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Espiritualidade (166)

Os tormentos do inferno

São Roberto Bellarmino

Caríssimos irmãos, quando contemplo o início e o crescimento da religião de Cristo e recordo os sinais e prodígios do Redentor, duas coisas me parecem admiráveis e quase inacreditáveis: a primeira, que existam pessoas que se recusam a abraçar a Santíssima Fé; a segunda, que aqueles que a abraçaram persistam no pecado.

Muitas foram as predições dos profetas, e quase unânime o consenso dos povos, e sem conto o número dos milagres, e imensa a esperança depositada em nossa Fé. Fomentou-a a caridade, fixou-a a antigüidade, confirmou-a a sucessão dos bispos e, enfim, fortificou-a a autoridade da Igreja Católica Romana. Por isso, quem não se assombraria com o fato de que, desde o início da pregação da fé, ainda se encontrem pessoas para as quais a doutrina da Igreja Católica Romana é inconsistente, pessoas essas que não temeram endossar os atos dos autores das novas seitas e, portanto, do Mestre dos Erros? Semelhantemente, como se é capaz de escutar que certos indivíduos acreditam na punição eterna para quem viole as leis de Deus, mas não se abismar que tais indivíduos – os que aderem a essa crença – não obstante pecam contra Deus com a mais descarada tranqüilidade e audácia?

Ora, se a certa hora a ninguém se permitisse meter os pés para além dos portões da cidade – em razão dum edito do rei – sob pena de morte por enforcamento, quem haveria de ser tão descuidado e negligente da própria segurança a ponto de, à hora proibida e na presença de inúmeras testemunhas, aventurar-se a pôr o pé para além dos portões? E se acaso, por um motivo qualquer, alguém o fizesse, não lhe invadiria mais tarde o medo, não apenas das testemunhas mas também do portão, como se tal objeto estivesse cônscio do crime que se cometera? Por seu lado, estão todos os cristãos persuadidos de que Deus Onipotente proferiu uma sentença irrevogável, em cujo teor se lê que, quem partisse desta vida culpado de violação [grave] 1 à lei de Deus, como condenado que é, seria ligado às correntes eternas e sofreria tormentos inauditos e infindos, [caso não se arrependesse dos pecados antes da morte] 2. Todavia, observamos dia após dia muitos que ofendem a Deus, sem que para isso sejam coagidos, instigados, e muitas vezes até sem serem convencidos, mas por iniciativa própria, de boa vontade e com boa consciência. Decerto, eles buscam as ocasiões de pecado, regozijam se as encontram e, se não, lamentam. Que haveríamos de apontar como causa disso?

Caríssimos, parece-me que há três causas principais: falta de meditação, ignorância e amor-próprio, a última das quais os gregos com maior propriedade e acerto chamam de filáucia. A falta de meditação não é a menor das causas; pelo contrário, talvez seja a principal razão por que o risco do tormento eterno, que está sempre a nos acossar a todos, não nos afasta do pecado. Para muitas pessoas não lhes falta a fé, mas antes a meditação atenta e diligente do que a Fé propõe e ensina. Por isso, acredito que empreenderia uma tarefa agradabilíssima a Deus e útil a vós se hoje, como prometi no sermão anterior, eu lhes puxasse pela memória e exibisse diante dos vossos olhos o quão horrível, atroz e inexorável são as torturas que Deus preparou para a gente ímpia e perversa. Mas antes de falar dos tormentos do inferno, convém fazer algumas refutações, apoiado em dois elementos que mencionei há pouco.

De início, porque ignoramos a gravidade e a magnitude do pecado, mal conseguimos acreditar nos tormentos infernais com que as Santas Escrituras admoestam os homens nefandos. Afirma Santo Agostinho, nestes termos: “Para a razão humana, a pena eterna parece dura e injusta, pois que nesta [nossa] enfermidade da razão carecemos do conhecimento da sabedoria pura e soberana, pela qual é possível sentir a grandeza da afronta cometida na prevaricação originária.” Se de fato entendêssemos a gravidade da falta, só com muita dificuldade alimentaríamos dúvidas acerca da severidade da pena. Gostariam de saber de mim a imensidão da gravidade do pecado? Caríssimos, é ele tão imenso que a consciência não consegue abarcá-lo, visto que sobrepuja as faculdades da alma humana e derrota a inteligência dos seres mortais. Será o pecado certamente um mal imenso e infinito, se medirmos a magnitude da ofensa com a medida da dignidade e da nobreza do ofendido, que são infinitas.

Bem sabereis o perigo e a gravidade da doença do pecado se a comparardes com a excelência e a dignidade do Médico e dos remédios necessários para a cura. Quando ouvimos dizer que há uma pessoa tão doente que, insatisfeita com os médicos das redondezas, manda chamar cirurgiões de lugares distantes e estranhos, e que necessita de drogas preparadas a primor e com grande custo, então nos seria lícito a nós – que não somos médicos – afirmar que tal pessoa padece duma enfermidade gravíssima. Que se há de pensar, pois, da doença do pecado, a qual nem a sabedoria, nem o gênio, nem o poder e nem as faculdades de todos os homens e de todos os anjos seriam capazes de curar? Se não descesse a mesma Sabedoria do seio de Deus Pai, e preparasse um remédio perfeito a partir do Sangue do seu Santíssimo Corpo, decerto a doença destruiria a humanidade inteira.

Verdadeiramente, caríssimos, não tivesse eu outro argumento para demonstrar a gravidade do pecado, este só bastaria para persuadir todos os homens de que qualquer falta cometida contra Deus é um crime tão incomensurável que – ao considerar a pena devida à falta – com muita justiça poderíamos afirmar: “Olhos ainda não viram, ouvidos ainda não ouviram, nem jamais penetrou em qualquer coração humano as torturas e tormentos que Deus tem preparado para aqueles que O ofenderam.” Por que Deus, a própria Sabedoria, desejaria fazer-se homem, ser levado a Cruz, morrer e destruir o reino do pecado, senão para derrotar o poder e o domínio [de satã] e se tornar Ele mesmo o exterminador do pecado? Se por vezes meditássemos nestas coisas, não nos inclinaríamos ao pecado com tanta facilidade, e teríamos uma opinião diferente das torturas do inferno. Mas voltemos às causas da persistência do nosso torpor.

Caríssimos irmãos, é assombrosa a força persuasiva do amor, do maldito amor-próprio. Ele é, por assim dizer, a persuasão encarnada; essa alcoviteira – poderosa por natureza – é tão aduladora que, com as suas manhas, convence quase todas as pessoas a cortejarem a crença de que não sofrerão nenhuma pena ou, se as sofrerem, hão de ser breves e parcas, mesmo que vivam vidas desonestas e iníquas. Esta é a origem da opinião célebre entre alguns filósofos que, segundo Aristóteles, atribuem a si mesmos a excelência dos seus feitos, esperando que o próximo lhes dê o crédito e a admiração pela autoria deles, ao passo que atribuem a causas externas toda a sorte de crimes e injúrias que não raro cometem. Por isso, se agem bem, desejam recompensa e, se mal, o perdão da dívida.

Um após o outro, os erros dessa raiz germinaram até na pena de escritores cristãos, erros que Santo Agostinho enumera e refuta no Livro XII d’A Cidade de Deus. Havia quem acreditasse que não existem penas reservadas para católicos, mesmo para os de vida corrupta. Já outros, de iniciativa própria, deram o veredito de que não apenas os católicos, mas até os hereges – se tivessem sido outrora católicos – estariam dispensados da pena eterna! Outros ainda afirmaram que nem os católicos, nem os hereges a que se conferisse o Sacramento do Batismo, padeceriam as torturas eternas. Há outros que, indo mais longe ainda, conceberam que todos os homens – fossem cristãos, judeus ou pagãos – seriam salvos no Julgamento Final, quer pelos próprios méritos, quer pela intercessão e sufrágios de outrem. Já chegaram a existir pessoas que prometeram a esperança do perdão e a salvação eterna não só aos homens, mas até aos demônios do inferno! Quem mais seria capaz de baralhar nestas pessoas o senso de compaixão e causar nelas a adesão a opiniões tão insensatas sobre as torturas do inferno, senão o amaldiçoado amor-próprio? Assim sendo, não nos deve espantar que o amor-próprio atualmente dissemine tais idéias entre indivíduos que só com lentidão e dificuldade compreendem que o perigo das insuportáveis torturas eternas também pairam sobre elas. Deveras, raciocina e diz entre si essa gente tola: “É claro que Deus não me teria resgatado a um preço tão alto, nem padecido tantos males aqui na terra, se Ele planejasse me jogar eternamente na masmorra, por causa duma simples blasfêmia ou outro crime qualquer!”

Em verdade, caríssimos irmãos, devemos nos insurgir contra essa opinião falsa e perniciosa e expor os frágeis fundamentos sobre que está assentada. Digamos que o nosso rei venha a se afeiçoar de certo homem obscuro, regalá-lo com cargos públicos e enfim alçá-lo ao governo duma bela e aprestada cidadela do seu império. Agora imaginemos que este tal conspire com inimigos contra o seu rei e lhes entregue a cidadela confiada aos cuidados dele. Se fosse o caso de que no curso dos acontecimentos esse homem fosse capturado e levado à presença do rei, que pensais que faria com ele o rei? O fato de que um dia o rei tivesse afeição pelo traidor lhe impediria de pronunciar as penalidades estabelecidas para a traição? Certamente, as penas seriam atrozes, e tanto mais quanto maiores os precedentes benefícios conferidos. Assim é conosco. Embora Deus nos tenha amado com amor sumo, enviado o Seu Filho até nós, disposto que Ele sofreria e padeceria muitas agonias para a nossa libertação – apesar de tudo isso, se desertássemos para o campo do inimigo e entregássemos as cidadelas da alma aos demônios, Ele ainda nos puniria com tormentos eternos.

Há alguém que ainda não ouviu a história do patriarca José? Venderam-lhe os seus irmãos como escravo, e quando lhe conduziram ao Egito, lá o comprou o mordomo de Faraó, que passou a lhe querer bem, nomeou-o supervisor de toda a sua casa e lhe confiou a administração de todos os negócios; porém, mal suspeitara que José houvesse seduzido a sua esposa e tivesse adulterado com ela, não se contentara em lhe arrancar a dignidade da prefeitura da casa, mas o mandou lançar no mais pestilento dos calabouços.

Que dizer dos anjos condenados? Não fora o Príncipe dos Demônios outrora o Príncipe dos Anjos? E como foi! Segundo ensinava São Gregório Magno, e bem antes dele Tertuliano, além de muitos outros escritores eclesiásticos, era ele o mais nobre e principal dos anjos, tanto assim que o grau da sua preeminência entre as obras de Deus passou a ser o de sua humilhação, desgraça e degradação. Donde na Sagrada Escritura é chamado de “Lúcifer” (Is 14.12), “O principal entre as obras de Deus” (Jó 40, 14), “o selo da semelhança (de Deus), cheio de sabedoria e perfeito na beleza.” (Ez 28, 13). Dele ainda Ezequiel: “teu vestido estava ornado de toda casta de pedras preciosas.” (Ex 28, 13). E ainda: “No jardim de Deus não havia cedros mais altos do que ele.” (Ez 31, 8). E igualmente: “tiveram dele emulação todas as árvores deliciosas que havia no jardim de Deus.” (Ez 31, 9).

Então, se o maior e o mais sábio e eminente dos anjos foi expulso do Paraíso, em razão dum único pecado, e arremessado no abismo, que há de acontecer conosco, que nos apegamos ao lodo dos inúmeros pecados, e nos indulgenciamos na benevolência e bondade de Deus? Como é possível fazer objeções a isso, se Deus afligiu não apenas os anjos mas até ao Seu Filho por causa dos pecados? Meus caros, Deus ama ao Seu Filho verdadeiro e dileto acima de tudo e, ainda assim, quando Ele carregou nos ombros todos os pecados e manifestou o desejo de satisfazer a ofensa deles, Deus o esmagou e, como apregoava o profeta Isaías, consumiu-o “com sofrimentos” (Is 53, 10). Deus O destinou para aflições e torturas que nunca nenhum ser humano provara nesta terra. Grande e implacável se mostrou o ódio de Deus contra o pecado, quando o Filho provou em Si a vingança severíssima dos crimes alheios! Mas “se isto se faz no lenho verde, que se fará no seco?” (Lc 23, 31). Nosso Senhor foi adornado com as primícias da salvação e iluminado com toda a graça e beleza espiritual. Se a raiva de Deus, incitada por crimes alheios, O vergastou com a chama da Paixão, de modo a reduzi-l’O ao “último dos homens, um homem de dores” (Is 53, 3), que se fará com a madeira seca, i. e., com os seres humanos desprovidos do orvalho da graça e da virtude? Ao que irá reduzi-los a fornalha do inferno, inflamada por tantos crimes, ultrajes e transgressões? Porque as coisas são assim, meus caros, não devemos sequer pensar em duvidar de que os castigos do inferno são insuportáveis e inenarráveis.

Entretanto, parece que escuto uma voz se levantar e objetar-me: “Já alguém retornou do inferno e confirmou que tais coisas são verdade?”. Ah, pergunta tola! Tanto mais temível é esse calabouço, justamente porque ninguém jamais conseguiu sair de lá! Se alguém retornasse do inferno, todos depositariam esperança em tal retorno. Como de lá nunca ninguém voltou, isso só prova que o inferno é um poço profundíssimo, donde não há saída possível.

Este bom-senso, se não tivéssemos outras fontes, aprenderíamos até nas fábulas. Por certo, narra a fábula que a raposa viu muitas criaturas entrando no covil do leão, mas nenhuma delas saindo de lá. Não se perguntou a raposa: “Ninguém vem para fora anunciar os riscos que existem no covil do leão; logo, não haverá nenhum risco.” A fábula, dizia eu, não nos conta que ela tenha dito isso, mas antes, ao contrário, conta-nos que a raposa se atemorizou ainda mais de aproximar-se do covil do leão pelo só motivo de que vira muitos entrarem e nenhum sair. Precisamos de mais confirmações? O poder divino já restaurou a vida a muitos mortos, que com palavras e atos nos referiram a magnitude das penas do inferno e, demais a mais, afiançaram de que elas excedem em muito qualquer coisa imaginável. São Gregório Magno, São João Clímaco e vários outros santos e doutores documentaram tais casos.

Deixai-me agora retornar ao ponto crucial do meu sermão. Em todo pecado existem duas malícias: uma é voltar as costas ao Sumo Bem Incriado, e a outra é voltar-se ao miserável bem criado [se comparado ao primeiro]. Semelhantemente, existem duas tristezas na pena correspondente à falta: a primeira se origina da perda da beatitude eterna, e a segunda das torturas e tormentos que assolarão igualmente a alma e o corpo. Chamam os teólogos a essas duas torturas de pena do dano e pena dos sentidos.

Falemos em primeiro lugar da perda da felicidade, que é das penas a mais rigorosa. Caríssimos, não é possível existir nenhuma punição inventada ou até imaginada tão monstruosa que não seja superada pela perda do Sumo Bem. O calor do fogo infligido ao corpo provoca dores insuportáveis, mas só lesiona a boa constituição e o temperamento do corpo, que no todo é um bem mediano e modesto. Quão brutal, então, será a tortura que há de afastar e separar [as almas] de Deus, cuja simples face é um bem tão incomensurável que santifica e contenta qualquer pessoa num instante! Entre os romanos [considerava-se] que dentre todas as punições a pior era de longe o exílio – i. e., quando obrigavam o cidadão, por causa de grandes crimes, a deixar a cidade, sendo assim despojado da convivência dos seus compatrícios, e a viver entre os bárbaros em ilhas ainda meio selvagens. Por isso afirmava Cícero, quando o exilaram, que havia ingressado como que num mundo novo; chegou ele a espantar-se e, por assim dizer, a confundir Céus e terra: “Contemplai a beleza da Itália!, exclamava ele, contemplai a celebridade de suas cidades e a delícia de seus territórios! Contemplai os prados, os frutos e a beleza de Roma! Contemplai a benevolência dos cidadãos e a dignidade e a majestade da República!” Que pesar imenso sentirá então quem for privado dos palácios do Paraíso, da Comunhão dos Santos, das regiões venturosas onde reinam a paz, o amor, a alegria e a tranqüilidade, e ressoa o hino de louvor e o júbilo, e se entoa o aleluia eterno e, acima de tudo, onde mora a Luz Puríssima, cuja face santifica e contenta quem a contempla! Que pesar imenso sentirá então quem for compelido a habitar para todo o sempre em calabouços infectos e em sentinas repletas de toda a imundície, “onde habita a sombra da morte, onde não há nenhuma ordem, mas um sempiterno horror” (Jó 10, 22), onde só se ouvirá a voz dos lamuriantes e blasfemadores, onde só se escutará o clangor dos malhos e o estalo dos açoites, na companhia da hoste dos demônios, monstruosos e bárbaros, e da escória dos pecadores!

Mas bem sei o que dirão os amantes desta vida presente: “Já não nos falta, nesta vida presente, tudo quanto mencionaste? Quem de nós reside em palácios celestiais? Quem de nós contempla luz puríssima? Mas nos entristece ou atormenta a falta disso? Pelo contrário: se nos fosse permitido sempre residir neste corpo e gozar dos bens da vida presente, pensaríamos ainda de leve nos bens do Paraíso?”

Caríssimos irmãos, esta é uma ilusão costumeira dos ignorantes, os quais não concebem que, após a morte, estimaremos as coisas que agora possuímos com outros olhos e outras idéias. São João Crisóstomo expressou essa mudança com estas belas palavras: “Quem arde no inferno perde para sempre o Reino dos Céus, e a perda do Reino é certamente uma pena maior que o tormento das chamas. Ora, sei que muitos temem o inferno, e sei também que a perda da glória celestial é uma punição muito mais amarga que o próprio inferno. Não é de espantar que eu não consiga descrever tais punições neste sermão, pois, assim como desconhecemos a bem-aventurança das recompensas divinas, naturalmente ignoramos de todo quais os efeitos de sua perda. Não obstante, certificar-nos-emos da magnitude desta perda, quando a experiência começar a nos instruir. Só então abriremos os olhos e retiraremos o véu; só então que os ímpios conhecerão – para a sua profunda aflição – qual é a diferença entre o Sumo e Eterno Bem e os bens frágeis e perecíveis deste mundo mortal”.

Para fins de ilustração deste tópico, tenham a bondade de aceitar a seguinte comparação, que foi a melhor que conseguimos. Existia certa vez um rei poderosíssimo, que não tinha filhos que o sucedessem na administração do reino. Um dia ele ouviu falar dum menino airoso e agradável de aparência, mas de origem humilde e meios parcos. Ordenou o rei que lhe trouxessem o menino, cuja instrução a partir daí foi confiada a tutores. Estipulou o rei que, se o menino quando chegasse à maturidade fosse educado, sábio, ajuizado e adornado de bons modos e de todas as virtudes, sendo assim pessoa conveniente para assumir a direção do estado, ele haveria de ser proclamado rei e soberano legítimo, instalado no trono real com cetro e diadema, e incumbido do governo de todo o reino; mas, ao contrário, se se transformasse num homem cruel, seria atado em correntes e condenado às galés, com toda a ignomínia e a desgraça da penalidade. Os ministros reais deram cumprimento imediato às ordens do rei: convocaram o menino e o confiaram aos tutores, que usaram de muita diligência ao educá-lo nas letras e costumes. Contudo, o menino deixou-se levar pelos outros meninos, sem notar os benefícios de que gozava. Mal o professor punha os pés fora da casa, o menino escondia o livro no canto mais escuro do quarto e vagabundeava o dia inteiro, construindo casinhas de cacos de vaso e brincando de piques. Já perto do pôr do sol o professor retornou e lhe fez uma sabatina das lições, mas o menino sequer se recordava onde pusera o livro. Irado o professor sovou o menino e apisoou as casinhas de caco; disse enfim ao pupilo: “Oh, se soubesses o que desperdiças com essas tuas criancices! Talvez aprendas mais tarde, mas só quando tal conhecimento já te não servir de nada.” Ora o menino, como menino que era, chorou com o castigo e a repreensão do professor, mas lamentou ainda mais as casinhas quebradas. Nem as palavras do professor, nem a vontade e o testamento do rei lhe pesaram no espírito. Decerto, no dia seguinte ele esqueceria a surra e a admoestação recebidas, e novamente construiria casinhas de cacos e voltaria aos jogos infantis. Quando o menino crescesse, os testamenteiros do rei se deparariam com uma pessoa rude e ignorante, e de modo geral incapacitada para governar o reino. Leriam para ele o testamento do rei, e então o poriam a ferros e o enviariam às galés na pior das degradações. Ora que pensais que mais lhe penalizou com lágrimas e amargura: a labuta das galés ou a perda do reino? Talvez escuteis de mim que ele lamentou amargamente a condenação às galés, porque não sou capaz de conceber um estado de vida mais desgraçado nesta terra. Certamente, a única esperança de quem foi sentenciado às galés é fartar-se de açoites. No entanto, tenho plena certeza de que o seu coração se angustiou e afligiu muito mais quando o despojaram da honra de governar o maior e mais suntuoso dos reinos, pois existe alguma coisa mais miserável e desgraçada para se dizer ou pensar do que a notícia de alguém que perdeu o mais esplêndido e nobre dos reinos, por causa de ninharias infantis?

Caríssimos irmãos, para quem de nós não se aplica essa parábola? Enquanto vivemos na terra, somos crianças. Não conhecemos nada de elevado, nem contemplamos nada de sublime. Estamos todos ocupados com assuntos burlescos e ninharias infantis. Quão ansiosos somos em amontoar casas de lama! Em que diferem elas das casas de cacos dos meninos, salvo serem algo maiores em tamanho? Assim é o entusiasmo dos mercadores, as ambições dos governadores e dos cortesãos, as obras dos arquitetos, as contendas dos reis e dos príncipes por cidades, províncias e reinos; assim também os processos judiciais dos cidadãos em torno de posses, limites e cursos d’água. Isso mesmo: são tudo ninharias! São ninharias só um pouquinho maiores que as das crianças, e por essa razão, escreve Santo Agostinho, são chamadas de negócios3. Apesar de tudo quanto mencionei serem ninharias, se comparadas aos negócios da vida futura, não por isso elas ainda ocupam a maioria esmagadora das pessoas, de forma que não consigam dedicar um pensamento sequer aos negócios do reino celeste, que é único negócio sério e verdadeiro [desta vida]. E tudo acontece sob a vigilância do Professor Celeste, que se encarregou de nossa instrução; talvez ele nos encontre merecedores de tomar posse do Reino dos Céus. Ele lamenta continuamente nossa inconstância e deplora: “Até quando amareis (à maneira de) crianças, a infância? (Até quando é que) os insensatos cobiçarão as coisas que lhe são nocivas?” (Pr 1, 22). “Por que amais a vaidade e buscais a mentira?” (Sl 4, 3). Então, com Seu pé Ele destrói nossas casinhas de cacos.

Deus confunde amiúde os nossos desejos. O mercador espera o navio cargueiro abarrotado de mercadorias do Oriente, e eis que escuta a notícia de que a embarcação naufragou e a mercadoria submergiu no oceano! Já outros depositam toda a esperança no filho e confiam que em breve ele há de se tornar doutor em teologia, canonista, até Papa! Constroem sobre ele as torres altaneiras de seus planos, mas eis que chega a notícia de que uma leve febre acometeu o filho, e que depois de alguns dias o filho chegou ao termo da vida! Outro homem é convidado a um casamento, a um elegante repasto, a uma ilustre recepção. Ele está pronto para ir, mas eis que fica indisposto e, para que se consume a cura, deve abster-se de vinho e comida!

Quem é esse, pergunto-vos, quem é esse que faz isso conosco? Quem é esse que frustra os pensamentos e conselhos dos homens? Caríssimos irmãos, quem faz tais coisas é o nosso Professor, e as faz não porque nos odeie, mas porque nos ama com ternura! Porquanto é Seu desejo limpar os obstáculos que nos impedem de avançar no caminho do Paraíso que Ele nos preparou. Deveras, quais crianças tolas, suportamos contrariados a destruição das nossas casinhas de cacos, a perda dos bens da terra e outros castigos do Senhor. E eis que de novo amontamos nossos caquinhos, mas não dedicamos nenhum pensamento ao Reino dos Céus, que está nos chamando quando nos flagela.

Mas virá o tempo, acreditai-me, virá o tempo em que teremos de passar pelos portões da morte para o outro mundo, mundo onde reconheceremos num instante que já somos homens adultos; neste novo lugar não é possível encontrar crianças. A passagem desta para a outra vida, pelo simples fato de ser passagem, já nos torna a todos nós homens crescidos! Ouviremos então a seguinte declaração: “O Reino dos Céus e as suas lindas moradas estavam sendo preparadas para ti. Se ao menos tivesses dado ouvidos à verdadeira sabedoria! Mas porque preferiste às tolices infantis, e desprezaste a voz e as admoestações de teu professor, serás lançado com ignomínia e vergonha nas trevas exteriores, onde ‘haverá choro e ranger de dentes’ [Mt 25, 30]”, e outras torturas e punições eternas.

Caríssimos irmãos, que diremos então? Que pensaremos dessas casinhas de cacos, dessas honrarias ridículas, desses negócios infantis, quando percebermos com a clareza dos raios do sol que por causa de sombras e sonhos fomos persuadidos a abrir mão de bens duma bondade inexplicável, bens realmente duráveis e imperecíveis? Oh, com que pesar o espírito do homem pecador irá lamentar: “De que nos aproveitou a soberba? De que nos serviu a vã ostentação das riquezas? [Sb 5, 8]. De que nos aproveitou correr terras e oceanos, a fim de juntar riquezas? De que nos aproveitou esgotar-nos de tanto trabalhar, a fim de sustentar nosso fausto no palácio dos príncipes? De que nos aproveitou empregar todas as finezas da arte para cortejar as honrarias, i. e., para cortejar terra e cinzas, a fim de alcançar as honrarias por nós mesmos? De que nos aproveitou atormentar a cabeça e gastar noites a fio em estudos, a fim de compreender os autores mais obscuros e deles captar algum raio de luz? Portanto, vede que tudo passa como sombra, ao passo que ignoramos a verdadeira honraria, a verdadeira riqueza, o verdadeiro prazer, a verdadeira sabedoria da verdade e o Eterno e Soberano Bem. E uma vez perdidas, já não há esperança de recuperá-las!” Caríssimos, há de ser tão grande o pesar de espírito que, apesar de todos os condenados saberem perfeitamente que os portões da beatitude eterna estão encerrados para eles e um imenso precipício se cavou entre eles e a morada dos bem-aventurados, a força do desejo natural os compelirá a implorar: “Senhor, Senhor, abre-nos” (Mt 25, 11).

Por isso, o sapientíssimo doutor São João Crisóstomo afirma: “Certamente o inferno é algo de intolerável. Quem desconhece que a pena do inferno também é horrível?” Ora, ainda que alguém postulasse a existência de milhares de infernos, não seria capaz de dizer nada que transmitisse com exatidão o que é ser excluído das honras da glória bem-aventurada do Paraíso, o que é ser odiado por Cristo e o que é ouvir Dele estas palavras: “Nunca vos conheci” (Mt 7, 23), sendo assim condenado porque negara comida e bebida a quem tinha fome e sede. Melhor seria agüentar a descarga de milhares de raios, do que ver aquele rosto cheio de gentileza e piedade desviar-se de nós, e aqueles olhos cheios de tranqüilidade incapazes de suportar a visão de nossa presença. A perda do Soberano Bem acarreta [também] a perda de todas as coisas boas. Que isso significa? Apenas que os olhos dos condenados nunca mais apreciarão belas paisagens, nem os ouvidos escutarão cantos suaves, nem o paladar provará sabores aprazíveis, nem o tato sentirá objetos macios. Uma vez excluído do consórcio com Deus, o homem ficará de uma vez para sempre mergulhado num oceano de sofrimentos e calamidades, sem esperanças de fuga.

Deixai-me terminar neste ponto o que tenho para contar sobre o Soberano Bem e prosseguir agora discorrendo sobre aquela tortura que os teólogos denominaram pena dos sentidos. Denominaram-na assim porque ela deve incidir sobre os sentidos e as forças, exteriores e interiores, no corpo e na alma. Comecemos com a tortura dos sentidos interiores.

Existem quatro faculdades espirituais, pertinentes ao assunto de que tratamos, que no inferno padecerão tormentos espantosos. A primeira dessas faculdades, os gregos a chamavam de “fantasia”, mas nós a chamamos de “pensamento”; a segunda é a memória; a terceira, a inteligência; e a quarta, a vontade.

A faculdade do pensamento padecerá de certos tormentos gravíssimos e opressivos, que o corpo e o espírito terão de aturar. Se, pois, nesta vida uma dor intensa pode subjugar e reprimir o pensamento dum homem a ponto de ele não conseguir parar de pensar nela, embora o queira com ardor, o que as penas do inferno – em comparação, muito maiores – farão às almas? Assim, o pensamento aguçará as dores, e as dores excitarão o pensamento; e ambos se estimularão mutuamente, de modo que as almas ou os corpos dos condenados não repousarão jamais. Essas dores serão objeto de perpétua contemplação de quem poderia ter meditado frutuosamente nestas coisas, mas se recusou a pô-las em prática, ou de quem despreza nesta terra utilizar seus pensamentos mais profícuos como rédeas contra a luxúria. Na vida futura, tais pensamentos serão os cruéis verdugos a atormentá-lo.

Também a memória será uma pesada cruz para as almas condenadas, quando ela lhes patentear a felicidade dos velhos tempos e os prazeres passados, pelo bem dos quais vieram a se abismar naqueles tormentos. Só aí conhecerão o verdadeiro sabor do sal generoso e da pimenta picante que se esparziam nos banquetes, que outrora lhes eram tão aprazíveis. Mas muito maior sofrimento haverá quando elas compararem a brevidade dos prazeres passados com a eternidade das tristezas presentes; quem poderia topar com um matemático tão erudito que fosse capaz de nos calcular a extensão do abismo que separa o tempo e a eternidade? Por isso, quantos brados não irão lançar? Quantos suspiros não irão arrancar do imo peito quando, ao meditarem com cuidado, descobrirem que os prazeres, que mal duram um instante, passaram qual sombra ou sonho, enquanto a tristeza não terá fim nem termo!

A inteligência, porque é a faculdade mais eminente e perspicaz, padecerá uma cruz mais intolerável, pois nesta faculdade habitará o verme com que a Sagrada Escritura ameaça tão amiúde os pecadores: “O seu bicho não morrerá, e o seu fogo não se extinguirá” (Is 66, 24). Assim como o verme brota da madeira e rói o mesmo pau donde foi gerado, assim o verme nasce do pecado e trava com o pecado uma guerra eterna. Este verme nada mais é que a penitência perpétua, cheia de cólera e desespero, cheia da dor que se origina dos pecados e crava as unhas nas almas dos condenados, tão logo percebam que perderam o Reino dos Céus e atraíram para si torturas indescritíveis por causa de seus pecados. Lemos no livro do Gênese que certa vez os egípcios gozaram sete anos de tanta fertilidade e abundância que abarrotaram os silos onde armazenavam os grãos. A estes sete anos se seguiram outros sete de tanta esterilidade e penúria que os egípcios foram obrigados a trocar dinheiro, campos, gado e até a si mesmos por grãos. Quem poderia descrever o profundo arrependimento que sentiram nesta época, ao se darem conta da negligência em armazenar os grãos no tempo em que o frumento transbordava dos celeiros? Quem poderia descrever sua aflição, porque não acumularam para o tempo da futura penúria, quando o diligente armazenamento de grãos não apenas os livraria da pobreza e da fome, mas também torná-los-ia muitíssimo mais ricos.

Caríssimos irmãos, o verme dos condenados é de tal natureza, que não descansa nem de dia nem de noite, pois rói, mastiga, devora e se alimenta das entranhas dos desgraçados pela eternidade afora. E os desgraçados tampouco esquecem a oportunidade esplêndida, que tiveram cá nesta terra, de evitar essas penalidades a um custo baixo, e de assegurar o Reino dos Céus por um preço módico. Nessas circunstâncias, injuriar-se-ão uns aos outros para sempre, e dirão: “Ai de nós! O Reino dos Céus se ofereceu a nós, e se ofereceu grátis. Mais ainda, quase que implorou para que o recebêssemos, mas recusamos. Se nós nos tivéssemos arrependido dos pecados e confessado, tudo haveria de ser perdoado! Por acaso, eram suplícios colossais a penitência e a confissão? Se implorássemos misericórdia, ser-nos-ia dada quase de imediato! Se implorássemos pela bondade divina, ei-la ali a nosso dispor! Ora, se oferecêssemos um copo de água fria em honra de Deus, lograríamos encontrar a vida eterna! Mas agora vamos jejuar para sempre, vamos ser afligidos para sempre – e não haverá frutos disso. Oh, precioso tempo, que já passaste e nunca retornará, eternamente! Que nos oferece o mundo para que ousemos provocar a terrível cólera de Deus? Sim, se nos oferecessem todos os reinos e impérios do mundo, e se nos afiançassem que deles gozaríamos por milhares de anos, que seria isso tudo, comparado à menor destas penas eternas? Mas o mundo não nos oferece reinos, nem impérios, nem duração certa, mas a mera sombra dum prazer miserando. E é por isso que nos obrigamos a suportar o fardo das torturas eternas? Oh, por que somos tão tolos e tão cegos? Quem nos roubou o entendimento? Quem nos cerrou os olhos e entupiu os ouvidos? Quem nos traz tão enfeitiçados, que não refletimos sobre essas torturas, nem dedicamos um pensamento a esse novíssimo? Quem nos traz tão enfeitiçados, que nunca nos precavemos contra tal pobreza, nem atentamos naqueles que nos deram bom conselho?” Se a faculdade da inteligência há de sofrer tudo isso, que diremos da vontade, que é a causa principal dos pecados?

A vontade sofrerá a tortura duma inveja furiosa, que afrontará a glória e a honra de todos os santos e do próprio Deus; pois, como canta o salmista: “Ve-lo-á o pecador, e se indignará; rangerá os dentes, e se consumirá” (Sl 111, 10). Os danados também não possuirão aquilo que desejam, pois “o desejo dos pecadores perecerá” (Sl 111, 10). Daí levantar-se-á na vontade dos pecadores um ódio implacável contra Deus, e do ódio por sua vez originar-se-ão maldições horrendas e blasfêmias inauditas, que nunca hão de sair de seus lábios e bocas; não terão eles a menor esperança de salvação redentora, mas saberão com toda a certeza que nunca voltarão às graças de Deus, e que as torturas nunca hão de findar ou mitigar-se; compreenderão que é Deus quem os mantém atados em cadeias, por assim dizer, às penas eternas, e que é Ele quem – desde o alto – ateia sobre eles o fogo, e que é Ele quem atiça as fornalhas do inferno com seu hálito poderoso. Os réprobos ficarão encolerizados como cães raivosos, latindo blasfêmias e injúrias sem cessar; amaldiçoarão a Deus porque os criou e os condenou à morte; amaldiçoarão a Deus porque Ele os matará para sempre, não consentindo em que morram; amaldiçoarão Seu poder porque os tortura imensamente; amaldiçoarão Sua sabedoria porque nenhuma infração escapa dela; amaldiçoarão Sua bondade, porque se transformou para eles em ferocidade e condenação; amaldiçoarão Sua Cruz e o Sangue derramado sobre eles, porque os beneficiou muitíssimo; amaldiçoarão a Rainha dos Céus, porque ela foi para muitos pecadores a Porta da Vida e da Misericórdia, mas para eles se converteu agora em cruel madrasta. Enfim, amaldiçoarão todos os santos, porque em meio aos tormentos observá-los-ão regozijando e exultando em triunfo. Essas maldições serão a eterna sinfonia de seus ouvidos, suas matinas e vésperas, os salmos e cânticos entoados no templo tenebroso dos demônios, onde o incenso será de enxofre, e os círios poços donde sobem fumo e fogo e, em vez das harpas e órgãos, rangido de correntes e rumor de malhos e chibatas.

Verdadeiramente, se a simples menção de coisas tão horrendas incute terror e impõe respeito, que será então aturar realmente, naquele lugar de eternidade, as coisas que se escutaram e disseram?  Que devemos fazer para que não sejamos compelidos a participar dessas solenidades tenebrosas?

Recorda o profeta Jeremias que o Senhor lhe mostrou dois cestos cheios de figos. Um deles continha figos bons, muito bons mesmo; o outro continha figos ruins, muito ruins mesmo, que não se poderiam de jeito nenhum comer. A não ser que eu esteja enganado, o profeta nos está ensinando que os dois tipos de figo são figura dos dois tipos de pessoas que haverá após esta vida. Por isso, todos chegaremos àquele estado que é bom, muito bom mesmo – ou que é ruim, muito ruim mesmo. Não há estado intermédio entre o estado dos bem-aventurados – que é bom, muito bom mesmo – e o dos condenados – que é ruim, muito ruim mesmo, porquanto o fogo do Purgatório, que alguns consideram um estado intermédio, arde até um tempo certo e definido, do que se depreende que todas as almas que agora estão lá ou que lá estarão [no futuro] serão partícipes da glória e felicidade eterna, alcançando aquele estado que é bom, muito bom mesmo. E com a ajuda de Deus lhes apresentaremos no próximo sermão o quão bom, muito bom mesmo, será o estado dos bem-aventurados; por sua vez, o estado dos condenados, que é ruim, muito ruim mesmo, ficará claro com o que já dissemos e ainda resta por dizer.

Assim manifestamos, com toda a nossa habilidade, que a tristeza decorrente da perda do bem supremo e que atormenta as faculdades da alma interior, é fortíssima e indescritível. Demonstraremos agora que as penas e torturas infernais que incidirão nos sentidos externos dos condenados são as mais atrozes de todas.

A recompensa dos bem-aventurados não é um bem particular em especial, separado e distinto doutros bens, mas um bem generalizado e comum, que contém em si todos os bens, prazeres e delícias. Assim a define Boécio: “Estado de perfeição, que consiste em possuir todos os bens.” De modo análogo, a pena dos condenados não é um pesar específico, que afetasse a cabeça ou os rins, os dentes ou os olhos, mas um mal generalizado que dissemina todos os sofrimentos pelos membros, articulações e sentidos do corpo. Nesta terra nunca provamos do sofrimento generalizado dos condenados, bem como nunca provamos o bem generalizado dos bem-aventurados, porque uma pessoa com dor nos olhos não sofre desta feita dos dentes, nem com dor de dentes sofre por isso dos olhos; esse padrão se aplica a todas as demais dores corporais. Porém, no inferno a dor atrocíssima há de ser uma só e simultânea, e acometerá rins e peito, e cada articulação, centro nervoso, medula, sentido e faculdade do corpo. Assim como o pecador usou os membros para ofender a Deus, assim não haverá parte, ou antes, não haverá a menor parte sua que não tenha torturador e algoz específico. Pergunto-vos: Que sentiria aquele de nós que, durante apenas um dia, fosse submetido à tortura geral dessa pena? Qual seria para ele a duração desse dia? Não lhe pareceria que cada momento dura mais que vários meses, e que cada hora, mais que vários anos? Sem dúvida, caríssimos, se víssemos na rua um cão sofrendo essa dor generalizada, não duvido de que ficaríamos comovidíssimos. Se for possível dalgum modo descrevê-las, eis aí a pena e eis a dor com que serão torturados os seres humanos condenados ao inferno, não apenas por um só dia, mas pelos séculos dos séculos. Mas procedamos a partir daqui a uma investigação mais atenta e diligente das várias espécies de penalidades.

Os olhos, porque observam todas as coisas, com muita justiça se oferecem como os primeiros à nossa consideração. Estes nossos olhos, aqui e agora, não os sacia o prazer: eles fitam avidamente as belas formas; quais depositários de curiosidades, voam ligeiros para assistir a espetáculos mesquinhos e ridículos; quais mulherengos impuros, levam amiúde imagens vulgares para a alcova do coração. A única coisa que não conseguem fitar é o infortúnio catastrófico dos pobres e miseráveis. Qual a cruz que há de torturar os olhos no inferno? Decerto, a primeira coisa que lhes aparecerá são as formas horrendas dos demônios: olhar um demônio é experiência tão horrível que dizem que algumas pessoas perderam a sanidade e outras a vida. Comentando o Salmo IX, conta São Bernardo de um de seus monges a quem certa noite lhe visitou uma figura pavorosa. Durante todo o dia seguinte, esse monge quase perdeu o tino por causa da visita, imaginando-se sempre em perigo. Até que, numa hora em que calhou de todos os monges estarem dormindo, ele deu um tal grito que os acordou a todos e os encheu de pavor. Cassiano, nas Colações, também relata que entre os antigos anacoretas [ermitões] às vezes assomava um temor tão forte do demônio – o qual fazia questão de lhes aparecer, mas sempre com formas horríveis – que ninguém tinha coragem de ficar só; tampouco os que compartilhavam celas ousavam dormir ao mesmo tempo: enquanto uns dormiam, outros faziam vigília, entoando salmos e hinos sem parar. Se neste mundo nosso os demônios podem reivindicar para si um poder tão grande sobre nós, e se aqui os tememos imensamente, que farão, pergunto-vos, que farão quando estiverem em seu próprio território, onde não precisam temer exorcismos, água benta, nem os méritos e as orações dos santos? Se eles vagueiam por aqui, donde são expelidos com tanta violência, que hão de fazer no país onde governam e dominam? Imaginem um homem andando pelo cemitério; se a mera suspeição da presença dos demônios o assaltasse, talvez fosse o suficiente para que ficasse de cabelos em pé e a voz se afogasse na garganta. Qual não será a confusão dos pecadores, quando naquele comum “Cemitério dos Condenados” encontrarem face a face com a multidão dos monstros, fantasmas e quimeras!

Além disso, que cruz os olhos dos condenados sofrerão, quando virem as suas esposas, pais e filhos nos mesmos tormentos! Hegesipo nos legou um relato da destruição de Jerusalém: Alexandre, filho de Hircano e capitão dos hebreus, quando quis infligir a algumas pessoas uma penalidade atrocíssima, ordenou a crucificação simultânea de oitenta prisioneiros na praça da cidade. Enquanto estivessem vivos, as esposas e filhos de cada um seriam cruelmente vergastados diante de seus olhos. Deste modo, os desgraçados padeceriam não uma mas muitas mortes. No inferno também não há de faltar essa punição: com imenso pesar, ali os filhos verão os seus pais e os pais verão os seus filhos, os maridos as suas esposas e as esposas os seus maridos; além disso, todos os que tiverem sido causa dos pecados de outrem, suportarão na companhia deles as torturas infernais!

Caríssimos irmãos, sei que nesta notável universidade [i. e., Lovaina, na Bélgica, onde se proferiu o sermão] a maioria dos moços – moços de fato modestos, pacatos, estudiosos e religiosos – está sendo cultivada e instruída. Estou ciente desse fato, em parte pelo que ouvi doutras pessoas, em parte pelo que observei em pessoa. Eu me regozijo imensamente com isso, e assim dou graças ao Senhor de todos nós. Mas o meu coração ficou muitíssimo contristado ao ouvir que, entre tantos moços direitos, existem corruptores e corrompidos, que circulam entre vós e assediam os simples de coração, seduzindo-os a freqüentar as bebedeiras, os bailes e outros estímulos à luxúria. Ai de vós, homens impuros, imitadores do diabo e flagelos da juventude! Ousais então invejar e roubar a dignidade dum bem tão excelente? Que hão de fazer quando, em meio à combustão das labaredas abrasadoras, virem-se na companhia daqueles a quem enganaram? Oh, quantas vezes não ireis repetir: “Morra o dia em que te vi pela primeira vez, morra o dia em que me empenhei em te manipular e enganar! Quando te jogava no vício da bebedeira e noutros crimes e escândalos, estava eu me jogando nestes tormentos!” Por sua vez, objetará o outro: “Morra o dia em que pela primeira vez te trouxe à minha companhia, ladrão e carrasco de minha alma; morra o dia em que pela primeira vez dei ouvidos aos teus discursos envenenados!” Eis o dueto e a sinfonia desses amaldiçoados, e tal sinfonia agora nos admoesta para que passemos dos olhos aos ouvidos.

Os ouvidos que outrora se deleitaram em canções licenciosas, regozijaram ao escutar infâmias e detrações contra vizinhos, ouviram indolentemente por horas a fio os mascates na praça pública, ao passo que se agastavam com um sermão de apenas uma hora na igreja – esses ouvidos, no inferno, só escutarão gemidos, urros, choros, contumélias, blasfêmias e maldições; pois, se no Reino dos Bem-Aventurados há de se entoar para sempre louvores divinos e aleluias melífluos, já no calabouço dos condenados há de ressoar para sempre gritos e blasfêmias; alguns desses hinos serão cantados no tom dos malhos e açoites.

Lembro-me de ter lido no livro Vida de Sula, de Plutarco, a seguinte história: certo dia esse cruel ditador ordenou se juntassem seis mil homens num pequeno círculo. Ao mesmo tempo, ordenou que o Senado deveria reunir-se num templo não muito distante dali. Daí então instruiu os soldados que, enquanto estivesse discursando, massacrassem os seis mil homens o mais rápido possível. Assim, quando Sula começou o discurso ao Senado, ouvia-se o estrépito e o fragor contínuo de inúmeras espadas, cujos sons se misturavam aos gritos e gemidos dos massacrados. O ditador advertiu os senadores para que escutassem os procedimentos na câmara, e não fossem curiosos nem prestassem atenção ao que acontecia do lado de fora. Entretanto, como todos os senadores ficassem apavorados e fora de si, mal puderam concentrar-se no discurso. Daqui é possível conjeturar qual “sinfonia” e quais “órgãos e harpas” escutaremos, se nos fosse permitido encostar o ouvido nos portais do inferno, onde não seis mil porém um sem conto de pessoas que choram, gritam e vociferam, serão massacradas, flageladas e golpeadas para sempre.

Que diremos sobre o sentido do olfato? Não existe sentina mais imunda, nem esgoto mais pestífero que se compare ao lago do inferno, onde se há de lançar toda a imundícia do mundo. São Vítor Africano descreve os tormentos que os vândalos arianos infligiram aos santos mártires, e assegura que um dos piores sofrimentos era o fedor da masmorra. A descrição do santo se refere aos Quatro Mil Novecentos e Noventa e Seis Mártires que juntos foram torturados no mesmo calabouço; ele relata que os vândalos jogaram literalmente os confessores de Cristo uns sobre os outros no recinto estreito do cárcere, como uma fieira de caranguejos ou, para falarmos com mais propriedade, como preciosos grãos de milho. Naquele amontoamento não havia lugar retirado para que alguém atendesse às necessidades da natureza. Premidos pela necessidade, deixavam as fezes e a urina num só canto, de forma que o fedor e o nojo superou todo o sortimento das punições. Os vândalos, por sua vez, sofreram severa punição na mão dos mouros, que eclipsaram aquela raça: os mouros conduziram publicamente ao mesmo calabouço os vândalos que, mal entrando lá, atolaram-se até os joelhos numa verdadeira voragem de lama. Assim os vândalos provaram na carne o cumprimento da profecia de Jeremias: “Os que se nutriam ente púrpuras, abraçaram o esterco” (Lm 4.5).

Meus caros, comparai a pena dos mártires com as torturas dos condenados. Havia poucas pessoas nas masmorras onde prenderam os confessores de Cristo; já nas masmorras do inferno haverá muitíssimas pessoas. Naquela, apenas a imundície humana exalava fedor; nesta, reunir-se-á em montão a imundície, o excremento, a carniça, a impureza e o fartum do mundo inteiro. Então, se o fedor do calabouço terrestre superou toda casta de punições, quem haverá de suportar o fedor do inferno, incomparavelmente mais impetuoso e horrendo? Quem consegue ler sem horror sobre aquela nova variedade de tormento que, seja verdade ou ficção, descreve o poeta latino ao cantar:

Vivos ligava a mortos, contrapondo

 Mãos a mãos (que tormento!) e boca a boca,

 E em triste abraço e pútrida sangueira

 Nesta agonia longa os acabava.

Virgílio, Eneida.

Livro 8, linhas 485-488.

(Tradução de Manuel Odorico Mendes).

Que diremos perante esse quadro? Que um homem vivo e saudável será atado ao cadáver frio; que o desgraçado definhará, porque aspirará o abominável odor, a bicharia e o chorume que porejam do corpo; que um homem vivo há de ser assassinado por um homem morto – e quem não se aterraria apenas ao escutar isso, e quanto mais quem o testemunhasse? Mas se tais métodos de punição nos parecem severos e monstruosos – como de fato o são – que dizer do fedor do inferno, que se levantará das pilhas de corpos putrefatos?

Mas se o sentido do olfato sofre tais punições, ficaria imune à pena o sentido do paladar, que de praxe é causa de crimes muito mais numerosos e graves? Meus caros, os beberrões e os glutões impuros não hão de conhecer – e conhecer de fato, pela primeira vez – a que custo adquiriram pratos e licores delicados, cujo preço de compra nesta terra estimavam de pouquíssima monta? Verdadeiramente, o sentido do paladar será torturado com fomes e sedes indescritíveis. Quem hoje não suporta um jejum de dois dias – e acha que a natureza não estará saciada, a não ser que beba ao ponto de se intoxicar e vomitar – há de ser torturado com fome e sede tais, que é impossível conceber ou excogitar pena mais dolorosa. Quem não se comoveria com as palavras do homem rico do Evangelho: “Pai Abraão, compadece-te de mim, e manda Lázaro que molhe em água a ponta do seu dedo, para refrescar a minha língua, pois sou atormentado nesta chama” (Lc 16, 24). Que pobreza maior que essa poder-se-ia imaginar? Que coisa mais insignificante poderia desejar um rico, que outrora “se banqueteava esplendidamente todos os dias” (Lc 16, 19)? Ele, que não se satisfazia nem com vinhos preciosíssimos, não busca sequer um copo d’água, nem implora a Lázaro – o que é mais incrível – que mergulhe a mão inteira n’água: pede tão-somente que Lázaro umedeça a pontinha do dedo em água – e nem isso lhe é concedido! Deram-nos a conhecer essas coisas, para que saibamos que os efeitos da sentença de excomunhão e interdição que o Senhor proferiu contra os condenados são tão universais que ninguém é capaz de levar-lhes o mais leve conselho ou auxílio: para onde quer que os condenados voltem os seus olhos ou estendam as suas mãos, saberão que todos os canais de conselho ou auxílio lhes foram interditos.

Os náufragos em alto-mar amiúde retesam pés e mãos, como estivessem se sufocando e pelejando com a morte; todavia, não deparam nada além de água, o que frustra todo o empenho que intentam para se agarrarem em alguma coisa. Eis o que acontecerá com quem se tenha abismado naquele derradeiro Mar de Misérias, sufocando-se ali para todo o sempre. Implorarão todos os tipos de auxílios, chegarão até a pedir socorro à própria morte, mas em vão, pois lá não existe ninguém que possa dalguma sorte lhes prestar o mínimo socorro.

Caríssimos irmãos, são de fato verdade tais coisas? Donde as aprendemos? Quem no-las contou? Foi Homero? Platão? Virgílio? Quem no-las contou foi a Verdade em Si, a Sabedoria de Deus em pessoa, que não pode mentir! Ainda existe fé no mundo? Ainda usam os homens a razão? Podem formar julgamentos sobre qualquer coisa? Como sobreveio esse torpor nos homens que costumavam acreditar em tais coisas? Somos diligentíssimos em repelir outros males menores; por que motivo então nos não dispomos a encontrar um modo de evitar as torturas infernais?

Entretanto, as penalidades que temos mencionado nem de longe são as piores: existem outras ainda mais gravosas. O parecer da justiça divina exige que o sentido do tato, pelo qual se cometeram tantos crimes, ultrajes, sacrilégios, impurezas e adultérios, sofra torturas ainda mais atrozes que os demais sentidos. O algoz desse sentido será o fogo, um fogo tão poderoso, intenso e eficaz que, comparado a ele, o nosso fogo terrestre parece não ser fogo verdadeiro mas pintado. Não podemos duvidar de que o fogo há de causar imensa aflição e tormento, porque foi Deus quem o destinou para executor de Sua justiça. Meus caros, imaginai um homem lançado vivo numa fornalha ardente, cuja portinhola se fechasse enquanto ficasse ele lá durante uma hora inteira. Se fôssemos contemplar atentamente qual seria a sua dor, não teríamos um entendimento claro, mas a mera impressão, por assim dizer, do que é viver no inferno. Pergunto-vos: quais ombros suportarão as chamas ardentes? Quais peitos se não despedaçarão na eternidade das torturas? Como indagava o profeta Isaías: “Qual de vós poderá habitar em um fogo devorador” (Is 33, 14)?

Precisamos dizer mais alguma coisa? Além dessa punição, acrescentar-se-á outra – e, decerto, não das menores – para que os condenados sejam atormentados não apenas com o calor do fogo, mas também com o frio intolerável! Se nos estearmos nas palavras de São Basílio Magno, nenhuma das torturas se comparará com a dor resultante da amaríssima rispidez do frio.

São Basílio nos deixou a história dos Quarenta Mártires. Queria um tirano crudelíssimo e ferocíssimo supliciar esses mártires com tormentos indescritíveis. Chegou à conclusão de que o melhor tormento seria a morte de inverno, porquanto habitavam numa região fria por natureza. Era tão intenso o frio que lá vigorava que certos lagos congelavam, a ponto de as pessoas andarem por sobre eles com carroças e animais de carga; a torrente dos rios mais caudalosos se petrificava no leito, e de rios que eram se transformavam em estradas pavimentadas de mármore. O tirano escolheu uma noite em que o setentrião soprava com todo o ímpeto, e ordenou que se expusessem os mártires nus ao relento, permitindo que morressem dum tormento prolongado e indescritível.

Esses, caríssimos, serão os jogos dos condenados, e essas as suas partidas, nas quais – como lamenta Jó – serão compelidos do excesso de calor aos chuveiros de neve, e dos chuveiros de neve ao excesso de calor. Não se tratam de invenções nem fábulas dos poetas. Escutai o que diz o Senhor a Jó: “Entraste, porventura, nos depósitos de neve, ou viste os depósitos de saraiva, que eu preparei para usar contra o inimigo, no dia da guerra e da batalha?” (Jó 38, 22,23). Escutai o salmista: “Fará chover sobre os pecadores carvão ardente e enxofre; um vento abrasador será a porção do seu cálice” (Sl 10, 7). E se essa “porção” é amaríssima, que seria então ter de beber o cálice inteiro? Ah, infelizes, quão melhor ser-vos-ia se nunca tivesses nascido! Ah, olhos miseráveis, que serão aterrados com as horrendas formas demoníacas e torturados com fumo espessíssimo, e que sempre estarão abertos para observar as próprias misérias! Ah, ouvidos miseráveis, que escutarão pela eternidade o ruído dos açoites e blasfêmias, e o lamento dos malditos! Ah, nariz desgraçado, que sentirá pela eternidade o fedor dos ambientes infectos e dos corpos putrefatos! Ah, barrigas e bocas miseráveis, que serão atormentadas com fome e inanição perpétuas e sede intolerável! Ah, membros ignóbeis, que habitarão no poço que vomita flamas sulfurosas! Quanto tempo durará: dez anos, vinte anos, cem anos? De jeito nenhum, pois isso ainda seria uma espécie de consolação. Verdadeiramente, há de durar pela eternidade e além – se fosse possível chegar a um além. Eternidade. Ó mundo fugaz, que nos prenuncia uma realidade tão durável!

Caríssimos fiéis, a natureza dessa eternidade é tal, que sem ela nenhuma punição se julgaria severa, e com ela nenhuma se julgaria branda; não obstante, será este o sal que irá condimentar as penas dos condenados, porquanto os anos de torturas serão tão numerosos quanto as estrelas brilhantes do céu, os grãos de areia da praia e as gotas d’água no oceano. E quando se houver esgotado este abismo de eras, será tão-somente o recomeço das dores. A roda irá girar infinitamente. Canta o salmista: “Como (um rebanho de) ovelhas são postos no inferno; a morte os apascenta” (Sl 48, 15). Os cordeiros pastam as folhas das plantas, mas não arrancam as raízes, de modo que as plantas cresçam novamente e por sua vez os tornem a alimentar. Assim será nas pastagens do inferno, onde se acharão os rebanhos dos condenados, o pasto dos tormentos e a Morte, o pastor da manada. A Morte conduzirá os condenados aos pastos, onde pastarão tormentos para sempre; a forragem nunca acabará, nem o cálice do Senhor, que terão de beber, esgotar-se-á. Enquanto o Reino dos Céus existir, as masmorras infernais perdurarão; enquanto os bem-aventurados regozijarem, os condenados padecerão; enfim, enquanto o próprio Deus viver, no inferno os réprobos morrerão. A não ser que Deus deixe de ser o que Ele é, não cessarão eles de ser o que são. Ó vida de morte, ó morte imortal! Que nome afinal te daremos a ti, Morte ou Vida? Se és vida, porque matas? Se morte, porque deves perdurar? Não nos é lícito chamá-la nem morte nem vida, pois que cada um desses estados comporta algum bem: a Vida tem sossego, e a Morte tem um fim – mas tu não terás sossego e nem um fim. Que diríamos que és tu, senão a totalidade do mal contido na vida e na morte? Da morte herdaste o tormento, e da vida a duração. Verdadeiramente, despojou Deus a vida e a morte do bem que nelas havia, e o que sobrou Ele colocou em ti! Ó poção envenenada, ó droga amarga! Todos os pecadores hão de tragar o cálice do Senhor!

Caríssimos irmãos, decerto seria algo excelente se pudéssemos entender um pouquinho que fosse a eternidade das penas, pois essa meditação por si só – qual uma rédea – refrearia toda a nossa luxúria e moderaria as nossas vidas, de forma que todos nos pareceríamos não apenas cristãos, mas monges e anacoretas santíssimos! Pensai na cruz que um homem acometido dalguma moléstia suportasse no decorrer duma única noite.  Quantas vezes não irá revirar-se daqui para acolá? Quão longa não lhe parecerá a noite! Quantas vezes conta as horas, e qual a duração de cada uma, segundo o julgamento dele? Que ansiedade não o acometerá à luz da alvorada! Quantas vezes se indaga quanto já se passou da noite e se o arrebol não tardará a aparecer! Se tal aflição nos parece enorme, qual não será a aflição dos que se deitarão não em leito macio, mas em labaredas ardentes e resplendentes, no decorrer duma noite sem aurora nem esperança de dia? Ó escuridão profundíssima! Ó noite, eterna noite! Ó noite, que a boca de Deus em pessoa amaldiçoou! Ó noite, que não há de ver o arrebol nem o esplendor da alvorada!

Caríssimos irmãos, se o mero pensamento dessa eternidade nos terrifica a nós, que será não [apenas] contemplá-la, mas abismar-se realmente nas penas eternas? O tormento eterno é uma coisa tão horrenda que, se tal pena incidisse apenas num só dos filhos de Adão, todos teríamos motivos para temer e tremer. Por que então não ficamos comovidos, quando sabemos com toda a certeza que o número dos tolos é infinito; quando sabemos que o caminho que nos conduz à vida é estreito e poucos são os que o encontram, e que o caminho da perdição é largo e muito são os que o percorrem [Mt 7, 13]? Se não acreditamos nessas coisas, onde está a nossa fé? Se acreditamos nelas, onde o [nosso] bom senso? Se temos boa cabeça e damos crédito às Escrituras, como é possível que ainda estejamos adormecidos, quando um perigo tão horrendo paira sobre nós? Como é possível que ainda nos agradem a bebedeira e a libertinagem, que ainda nos deleite a vida indolente? Por isso, cobremos ânimo. Sacudamos o torpor em alguma hora, para que assim alcancemos as dádivas da graça aqui nesta terra e depois da morte, na glória do Senhor, que para sempre seja santificado. Amen.

(Traduzido por Permanência a partir da tradução americana. Hell and its torments, TAN Books and Publishers, Inc; Rockford, Illinois, 1990.)

  1. 1. São Roberto Belarmino proferiu este sermão ante uma congregação, cuja maioria esmagadora era de universitários católicos; por isso, não havia necessidade de ressalvar as observações com as óbvias advertências da teologia católica, que aqui estão entre chaves. – N. do Editor do original.
  2. 2. Idem.
  3. 3. Negotium, negócio; de nuga, ninharia – N. do Tradutor do original.

Sermão da Sexagésima

Pregado na Capela Real, no ano de 1655.

 

Semen est verbum Dei. S. Lucas, VIII, 11.

I

E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso auditório saísse hoje tão desenganado da pregação, como vem enganado com o pregador! Ouçamos o Evangelho, e ouçamo-lo todo, que todo é do caso que me levou e trouxe de tão longe.

Ecce exiit qui seminat, seminare. Diz Cristo que «saiu o pregador evangélico a semear» a palavra divina. Bem parece este texto dos livros de Deus. Não só faz menção do semear, mas também faz caso do sair: Exiit, porque no dia da messe hão-nos de medir a semeadura e hão-nos de contar os passos. O Mundo, aos que lavrais com ele, nem vos satisfaz o que dispendeis, nem vos paga o que andais. Deus não é assim. Para quem lavra com Deus até o sair é semear, porque também das passadas colhe fruto. Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair, são os que se contentam com pregar na Pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes de medir a semeadura e hãolhes de contar os passos. Ah Dia do Juízo! Ah pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço; os de lá, com mais passos: Exiit seminare.

Mas daqui mesmo vejo que notais (e me notais) que diz Cristo que o semeador do Evangelho saiu, porém não diz que tornou porque os pregadores evangélicos, os homens que professam pregar e: propagar a Fé, é bem que saiam, mas não é bem que tornem. Aqueles animais de Ezequiel que tiravam pelo carro triunfal da glória de Deus e significavam os pregadores do Evangelho que propriedades tinham? Nec revertebantur, cum ambularent: «Uma vez que iam, não tornavam». As rédeas por que se governavam era o ímpeto do espírito, como diz o mesmo texto: mas esse espírito tinha impulsos para os levar,não tinha regresso para os trazer; porque sair para tornar melhor é não sair. Assim arguis com muita razão, e eu também assim o digo. Mas pergunto: E se esse semeador evangélico, quando saiu, achasse o campo tomado; se se armassem contra ele os espinhos; se se levantassem contra ele as pedras, e se lhe fechassem os caminhos que havia de fazer? Todos estes contrários que digo e todas estas contradições experimentou o semeador do nosso Evangelho. Começou ele a semear (diz Cristo), mas com pouca ventura. «Uma parte do trigo caiu entre espinhos, e afogaram-no os espinhos»: Aliud cecidit inter spinas et simul exortae spinae suffocaverunt illud. Outra parte caiu sobre pedras, e secou-se nas pedras por falta de humidade»: Aliud cecidit super petram, et natum aruit, quia non habebat humorem. «Outra parte caiu no caminho, e pisaram-no os homens e comeram-no as aves»: Aliud cecidit secus viam, et conculcatum est, et volucres coeli comederunt illud. Ora vede como todas as criaturas do Mundo se armaram contra esta sementeira. Todas as criaturas quantas há no Mundo se reduzem a quatro gé neros: criaturas racionais, como os homens; criaturas sensitivas, como os animais; criaturas vegetativas, como as plantas; criaturas insensíveis, como as pedras; e não há mais. Faltou alguma destas que se não armasse contra o semeador? Nenhuma. A natureza insensível o perseguiu nas pedras, a vegetativa nos espinhos, a sensitiva nas aves, a racional nos homens. E notai a desgraça do trigo, que onde só podia esperar razão, ali achou maior agravo. As pedras secaram-no, os espinhos afogaram-no, as aves comeram-no; e os homens? Pisaram-no: Conculcatum est. Ab hominibus (diz a Glossa).

Quando Cristo mandou pregar os Apóstolos pelo Mundo, disse-lhes desta maneira: Euntes in mundum universum, praedicate omni creaturae: «Ide, e pregai a toda a criatura». Como assim, Senhor?! Os animais não são criaturas?! As árvores não são criaturas?! As pedras não são criaturas?! Pois hão os Apóstolos de pregar às pedras?! Hão-de pregar aos troncos?! Hão-de pregar aos animais?! Sim, diz S. Gregório, depois de Santo Agostinho. Porque como os Apóstolos iam pregar a todas as nações do Mundo, muitas delas bárbaras e incultas, haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de criaturas: haviam de achar homens homens, haviam de achar homens brutos, haviam de achar homens troncos, haviam de achar homens pedras. E quando os pregadores evangélicos vão pregar ar a toda a criatura, que se armem contra eles todas as criaturas?! Grande desgraça!

Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior. A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui, e para onde venho. Tudo o que aqui padeceu o trigo, padeceram lá os semeadores. Se bem advertirdes, houve aqui trigo mirrado, trigo afogado, trigo comido e trigo pisado. Trigo mirrado: Natum aruit, quia non habebat humorem; trigo afogado: Exortae spinae suffocaverunt illud; trigo comido: Volucres caeli comederunt illud; trigo pisado: Conculcutum est. Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da missão do Maranhão de doze anos a esta parte. Houve missionários afogados, porque uns se afogaram na boca do grande rio das Amazonas; houve missionários comidos, porque a outros comeram os bárbaros na ilha dos Aroãs; houve missionários mirrados, porque tais tornaram os da jornada dos Tocatins, mirrados da fome e da doença, onde tal houve, que andando vinte e dois dias perdido nas brenhas matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas. Vede se lhe quadra bem o Notum aruit, quia non habebant humorem! E que sobre mirrados, sobre afogados, sobre comidos, ainda se vejam pisados e perseguidos dos homens: Conculcatum est! Não me queixo nem o digo, Senhor, pelos semeadores; só pela seara o digo, só pela seara o sinto. Para os semeadores, isto são glórias: mirrados sim, mas por amor de vós mirrados; afogados sim, mas por amor de vós afogados; comidos sim, mas por amor de vós comidos; pisados e perseguidos sim, mas por amor de vós perseguidos e pisados.

Agora torna a minha pergunta: E que faria neste caso, ou que devia fazer o semeador evangélico, vendo tão mal logrados seus primeiros trabalhos? Deixaria a lavoura? Desistiria da sementeira? Ficar-se-ia ocioso no campo, só porque tinha lá ido? Parece que não. Mas se tornasse muito depressa a buscar alguns instrumentos com que alimpar a terra das pedras e dos espinhos, seria isto desistir? Seria isto tornar atrás? -- Não por certo. No mesmo texto de Ezequiel com que arguistes, temos a prova. Já vimos como dizia o texto, que aqueles animais da carroça de Deus, «quando iam não tornavam»: Nec revertebantur, cum ambularent. Lede agora dois versos mais abaixo, e vereis que diz o mesmo texto que «aqueles animais tornavam, e semelhança de um raio ou corisco»: Ibant et revertebantur in similitudinem fulgoris coruscantis. Pois se os animais iam e tornavam à semelhança de um raio, como diz o texto que quando iam não tornavam? Porque quem vai e volta como um raio, não torna. Ir e voltar como raio, não é tornar, é ir por diante. Assim o fez o semeador do nosso Evangelho. Não o desanimou nem a primeira nem a segunda nem a terceira perda; continuou por diante no semear, e foi com tanta felicidade, que nesta quarta e última parte do trigo se restauraram com vantagem as perdas do demais: nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheu-se, mediu-se, achou-se que por um grão multiplicara cento: Et fecit fructum centuplum.

Oh que grandes esperanças me dá esta sementeira! Oh que grande exemplo me dá este semeador! Dá-me grandes esperanças a sementeira porque, ainda que se perderam os primeiros trabalhos, lograr-seão os últimos. Dá-me grande exemplo o semeador, porque, depois de perder a primeira, a segunda e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto. Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos, já que outra parte a levaram es pedras, já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, porque se perderá também? Porque não dará fruto? Porque não terão também os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Porque não terá também o seu Outono a vida? As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o Mundo. Será bem que o Mundo morra à fome? Será bem que os últimos dias se passem em flores? -- Não será bem, nem Deus quer que seja, nem há-de ser. Eis aqui porque eu dizia ao princípio, que vindes enganados com o pregador. Mas para que possais ir desenganados com o sermão, tratarei nele uma matéria de grande peso e importância. Servirá como de prólogo aos sermões que vos hei-de pregar, e aos mais que ouvirdes esta Quaresma.

 

II

Semen est verbum Dei.

O trigo que semeou o pregador evangélico, diz Cristo que é a palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do Mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum.

Este grande frutificar da palavra de Deus é o em que reparo hoje; e é uma dúvida ou admiração que me traz suspenso e confuso, depois que subo ao púlpito. Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus? Diz Cristo que a palavra de Deus frutifica cento por um, e já eu me contentara com que frutificasse um por cento. Se com cada cem sermões se convertera e emendara um homem, já o Mundo fora santo. Este argumento de fé, fundado na autoridade de Cristo, se aperta ainda mais na experiência, comparando os tempos passados com os presentes. Lede as histórias eclesiásticas, e achá-las-eis todas cheias de admiráveis efeitos da pregação da palavra de Deus. Tantos pecadores convertidos, tanta mudança de vida, tanta reformação de costumes; os grandes desprezando as riquezas e vaidades do Mundo; os reis renunciando os ceptros e as coroas; as mocidades e as gentilezas metendo-se pelos desertos e pelas covas; e hoje? -- Nada disto. Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva, não há um moço que se arrependa, não há um velho que se desengane. Que é isto? Assim como Deus não é hoje menos omnipotente, assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que dantes era. Pois se a palavra de Deus é tão poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, porque não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus? Esta, tão grande e tão importante dúvida, será a matéria do sermão. Quero começar pregandome a mim. A mim será, e também a vós; a mim, para aprender a pregar; a vós, que aprendais a ouvir.

 

III

Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, e necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?

Primeiramente, por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. Do trigo que deitou à terra o semeador, uma parte se logrou e três se perderam. E porque se perderam estas três? -- A primeira perdeu-se, porque a afogaram os espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira, porque a pisaram os homens e a comeram as aves. Isto é o que diz Cristo; mas notai o que não diz. Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por causa do sol ou da chuva. A causa por que ordinariamente se perdem as sementeiras, é pela desigualdade e pela intemperança dos tempos, ou porque falta ou sobeja a chuva, ou porque falta ou sobeja o sol. Pois porque não introduz Cristo na parábola do Evangelho algum trigo que se perdesse por causa do sol ou da chuva? -- Porque o sol e a chuva são as afluências da parte do Céu, e deixar de frutificar a semente da palavra de Deus, nunca é por falta: do Céu, sempre é por culpa nossa. Deixará de frutificar a sementeira, ou pelo embaraço dos espinhos, ou pela dureza das pedras, ou pelos descaminhos dos caminhos; mas por falta das influências do Céu, isso nunca é nem pode ser. Sempre Deus está pronto da sua parte, com o sol para aquentar e com a chuva para regar; com o sol para alumiar e com a chuva para amolecer, se os nossos corações quiserem: Qui solem suum oriri facit super bonos et malos, et pluit super justos et injustos. Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus; aos maus que se quiserem fazer bons, como a negará? Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais prova. Quid debui facere vineae meae, et non feci? -- disse o mesmo Deus por Isaías.

Sendo, pois, certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, mas não é assim. Se fora por parte dos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por parte dos ouvintes. Provo.

Os ouvintes ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. No Evangelho o temos. O trigo que caiu nos espinhos, nasceu, mas afogaram-no: Simul exortae spinae suffocaverunt illud. O trigo que caiu nas pedras, nasceu também, mas secou-se: Et natum aruit. O trigo que caiu na terra boa, nasceu e frutificou com grande multiplicação: Et natum fecit fructum centuplum. De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que caiu na má terra, não frutificou, mas nasceu; porque a palavra de Deus é tão funda, que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus, são as pedras e os espinhos. E porquê? -- Os espinhos por agudos, as pedras por duras. Ouvintes de entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas são os piores que há. Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes, porque vêm só a ouvir sutilezas, a esperar galantarias, a avaliar pensamentos, e às vezes também a picar a quem os não pica. Aliud cecidit inter spinas: O trigo não picou os espinhos, antes os espinhos o picaram a ele; e o mesmo sucede cá. Cuidais que o sermão vos picou e vós, e não é assim; vós sois os que picais o sermão. Por isto são maus ouvintes os de entendimentos agudos. Mas os de vontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo pode ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais, porque quanto as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam na pedra. Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que ainda são piores que as pedras! A vara de Moisés abrandou as pedras, e não pôde abrandar uma vontade endurecida: Percutiens virga bis silicem, et egressae sunt aquae largissimae. Induratum est cor Pharaonis. E com os ouvintes de entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas serem os mais rebeldes, é tanta a força da divina palavra, que, apesar da agudeza, nasce nos espinhos, e apesar da dureza nasce nas pedras.

Pudéramos arguir ao lavrador do Evangelho de não cortar os espinhos e de não arrancar as pedras antes de semear, mas de indústria deixou no campo as pedras e os espinhos, para que se visse a força do que semeava. E tanta a força da divina palavra, que, sem cortar nem despontar espinhos, nasce entre espinhos. É tanta a força da divina palavra, que, sem arrancar nem abrandar pedras, nasce nas pedras. Corações embaraçados como espinhos corações secos e duros como pedras, ouvi a palavra de Deus e tende confiança! Tomai exemplo nessas mesmas pedras e nesses espinhos! Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao semeador do Céu; mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem e esses mesmos espinhos o coroem.

Quando o semeador do Céu deixou o campo, saindo deste Mundo, as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações, e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa. E se a palavra de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa; se a palavra de Deus até nas pedras, até nos espinhos nasce; não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de Deus, nem nascer nos corações, não é por culpa, nem por indisposição dos ouvintes.

Supostas estas duas demonstrações; suposto que o fruto e efeitos da palavra de Deus, não fica, nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por consequência clara, que fica por parte do pregador. E assim é. Sabeis, cristãos, porque não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, porque não faz fruto a palavra de Deus? -- Por culpa nossa.

 

IV

Mas como em um pregador há tantas qualidades, e em uma pregação tantas leis, e os pregadores podem ser culpados em todas, em qual consistirá esta culpa? -- No pregador podem-se considerar cinco circunstâncias: a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz. A pessoa que é, e ciência que tem, a matéria que trata, o estilo que segue, a voz com que fala. Todas estas circunstâncias temos no Evangelho. Vamo-las examinando uma por uma e buscando esta causa.

Será porventura o não fazer fruto hoje a palavra de Deus, pela circunstância da pessoa? Será porque antigamente os pregadores eram santos eram varões apostólicos e exemplares, e hoje os pregadores são eu e outros como eu? -- Boa razão é esta. A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia: Ecce exiit, qui seminat, seminare. Entre o semeador e o que semeia há muita diferença. Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome; o que saneia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo. O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é? -- o conceito que de sua vida têm os ouvintes.

Antigamente convertia-se o Mundo, hoje porque se não converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. A funda de David derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra: Infixus est lapis in fronte ejus. As vozes da harpa de David lançavam fora os demónios do corpo de Saul, mas não eram vozes pronunciadas com a boca, eram vozes formadas com a mão: David tollebat citharam, et percutiebat manu sua. Por isso Cristo comparou o pregador ao semeador. O pregar que é falar faz-se com a boca; o pregar que é semear, faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras. Diz o Evangelho que a palavra de Deus frutificou cento por um. Que quer isto dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram em palavras? -- Não. Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras. Pois palavras que frutificam obras, vede se podem ser só palavras! Quis Deus converter o Mundo, e que fez? -- Mandou ao Mundo seu Filho feito homem. Notai. O Filho de Deus, enquanto Deus, é palavra de Deus, não é obra de Deus: Genitum non factum. O Filho de Deus, enquanto Deus e Homem, é palavra de Deus e obra de Deus juntamente: Verbum caro factum est. De maneira que até de sua palavra desacompanhada de obras não fiou Deus a conversão dos homens. Na união da palavra de Deus com a maior obra de Deus consistiu a eficácia da salvação do Mundo. Verbo Divino é palavra divina; mas importa pouco que as nossas palavras sejam divinas, se forem desacompanhadas de obras. A razão disto é porque as palavras ouvem-se, as obras vêem-se; as palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma rende-se muito mais pelos olhos que pelos ouvidos. No Céu ninguém há que não ame a Deus, nem possa deixar de o amar. Na terra há tão poucos que o amem, todos o ofendem. Deus não é o mesmo, e tão digno de ser amado no Céu e na Terra? Pois como no Céu obriga e necessita a todos a o amarem, e na terra não? A razão é porque Deus no Céu é Deus visto; Deus na terra é Deus ouvido. No Céu entra o conhecimento de Deus à alma pelos olhos: Videbimus eum sicut est; na terra entra-lhe o conhecimento de Deus pelos ouvidos: Fides ex auditu; e o que entra pelos ouvidos crê-se, o que entra pelos olhos necessita. Viram os ouvintes em nós o que nos ouvem a nós, e o abalo e os efeitos do sermão seriam muito outros.

Vai um pregador pregando a Paixão, chega ao pretório de Pilatos, conta como a Cristo o fizeram rei de zombaria, diz que tomaram uma púrpura e lha puseram aos ombros; ouve aquilo o auditório muito atento. Diz que teceram uma coroa de pinhos e que lha pregaram na cabeça; ouvem todos com a mesma atenção. Diz mais que lhe ataram as mãos e lhe meteram nelas uma cana por ceptro; continua o mesmo silêncio e a mesma suspensão nos ouvintes. Corre-se neste espaço uma cortina aparece a imagem do Ecce Homo; eis todos prostrados por terra, eis todos a bater no peito eis as lágrimas, eis os gritos, eis os alaridos, eis as bofetadas. Que é isto? Que apareceu de novo nesta igreja? Tudo o que descobriu aquela cortina, tinha já dito o pregador. Já tinha dito daquela púrpura, já tinha dito daquela coma e daqueles espinhos, já tinha dito daquele ceptro e daquela cana. Pois se isto então não fez abalo nenhum, como faz agora tanto? -- Porque então era Ecce Homo ouvido, e agora é Ecce Homo visto; a relação do pregador entrava pelos ouvidos a representação daquela figura entra pelos olhos. Sabem, Padres pregadores, porque fazem pouco abalo os nossos sermões? -- Porque não pregamos aos olhos, pregamos só aos ouvidos. Porque convertia o Baptista tantos pecadores? -- Porque assim como as suas palavras pregavam aos ouvidos, o seu exemplo pregava aos olhos. As palavras do Baptista pregavam penitência: Agite poenitentiam. «Homens, fazei penitência» -- e o exemplo clamava: Ecce Homo: «eis aqui está o homem» que é o retrato da penitência e da aspereza. As palavras do Baptista pregavam jejum e repreendiam os regalos e demasias da gula; e o exemplo clamava: Ecce Homo: eis aqui está o homem que se sustenta de gafanhotos e mel silvestre. As palavras do Baptista pregavam composição e modéstia, e condenavam a soberba e a vaidade das galas; e o exemplo clamava: Ecce Homo: eis aqui está o homem vestido de peles de camelo, com as cordas e cilício à raiz da carne. As palavras do Baptista pregavam despegos e retiros do Mundo, e fugir das ocasiões e dos homens; e o exemplo Clamava: Ecce Homo: eis aqui o homem que deixou as cortes e as sociedades, e vive num deserto e numa cova. Se os ouvintes ouvem uma coisa e vêem outra, como se hão-de converter? Jacob punha as varas manchadas diante das ovelhas quando concebiam, e daqui procedia que os cordeiros nasciam malhados. Se quando os ouvintes percebem os nossos conceitos, têm diante dos olhos as nossas manchas, como hão-de conceber virtudes? Se a minha vida é apologia contra a minha doutrina, se as minhas palavras vão já refutadas nas minhas obras, se uma cousa é o semeador e outra o que semeia, como se há-de fazer fruto?

Muito boa e muito forte razão era esta de não fazer fruto a palavra de Deus; mas tem contra si o exemplo e experiência de Jonas. Jonas fugitivo de Deus, desobediente, contumaz, e, ainda depois de engolido e vomitado iracundo, impaciente, pouco caritativo, pouco misericordioso, e mais zeloso e amigo da própria estimação que da honra de Deus e salvação das almas, desejoso de ver subvertida a Nínive e de a ver subverter com seus olhos, havendo nela tantos mil inocentes; contudo este mesmo homem com um sermão converteu o maior rei, a maior corte e o maior reinado do Mundo, e não de homens fiéis senão de gentios idólatras. Outra é logo a causa que buscamos. Qual será?

 

V

Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afectado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? Boa razão é também esta. O estilo há-de ser muito fácil e muito natural. Por isso Cristo comparou o pregar ao semear: Exiit, qui seminat, seminare. Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte. Nas outras artes tudo é arte: na música tudo se faz por compasso, na arquitectura tudo se faz por regra, na aritmética tudo se faz por conta, na geometria tudo se faz por medida. O semear não é assim. É uma arte sem arte caia onde cair. Vede como semeava o nosso lavrador do Evangelho. «Caía o trigo nos espinhos e nascia» Aliud cecidit inter spinas, et simul exortae spinae «Caía o trigo nas pedras e nascia»: Aliud cecidit super petram, et ortum. «Caía o trigo na terra boa e nascia»: Aliud cecidit in terram bonam, et natum. Ia o trigo caindo e ia nascendo.

Assim há-de ser o pregar. Hão-de cair as coisas hão-de nascer; tão naturais que vão caindo, tão próprias que venham nascendo. Que diferente é o estilo violento e tirânico que hoje se usa! Ver vir os tristes passos da Escritura, como quem vem ao martírio; uns vêm acarretados, outros vêm arrastados, outros vêm estirados, outros vêm torcidos, outros vêm despedaçados; só atados não vêm! Há tal tirania? Então no meio disto, que bem levantado está aquilo! Não está a coisa no levantar, está no cair: Cecidit. Notai uma alegoria própria da nossa língua. O trigo do semeador, ainda que caiu quatro vezes, só de três nasceu; para o sermão vir nascendo, há-de ter três modos de cair: há-de cair com queda, há-de cair com cadência há-de cair com caso. A queda é para as coisas, a cadência para as palavras, o caso para a disposição. A queda é para as coisas porque hão-de vir bem trazidas e em seu lugar; hão-de ter queda. A cadência é para as palavras, porque não hão-de ser escabrosas nem dissonantes; hão-de ter cadência. O caso é para a disposição, porque há-de ser tão natural e tão desafectada que pareça caso e não estudo: Cecidit, cecidit, cecidit.

Já que falo contra os estilos modernos, quero alegar por mim o estilo do mais antigo pregador que houve no Mundo. E qual foi ele? -- O mais antigo pregador que houve no Mundo foi o céu. Coeli enarrant gloriam Dei et opera manuum ejus annuntiat Firmamentum -- diz David. Suposto que o céu é pregador, deve de ter sermões e deve de ter: palavras. Sim, tem, diz o mesmo David; tem palavras e tem sermões; e mais, muito bem ouvidos. Non sunt loquellae, nec sermones, quorum non audiantur voces eorum. E quais são estes sermões e estas palavras do céu? -- As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. Vede como diz o estilo de pregar do céu, com o estilo que Cristo ensinou na terra. Um e outro é semear; a terra semeada de trigo, o céu semeado de estrelas. O pregar há-de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas: Stellae manentes in ordine suo. Todas as estrelas estão por sua ordem; mas é ordem que faz influência, não é ordem que faça lavor. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte há-de estar branco, da outra há-de estar negro; se de uma parte dizem luz, da outra hão-de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão-de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão-de estar sempre em fronteira com o seu contrário? Aprendamos do céu o estilo da disposição, e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há-de ser o estilo da pregação; muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem. O rústico acha documentos nas estrelas para sua lavoura e o mareante para sua navegação e o matemático para as suas observações e para os seus juízos. De maneira que o rústico e o mareante, que não sabem ler nem escrever entendem as estrelas; e o matemático, que tem lido quantos escreveram, não alcança a entender quanto nelas há. Tal pode ser o sermão: -- estrelas que todos vêem, e muito poucos as medem.

Sim, Padre; porém esse estilo de pregar não é pregar culto. Mas fosse! Este desventurado estilo que hoje se usa, os que o querem honrar chamam-lhe culto, os que o condenam chamam-lhe escuro, mas ainda lhe fazem muita honra. O estilo culto não é escuro, é negro, e negro boçal e muito cerrado. E possível que somos portugueses e havemos de ouvir um pregador em português e não havemos de entender o que diz?! Assim como há Lexicon para o grego e Calepino para o latim, assim é necessário haver um vocabulário do púlpito. Eu ao menos o tomara para os nomes próprios, porque os cultos têm desbaptizados os santos, e cada autor que alegam é um enigma. Assim o disse o Ceptro Penitente, assim o disse o Evangelista Apeles, assim o disse a Águia de África, o Favo de Claraval, a Púrpura de Belém, a Boca de Ouro. Há tal modo de alegar! O Ceptro Penitente dizem que é David, como se todos os ceptros não foram penitência; o Evangelista Apeles, que é S. Lucas; o Favo de Claraval, S. Bernardo; a Águia de África, Santo Agostinho; a Púrpura de Belém, S. Jerónimo; a Boca de Ouro, S. Crisóstomo. E quem quitaria ao outro cuidar que a Púrpura de Belém é Herodes que a Águia de África é Cipião, e que a Boca de Ouro é Midas? Se houvesse um advogado que alegasse assim a Bártolo e Baldo, havíeis de fiar dele o vosso pleito? Se houvesse um homem que assim falasse na conversação, não o havíeis de ter por néscio? Pois o que na conversação seria necessidade, como há-de ser discrição no púlpito?

Boa me parecia também esta razão; mas como os cultos pelo pulido e estudado se defendem com o grande Nazianzeno, com Ambrósio, com Crisólogo, com Leão, e pelo escuro e duro com Clemente Alexandrino, com Tertuliano, com Basílio de Selêucia, com Zeno Veronense e outros, não podemos negar a reverência a tamanhos autores posto que desejáramos nos que se prezam de beber destes rios, a sua profundidade. Qual será logo a causa de nossa queixa?

 

VI

Será pela matéria ou matérias que tomam os pregadores? Usa-se hoje o modo que chamam de apostilar o Evangelho, em que tomam muitas matérias, levantam muitos assuntos e quem levanta muita caça e não segue nenhuma não é muito que se recolha com as mãos vazias. Boa razão é também esta. O sermão há-de ter um só assunto e uma só matéria. Por isso Cristo disse que o lavrador do Evangelho não semeara muitos géneros de sementes, senão uma só: Exiit, qui seminat, seminare semen. Semeou uma semente só, e não muitas, porque o sermão há-de ter uma só matéria, e não muitas matérias. Se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara cevada, que havia de nascer? Uma mata brava, uma confusão verde. Eis aqui o que acontece aos sermões deste género. Como semeiam tanta variedade, não podem colher coisa certa. Quem semeia misturas, mal pode colher trigo. Se uma nau fizesse um bordo para o norte, outro para o sul, outro para leste, outro para oeste, como poderia fazer viagem? Por isso nos púlpitos se trabalha tanto e se navega tão pouco. Um assunto vai para um vento, outro assunto vai para outro vento; que se há-de colher senão vento? O Baptista convertia muitos em Judeia; mas quantas matérias tomava? Uma só matéria: Parate viam Domini: a preparação para o Reino de Cristo. Jonas converteu os Ninivitas; mas quantos assuntos tomou? Um só assunto: Adhuc quadraginta dies, et Ninive subvertetur: a subversão da cidade. De maneira que Jonas em quarenta dias pregou um só assunto; e nós queremos pregar quarenta assuntos em uma hora? Por isso não pregamos nenhum. O sermão há-de ser de uma só cor, há-de ter um só objecto, um só assunto, uma só matéria.

Há-de tomar o pregador uma só matéria; há-de defini-la, para que se conheça; há-de dividi-la, para que se distinga; há-de prová-la com a Escritura; há-de declará-la com a razão; há-de confirmá-la com o exemplo; há-de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que se hão-de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar; há-de responder às dúvidas, há-de satisfazer às dificuldades; há-de impugnar e refutar com toda a força da eloquência os argumentos contrários; e depois disto há-de colher, há-de apertar, há-de concluir, há-de persuadir, há-de acabar. Isto é sermão, isto é pregar; e o que não é isto, é falar de mais alto.

Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos, mas esses hão-de nascer todos da mesma matéria e continuar e acabar nela. Quereis ver tudo isto com os olhos? Ora vede. Uma árvore tem raízes, tem tronco, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há-de ser o sermão: há-de ter raízes fortes e sólidas, porque há-de ser fundado no Evangelho; há-de ter um tronco, porque há-de ter um só assunto e tratar uma só matéria; deste tronco hão-de nascer diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela; estes ramos hão-de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão-de ser vestidos e ornados de palavras. Há-de ter esta árvore varas, que são a repreensão dos vícios; há-de ter flores, que são as sentenças; e por remate de tudo, há-de ter frutos, que é o fruto e o fim a que se há-de ordenar o sermão. De maneira que há-de haver frutos, há-de haver flores, há-de haver varas, há-de haver folhas, há-de haver ramos; mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é uma só matéria. Se tudo são troncos, não é sermão, é madeira. Se tudo são ramos, não é sermão, são maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão, são versas. Se tudo são varas, não é sermão, é feixe. Se tudo são flores, não é sermão, é ramalhete. Serem tudo frutos, não pode ser; porque não há frutos sem árvore. Assim que nesta árvore, à que podemos chamar «árvore da vida», há-de haver o proveitoso do fruto, o formoso das flores, o rigoroso das varas, o vestido das folhas, o estendido dos ramos; mas tudo isto nascido e formado de um só tronco e esse não levantado no ar, senão fundado nas raízes do Evangelho: Seminare semen. Eis aqui como hão-de ser os sermões, eis aqui como não são. E assim não é muito que se não faça fruto com eles.

Tudo o que tenho dito pudera demonstrar largamente, não só com os preceitos dos Aristóteles, dos Túlios, dos Quintilianos, mas com a prática observada do príncipe dos oradores evangélicos, S. João Crisóstomo, de S. Basílio Magno, S. Bernardo. S. Cipriano, e com as famosíssimas orações de S. Gregório Nazianzeno, mestre de ambas as Igrejas. E posto que nestes mesmos Padres, como em Santo Agostinho, S. Gregório e muitos outros, se acham os Evangelhos apostilados com nomes de sermão e homilias, uma coisa é expor, e outra pregar; uma ensinar e outra persuadir, desta última é que eu falo, com a qual tanto fruto fizeram no mundo Santo António de Pádua e S. Vicente Ferrer. Mas nem por isso entendo que seja ainda esta a verdadeira causa que busco.

 

VII

Será porventura a falta de ciência que há em muitos pregadores? Muitos pregadores há que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam. Depois da sentença de Adão, a terra não costuma dar fruto, senão a quem come o seu pão com o suor do seu rosto. Boa razão parece também esta. O pregador há-de pregar o seu, e não o alheio. Por isso diz Cristo que semeou o lavrador do Evangelho o trigo seu: Semen suum. Semeou o seu, e não o alheio, porque o alheio e, o furtado não é bom para semear, ainda que o furto seja de ciência. Comeu Eva o pomo da ciência, e queixava-me eu antigamente desta nossa mãe; já que comeu o pomo, por que lhe não guardou as pevides? Não seria bem que chegasse a nós a árvore, já que nos chegaram os encargos dela? Pois por que não o fez assim Eva? Porque o pomo era furtado, e o alheio é bom para comer, mas não é bom para semear: é bom para comer, porque dizem que é saboroso; não é bom para semear, porque não nasce. Alguém terá experimentado que o alheio lhe nasce em casa, mas esteja certo, que se nasce, não há-de deitar raízes, e o que não tem raízes não pode dar fruto. Eis aqui por que muitos pregadores não fazem fruto; porque pregam o alheio, e não o seu: Semen suum. O pregar é entrar em batalha com os vícios; e armas alheias, ainda que sejam as de Aquiles, a ninguém deram vitória. Quando David saiu a campo com o gigante, ofereceu-lhe Saul as suas armas, mas ele não as quis aceitar. Com armas alheias ninguém pode vencer, ainda que seja David. As armas de Saul só servem a Saul, e as de David a David; e mais aproveita um cajado e uma funda própria, que a espada e a lança alheia. Pregador que peleja com as armas alheias, não hajais medo que derrube gigante.

Fez Cristo aos Apóstolos pescadores de homens, que foi ordená-los de pregadores; e que faziam os Apóstolos? Diz o texto que estavam: Reficientes retia sua: «Refazendo as redes suas; eram as redes dos Apóstolos, e não eram alheias. Notai: Retia sua: Não diz que eram suas porque as compraram, senão que eram suas porque as faziam; não eram suas porque lhes custaram o seu dinheiro, senão porque lhes custavam o seu trabalho. Desta maneira eram as redes suas; e porque desta maneira eram suas, por isso eram redes de pescadores que haviam de pescar homens. Com redes alheias, ou feitas por mão alheia, podem-se pescar peixes, homens não se podem pescar. A razão disto é porque nesta pesca de entendimentos só quem sabe fazer a rede sabe fazer o lanço. Como se faz uma rede? Do fio e do nó se compõe a malha; quem não enfia nem ata, como há-de fazer rede? E quem não sabe enfiar nem sabe atar, como há-de pescar homens? A rede tem chumbada que vai ao fundo, e tem cortiça que nada em cima da água. A pregação tem umas coisas de mais peso e de mais fundo, e tem outras mais superficiais e mais leves; e governar o leve e o pesado, só o sabe fazer quem faz a rede. Na boca de quem não faz a pregação, até o chumbo é cortiça.

As razões não hão-de ser enxertadas, hão-de ser nascidas. O pregar não é recitar. As razões próprias nascem do entendimento, as alheias vão pegadas à memória, e os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento.

Veio o Espírito Santo sobre os Apóstolos, e quando as línguas desciam do Céu, cuidava eu que se lhes haviam de pôr na boca; mas elas foram-se pôr na cabeça. Pois por que na cabeça e não na boca, que é o lugar da língua? Porque o que há-de dizer o pregador, não lhe há-de sair só da boca; há-lhe de sair pela boca, mas da cabeça. O que sai só da boca pára nos ouvidos; o que nasce do juízo penetra e convence o entendimento. Ainda tem mais mistério estas línguas do Espírito Santo. Diz o texto que não se puseram todas as línguas sobre todos os Apóstolos, senão cada uma sobre cada um: Apparuerunt dispertitae linguae tanquam ignis, seditque supra singulos eorum. E por que cada uma sobre cada um, e não todas sobre todos? Porque não servem todas as línguas a todos, senão a cada um a sua. Uma língua só sobre Pedro, porque a língua de Pedro não serve a André; outra língua só sobre André, porque a língua de André não serve a Filipe; outra língua só sobre Filipe, porque a língua de Filipe não serve a Bartolomeu, e assim dos mais. E senão vedeo no estilo de cada um dos Apóstolos, sobre que desceu o Espírito Santo. Só de cinco temos escrituras; mas a diferença com que escreveram, como sabem os doutos, é admirável. As penas todas eram tiradas das asas daquela pomba divina; mas o estilo tão diverso, tão particular e tão próprio de cada um, que bem mostra que era seu. Mateus fácil, João misterioso, Pedro grave, Jacob forte, Tadeu sublime, e todos com tal valentia no dizer, que cada palavra era um trovão, cada cláusula um raio e cada razão um triunfo. Ajuntai a estes cinco S. Lucas e S. Marcos, que também ali estavam, e achareis o número daqueles sete trovões que ouviu S. João no Apocalipse. Loquuti sunt septem tonitrua voces suas. Eram trovões que falavam e desarticulavam as vozes, mas essas vozes eram suas: Voces suas; «suas, e não alheias», como notou Ansberto: Non alienas, sed suas. Enfim, pregar o alheio é pregar o alheio, e com o alheio nunca se fez coisa boa.

Contudo eu não me firmo de todo nesta razão, porque do grande Baptista sabemos que pregou o que tinha pregado Isaías, como notou S. Lucas, e não com outro nome, senão de sermões: Praedicans baptismum poenitentiae in remissionem peccatorum, sicut scriptum est in libro sermonun Isaiae prophetae. Deixo o que tomou Santo Ambrósio de S. Basílio; S. Próspero e Beda de Santo Agostinho; Teofilato e Eutímio de S. João Crisóstomo.

 

VIII

Será finalmente a causa, que tanto há buscamos, a voz com que hoje falam os pregadores? Antigamente pregavam bradando, hoje pregam conversando. Antigamente a primeira parte do pregador era boa voz e bom peito. E verdadeiramente, como o mundo se governa tanto pelos sentidos, podem às vezes mais os brados que a razão. Boa era também esta, mas não a podemos provar com o semeador, porque já dissemos que não era ofício de boca. Porém o que nos negou o Evangelho no semeador metafórico, nos deu no semeador verdadeiro, que é Cristo. Tanto que Cristo acabou a parábola, diz o Evangelho que começou o Senhor a bradar: Haec dicens clamabat. Bradou o Senhor, e não arrazoou sobre a parábola, porque era tal o auditório, que fiou mais dos brados que da razão.

Perguntaram ao Baptista quem era? Respondeu ele: Ego vox clamantis in deserto: Eu sou uma voz que anda bradando neste deserto. Desta maneira se definiu o Baptista. A definição do pregador, cuidava eu que era: voz que arrazoa e não voz que brada. Pois por que se definiu o Baptista pelo bradar e não pelo arrazoar; não pela razão, senão pelos brados? Porque há muita gente neste mundo com quem podem mais os brados que a razão, e tais eram aqueles a quem o Baptista pregava. Vede-o claramente em Cristo. Depois que Pilatos examinou as acusações que contra ele se davam, lavou as mãos e disse: Ego nullam causam invenio in homine isto: Eu nenhuma causa acho neste homem. Neste tempo todo o povo e os escribas bradavam de fora, que fosse crucificado: At illi magis clamabant, crucifigatur. De maneira que Cristo tinha por si a razão e tinha contra si os brados. E qual pôde mais? Puderam mais os brados que a razão. A razão não valeu para o livrar, os brados bastaram para o pôr na Cruz. E como os brados no Mundo podem tanto, bem é que bradem alguma vez os pregadores, bem é que gritem. Por isso Isaías chamou aos pregadores «nuvens»: Qui sunt isti, qui ut nubes volant? A nuvem tem relâmpago, tem trovão e tem raio: relâmpago para os olhos, trovão para os ouvidos, raio para o coração; com o relâmpago alumia, com o trovão assombra, com o raio mata. Mas o raio fere a um, o relâmpago a muitos, o trovão a todos. Assim há-de ser a voz do pregador, um trovão do Céu, que assombre e faça tremer o Mundo.

Mas que diremos à oração de Moisés? Concrescat ut pluvia doctrina mea: fluat ut ros eloquim meum: Desça minha doutrina como chuva do céu, e a minha voz e as minhas palavras como orvalho que se destila brandamente e sem ruído. Que diremos ao exemplo ordinário de Cristo, tão celebrado por Isaías: Non clamabit neque audietur vox ejus foris? Não clamará, não bradará, mas falará com uma voz tão moderada que se não possa ouvir fora. E não há dúvida que o praticar familiarmente, e o falar mais ao ouvido que aos ouvidos, não só concilia maior atenção, mas naturalmente e sem força se insinua, entra, penetra e se mete na alma. Em conclusão que a causa de não fazerem hoje fruto os pregadores com a palavra de Deus, nem é a circunstância da pessoa: Qui seminat: nem a do estilo: Seminare; nem a da matéria: Semen; nem a da ciência: Suum; nem a da voz: Clamabat. Moisés tinha fraca voz; Amós tinha grosseiro estilo; Salamão multiplicava e variava os assuntos; Balaão não tinha exemplo de vida; o seu animal não tinha ciência; e contudo todos estes, falando, persuadiam e convenciam. Pois se nenhuma destas razões que discorremos, nem todas elas juntas são a causa principal nem bastante do pouco fruto que hoje faz a palavra de Deus, qual diremos finalmente que é a verdadeira causa?

 

IX

As palavras que tomei por tema o dizem. Semen est verbum Dei. Sabeis, Cristãos, a causa por que se faz hoje tão pouco fruto com tantas pregações? É porque as palavras dos pregadores são palavras, mas não são palavras de Deus. Falo do que ordinariamente se ouve. A palavra de Deus (como diria) é tão poderosa e tão eficaz, que não só na boa terra faz fruto, mas até nas pedras e nos espinhos nasce. Mas se as palavras dos pregadores não são palavras de Deus, que muito que não tenham a eficácia e os efeitos da palavra de Deus? Ventum seminabunt, et turbinem colligent, diz o Espírito Santo: «Quem semeia ventos, colhe tempestades». Se os pregadores semeiam vento, se o que se prega é vaidade, se não se prega a palavra de Deus, como não há a Igreja de Deus de correr tormenta, em vez de colher fruto?

Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus: Qui habet sermonem meum, loquatur sermonem meum vere, disse Deus por Jeremias. As palavras de Deus, pregadas no sentido em que Deus as disse, são palavras de Deus; mas pregadas no sentido que nós queremos, não são palavras de Deus, antes podem ser palavras do Demónio. Tentou o Demónio a Cristo a que fizesse das pedras pão. Respondeu-lhe o Senhor: Non in solo pane vivit homo, sed in omni verbo, quod procedit de ore dei. Esta sentença era tirada do capítulo VIII do Deuteronómio. Vendo o Demónio que o Senhor se defendia da tentação com a Escritura, leva-o ao Templo, e alegando o lugar do salmo XC, diz-lhe desta maneira: Mille te deorsum; scriptum est enim, quia Angelis suis Deus mandavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis: «Deita-te daí abaixo, porque prometido está nas Sagradas Escrituras que os anjos te tomarão nos braços, para que te não faças mal.» De sorte que Cristo defendeu-se do Diabo com a Escritura, e o Diabo tentou a Cristo com a Escritura. Todas as Escrituras são palavra de Deus: pois se Cristo toma a Escritura para se defender do Diabo, como toma o Diabo a Escritura para tentar a Cristo? A razão é porque Cristo tomava as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido, e o Diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio e torcido; e as mesmas palavras, que tomadas em verdadeiro sentido são palavras de Deus, tomadas em sentido alheio, são armas do Diabo. As mesmas palavras que, tomadas no sentido em que Deus as disse, são defesa, tomadas no sentido em que Deus as não disse, são tentação. Eis aqui a tentação com que então quis o Diabo derrubar a Cristo, e com que hoje lhe faz a mesma guerra do pináculo do templo. O pináculo do templo é o púlpito, porque é o lugar mais alto dele. O Diabo tentou a Cristo no deserto, tentou-o no monte, tentou-o no templo: no deserto, tentou-o com a gula; no monte, tentou-o com a ambição; no templo, tentou-o com as Escrituras mal interpretadas, e essa é a tentação de que mais padece hoje a Igreja, e que em muitas partes tem derrubado dela, senão a Cristo, a sua fé.

Dizei-me, pregadores (aqueles com quem eu falo indignos verdadeiramente de tão sagrado nome), dizei-me: esses assuntos inúteis que tantas vezes levantais, essas empresas ao vosso parecer agudas que prosseguis, achaste-las alguma vez nos Profetas do Testamento Velho, ou nos Apóstolos e Evangelistas do Testamento Novo, ou no autor de ambos os Testamentos, Cristo? É certo que não, porque desde a primeira palavra do Génesis até à última do Apocalipse, não há tal coisa em todas as Escrituras. Pois se nas Escrituras não há o que dizeis e o que pregais, como cuidais que pregais a palavra de Deus? Mais: nesses lugares, nesses textos que alegais para prova do que dizeis, é esse o sentido em que Deus os disse? É esse o sentido em que os entendem os padres da Igreja? É esse o sentido da mesma gramática das palavras? Não, por certo; porque muitas vezes as tomais pelo que toam e não pelo que significam, e talvez nem pelo que toam. Pois se não é esse o sentido das palavras de Deus, segue-se que não são palavras de Deus. E se não são palavras de Deus, que nos queixamos que não façam fruto as pregações? Basta que havemos de trazer as palavras de Deus a que digam o que nós queremos, e não havemos de querer dizer o que elas dizem?! E então ver cabecear o auditório a estas coisas, quando devíamos de dar com a cabeça pelas paredes de as ouvir! Verdadeiramente não sei de que mais me espante, se dos nossos conceitos, se dos vossos aplausos? Oh, que bem levantou o pregador! Assim é; mas que levantou? Um falso testemunho ao texto, outro falso testemunho ao santo, outro ao entendimento e ao sentido de ambos. Então que se converta o mundo com falsos testemunhos da palavra de Deus? Se a alguém parecer demasiada a censura, ouça-me.

Estava Cristo acusado diante de Caifás, e diz o Evangelista S. Mateus que por fim vieram duas testemunhas falsas: Novissime venerunt duo falsi testes. Estas testemunhas referiram que ouviram dizer a Cristo que, se os Judeus destruíssem o templo, ele o tornaria a reedificar em três dias. Se lermos o Evangelista S. João, acharemos que Cristo verdadeiramente tinha dito as palavras referidas. Pois se Cristo tinha dito que havia de reedificar o templo dentro em três dias, e isto mesmo é o que referiram as testemunhas, como lhes chama o Evangelista testemunhas falsas: Duo falsi testes? O mesmo S. João deu a razão: Loquebatur de templo corporis sui. Quando Cristo disse que em três dias reedificaria o templo, falava o Senhor do templo místico de seu corpo, o qual os Judeus destruíram pela morte e o Senhor o reedificou pela ressurreição; e como Cristo falava do templo místico e as testemunhas o referiram ao templo material de Jerusalém, ainda que as palavras eram verdadeiras, as testemunhas eram falsas. Eram falsas, porque Cristo as dissera em um sentido, e eles as referiram em outro; e referir as palavras de Deus em diferente sentido do que foram ditas, é levantar falso testemunho a Deus, é levantar falso testemunho às Escrituras. Ah, Senhor, quantos falsos testemunhos vos levantam! Quantas vezes ouço dizer que dizeis o que nunca dissestes! Quantas vezes ouço dizer que são palavras vossas, o que são imaginações minhas, que me não quero excluir deste número! Que muito logo que as nossas imaginações, e as nossas vaidades, e as nossas fábulas não tenham a eficácia de palavra de Deus!

Miseráveis de nós, e miseráveis dos nossos tempos! Pois neles se veio a cumprir a profecia de S. Paulo: Erit tempus, cum sanam doctrinam non sustinebunt: Virá tempo, diz S. Paulo, «em que os homens não sofrerão a doutrina sã. Sed ad sua desideria coacervabunt sibi magistros prurientes auribus: Mas para seu apetite terão grande número de pregadores feitos a montão e sem escolha, os quais não façam mais que adular-lhes as orelhas. A veritate quidem auditum avertent, ad fabulas auten convertentur: Fecharão os ouvidos à verdade, e abri-los-ão às fábulas». Fábula tem duas significações: quer dizer fingimento e quer dizer comédia; e tudo são muitas pregações deste tempo. São fingimento, porque são sutilezas e pensamentos aéreos, sem fundamento de verdade; são comédia, porque os ouvintes vêm à pregação como à comédia; e há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes. Uma das felicidades que se contava entre as do tempo presente era acabarem-se as comédias em Portugal; mas não foi assim. Não se acabaram, mudaram-se; passaram-se do teatro ao púlpito. Não cuideis que encareço em chamar comédias a muitas pregações das que hoje se usam. Tomara ter aqui as comédias de Plauto, de Terêncio, de Séneca, e veríeis se não acháveis nelas muitos desenganos da vida e vaidade do Mundo, muitos pontos de doutrina moral, muito mais verdadeiros, e muito mais sólidos, do que hoje se ouvem nos púlpitos. Grande miséria por certo, que se achem maiores documentos para a vida nos versos de um poeta profano, e gentio, que nas pregações de um orador cristão, e muitas vezes, sobre cristão, religioso!

Pouco disse S. Paulo em lhe chamar comédia, porque muitos sermões há que não são comédia, são farsa. Sobe talvez ao púlpito um pregador dos que professam ser mortos ao mundo, vestido ou amortalhado em um hábito de penitência (que todos, mais ou menos ásperos, são de penitência; e todos, desde o dia que os professamos, mortalhas); a vista é de horror, o nome de reverência, a matéria de compunção, a dignidade de oráculo, o lugar e a expectação de silêncio; e quando este se rompeu, que é o que se ouve? Se neste auditório estivesse um estrangeiro que nos não conhecesse e visse entrar este homem a falar em público naqueles trajos e em tal lugar, cuidaria que havia de ouvir uma trombeta do Céu; que cada palavra sua havia de ser um raio para os corações, que havia de pregar com o zelo e com o fervor de um Elias, que com a voz, com o gesto e com as ações havia de fazer em pó e em cinza os vícios. Isto havia de cuidar o estrangeiro. E nós que é o que vemos? Vemos sair da boca daquele homem, assim naqueles trajos, uma voz muito afectada e muito polida, e logo começar com muito desgarro, a quê? A motivar desvelos, a acreditar empenhos, a requintar finezas, a lisonjear precipícios, a brilhar auroras, a derreter cristais, a desmaiar jasmins, a toucar primaveras, e outras mil indignidades destas. Não é isto farsa a mais digna de riso, se não fora tanto para chorar? Na comédia o rei veste como rei, e fala como rei; o lacaio, veste como lacaio, e fala como lacaio; o rústico veste como rústico, e fala como rústico; mas um pregador, vestir como religioso e falar como... não o quero dizer, por reverência do lugar. Já que o púlpito é teatro, e o sermão comédia se quer, não faremos bem a figura? Não dirão as palavras com o vestido e com o ofício? Assim pregava S. Paulo, assim pregavam aqueles patriarcas que se vestiram e nos vestiram destes hábitos? Não louvamos e não admiramos o seu pregar? Não nos prezamos de seus filhos? Pois por que não os imitamos? Por que não pregamos como eles pregavam? Neste mesmo púlpito pregou S. Francisco Xavier, neste mesmo púlpito pregou S. Francisco de Borja; e eu, que tenho o mesmo hábito, por que não pregarei a sua doutrina, já que me falta o seu espírito?

 

X

Dir-me-eis o que a mim me dizem, e o que já tenho experimentado, que, se pregamos assim, zombam de nós os ouvintes, e não gostam de ouvir. Oh, boa razão para um servo de Jesus Cristo! Zombem e não gostem embora, e façamos nós nosso ofício! A doutrina de que eles zombam, a doutrina que eles desestimam, essa é a que lhes devemos pregar, e por isso mesmo, porque é mais proveitosa e a que mais hão mister. O trigo que caiu no caminho comeram-no as aves. Estas aves, como explicou o mesmo Cristo, são os demónios, que tiram a palavra de Deus dos corações dos homens: Venit Diabolus, et tollit verbum de corde ipsorum! Pois por que não comeu o Diabo o trigo que caiu entre os espinhos, ou o trigo que caiu nas pedras, senão o trigo que caiu no caminho? Porque o trigo que caiu no caminho: Conculcatum est ab hominibus: Pisaram-no os homens; e a doutrina que os homens pisam, a doutrina que os homens desprezam, essa é a de que o Diabo se teme. Dessoutros conceitos, dessoutros pensamentos, dessoutras sutilezas que os homens estimam e prezam, dessas não se teme nem se acautela o Diabo, porque sabe que não são essas as pregações que lhe hão-de tirar as almas das unhas. Mas daquela doutrina que cai: Secus viam: daquela doutrina que parece comum: Secus viam; daquela doutrina que parece trivial: Secus viam; daquela doutrina que parece trilhada: Secus viam; daquela doutrina que nos põe em caminho e em via da nossa salvação (que é a que os homens pisam e a que os homens desprezam), essa é a de que o Demónio se receia e se acautela, essa é a que procura comer e tirar do Mundo; e por isso mesmo essa é a que deviam pregar os pregadores, e a que deviam buscar os ouvintes. Mas se eles não o fizerem assim e zombarem de nós, zombemos nós tanto de suas zombarias como dos seus aplausos. Per infamiam et bonam famam, diz S. Paulo: O pregador há-de saber pregar com fama e sem fama. Mais diz o Apóstolo: Há-de pregar com fama e com infâmia. Pregar o pregador para ser afamado, isso é mundo: mas infamado, e pregar o que convém, ainda que seja com descrédito de sua fama?, isso é ser pregador de Jesus Cristo.

Pois o gostarem ou não gostarem os ouvintes! Oh, que advertência tão digna! Que médico há que repare no gosto do enfermo, quando trata de lhe dar saúde? Sarem e não gostem; salvem-se e amargue-lhes, que para isso somos médicos das almas. Quais vos parece que são as pedras sobre que caiu parte do trigo do Evangelho? Explicando Cristo a parábola, diz que as pedras são aqueles que ouvem a pregação com gosto: Hi sunt, qui cum gaudio suscipiunt verbum. Pois será bem que os ouvintes gostem e que no cabo fiquem pedras?! Não gostem e abrandem-se; não gostem e quebrem-se; não gostem e frutifiquem. Este é o modo com que frutificou o trigo que caiu na boa terra: Et fructum afferunt in patientia, conclui Cristo. De maneira que o frutificar não se ajunta com o gostar, senão com o padecer; frutifiquemos nós, e tenham eles paciência. A pregação que frutifica, a pregação que aproveita, não é aquela que dá gosto ao ouvinte, é aquela que lhe dá pena. Quando o ouvinte a cada palavra do pregador treme; quando cada palavra do pregador é um torcedor para o coração do ouvinte; quando o ouvinte vai do sermão para casa confuso e atónito, sem saber parte de si, então é a preparação qual convém, então se pode esperar que faça fruto: Et fructum afferunt in patientia.

Enfim, para que os pregadores saibam como hão-de pregar e os ouvintes a quem hão-de ouvir, acabo com um exemplo do nosso Reino, e quase dos nossos tempos. Pregavam em Coimbra dois famosos pregadores, ambos bem conhecidos por seus escritos; não os nomeio, porque os hei-de desigualar. Altercou-se entre alguns doutores da Universidade qual dos dois fosse maior pregador; e como não há juízo sem inclinação, uns diziam este, outros, aquele. Mas um lente, que entre os mais tinha maior autoridade, concluiu desta maneira: «Entre dois sujeitos tão grandes não me atrevo a interpor juízo; só direi uma diferença, que sempre experimento: quando ouço um, saio do sermão muito contente do pregador; quando ouço outro, saio muito descontente de mim.»

Com isto tenho acabado. Algum dia vos enganastes tanto comigo, que saíeis do sermão muito contentes do pregador; agora quisera eu desenganar-vos tanto, que saíreis muito descontentes de vós. Semeadores do Evangelho, eis aqui o que devemos pretender nos nossos sermões: não que os homens saiam contentes de nós, senão que saiam muito descontentes de si; não que lhes pareçam bem os nossos conceitos, mas que lhes pareçam mal os seus costumes, as suas vidas, os seus passatempos, as suas ambições e, enfim, todos os seus pecados. Contanto que se descontentem de si, descontentem-se embora de nós. Si hominibus placerem, Christus servus non essem, dizia o maior de todos os pregadores, S. Paulo: Se eu contentara aos homens, não seria servo de Deus. Oh, contentemos a Deus, e acabemos de não fazer caso dos homens! Advirtamos que nesta mesma Igreja há tribunas mais altas que as que vemos: Spectaculum facti sumus Deo, Angelis et hominibus. Acima das tribunas dos reis, estão as tribunas dos anjos, está a tribuna e o tribunal de Deus, que nos ouve e nos há-de julgar. Que conta há-de dar a Deus um pregador no Dia do Juízo? O ouvinte dirá: Não mo disseram. Mas o pregador? Vae mihi, quia tacui: Ai de mim, que não disse o que convinha! Não seja mais assim, por amor de Deus e de nós.

Estamos às portas da Quaresma, que é o tempo em que principalmente se semeia a palavra de Deus na Igreja, e em que ela se arma contra os vícios. Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados, contra as soberbas, contra os ódios, contra as ambições, contra as invejas, contra as cobiças, contra as sensualidades. Veja o Céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum. 

Santidade e ação sobrenatural de São Pio X

Pe. Hervé Gresland,FSSPX

Nesse ano do centenário [o artigo é de 2014 - N. da P.], a fim de nos remetermos à escola da pura e luminosa figura de Pio X, estudemos um pouco a santidade do único papa canonizado desde o século XVI. A atualidade nos obriga a começar por emitir sérias reservas no que diz respeito às canonizações recentes. Após as pretensas “canonizações” dos Papas João XXIII e João Paulo II, o presente estudo nos permitirá recordarmos o que é a verdadeira santidade.

 

O programa do seu pontificado

O filho do agente comunal de Riese conheceu uma “prodigiosa ascensão desde a pequenez da aldeia natal e desde a humildade do nascimento aos cumes da grandeza e da glória sobre a terra e no céu” 1;  foi-lhe dado conhecer a vida da Igreja de ponta a ponta, se assim podemos dizer, visto que foi, sucessivamente, vigário, cura, cônego, professor, chanceler, bispo, cardeal e, finalmente, papa. Em todas essas funções, pôde demonstrar a sua grande alma, em particular no papado: o povo via nele um santo, e dizia: “Il Papa Sarto, il Papa santo.”2

Na sua primeira encíclica3, São Pio X anunciou o programa do seu pontificado, declarando que seu único fim era o de “instaurare omnia in Christo”, ou seja, restaurar tudo em Cristo, reconduzir tudo à unidade de Cristo. Ele retornará incessantemente a essa idéia: os ensinamentos e os atos do seu pontificado resumem-se inteiramente nessa firme vontade de reconduzir tudo a Cristo, para render a Cristo o primado que lhe pertence de direito. Mas, como realizar esse programa? Pelos padres, pois eles são o meio instituído por Jesus Cristo para estabelecer o seu reino. “Para fazer Jesus Cristo reinar sobre o mundo, nada é mais necessário do que a santidade do clero, a fim de que, pelo exemplo, pela palavra e pela ciência, seja o guia dos fiéis que, conforme um antigo provérbio, sempre serão tais como forem os padres: Sicut sacerdos, sic populus”4.

“Ele via no sacerdócio, com razão, o fundamento indispensável para a realização do seu programa de restauração de todas as coisas em Cristo (...). Essa convicção era tão viva nele, que, quando foi diretor espiritual do seminário de Treviso, ou bispo de Mântua, ou ainda patriarca de Veneza, estava como que obcecado por essa ideia” 5. Pode-se escrever que “o aspecto mais evidente da santidade de Pio X era, antes de tudo, sacerdotal. Ele teve realmente o gênio do sacerdócio” 6.

Os padres foram, portanto, o objeto privilegiado das suas solicitudes, sobretudo porque compreendia a ameaça que o mundo moderno representava especialmente para o padre (pois o demônio sabe bem onde atacar para destruir a Igreja). Bispo, zelava pessoalmente pela formação dos seminaristas. Papa, desde o início do seu pontificado, recomendou instantemente aos bispos de pôr todo o seu empenho em formar Cristo naqueles cuja missão é a de formar Cristo nos outros: “Se assim é, Veneráveis Irmãos, quão grande não deve ser a vossa solicitude para formar o clero na santidade! Não há negócio que não deva ceder o passo a este. E a consequência é que o melhor e o principal do vosso zelo deve aplicar-se aos vossos Seminários” 7. Ele demanda que, nos seminários, zele-se pela integridade da doutrina: cuidado com “uma certa ciência nova que se enfeita com a máscara da verdade e onde se não respira o perfume de Jesus Cristo; ciência mendaz que, com o favor de argumentos falazes e pérfidos, se esforça por abrir caminho aos erros do racionalismo ou do semi-racionalismo”8.

O documento que revela melhor a sua alma de padre, pai dos padres, é sua comovente exortação Haerent animo, que ainda guarda toda a sua atualidade, pois o sacerdócio permanece e permanecerá sendo aquilo que é desde que Jesus Cristo o instituiu. O papa recorda aos bispos o seu dever primordial de se ocupar dos padres e, aos padres mesmos, a necessidade de trabalharem para a sua própria santificação, de modo a se assemelharem mais e mais com Jesus, o Padre eterno. O que é mais necessário ao padre é a santidade, pois a Igreja tem necessidade, sobretudo, de padres verdadeiramente santos, de padres que rezam, que oram: isso é algo de importância capital. Podemos constatar a mediocridade espiritual e a fragilidade de um padre sem oração. Um padre sem fervor tem pouca eficácia apostólica. Ao contrário, um padre verdadeiramente santo possui uma eficácia impressionante.

Paralelo entre São Pio X e Dom Marcel Lefebvre

É muito interessante constatar que encontramos o mesmo pensamento no nosso fundador, Dom Marcel Lefebvre. Para ele, o diagnóstico era claro: “A causa fundamental da crise é o embotamento do sacerdócio” 9. Ele indica o remédio, que é o seu pensamento profundo, no prefácio do seu Itinerário espiritual:

Diante da degradação progressiva do ideal sacerdotal, transmitir, em toda a sua pureza doutrinal, em toda a sua caridade missionária, o sacerdócio católico de Nosso Senhor Jesus Cristo, tal como Ele o transmitiu aos seus apóstolos e tal como a Igreja romana o transmitiu até meados do século XX”.

“Como realizar este que me parecia então o único caminho para a renovação da Igreja e da Cristandade? (...) O desejo de fundar as vias da verdadeira santificação do padre nos princípios fundamentais da doutrina católica e da santificação católica e sacerdotal sempre me absorveu (...) É pela razão do reinado de Nosso Senhor não estar mais no centro das preocupações e das atividades daqueles que são nossos “praepositi” que eles perdem o senso de Deus e do sacerdócio católico, e que nós não os podemos mais seguir”.

Percebemos que nosso fundador está perfeitamente alinhado com São Pio X. Para ambos, o fim a ser perseguido é o reinado de Nosso Senhor, que deve estar no “centro das nossas preocupações e das nossas atividades”; o caminho para atingi-lo é o autêntico sacerdócio católico, a santidade dos padres. Esse parentesco das visões de São Pio X e de Dom Marcel Lefebvre sobre o lugar central do padre é uma das razões que levaram o bispo a escolher o santo papa como patrono da sua Fraternidade: “A Fraternidade coloca-se sob o patrocínio de São Pio X, porque a preocupação primordial dessa santo papa foi a integridade do sacerdócio e a santidade que dele decorre” 10.

 

Uma ação impregnada do sobrenatural

Como todo bom papa, Pio X procurou santificar o rebanho que Jesus Cristo lhe confiou. Sua grandeza vinha de que ele mesmo estava repleto de vida sobrenatural, e seu pontificado não tinha outro fim que o de transmitir essa vida às almas. Ele recordou pela palavra e pelo exemplo que o primeiro dever de cada um é de tender à santidade: é sempre ao buscar a santidade na intimidade das almas que a Igreja encontra uma juventude renovada. O segredo da reforma estará sempre na união com Nosso Senhor pela oração, pelos sacramentos, pela fidelidade, pela mortificação. Ao invés de buscar inventar novas teorias, novas espiritualidades, ao sabor da fantasia de cada um, é preciso se aplicar a encontrar a santidade tal como a Igreja nos ensina na sua tradição e no exemplo dos seus santos. Não há santidade sem a graça; não há apostolado verdadeiro e eficaz sem vida interior, sem uma vida interior fundada na autêntica tradição espiritual da Igreja, isto é, à base de oração. Não poderia haver espiritualidade verdadeira onde falta o senso de adoração ou o espírito de sacrifício.

É a preocupação de ir às fontes da vida sobrenatural que levou São Pio X a conduzir o povo fiel à Eucaristia. Coube a ele ser, em nosso tempo, o papa da Santa Eucaristia. Se ele quis que os católicos vivessem mais desse sacramento, é que ele mesmo viveu intensamente dele. “A Eucaristia é o centro da fé”, dizia11, e sua fé ardente encontrava nela o seu alimento. Seus decretos sobre a comunhão das crianças representaram uma revolução na Igreja, a ponto de provocar algumas resistências. Ele “deu Jesus para as crianças e as crianças para Jesus” 12 e foi o promotor da Cruzada eucarística, suscitando assim santos no meio das crianças.

São Pio X conhecia a importância da beleza do culto para elevar as almas, em particular, a importância da música sagrada, pois a música tem um poder sobre as almas que as demais artes não tem: pode lhes rebaixar como pode lhes abrir as portas da contemplação. É por isso que ele restabeleceu o canto litúrgico na sua pureza e na sua primitiva beleza, foi o restaurador do canto gregoriano. O canto gregoriano é, a um tempo, arte popular e uma arte que nos introduz nos mais altos mistérios da fé pelo seu caráter sobrenatural. É o melhor educador da vida espiritual.

É preciso dizer, portanto, que, para São Pio X, importava sobretudo o conhecimento da doutrina católica, o ensino do catecismo, tanto aos adultos como às crianças. Por toda a sua vida deu a isso uma importância primordial, e sempre deu o exemplo: mesmo quando era papa, em certos domingos, após o almoço, ele mesmo comentava o evangelho do dia para os fiéis das paroquias de Roma. Por isso foi muito justamente chamado de papa da doutrina cristã.

 

A santidade de Pio X

Com relação aos santos de épocas mais distantes, cuja fisionomia mal conhecemos, quando conhecemos, temos a felicidade de possuir muitas fotografias de São Pio X. “Quando estudamos uma série de retratos desse grande papa nas diferentes idades da sua vida, ficamos impressionados com a harmonia cada vez mais radiante que deles depreende. É preciso que essa alma tenha sido constantemente fiel às inspirações do Espírito Santo para que emane dela um charme tão sobrenatural” 13. O rosto é enérgico e ponderado, com uma grande distinção. Os traços são amáveis, o olhar paternal e bom. Esse rosto irradia uma bondade envolvente e uma mansidão impregnada de força. Assim, a vida de Deus na alma se manifesta exteriormente.

O que caracteriza um santo são as virtudes, e as de Pio X foram, ao longo da sua vida, cada vez mais arrebatadoras. Seu espírito eminentemente sobrenatural vivia da fé, na dependência da Providência. Assim como nasceu em uma família modesta, quis viver e morrer pobre. Era a um tempo firme e doce, simples, afável e acessível a todos. Sua caridade foi atestada por uma quantidade de testemunhos que nos revelam um coração inesgotável, transbordando de amor pelo próximo.

A oração da sua festa ressalta duas qualidades em especial com que Deus o dotou “para defender a fé católica e reunir todas as coisas em Cristo”: uma sabedoria celeste e uma força apostólica, isto é, digna dos apóstolos. Detalhemos essas duas qualidades.

A sabedoria divina com que Deus o cumulou lhe deu a luz nas conjunturas mais difíceis. Ela se manifestava por “uma amplidão e uma clareza de vista que são próprias dos santos”. E que força de persuasão!

“A sua palavra era trovão, era espada, era bálsamo; comunicava-se intensamente a toda a Igreja e estendia-se muito ao longe com eficácia; atingia o irresistível vigor, não só pela incontestável substância do conteúdo, mas também pelo seu íntimo e penetrante calor. Sentia-se nela ferver a alma de um Pastor que vivia em Deus e de Deus, sem outro objetivo senão levar para Ele os seus cordeiros e as suas ovelhas.” 14

Como um bom pastor vigilante, que cuida do seu rebanho, praticou de maneira eminente e mesmo sublime as duas virtudes necessárias a todo aquele que governa: a prudência e a força. “o formidável furacão provocado pelos que negam a Cristo e pelos seus inimigos, soube demonstrar desde o princípio uma consumada experiência no manejo do leme da barca de Pedro”, declarou Pio XII15. A sabedoria do seu governo, que todos admiravam, mostrava que ele estava inspirado por Deus.

Ao mesmo tempo, o seu coração magnânimo lhe permitiu empreender numerosas reformas na Cúria romana, o direito canônico, o breviário... Diante da imensidade da tarefa, era preciso uma coragem e um zelo sobrenatural para se pôr a obra. Ele se mostrou intrépido na defesa da fé e da Igreja, e “demonstrou no seu espírito a indomável firmeza, a robustez viril, a grandeza da coragem, que são as prerrogativas dos Heróis da santidade.” 16

“Aos olhos do mundo moderno, viu-se surgir essa grande figura de doutor, de pai, de chefe. Esse santo monarca espantou pelo vigor extremo com que apoiou os direitos da verdade e da justiça, pela grandeza de alma que lhe permitiu afrontar o ódio dos homens para manter-se fiel a Deus, pela força que nele se unia à mansidão de uma caridade inextinguível.” 17

Seu equilíbrio, tanto na ordem natural como na sobrenatural fazem dele um papa modelo. É essa harmonia de virtudes no heroísmo que marca a verdadeira santidade, pois ela só pode ser encontrada numa estreita união com Deus. Entre os papas dos últimos séculos, não há nenhum que alcance tantos méritos e virtudes.

Que do céu a sua intercessão nos assegure a fé nesses tempos difíceis! Que seu exemplo suscite uma geração de padres que possuam todas as virtudes sacerdotais das quais ele deu um tão belo exemplo, e um devotamento sem reservas à Santa Igreja!

(Le Rocher, junho de 2014. Tradução: Permanência)

  1. 1. Pio XII, discurso para a beatificação de Pio X, 3 de junho de 1951.
  2. 2. Sarto era seu sobrenome.
  3. 3. Encíclica E supremi apostolatus, de 4 de outubro de 1903.
  4. 4. Carta ao Cardeal Respighi, vigário geral de Roma, 5 de maio de 1904.
  5. 5. Icilio Felici, Pie X, p. 82.
  6. 6. Nello Vian, Pio X, p. 223.
  7. 7. Encíclica E supremi apostolatus.
  8. 8. Idem.
  9. 9. Conferência de 12 de novembro de 1969 aos primeiros seminaristas da futura Fraternidade.
  10. 10. Dom Bernard Tissier de Mallerais, Marcel Lefebvre, une vie, p. 462.
  11. 11. Dom Bernard Tissier de Mallerais, Marcel Lefebvre, une vie, p. 462.
  12. 12. Pio XII, discurso para a beatificação, 3 de junho de 1951.
  13. 13. André Charlier, Itinéraires, novembro de 1964.
  14. 14. Pio XII, discurso de 3 de junho de 1951.
  15. 15. Idem.
  16. 16. Idem.
  17. 17. Nello Viana, Pie X, p. 166.

Natal

Mudei eu ou mudou o Natal?” — perguntou Machado a seus botões que deixaram a pergunta famosa mas sem resposta. Por eles, ao longo do tempo sugeriram respostas várias em torno do eterno tema da não-eternidade das coisas, e creio que ninguém deu a única resposta aceitável: Não mudara o Natal nem mudara o homem. O Natal continua a ser o invariável, o inoxidável mistério da natividade de Jesus, o Natal embora engatado nas engrenagens das órbitas e dos calendários permanece imóvel, idêntico a si mesmo.

Também o homem não mudou na sua frágil versatilidade e assim permanece no incerto não permanecer, correndo atrás da própria sombra ou do próprio vento. E é aqui nesta coincidência de duas tão diversas permanências que reside toda a aflição do homem e todo o incompreensível mistério do Natal. Porque o Natal não muda para que o homem mude. Sim, esta é a primeira e fundamental mensagem do Natal trazida pelo Percursor. João Batista anunciava o advento do constante, do Permanente, do Imóvel, e chamava para que os homens mudassem.

Como assim? Então é preciso o profeta clamar para que o inquieto coração do homem mude de ritmo, de direção, de desejo? Não, em verdade ninguém precisa aconselhar o homem a ser cambiante e instável, por si mesmo ele não pára de dançar e mudar. Mas o que o Natal veio ensinar foi justamente a mudança do mudar. Sim, veio ensinar que não podemos parar, que não podemos interromper a conversão, a mudança de vida, a penitência ou metanóia ensinada pela voz que clamava no deserto. A permanência que o natal nos ensina é a permanente ascensão, a permanente conversão. Ou é a permanente e progressiva gestação do Menino Jesus que quer nascer em nós como nasceu no seio da Virgem sempre Virgem.

A verdadeira participação do Natal é essa em que, de uma incomparável maneira, realizamos no mesmo ato uma imitação de Cristo e uma imitação de Maria. Tudo o mais, ainda que multipliquemos todos os recursos da humana ternura, será de festa de solidariedade humana, será data planetária, será efeméride, mas não é Natal. Sem a dócil obediência de Maria não há receptividade para o nascimento de Jesus em nós. O solene Natal cantado pela Igreja, com ressonâncias de todos os séculos, com ecos dos brados de João Batista e do cântico de Maria, só deseja de nós o trabalho, a conversão que nos torne mais humildes e mais puros, ou mais filhos de Maria, para termos com ela parte do prodigioso mistério que nos torna de algum modo mães de nosso Pai.

Tudo isto resolve as arrumações habituais do mundo, e é para revolvê-las, para trazer a mais revolucionária notícia de uma outra ordem, de uma nova dimensão, que a Igreja anuncia a vinda do Senhor como outrora, João Batista anunciou.

É terrível pensar que o mundo inteiro, em grossa e maciça maioria, mesmo nos povos que se dizem cristãos, fizera do Natal de Jesus e Maria uma festividade espessa e grosseira. Por isso mesmo o clamor litúrgico de nossa Mãe tem, nos tempos que correm, o patético timbre do grande anunciador da mudança essencial, da única que entre tantas e tantas reviravoltas, não queremos fazer.

Quem és?” perguntaram a João, filho de Zacaria. Disse-lhes ele: “Eu sou a voz que clama no deserto, endireitai os caminhos do Senhor”.

E aí está: o Natal não muda, para que nós mudemos o nosso vão mudar.

 

PERMANÊNCIA, N° 62, Dezembro de 1973.

O reinado social de Cristo no Brasil pela Eucaristia

D. José Pereira Alves

Conferência realizada em Buenos Aires

 

O nosso Brasil é uma pátria eucarística. Deus lhe concedeu essa predestinação histórica. A sua vocação cristã não foi apenas assinalada pela cruz erguida na terra virgem. Nas mãos de Frei Henrique de Coimbra, sob a verde umbela da mata rumorosa e selvagem, na primeira Missa da descoberta, a hóstia divina pairou como uma bandeira viva de Cristo proclamando a posse sagrada do território. Nosso Senhor armava na região desconhecida o seu pavilhão eucarístico. Alçava o pendão de sua realeza. O Brasil recebia o seu batismo na pia do altar. Desde aquele instante supremo seria o país do Coração Eucarístico, o Tabor do S. S. Sacramento.

A sua configuração geográfica seria quase a forma de um coração.

Cruzes e corações se encontrariam incrustados nos exemplares de sua flora e nas estrelas do céu. Deus o escolhera para ser o soldado do seu tabernáculo e arauto do Rei de Amor.

O culto da Eucaristia se irradiou por toda a nacionalidade com a aurora profética da primeira Missa.

O Cristo prometia a si mesmo operar uma nova transfiguração.

O Brasil se transfiguraria pela adoração e pelo amor da Hóstia Santa numa apoteose perene ao Cristo, Rei das nações que Ele recebeu em herança. Estão aí presentes em toda a sua visibilidade histórica os documentos desta fé eucarística que produziu, em nossa terra e sociedade, o milagre de uma unidade espiritual que serve de base indestrutível à unidade geográfica, racial e social de todo o nosso imenso país.

São os monumentos, as igrejas eretas desde o período colonial para a glória da Eucaristia. Há capitais, como Recife, em que as matrizes primeiras foram dedicadas ao S. S. Sacramento. Nas menores paróquias eram reservadas capelas especiais e mais ricas, as capelas do Santíssimo. O ouro, a prata, pedras preciosas enriquecem e constelam cálices, ostensórios, sacrários, altares, candelabros, lampadários-trabalhos riquíssimos de ourivesaria de talha, estatuária-primores de uma velha arte, saturada de inspiração religiosa e de piedade eucarística.

As belas artes se encontraram em piedoso rendez-vous para perpetuarem, através do tempo, a imortalidade da devoção nacional ao Deus velado no silêncio augusto da vida eucarística.

Em palanquins dourados ia o Viático, escoltado e seguido de multidão devota, aos moribundos ou sob umbelas vermelhas, o sacerdote a pé ou a cavalo, conduzia o Pai Nosso, como o povo ainda chama com ternura, ao Senhor, pelas fazendas, sítios agrestes, lugares rurais.

As festas do S. S. Sacramento sempre foram no Brasil custeadas por inúmeras confrarias e irmandades e pelo povo, festas excepcionais pelo esplendor do culto, pela afluência extraordinária, pelas procissões esplêndidas e triunfais, sempre coroadas por soleníssimo Te Deum.

E tão tradicionais o foram que municipalidades, como a Edilidade de S. Salvador da Baia, conservaram como uma honra celebrar com pompa, às expensas públicas, as solenidades do Corpo de Deus, mesmo depois da separação da Igreja do Estado. Tanto é verdade que a Nação só a contragosto se via oficialmente longe do altar!

Todas essas manifestações eloquentes do culto externo eram e ainda são expressões altissonantes do sentimento profundo dos brasileiros em relação à Sagrada Eucaristia.

Com a devoção à Virgem Santíssima da Conceição freme no sangue, na alma da raça, o amor crescente ao S. S. Sacramento, herança dos mártires.

Para citarmos apenas uma lembrança dos tempos da colônia, evoquemos tão somente o sangue do horrível morticínio de 3 de outubro de 1645 em Urussú, Estado do Rio Grande do Norte, em que os heróis da fé no Senhor Sacramentado eram trucidados e morriam gritando: “Louvado seja o S. S. Sacramento! ” Crônicas antigas nos falam da música celeste dos aromas do incenso e da conservação maravilhosa dos corpos dos cristãos, vítimas imoladas pelo furor herético e pagão, sementes eucarísticas de uma grande cristandade, consagrada ao Divino Coração Eucarístico.

Regada por um sangue tão generoso, cultivada com toda a solicitude pela ação missionária de Portugal bandeirante e católico, a árvore nacional não podia deixar de crescer, frondejar e produzir os mais abundantes frutos de vida eucarística, transformando o Brasil, como é hoje, um imenso altar do Coração Eucarístico.

A todas aquelas aparatosas manifestações do culto eucarístico de que tivemos ocasião de evocar, correspondiam já desde a época colonial o espírito de adoração eucarística, a oração do tabernáculo, a ascensão de almas, vítimas de amor. Já em 1750, um filho do nordeste brasileiro, o alagoano Felix da Costa, varão de grandes virtudes, fundava o Santuário Eucarístico de Macaúbas, hoje na Arquidiocese de Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais, recolhimento de religiosas clausuradas, consagradas à adoração do S. S. Sacramento, nesse laus perene brasileiro que é uma glória secular da nossa vida católica. É aí que o Cristo Redentor e Salvador, adorado e amado por almas virgens, simples e abrasadas de amor, recebia o beijo silencioso e a súplica incessante da alma cristianíssima da Pátria.

Desse cimo espiritual desceria a Benção eucarística da renovação social da nossa terra como uma aurora das apoteoses nacionais ao S. S. Sacramento.

Com o despertar religioso provocado pelo grito libertador da seráfica e heroica figura de D. Frei Vital Maria de Oliveira, com o rejuvenescimento das ordens religiosas e dos seminários e renascimento da vida paroquial, a organização da catequese infantil e a fundação de associações católicas, imunes da contaminação maçônica, a vida eucarística nacional começou a tomar um desenvolvimento prodigioso que se tornou universal e profundo em todo o país, graças especialmente à instituição providencial do Apostolado da Oração, que popularizou e intensificou com a Missa da primeiras sextas-feiras, a adoração solene e as comunhões reparadoras, à Devoção ao Sagrado Coração de Jesus e deu a todas as suas festas um cunho altamente eucarístico. O povo brasileiro, em décadas sucessivas, ficou saturado de amor pelo Coração Divino que nos deu o presente supremo da Eucaristia.

Pois bem, essa saturação eucarística, ao impulso vigoroso da hierarquia, guiada por esse bispo providencial — o Bispo da Eucaristia —, como o chama o povo, que é o nosso querido Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, essa saturação de amor transbordou na vida pública e social do Brasil, como uma torrente restauradora da consciência, mesmo política, da nossa pátria cristã. Os grandes Congressos Eucarísticos, como o de São Paulo em 1915, o inesquecível Congresso Nacional do Centenário, em 1922, e o recente e extraordinário Congresso Eucarístico Nacional de S. Salvador da Bahia, promovido com enorme brilho pelo Exmo., Primaz do Brasil e presidido pelo Eminentíssimo Legado Pontifício, o Sr. Cardeal Dom Sebastião Leme, tem sido no Brasil verdadeiros “pentecostes” de graças e retumbantes e profundos plebiscitos de amor ao Deus escondido, à Hóstia Divina dos nossos altares.

As semanas eucarísticas se sucedem em todas as dioceses com uma intensa repercussão espiritual. Hoje, pode dizer-se que não há solenidade, semana católica ou congresso que não culmine numa afirmação de fé na Eucaristia.

Esse movimento ascensional para o sacrário arrastou e arrasta multidões nos retiros, nas missões populares, é a alma das organizações paroquiais e se constitui sangue de toda a circulação religiosa brasileira.

As Horas Santas são hoje ansiosamente frequentadas pelo povo nas mais modestas paróquias do interior e, em muitos lugares, inúmeras velas, símbolos de favores alcançados estrelam as noites eucarísticas.

As classes superiores foram também dominadas pelo Cristo do tabernáculo. Nas capitais e cidades importantes, sobretudo na metrópole do Rio de Janeiro, num crescente edificante, centenas de intelectuais, homens de cultura geral e especializada, professores eminentes e estudantes das Escolas Superiores se aproximam da mesa da Santa Comunhão: é a Páscoa da inteligência.

As classes armadas, em verdadeira parada de fé, depõem cada ano suas espadas aos pés do altar do Cordeiro e em linhas de paz e de amor bebem a força, a coragem e o sacrifício no cálice eucarístico da redenção.

Essas páscoas benditas se renovam em vários setores da vida social, da vida brasileira. É um movimento consolador.

S. Eminência, o Sr. Cardeal D. Sebastião Leme pondo uma cúpula monumental sobre estas colunas erguidas pelo espírito nacional criou a corte suprema do Rei do amor: A Adoração Perpétua Nacional, no templo de Santana. E já hoje na Bahia e em São Paulo se instalam outras cortes perpétuas, em que é adorado e servido o Divino Senhor dos corações.

Diante desse panorama eucarístico não há senão exclamar: Cristo reina na sociedade brasileira pela Eucaristia.

A Eucaristia é a chave do nosso progresso na hierarquia, pela multiplicação rápida de nossas dioceses e pelo esplendor e fecundidade de nosso cardinalato, cuja púrpura é o cérebro de nossa irradiação espiritual, e nossa ação católica é o segredo de nossa expansão de vida interior e sobrenatural, não só em nossas comunidades religiosas, seminários e colégios, mas na floração exuberante de nossos grupos católicos na rede, hoje, tão alargada de nossas associações e obras de interesse espiritual, na coordenação de todos os valores da Santa Igreja no Brasil. É ela ainda que anima, encoraja e informa o esforço de tantos católicos que pelejam pelo Reino de Cristo com as armas da luz e da inteligência, da palavra e da pena, da ação cultural e do rádio.

Na sua tese recente sobre LES RENOUVEAU RELIGIEUX D’APRÉS LE ROMAN FRANÇAIS, Mme. Elisabete M. Frazer oferece uma contribuição importante ao estudo desse fenômeno contemporâneo que é o ressurgimento católico da mentalidade cultural.

Já hoje a Religião não é apenas considerada como uma organização social admirável, uma força de disciplina humana. Ela surge no romance, na literatura, com um aspecto do mistério e do sobrenatural.

A guerra fez a humanidade pensar no além diante das ruínas acumuladas nessa horrível tragédia da História.

Esse renascimento mundial do pensamento religioso não podia deixar de ter extensa repercussão na sociedade brasileira. Encontrou felizmente o movimento católico desencadeado pela Igreja nas massas e nas elites sob a forma providencial da ação eucarística no indivíduo, na família, nos grupos organizados e nas multidões pelas grandiosas manifestações de amor a Nosso Senhor Jesus Cristo no S. S. Sacramento.

Os homens católicos de pensamento, a mocidade católica que estuda e os expoentes de várias classes sociais são hoje sentinelas do Sacrário e apóstolos da Realeza Eucarística de Jesus.

Foi assim que se preparou esse magnífico estado d’alma que nos permitiu a vitória apolítica, consagrando a Constituição de 16 de julho, arejada de espírito cristão, que pôs a sua confiança em Deus, nos deu o Ensino Religioso, o Matrimônio indissolúvel, a assistência às Forças Armadas, o serviço militar eclesiástico sob a forma hospitalar, e criou no Direito Internacional o princípio novo da colaboração da Igreja e do Estado, apesar da separação; em suma, consagrou as aspirações cristãs da Liga Eleitoral Católica, constituída pelo Episcopado Nacional com um caráter supra e extra partidário, visando apenas o Reinado Social do Rei do Amor, na pátria brasileira.

Cristo reina e reinará no Brasil.

Cumpre-nos, a nós, soldados de Cristo, defender por todas as formas da Ação Católica, conservar o patrimônio eucarístico da pátria pela educação eucarística da nossa infância no lar, no templo, na escola, pela formação eucarística de nossa mocidade, pela penetração eucarística cada vez mais profunda da mentalidade nacional.

No obelisco de São Pedro se leem estas esplêndidas palavras de Sisto V: Cristus vincit, regnat, imperat, ab omni malo plebem suam defendat.

Já não será nos granitos do Corcovado, mas no Coração vivo da Pátria Eucaristica que escreveremos aquelas palavras: Cristo vence, reina e impera, defende de todo o mal o seu Brasil.

Desta gloriosa e hospitaleira Argentina, Grande Dama-Nobre de Cristo, transformada nestes dias magníficos na Metrópole Eucarística da Cristandade, no Ostensório do mundo, voltaremos incendidos da Divina Caridade, com a bênção maternal da Virgem de Lujan, Padroeira do Congresso, e apaixonados pela salvação de nossa pátria, iremos realizar no Brasil os votos paternais do grande pontífice Pio XI, expressos no último telegrama ao Presidente Justo: conseguir que o Evangelho de Cristo seja a inspiração na vida de todos os povos de maneira que todos possam gozar dos benefícios da paz e da Civilização cristã.

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

A Eucaristia na história da Igreja

Conferência de D. José Pereira Alves pronunciada no

 Congresso Eucarístico do Centenário, no Rio de Janeiro

 

 

Taine conta que um dia procurou o Superior de uma ordem religiosa de Paris, e lhe perguntou: “Por quê? Não faz ainda um século que a Revolução Francesa destruiu todas as ordens religiosas. Por quê? Não faz ainda um século e a França tem mais de 160.000 religiosas e religiosos. Qual o segredo dessa vitória? Qual o princípio de ação e utilidade que explica essa maravilha? ”

O Superior respondeu-lhe: “Acompanhai-me”. Taine seguiu-o. Ele conduziu o escritor à capela e disse-lhe: “Está ali naquele sacrário, naquela hóstia, o segredo do nosso triunfo”.

O grande escritor continuou a fazer as suas pesquisas e, depois de algum tempo escreveu estas palavras: “A fé na Eucaristia é, incontestavelmente, o par de asas que ergue a humanidade do seu lodo e a atira às regiões do devotamento e do amor. Se há alguma salvação para a sociedade, sem dúvida essa salvação está lá”.

Sim, minhas senhoras e meus senhores, a salvação está lá, na hóstia, na hóstia cuja função histórica e divina foi manter a Igreja Católica na sua unidade, na sua santidade, na sua catolicidade, no seu caráter apostólico.

O Tabernáculo é a barquinha de Jesus. Se o furacão acorda nas entranhas do oceano, a humanidade poderá gritar confiante: Domine! Senhor! Salvai-nos, senão perecemos!

Mas agora, diz eminente sacerdote, não são simplesmente os ventos mansos de Tiberíades; são também os ventos selvagens do ódio, do capricho e do interesse que ameaçam o mundo. Jesus, desperta! Acorda, Jesus! Ergue-te, Jesus! Abre a porta deste sacrário e apresenta-te ao mundo de pé e terrível! Faze o teu largo gesto e aplaca as ondas, serena as tempestades.

Senhores, o Congresso Nacional do Brasil é esse clamor agoniado de tantas almas e de tantos espíritos. O Congresso Nacional é o brado do nosso Brasil gigante, ajoelhado junto à hóstia de misericórdias para pedir perdão pelo pecado da nossa grande Pátria.

Minhas senhoras e meus senhores, já em 1864, venerável Padre dizia: “É preciso soltarmos a Jesus, não a Jesus em espírito, não a Jesus glorificado no céu, mas a Jesus no Tabernáculo; é preciso obriga-lo a sair do seu retiro e tornar à frente das nações cristãs que Ele pode dirigir e governar”.

Nós, católicos brasileiros, neste Congresso, queremos obrigar a Jesus a sair do Tabernáculo, e pôr-se à frente do Brasil para fazê-lo marchar, para fazê-lo marchar para a vitória, marchar para o céu, para Deus, do qual, como Nação, está tão deslembrado e esquecido.

Minhas senhoras, meus senhores: essas palavras são proféticas para o nosso Congresso Nacional Eucarístico. A cidade do Rio de Janeiro, como uma profetiza sublime, se debruça nesta noite memorável sobre seus montes seculares e atira aos ventos do Brasil a palavra incomparável que ouviu nesta Assembleia: “Cristo ou Morte! ”

Minhas senhoras, meus senhores: Olinda, Olinda senhoril, reclinada à sombra das palmeiras, a Veneza Americana, boiante sobre as águas remansadas do Capiberibe galante, Olinda e Recife respondem a esta palavra incomparável: “Cristo ou Morte! ” Como ela ecoa bem no nosso coração pernambucano! Sim! Cristo ou Morte!

Senhores, somos de uma terra de bravos que batalharam, não só pela Pátria, mas pela Fé! Somos de uma terra eucarística. As principais matrizes da nossa cidade são dedicadas às glórias de Jesus Eucarístico; somos de uma cidade que vibrou numa incomparável semana eucarística, na qual o povo e os sacerdotes choraram. Pois bem: Pernambuco eucarístico não pode deixar de aceitar estas palavras incomparáveis: Cristo ou Morte!

E eis-me, senhores, embaixador humilde da Arquidiocese de Olinda e Recife, inclinado diante da figura venerável deste filho querido dos nossos flancos, o primeiro cardeal da América do Sul. Inclino-me diante deste velho para beijar-lhe, reverente, a púrpura, em nome do Leão do Norte.

Fazendo-o, curvo-me, também reverente, diante da coroa magnífica dos príncipes brasileiros que vieram abrilhantar e abençoar o Primeiro Congresso Nacional do Brasil.

Trago o meu abraço fraterno a esse clero venerando, respeitável e respeitado, sob a orientação do nosso inesquecível Dom Sebastião, cujo zelo apostólico improvisou a beleza surpreendente desta festa magnífica.

Senhores, eu vos trago a saudação irmã da Arquidiocese de Olinda e Recife. A todos vós, congressistas, senhoras e senhores, a saudação do povo pernambucano. Aceitai-a. É a saudação de um povo irmão! Trago-vos o ósculo fraterno daquelas praias alvas e quentes, o ósculo fraterno dessa amizade indissolúvel que há de cimentar para sempre a integridade nacional, pela qual os pernambucanos derramaram o seu sangue — seu sangue não somente — o sangue de suas próprias esposas.

Senhores, diante desta Assembleia tão venerável, deveria apoucar-me; diante desta Assembleia em que refulgem a mentalidade católica do Brasil e a graça apostólica da mulher brasileira, eu deveria apoucar-me. Mas, bem ao contrário, sinto-me cheio de coragem, porque me sinto cheio de confiança em vós, no coração da vossa cidade. Quero dizer: o vosso coração se me afigura uma taça palpitante, estuante de amor e de carinho.

Permiti-me, pois, que eu, humilde pétala arrancada pelas lufadas do Norte, possa boiar tranquilamente sobre a bondade carinhosa de vossos corações.

 

A EUCARISTIA NA HISTÓRIA DA IGREJA

 

São quatro as leis essenciais que determinam e distinguem a Igreja — as leis de unidade, de santidade, de catolicidade e de apostolicidade. Et unam sanctam catholicam et apostolicam Ecclesiam, creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica. Os grandes e profundos espíritos tendem à unidade, não é novo. Só é verdadeiramente sábio aquele cuja inteligência conseguiu construir poderosas sínteses, reduzir fatos ou fenômenos a leis ou princípios supremos.

Só é verdadeiramente grande poeta aquele que pode em versos esplêndidos encerrar uma ideia máxima e fecunda, ideia mater e diretora de todos os surtos e ímpetos do gênio.

Grande cabo de guerra, general da vitória, só aquele que teve o talento de saber unir e organizar batalhões inteiros em ordem de peleja com olhos postos na ideia comum — a Pátria — flutuante nos trapos gloriosos da bandeira.

É assim que se tem escrito e divulgado. Pois bem! Jesus Cristo, meus senhores, não foi simplesmente um grande espírito, um pensador arguto, um incomparável artista, o marechal da vanguarda divina. Jesus Cristo é Deus. É sábio e infinito, e sublime bardo da epopeia cristã e glorioso Leão de Israel; Jesus Cristo marcou a fronte da sua obra divina, poema do seu amor e troféu imorredouro, com o selo eterno da unidade.

A Igreja de Cristo é una. Por esta lei de unidade que esplende na sua fronte nobremente erguida, só ela produziu e produz a unidade dos espíritos. Que semearam os sistemas e as filosofias? A anarquia mental. Que tem feito a política e a violência? Cavar um abismo no seio das almas. Jesus Cristo fundou uma sociedade espiritual que impôs aos espíritos mais diferentes uma só fé e uma só lei, com uma força de convicção irresistível. Senhores, aí está a marca do divino. Esta unidade resulta da sua doutrina imutável. Espalhou por todas as inteligências ideias graníticas, eternas, mas cheias de vitalidade e de energias prodigiosas, ideias fundamentais e comuns, únicas capazes de criar uma perseverança intelectual até o sacrifício e a morte.

Os séculos invejosos dessa glória, disse Lacordaire, vieram bater à porta do Vaticano, bateram com o coturno ou com a bota; saiu a doutrina sob a figura frágil e gasta de algum septuagenário e disse: “Que me quereis? — Mudança. Mas eu não mudo. — Mas tudo mudou no mundo. A astronomia mudou, a química mudou, a filosofia mudou, o império mudou. Porque sois sempre a mesma? — Porque eu venho de Deus e Deus é sempre o mesmo. — Mas pensai: somos os senhores, temos em armas um milhão de homens, puxaremos da espada, a espada que esfacela os tronos, também pode decepar a cabeça de um velho e rasgar as folhas de um livro. — Podeis fazê-lo, o sangue é o aroma em que sempre encontrei a minha juventude. — Pois bem, eis aqui a metade da minha púrpura, fazei um sacrifício à paz e dividamos. — Guarda a tua púrpura, César, amanhã será a tua mortalha e nós cantaremos sobre ti o Aleluia e o De Profundis que nunca mudam! ”

Senhores, a Igreja não pode mudar, deixaria de ser una, de ser verdadeira, porque a verdade é fundamental e essencialmente una e imutável na realização de sua finalidade histórica, a Igreja manteve integrais os seus gloriosos caracteres de unidade, de santidade, de catolicidade e de apostolicidade, sem os quais não seria no mundo reconhecida como a verdadeira Esposa do Cristo.

E na verdade, senhores, a santidade é o seu manto de sol. “Vi um grande sinal no céu. Uma mulher vestida de sol”. As virtudes irradiam do seu misterioso ser e, quando a franja iluminada de sua régia veste roçou pela fronte do mundo, o gênero humano sentiu uma virtude estranha, uma força ignorada e extraordinária que começou a renovar a face da terra. Et renovabis faciem terrae.

Uma floração de anjos e de crucificados cobriu os desertos da sociedade, inebriando-os com o aroma de sua inocência e o suave odor dos seus sacrifícios. Pentecostes inaugurava no mundo os milagres da graça. A grande benção do Espírito de Deus pairou sobre o oceano misterioso das almas — Spiritus Dei ferebatur super aquas. A vida sobrenatural jorrava dos penedos sagrados do Gólgota ao contato da Cruz — o cajado do novo Moisés. Nos séculos mais negros da história eclesiástica, em que Deus parecia demonstrar que a fé não depende nem da ciência nem da probidade dos homens, nesses séculos atrozes, a santidade da Igreja surgiu, como uma estrela esplendidamente luminosa, de todos os eclipses morais que encheram de sombras as cúpulas sagradas.

E o fenômeno católico nesta Igreja una e santa, através da História se acentuou tanto e por tal forma que o nome de Católica lhe ficou como o seu designativo especial e incomunicável desde os primeiros séculos. A Igreja contém em si, na sua constituição íntima, na sua essência; uma irreprimível força expansível. Esta força é como uma projeção da verdade cristã que Jesus Cristo trouxe para toda a humanidade. A expansão da Igreja é católica, isto é: universal por destino, por lei, pela vontade imperativa do Divino Mestre — Praedicate Evangelium omni creaturae. Compreende-se bem como a doutrina do Evangelho é naturalmente cosmopolita e democrática. A sua realeza intelectual é a realeza do povo: é grande demais para ficar encerrada no salão dos magnatas ou argentários.

E essa Igreja, depositária dessa energia miraculosa, galgou as montanhas, vadeou os rios, atravessou os mares, conquistou o universo, consolidou a sua soberania nas coisas e nos espíritos. A sua bandeira recebe o beijo de todos os ventos, e o seu chefe, assentado há vinte séculos sobre um solitário rochedo, açoitado de vez em quando pelo tufão, dá leis a todos os povos, dentro de fronteiras de nações soberanas, estabelece a sua hierarquia, a sua legislação, a sua política e os seus tribunais, e ninguém, senhores, ninguém ousa deter-lhe o braço desarmado de Soberano e Pastor.

Hoje, depois de tantos séculos de lágrimas e vitórias, contemplando essa visão branca que fala a mesma verdade de vinte séculos, que semeia na terra as mesmas sementes de graça e de forças, de abnegações e sacrifícios — as mesmas de outrora — contemplando este ancião da Nova Lei que conserva sobre a fronte enrugada o triregno imortal — a tríplice coroa da universalidade cristã, vós, senhores, vós todos, tomados do respeito que as coisas verdadeiras e divinas inspiram, vós podereis dizer: A Igreja una, santa, católica é a Igreja apostólica; descende desta dinastia popular de pescadores que, revolucionando o mundo, foram os apóstolos e os fundadores da Civilização Cristã, os pregadores de um dogma e uma moral integrados no Magistério infalível da Igreja Católica. Et unam sanctam catholicam et apostolicam Ecclesiam. A finalidade histórica da Igreja una, santa, católica, apostólica era conservar essa mesma unidade, essa mesma santidade, essa mesma apostolicidade, impressa na sua fronte por Jesus Cristo para salvação do homem. E eu vos pergunto: Por que a Igreja, na sua evolução histórica, não aberrou das suas leis essenciais, não deixou de ser una, santa, católica, apostólica? Por causa da promessa de Cristo? Não somente, meus senhores. Cristo quis que sua Igreja tivesse, não só a promessa infalível, mas também, sob o pavilhão sagrado, sob uma nuvem santa, a realidade permanente ou palpitante do seu Coração eucarístico na hóstia sacrossanta do altar.

É por causa desta hóstia, mistério central da Igreja, que essa Igreja se mantém, una, santa, católica, apostólica, através de todas as vicissitudes históricas.

Meus senhores, quem faz a História não é só o homem, quem faz a História é também a Providência. Não creio na fatalidade histórica; creio, como Bossuet, na Providência amorosa de Deus, que conduz os povos. Não deixam de ser beleza e verdade as palavras de Balzac: “No drama da História, Deus é o poeta; os homens os atores; as peças que se jogam na terra são compostas no céu”. Sim, meus senhores, é Deus quem rege a história dos indivíduos e a história das nações. Cristo perpetuou-se na história da sua Igreja pelo mistério da Eucaristia.

Meus senhores, o homem sentiu logo na sua origem a necessidade de um Deus e em sua alma o tormento do infinito. Escutara durante a noite aquela harmonia de que nos fala Platão, a harmonia silenciosa das estrelas; escutara as vozes misteriosas dos seus mares; escutara o rumor sagrado das suas florestas. Escutou mais. Entrou em si mesmo e escutou vozes estranhas em seu ser, vozes que reclamavam formas excelsas de verdade, formas perfeitas e indefiníveis de amor e beleza. E o homem se tornou sacerdote — rezou, suplicou, começou a confessar a Divindade. Mas Deus espírito estava tão longe dele, verme luzente que se arrastava na terra.

O homem precisava de um Deus que tivesse as palpitações da matéria, um Deus sensível. O homem queria sentir em si, não somente os surtos do infinito, do espiritual, mas também sentir uma febre de vida sensível, elevada, uma febre também sentida por um Deus. Que fez Deus? Que fez o Senhor?

Deus respondeu a essa estranha angústia humana com um coração de carne, com o mistério augusto da Encarnação. Fez mais: perpetuou no mundo este Coração de carne, perpetuou o dom régio no mistério real da hóstia pura. Foi além: ficou nos altares como um monge, monge suplicante pelos pecados da humanidade; ficou para ser o Arcanjo zelador da sua esposa dileta, da sua Igreja, depositária augusta da Hóstia.

E vede-a, essa Igreja, vede-a descer as escarpas do Gólgota, envolta, como disse o nosso Nabuco, envolta no sudário do grande Redentor. E que trazia a Peregrina debaixo desse sudário? Que trazia ela? Trazia, senhores, a hóstia eucarística, trazia a hóstia para conquistar o mundo.

Para abalar os impérios romanos não trazia armas; trazia a hóstia. E seus primeiros apóstolos com a hóstia eucarística, com a hóstia santa, anunciaram ao mundo uma boa nova. Os deuses tremeram sobre os seus pedestais; os oráculos se contradisseram; o mundo pagão ruiu. E sobre os escombros do Capitólio da Roma Imperial antiga, drapejou a flâmula do Deus eucarístico, a Cruz do Cristo Redentor. E assim é que a hóstia conduziu a Igreja nas suas primeiras investidas contra o mundo pagão.

O paganismo reagiu diante da hóstia do altar. Os cristãos escondiam-se à sombra das catacumbas e lá comiam a fração do pão, a fração do pão divino da hóstia no idílio espiritual das ágapes. Aqueles que não puderam fugir à sanha dos seus inúmeros inimigos foram presos, torturados. No silêncio da noite, sombras penetravam nas catacumbas, nas prisões e, num beijo, num abraço irmão, davam aos pobres prisioneiros de Cristo a hóstia.

Tendo saído das perseguições, a Igreja encontrou os bárbaros que, como uma avalanche, se precipitaram do Norte. A Igreja não suprimiu logo os excessos dos bárbaros. Transformou-os pouco a pouco. E aqueles altivos senhores feudais se ajoelhavam, reverentes, diante da hóstia branca, e se reconciliavam aos pés do altar.

Meus senhores, as Cruzadas e as grandes descobertas se fizeram em nome do Santíssimo Sacramento, em nome da hóstia católica. Colombo trouxe no peito a hóstia divina para surpreender a jovem América. E quando a viu surgir — a América, como uma ninfa, da espuma dos nossos belos mares, sentiu na alma católica as vibrações do Coração Eucarístico, ansiando por alcançar novos mundos. Os missionários católicos, por toda a parte onde levantavam a Cruz do Salvador, desfraldavam a bandeira da Eucaristia e saudavam a terra que iam evangelizar com o sangue do Cordeiro Imaculado.

Assim, meus senhores, nossa terra brasileira, a terra do Brasil, é por destino a terra da Eucaristia. Devemo-nos lembrar de que sob as umbelas verdes de nossas florestas, entre as matinas de nossas belas alvoradas, devemo-nos lembrar de que Frei Henrique ergueu a Hóstia divina sobre a terra virgem descoberta por Cabral, consagrando-a de maneira definitiva, ao Coração Eucarístico do nosso Divino Salvador.

Meus senhores, uma terra assim dedicada desde a sua origem à glória da hóstia, conservadora da unidade, da santidade, da catolicidade, da apostolicidade da Igreja, uma terra assim só pode pertencer ao Coração Eucarístico do nosso Divino Salvador.

Pio XI, no Congresso Eucarístico Internacional da Paz, em discurso magnífico, disse: “Daqui a poucos momentos verei desdobrar o vosso cortejo pelas ruas históricas da vossa cidade eterna e no meio do vosso cortejo avançará o Cristo, o Rei imortal dos séculos. Violentastes o Coração de Deus; obrigastes Deus a sair do seu Tabernáculo. Ele avança e vai reinar por toda parte, reinar em vossos corações e, por meio dos vossos corações, vai reinar pelo mundo inteiro. Seus olhos eucarísticos tornarão a ver essas ruas, tão cheias de lembranças; seus olhos eucarísticos tornarão a ver esses lugares banhados do sangue de tantos mártires, e Ele, o Cristo, verá na glória da hóstia, a santificação da vossa cidade”.

Continuando o seu discurso, disse Pio XI: “Agora e no futuro, onde quer que seja, numa grande cidade ou numa simples aldeia, onde se celebrar um congresso eucarístico, o Cristo entrará na vida humana, na vida pública, na larga corrente dos acontecimentos humanos”.

Meus senhores, estas palavras de Pio XI são proféticas para nós. Ele disse: “E em qualquer parte onde se celebrar um congresso eucarístico, numa grande cidade ou numa simples aldeia, o Cristo entrará na sua vida pública”.

Eu tenho certeza de que o Cristo eucarístico vai entrar, por este Congresso, na vida pública do nosso estremecido, do nosso querido Brasil.

Sim, meus senhores, aquelas palavras de Pio XI são, verdadeiramente, uma conclusão histórica. A Hóstia é o elemento renovador das sociedades humanas. O Padre Gratry escreveu muito bem: “Fala-se por toda parte no rejuvenescimento da vida cristã; fala-se por toda parte numa grande unidade”. Historiadores profundos como Ranke, dizem que veremos uma exposição nova que reunirá todos os fiéis, que reduzirá os próprios incrédulos. Agora adivinho. Na minha ciência, no meu espírito, na minha fé, essa exposição é o catolicismo bem compreendido. Não é só isso. O que há de reunir todos os fiéis, seduzir os próprios incrédulos não é o catolicismo compreendido, é o catolicismo servido e vivido na hóstia de todos os nossos altares. É a Hóstia, portanto, que vai salvar a humanidade, que vai salvar o nosso querido Brasil.

Bendito o coração patriota que realizou a ideia de um Congresso Nacional! Benditos vós todos que trabalhastes, que trabalhastes com tanto ardor e veemência para o êxito desse Congresso! Fazeis obra essencialmente patriótica. Precisamos de uma reação do sobrenatural, quando a invasão do naturalismo ameaça as nossas ciências, nossas artes, nossa literatura, nossa consciência nacional. Precisamos, como nação, de uma reação do sobrenatural cuja plenitude podemos encontrar na Hóstia — o mistério central do catolicismo. Pois bem. O que ditou este Congresso foi o amor da Pátria. Não somente este instinto sagrado, se assim me posso expressar, que nos faz amar as nossas searas, os nossos regatos, os nossos campanários, e os túmulos dos nossos avós; não somente este amor consciente que nos faz morrer pela bandeira, mas o amor da Pátria que se sublima na fé e se sublima no amor a Jesus sacramentado; é essa piedade altíssima que trouxe ao Brasil a felicidade dessa comemoração nacional de um Congresso Eucarístico.

O Brasil inteiro está sentindo, tenho certeza, uma comoção enorme.

Senhores, nesta noite gloriosa para esta cidade, nesta noite há alguma coisa que irrompe do peito azul da vossa linda Guanabara; há alguma coisa que se está desentranhando das vossas montanhas protetoras, do silêncio augusto das vossas florestas e do rumor das vossas cascatas; há alguma coisa que impressiona de vaporoso e indeciso como o fantasma desta vigília noturna; há alguma coisa que me parece a alma do Brasil católico, do Brasil inteiro a despertar. Penso que esta alma há de despertar neste santuário que é a vossa cidade, santuário em que se exerce a soberania do meu Brasil. Pois bem; esta sonâmbula há de acordar ao eco das vossas trombetas.

Sim, entoai as vossas trombetas eucarísticas e, ao seu eco sagrado, a sonâmbula despertará. Está sorrindo a esta orgia de luz, a esse encantamento feiticeiro do vosso Rio maravilhoso. Mas tem de despertar para a glória cristã.

Desperta, alma do Brasil.

Olha! A cidade do Rio de Janeiro é a tua sacerdotisa magna. Ela vai colocar nos cimos alcantilados dos seus rochedos a imagem do Cristo.

Ela vai fazer mais: vai erguer acima dos seus píncaros sagrados e levantar sobre as águas da sua baía, sobre suas montanhas, sobre o Brasil, a hóstia branca e repetir novamente a palavra incomparável: Cristo ou Morte!

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

Não há amor maior

“O meu preceito é este: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei. Não há amor maior que dar a própria vida pelos seus amigos. Vós sois meus amigos se fizerdes o que eu vos mando” (Jo 15,12-14).

 

Nosso Senhor convida seus discípulos a entregar suas vidas a seu amigo. Ele, claramente, ensina que não há amor maior que esse. Seguindo Cristo crucificado, o sacrifício da vida inteira de uma pessoa por amor de Deus, nosso maior amigo, é a maneira mais perfeita de obedecer a Deus. Há muitas maneiras através das quais um homem ou mulher pode aceitar esse mandamento divino da caridade. A vida matrimonial pede, em algum grau, que os esposos sacrifiquem suas vidas por seus filhos e pelo cônjuge. Muitos vivem uma vida celibatária em continência perfeita no mundo, sacrificando suas vidas por alguma obra de caridade. Os soldados também, de uma maneira especial, sacrificam suas vidas pelo seu país. Porém, duas das maneiras mais perfeitas de “entregar sua vida” ao próximo são a vida religiosa enclausurada e a vida de um missionário. Esses dois estados de vida, em essência, construíram a Cristandade.

O missionário edifica a Cristandade de dentro para fora. Da ordem espiritual das almas advém a ordem necessária para o avanço material da sociedade. O verdadeiro objetivo de toda a atividade missionária é a santificação das almas. Apenas após estabelecer a prática geral da virtude, o missionário pode começar a ver os benefícios materiais da sociedade. Se o canibal não parou de comer seu próximo, ou se o bárbaro não parou de guerrear e pilhar os inocentes, não pode haver nenhuma harmonia real ou qualquer tipo de estrutura na sociedade. O pecado e o vício, que são frutos do amor-próprio desordenado, são os elementos mais poderosos de autodestruição em qualquer sociedade. A alma pagã deve, em primeiro lugar, reconhecer que Deus tem o direito de pedir a ele grandes sacrifícios na sua vida pessoal. Apenas então ele será capaz de pensar em seu próximo caridosamente.

É aqui que a vida contemplativa vem em auxílio do missionário. Nenhum ser humano pode entrar no coração do homem. A vida interior de uma alma pertence, exclusivamente, a Deus, nosso Criador. Pelo sacrifício de sua vida inteira, o religioso impetra a Deus pela salvação das almas. Através das orações e dos sacrifícios dos religiosos, Deus adentra a esterilidade da terra inculta das almas e dá-lhes sua graça, usando o missionário como seu instrumento. O missionário não pode adentrar a alma de seu fiel, tampouco pode o contemplativo, mas Deus, como Mestre daquela alma, tem direito de entrada.

Em 1985, Dom Marcel Lefebvre abençoou a clausura das irmãs carmelitas nos Estados Unidos. Em seu sermão, ele explicou a vida de um mosteiro carmelita: “O Carmelo é uma casa de sacrifício e oração”. A casa ilustra a vida comum dos religiosos contemplativos vivendo na “casa” de sua comunidade. O sacrifício de suas vidas inteiras é derramado ao pé da Cruz em união ao sacrifício de Nosso Senhor. Suas mortificações purificam não apenas as suas almas, mas as dos seus próximos. Suas orações são oferecidas pela glória de Deus e pela salvação das almas. Elas unem-se, intimamente, às orações dos padres missionários, quase compartilhando da oração do Pai mencionada pelo profeta Joel: “Chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, postos entre o vestíbulo e o altar, e digam: Perdoa, Senhor, perdoa ao teu povo, e não deixes cair a tua herança em opróbrio, de sorte que as nações a dominem”

O Reino de Deus funda-se sobre esse espírito, sejamos nós leigos, religiosos ou missionários. Infelizmente, o mundo moderno, construiu a “Cidade dos homens decaídos” ao negar esses valores. A família moderna pode ter uma casa confortável como moradia, mas eles, frequentemente, não têm um lar familiar. A ideia do sacrifício foi eliminada de suas confortáveis vidas, nas quais o prazer é o único objetivo real de sua existência. A oração foi substituída por reclamações, desespero e uma espécie de zombaria de Deus. Nossa sociedade moderna construiu uma civilização sobre as ruínas da noção católica de Cristandade. Estabelecemos uma morada confortável na qual os pais abortam seus filhos e praticam eutanásia para matar seus próprios pais, na qual a sensualidade do prazer pessoal é o ponto de referência para todas as decisões a serem tomadas, e na qual uma blasfêmia desesperadora zomba de nosso Criador. A “casa de sacrifício e oração” tornou-se um “abrigo de sensualidade de blasfêmia para os desabrigados”.

Nosso Senhor ensina que o Reino de Deus está dentro de nós. Ele também nos ordena buscar, primeiro, o Reino de Deus, e todas as outras coisas nos serão dadas. Para a reconstrução da Cristandade, devemos, primeiramente, estabelecer Nosso Senhor como Rei de nossas almas, tornar-nos seus amigos e entregar nossas vidas a Ele. Devemos viver continuamente na sua “casa de sacrifícios e orações”.

A Cristandade, ou o reino espiritual, é a real edificação da civilização. “Santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso Reino, seja feita Vossa vontade assim na terra como no Céu...”

(Revista The Angelus, Julho-Agosto de 2020. Tradução: Permanência)

Teresinha, templo de Deus

(No dia 11 de julho de 1937 encerrava-se em Lisieux o 11° Congresso Eucarístico Nacional da França com a consagração da Basílica dedicada a Sta. Teresinha.

O Papa Pio XI, devotíssimo da santa, tencionava pessoalmente presidir as cerimônias. Devido ao precário estado de saúde não conseguiu realizar o seu ardente desejo.

Enviou, então, como Legado Papal, o Cardeal Eugênio Pacelli, o futuro Papa Pio XII. Da admirável alocução do Cardeal Pacelli na consagração da Basílica destacamos o trecho onde enaltece Teresinha).

 

AS ROSAS PARA PIO XI

No alto da nova basílica, brilha a cruz triunfante iluminada pelo sol de junho. No alto do edifício espiritual é também a cruz que a vós se oferece na pessoa do Papa representada, aqui, por seu humilde delegado.

A cruz, porque “se todos que piedosamente querem viver no Cristo sofrem perseguição” são particularmente penosas para o coração do Pontífice atual e lhe arrancam queixas pungentes e solenes protestos as que, em diferentes países, sofrem seus filhos. Mas, nem a violência sacrílega das massas encegueiradas por falsos profetas nem os sofismas dos doutores da impiedade que desejariam descristianizar a vida de todos puderam vencer a resistência e aprisionar a palavra e a pena deste intrépido ancião.

No entanto, e bem o sabeis, fazem alguns meses que a seus sofrimentos morais somaram-se sofrimentos físicos. Nesses dias, a grande família católica por inteiro, de um extremo a outro do mundo, voltou-se com filial ansiedade para o leito de sofrimento do Pai comum prostrado por dores agudas suportadas com grandeza heróica e sobrenatural, com coragem viril e cristã. Cada manhã seus olhos acompanhavam os telegramas dos jornais; cada noite seus ouvidos abriam-se para o jornal falado difundido pelo rádio; pela manhã e à tarde e mesmo durante a noite uma oração constante partindo dos lábios e do coração de 300 milhões de fiéis animava o mundo a elevar-se, com o incenso de sacrifícios, diretamente ao coração de Deus. Invocava-se esse Coração divino pela intercessão de sua Mãe “a suplicante toda poderosa”, invocavam-se pela intercessão dos santos e das santas, sobretudo daqueles que parecem ser os canais das graças milagrosas. Assim foi principalmente ela a invocada, esta querida santa de Lisieux, por quem o Papa, e se sabia, sentia tão terna e confiante devoção. E veio a consolação depois da cruz. Quando a Igreja festejava a ressurreição do Senhor, a doença alivia o cerco e o Pontífice como que ressuscitando para uma nova vida, surpreende o mundo com a publicação quase simultânea de três Encíclicas.

Foi por um sentimento de especial gratidão para com a taumaturga de Lisieux que, não podendo comparecer pessoalmente, como desejaria, às jornadas festivas em sua homenagem, o Soberano Pontífice Pio XI fez-se representar por um embaixador especial: “Legatus a latere”, diz o que traduziríamos, nesta circunstâncias, como o mensageiro do seu coração tocado de indizível gratidão.

Esse embaixador que o Soberano Pontífice vos envia carregado de suas bênçãos paternais, ele não o quer de volta com as mãos vazias: “Traga-Nos três rosas de Lisieux, recomendou-lhe, que dizer três graças especiais que imploramos à querida Santinha. E não é trair a confiança e revelar-vos, para que imploreis com o Supremo Pastor, as três graças que ardentemente ele suplica. Permanecendo fiel ao gracioso símbolo que Sua Santidade escolheu, parece-me entrever Teresa do Menino Jesus cultivando, no Carmelo e para o Papa que a elevou aos altares, as três rosas que lhe pede. Vamos recebê-las de suas suaves mãos para levá-las à Sua Santidade.

Por primeiro a rosa vermelha rodeada de espinhos. Sim, é a imagem da primeira graça solicitada pelo Santo Padre: uma perfeita e filial conformidade com todos os desígnios de Deus mesmo que se cumpram no sofrimento.

Segundo, a rosa cor-de-rosa de pétalas rijas e numerosas, a primeira a abrir-se e a que ainda viceja nos dias de outono quando as outras já fenecem. Simboliza o desejo do Santo Padre de recuperar as forças e o vigor físico; não para fugir à dor, “non recuse dolorem”, mas para ainda trabalhar, “peto laborem”, com a magnífica energia que durante tantos anos pôs a serviço de Deus e do bem das almas!

Terceiro a rosa branca de cálice amplo e perfumado, a que justifica o seu título de rainha das flores, abrindo generosamente suas pétalas de veludo acariciante e imaculado, envolvendo-se de perfume ora vivo ora suave. Com essa magnífica flor permitimo-nos simbolizar o desejo do Santo Padre de santidade de vida e de zelo fervoroso para o clero secular e regular, chamando à salvação das almas a partir da própria santificação.

 

TERESINHA, TEMPLO DA LEI DE DEUS

Há um terceiro templo, uma terceira casa de Deus entre os homens que, certamente, não nos cabe dedicar ou consagrar Deus, já que Ele mesmo o fez, mas exaltar e glorificar no dia de hoje. Essa casa de Deus é a alma de vossa encantadora Santa Teresa do Menino Jesus.

Por humilde que fosse, por pequenina que desejasse ser, a alma da Santa Teresa foi um imenso e magnífico templo. Assim como a basílica que hoje se eleva em sua honra, ela abrigou, em si, a lei divina, a graça, a Eucaristia e podemos dizer, a totalidade dos fiéis, a Igreja. Foi, portanto, a casa viva de Deus entre os homens. “Ecce Tabernaculum Dei cum hominibus”. Já não sabemos que, segundo a doutrina do grande apóstolo São Paulo (1 Cor. 111, 16-17), cada um de nós é o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em nós? “Nescitis quia templum Dei estis et Spiritus Dei habitat in vobis?... Templum Dei sanctum est, quod estis vos”. É esta a nossa grandeza e a nossa mais alta dignidade. Feitos à imagem e semelhança divina, trazemos na fronte um raio celeste que conservamos, mesmo decaídos, testemunha de nossa sublime origem e que nos torna belos e grandes no mundo material que nos rodeia; grandeza e dignidade que se projeta para além do tempo penetrando a eternidade; preciosa aos olhos de Deus pois custou o sangue de um Deus. É ela que lava e purifica nosso espírito; por ela nossas almas marcadas em íntima união com a graça e a caridade que o Espírito Santo transborda em nossos corações tornam-se o edifício espiritual construído nos alicerces dos apóstolos e dos profetas tendo por pedra angular o próprio Jesus Cristo: “Superrædificati super fundamentum Apostolorum et Prophetarum, ipse summa angulari lapide Christo Jesu” (Ephos. 11,20); sobre esta pedra fundamental todo edifício bem projetado eleva-se como templo santo para o Senhor, sobre ela somos transformados pelo Espírito em habitação de Deus: “In quo emnis ædificatio constructa crescir in templum sanctum in Domine, in que et vos coædificamini in habitaculum Dei in Spiritu” (Ephos. 11, 21-22), o Espírito de vida, de verdade de caminho para o céu.

 Deus hoje habita em seus templos, dizíamos há pouco, não como naqueles em que outrora repousavam insensíveis e inertes as tábuas da lei antiga – mas pelos ministros do seu poder, pelos mandatários de sua jurisdição que em nossas igrejas promulgam sua Lei e sancionam sua observância. Assim essa lei divina aí permanece viva e atuante guiando as almas no caminho da retidão e da pureza fora dos quais a natureza fraca e corrompida não  conhece senão descaminhos e vergonhas.

            A Lei de Deus assim foi, viva e ativa, na alma de Teresa. Como a outra Virgem, de quem nos falam os Atos “que trazia sempre no peito o Evangelho do Senhor” Teresa trazia sempre presente em sua alma e seu coração, a Lei e os conselhos divinos de seu bem amado Jesus Cristo.

           

TERESINHA, TEMPLO DA DOUTRINA DE DEUS

Ela lhe conhecia os segredos muito além do que aprendera pela leitura e pelo estudo. Contudo, não descuidou de instruir-se. O mesmo Soberano Pontífice que nos diz: “Agradou-se a Divina Bondade dotando-a e enriquecendo-a de um dom de sabedoria excepcional” declara também: “Ela buscou fartamente nas lições de catecismo a pura doutrina da fé; a do ascetismo no livro de ouro da Imitação de Cristo; a da mística nos escritos de seu Pai, São João da Cruz. Sobretudo nutria seu espírito e coração na meditação das Sagradas Escrituras; e o Espírito da verdade ensinou-lhe o que habitualmente esconde aos sábios e aos prudentes e revela aos humildes. Ela adquiriu uma tal ciência das coisas sobrenaturais que foi capaz de traçar para os outros um caminho seguro de salvação”.

Traçar m caminho, um “caminhozinho”. Sua ciência das coisas divinas, em parte adquirida, em parte infusa, ela não a guardou para si. Disse: “Minha missão é de ensinar a amar a Deus como eu O amo e de entregar meu ‘caminhozinho’ às almas”. É este um dos mais maravilhosos ângulos dessa figura tão atraente: a carmelitazinha, que do fundo do seu convento dá lições ao mundo do nosso século tão orgulhoso de sua ciência. Ela tem uma missão; tem uma doutrina. Mas sua doutrina, como ela mesma, é humilde e simples; resume-se em duas palavras: “Infância espiritual” ou em sua equivalente: “Caminhozinho”.

Não temos nós o Evangelho ensinando-nos há vinte séculos que “o Reino do Céu pertence às crianças e aos que a elas se assemelham”? O mestre o disse; doutores e santos comentaram sua palavra; mas para confirmá-lo objetivamente, como de todos o mais claro e decisivo comentário, temos a aplicação literal e integral desse princípio na orientação de uma vida inteira que por este “caminhozinho” elevou-se, em poucos anos, à maior e mais alta perfeição.    

É sobretudo por ele que Teresa ilumina e subjuga tantas almas. “Ela fascina o mundo pela magia do seu exemplo” diz Pio XI. Porque, depois de adquirir a ciência das coisas divinas, compreendeu o que Bossuet chama a “desgraça de toda ciência que não termina no amor”. Sua ciência de Deus levou-a a amá-Lo ilimitadamente do momento em que foi capaz de conhecê-Lo.         Apesar de, desde os três anos de idade jamais haver-Lhe recusado qualquer coisa. Foi sobre um ato de amor que, despertou sua alma; foi sobre um ato de amor que se cerraram seus olhos e seu coração quando murmurou no último suspiro: “Meu Deus, eu vos amo!” No entanto o amor não terminava com a vida; sua mensagem e sua missão não terminariam também. “Sinto, dizia pouco antes de morrer, que minha missão vai começar”. É impossível à palavra humana descrever o alcance desta missão e dos seus resultados.

O gênio brilhante de Agostinho, a sabedoria de Tomás de Aquino, projetaram sobre as almas raios de indestrutível clareza; por eles, o Cristo e sua doutrina são melhor conhecidos. O poema vivido por Francisco de Assis mostrou ao mundo uma imitação, até então inigualada da vida de Deus feito homem. Por ela legiões de homens e mulheres aprenderam a melhor amá-Lo. Porém, uma carmelitazinha, apenas chegada à idade adulta, conquistou, em menos de meio século, incontáveis falanges de discípulos. Em sua escola os doutores da lei tornaram a ser crianças; o supremo Pastor a exalta e reza a seus pés em humilde e assídua súplica; e agora mesmo, de um extremo a outro do mundo, há milhões de almas beneficamente influenciadas pelo livrinho: A história de uma alma.

Tinha muita razão dizendo a nossa querida Santa: “Sinto que minha missão vai começar. Minha missão é dar meu ‘caminhozinho’ aos outros”.

 

TERESINHA, TEMPLO DA GRAÇA

A alma de Teresa, templo da lei divina, luminosamente conhecida, amorosamente observada e ardentemente ensinada aos outros, foi também a habitação da graça, isto é, do próprio Deus.

Lembrávamos há pouco: todo homem nascido, privado por triste herança das predileções divinas porém remido pela Incarnação e morte de Jesus Cristo, pode, pelo batismo, voltar a ser filho de Deus. Torna a sê-lo mesmo depois das quedas do pecado pessoal desde que, na sinceridade de sua vergonha e dor, recorra aos méritos infinitos da Redenção.

Tudo é mistério da graça, participação real porém invisível da invisível natureza de Deus. É o mistério dos Sacramentos, sinais sensíveis dessa graça. É o mistério da incorporação do cristão a Jesus Cristo e da habitação, em nós, das três pessoas divinas. Toda alma em estado de graça é a casa de Deus.

Ora, essa graça do batismo, não somente Teresa nunca a perdeu pelo pecado como ainda sempre aumentou o seu tesouro por atos de amor e por mais íntima união com Aquele que é o seu autor e seu princípio: “Meu céu, eu o encontrei na Santíssima Trindade que mora em meu coração prisioneira do amor”.

Era assim que gostava de cantar.

Apesar dessa misteriosa união com Deus escapar às nossas avaliações e pobres medidas humanas, sabemos que pode não somente existir ou desaparecer como aumentar ou diminuir segundo a resposta da alma às suas sucessivas influências. Ações poderosas mas tão suaves que são chamadas toques da graça; ações divinas mas tão respeitosas da liberdade humana que qualificam-nas de chamados. Enfim, ações que, mesmo atuando em nós em conseqüência de uma operação extrínseca, de um ato realizado independente de nós mesmos (ex opere operato) terão maior ou menor eficácia dependendo da colaboração que nossa alma lhes der.

É por esta razão que, se a plenitude da divindade não habitou senão em Jesus pela união pessoal com uma natureza humana, os santos doutores sempre se extasiaram contemplando a morada de Deus na Virgem-Mãe. Porque Ela, cheia de graça desde o momento de sua concepção imaculada, não cessa durante toda sua vida mortal de aumentar seu tesouro por uma conformidade perfeita do seu querer com o querer divino, por uma correspondência absoluta e incessante a todos os chamados de Deus.

Sem atingir as alturas que o Filho de Deus reservou a sua Mãe, estamos seguros que Ele permitiu uma familiaridade incomum a esta alminha de criança para a qual jamais existiu outro prazer e outro querer que não fosse o prazer divino. Se alguém me ama, disse Ele, guardará minha palavra e meu Pai o amará; e viremos a ele e nele estabeleceremos a nossa morada. Ecce Tabernaculum Dei cum hominibus.

 

TERESINHA, TEMPLO EUCARÍSTICO

Teresa foi um tabernáculo sobretudo por sua devoção eucarística. Como no templo material onde tudo existe em função do altar e do viático, assim na alma de Teresa, templo espiritual de Deus, o lugar de honra e de predileção sempre pertenceu a Jesus-Hóstia.

Quando pequenina, querendo participar das lições de catecismo e dos encontros piedosos de suas irmãs mais velhas dizia que “quatro anos não são demais para preparar a primeira Comunhão”.

Conheceis seu cândido amor pelas procissões do Santíssimo Sacramento quando, na alegria de atirar flores a Jesus cuidava de jogá-las bem alto para que, ao caírem, tocassem o ostensório. Sabeis que durante a preparação próxima da Primeira Comunhão pressentiu as alegrias secretas da vida conventual fazendo também a experiência do sacrifício, multiplicando as orações e os atos de renúncia. Em dois meses anotou num caderninho recebido de Carmelo o total de 818 sacrifícios e 2.773 aspirações ou atos de amor.

Sabeis, por fim, o que disse do seu primeiro encontro com Jesus-Hóstia: “Sim, foi um beijo de amor! Sentia-me amada e dizia: Eu te amo, eu me entrego para sempre! Jesus nada pediu-me, nem ao menos um sacrifício. Há muito tempo Ele e a pequena Teresa olhavam-se e compreendiam-se. Nesse dia, nosso encontro não foi um olhar mas uma fusão. Não éramos mais dois. Teresa desaparecera como a gota d’água no oceano. Jesus permanecia só”.

Sim, hóspede único na alma de Teresa, tabernáculo de sua escolha. Quem saberá as confidências trocadas no mistério desse tabernáculo? Eram ingênuas e ternas pois que o alimento substancial dos que a conhecem e lutam mas também o primeiro alimento dos pequeninos, o angélico bocado das almas de criança. Eram sérios e profundos pois que Teresa, à sua inocente e virginal ternura, somava imenso respeito pela Hóstia da qual procurava com o olhar as imperceptíveis parcelas na patena que volta à sacristia envolvendo-as de homenagens e chamando outras irmãs para adorá-las à espera do sacerdote que vinha recolhê-las. Eram sinais significativos já que numa época em que restos de jansenismo conservavam as almas sonolentas de um falso respeito que as distanciava da comunhão, Teresa sentia uma fome imperiosa deste pão cotidiano e consolava-se de sua privação forçada pelo aviso profético dos decretos salvadores que abriram para as almas o acesso à Mesa Santa. Eram íntimos e sublimes, inacessíveis à palavra pois que, desde a sua primeira Comunhão compreendeu o poder redentor do sofrimento humano unido ao sofrimento do Cristo e pede a Deus que “transforme em amargura qualquer consolação terrena”. Foi magnificamente ouvida. Seu caminhozinho, por ser coberto de rosas, foi ainda mais rico em espinhos: espinhos das dores físicas da doença, espinhos da incompreensão e, por vezes, da contradição, espinhos mesmo do aparente abandono do Bem Amado que, no leito de morte lhe arrancaria esta confissão: “É agonia pura, sem sombra de consolação”.

Em cada uma de suas sucessivas comunhões Deus fê-la aprofundar pouco a pouco mais o mistério da dor redentora. O amor que a devorava e sua sede de reparação dela fizeram uma hóstia viva unida à Hóstia perpetuamente oferecida. Da Hóstia divina parecia ter copiado a aparência exterior da brancura e fragilidade não apenas pela candura angélica de sua alma que lhe transfigurava a fisionomia mas também pela palidez de seus traços desfeitos. Estava no fim de suas forças, gravemente enferma quando, um dia, arrastou-se até a capela para a missa e a comunhão; como uma irmã apiedava-se vendo-a tão fraca replicou: “Não acho que seja muito sofrimento para ganhar uma comunhão”.

Assim foi, a vida inteira, o que desejara ser quando visitara a santa casa de Lorette: “O templo vivo de Jesus”.

 

TERESINHA, TEMPLO DA IGREJA UNIVERSAL

Um último traço fazia da alma de Teresa a casa de Deus, Templo da lei e da doutrina divina, templo da graça sobrenatural, tabernáculo vivo de Jesus-Hóstia, ela era também, pela amplitude dos seus desejos, o templo da Igreja Universal; “Ecclesia Dei”. Escutemos o que ela mesma diz de suas ações de graça: 

“Imagino minha alma como um terreno disponível e peço à Virgem Maria que dele remova os detritos das imperfeições; a seguir peço que Ela mesma nele erga uma grande tenda digna do céu e a guarneça de seus enfeites. Convido os anjos e santos para que venham cantar cânticos de amor. Parece-me, então, que Jesus fica contente vendo-se magnificamente recebido e eu compartilho de sua alegria”.

Eis a Igreja triunfante descendo à alma de Teresa. Veremos nela a Igreja padecente? Sem duvida, pois que dela não poderia Teresa desinteressar-se. Todavia, estas almas já ao abrigo do pecado e próximas da visão beatífica pareciam-lhe mais objeto de inveja que de pena: “Não quero, dizia ela, que peçam a Deus para me livrar das chamas do purgatório. E Santa Teresa d’Ávila declarava às suas filhas que queriam por ela rezar: ‘Que importa ficar, até o fim do mundo, no purgatório se por minhas orações posso salvar uma única alma?’”.

A Igreja militante sempre existiu na alma de Teresa pela união de solidariedade que une todas as almas em estado de graça, como membros de um mesmo corpo. Porque devem ser e são inseparáveis os membros que participam de uma só e única vida: ora, nossa vida é o Cristo, a graça de sua Redenção sangrenta tornada sangue espiritual de nossas almas.

Contudo, a massa branca dos eleitos não satisfaz Teresa e o templo de seu zelo projeta-se mais além. Porque o Cristo morreu por todos os homens ela desejaria salvá-los, a todos. Assim como Paulo de Tarso, não podia pensar sem lágrimas de dor que “o Cristo tem inimigos”; e como Francisco de Assis não se resignava vendo que “o Amor não é amado”.

Eis porque salvar almas conduzindo-as ao conhecimento e ao amor de Jesus Cristo foi sua mais ardente aspiração. “O amor de Deus, o amor de Jesus, dela dirá Pio XI, inspiravam-lhe magníficos gestos de apóstolo e de mártir”.

 Desejou o carmelo de Hanói para estar mais próxima do terreno missionário. E sua vida passa-se em Lisieux, na oração e no silencio. Muitas vezes nossos olhos detiveram-se sobre a sacristia aparentemente absorvida em preparar o cálice e o missal para a missa da comunidade. Facilmente acreditaríamos que seus horizontes espirituais limitavam-se aos muros brancos da capela ou, no máximo, aos da clausura que limita os jardins silenciosos do convento. Como nos enganaríamos!

Quando no Natal de 1886 iniciou o que chamava o terceiro período de sua vida, “o mais belo de todos, o mais cheio de graças do céu”, Jesus maravilhosamente transforma essa vida espiritual já inteiramente votada a seu serviço, ou fazendo de Teresa, segundo ela mesma diz, “um pescador de almas”. Na muda contemplação das mãos divinas trespassados por nós e tantas vezes derramando seu sangue inutilmente sobre a terra, compreendeu, um dia, a grito ansiado do Redentor: “Tenho sede!” “Desde então, diz ela, desejei dar de beber ao Bem Amado; senti-me devorada pela sede de almas... e quanto mais Lhe dava a beber mais aumentava a sede de minha pobre alminha e recebia essa sede ardente como minha recompensa”.

Refletindo sobre o dia 8 de setembro quando, segundo suas próprias palavras, tornou-se “a esposa do Rei dos céus” acrescentava: “Seu único objetivo era salvar almas sobretudo almas de apóstolos. A Jesus, seu divino Esposo pedia para si particularmente o ter uma alma apostólica. Não podendo ser sacerdote desejou que, em seu lugar, um sacerdote recebesse os dons do Senhor e que sentisse os seus desejos”.

Bem sabia que, se as aspirações e desejos dos missionários podiam ser os seus, sabia também que os meios de ação deveriam ser diferentes: “Para eles, as armas apostólicas; para mim, a oração e o amor... Trabalhar para a salvação das almas é o objetivo que me levou a ser carmelita. Não podendo ser missionária pela ação quis sê-lo pelo amor e pela penitência”.

Começou ainda criança. Sua primeira conquista, lembrai-vos, foi um celebre condenado à morte. Não acabou nunca de rezar e de se imolar pelas almas: sua última comunhão, dia 19 de agosto de 1897, na festa de Santa Jacinta, foi oferecida por um bem conhecido apóstata.

Entre essas duas comunhões, quantas outras almas teria salvo durante a sua vida, pelo sacrifício e pela oração? Só Deus sabe e esta será sem dúvida, uma de nossas maravilhosas surpresas, no céu.

Mas, ainda era pouco para o seu amor. “Gostaria de salvar almas mesmo depois de minha morte... Desejaria ter no céu o mesmo que na terra: amar Jesus e fazê-Lo amado. Espero não ficar inativa lá em cima. Meu desejo é ainda o de trabalhar pela Igreja e pelas almas. É o que peço ao bom Deus e estou certa que me ouvirá”.

O que se seguiu à sua morte, canta pelo mundo inteiro o quanto Ele há quarenta anos a ouve e ouvirá sempre. A epopéia de suas conquistas apostólicas orquestradas pela voz das nações, ecoa de um pólo a outro; a santa Igreja, ela mesma, modulou o tema e ritmou o compasso abreviando todos os prazos canônicos para elevar Teresa aos altares e proclamando – a pequena contemplativa morta aos 24 anos! – Padroeira universal das Missões.

Como sois grande, pequenina Santa! E numerosa é vossa família espiritual. Sois grande, pequenina alma! Pequeno tabernáculo de Deus vivo entre nós, tornaste-vos o refúgio da humanidade que reza, que sofre, que milita e que cada dia a vós recorre!

Nos hinos que em vosso louvor se elevam parece-me ouvir um eco daquele que cantava Isaías à glória da nova Sion: “Gritem de alegria... transbordem de satisfação! Conquistem o espaço e ampliem muito a tenda. Não lhe neguem o aumento. Soltem-lhe as cordas e que os piedosos as sustentem. Porque te expandirás à direita e à esquerda; e tua posteridade tomará posse das nações e povoará as cidades desertas”.

Cada dia vós acolheis, ó Teresa! Legiões de crianças que vos consagram sua inocência, virgens que vos seguem na clausura, doente a quem dais ou saúde ao corpo ou o admirável heroísmo de vossa conformidade com o querer do Amor misericordioso. Sois vós que sustentais os missionários nas fadigas e decepções de seu apostolado distante; vossa imagem trouxe-lhes o sorriso na frigidez dos “isbas”, na aridez das choupanas, na imensidão dos desertos de areia, dos oceanos e até nas nuvens e nas alturas do firmamento.

Pequeno templo de Deus, sois o templo imenso de uma humanidade conquistado por vós. Ecce tabernaculum Dei cum hominibus.

 

(Tradução de Maria Helena Pinto Fraga).

Glória a São Miguel

Pe. Xavier Beauvais, FSSPX

Nosso glorioso arcanjo recebeu do Senhor uma multidão de privilégios na Igreja triunfante. Seu amor pelos anjos o faz merecer o belo título de "Pai dos anjos ”, porque, segundo São Jerônimo, no céu, os anjos que cuidam de outros anjos, são chamados de pais dos anjos. O dever de um pai é alimentar seus filhos. O célebre arcanjo, zelando pela honra de Deus e da salvação dos anjos, alimentou-os com caridade, protegeu-os do veneno do orgulho.

É por isso que os anjos o reverenciam e o honram como seu pai. Ele os apoiou e os salvou da perdição. E como pai extremoso, ele os alertou para não se deixarem cegar pela idéia de uma revolta, e os confirmou na fidelidade a Deus. Ele pode lhes falar como São Paulo falava aos primeiros cristãos: "Eu vos gerei na fidelidade e reconhecimento para com o Criador, na firmeza, na fé aos mistérios revelados, na coragem de resistir à tentação de Lúcifer”.

A grandeza do glorioso São Miguel se manifesta também pelo fato dele ter sido no céu, o apóstolo dos anjos. Santo Tomás e São Boaventura pensam que os anjos de uma ordem superior instruem, iluminam e comunicam no céu as suas perfeições aos anjos de uma ordem inferior. Eles os instruem, ao lhes fazer conhecer o que que não conheciam; eles os iluminam ao lhes comunicar sua maneira mais perfeita de conhecer; eles se tornam mais perfeitos, ao tornar mais profundo seus conhecimentos. Assim como na Igreja há apóstolos, profetas e doutores para iluminar e para aperfeiçoar os fiéis, da mesma forma, há entre os anjos várias ordens para que os superiores sejam guia e luz para os inferiores. A nota particular de São Miguel é a de iluminar os anjos. Ele o fez quando Lúcifer quis conduzi-los ao pecado da revolta, tendo já havia conseguido convencer um grande número deles a atribuir a si próprios e não a Deus, a grandeza e a magnificência de suas naturezas, e a se julgarem capazes de desfrutar da bem-aventurança eterna sem o auxílio divino. Houve uma luta nos céus: Lúcifer de um lado, cheio de orgulho junto aos anjos rebeldes, desejando ser semelhante a Deus, seduzindo e liderando em seguida uma grande parte das tropas angelicais sob o estandarte da revolta, proferindo seu grito de guerra contra Deus, com o propósito de derrubar seu trono. São Miguel, por sua vez, chefiou os anjos e gritou: "Quem é como Deus?", ou seja, quem é tão ousado a ponto de pretender se assemelhar a Deus?

São João chama este combate de "uma grande guerra", grande pelo local onde ocorreu, pela qualidade dos combatentes, por seu número e motivo.

Esta guerra foi declarada para derrubar Deus de seu trono e pela recusa a reconhecer ao Filho de Deus na encarnação futura. Guerra cujo resultado será a vitória de São Miguel e a precipitação dos anjos rebeldes nos abismos.

Pai dos anjos, Apóstolo dos anjos, Chefe da milícias angélica ... Depois de Lúcifer ter caído do céu por seu pecado de orgulho, São Miguel ocupa o seu lugar e torna-se o chefe dos anjos bons, como Lúcifer se tornou o chefe dos anjos rebeldes. É por isso que a Igreja chama São Miguel de "o chefe da milícia celeste”, ou, como São Luís de Gonzaga: "O capitão invencível dos exércitos celestiais" e novamente, chefe dos chefes dos anjos, de acordo com a palavra de o arcanjo Gabriel ao profeta Daniel. "Miguel, primeiro dos principais chefes ”. A Sagrada Escritura nos prova por fatos essa primazia.

São Miguel ordena ao arcanjo Gabriel de explicar a visão a Daniel. Este último obedece imediatamente, embora seja um dos maiores entre os espíritos angelicais. Por este primado, São Miguel supera em dignidade a todos os anjos e a todos os reis da Terra. São Miguel exerce sua primazia sobre os nove coros dos anjos.

Ele reina não apenas sobre as nações, sobre os humanos, mas também sobre o coro dos anjos. Deus, na verdade, marcou São Miguel com o selo de sua grandeza.

Ele também é o Patrono dos anjos da guarda. A autoridade de São Miguel é tão extensa que cabe a ele dar para os homens os anjos da guarda, como escreveu São Bruno. Ele possui esse encargo por duas razões: primeiro por ser o chefe de todos os anjos e o vigário de Deus -- é por isso que governa os anjos e dá a cada um deles ofício e ministério. Segundo por ter recebido o governo dos homens e dever, portanto, defendê-los, protegê-los por meio dos anjos da guarda. É com grande amor que São Miguel guarda os fiéis, aqueles que vivem de acordo com a fé. Desde o nosso nascimento ele designa um anjo encarregado de guardar e defender nossa própria pessoa, de todos os males físicos e morais (com o concurso nossa cooperação). Devemos respeitar sua presença e ouvir a sua voz, encarregado que são também de nos guiar.

Enquanto o demônio, no dizer de São Pedro, ainda ronda ao redor de nós como um leão faminto, procurando por sua presa e tentando devorá-la, São Miguel, pai atencioso e amigo vigilante está sempre pronto para o combate, envia os anjos para repelir o inimigo infernal e seus ataques. O afeto dele para os fiéis, supera o dos anjos, porque cuida de todos os homens, e, não contente em enviar os anjos, ele próprio cuida das necessidades particulares de cada um. Ele dá ordem aos anjos para tomarem a defesa dos fiéis, aquele que Daniel chama de "vigilante".

Cabe-nos, portanto, implorar incansavelmente a ajuda de nosso grande arcanjo São Miguel, para uma renovação nacional.

A França, que tantas vezes foi-lhe consagrada, não perdeu o benefício desta consagração. É uma devoção eminentemente católica, como disse o Bispo de Bois de la Villerabel, e profundamente francesa.

São Miguel, é a indignação, a rebelião da inteligência e do coração em face daquilo que nem razão nem o coração pode admitir sem negar a si mesmo. Ele é aquele que nos defende na luta pela fé, na luta pela nossa identidade católica e nacional. -- São Miguel, defendei-nos no combate para não perecermos na hora do juízo.

Tenho sede!

Charles Journet

 

Na Quinta-feira Santa Jesus dissera a seus discípulos: “Tenho desejado, ansiosamente, comer convosco esta páscoa, antes de sofrer” 1. Como pôde desejar assim a páscoa na qual vão começar sua agonia e Paixão? A resposta secreta está contida numa só realidade: desde a sua entrada no mundo2, Jesus está devorado e consumido pelo desejo de reparar a ofensa infinita feita a Deus pelo pecado, e abrir aos homens as fontes do perdão prometidas pelo profeta3. A aproximação do suplício sangrento da Cruz, pelo qual todas as coisas na terra e nos céus vão-se reconciliar4, traz-Lhe misterioso reconforto.

A sede do desejo que atormenta a Jesus é salientada por Santo Agostinho nos seus comentários sobre os salmos: “Desejaria o Cristo realmente comer quando procurava os frutos da figueira, para apanhá-los se os encontrasse?” 5. Desejaria Ele, realmente, beber, quando dizia à mulher de Samaria: Dai-me de beber? E quando disse, sobre a Cruz: Tenho sede? Do que teria o Cristo fome? Do que teria sede, senão de nossas boas obras?” 6. E ainda: “Que haverá de mais evidente que os homens devem ser atraídos pelo batismo para esse corpo da cidade de Jerusalém, da qual era imagem o povo de Israel... Até o fim, esse corpo estará sedento: caminha e tem sede. Acolhe multidões nele, jamais, porém cessará de ter sede. Daí provém a palavra de Jesus: Tenho sede, mulher, dá-me de beber. A Samaritana junto ao poço compreende que o Senhor está com vontade de beber e é saciada por Aquele que tem sede. Assim compreende a princípio, e Ele, então, a acolhe quando ela crê. E sobre a Cruz, Ele diz: Tenho sede! Não lhe deram, porém, aquilo do que tinha sede. Era deles que tinha sede, e deram-Lhe vinagre...” 7

Santo Tomás insistirá, ao mesmo tempo, sobre os dois sentidos, um carnal, outro espiritual, do Sitio8: “Se Jesus diz: tenho sede! É antes de tudo, porque morre de morte verdadeira, não da morte de um fantasma. Ainda aqui aparece seu desejo ardente da salvação do gênero humano, conforme diz São Paulo: Deus, nosso Salvador, quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade9. Jesus mesmo dissera: O Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido10. Ora, a veemência do desejo exprime-se, muitas vezes, pela sede, como diz o salmista11: Minha alma tem sede do Deus vivo”.

Esses aspectos são especialmente preferidos por Santa Catarina de Siena. “É a fome e a sede do ansioso desejo que Jesus tinha de nossa salvação, escreve ela, que o faziam exclamar sobre o madeiro da Santa Cruz: Tenho sede! Como se dissesse: Tenho sede e desejo de vossa salvação, mais do que vos pode demonstrar o suplício corporal da sede. Sim, porque a sede do corpo é limitada, mas a sede do santo desejo não tem limites” 12. Em outra carta, explica que, se Jesus foi saturado de opróbrios no seu corpo, Ele é insaciável no desejo. Desde o momento da Encarnação, tomou sobre si a Cruz do desejo de fazer a vontade do Pai e de salvar o mundo. É uma cruz mais pesada do que qualquer outra dor corporal. E assim, quando se aproxima o Seu fim, na Ceia da quinta-feira santa, exulta em espírito: o sofrimento do sacrifício, desde então iminente, vai afastar o sofrimento do desejo; por ela, o desejo será atendido13.

Como teria a Santa de Siena compreendido tão intensamente a sede de fazer a vontade do Pai e de salvar o mundo, que dilacerava Jesus na Cruz, se algo dessa chama não existisse nela para devorá-la? Sua carta n. XVI dirige-se a um importante prelado. Com a impetuosidade de seu desejo, fala-lhe dos apaixonados de Deus que, vendo a ofensa que Lhe é feita no mundo e a condenação das criaturas, chegam a perder o sentimento da própria vida. Não fogem dos sofrimentos, mas vão a seu encontro. Glorificam-se deles como São Paulo nas suas tribulações. Oh! Segui este Apóstolo, acrescenta Catarina com audácia. Abri os olhos. O lobo infernal atira-se sobre as ovelhas que pastam nos jardins da santa Igreja. Ninguém ousa arrancá-las de suas presas. Os pastores dormem no amor de si mesmos, na cupidez, na impureza. O orgulho embriaga-os a ponto de não verem que a graça os desertou. Amam-se a si mesmos e não a Deus. Fingem não ver o mal: calam-se e deixam-no crescer. “Ó Pai muito querido! Deste amor de vós mesmo, quero que sejais isento! Eu vos conjuro, fazei que a Verdade primeira não tenha que vos repreender um dia, dizendo: Maldito sejas tu, tu que te calaste!”.

De Maria da Encarnação temos o seguinte relato: sendo ainda ursulina no Convento de Tours, foi transportada, soerguida pelo espírito apostólico e viu a indigência das terras em estado de missão que se abriam diante dela e inflamavam-lhe o desejo: “Por uma certeza interior, via os demônios triunfarem sobre aquelas pobres almas que ele arrebatava do domínio de Jesus Cristo, nosso divino Mestre e soberano Senhor, que, entretanto, os havia resgatado com seu precioso Sangue. Diante da certeza do que via, fui tomada de tal zelo que, não me contendo mais, estreitei de encontro ao peito todas aquelas pobres almas, e apresentei-as ao Pai Eterno, dizendo-Lhe que já estava em tempo de fazer justiça em favor de meu Esposo. Lembrei-Lhe que Lhe prometera todas as nações por herança, e que além do mais, Ele satisfizera, pelo seu Sangue, todos os pecados dos homens... Que embora houvesse morrido por todos, nem todos viviam, como, por exemplo, aquelas almas que eu lhe apresentava e trazia sobre mim. Queria-as todas para Jesus Cristo ao qual, de direito, pertenciam” 14.

Santa Teresinha sentia seu ardor de salvar o mundo identificar-se com o da Igreja eterna: “Queria esclarecer as almas como faziam os profetas, os doutores. Gostaria de percorrer a terra, pregar vosso nome, e plantar sobre o solo infiel vossa Cruz gloriosa, ó meu Bem-Amado! Uma única missão, porém, não me bastaria: queria anunciar o Evangelho ao mesmo tempo em todas as partes do mundo e até mesmo nas ilhas mais distantes. Queria ser missionária, não somente durante alguns anos, mas gostaria de tê-lo sido desde a criação do mundo e continuá-lo a ser até a consumação dos séculos” 15.

Assim os santos, à imitação de Cristo, têm sede da salvação do mundo. O sofrimento redentor do Cristo na Cruz, que exteriormente podemos descrever com acerto, não mostra a sua veemência, suas terríveis exigências senão àqueles que, através dos tempos, consentem em perder-se nela, sem nada reservar para si mesmos. É o mistério da co-redenção que lhes abre as portas supremos do mistério da redenção.

Jesus ora pelo mundo inteiro, se por “mundo inteiro” compreendemos todas as criaturas humanas. Entrega-se por todas e cada uma delas. “Filhinhos meus, diz São João, eu vos escrevo estas coisas a fim de que não pequeis, mas se algum de vós pecar, temos por advogado, junto do Pai, Jesus Cristo, o justo. Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” 16. Se Jesus envia seus discípulos por toda parte, é a fim de que o mundo creia que o Pai O enviou17. É para que “todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” de que Ele é o único mediador entre Deus e os homens, “que se deu a Si mesmo em resgate para todos” 18. Todos aqueles que forem salvos, sê-lo-ão pela única oração redentora que nos foi dada: a oração de Jesus na Cruz.

Entretanto, Jesus não reza pelo mundo, quando “mundo” significa cidade do mal19. Ele roga contra o mundo. Roga por todos os homens, contra o mundo que está neles, para arranca-los do mundo que neles está, e transferi-los integralmente para a cidade de Deus. Todavia, esta oração mesma de Jesus pode ser recusada. Resisto contra ela, fecho-lhe meu coração. O Amor que vem a mim, primeiramente no presépio, depois sobre a Cruz, posso rejeitá-lo. Eis o inferno. Que este possa ser finalmente preferido por muitos, é a suprema causa da indizível agonia do Salvador.

“Pensava em ti na minha agonia; derramei tais gotas de sangue por ti” 20. Teologicamente, essas palavras são verdadeiras. Na essência divina onde mergulhava a sua visão, Jesus abrangia num só olhar todo o desenrolar concreto da história do mundo. Via, em cada minuto da existência, todas as almas imortais pelas quais intercedia. Conhecia cada pecado, cada ofensa infinita feita ao Amor. Nossas infidelidades de hoje e de amanhã O feriram. Desolaram a sua agonia. Foi por elas que — conscientemente — Ele morreu. Uma que fosse..., e essa já reclamaria a redenção infinita. A agonia de Jesus é assim coextensiva a toda a tragédia humana. Toda a duração do tempo, todas as novas faltas e omissões estão contidas nas profundezas do único instante da Paixão redentora. Ora, se Jesus sofreu pelos pecados que ainda serão cometidos, e que virão até o fim do mundo, então, — e esta verdade é tremenda — sou eu que, pecando amanhã, te-lo-ei posto em agonia há dois mil anos. É um dos sentidos de outro pensamento de Pascal: “Jesus estará em agonia até o fim do mundo: não se pode dormir durante esse tempo”.

Referindo-se àqueles que experimentaram o dom de Deus e renegaram-no depois, a Epístola aos Hebreus, usando de uma palavra misteriosa, declara com autoridade “que eles crucificaram em si mesmos o Filho de Deus e O expõem à ignomínia” 21.

Nossos pecados de amanhã contribuíram para a agonia de Jesus. Em compensação, e isso é verdade, nossas fidelidades de amanhã te-lo-ão consolado. Pio XI assim se expressou, na Encíclica Miserentissimus Redemptor22: “Se a previsão de nossas faltas deixava a alma de Cristo triste até a morte, como duvidar que a previsão de nossas reparações futuras não lhe proporcionava, desde aquele instante, alguma doçura? Não nos diz o Evangelho que sua tristeza e angústia puderam ser consoladas pela visita do Anjo? Aquele Coração muito santo, ferido incessantemente, pela ingratidão do pecado, temos que consolá-lo agora, e nós o podemos, de maneira misteriosa, mas verdadeira. Com razão pôde queixar-se o Cristo, na liturgia, pela boca do salmista, de ser abandonado pelos seus amigos: “Tu conheces o meu opróbrio, minha confusão e minha vergonha. A afronta partiu-me o coração. Esperei que alguém se condoesse de mim e não houve ninguém” 23.

 

(Transcrição parcial da obra “As sete palavras” de Charles Journet).

  1. 1. Lc 22,15.
  2. 2. “É impossível que o sangue dos touros e dos bodes apague os pecados. Eis por que o Cristo, entrando no mundo, disse: Tu não quiseste nem sacrifícios nem oferendas; mas tu me formaste um Corpo. Os holocaustos pelos pecados não te agradaram. Então eu disse: Eis-me que venho, ó Deus, para fazer a tua vontade”, Hebr. X, 4-7.
  3. 3. “Neste tempo haverá uma fonte aberta para a casa de Davi e para os habitantes de Jerusalém, a fim de lavar o pecado e as manchas”. Zacarias, XIII, 1.
  4. 4. Aprouve ao Pai “reconciliar por Ele todas as coisas, pacificando, pelo Sangue de sua Cruz, tanto o que está na terra, como o que está no céu”. Cl 1, 20.
  5. 5. “E no outro dia, ao sair de Betânia, teve fome. E tendo visto ao longe uma figueira que tinha folhas, foi lá a ver se acharia nela alguma coisa. Tendo-se aproximado, nada encontrou senão folhas, porque não era tempo dos figos”. Mr, XI, 13.
  6. 6. Enarr, in Ps. XXXIV, Sermo 2, n.4.
  7. 7. Enarr, in Os. LXI, n. 9.
  8. 8. Commentaire de Saint Jean, XIX, 28.
  9. 9. I Tim., II, 3-4.
  10. 10. Lucas, XIX, 10.
  11. 11. Salmo XLII (XLI), 3.
  12. 12. Epistolário, ed. Misciatelli, Siena, 1913, Carta VIII, t. I, pág. 34.
  13. 13. “Com la pena corporale si cacciava la pena Del desiderio; perocchè vedevo adempito quello che io desideravo”. Carta XVI, t. I, pág. 65.
  14. 14. Ecrits spirituels et historiques, ed. Janet, Paris, 1930, t, II, pag. 310.
  15. 15. História de uma alma, cap. XI. Pouco antes, a Santa se maravilhara de que Deus não “tivesse receado mendigar um pouco d’água à Samaritana. Ele estava com sede! Mas ao dizer: “Dá-me de beber, era o amor de sua própria criatura que o Criador do universo reclamava. Tinha sede de amor!”. Algumas horas antes de morrer, exclamou: “Nunca pensei poder sofrer tanto! Nunca, nunca! Não posso explicar isso senão pelo imenso desejo que sempre tive de salvar as almas” Novíssima Verba, pág. 194.
  16. 16. I João, II, 1-2.
  17. 17. João, XVII, 21.
  18. 18. I Tim., II 4-6.
  19. 19. “Rogo por eles; não rogo pelo mundo, senão por aqueles que me deste, porque são teus” (João, XVII, 10).
  20. 20. Pascal, Pensées, edit. Br., no. 553.
  21. 21. Hebr., VI, 6.
  22. 22. De 8 de maio de 1928.
  23. 23. Salmo LXVIII (LXIX), 20-21. Trad. Do Pe. Matos Soares. Esse salmo é recitado nas Matinas de quinta-feira.
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