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Pe. Félix Sardá y Salvany (16)

Qual o problema do espiritismo?

Pe. Sarda y Salvany

Ao leitor

Este opúsculo não tem a pretensão de ser obra teológica ou filosófica, longe disso. É pura e simplesmente uma breve instrução caseira para o uso dos fiéis. Por isso, ao longo dele, e sobretudo na sua primeira parte, apela-se ao bom senso católico do leitor, mais do que a elevadas argumentações científicas. O espiritismo não precisa, para o seu deslustre, mais do que ser conhecido à luz das mais triviais noções da fé cristã e do sentido comum. Decidi, portanto, expô-lo sob estes dois pontos de vistas. Os que desejarem estudos mais profundos, poderão ler a obra excelente do Pe. Pailloux: Le magnétisme, le spiritisme et la possession, e também a série de artigos magníficos publicados em La Civiltà cattolica, e com o título: El espiritismo en el mundo moderno, traduzidos para o espanhol e editados em Lugo, casa editorial de Soto. (Continue a ler)

Da caridade nas chamadas “formas de polêmica”

 

Louis Veuillot

Pe. Félix Sardá y Salvani

(...) Ele [o liberalismo] prefere acusar incessantemente os católicos de serem pouco caridosos em suas formas de propaganda. É neste ponto, como dissemos, que certos católicos, bons no fundo, mas contaminados da maldita peste liberal, costumam insistir contra nós.

Vejamos o que dizer sobre isso. Nós, católicos, temos razão neste ponto como nos demais, ao passo que os liberais não têm nem sombra dela. Para nos convencermos disso analisemos as seguintes considerações:

1°) O católico pode tratar abertamente o seu adversário de liberal, se ele o é de fato; ninguém porá em dúvida esta proposição. Se um autor, jornalista ou deputado começa a jactar-se de liberalismo e não trata de ocultar suas preferências liberais, que injúria se faz em chamá-lo de liberal? É um princípio do Direito: Si palam res est, repetitio injuriam non est: "Não é injúria repetir o que está à vista de todos". Muito menos em dizer do próximo o que ele diz de si mesmo a toda hora. Entretanto, quantos liberais, particularmente os do grupo dos mansos ou temperados, consideram grande injúria que um adversário católico os chame de liberais ou de amigos do liberalismo?

O liberalismo de todo matiz e caráter foi já formalmente condenado pela Igreja?

 

Pe. Félix Sardá y Salvany

 

Sim, o liberalismo, em todos os seus graus e em todas as suas formas, foi formalmente condenado; de modo que, além das razões de malícia intrínseca que o fazem mau e criminoso, todo fiel católico tem acesso à suprema e definitiva declaração da Igreja a respeito do liberalismo: ela o julgou e anatematizou. Não se podia permitir que um erro de tal transcendência deixasse de ser incluído no catálogo das doutrinas oficialmente reprovadas, e aliás foi ele incluído em várias ocasiões.

Já quando apareceu na França, durante sua primeira Revolução, a famosa Declaração dos Direitos do Homem, que continha em germe todos os desatinos do moderno liberalismo, foi condenada por Pio VI.

Mais tarde, essa doutrina funesta foi desenvolvida e aceita por quase todos os governos da Europa, até pelos príncipes soberanos, o que é uma das mais terríveis cegueiras que ofereceu a história das monarquias. Tomou em Espanha o nome pelo qual hoje é conhecida em toda parte: liberalismo.

10. O Liberalismo de todo matiz e caráter já foi formalmente condenado pela Igreja?

Sim, o liberalismo, em todos os seus graus e em todas as suas formas, está formalmente condenado. De modo que, além das razões de malícia intrínseca que o fazem mau e criminoso, todo fiel católico tem acesso à suprema e definitiva declaração da Igreja a respeito do liberalismo: ela o julgou e anatematizou. Não se podia permitir que um erro de tal transcendência deixasse de ser incluído no catálogo das doutrinas oficialmente reprovadas, e aliás foi ele incluído em várias ocasiões.

Já quando apareceu na França, em sua primeira Revolução, a famosa Declaração dos Direitos do Homem, que continha em germe todos os desatinos do moderno liberalismo, foi condenada por Pio VI. Mais tarde, esta doutrina funesta foi desenvolvida e aceita por quase todos os governos da Europa, mesmo pelos príncipes soberanos, o que é uma das mais terríveis cegueiras que a história das monarquias ofereceu. Tomou em Espanha o nome pelo qual hoje é conhecida em toda parte: liberalismo.

Ocorreram as terríveis contendas entre monarquistas e constitucionalistas, que se designaram mutuamente pelos nomes de servis e liberais. Da Espanha essa denominação estendeu-se a toda a Europa. Pois bem, na maior força da luta, por ocasião dos primeiros erros de Lamennais, Gregório XVI publicou sua Encíclica Mirari vos1, condenação explícita do liberalismo, tal como era então entendido, ensinado e praticado pelos governos constitucionais.

Com o tempo, a corrente avassaladora dessas idéais funestas cresceu, tomando até, em virtude de alguns extraviados talentos, a máscara de catolicismo. Suscitou Deus à sua Igreja o Pontífice Pio IX, que, com toda razão, passará à história com o título de açoite do liberalismo.

O erro liberal, em todas as suas faces e matizes, foi desmascarado por esse papa. Para que mais autoridade tivessem suas palavras neste assunto, dispôs a Providência que a repetida condenação do liberalismo saísse dos lábios de um Pontífice que os liberais, desde o princípio, procuraram apresentar como seu partidário. Depois dele, já não restou mais subterfúgio algum ao qual pudesse recorrer este erro. Os numerosos Breves e Alocuções de Pio IX mostraram ao povo cristão o liberalismo tal qual é, e o Syllabus colocou o último selo na condenação.

Vejamos o conteúdo principal de alguns desses documentos pontifícios. Citaremos apenas alguns, dentre muitos que poderíamos citar.

Em 18 de junho de 1871, Pio IX, respondendo a uma comissão de católicos franceses, falou-lhes assim:

“O ateísmo nas leis, a indiferença em matéria de religião e as máximas perniciosas chamadas católico-liberais, são, sim, verdadeiramente a causa da ruína dos Estados; foram elas a perdição da França. Crede-me, o mal que vos anuncio é mais terrível que a Revolução, e ainda mais que a Comuna. Sempre condenei o catolicismo-liberal, e voltarei quarenta vezes a condená-lo, se preciso for.”

No Breve de 6 de março de 1873, dirigido ao presidente e aos membros do Círculo de Santo Ambrósio de Milão, o soberano pontífice se expressa assim:

“Não falta quem tente fazer uma aliança entre a luz e as trevas, e uma associação entre a justiça e a iniqüidade, em favor das doutrinas chamadas católico-liberais, que, baseadas em perniciosos princípios, mostram-se favoráveis às invasões do poder secular nos negócios espirituais; inclinam seus partidários a estimar ou ao menos tolerar leis iníquas, como se não estivesse escrito que ninguém pode servir a dois senhores. Os que procedem assim são, sob todos os ângulos, mais perigosos e funestos do que os inimigos declarados, não só porque, sem que sejam advertidos, talvez mesmo sem que percebam, secundam as tentativas dos maus, mas também porque, mantendo-se dentro de certos limites, eles se mostram com aparências de probidade e sã doutrina para alucinar os amigos imprudentes da conciliação, e seduzir as pessoas honradas que teriam certamente combatido o erro manifesto.”

No Breve de 8 de maio do mesmo ano, à Confederação dos Círculos Católicos da Bélgica, ele afirmou:

“O que sobretudo louvamos em vossa religiosíssima empresa é a absoluta aversão que, segundo me consta, professais aos princípios católico-liberais, e vossa intrépida vontade de desarraigá-los de seus adeptos. Em verdade, ao esforçar-vos em combater esse erro insidioso, tão mais perigoso que a inimizade declarada quanto mais se encobre sob o especioso véu de zelo e caridade, e em procurar com afinco apartar dele as pessoas simples, extirpareis uma funesta raiz de discórdias e contribuireis eficazmente para unir e fortalecer os ânimos. Seguramente, vós, que acatais com tão plena submissão todos os documentos desta Sé Apostólica, e que conheceis as reiteradas reprovações dos princípios liberais, não necessitais destas advertências.”

No Breve ao La Croix, jornal de Bruxelas, em 21 de maio de 1874, o papa diz o seguinte:

“Não podemos deixar de elogiar o propósito expresso em vossa carta, e ao qual soubemos que satisfaz plenamente o vosso jornal, de publicar, divulgar, comentar e inculcar nos ânimos tudo quanto esta Santa Sé tem ensinado contra as perversas, ou ao menos falsas doutrinas professadas em tantas partes, e particularmente contra o liberalismo católico, empenhado em conciliar a luz com as trevas e a verdade com o erro.”

Em 9 de junho de 1873, escreveu ao presidente do Conselho da Associação Católica de Orleães, e, sem nomeá-lo, retratou o liberalismo pietista e moderado nos seguintes termos:

“Ainda que vossa luta tenha que ser travada rigorosamente contra a impiedade, talvez por este lado não vos ameace um perigo tão grande, como por parte desse grupo de amigos imbuídos daquela doutrina ambígua que, ainda que rejeite as últimas conseqüências dos erros, retêm obstinadamente seus germes, e não querendo abraçar-se com a verdade íntegra, nem se atrevendo a rejeitá-la por inteiro, afanam-se em interpretar as tradições e doutrinas da Igreja, ajustando-as ao molde de suas opiniões privadas.”

Mas, para não nos tornarmos intermináveis e cansativos, nos contentaremos em ajuntar algumas passagens de outro Breve, o mais expressivo de todos, e que portanto não podemos em consciência omitir. É aquele dirigido ao bispo de Quimper, em 28 de julho de 1873. Nele o Papa diz o seguinte, referindo-se à Assembléia Geral das Associações Católicas, que acabava de ser celebrada naquela diocese:

“Seguramente tais associações não se apartarão da obediência devida à Igreja nem pelos escritos, nem pelos atos com que, mediante injúrias e invectivas, a perseguem; mas essas opiniões chamadas liberais poderão pô-las na escorregadia senda do erro, já que são aceitas por muitos católicos, homens de bem e piedosos, que, em razão da própria influência de sua religião e piedade, podem ter seus ânimos facilmente captados e induzidos a professar máximas muito perniciosas. Inculcai, portanto, venerável Irmão, aos membros dessa assembléia católica, que quando nós repreendemos tantas vezes os sequazes dessas opiniões liberais, não temos em vista os inimigos declarados da Igreja, os quais seria ocioso denunciar, mas a esses outros que aludimos há pouco, que, conservando o vírus oculto dos princípios liberais que beberam com o leite, como se não estivesse impregnado de palpável malignidade, e como se fosse tão inofensivo para a Religião como eles pensam, o inoculam facilmente nos ânimos, propagando assim a semente dessas discórdias que há tanto tempo revolvem o mundo. Procurem, pois, evitar estas ciladas, e esforcem-se em dirigir seus golpes contra este insidioso inimigo, e certamente merecerão a homenagem da Religião e da pátria.”

Nossos amigos e também nossos adversários o vêem: o papa diz tudo que se pode dizer sobre esta questão nesses Breves, particularmente no último, que nós devemos estudar em todos os detalhes.

  1. 1. 15 de abril de 1832.

9. Outra distinção importante: o liberalismo prático e o liberalismo especulativo ou doutrinal

A filosofia e a teologia ensinam que há duas classes de ateísmo: um doutrinal e especulativo, e outro prático. O primeiro consiste em negar franca e redondamente a existência de Deus, pretendendo anular ou desconhecer as provas irrefutáveis em que esta verdade se sustenta. O segundo consiste em viver e agir sem negar a existência de Deus, mas como se Deus não existisse realmente. Os primeiros chamam-se ateus teóricos ou doutrinais, os segundos ateus práticos, e são os mais numerosos.

O mesmo ocorre com o liberalismo e com os liberais. Há liberais teóricos e liberais práticos. Os primeiros são os dogmatizadores da seita: filósofos, professores, deputados ou jornalistas. Ensinam o liberalismo em seus livros, discursos ou artigos, por argumentos e por autoridade, em conformidade com um critério racionalista em oposição velada ou manifesta ao critério da revelação divina e sobrenatural de Jesus Cristo.

Os liberais práticos são a maioria do grupo, os ingênuos, que crêem de pés juntos tudo o que lhes dizem os mestres, ou que, sem o crer, seguem docilmente a quem os conduz. Nada sabem de princípios nem de sistemas, e talvez até os detestariam, se conhecessem toda a sua perversidade. Entretanto, são as mãos que obram, assim como os teóricos são as cabeças que dirigem. Sem eles o liberalismo não sairia do recinto das academias; são os que lhe dão vida e movimento exterior. Pagam o jornal liberal, votam no candidato liberal, apóiam as alianças liberais, aclamam os representantes do liberalismo, celebram suas festas e aniversários. Constituem a matéria-prima do liberalismo, disposta a tomar qualquer forma, e a servir sempre a qualquer tolice. Muitos deles iam à Missa, e mataram os frades; mais tarde assistiam a novenas, punham seus filhos na carreira eclesiástica, e compravam bens roubados da Igreja. Talvez hoje rezem o Rosário e votem no deputado partidário da liberdade de cultos. Formularam para si certa lei de viver com o século, e crêem (ou querem crer) que estão bem assim. Isto os exime de responsabilidade ou de culpa diante de Deus? Não, por certo, como veremos depois.

Liberais práticos são também os que, evitando explicar a teoria liberal, que sabem estar já desacreditada para certas inteligências, procuram contudo sustentá-la no que se refere ao procedimento prático de todos os dias, escrevendo e discursando à moda liberal, propondo e elegendo candidatos liberais, elogiando e recomendando seus livros e homens, julgando sempre os acontecimentos segundo o critério liberal e manifestando sempre ódio tenaz a tudo o que tenda a desacreditar ou menosprezar seu querido liberalismo. Esta é a conduta de muitos jornalistas prudentes, que dificilmente são pegos em delito de formular proposições concretamente liberais, mas que, todavia, em tudo o que dizem ou calam não deixam de fazer a maldita propaganda sectária. De todos os répteis liberais, são esses os mais venenosos.

8. Sombra e penumbra, ou a razão extrínseca desta mesma seita católico-liberal

Após termos visto no capítulo anterior a razão intrínseca, ou formal, do liberalismo católico, passemos agora a examinar o que poderíamos chamar sua razão extrínseca, histórica, ou material, se a nossos leitores agradar mais essa classificação escolástica.

As heresias que estudamos hoje, no vasto curso dos séculos que intervalam a vinda de Jesus Cristo e os tempos em que vivemos, mostram-se a nós, à primeira vista, como pontos clara e definitivamente circunscritos a seu respectivo período histórico. De modo que parece possível demarcar, como que a compasso, o ponto onde elas começam e onde acabam, ou seja, a linha geométrica que separa esses pontos negros do restante do campo luminoso em que se estendem.

Mas essa apreciação, se a consideramos com atenção, não é mais que uma ilusão causada pela distância. Um estudo mais aprofundado, que com a lente de uma boa crítica nos aproxime dessas épocas, e nos ponha em contato intelectual com elas, permite-nos observar que nunca em nenhum período histórico os limites que separam o erro da verdade foram bastante geometricamente definidos. Não que a verdade, em sua realidade própria, não esteja clarissimamente formulada nas definições da Igreja, mas, porque, na sua apreensão e profissão exterior, a respectiva geração manifesta um modo mais ou menos franco de negá-la ou professá-la.

O erro na sociedade é como uma mancha num precioso tecido. Identifica-se claramente, mas é difícil precisar seus limites. Suas fronteiras são vagas como os crepúsculos que separam o dia que morre da noite que se aproxima, ou como a aurora que religa as últimas sombras da noite ao dia que renasce. Esses limites precedem o erro, que é uma negra sombra; eles o seguem e rodeiam de uma vaga penumbra, que pode por vezes ser identificada com a própria sombra, iluminada ainda por um e outro reflexo de luz moribunda, ou com a própria luz, encoberta e escurecida já pelas primeiras sombras.

Assim, todo erro claramente formulado na sociedade cristã teve em torno de si outra atmosfera do mesmo erro, porém menos densa, e mais tênue e mitigada. O arianismo teve o seu semi-arianismo; o pelagianismo, o semi-pelagianismo; o luteranismo feroz, o jansenismo, que não foi senão um luteranismo moderado. Do mesmo modo na época presente, o liberalismo radical tem em torno de si seu semi-liberalismo, que outra coisa não é que a seita católico-liberal que estamos aqui examinando.

É o que o Syllabus chamou de racionalismo moderado; é o liberalismo sem a franca crueza de seus princípios descobertos, e sem o horror de suas últimas conseqüências: o liberalismo para uso dos que não consentem ainda em deixar de parecer ou crer-se católicos.

O liberalismo é o triste crepúsculo da verdade que começa a obscurecer-se na inteligência, ou da heresia que ainda não tomou completa possessão dela. Observamos com efeito que costumam ser católicos-liberais os católicos que vão deixando de ser firmes católicos, e os liberais puros que, desiludidos em parte de seus erros, não chegaram ainda plenamente aos domínios da verdade íntegra. É o meio sutil e engenhosíssimo que encontrou sempre o diabo para reter em seu serviço muitos que, de outro modo, teriam detestado verdadeiramente, se as tivessem conhecido, suas maquinações infernais.

Este meio satânico consiste em permitir que tenham um pé no terreno da verdade, desde que tenham o outro já completamente no campo oposto. É desta forma que os que ainda não têm a consciência calejada evitam os salutares horrores do remorso; é assim igualmente que os espíritos pusilânimes e vacilantes, que são a maior parte, evitam os compromissos das resoluções decisivas; é assim que os oportunistas conseguem figurar, segundo lhes convém, um pouco em cada campo, mostrando-se em ambos como amigos e filiados; é assim que, finalmente, o homem pode aplicar um paliativo oficial e reconhecido à maior parte de suas misérias, debilidades e inconseqüências.

Talvez a presente questão não tenha sido ainda devidamente estudada por este lado, na história antiga e contemporânea. Se este lado é o menos nobre, é por isso mesmo o mais prático, já que infelizmente, é no menos nobre e elevado que muitas vezes se encontra o mecanismo secreto da maior parte dos fenômenos humanos. De nossa parte, pareceu-nos conveniente fazer aqui esta indicação, deixando a inteligências mais hábeis e experimentadas o cuidado de completá-la e desenvolvê-la.

7. Em que consiste provavelmente a essência ou razão intrínseca do liberalismo católico

Se refletirmos sobre a essência do liberalismo chamado católico (comumente chamado “catolicismo liberal”), veremos que, provavelmente, ela consiste apenas num falso conceito do ato de fé. Os católicos liberais parecem fundamentar toda a razão de sua fé não na autoridade de Deus, infinitamente veraz e infalível, que Se dignou revelar-nos o caminho único que nos há de conduzir à bem-aventurança sobrenatural, mas na livre apreciação de um juízo individual, que dita ao homem ser melhor uma crença do que qualquer outra. Não querem reconhecer o magistério da Igreja como único autorizado por Deus a apresentar aos fiéis a doutrina revelada e a determinar-lhe o verdadeiro sentido. Ao contrário, fazendo-se a si mesmos juízes da doutrina, aceitam dela o que lhes agrada, reservando-se porém o direito de crer no contrário, sempre que supostas razões pareçam demonstrar como falso hoje o que parecia verdadeiro ontem.

Para refutar essa pretensão basta conhecer a doutrina fundamental de Fide, exposta sobre esta matéria pelo Santo Concílio Vaticano 1.

Ademais, os católicos liberais se intitulam católicos porque crêem firmemente que o catolicismo é a verdadeira revelação do Filho de Deus; mas se intitulam católicos liberais, ou católicos livres, porque julgam que uma crença não lhes pode ser imposta, a eles nem a ninguém, por nenhum motivo senão o da sua livre apreciação. De maneira que, sem perceberem, o diabo maliciosamente substituiu neles o princípio sobrenatural da fé pelo princípio naturalista do livre exame. Com isso, ainda que julguem ter a fé das verdades cristãs, não a têm verdadeiramente, mas possuem simples convicção humana, a qual é essencialmente distinta daquela.

Por conseguinte, julgam a sua inteligência livre para crer ou não crer, e igualmente livre a de todos os outros. Na incredulidade, pois, não vêem um vício, enfermidade, ou cegueira voluntária do entendimento e mais ainda do coração, mas um ato lícito do foro interno de cada um, tão senhor de si para crer em certa coisa, como para não crer em coisa alguma. O seu horror à toda pressão exterior moral ou física, que previna ou castigue a heresia decorre dessa doutrina, e produz entre eles o seu horror às legislações civis francamente católicas. Daí o profundo respeito com o qual querem sempre tratar as crenças alheias, mesmo as mais opostas à verdade revelada; porque, para eles, as mais falsas são tão sagradas quanto as verdadeiras, já que todas nascem de um mesmo princípio igualmente sagrado: a liberdade individual. É assim que se erige em dogma o que se chama tolerância, e que se impõe à apologética católica contra os hereges um novo código de leis, que nunca conheceram na antiguidade os grandes polemistas do catolicismo.

Sendo essencialmente naturalista seu conceito primário da fé, segue-se que é naturalista também todo seu desenvolvimento no indivíduo e na sociedade. Daí resulta que a apreciação primeira e, às vezes, exclusiva que os católicos liberais fazem da Igreja, se limita às vantagens culturais e civilizacionais que proporciona aos povos. Esquecem e quase nunca citam seu fim primário, sobrenatural, que é a glorificação de Deus e a salvação das almas. Diversas apologias católicas escritas na época presente estão repletas deste falso conceito. De modo que, para tais pessoas, se o catolicismo por infelicidade tivesse sido causa em algum tempo de atraso material para os povos, já não seria verdadeira nem louvável, em boa lógica, essa religião. E, com certeza, assim já se passou [na história], pois que, para alguns indivíduos e famílias, o ser fiéis à sua religião é ocasião de verdadeira ruína material; e nem por isso deixa ela de ser menos excelente e divina.

Este critério é o que dirige a pluma da maior parte dos periódicos liberais; se eles lamentam a demolição de um templo, só assinalam ao leitor a profanação da arte. Se advogam em favor das ordens religiosas, é apenas para ponderar os benefícios que prestaram às letras; se exaltam as Irmãs da Caridade, é tão-só em consideração aos serviços humanitários com que suavizam os horrores da guerra; se admiram o culto, não é senão por causa de seu brilho exterior e poesia; se na literatura católica respeitam as Sagradas Escrituras, é porque se fixam apenas em sua majestosa sublimidade.

Deste modo de louvar as coisas católicas apenas por sua grandeza, beleza, utilidade ou excelência material, resulta logicamente que o erro, quando reunir essas condições, merece iguais louvores, como sem dúvida as reúne, aparentemente e em certos momentos, algumas das falsas religiões.

A maléfica ação deste princípio naturalista chega até mesmo à piedade, e a converte em verdadeiro pietismo, quer dizer, em falsificação da piedade verdadeira. Vemos isto em tantas pessoas que não buscam nas práticas devotas senão a emoção, o que é puro sensualismo da alma e nada mais. Também vemos inteiramente enfraquecido hoje em muitas almas o ascetismo cristão, que é a purificação do coração por meio da repressão dos apetites, e desconhecido o misticismo cristão, que não é a emoção, nem a consolação interior, nem outra dessas delícias humanas, mas a união com Deus por meio da sujeição à sua santíssima vontade e do amor sobrenatural.

Por isso, o catolicismo de um grande número de pessoas em nosso     tempo é um catolicismo liberal, ou, mais exatamente, um catolicismo falso. Não é catolicismo, mas um simples naturalismo, um racionalismo puro; é, numa palavra, se nos permitem a expressão, paganismo com linguagem e formas católicas.

  1. 1. Vaticano I (1870-1871).

6. Do chamado liberalismo católico ou catolicismo liberal

De todas as inconseqüências e antinomias que se encontram nos graus médios do liberalismo, a mais repugnante e odiosa é a que pretende nada menos que unir o liberalismo com o catolicismo, para formar o que se conhece na história dos modernos desvarios pelo nome de “liberalismo católico” ou “catolicismo liberal”. E todavia ilustres inteligências e honradíssimos corações, que não podemos crer mal-intencionados, pagaram tributo a esta absurdidade! O liberalismo teve sua época de moda e prestígio que, graças ao céu, vai passando ou já passou.

Nasceu este funesto erro de um desejo exagerado de conciliar e pacificar a coexistência de doutrinas forçosamente inconciliáveis e inimigas por sua própria essência.

O liberalismo é o dogma da independência absoluta da razão individual e social. O catolicismo é o dogma da sujeição absoluta da razão individual e social à lei de Deus.

Como conciliar o sim e o não de doutrinas tão opostas?

Isto pareceu fácil aos fundadores do liberalismo católico. Alegaram uma razão individual, sujeita à lei do Evangelho, e inventaram uma razão pública ou social, coexistente com ela e livre de todo entrave. Disseram: “O Estado como tal não deve ter Religião, ou deve tê-la somente até certo ponto, que não disturbe os que não queiram tê-la”. Assim, o cidadão particular deve sujeitar-se à revelação de Jesus Cristo, mas por sua vez o homem público pode comportar-se como se a revelação não existisse. Deste modo compuseram a célebre fórmula: “Igreja livre no Estado livre”. Fórmula para cuja propagação e defesa se juramentaram na França vários católicos insignes, e entre eles um ilustre bispo 1.

Esta fórmula devia ser suspeita, desde que Cavour a tomou como divisa da revolução italiana contra o poder temporal da Santa Sé, porém nenhum de seus autores ainda se retratou formalmente, segundo sabemos, malgrado o seu evidente fracasso.

Esses ilustres sofistas não viram que, se a razão individual tem a obrigação de submeter-se à lei de Deus, a razão pública e social não pode dela se subtrair, sem cair num dualismo extravagante, que submete o homem à lei de dois critérios opostos e de duas consciências opostas. De modo que a distinção do homem privado e do homem público, o primeiro obrigado a ser cristão, e o segundo autorizado a ser ateu, cai imediatamente ao chão sob o peso esmagador da lógica integralmente católica. O Syllabus, do qual falaremos adiante, acabou de afundar esta tese, sem chance de remissão. Resta ainda desta brilhante mas funestíssima escola um e outro discípulo tardio, que já não se atreve a sustentar publicamente a teoria católico-liberal da qual foram em outros tempos fervorosos panegiristas, mas à qual ainda seguem obedecendo na prática; talvez, não se dão conta de que querem pescar com redes que, de tão conhecidas e usadas, o diabo já mandou recolher.

  1. 1. Alusão à famosa reunião presidida por Dom Félix Dupanloup no castelo de la Roche-em-Breny, na Borgonha, na casa de Montalembert, que colocará em seguida, ele mesmo, na sua capela privada, a seguinte inscrição: “Neste oratório, Félix, Bispo de Orléans, distribuiu o pão da palavra e o pão da vida cristão a um pequeno rebanho de amigos que, depois de longo tempo acostumados a combater juntos pela Igreja livre na pátria livre, renovaram o pacto de consagrar o resto de suas vidas a Deus e à liberdade. 12 de outubro de 1862.”

    Estavam presentes: Alfredo, conde de Falloux, Théophile Foisset, Augustin Cochin, Charles de Montalembert; ausente de corpo mas presente de espírito: Alberto, príncipe de Broglie.

5. Dos diferentes graus que podem existir e existem na unidade específica do Liberalismo

O liberalismo, como sistema de doutrinas, pode ser chamado de escola; como organização de adeptos para difundi-las e propagá-las, de seita; como agrupamento de homens dedicados a fazê-las prevalecer na esfera do direito público, de partido. Mas, quer se considere o liberalismo como escola, seita, ou partido, vê-se que ele oferece, dentro de sua unidade lógica e específica, diferentes graus ou matizes que o teólogo católico deve estudar e expor.

Antes de tudo, convém notar que o liberalismo é uno, isto é, constitui um organismo de erros perfeita e logicamente encadeados, motivo pelo qual o chamamos de sistema. Com efeito, se partirmos do seu princípio fundamental, a saber, que o homem e a sociedade são perfeitamente autônomos ou livres, com absoluta independência de qualquer outro critério natural ou sobrenatural que não seja o individual, chegaremos, por uma perfeita dedução de conseqüências, a tudo aquilo que a demagogia mais avançada proclama em seu nome.

A Revolução não tem nada de grande, a não ser sua inflexível lógica. Até os seus atos mais despóticos, executados em nome da liberdade, e que à primeira vista tachamos de inconseqüências monstruosas, obedecem a uma elevadíssima lógica. Porque se a sociedade reconhece como única lei social a opinião da maioria, não admitindo outro critério ou regulador, como se pode negar ao Estado o direito absoluto de cometer todo tipo de atropelo contra a Igreja, todas as vezes que, segundo seu único critério social, achar conveniente fazê-lo?

Admitindo-se que a maioria tem sempre razão, admite-se também que a única lei é a do mais forte, e assim, muito logicamente, se pode chegar até as últimas brutalidades.

Entretanto, apesar dessa unidade lógica do sistema, os homens não são sempre lógicos, e isto produz dentro dessa unidade a mais assombrosa variedade ou gradação de tintas. As doutrinas derivam necessariamente e por virtude própria umas das outras; mas os homens, ao aplicá-las, são em geral ilógicos e inconseqüentes.

Se os homens levassem até as últimas conseqüências seus princípios, eles seriam todos santos, quando os princípios fossem bons; e todos demônios do inferno, quando os princípios fossem maus.

É a inconseqüência que faz meio bons os homens bons, e meio maus os homens maus.

Aplicando essas observações ao presente assunto do liberalismo, nós diremos que, pela graça de Deus, encontram-se relativamente poucos liberais completos; o que não impede que a maioria, ainda que não tenha atingido o último limite da depravação liberal, seja composta de verdadeiros liberais, ou seja, verdadeiros discípulos, partidários ou sectários do liberalismo (conforme se considere o liberalismo uma escola, seita ou partido).

Examinemos estas variedades da família liberal.

Há liberais que aceitam os princípios, mas fogem das conseqüências, pelo menos das mais cruas e extremas.

Outros aceitam uma ou outra conseqüência ou aplicação que lhes agrada, enquanto são escrupulosos em aceitar radicalmente os princípios.

Quiseram alguns o liberalismo aplicado tão somente ao ensino; outros, à economia; outros tão só às formas políticas.

Só os mais avançados pregam sua aplicação em tudo e para tudo. As atenuações e mutilações do credo liberal são tão numerosas  quanto numerosos são os favorecidos ou prejudicados por sua aplicação. Pois, geralmente, existe o erro de crer que o homem pensa com a inteligência, quando o usual é que pense com o coração, e muitas vezes ainda com o estômago.

Daí que os diferentes partidos liberais preguem o liberalismo em diversos graus, assim como o taberneiro serve aguardente em diversos graus, ao gosto do consumidor.

É por isso que não existe liberal para quem seu vizinho mais avançado não seja um brutal demagogo, ou seu vizinho menos avançado não seja um furioso reacionário. É questão de escala alcoólica e nada mais. Assim, tanto os que em Cádis batizaram hipocritamente em nome da Santíssima Trindade seu liberalismo, como os que, nestes últimos tempos, têm como lema o grito "Guerra a Deus!", ocupam degraus diferentes na escala liberal. E a prova disto é que todos aceitam e invocam o denominador comum de liberal.

O critério liberal ou independente é sempre o mesmo para todos, ainda que as aplicações sejam mais ou menos acentuadas de acordo com os indivíduos.

De que depende essa maior ou menor intensidade? Muitas vezes dos interesses; não poucas vezes do temperamento; de certos traços de educação que impedem alguns de darem os passos precipitados que outros dão; de respeitos humanos, talvez, ou de considerações de família; de relações e amizades etc., etc. Sem contar a tática satânica que às vezes aconselha o homem a não radicalizar uma idéia, a fim de não alarmar as pessoas, de torná-la mais viável e facilitar sua aplicação.

Essa maneira de proceder pode, sem juízo temerário, ser atribuída a certos liberais conservadores, entre os quais sob a máscara de conservadorismo se oculta, comumente, um franco demagogo.

Mas, nos “semi-liberais”, em geral, a caridade pode supor certa dose de candor e de natural bonhomie ou tolice, que, embora não os torne inimputáveis, como mostraremos depois, obriga, não obstante, que se tenha para com eles alguma compaixão.

Fica pois demonstrado, caro leitor, que o liberalismo é um só, ao passo que os liberais, assim como o mau vinho, têm diferentes cores e sabores.

4. Da especial gravidade do pecado do Liberalismo

Ensina a teologia católica que nem todos os pecados graves são igualmente graves, mesmo na condição essencial que os distingue dos pecados veniais.

Há graus no pecado, mesmo dentro da categoria dos pecados mortais, assim como há graus de boas obras dentro da categoria das boas obras e conformes à lei de Deus. A blasfêmia, por exemplo, que ataca diretamente a Deus, é um pecado mortal mais grave do que um pecado que ataca diretamente o homem, como o roubo.

Pois bem, à exceção do ódio formal contra Deus e da desesperação absoluta, que raríssimas vezes são cometidos pela criatura, a não ser no inferno, os pecados mais graves de todos são os pecados contra a fé. A razão é evidente. A fé é o fundamento de toda a ordem sobrenatural e o pecado é pecado enquanto ataca algum ponto dessa ordem sobrenatural; por conseguinte, o pecado máximo é aquele que ataca o fundamento primordial dessa ordem.

Um exemplo para aclarar: talha-se uma árvore, cortando-lhe algum de seus ramos. Quanto mais importante o ramo que se retira, maior será o dano. Se se cortar o tronco ou a raiz o dano será mais grave ou mortal. Santo Agostinho, citado por Santo Tomás, dá ao pecado contra a fé esta fórmula incontestável: Hoc est peccatum quo tenentur cuncta peccata — “Este é um pecado que contêm todos os pecados”.

O Doutor Angélico discorre sobre esse ponto com sua habitual clareza: “Tão mais grave é um pecado, quanto mais por ele o homem se separa de Deus. Pelo pecado contra a fé, o homem se separa o mais que pode de Deus, pois se priva de seu verdadeiro conhecimento; daí que, conclui o Santo Doutor, o pecado contra a fé é o maior que se conhece.” 1

Porém, o pecado contra a fé é ainda mais grave quando não é simplesmente uma ausência culpável dessa virtude e desse conhecimento de Deus, mas negação e ataque formal aos dogmas expressamente definidos pela revelação divina. Neste caso, o pecado contra a fé, em si gravíssimo, adquire uma gravidade ainda maior, que constitui o que se chama “heresia”. Ele inclui toda a malícia da infidelidade, além de um protesto expresso contra um ensinamento da fé que, sendo falso e errôneo, é condenado pela mesma fé. Esse pecado gravíssimo contra a fé é agravado pela obstinação e contumácia, e por uma preferência orgulhosa: a da razão própria à razão de Deus.

Portanto as doutrinas heréticas e as obras heréticas constituem o maior pecado de todos, à exceção do ódio formal a Deus, ódio de que são capazes, como já dissemos, apenas os demônios e os condenados.

Por conseguinte o liberalismo, que é uma heresia, e as obras liberais, que são obras heréticas, são os pecados máximos que conhece o código da fé cristã.

Desta maneira, salvo os casos de boa-fé, de ignorância e de indeliberação, o fato de ser liberal constitui um pecado maior do que ser blasfemo, ladrão, adúltero, homicida, ou qualquer outra coisa que proíba a lei de Deus e que castigue sua justiça infinita.

O moderno naturalismo não o entende assim, é verdade. Mas as leis dos Estados católicos sempre o creram assim, até o advento da presente era liberal. A lei da Igreja assim prossegue ensinando, e assim continua julgando o tribunal de Deus. Sim, a heresia e as obras heréticas são os piores pecados de todos, e, portanto, o liberalismo e os atos liberais são, ex genere suo, o mal acima de todo mal.

  1. 1. II-II, q.10, a.3.
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