o sumo sacerdote, arrastando-o de tribunal em tribunal. E ainda que fosse a Sabedoria Eterna, Herodes o trata como louco, Pilatos dá ordens de açoitá-lo, os algozes golpeiam sem piedade a inocente vítima, cujo corpo se converte rapidamente em chaga viva. Apesar de tudo, a desumana flagelação não bastava àqueles homens, que de humano nada tinham: cravam na cabeça de Jesus uma coroa de espinhos e o enchem de insultos e zombarias.

O covarde governador romano percebe que saciará o ódio dos judeus, caso vissem Cristo em tão lastimoso estado; apresenta-o às turbas e lhes diz: “Eis aqui o homem!”. Contemplemos neste momento o Divino Mestre em meio a um oceano de afrontas e dores, e pensemos também que o Pai no-lo apresenta e nos diz: “Vede o meu Filho, o resplendor de minha glória, a quem feri pelo crime de meu povo...”.

Jesus ouve a gritaria do populacho furioso, que o troca por um bandido, e como paga de tantos benefícios feitos, exigem sua morte: “Crucifica-o, crucifica-o!”.

Pronunciada a sentença de morte, Jesus Cristo, tomando a pesada cruz sobre os ombros, dirige-se ao Calvário. Quantas dores ainda o aguardam: a presença de sua Mãe, a quem professa tão perfeito amor e cuja imensa aflição ele conhece melhor que ninguém, o despojo dos vestidos, a perfuração dos pés e das mãos, e a sede abrasadora! Mais ainda, as burlas e sarcasmos de ódio de seus mortais inimigos: “Ó tu, que destróis o templo de Deus, e reedificas em três dias, salva-te a ti mesmo e creremos em ti...Ele salvou outros, a si mesmo não se pode salvar”. Finalmente, o abandono de seu Pai, a cuja santa vontade sempre atendera: “Pai! Porque me abandonaste?”.   

Verdadeiramente bebeu o calix até o sarro, e cumpriu, sem faltar vírgula nem detalhe algum, tudo quanto Dele estava vaticinado. Por isso, realizadas as profecias, esgotando até o fundo o calix de todas as dores e humilhações, pôde exalar seu “Tudo está consumado”. Sim, em verdade, “tudo se consumou”, só falta pôr sua alma nas mãos do Pai: “E, inclinando a cabeça, rendeu o espírito”.

A Igreja, ao ler-nos nos dias da Semana Santa o relato da Paixão, interrompe-o neste passo para adorar a Deus em silêncio. Seguindo seu exemplo, prosternemo-nos reverentes e adoremos ao Crucificado que acaba de expirar; verdadeiramente é Filho de Deus: verdadeiro Deus de Deus verdadeiro. Sobretudo, na Sexta-feira Santa, tomemos parte na adoração solene da Cruz, para reparar, conforme quer a Igreja, as inúmeras ofensas que os inimigos infligiram à Divina Vítima. Enquanto se realiza a comovente cerimônia, põe a Igreja na boca do Salvador inocente censuras em tom de lamento triste; elas se aplicam diretamente ao povo deicida; nós podemos escutá-los em um sentido inteiramente espiritual que despertarão em nossas almas vivos sentimentos de compunção: “Povo meu, que te fiz eu? Em que te contristei? Responde-me! Que mais podia eu fazer que o não fizesse? Fui eu quem te plantou como a mais formosa das videiras; e tu só me causaste amargor, minha sede mitigaste com vinagre, e com uma lança trespassaste o lado do teu Salvador... Eu, por amor de ti, flagelei o Egito com os seus primogênitos; e tu entregaste-me à morte depois de me flagelares! Eu tirei-te do Egito, submergi a Faraó no Mar Vermelho; e tu entregaste-me aos príncipes dos sacerdotes! Eu a tua frente abri o mar; e tu abriste-me com a lança o coração! Eu fui adiante de ti numa coluna de nuvem; e tu conduziste-me ao pretório de Pilatos! Eu alimentei-te com o maná no deserto: e tu feriste-me a cabeça com bofetadas e açoites!... Eu dei-te o cetro real; e tu colocaste-me na cabeça uma coroa de espinhos! Eu elevei-te em grandeza e poder; e tu suspendeste-me no patíbulo da cruz!”.

Estas queixas de um Deus padecendo pelos homens devem mover nossos corações; unamo-nos a tal obediência cheia de amor que o levou até o sacrifício da cruz: “Feito obediente até a morte, e morte de cruz”. Digamos-lhe: “Ó Divino Redentor, que tanto sofreste por nosso amor! De hoje em diante vos prometemos fazer o que pudermos para não mais pecar; fazei, por vossa graça, que, morrendo, ó Mestre adorado, a tudo que é pecado e apego ao pecado e à criatura, vivamos unicamente para Vós”.

Porque, como diz São Paulo: “o amor de Cristo nos constrange; consideramos nós que, se um morreu por todos, todos, pois, morreram; e que Cristo morreu por todos a fim de que os que vivem, não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles”. 

  

Dom COLUMBA Marmión, O.S.B.

  

 (Trecho do livro “Jesus Cristo em seus mistérios”. Tradução: Permanência).

A devoção ao Menino Jesus

Agosto 10, 2018 escrito por admin

As Origens

Historicamente, esta "devoção" propriamente dita foi precedida pela adoração: os primeiros adoradores de Jesus menino serão Maria, José, os pastores, Simeão e Ana, os magos etc, enquanto que dois Evangelistas -- Mateus cap. 1 e 2 e Lucas cap. 2 -- insistirão sobre esta infância.

Santa Catarina de Alexandria, São Jerônimo foram favorecidos por suas aparições: conhece-se também a familiaridade de Santo Antônio de Pádua com relação ao Divino Infante.

Santo Ambrósio insistirá sobre o vínculo pessoal do resgatado com o menino do presépio: "Sou eu que me aproveito dessas lágrimas de menino chorando".

Santo Agostinho retoma o tema do presépio, figura da Eucaristia, convidando os cristãos a meditar sobre o canto dos anjos em Belém.

São Leão, em suas pregações para o Natal e a Epifania, parece ser um dos primeiros a estabelecer um liame entre a infância de Jesus e o espírito de infância.

São Bernardo, que teria tido em sua juventude uma visão da Natividade, aproveitar-se-á de toda ocasião para celebrar, nas suas homilias, o Menino Jesus: ele trata com pormenores dos seus traços e lições: doçura, bondade, paciência, humildade, pobreza etc.

Na Itália, Francisco de Assis será uma das testemunhas mais ilustres desta devoção. São Boaventura, estendendo-se sobre os mistérios da Infância dá a respeito dela "uma interpretação alegórica que permite calcar sobre a infância de Cristo as atitudes de uma ascensão espiritual".

Desde os começos da ordem franciscana, místicos recebem seus favores: o Menino Jesus deixou-se tomar, levar, abraçar...

Nos séculos XIII e XIV os autores espirituais propõem obras populares baseadas nos relatos da Infância, e Meditações onde a Infância quer suscitar tanto fervor quanto a Paixão.

Santo Inácio, nos seus Exercícios espirituais, dará grande realce a este tema de meditação.

 

Desenvolvimento de uma Piedade Popular nos Séculos XV e XVI

Ela se manifesta por representações da Natividade, na Itália, e do Menino sozinho, principalmente nos países germânicos. Na Inglaterra, abre-se o colégio São Paulo sob a proteção de um "Menino Jesus docente", nos Paises Baixos, poemas e orações celebram, com muita ternura, "o meninozinho"

 

As Estatuetas do Menino Jesus

A piedade popular vai também se manifestar  em torno desta forma de representação do Menino Jesus: algumas destas se revelarão miraculosas, elas ocuparão em breve um lugar privilegiado na devoção à Infância.

O Jesus-kind de Altenhohenhau, o de Fismoos na Áustria, o Bambino de Ara Coeli de Roma, são objeto de veneração popular.

Santa Teresa d´Ávila que propaga o uso das estatuetas, segurava nos seus braços uma representação do Menino Jesus.

O venerável Francisco do Menino Jesus (+ 1604), carmelita, recorria "em tudo que fazia ao Menino" representado por uma pequena estátua.

 

Evolução da Devoção no Século XVII

O cardeal de Bérulle (+ 1629) desempenhará um papel importante no desenvolvimento desta devoção.

Tendo encontrado na Espanha, entre os protagonistas da devoção, Francisco do Menino Jesus, é depois da introdução na França da reforma teresiana, que Bérulle fará da Infância do Verbo Encarnado um tema freqüente de seu ensinamento. A difusão de sua influência é assegurada pelos Carmelos e pelo Oratório.

Formadas por suas mães espanholas, as carmelitas francesas vão dar à devoção o seu impulso definitivo.

Em Paris, desde 1605, se possui uma estátua do Menino Jesus enviada pelo Geral das carmelitas da Espanha à bem-aventurada Ana de São Bartolomeu, favorecida com visões de Jesus Infante.

O carmelo de Beaune dará um impulso decisivo à devoção com Margarida do Santo Sacramento (1619-1648). Ela viverá em "familiaridade" com o Menino Jesus que se manifesta a ela sob os traços de um menino de alguns meses, enfaixado segundo o costume da época.

Ela recebe do "Pequeno Rei" a missão de atrair sobre o reino da França a proteção do Menino Jesus, honrando-o com uma nova devoção e cria para este fim, em 1636, uma Associação cujo impulso será favorecido pelas circunstâncias: país ameaçado pela invasão (1636), nascimento de Luís XIV (1638) considerada como uma graça nacional devida ao poder do Menino Jesus.

A irradiação da devoção de Beaune será multiplicada pelos Oratorianos, que criam uma confraria em Paris, rapidamente propagada no interior e da qual um dos mais ativos auxiliares será o Barão de Penty (+ 1649) que, tendo conhecido Margarida de Beaune, dará ao mosteiro a célebre estatueta do "Rei da Graça" que aí se continua a venerar hoje.

A doçura e a graça do "Pequeno Rei" de Beaune são particularmente comoventes.

Tipicamente carmelitana em suas origens, esta devoção, entretanto não foi monopolizada por esta Ordem.

Entre os Dominicanos distingue-se o nome de dezenas de religiosas que têm uma devoção especial ao Menino Jesus e várias dentre elas, na Espanha, Itália e França, serão favorecidas com aparições.

Entre as Visitadinas -- cujo fundador, São Francisco de Sales, encontrava no Menino do Presépio um modelo de vida religiosa -- Ana Margarida Clemente (+ 1661) estabelece uma associação idêntica a de Beaune.

As diretivas espirituais da congregação das Ursulinas francesas recomendarão a união ao Menino Jesus...

Falta-nos espaço para citar todos os religiosos e religiosas em cuja biografia se fala de uma particular devoção ao Menino Jesus, ou que foram favorecidos com suas aparições.

 

O Menino Jesus de Praga

Quando o protestantismo devastava a Europa, os príncipes que tinham traído a causa do Santo Império se coligavam contra Fernando II e ameaçavam particularmente Praga e a Boêmia católica, cujo príncipe eleitor calvinista, Frederico do Palatinado, se havia feito coroar como rei.

O Imperador Fernando II, já gravemente atacado pelos príncipes protestantes da Alemanha e da Suécia, obteve em 1620, do Papa Paulo V, o envio do Padre Domingos de Jesus Maria, terceiro Geral dos Carmelitas descalços, instalados em Roma desde 1620.

A 20 de junho de 1620, o padre chegava à Alemanha com outros dois carmelitas. Sua presença fez renascer a confiança e a esperança nos exércitos católicos que ele acompanhava e cuja vitória sobre os hereges ele predisse desde 20 de julho.

Ao visitar na Boêmia o castelo de Starkonitz, devastado pelos protestantes, o Padre Domingos aí descobriu na lama de um subterrâneo um quadro no qual a Virgem e todos os personagens -- salvo o Menino Jesus -- tinham tido os olhos furados pelos profanadores heréticos.

Ele fez o voto de restabelecer o culto desta imagem, que levava consigo no domingo, 8 de novembro de 1620, durante a batalha da Montanha Branca, onde as tropas calvinistas, apesar de sua superioridade esmagadora em número, foram dispersas e vencidas pelo exército católico.

Este quadro se conservou depois em Roma, na igreja de Santa Maria da Vitória.

Em reconhecimento por esta vitória, o Imperador, de acordo com seu aliado, o Duque Maximiliano da Baviera, fundou em 1622 os conventos de Viena e depois os de Praga e de Gratz.

Em Praga, o Imperador e o conselho municipal adquirem um antigo templo protestante e suas dependências, que ofereceram ao Padre Domingos para aí fundar o convento; a 8 de setembro de 1624, consagrada com o título de Nossa Senhora da Vitória, esta igreja iria tornar-se o centro da irradiação da devoção ao "Menino Jesus de Praga".

 

Doação da Estátua aos Carmelitas de Praga

A situação material era todavia difícil para os Carmelitas de Praga, reduzidos às esmolas dos benfeitores; para aliviá-la, o Padre João Luís da Assunção, Prior, penetrado da devoção carmelitana ao Menino Jesus, recebeu do Senhor a inspiração de lhe desenvolver o culto e ordenou ao seu imediato, o Padre Cipriano de Santa Maria, procurar uma estatueta do Menino Jesus que seria instalada no oratório.

É então que a princesa Polyxèna de Lobkowitz, que Fernando II havia feito recuperar a posse de seus bens confiscados pelos protestantes, oferece em 1628 uma estatueta do Menino Jesus ao Prior. Segundo a tradição, é a mãe de Polyxèna, Maria Manriquez de Lara, nascida princesa Pignatelli, que havia trazido esta estatueta miraculosa da Espanha e lha tinha ofertado como presente de núpcias.

De cera, com 48 centímetros de altura, ela representa o Menino Jesus de pé, com a mão direita levantada para abençoar e com a esquerda trazendo um globo. A expressão do rosto é de uma comovente doçura.

Ao remetê-la ao Prior, Polyxèna lhe disse: "Eu vos confio o que tenho de mais caro. Honrai esta imagem e de nada tereis falta." Em breve seguiram-se numerosos benefícios materiais para os Carmelitas de Praga; um dos quais, o Padre Cirilo da Mão-de-Deus, se tinha tornado apóstolo da devoção ao Menino Jesus.

 

Profanação e Esquecimento

Alguns anos após, a Boêmia tornou a ser o teatro da guerra, e os Carmelitas transferiram o noviciado para Munique;  a devoção caiu no esquecimento e os Carmelitas foram oprimidos por provações.

Um exército protestante de 18.000 homens abateu-se sobre a Boêmia onde Praga, que não tinha senão 500 homens para se defender, recaiu sob o jugo dos hereges; 80 ministros protestantes instalaram-se nas igrejas e a de Santa Maria foi pilhada, a estatueta do Menino Jesus jogada entre os destroços, atrás do altar.

Todavia, em maio de 1632, Fernando II recrutou um novo exército que expulsou os saxões de Praga: os Carmelitas estabeleceram-se novamente em seu convento, mas ninguém se preocupou com a preciosa estátua.

Ao flagelo da guerra sucedeu o de uma terrível epidemia da qual o Padre Prior foi uma das vítimas, e a miséria reinava no Carmelo, enquanto que o inimigo de novo ameaçava Praga.

 

Reparação

Tal era a situação quando, em 1637, o Padre Cirilo foi chamado de volta a Praga. Ele encontrou a estatueta danificada, cujas mãos haviam desaparecido, e a expôs novamente no coro à veneração dos fiéis. O Menino Jesus, que tinha abandonado o convento enquanto era deixado no esquecimento, manifestou de novo o seu poder: o cerco de Praga foi levantado ao mesmo tempo que a comunidade dos Carmelitas se achava provida do mínimo necessário.

Ora, durante uma oração diante da estatueta mutilada, o Padre Cirilo ouviu distintamente estas palavras: "Tende piedade de mim e eu terei piedade de vós. Restitui-me as minhas mãos e eu vos restituirei a paz... quanto mais me honrardes, tanto mais eu vos favorecerei..."

Preocupado com reunir os fundos necessários à restauração da estatueta, Padre Cirilo se chocava com a indiferença de seu Prior até o momento em que o Menino Jesus lhe falou de novo: "Colocai-me à entrada da sacristia e encontrareis alguém que terá piedade de mim."

É então que um estrangeiro, Daniel Wolf, se apresentou e pediu aos Padres que lhe confiassem a estátua, que ele reparou às suas custas.

Seguiram-se várias peripécias verdadeiramente sobrenaturais: Daniel Wolf, que havia perdido a sua posição e a sua fortuna, recuperou uma e outra, e depois, atacado por uma grave doença, fez voto de mandar construir um altar para a estatueta e foi atendido com a sua cura.

 

Proteção Particular do Divino Infante

Por volta de 1642, ajudado por donativos e concursos providenciais, o Padre Cirilo viu chegar o momento de pedir ao seu Prior a construção, no recinto do mosteiro, de uma capela destinada ao Menino Jesus e cujo local precioso lhe havia sido indicado pela própria Santíssima Virgem.

A 14 de janeiro de 1644, na festa do Santo Nome de Jesus, o Prior celebrava aí a primeira Missa e a 3 de maio de 1648, o Cardeal Arcebispo de Praga a consagrava oficialmente.

A estátua miraculosa foi aí conservada até 1741: entrementes, a devoção popular tinha tomado um tal desenvolvimento que a capela se revelava demasiado pequena e, a 14 de janeiro de 1741, a estatueta foi instalada solenemente na própria igreja, à direita do altar central, no seu lugar atual.

Não nos é possível, no plano deste curto artigo, relatar mesmo sumariamente a longa crônica dos acontecimentos que se seguirão, caracterizada por uma alternância de favores particulares concedidos aos que conservaram esta devoção (seja a título individual: curas etc. ou coletivo: proteção de cidades por ocasião de conflitos ou epidemias) e de provações sofridas pelos que a abandonaram.

 

Declínio da Devoção em Praga no Fim do Século XVIII

Restauração da Igreja

O fiel que visita em 1993 a igreja de Santa Maria da Vitória se espanta por não ver aí mais que uma ou duas dezenas de ex-votos.

No fim do século passado, sob a influência das ordenações do Imperador da Alemanha José II -- o "déspota esclarecido" -- que quis reformar a igreja -- uma vaga de iconoclastia varreu das igrejas os quadros e imagens, enquanto que um grande número de casas religiosas e de conventos eram suspensos.

Em julho de 1794 os Carmelitas foram desapossados de Santa Maria da Vitória ao passo que os objetos de valor ou os ex-votos, que ornavam, foram confiscados, vendidos ou roubados.

A Igreja tornou-se paroquial, servida pelos sacerdotes da Ordem de Malta.

É em 1848 que ela foi restaurada, assim como o belíssimo altar do Menino Jesus que se vê hoje ali, na parte direita da nave.

Fazendo-lhe exatamente face, à direita da nave, se eleva o altar da Virgem, sobre o qual está colocado um quadro da Virgem em oração, ilustrado por um fato miraculoso.

Por ocasião de perturbações, um velho soldado deu um tiro de arcabuz neste quadro, que o projétil furou no lugar do coração de Nossa Senhora: o sangue correu então pelo orifício, para espanto do soldado sacrílego, do qual a tradição diz que foi imediatamente confessar-se e se converteu...

Ulteriormente, o religioso encarregado da igreja declarou: "Convém que a Mãe se torne a unir com o seu Filho" e fez instalar este quadro no seu lugar atual.

Até uma data recente, dois quadros colocados de uma parte e de outra representavam o episódio do velho soldado. Infelizmente, eles foram roubados.

 

Extensão da Devoção do Menino Jesus de Praga na Europa

Limitar-nos-emos a evocar rapidamente esta extensão na França, Bélgica e Itália.

 

Na França
O Carmelo de Meaux parece ter desempenhado um grande papel na propagação desta devoção na França: Madre Gertrudes de Jesus, sub-priora, recebeu em 1885 -- segundo a tradição oral do Carmelo -- o favor de ver andar na sua cela "um pequeno Jesus que não era como os outros".

Ela procurou por muito tempo uma imagem ou estátua representando o Menino com os traços com que Ele lhe tinha aparecido, até 31 de janeiro de 1886, quando descobriu o histórico do "Pequeno Grande" de Praga e aí reconheceu o "seu pequeno Jesus"...

A estátua tão desejada chegou a Meaux, presente anônimo, a 13 de abril de 1886, e foi solenemente erigida na capela exterior do mosteiro, a 13 de setembro de 1888, pelo Bispo da diocese.

Até a morte (1 de janeiro de 1905), a Madre Gertrudes de Jesus dedicou-se ativamente a promover o culto do "Divino Pequeno-Grande" na França e no mundo.

 

Na Bélgica
O Carmelo de Audenarde ter-se-ia adiantado a todos os outros: desde 1886 o Menino Jesus miraculoso de Praga tem um trono na capela e as religiosas distribuíram os primeiros santinhos e medalhas.

Em 1891, uma bruxelense, Gabriela Fontaine, inspirada por sua mãe, vai consagra sua existência ao que será sua profissão de fé: "levar a todos o conhecimento e o amor de Jesus Menino".

Mulher de fé e de energia, dotada de um senso particular de organização, seus esforços verão a sua coroação a 18 de outubro de 1906, na consagração da igreja do Santo Menino de Jesus, edificada por sua iniciativa, em Bruxelas.

No intervalo, G. Fontaine terá suscitado a criação da confraria da Santa Infância de Jesus, fundado uma revista, mandado fazer uma cópia da estatueta de Praga difundida em milhares de exemplares que se encontram em numerosíssimas igrejas e casas religiosas na França e alhures.

A igreja de Bruxelas foi, desde a origem, confiada à ordem dos Barnabitas e as centenas de "ex-voto" que ornam suas paredes testemunham as graças ali obtidas.

A julgar por estes testemunhos --  freqüentemente muito comoventes -- da devoção ao Menino Jesus , verifica-se que esta devoção tem nascimento no fim do último século [Santa Teresinha do Menino Jesus em particular teve uma devoção muito grande ao Menino Jesus], viu o seu apogeu entre 1905 e 1925, para estiolar-se logo em seguida.

 

Na Itália: O Santuário de Arenzano
Os Carmelitas descalços estabeleceram-se em Arenzano, pequena cidade situada a alguns quilômetros de Gênova, em 1889. Nesta época, o Santo Menino Jesus de Praga era quase desconhecido na Itália.

Em 1895, os Carmelitas de Milão obtém de seu Cardeal a permissão de introduzir em seu santuário uma estatueta do Menino Jesus de Praga.

Será o ponto de partida de uma devoção que se espalhará rapidamente pelo povo italiano, através dos Carmelos, favorecendo sempre o desenvolvimento da espiritualidade carmelitana.

Em 1900, o Prior de Arenzano instala um pequeno quadro representando o Menino na capela do seu convento e, desde o ano seguinte, em conseqüência das graças recebidas pelos fiéis que ali vinham rezar, a afluência surpreende os Padres que decidem substituir o quadro por uma estatueta.

A marquesa Delfina Gavotti de Savona lhes oferece então uma cópia do original de Praga, a qual será substituída pela estátua (de madeira, um pouco maior que o original, mas que é sua exata reprodução) atualmente venerada.

A afluência aumenta -- assim como as graças obtidas, confirmando a promessa feita ao Padre Cirilo: "Tanto mais vós me honrardes, tanto mais eu vos favorecerei" -- e, patenteando-se demasiado pequena a capela, decidiu-se a construção de um santuário.

A primeira pedra da imponente basílica será posta a 16 de outubro de 1904 e a benção solene do edifício realizar-se-á quatro anos mais tarde. O local sobre o qual ele está construído torna esta visita particularmente atraente.

Uma confraria do Santo Menino Jesus de Praga, chamada "pia união", foi ali erigida: conta com um grande número de adeptos e publica um periódico.

A festa principal de Arenzano se realiza no primeiro domingo de setembro, aniversário da abertura do santuário.

 

Conclusão

A história desta devoção, cujas linhas gerais acabamos de traçar, mostra que ela é ao mesmo tempo teologicamente fundada, uma prática antiga e sobrenaturalmente fecunda.

Fecunda: insistiremos neste ponto. Como todas as orações de petição, as preces endereçadas ao Menino Jesus não obtém sempre -- na aparência e literalmente -- as graças pedidas.

Mas nossa curta vista nos dissimula freqüentemente esta realidade: Deus -- e aqui o Menino Jesus -- sabe melhor do que nós o que nos é necessário... E quantas vezes a alma, a princípio decepcionada, e até entristecida por não ter obtido a graça, a cura, o favor pedido, descobre com o tempo que, enfim, ela recebeu muito mais!

No caso particular da devoção e do recurso ao Menino Jesus serão os frutos do "espírito de infância": doçura, paciência, humildade, esquecimento de si...

Resta dizer que, se o Menino Jesus ainda é honrado em algumas casas religiosas e famílias, o é por exceção: é forçoso verificar que esta devoção é praticamente ignorada do maior número de católicos, mesmo os mais fiéis...

Basta visitar as capelas de Bruxelas, de Beaune ou de Praga -- quase permanentemente desertas -- para se dar conta disso! Mas retorquir-nos-ão, não acontece o mesmo com a maior parte das nossas igrejas onde, aí sim, a Presença Eucarística é bem Real?

Certamente. Mas se esta Presença é igualmente Real no tabernáculo de cada um de seus santuários, o coração de um cristão se ressente mais afetivamente desta solidão quando ela se manifesta -- além disso -- em torno da comovedora imagem do Menino Deus -- seja a da criancinha enfaixada de Beaune ou a do "Pequeno-Grande" de Praga...

Os que tiveram a graça de conduzir seus filhos ou netos a um destes santuários e de observar as reações deles, compreenderão melhor o que quereríamos dizer aqui.

Assim convém favorecer novamente esta devoção em nossas famílias, lembrando-nos da promessa do Menino Jesus: "Quanto mais me honrardes, tanto mais vos favorecerei".

 

 

(Revista SIM SIM NÃO NÃO n° 2 ― Fevereiro de 1993)

 

 

O Anticristo

Agosto 10, 2018 escrito por admin

Instrução pastoral do Cardeal Pio - Quaresma 1863

 

Anticristo, o que nega que Jesus seja Deus; anticristo, o que nega que Jesus seja homem; anticristo, o que nega que Jesus seja homem e Deus ao mesmo tempo.

Um anticristo, nos diz São João, nega o Pai, pois negando o Pai nega o Filho: Hic est antichristus qui negat Patrem et filium (I Jo. 2, 22). De fato, não há anticristianismo mais radical do que aquele que nega a divindade em sua raiz, em seu princípio. Como o Cristo seria Deus se Deus não existisse? Ora, negar o ser divino, a substância divina, a personalidade divina e introduzir não sei que outra teodicéia é prova de que suprimem a realidade, substituindo-a por abstrações e sonhos que flutuam entre o ateísmo e o panteísmo ou que não têm sentido algum. Eis o sistema capital da atual situação intelectual; eis o ensinamento que enche os livros e inspira as lições de toda uma escola, abundante e poderosa. Diante de tais doutrinas, “só tenho uma coisa a dizer-vos: cuidado com o anticristo”: Unum moneo: cavete antechristum.

São João continua: “Todo aquele que nega o Filho, também não reconhece o Pai. O que crê no Filho de Deus, tem em si o testemunho de Deus. O que não crê no Filho, torna Deus mentiroso, porque não crê no testemunho que Deus deu de seu Filho. Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho, não tem a vida” (I Jo. 2,23; 5, 10-12). “Muitos sedutores se têm levantado no mundo, que não confessam que Jesus Cristo tenha vindo em carne; quem faz isso é um sedutor e um anticristo”: “Qui non confiteur Christum in carne venisse, hic est seductor et antichristum” (II Jo. 7). Ora, se os senhores escutarem o que se diz hoje e se lerem o que se escreve atualmente, descobrirão ou que o personagem histórico Jesus nem chegou a existir (ao menos como é representado nos Evangelhos) ou que foi um desses tipos que manifestou mais fortemente o ideal de sabedoria, de razão, de perfeição e que convencionou-se denominar “Deus”. Jamais admitirão que o Filho de Maria seja o Filho de Deus feito homem, o Verbo feito carne, aquele em que reside corporalmente a plenitude da divindade (Col. 2, 9), e, para concluir definitivamente, o Homem-Deus. Aterrorizado com tais blasfêmias, que são a própria inversão do símbolo cristão, “só tenho uma coisa a dizer-vos: cuidado com o anticristo”: “Unum moneo: cavete antechristum”.

Que diria eu ainda? Anticristo, o que nega o milagre, o que ensina que o milagre não tem lugar possível na trama das coisas humanas. Cristo, ainda que suas palavras tivessem um tom que merecesse credibilidade, só estabeleceu sua divindade pelo argumento decisivo do milagre. Ele deu a seus apóstolos, como meio de persuasão e conquista, o poder de operar milagres. Sua vinda ao mundo em carne, a união entre a natureza humana e a natureza divina em uma única pessoa é o milagre por excelência. Suprimir o milagre é suprimir toda a ordem sobrenatural e cristã. Aqui repito: “Cuidado com o anticristo”: “Unum moneo: cavete antechristum”.

Anticristo, aquele que nega a revelação divina das Escrituras: pois são os profetas divinamente inspiradas que nos anunciaram o Cristo. São os Evangelhos ditados pelo Espírito Santo, assim como os atos e as cartas dos Apóstolos que nos fazem conhecer a Cristo. Podemos alegar as próprias palavras de Santo Hilário: “Quem quer que negue o Cristo tal como foi anunciado pelos Apóstolos, este é um anticristo”: “Quisquis enim Christum, qualis ab apostolis est praedicatus, negavit, antichristum est”. Se os senhores ouvirem negar os livros santos, se sua autoridade for desprezada como simples concepção e invenção do espírito humano, “tenho um conselho a dar: cuidado com o anticristo”: “Unum moneo: cavete antechristum”.

Anticristo, aquele que nega a instituição divina a missão divina da Igreja, pois a conclusão, a finalização das obras, dos sofrimentos e da morte de Jesus Cristo foi a fundação de sua Igreja. “Cristo amou a Igreja e por ela se entregou a si mesmo, para a santificar, purificando-a no batismo da água pela palavra da vida, para apresentar a si mesmo esta Igreja gloriosa, sem mácula, sem ruga, mas santa e imaculada” (Ef. 5.25-27). Ora, se a Igreja não possui um caráter sobrenatural, se ela é somente uma instituição terrena, um dos estabelecimentos religiosos destinados a desempenhar um papel mais ou menos longo no seio da humanidade, uma sociedade exposta às vicissitudes e falhas das coisas desse mundo, uma escola mais ou menos respeitável de filosofia e filantropia, numa palavra, se a Igreja não é divina, é que Cristo, seu fundador, não é Deus. Rejeitar a divindade da obra é rejeitar a divindade do autor: “Tenho sempre a mesma recomendação a dar: cuidado com o anticristo”: “Unum moneo: cavete antechristum”.

Anticristo, aquele que nega a suprema e indefectível autoridade de Pedro. Na verdade, Jesus Cristo, depois de ter olhado nos olhos desse homem, disse-lhe: “Simão, filho de João, tu serás chamado Cefas que quer dizer Pedro” (Jo. 1, 42); “e sobre esta pedra Eu edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão sobre ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; e tudo o que desatares sobre a terra, será desatado nos céus” (Mt. 16, 18-19). E o mesmo Jesus lhe disse ainda: “Simão, Simão, eis que Satanás te reclamou com instância para te joeirar como trigo; mas eu roguei por ti, para que tua fé não falte; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos” (Lc. 22, 31-32). Se essas palavras de Jesus Cristo não fizeram de Pedro o fundamento inabalável da Igreja, a rocha imutável da verdade, o oráculo infalível da fé, é porque quem as pronunciou não tinha o poder de torna-las eficazes. Ferir Pedro é ferir a cabeça viva, o chefe invisível da Igreja cristã que nele revive e subsiste. “Clamo ainda: cuidado com o anticristo”: “Unum moneo: cavete antichristum”.

Anticristo, aquele que nega ou despreza o sacerdote cristão. Jesus Cristo ressuscitado disse a seus apóstolos: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo. 20, 21). “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra. Ide, pois, ensinai a todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as observar todas as coisas que vos mandei; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt. 28, 18-20). Se os poderes assim conferidos por Jesus não são os plenos poderes de ensinar a verdade em nome de Deus pela pregação, de administrar a graça dos sacramentos, de velar pela observância dos preceitos divinos pelo governo eclesiástico e se, no exercício de seus poderes, o sacerdócio cristão não for sustentado por uma assistência contínua e uma presença quotidiana de Cristo, aqui ainda, deve-se admitir que Cristo falou mais do que podia fazer. Conseqüentemente, ele não é Deus. O Senhor disse aos próprios levitas da antiga lei: “Não toqueis os meus ungidos” (I Par. 16, 22), e disse aos ministros da nova lei: “O que vos recebe, a Mim recebe; e o que Me recebe, recebe Aquele que Me enviou” (Mt. 10, 40); sabendo disso, quando vejo a língua de meu país se depravar até chegar a transforma em título de insulto e desdém essa primícia sacerdotal e real chamada clericatura, e que o vocabulário tinha sido por muito tempo sinônimo de saber e de instrução, me sinto tomado de imensa piedade por uma geração cuja própria elite sucumbe a tal baixeza e se mostra culpada de tal esquecimento e desrespeito em relação ao que todos os povos tiveram de mais sagrado. E “repito sempre a mesma lição: cuidado com o anticristo: unum moneo: cavete antichristum”.

Anticristo, aquele que nega a superioridade dos tempos e países cristãos sobre os tempos e países infiéis ou idólatras. Se Jesus Cristo, que nos iluminou quando estávamos nas trevas e nas sombras da morte, e deu ao mundo o tesouro da verdade e da graça, não enriqueceu o mundo com bens superiores aos possuídos no seio do paganismo, [e falo até mesmo do mundo social e político] é que a obra do Cristo não é uma obra divina. Além disso: se o Evangelho que salva os homens é impotente para fornecer os princípios do verdadeiro progresso dos povos; se a luz revelada, proveitosa aos indivíduos é prejudicial às sociedades, e talvez até para as famílias, é prejudicial e inaceitável para as cidades e os impérios; em outros termos, se Jesus Cristo, que os profetas prometeram e a quem o Pai deu as nações como herança, só pode exercer seu poder sobre elas em seu detrimento e para sua infelicidade temporal, tem de se concluir que Jesus Cristo não é Deus. Porque nem em Sua pessoa nem no exercício dos Seus direitos, Jesus Cristo pode ser dividido, dissolvido, fracionado. Nele, a distinção das naturezas e das operações nunca poderá ser a separação, a oposição. O divino não pode ser antipático ao humano, nem o humano ao divino. Ao contrário, ele é a paz, a aproximação, a reconciliação, é o traço de união “que faz de duas coisas, uma”: “ipse est pax nostra qui fecit utraque unum” (Ef. 2, 14). Por isso São João nos diz: “todo espírito que divide Jesus não é de Deus; mas este é um anticristo do qual vós ouvistes que vem, e agora está já no mundo”. “Et omnis spiritus qui sivit Jesum, ex Deo non est; et hic est antichristum de quo audistis quoniam venit, et nunc jam in mundo est” (I Jo. 4, 3). Quando ouço então certos ruídos que surgem, certos aforismos que prevalecem com maior freqüência dia a dia e se introduzem no coração das sociedades, dissolvendo-as sob a ação daquele por quem o mundo há de perecer, “lanço um grito de alarme: cuidado com o anticristo”: “unum moneo: cavete antichristum”.

Poderíamos, caros irmãos, nos estender sobre os detalhes dos erros que se propagam a cada dia em nosso redor, que constituem o que poderíamos chamar anticristianismo. O que dissemos é mais do que suficiente para excitar em nós a vigilância e desconfiança de qualquer doutrina que não proceda da Igreja (...).

Permaneçamos firmes na fé antiga e invariável da Santa Igreja; “sejam homens e não crianças flutuantes, e levadas, ao sabor de todo vento de doutrina, pela malignidade dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Ef. 4, 14). O divino Salvador disse, profetizando os tempos de ruína de Jerusalém: “Mas ai das mulheres grávidas e das que tiverem crianças de peito naqueles dias!” (Mt. 24, 19). Santo Hilário nos explica essa passagem: “Nos dias difíceis e de tempestade da Igreja, ai das almas minadas pela incerteza e nas quais a fé e a piedade estiverem ainda em estado embrionário ou ainda na infância. Umas, surpreendidas no embaraço de suas incertezas e atrasadas por causa das irresoluções de seu espírito constantemente irrequieto, estarão muito pesadas para escapar às perseguições do anticristo. Outras, tendo apenas degustado os mistério da fé em embebidas somente de uma fraca dose de ciência divina, não terão força suficiente e habilidade necessário para resistir a tão grandes assaltos” (Comment. In Mat. 25. 6). É esse o peso e debilitação das almas que hão de tornar os últimos tempos tão perniciosos, propícios a tantas quedas.

Por outro lado, Santo Agostinho ressalta o quanto esses dias de provações serão favoráveis ao embelezamento e crescimento do mérito das almas fieis. Comentando a passagem do Apocalipse: “depois disso é necessário que o demônio seja solto por um pouco de tempo” (Ap. 20, 3), o santo doutor nos mostra que o demônio nunca está preso de maneira absoluta durante a vida da Igreja militante. Entretanto, ele fica freqüentemente preso no sentido de que não lhe é permitido utilizar sua força toda nem todos os seus artifícios para seduzir os homens.

A enfermidade do grande número é tal que, se ele tivesse esse pleno poder ao longo de todos os séculos, muitas almas com que Deus quer aumentar e povoar sua Igreja seriam desviadas da verdadeira crença ou tornar-se-iam apóstatas: isso Deus não quer suportar. Eis porque o demônio fica parcialmente atado. Porém, por outro lado, se ele nunca fosse solto, o poder de sua malícia seria menos conhecido; a paciência da Cidade Santa menos exercida e compreenderíamos menos o imenso fruto que o Todo Poderoso soube tirar da imensa força do mal. O Senhor então desatá-lo-á por um tempo a fim de mostrar a energia com a qual a cidade de Deus vencerá tão horrível adversário, para a grande glória de seu redentor, de seu auxílio, de seu libertador. E o santo doutor chega a dizer a seus contemporâneos: “Quanto a nós, irmãos, quem somos e que mérito possuímos em comparação aos santos e fiéis de então? Porque, para prova-los, o inimigo que nós já temos tanta dificuldade em combater e vencer atado, estará desatado”.

Coragem, meus caros irmãos. Quanto mais a religião é atacada, a Igreja oprimida por todos os lados, quanto mais as doutrinas errôneas e de perversão moral invadem os discursos, livros e teatros e enchem a toda a atmosfera com seus miasmas pestilentos, mais possível será adquirir grandeza, perfeição e mérito diante de Deus, se não nos deixarmos abalar em nenhuma de nossas convicções e permanecermos fiéis ao Senhor Jesus, coisa em que muitos outros falharam e tiveram a desgraça de abandona-Lo. Não vos deixai seduzir pela força e número dos perversos, nem pelas aparentes vitórias dos adversários de Jesus Cristo. Está escrito que os maus e os sedutores farão a terra progredir; progresso no mal, progresso na destruição, progresso na desordem: proficient in pejus “irão de mal a pior” (II Tim. 3, 13). Mas também está escrito que esse tipo de sucesso nunca durará por muito tempo. Os homens que resistem à verdade, pessoas corrompidas em seu espírito e réprobos sob o olhar da fé não tardarão a se convencer dessa loucura juntamente com seus seguidores nessa via.

Perseverai na fé, caríssimos irmãos; perseverai também nas obras, sobretudo nas obras de caridade. É uma doutrina constante e que não deve ser abandonada a nenhum preço: aqueles que crêem em Deus são os que tomam a frente das boas obras: a humanidade, e principalmente, a humanidade sofredora encontrará sempre consolo desse modo. Não ouvimos dizer também, que nesses últimos dias, a esmola feita por sentimento sobrenatural e segundo as tradições da piedade cristã não terá lugar no seio de nossas sociedades e que seu “selo eclesiástico” será uma ofensa à dignidade dos necessitados que se tenta aliviar? O naturalismo, o ardor que põe na secularização de tudo, entende que fazer o bem é obra puramente humana, profana e não tem nada em comum com a ordem da graça e da salvação. Propósito execrável, e se pudesse chegar a desencorajar a caridade cristã e sacerdotal, conseguiria neutralizar as mais oportunas fontes de alívio dos infelizes. Ah! Eu vos diria ainda: “cuidado com o anticristo”: “unum moneo: cavete antichristum”. Mas tenham os olhos sempre fixos em Cristo; no menino Jesus do estábulo de Belém; no operário-Deus do ateliê de Nazaré; naquele que, sendo rico por natureza fez-se pobre para nos enriquecer com sua humilhação; naquele que será um dia nosso juiz, e que, em consideração com essa multidão de operários indigentes e privados de trabalho que terá sido aliviada por amor a Ele, nos fará possuir o reino que seu Pai nos preparou.         

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