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Dom Lourenço Fleichman, OSB (127)

Vá para o Limbo!

Depois que o papa Bento XVI recusou-se a assinar o documento que falsifica a doutrina sobre o Limbo das crianças mortas sem batismo, chega-nos agora a notícia de que o documento acaba de ser publicado com a autorização do Pontífice. Método típico da Revolução, que toma atalhos extra-oficiais apimentados com uma ou duas mentiras difíceis de serem confirmadas. Ou será que, de fato, teria o papa autorizado a publicação? Por enquanto não encontrei nenhuma versão oficial da notícia, mas o texto é citado pelas agências de informação. Leia mais

 

Quanta asneira dizem esses falsos teólogos! Quanta arrogância e pretensão, de querer enganar o povo fiel com argumentos tendenciosos e de falsa doutrina. Basta uma formação média na doutrina para sentir o cheiro da heresia. Iniciam seu raciocínio com a questão da vontade de Deus. Dizem estes senhores que Deus é misericordioso e quer a salvação de todos os homens. Dizendo assim, parece que a Igreja Católica, de tantos santos doutores, de um Sto Anselmo que festejamos neste dia 21 de abril, de um São Tomás de Aquino, de tantos santos papas, não percebeu, ao longo de seus dois mil anos, a límpida verdade. Ora, ora... descobriram a pólvora! Deus quer a salvação de todos os homens! Pois eu digo que se Jesus Cristo estivesse diante desta tal comissão, diria: "Raça de víboras"! porque não apresentam aos fiéis a doutrina completa sobre a vontade de Deus? Porque não dizem que, na sua vontade absoluta, sim, Deus só pode querer a salvação de todos os homens. Mas na sua vontade aplicada, ou seja, diante da realidade de cada um dos homens, a vontade de Deus como que respeita as circunstâncias das causas segundas, da vontade livre do homem, da situação das almas, dos atropelos da vida. A vontade de Deus só se torna eficaz com a colaboração do homem. Se assim não fosse, seríamos robôs, e não seres criados à imagem e semelhança de Deus.

 

Depois de falsificar assim o princípio básico do raciocínio, a quadrilha de "teólogos" parte para outra frente de combate revolucinário: a doutrina do Limbo seria apenas uma hipótese teológica. Desconhecem estes bastardos da fé o modo como a doutrina da Igreja forma sua unidade coesa e sólida? Claro que sabem. Mas escondem e querem impor a novidade a qualquer preço, e escondem a verdade. E onde está a verdade? É dogma ou não é dogma? A verdade é que a teologia católica não é feita apenas de dogmas. Existem muitas verdades anexas aos dogmas, as quais, se forem negadas, atingem em cheio o dogma a que elas se referem. Por isso elas são intocáveis, não havendo autoridade neste mundo que as possa mudar. No caso do Limbo, o dogma do pecado original e o dogma da necessidade do batismo para a salvação. Com que autoridade podem eles sair por aí, numa revista americana, com ou sem o aval do Vaticano, dizendo que o Limbo é uma hipótese? Hipótese é Vaticano II, meus senhores! Hipótese é esta tese revolucinária, anti-católica, herética e que só serve ao senhor das Trevas. E porque razão pretendem estes modernistas evolucionistas, prestidigitadores, que os católicos deixem de dar seu assentimento de fé ao que a Igreja sempre ensinou, com a garantia de dois mil anos de santos e santidade, para aderir a eles? E por quanto tempo, pergunto eu, deveriam os católicos "obedecer" a estas fantasias? Até que um próximo passo seja dado e um documento novo venha acrescentar que, na verdade, não é só o Limbo que não existe, mas o inferno também?

 

Do mesmo modo, ao afirmar que é pela misericórdia de Deus que se estabelece esta novidade, mostram o total desconhecimento dos dogmas referentes a Deus. Reduzem a misericórdia divina a um sentimento humano, onde Deus teria pena das crianças mortas sem batismo, como se fosse possível para Deus ter sentimentos de pena e agir como um homem poderoso que agracia um criminoso que lhe pede perdão. Quanta fantasia. E dizem que são teólogos! Os autores tentam afirmar que esta doutrina não atinge o dogma do pecado original. Vamos mostrar que atinge sim.

 

A questão do Limbo está ligada intimamente à doutrina da necessidade do batismo para se entrar no Céu. Isto é um dogma da nossa fé, declarado explicitamente por Nosso Senhor a Nicodemos: "Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito Santo não entrará no Reino de Deus. O que nasceu da carne é carne e o que nasceu do Espírito é espírito." (S. Jo, 3,5) Já aqui nos deparamos com uma justificativa dos modernistas de quererem acabar com o Limbo. De fato, depois de Vaticano II, estabeleceu-se a prática de deixar o batismo para um momento em que a pessoa possa escolher. Prática certamente diabólica, pela qual muitas almas, já contaminadas pelas tentações, tomaram o caminho do pecado e se embrenharam nas trevas do inferno. Porque, se é indiferente às crianças antes da idade da razão, morrerem com ou sem batismo, então desaparece a necessidade de batizar-se desde o nascimento. Mas não é esta a Tradição dos Apóstolos: "A Igreja recebeu dos Apóstolos a Tradição de batizar também as criancinhas" (Orígines, Ad Rom. VI,6). E o Concílio de Trento determinará que sejam batizadas as crianças recém-nascidas "ex traditione Apostolorum" (Dec. sobre o Pecado Original, 4). Sejamos honestos: não se pode dizer que o Limbo não existe porque Deus, na sua misericórdia, leva as almas das crianças para o céu mesmo sem batismo e, ao mesmo tempo, afirmar que esta nova doutrina não afeta o dogma do pecado original e da necessidade do batismo.

 

Vários erros grosseiros são cometidos por esta super "Comissão Teológica Internacional", da Congregação para a Doutrina da Fé. Segundo as citações apresentadas pela imprensa, um dos membros "acrescentou que os muitos fatores analisados oferecem a suficiente base teológica e litúrgica para se acreditar que as crianças que morrem sem batismo se salvarão e gozarão da visão beatífica". Pelo visto estas razões teológicas são tão fracas quanto o argumento levantado na notícia: Para este membro da Comissão, no caso das crianças mortas antes da idade da razão, a misericórdia de Deus prevalece sobre o pecado. Oh! trevas da ignorância; Oh! astúcia do antigo inimigo! A quem querem estes senhores enganar? Pois quem foi que disse que as crianças mortas sem batismo vão para o Limbo por causa do pecado? Este senhor acaba de provar que o Limbo existe, pois se a razão da não existência do Limbo é uma suposta prevalência da misericórdia sobre o pecado, basta assinalar a doutrina católica que dá razões bem diferentes para a existência do Limbo e todo o trabalho desta comissão será posto a nu diante de todos, como mais uma armação contra a fé católica.

 

De fato, o que obriga a existência do Limbo é a ausência de vida sobrenatural antes do batismo. Esta ausência se deve à presença do pecado original, sua marca na alma. Mas a presença do pecado original não significa que exista a culpa do pecado original, sendo esta atribuída a Adão e Eva. Não havendo a culpa, não há como se contrapor a este pecado a misericórdia de Deus. Esta só poderia ser apresentada como argumento diante de pecados pessoais, com a culpa correspondente. Mas, por definição, estes pecados atuais não existem na alma das crianças antes da idade da razão. Não há como negar, isso é dogma da nossa fé (e eles afirmam que o Limbo nada tem a ver com o dogma!) Quando um bebê nasce, ele possui a alma espiritual em estado natural: capacidade de conhecer, pela razão natural, e capacidade de amar, por atos livres da sua vontade. Mas ela não está apta, apenas por sua natureza, a ter em si a presença de Deus, a graça santificante, a posse do Divino Espírito Santo. Em outras palavras: ela não é o templo da Santíssima Trindade. Deus Nosso Senhor quis que só mediante o batismo nos fosse dada, em acréscimo, esta capacidade de vida sobrenatural. (cf. S. Marcos 16, 15)  Se alguém achar isso injusto, que vá se entender com Nosso Senhor lá na porta do céu. Não temos o que discutir o que é Revelado por Deus, basta-nos o ato de fé; e o batismo é o meio de obter a vida da graça, sendo, certamente, o melhor para nós, o mais fácil, o mais comum, o mais usual. As Sagradas Escrituras nos trouxeram pelo menos um exemplo maravilhoso desta imensa bondade e misericórdia de Deus, que facilitou a entrada de tantas almas na visão beatífica: o batismo é dado com água, e qualquer pessoa pode batizar. Foi na estrada de Gaza, onde viajava o eunuco da Rainha da Etiópia, sentado em um carro, lendo o livro de Isaías. A ele foi enviado o diácono Felipe, por obra do Espírito Santo. E ali mesmo, na beira da estrada, o pobre homem pergunta a  Felipe: "Eis água, que motivo me impede de ser batizado". (Atos, 8, 26) E Felipe o batiza, na beira da estrada, em açude ou riacho, e o milagre se consuma: aquela alma já não é um pagão, já não é incapaz da graça, mas tornou-se luminosa, filho de Deus, plenamente apta para a vida sobrenatural e mergulhada nela. E este milagre, os falsos teólogos querem roubar das criancinhas, atacando um dos flancos da muralha protetora da fé, que é o Limbo.

 

O que é o Limbo?

 

Diante da guerra levantada contra a doutrina católica sobre o Limbo, as pessoas sem formação tendem a pensar que este lugar é um castigo, quando na verdade não é. Trata-se de um lugar apropriado para a capacidade de uma alma humana impedida, pela presença do pecado original, de ter a vida sobrenatural. E o que acontece com esta alma, no Limbo? Ela vai agir segundo as suas capacidades naturais, e isto vai depender da idade em que tiver morrido. Se chegou a desenvolver um pouco sua inteligência e sua vontade, poderá receber algum conhecimento natural de Deus e dos eleitos do paraíso, que lhe trará uma felicidade natural compatível com o seu estado. É, portanto, um lugar de paz, de felicidade natural. Não é um lugar de visão beatífica, porém isso não afeta as almas dali, pois elas não têm nem mesmo a noção do que seja a visão beatífica, não podendo assim desejá-la ou sentir inveja dos eleitos do Paraíso. Ao contrário, Deus pode perfeitamente alegrar estas alminhas permitindo que algum lampejo da luz do Céu venha iluminar este lugar, como fogos de artifício para que batam palmas ao Criador.

 

Onde querem chegar?

 

Vários erros modernistas, da Nova Teologia de Henri de Lubac, von Balthasar e outros exigem as mudanças que esta comissão tenta empurrar goela abaixo aos católicos. Toda a Nova Teologia e Vaticano II baseiam-se na redução da ordem sobrenatural à ordem natural. Ou seja, a graça e a glória do céu deixariam de ser acréscimos sobrenaturais dados gratuitamente por Deus, para fazerem parte da própria natureza do homem. A partir daí, fica fácil introduzir outras novidades, como a salvação universal de todos os homens, já ao nascer, ou ainda o emparelhamento de todas as religiões como sendo eficazes para salvar os homens. De fato, se as crianças mortas sem batismo vão necessariamente para o céu, já não se faz necessária a fé católica, abre-se a porta para o ecumenismo radical e alucinado proposto durante mais de trinta anos por João Paulo II. Abre-se também as portas para canonizações de pessoas que, pelos critérios católicos, nunca alcançariam os altares. O próprio João Paulo II, absurdamente proposto para ser beatificado; Madre Tereza de Calcutá, a queridinha da mídia mundial, que proibia que fossem batizados, em seus hospitais, as crianças em perigo de morte vindas de outras religiões. Se elas iriam para o céu, então esta atitude seria tolerável, mas se a doutrina verdadeira, do Limbo, é a tradicional, então esta religiosa nunca poderá ser canonizada pelos ritos tradicionais, tendo impedido tantas e tantas alminhas de irem para o céu.

 

Ainda na questão das intenções destes agentes do mal, devemos assinalar a frase citada na imprensa: "o limbo representava um "problema pastoral urgente", pois há cada vez mais crianças que nascem de pais não católicos e que não são batizados e também "outras que não nasceram ao serem vítimas de abortos". A se confirmar o teor desta afirmação, estamos diante de um curioso critério dogmático: já que Vaticano II derrubou a fé católica no mundo inteiro, aumentou consideravelmente o número de crianças nascidas de pais não católicos. Cabe então, segundo a frase citada, uma modificação no dogma católico, para arrombar a porta do céu, explodir tudo, deixar entrar todo mundo, batizado ou não batizado, vindos de pais católicos ou não. É impressionante a pretenção dos desvairados: arrombaram as portas da Igreja com sua "abertura ao mundo" e com isso acham, sem se darem conta do ridículo, que abriram também as portas do céu.

 

Não estamos mais em 1965, ou em 1969. Naqueles dias, os católicos engoliram a heresia progressista sem perceber e hoje já não sabem mais o que são. Diante destes fatos urge ao católico armar-se com a armadura de Deus, resistindo-lhes fortes na fé, com a espada da verdade, o elmo da salvação, a alegria no coração no bom combate, na esperança da salvação, na vida eterna do céu.

 

 

Ainda existe, na alma católica, verdadeira oração? Sermão do primeiro Domingo da Paixão

Após ter feito o sermão do 1º Domingo da Paixão, deste ano de 2006, pareceu-me importante transmitir aos nossos leitores alguns dos dados apresentados naquela ocasião aos paroquianos da Capela Nossa Senhora da Conceição, em Niterói, e da Capela São Miguel, no Rio. Estamos vivendo tempos estranhos e é preciso vigilância e atenção para não sermos levados de roldão pelo mundo.

Quando entramos na igreja no Primeiro Domingo da Paixão, e sentimos um certo choque com a austeridade penitencial do velamento das imagens, vem imediatamente à alma a questão: qual o objetivo da Santa Igreja ao cobrir as imagens, tirá-las de diante dos nossos olhos, justamente no momento em que ela levanta bem alto o estandarte da Santa Cruz?

Pois o que a Igreja busca com esta situação nova e tão desconfortável para nós é levar nossa oração a uma fé mais profunda, para que o tempo da Cruz não nos pareça apenas uma comemoração, um aniversário, mas esteja presente com sua carga de dor, de confusão e obscuridade.

O que vem a ser Rezar ?

Mas se é para medir e regular nossa oração, caberia a cada um de nós perguntarmos: e eu rezo? O tempo da Quaresma serviu para melhorar minha oração?

Para responder a esta pergunta é necessário saber o que seja rezar. Ora, tanto o Catecismo como os santos doutores nos falam sobre a boa oração. Diz lá, então, a doutrina perene:

- Rezar é elevar a alma a Deus.

Santo Agostinho nos dará uma compreensão melhor ao afirmar:

- Rezar é ter uma intenção afetiva do espírito para Deus.

Outros santos dirão:

- Rezar é ter uma conversa íntima com Deus.

Ora, estas definições ou explicações se completam maravilhosamente e nos ajudarão a medir o nosso grau de oração, a sabermos se, de fato, rezamos de verdade ou não.

Ainda se encontra quem reze?

Mas a experiência de qualquer sacerdote, nos dias de hoje, deixa-nos assustados, a ponto de podermos interrogar: - O que está acontecendo conosco? Onde estão as almas que rezam de verdade? E se muitos adultos ainda guardam o costume salutar de recolher-se, todos os dias, diante de Deus, já os adolescentes, os jovens, deixando a idade da infância, porque abandonam tão facilmente a prática da oração que nos dá o céu? Onde encontraremos oração que seja elevação da alma, intenção afetiva, ou conversa íntima com Deus?

Não! Não! O que vemos hoje nestas almas é uma oração pesada, um coração irritado, uma oração rápida e mecânica.

Mas se é pesada por causa da contrariedade que se sente em rezar, então não se eleva.


Se vem carregada com irritação, nunca será uma intenção afetiva.

Se é mecânica, não se pode pensar em conversa íntima com Deus.

Que quadro desolador o que encontramos nas almas. Passaram-se quatro semanas da Quaresma e nada! O mundo segue seu curso e as almas não se converteram!

Pergunto então, assustado e solene: O que falta à oração da grande maioria dos homens?

O que falta é o AMOR! Falta o Amor do espírito que busca o Espírito do Amor, o Deus que é Caritas, que é Caridade!

Todo amor é um apetite. Se nosso amor vai em busca das coisas sensíveis, será um amor baixo, sensível, humano, animal. Estaremos de corpo e alma entregues às coisas deste mundo, e este amor toma conta do nosso coração, elimina a Presença de Deus, e causa o pecado.

Mas se inclinarmos nosso corpo e nossa alma para o bem, para agradar a Deus em tudo, mesmo quando estamos fazendo algo de humano, estaremos intencionalizando nossos atos na direção de Deus, dando uma intenção nova, elevada, vivificante. Nestes atos de amor espiritual encontraremos a união com Deus, a Presença de Deus em tudo que fazemos, mesmo se não estivermos, naquela hora, pensando Nele.

Por que não se consegue mais rezar?

Devemos então nos perguntar, levando adiante esta pesquisa dos nossos corações:

Porque não se consegue mais rezar direito, segundo a elevação da alma, as intenções santas e a intimidade de Deus?

Porque somos constantemente SEDUZIDOS.

Os nossos três inimigos , o demônio, o mundo e a carne armaram uma guerra sutil e subterrânea que invade nosso coração, nosso corpo, nossas intenções, com todo tipo de sedução. Atraem nossa atenção para afastar-nos do gosto pelas coisas santas, pela vida de Deus.

Como somos seduzidos?

Pelos VÍCIOS. Somos seduzidos todos os dias por vícios antigos e por vícios modernos.

Os vícios antigos são aqueles conhecidos de todos: excesso de bebida, gula, sensualidade, preguiça e todo tipo de vícios capitais.


Os vícios modernos são: a televisão, os video-games, o uso de Messengers, orkut e Internet, telefone celular e todo tipo de modernidade que provoca atitudes compulsivas. Todas estas coisas desviam as almas de seus compromissos, tornando-as agressivas, estressadas, desobedientes, preguiçosas e "burrificadas".

Formaram uma vida em torno de nós que nos prende, ligados 24 horas por dia: trabalho, dinheiro, saúde, esportes, e os novos vícios, tirando todo o tempo que poderíamos ter para rezar, ler bons livros, pensarmos na nossa salvação eterna. Como rezar bem numa vida assim?

Então passamos quatro semanas da Quaresma onde se constata que, se alguns fizeram algum esforço de penitência e oração, a grande maioria nem se lembra de que os católicos são chamados com toda urgência a se converterem. Continuam no churrasquinho da sexta-feira, nas festas, em muitos pecados. Até quando vamos viver como se a vida da Igreja fosse uma OPÇÃO? Quando muito um dever secundário que realizamos com aquele espírito de revolta de que falamos acima. Como rezar se não combatemos a sedução?

É preciso rezar sempre

Eis o que ensina Nosso Senhor: "Oportet semper orare - É preciso rezar sempre". E os santos doutores concluirão: "Quem reza se salva, quem não reza fecha as portas do Paraíso".

Então, católico, levante as armas capazes de vencer o sedutor das almas, capaz de dobrar tua cerviz dura e revoltada. Falta-te o Espírito de Fé!
Não se trata exatamente da fé. A Fé pode ser considerada como o conjunto de verdades reveladas por Deus; é o que os teólogos chamam o Objeto da Fé. Dentro de nós, se produz pela graça divina os Atos de Fé, que são as marcas da nossa adesão ao Objeto da fé, a tudo que Deus nos revelou e a Igreja ensina.

Mas a arma poderosa para combater a sedução dos vícios anti-oração é o Espírito de Fé, que consiste em tomar a fé que está, como um dom divino, colocada em nossas almas, e aplicá-la a todos os momentos, situações, encontros, diversões que fazemos ao longo do dia e da vida. Pelo Espírito de fé fica estabelecida em nossas vidas a Presença de Deus. Esta presença de Deus é que nos aproxima Dele, tornando nosso coração mais próximo, mais íntimo, preparando-o para as conversas sublimes, para a afeição amorosa e para a elevação de nossas almas na verdadeira e pura oração.

É preciso, portanto, intencionalizar todos os nossos atos, transformá-los em armas de combate contra os vícios que nos devoram. É preciso forçar o desejo do nosso coração e todos os sentimentos dele para que não impeçam o momento da oração, da meditação, da leitura espiritual que abre nossas mentes para as coisas divinas.

É preciso acreditar que, perdendo tempo com Deus, o trabalho renderá muito mais  e compensará ao cêntuplo o tempo perdido. Ao contrário, quando não rezamos, acabamos presas fáceis para os vícios modernos e perdemos mais tempo do que seria o da oração.

Meditação sobre a morte

Se ainda agora, depois de pensar nestas coisas, neste diagnóstico terrível que mostra o céu fechado, ainda assim não conseguir se desvencilhar da malha viciosa, então, vamos pensar na morte. Por que não? Afinal de contas, estamos no tempo da Paixão, de luto pela morte de Nosso Salvador. Imaginemos, então, que estamos perto da morte, ou que um ente querido, um filho, um esposo, a mulher, tenha acabado de falecer. Parece duro, pensar nestas coisas? Pior é continuar vivendo sem rezar! O terrível peso que a alma sente pela perda joga por terra todos aqueles vícios horríveis que prendiam a alma. Então, de repente, ela percebe o quanto era fraca, envenenada, ridícula, por não conseguir se dominar e produzir algo de sólido e elevado. A morte nos atrai para o essencial, e é exatamente isso que a Igreja deseja quando vela as imagens no Tempo da Paixão. O Essencial é Cristo, sua Paixão, sua morte na Cruz para nos salvar. O essencial é vivermos unidos todo tempo a Jesus, e dizer com o Apóstolo: "Já não sou  eu que vivo, é Cristo que vive em mim".

Cabe a cada um de nós mostrarmos aos nossos adolescentes, aos nossos filhos, que é bom rezar. É bom querer rezar. E, mais do que tudo, é muito bom amarmos a oração porque por ela aprendemos a amar a Deus em sua própria intimidade.

A psicologia do amor

No mundo em que vivemos é moeda corrente as pessoas só quererem fazer o que lhes agrada. Que seja por prazer do corpo, ou pelo prazer de ter dinheiro, ou pelo prazer de se sentir influente, livre e independente, somos formados, à nossa revelia, a detestar as coisas árduas, maçantes, rotineiras, obrigatórias. Que elas tenham um quê de dificuldade ninguém discute. Que a nossa tendência seja a de diminuir a dureza das suas realizações, é compreensível. O que não pode ser é a revolta tomar conta do nosso coração sempre que temos alguma coisa obrigatória a fazer. No fim das contas, tudo o que é de nosso dever é feito com pressa, de qualquer maneira, sem a atenção necessária ou pelo dinheiro que vamos receber. A revolta a que me refiro não é necessariamente uma revolta barulhenta e explosiva. Pode ser apenas o sentimento surdo e escondido de um ódio acumulado.

A condição mínima

A recente visita de Dom Bernard Fellay, superior da Fraternidade S. Pio X, ao Papa Bento XVI levantou algumas interrogações, algumas curiosidades. Alguns esperavam que algo de concreto acontecesse, um início de acordo. Não atinaram que a visita nada mais era do que uma prática normal, de cortesia mútua; o bispo responsável por uma obra como a Fraternidade, acusado injustamente de ser cismática, vem pessoalmente mostrar ao Papa que não há cisma, apesar de haver, sim, muitos pontos de afastamento, de discordâncias, causadas pelas novidades, pelos graves erros de Vaticano II. Mas diante desta movimentação dos espíritos desses últimos dias, um leitor me perguntou qual seria a condição mínima para que houvesse, enfim, um acordo entre o Vaticano e a Fraternidade São Pio X, depois deste primeiro encontro do Papa com Dom Fellay.

Como avaliar? Quais os critérios para se definir um mínimo que permita alcançar este entendimento com o Vaticano? Seria a liberação da missa de S. Pio V a todos os padres, sem necessidades de permissões? Ou a anulação do ato de excomunhão? Estas foram as duas condições colocadas pela Fraternidade ao Card. Ratzinger, no ano 2000 para um início de conversa. Não creio que sejam "condições mínimas" para o acordo. Seriam, antes, atitudes de boa vontade da parte do Vaticano, coisa que até hoje não ocorreu.

O que aconteceria se fosse liberada assim a missa? Se nossa perspectiva fosse a de certos "conservadores", deveríamos considerar que o aumento das missas tradicionais levaria a um esvaziamento das nossas capelas, pois muitos diriam: se podemos ter a missa tradicional com Roma, porque tê-la sem Roma? Mas devemos constatar que esta dialética já existe e as capelas não se esvaziaram. Não deixa de ser curioso que em várias dioceses onde há missas da Fraternidade S. Pio X ou grupos afins, se tenha iniciado uma missa tradicional "oficial". Rio, Niterói, São Paulo, Santa Maria, Belo Horizonte. E eu pergunto: - porque não se esvaziaram as capelas da Fraternidade? Porque não é só a missa que nos distancia da Igreja de Vaticano II. Vejam o que diz o jornalista italiano Vittorio Messori, no jornal Corriere della Sera de 27/8: "Não se trata aqui apenas de liturgia em latim: existe uma eclesiologia e, com ela, uma teologia que hoje diverge".

Na nossa perspectiva, que não é a destes neo-conservadores, a multiplicação das missas de S. Pio V, com ou sem um acordo com Roma, poderia induzir os fiéis a considerar que tudo está resolvido, ficando de lado o mais importante deste combate de quarenta anos, que é a defesa da fé, diminuída e mesmo destruída em todos os poros da vida da Igreja. O que nos distancia de modo tão radical do Vaticano II é a essência do catolicismo, como dizia Gustavo Corção. É o que diz também o superior da Fraternidade S. Pio X para o distrito da Itália, Padre Nely, citado pelo mesmo Messori: "Não seria possível para nós deixar de denunciar os erros. Nosso papel é o de vigiar para que a ortodoxia seja respeitada".

Logo, devemos concluir que a liberação da Missa não é uma condição mínima para um acordo. A questão da excomunhão, por seu lado, não tem peso para ser esta condição visto que ela só foi colocada por Dom Fellay a João Paulo II para que seja devolvida a honra dos defensores da fé, manchada por este ato jurídico-disciplinar sem fundamento no direito canônico (cf. tese de doutorado do Pe. Gerald Murray)

Examinando a trajetória dos grupos tradicionais que fizeram o acordo com o Vaticano, constata-se que todos eles, quer se trate dos acordos de 1988 quer se trate dos padres de Campos, em 2002, tiveram que dar alguma coisa em troca, pelo direito de celebrar a missa tradicional ou de serem erigidos em abadias, administrações etc. Tiveram que aceitar Vaticano II, seus ritos, seus santos, sua missa. Todos eles mudaram bruscamente de linguagem e de atitude diante de tudo o que o Concílio e o  pós-Concílio produziu. Hoje, todos sabem, a Fraternidade São Pedro já não existe tal como surgiu, em 30 de junho de 1988. A intervenção do Vaticano no ano 2000 impôs novos chefes e novas práticas. No Barroux, a mesma coisa aconteceu, de modo talvez mais ameno, mas o atual jovem abade deixou claro que ali as duas missas são igualmente respeitadas e celebradas. Em Campos já não causa nem mais escândalo as fotos de Dom Fernando Rifan concelebrando a missa nova, assim como a aceitação total de toda a "espiritualidade" do Vaticano, que seja o novo Rosário, ou a devoção ao liberal Escrivá de Balaguer.

Parece-me, portanto, claro que a condição mínima para um acordo é que não haja, com a Fraternidade, a duplicidade que vemos nos acordos anteriores. Tanto Dom Gerard Calvet, como os padres de S. Pedro ou os padres de Campos repetiram incansavelmente que estavam sendo aceitos como eram, "sem contra-partida". E isso era falso. Era falso porque os agentes do Vaticano foram dúbios ou era falso porque os padres e religiosos foram dúbios com seus fiéis? O Cardeal Mayer foi claro quando propôs o acordo ao Barroux, em 1988. Disse que Dom Marcel Lefebvre não poderia mais pisar no Mosteiro de Santa Madalena, diante de um Dom Gerard que tentava de todos os modos esquivar-se da questão. E Dom Fernando Rifan? O que há de mais dúbio do que os três meses passados em Roma, possíveis promessas não confessáveis, possíveis concelebrações não confirmadas, antes daquelas que conhecemos? O que há de mais dúbio do que a tentativa de dividir o pensamento de Dom Antônio de Castro Mayer como se o grande defensor da fé fosse instável e incoerente em suas posições doutrinárias, como está sendo Dom Rifan e seus padres?

O fato é que só há um caminho para a reconciliação e este caminho me parece cheio de muitos e complexos obstáculos: o Vaticano não poderá exigir de Dom Fellay e da Fraternidade que mude seu discurso, que altere o tom de suas críticas à obra nefasta e herética de Vaticano II. Propor à Fraternidade o mesmo esquema de acordo já vivido me parece ilusório; pretender que a Fraternidade venha a aceitar a missa nova, mesmo quando "rezada corretamente", me parece ingênuo e inútil. A doce firmeza com que os bispos da Fraternidade mantém a exigência de um catolicismo totalmente verdadeiro e tradicional é a prova da continuidade, da perseverança, da presença espiritual de seu fundador, o venerado Dom Marcel Lefebvre.

Parece-me ilustrar bem estas considerações o que escreve, em mais uma citação, Messori: "o distanciamento teológico se agravou tanto nas últimas décadas que, humanamente falando, uma cura total da fratura parece impossível. Qualquer que seja a solução proposta pelos canonistas (prelazia pessoal, administração apostólica, ordem religiosa etc), os discípulos de Mons. Lefebvre não poderiam viver numa espécie de Igreja paralela, ignorando o que se produz em volta dela". Ora, para evitar este entrave é que os conservadores que fizeram o tal acordo com o Vaticano agem como se na Igreja existissem "guichês" para todos os gostos e necessidades: guichê da TL, guichê da RCC, guichê da Opus Dei, guichê de Taizê e... guichê da Tradição. Estão aí, ainda, os ecos da última JMJ para provar. Ecos, aliás, dissonantes e agressivos da música rock, pop, gospel, e protestante, misturadas ao lindo gregoriano do guichê da Tradição. Mas é justamente o que não passa pela cabeça dos bispos da Fraternidade, aceitar que se rebaixe assim a santidade da Igreja, que se diminua de modo tão iníquo a fé católica.

Cabe diante da situação uma verdadeira esperança de milagre. Cabe um esforço de orações para que a graça divina trabalhe nos corações e faça as autoridades devolverem a todos os fiéis o acesso à verdadeira Igreja Católica, esta que é prisioneira do autoritarismo e da marginalização, esta que é isenta de todas as manchas e rugas do mundo que se vieram grudar nela depois do Concílio, como um câncer espiritual que a devora.

O monstrengo que chia

Estamos debaixo de uma verdadeira avalanche. Ouvimos o ruído estrondoso de uma montanha que despenca morro abaixo, sobre os homens: a maioria acha lindo e bate palmas; outros poucos choram e pedem a Deus "que as montanhas caiam sobre nós". Será de neve, a avalanche, como nos Andes? Ou de lama e rochas, como na serra de Petrópolis? Será de lixo e barracos como nas favelas cariocas? Apesar de todas estas avalanches serem graves e horríveis, falo aqui de outro tipo de destruição. A humanidade, orgulhosamente fincada em pés de barro, achando-se forte como o ferro e rica como o ouro, ousou gritar no desfiladeiro e se alegra com o rufar da neve, da lama, do lixo e de tudo o mais. Porque não restará pedra sobre pedra quando a vingança de Deus se levantar.

 

Esta avalanche provocada por sérios cientistas de jaleco branco, provocada por não tão sérios políticos de terno e gravata, está em todos os jornais, em todas as revistas de nosso pobre país. Está liberada a manipulação de cadáveres, de inocentes criancinhas abortadas. Depois do assassinato, vem a feira. O produto do assassinato é, assim, posto nas prateleiras da feira da esquina, onde os embriões humanos, aqueles mesmos que poderiam, amanhã ser um grande homem, bom, honesto, santo talvez, e que teve sua existência roubada antes mesmo da luz, antes mesmo da tosse e do choro, do abrir dos olhos para ver os olhos da mãe, estes bebês vão virar remédio! Dizem que já viram cosméticos num mercado macabro e paralelo. Agora vão ser sopinhas nutritivas.

 

Não vou entrar aqui nos detalhes da coisa, do monstro horrendo que nos devora sob os aplausos do mundo. Quisera antes tremer como o homem do leme diante do monstrengo do fim do mundo, tremer mas lutar, em nome d´El Rei e Senhor de toda a terra, e do céu e do mar:

"O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»





Um corpo sem cérebro tem alma?

 

Podem juntar todos os argumentos que estes homens maus e desgraçados lançam enganando a gente simples. Todos juntos não valem um graveto de palha. Começa que são materialistas até o fundo da alma. E sendo materialistas, querem nos impingir a falsa idéia de que um corpo humano sem cérebro não é humano, logo poderia ser abortado. Falso. Um corpo humano, no primeiro momento de sua existência, ou seja, na primeira divisão celular que ocorre quando as células reprodutoras do homem se unem às da mulher, neste momento em que se forma maravilhosamente o código genético que nunca mais será alterado, até a morte; neste momento em que todas as características do homem maduro já estão presentes, neste momento em que não existe nem cérebro, nem coração, nem órgão algum, Deus, o Criador dos homens e do mundo, sopra, num ato único de criação, particular, daquele ser, uma alma imortal, espiritual, racional. A presença desta alma é atestada pela nossa própria reflexão, pela própria observação do ateu que afirma não existir a alma. Só um ser dotado de alma espiritual seria capaz de escrever um artigo para tentar provar a não existência da alma racional. Só um ser dotado de vontade livre e espiritual, e não de instinto material, poderia tomar uma decisão tão grave de enfiar uma ferramenta dentro do útero de uma mulher para estraçalhar a cabeça de uma criancinha inocente, linda, maravilhosamente viva, que se debate defendendo sua vida, como se fora um adulto nas mãos de inimigos cruéis. O assassino cruel tem nas mãos a ferramenta da contradição e o castigo clama aos céus. O ato pecaminoso que comete é a prova da nulidade de seus argumentos.

 

Mas eles não se dão por vencidos,  lá vem os materialistas enlouquecidos insistir que um embrião sem cérebro não é humano, que pode ser abortado. Vamos tentar entender a argumentação. Se eles dizem que não é humano porque não têm cérebro, significa que, para essa gente, é o cérebro que define o homem. Se tem cérebro é humano, se não tem cérebro não é. Para um materialista, faz sentido, pois onde poderia ele se apoiar para explicar a vida? No centro de comandos dos sinais vitais. É compreensível, mas é pobre como explicação, é falso. Mas a questão é, como já assinalei acima, que o fato do organismo humano ter um centro nervoso que explique seus atos, seus movimentos físicos e psíquicos, não dá razão de um único pensamento racional. Não há nada na matéria que possa explicar como uma criança, olhando um ser estranho, pergunte para seu pai: — Pai, isso é bicho ou gente? A formulação da questão onde aparecem conceitos racionais definindo seres diferentes só é possível a partir de algo que está acima do centro nervoso ou do bater do coração. O simples bom senso permite que se entenda isso com facilidade, mas esta sabedoria popular parece faltar nos políticos e cientistas ateus. Ou será que eles entendem, mas têm outros interesses inconfessáveis? Imaginem um quadro de botões para apagar e acender um jogo de luzes. Dizer que o cérebro é a razão da vida, significaria dizer que o quadro de botões explica a luz. Do mesmo modo que o coração não explica a vida, apenas bombeia o sangue que alimenta os órgãos, assim também o cérebro, apenas abre e fecha comandos. Poderíamos imaginar que o funcionário de uma estrada de ferro que move com uma alavanca os trilhos para desviar o trem para determinada direção seria a razão essencial da viagem?

 

Como se combinam corpo e alma

 

Se o cérebro é matéria, faz-se necessário encontrar a forma substancial que explique o seu funcionamento. Desde Aristóteles que o homem aprendeu que todo ente material não possui na própria matéria a razão do seu ser. Todo ser material precisa da forma substancial para explicar o que ele é. O corpo humano, portanto, precisa de uma forma que explique e defina o ser humano e todas as suas faculdades. O cérebro só é causa dos impulsos nervosos, ou seja, algo material e físico; nada tem a dizer sobre uma série de atos que se constata no agir humano e que ultrapassam o domínio da matéria: o saber intelectual, o querer livre que comporta uma escolha, a renúncia de um bem material por escolha de um bem espiritual etc. A forma substancial do homem precisa dar razão também desta atividade espiritual, que se constata tão facilmente. Logo deve-se concluir na existência de uma forma substancial espiritual, capaz de todos os atos não materiais. Esta forma substancial é a alma. O termo procede de "coisa animada" e por isso será usada por Aristóteles de modo analógico em cada nível de atividade vital: a alma vegetativa explica como um ser material consegue atividades vitais nos vegetais; alma sensitiva explica como um ser material consegue atividades sensíveis e vitais nos animais; alma espiritual explica como um ser material consegue atividades espirituais, sensíveis e vitais, no homem. É na seqüência deste raciocínio que se alcança a compreensão da imortalidade da alma. Pois se as atividades espirituais do homem não têm sua origem na matéria (que se decompõe), mas sim na alma espiritual criada por Deus na concepção, então deve permanecer mesmo quando o organismo material falha, causando a morte, ou seja, a separação daquela matéria de sua forma substancial que a organizava, a mantinha na vida, a fazia agir.

 

A morte cerebral

 

Se é na origem da vida, no embrião, que a sociedade apóstata descarrega todo o seu ódio e loucura, na outra ponta da vida também estará presente a fraude do homem brincando de Deus. Tudo começou com os transplantes de coração, mas acontece também com transplante de fígado e outros órgãos vitais. Para que estes órgãos sejam viáveis para um transplante, é necessário que o coração do doador ainda esteja batendo, que o sangue ainda corra em suas veias, em outras palavras: que o doador esteja VIVO. Evidentemente a prática das doações de órgãos vitais trouxe para o mundo da medicina interesses que passam longe da cura dos doentes. Um mercado impressionante se estabeleceu nos grandes países e é a peso de ouro que este tipo de operação é feita. Era preciso continuar matando doadores para que as pesquisas continuassem e o mercado não se extinguisse. Calaram o crime e inventaram rapidamente um subterfúgio: a morte cerebral. A sociedade, por estar adormecida e sedada pelos prazeres, pela televisão, pelo grande objetivo de enriquecer, não percebeu o engano e foi engolindo a falsa noção de morte que estes senhores inventaram. Quando o cérebro não apresenta mais determinado nível de atividade nervosa, considera-se que a pessoa está morta e começa a carnificina, sob os eufemismos de "caridade", "benemérito da humanidade" e "salvador de vidas", que são passados para as famílias, em geral já anestesiadas pela dor do momento. A guerra é tão absurda que os organismos internacionais e os governos calam os cientistas que têm provado que certos tratamentos como a hipotermia (diminuição da temperatura do corpo) têm trazido grande número de "mortos cerebrais" de volta às atividades cerebrais. Se voltam é porque não estavam mortos. E se arrancam seus órgãos neste estado, estão assassinando. Portanto, não permitam que se faça o retalhamento dos seus doentes em coma profundo. Se não for possível que voltem, pelo menos que possam morrer em paz, assistidos por um padre para a salvação de suas almas.

 

Eutanásia

 

Evidentemente estamos entrando à galope na era da eutanásia. Hollywood está aí, desprezando o sucesso estrondoso do excelente filme "A Paixão de Cristo" para elevar à gloria dois filmes de propaganda de eutanásia ou suicídio assistido, como gostam de dizer. Já passou o aborto, já passou o homossexualismo, agora chegamos à escolha da morte. O homem que já se acha no direito de matar as criancinhas inocentes agora exige aos berros o direito de matar a si mesmo quando achar razoável. Não é preciso conversarmos sobre o que seja razoável ou não; Deus só é Senhor da vida e da morte. Nossa vida nos foi dada por Ele e só Ele pode tomá-la da volta. Nós somos depositários e temos contas a prestar no dia do juízo. É preciso viver num mundo pagão e sem razões profundas como é o neo-paganismo atual para achar que uma doença sem solução seja motivo para buscar a morte. Não é. Todo sofrimento tem uma razão, a qual se refere necessariamente com o resgate do gênero humano realizado por Jesus na Cruz. Ele deu sua vida por nós num sofrimento infinitas vezes maior do que qualquer sofrimento nosso, pois somava ao martírio terrível do seu corpo a expiação espiritual do peso tremendo de todos os pecados. Se os homens soubessem o que é o dogma da Comunhão dos Santos, não perderiam um minuto de sofrimento sem oferecer. Se soubessem que todos os nossos atos atuam sobre as almas do nosso próximo, por ação da pura vontade divina, que aplica uma oração, um sacrifício oferecido, para o bem de outros que, muitas vezes, nem conhecemos. É como uma grande equilíbrio espiritual onde o fiel da balança é a vontade divina, o coração de Deus amolecido pela dor de seus filhos que oferecem uns pelos outros. É preciso lembrar aos nossos velhinhos que eles têm uma razão muito forte para suportar o peso da idade, da doença, das dores. Eles podem carregar o mundo nas costas, converter os piores pecadores, salvar almas para o céu. Nossa missão aqui na terra só termina na hora da morte, quando Deus nos chama para o descanso eterno. Não aceitem os falsos argumentos da televisão. Estudem e mostrem aos familiares e amigos que só Deus pode nos dar a recompensa.

 

Porque a morte é a separação da alma e do corpo quando o corpo não tem mais organização material suficiente para ser "animado". A morte não é um dado da religião. Vamos deixar as coisas claras. Nem a questão da morte cerebral, nem a eutanásia, nem o aborto, nem a manipulação de embriões são temas apenas religiosos. Não é preciso invocar nenhum tratado de teologia, nem passagem da Bíblia ou texto do Magistério para se rechaçar com todas as forças tais crimes. Estamos lidando com argumentação filosófica, natural, horizontal e humana. E se o Papa aparece diante do mundo como um ferrenho defensor do "direito à vida", não significa que ele o faça porque é o chefe da Igreja. Ele o faz porque é homem e assim como ele, todos os homens, de qualquer credo que for, devem também fazer. A moral católica vem reforçar a argumentação com os dados da Revelação e com o ensinamento infalível da Tradição. Mas não significa, de modo algum, que a defesa destes valores da vida humana seja uma "opção" de tal ou tal credo religioso. Portanto, o pecado existe para todos e se não houver uma conversão de tudo isso, em breve o castigo de Deus cairá sobre a humanidade.

 

Existe um direito à vida?

 

Costuma-se alegar como motivo para combater o aborto, o direito à vida. Os que assim argumentam costumam afirmar que a vida é um bem sagrado, um direito absoluto e o que há de mais importante para o homem. Apesar de compreender a boa intenção desta argumentação, não posso deixar de salientar que não me parece correto o argumento. É verdade que, estando vivos, existe um certo direito civil de desenvolvermos esta vida, de podermos viver em paz, de termos alimento para saciar a nossa fome etc. Mas este "direito" é da ordem civil, no trato entre homens dentro de uma sociedade. Mas quando argumentamos sobre aborto, eutanásia ou morte cerebral, estamos, antes de tudo, diante de Deus. E neste caso, devemos lembrar que recebemos a vida de Deus sem mérito algum da nossa parte. Existimos mas poderíamos perfeitamente não existir. E se não temos méritos, também não temos direitos. Antes, ao contrário, temos muitos deveres para com Deus e para com o próximo, seja ele a sociedade civil ou o padeiro da esquina. O que quero dizer é que nossa argumentação para condenar o aborto, o uso dos embriões, a eutanásia e tudo mais, é que estas coisas são crimes e pecados contra a Lei Santa de Deus, que foi inscrita nos corações de todos os homens, chamada Lei Natural; que foi explicitada na Revelação do Antigo Testamento, nos dez mandamentos, e que foi santificada pela doutrina salvífica do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. E para que serve uma doutrina de salvação? Para nos dar uma vida feliz e com saúde, como se costuma desejar? Não me parece. A vida para nós só pode ser um bem imenso e absoluto se estivermos falando da Vida Eterna! A vida, em si mesmo, não é sagrada. Ela faz parte da ordem natural. Torna-se sagrada pelo Santo Batismo, quando recebemos a vida sobrenatural, divina, dentro de nós, nos transformando e nos tornando aptos para a Vida Eterna. E é nela, na Beatitude de Deus, no Céu, na Visão beatífica que estaremos descobrindo no próprio Deus a razão de ser de tantos sofrimentos neste vale de lágrimas.

 

 

A bofetada

Um filme, um evento, um impressionante acontecimento que sacode o mundo e que nos faz pensar num caleidoscópio de nuances e cores variadas. Hoje eu queria lhes falar deste filme como numa conversa. Amanhã estaremos reunidos para conferências e exposições mais aprimoradas, mais estudadas, de modo a tirarmos o melhor proveito para a nossa Semana Santa, para as nossas almas.
 
Hoje eu queria apenas comentar o que temos lido e ouvido para já irmos entendendo um pouco mais sobre este terremoto.
 
Consideremos, antes de mais nada, que o filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, ecoa como um brado ensurdecedor, como um grito da humanidade que já não agüenta mais viver nesta mortal indiferença diante do Sangue derramado por Nosso Senhor para nos salvar. Basta! Chega!
 
E de onde vem este brado, de onde nos chegam estes ecos? Do mais mundano lugar da terra; da pátria do cinema pornográfico, do cinema revolucionário, principalmente do cinema milionário que paga para ter todos os pecados e assim beber o sangue dos inocentes; do campo de sangue da violência brutal, gratuita e agitadora das almas. É da usina construída para decompor a família, a boa conduta, a honestidade e a decência que se lança um grito que alcança os confins da terra. E se este trovão atravessa a terra, se este relâmpago é "visto de oriente a ocidente" , não podemos dizer que ele seja um gemido insignificante. Ele tem volume, ele tem peso, ele tem autoridade.
 
Autoridade de quem sabe o que é cinema; peso de quem é consagrado nas telas; volume de quem pôs a mão no bolso para pagar a conta! Forte dessas prerrogativas este homem venceu as montanhas do ódio, da calúnia, do desprezo, abrindo passagem como outrora o próprio Cristo abriu no meio dos fariseus que não ousaram por as mãos sobre Ele; forte da simplicidade do pobre, da sensatez do sábio, da esperteza da serpente, este homem do mundo mundano gritou e disse: "esta é a minha fé; nisso eu acredito"... "por nossos pecados, pelos pecados de todos nós é que Jesus sofreu tal martírio... a mão que segura o cravo, na hora da crucifixão é a minha própria mão, para mostrar que eu me ponho em primeiro lugar como culpado da morte de Cristo".
 
E enquanto estas coisas eram ditas, enquanto o mundo pasmava diante desse testemunho de fé, aqui ao nosso lado, aos pés do Cristo Redentor do Corcovado, milhares de mundanos do mundo pagão, do mundo podre, desfilava e dançava na festa da carne, da bestialidade, dos gestos obscenos, para aplauso do mundo inteiro: "o maior espetáculo da terra", anunciam os marqueteiros do pecado. E chegam ao Rio milhares e milhares de turistas para pagar a conta do sonho da orgia.
 
Só este contraste já seria suficiente para nos fazer pensar e meditar: o planeta inteiro esquecido do Sangue de Jesus, dançando e cantando como no tempo da Arca de Noé.... e o corajoso filme sacudindo o mundo para lhes mostrar....
 
Para mostrar o quê?
 
É aí que está o mais surpreendente: para mostrar que Cristo morreu por nós e que nós devemos pensar nisso, devemos nos lembrar sempre, que estamos na Quaresma e no tempo da Paixão para que ao menos durante seis semanas estes acontecimentos de dois mil anos espetem nosso coração com a lança, machuquem nosso corpo como o de Jesus flagelado, atravessem a nossa carne que ainda sacode no gozo do pecado, como os cravos atravessaram o corpo virginal do Salvador.
 
Mas esse anúncio vigoroso da Quaresma, do jejum, da penitência, não tinha que partir de outras pessoas? Onde estão os bispos católicos que já não ensinam mais que se não morrermos com Cristo não seremos ressuscitados com Ele? O que fazem estes modernos doutrinadores de um evangelho adocicado, esmaecido, afeminado? Ah! sim. Estão reunidos num Concílio, já tinha esquecido. Estão perdidos no tempo e no espaço, vagando pelas ilusões de um falso cristianismo onde tudo é amor mesmo sem ordem, tudo é perdão, mesmo sem arrependimento; onde todos já estão salvos, sabendo ou não, querendo ou não. Vivem dessa ilusão com os homens de toda a terra já completamente entorpecidos por um século de liberdades e liberalidades. Tudo pode, o homem é livre e nada há que o possa impedir de fazer o que ele quer. Nada há que limite sua vontade todo-poderosa. Nem o pai, nem a pátria, nem Deus.
 
Ei-los, os bispos, aqueles que deveriam ser os sucessores dos Apóstolos, que enchem a boca para pregar a Nova Religião de Vaticano II. Eis a ridícula imagem que lhes resta viver quando do fim do mundo, do fundo do poço ressoa um grito que atinge em cheio o seu rosto. Uma bofetada!
 
É assim que eu defino este filme, A Paixão de Cristo. Uma real bofetada em muita gente:
 
Você quer carnaval? - slapch! Veja a carne rasgada pela flagelação!
Você quer sexo seguro? - slapch! Olhe bem para o rosto desta Virgem Dolorosa!
Você quer missa-refeição? - slapch!! Veja a Cruz levantada, o Coração aberto, o Sangue e a água!

Você quer ecumenismo? - slapch! slapch! Veja, aprenda que só a Cruz de Jesus pode congregar todos os povos e todas as línguas numa única fé, num único rebanho. Aceite esta lição vinda de um homem simples, comum, do cinema, do fundo do poço. Só a verdadeira fé católica é caminho de salvação e as falsas religiões são obra do demônio.
 
Ah! O sagrado chicote com que Jesus expulsou os vendilhões do templo foi posto nas mãos de um homem comum para esbofetear estes falsos levitas. São eles os maiores incriminados pela Paixão de Cristo. São as autoridades que vivem de Vaticano II que há quarenta anos falsificam e desfiguram a Esposa de Cristo.
 
Não, os incriminados não são os judeus. Os judeus de hoje só receberam do filme uma mensagem de verdadeiro amor fraterno; mensagem vinda dos irmãos que abriram a alma à Fé no Messias, Jesus Cristo, nosso Deus Encarnado, e que na oração que brota da fé esperam com sinceridade o retorno do filho pródigo, o retorno do filho mais velho para a Casa do Pai, o retorno de Esaú vindo encontrar-se com Jacó (Gênesis, 32).
 
 

"Onde encontraremos pão para tanta gente?"

As portas se abriram e a luz de Jesus Cristo ressuscitado penetrou no templo novo e belo, na nossa igreja de Nossa Senhora da Conceição. As trevas em que estava mergulhada a igreja foram recebendo os primeiros raios de luz dessa Páscoa. O leve silêncio da noite que reinava sobre os bancos, sobre as colunas foi ouvindo um canto, vindo, vindo lá de baixo, dos graves, subindo até alcançar a plenitude da contemplação: Lumen Christi – Deo gratias. 

Todos os anos nós assistimos a esta mesma cerimônia e todo ano ela é nova e respinga de frescor e primavera. Hoje ela é ainda mais nova pois é a primeira na nova igreja.

Todas as cerimônias foram marcadas por esta circunstância que poderíamos chamar de “inauguração” ou talvez “invenção”, termo usado na liturgia para a festa da descoberta da Santa Cruz, por Santa Helena. Invenção de Cristo! Nós o achamos, nós o “descobrimos” pois “ele estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado”. Por isso tocamos os órgãos e cantamos os cânticos e nos alegramos e dizemos: Allelúia. 

As coisas estavam tão cheias da presença de Nosso Senhor, as cerimônias ganharam um esplendor que não conhecíamos na nossa saudosa capelinha provisória, montada no salão da casa paroquial até novembro passado. Os meninos vieram e dedicaram-se, nestes quatro dias, a arrumar, limpar, dar brilho, ensaiar. Souberam entregar-se a um esporte que já não atrai mais os seus companheiros de escola. A Santa Liturgia.

Queríamos fazer tudo ficar bonito e brilhante; eles se entusiasmaram com a idéia de ir buscar um tronco de eucalipto para fincar na frente da igreja, e nele fixar um holofote que seria aceso no momento do Glória da missa, iluminando os vitrais do altar, no meio da noite... O beata nox, havia cantado o celebrante no Exultet. E esses meninos a tornaram mais bela, mais abençoada, pelos gestos, pelo cuidado na preparação, tão necessários para que um padre solitário possa celebrar os dias santos com um mínimo de solenidade.

Já na Sexta-feira Santa, no momento em que o canto da Paixão, segundo São João é interrompido pela morte de Nosso Senhor, eles quiseram fazer a prostração juntamente com o padre. Nunca pensamos nisso porque nem havia espaço, lá em baixo. Mas o nosso presbitério, hoje, é vasto o suficiente para que tudo se faça com a dignidade exigida. Agora vocês imaginem, estes adolescentes com o rosto em terra em gesto de adoração! Coisas que não se vê muito por aí!

Os fiéis, por sua vez, corresponderam também, pela presença eficaz, principalmente na Sexta-feira, quando havia mais de 200 pessoas. Muitas confissões, todos procurando seguir no seu missal os principais acontecimentos que a Liturgia nos faz reviver nesses dias santos.

Na sexta-feira, o sacrário é deixado vazio, depois da comunhão. Nosso Senhor está morto, nós o adoramos pregado na Santa Cruz, mas não o temos conosco. É o luto e a dor pela morte de Cristo. No sábado, o dia todo passado sem ofícios litúrgicos, significando o silêncio do sepulcro, por detrás da pesada pedra que o fechava. E à noite, o Círio, a Luz, o Exultet, como descrevemos acima.

Pois foi exatamente dentro deste contexto espiritual, com as almas vivendo intensamente estes momentos, esta ausência dEle, que ouviu-se (quase) como que um grito de surpresa e interrogação. No meio da missa da Vigília Pascal. “Onde encontraremos pão para saciar tanta gente?”

No momento em que o sacerdote terminava a sua comunhão, deu-se conta que a âmbula, com as hóstias para a comunhão dos fiéis ficara na credência, ou seja, na mesinha onde ficam os objetos usados na missa. Não haviam sido consagradas! Não havia hóstias para distribuir a comunhão. Passados os primeiros momentos de perplexidade, ele virou-se para os fiéis e explicou a situação, convidando a todos a que voltassem à missa no Domingo de Páscoa para comungar.

E assim se fez.

Mas esse convite não foi suficiente para diminuir o constrangimento que isso causou nos nossos acólitos, nesses rapazes dedicados, que tanto trabalharam para oferecer a mais bela de todas as nossas Semanas Santas. Para eles foi um choque. Sentiram-se responsáveis pela falta e esmagados pela confusão, sendo preciso que muitos viessem consolá-los depois da missa.

Foi assim que Nosso Senhor nos deu uma boa lição nesta primeira Páscoa na nossa nova igreja. Ele nos mostrou que todo o lindo aparato litúrgico que conseguimos desenvolver, de nada valia, se nossas atenções não estivessem voltadas para o essencial: a sua presença simples e suave, real e terrível, milagrosa e eficaz, na Sagrada Hóstia, pela Transubstanciação do pão e do vinho no seu Corpo e no seu Sangue.

No dia em que Jesus se escondeu de nós e não veio nos visitar em sua Páscoa, compreendemos melhor o quanto ele nos faz falta e quanto devemos dar a Ele para poder dEle receber a Vida, a sua Vida Divina que do seu trono sagrado ele nos transmite, pela fé e pela caridade de Deus.

Aprendemos que devemos nos preparar sempre e sempre para comungar todos os dias e que não podemos deixar com que a rotina diminua o nosso amor e o temor pela Presença real de Jesus na Sagrada Hóstia.

E esta pequena história eu quis contar para todos, dedicando-a a todas as almas espalhadas pelo nosso Brasil e pelo mundo, que não têm onde comungar numa missa verdadeiramente católica; que são obrigados muitas vezes a suportar o vazio espiritual de tantos padres imbuídos do espírito de Vaticano II e que já não sabem mais o que é uma missa verdadeira.

No Domingo de Páscoa, enfim, nosso doce e bom Jesus apareceu novamente sobre nosso altar de pedra. E para marcar este reencontro, pela primeira vez tocamos o nosso sino “grande” na Consagração, como sinal desta comunhão pascal, desta comunhão eterna,  que dedicamos aos nossos irmãos que não puderam comungar nesta Páscoa. Hoje, graças à essa “ausência” do Sábado Santo e a esta “invenção”, esta verdadeira Ressurreição do Domingo de Páscoa,  nós sabemos o que significa não ter onde assistir a Missa Católica. E é por isso gostaria de terminar convidando a todos a preparar suas almas para a Festa de Corpus Christi, a festa do Corpo de Deus, que festejaremos na Quinta-feira 30 de maio, às 10:00 da manhã.

E é assim que podemos hoje desejar a todos Feliz Páscoa. Como  no Natal, não é a Páscoa do comércio, dos ovos de chocolate, mas Jesus Cristo Ressuscitado, este Jesus que aprendemos a amar na nossa Semana Santa e que se dá a nós todos os dias na Sagrada Comunhão.

A luz do Natal

Dom Lourenço Fleichman OSB

A Missa do Galo, a missa da meia-noite, a Missa da escuridão. Noite escura. Quantos significados tem para a alma esta expressão, esta realidade.

No princípio a terra estava vazia e informe e as trevas cobriam a face do abismo (Gn, 1)

As trevas da noite que são as trevas da alma, que também nasce na escuridão do pecado.

As trevas da noite que são também as trevas da Fé, pois o mistério é uma grande escuridão, vivida por tantos santos no grande sofrimento da ausência do Amado. La noche obscura, escreveu S. João da Cruz. Noite de grandes purificações espirituais que nos leva mais adiante no caminho da santidade e do amor de Deus.

E Deus disse: faça-se a luz!(Gn, 1)

No meio da noite as trevas desapareceram, fez-se luz, o ser amado pelo Criador emerge da noite para banhar-se no Sol divino.

Vejam o que diz a poetisa francesa, tão profunda que seus escritos são verdadeiras meditações:

·  «O Espírito do Mal, Lúcifer, chama-se Luz. E a Árvore do Bem e do Mal chama-se Ciência, que significa também Luz. Como se houvesse na Luz um perigo mortal para o Anjo e para o Homem. Na ordem material, alguns raios sutis decompõem o corpo, destroem a vida.

·  Em estado puro a Luz mata.

·  Só existe vida, ela só é possível, onde a Luz se atenua e se turva.

·  Só Deus, que é Luz, suporta a sua Luz. Quando Deus criou a Vida, criou a sombra. A sombra é a misericórdia da Luz que se acalma para poupar a criatura. E o mistério é o véu que Deus joga sobre Deus para aliviar o Homem. Pois "aquele que vê a Deus - Luz - deve morrer".

·  No primeiro jardim crescem e se opõem as duas árvores: a Árvore da Vida e a Árvore da Ciência.

·  A Árvore da Vida: Luz de Deus, misturada de sombra, dada como alimento ao homem segundo a capacidade do homem, como o sangue da mãe torna-se leite para a criança. E esta Luz cheia de sombra misericordiosa, este Deus reduzido ao Homem, chama-se Graça.

·  E a Árvore da Ciência?..."Colha o fruto, roubem a luz, sereis como Deus..." (Gn,3)

·  E morrereis». (Marie-Nöel)

Que visão, que inspiração teve esta mulher em 1933! E quando pensamos que a civilização moderna nos séculos de Revolução, era "iluminada", buscando a luz da Ciência. E a contemporânea busca a luz da matéria para criar um mundo ótico e virtual onde tudo é luz....e morrereis!

Ó Deus, onde está a Árvore da Vida, que escondestes de nossos primeiros pais, no Paraíso perdido? Qual o caminho que a espada de fogo do Arcanjo fecha até que venha o Desejado das Colinas Eternas

«No Princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus.
Nada do que foi feito foi feito sem Ele.
O que foi feito, Nele era Vida, e a Vida era a Luz dos homens; e a Luz brilha nas Trevas. Et Verbum caro factum est

Esta é a Luz de Deus na misericórdia da sombra, é a união das duas naturezas na mesma Pessoa adorável do Filho. E o lugar onde Ele quis temperar sua Luz inacessível foi numa gruta de Belém, da Cidade do Pão, para que Aquele que é Luz que cega e fogo abrasador descesse até nós na sombra de sua misericórdia, no alimento sagrado, onde não somente ele esconde sua Luz como também nos transforma Nela.

Mas não podemos deixar de considerar que, se a Árvore da Ciência, o toque no relâmpago divino trouxe a morte para Adão e Eva, Deus quis trazer sua sombra até nós através daquela que não tocou na Árvore, que não buscou a Luz proibida, mas escondeu-se na sombra de Deus, na sua humildade, na sua Caridade. Contentou-se com as trevas de sua fraca condição para nos trazer a Salvação. A Virgem Imaculada, Mãe de Deus, Mãe da Luz, água cristalina e pura de onde brota a Árvore da Vida, o Deus humanado.

Nesta Noite de Natal, é assim que a Igreja canta, que a Igreja reza:

«Ó Deus, que fizestes resplandecer esta noite com a claridade da verdadeira Luz, concedei-nos que depois de conhecermos na Terra os mistérios dessa Luz, gozemos também no Céu de suas alegrias».

Os mistérios dessa Luz! Que venha novamente a poetisa completar seu pensamento:«Dei muitas vezes graças a Deus pela Luz! Mas com quanta humildade darei graças pelo Mistério! E com quanta doçura estarei ao abrigo de Deus na sombra de Deus.»

Para todos vocês, da Capela N.Sra da Conceição, da Capela São Miguel e a todos os nossos leitores espalhados pelo Brasil, um santo e feliz Natal. Que ele seja vivido na intensidade das verdades que a Santa Igreja Católica não cessa de nos desvendar, em seus sacramentos, no Batismo de adultos que tivemos em novembro, na Santa Crisma recebida neste mês de dezembro. Na Missa Santa que santifica, Missa de sempre, da Tradição; na Verdade Católica sem medos e sem concessões. E que esses humildes meios que Deus nos deu para nos santificarmos, hoje: um terço, uma Capela, um catecismo semanal, sejam vistos por todos vocês como a maior graça que Deus poderia lhes dar. É a sementinha de mostarda que só crescerá se for exposta à Luz e se for refrescada na sombra.

E que o ano bom traga a doce presença de Jesus nas cruzes de todo o dia.

Feliz Natal

Dom Lourenço Fleichman OSB

O que deve ser o voto de Feliz Natal de um padre, de uma Capela como a nossa a todos os nossos fiéis, a todos os nossos amigos e leitores? É de praxe e de bom tom trocar votos de felicidades nesta data do nascimento do Menino Jesus. E fazemos bem. Pois no fundo de nossas almas paira ainda a teologal esperança que avança sem tréguas em meio ao mar revolto deste mundo. Servirão os votos que damos e recebemos, pois de alguma forma as pessoas precisam da paz natural para viver em sociedade.

Mas é esse lado natural o que me incomoda. E onde está a realidade sobrenatural do Natal? Onde encontraremos, perdidos e abandonados nos cantos das ruas, os santos de outrora, que talvez corressem agitados, preparando tudo, organizando os mínimos detalhes de uma festa sem fim: Et Verbum caro factum est! Pois o Verbo se encarnou e habitou entre nós. O Verbo de Deus, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, recebe uma natureza como a nossa para nascer na manjedoura em Belém. E onde estão as almas admiradas e contemplativas para fugir do shopping, largar as bolsas de compras, os presentes dos filhos, o novo celular, e correr desembestado por um estacionamento entupido..... Ah! Ele nasceu, eu vi a estrela, eu vi o Menino. Hosanna in excelsis! Eu vi, eu compreendi o que acontece. Por que não nos dizem isso? Onde estão os padres, onde estão os bispos, onde está o sangue católico, que já não corre nas veias dos homens, para nos dizer, para nos lembrar que o louco não sou eu que corri feito doido largando tudo no chão; os loucos são eles, que estão lá dentro, fazendo compras e mais compras; os doidos são eles, que, mesmo quando criticam o esvaziamento do Natal católico, não param para meditar no Mistério dos mistérios, na candura e inocência, na paz... na paz... Para que foi mesmo que ele nasceu? Para nos trazer a paz...

Não foi isso o que eu vi, não foi isso o que Ele quis me dizer quando me fez mergulhar naquele mundo de silêncio, no meio da multidão que corria agitada atrás das compras, das promoções, da última moda. Não foi isso o que o Príncipe da Paz me disse, quando abri seu Livro Santo e li: "Não vim trazer a paz, mas sim a espada!" Não, ele não veio nos trazer a paz, nesse sentido natural que os homens querem. É isso! Era isso o que me incomodava. Às favas com essa falsa paz de que nos fala o profeta, esse romantismo abusado que usa o Inocente, nosso Deus, para fingir que deseja a paz a todos. Não, não é isso o que eles desejam! O que eles querem é o paraíso na terra, é prolongar a vida até não poder mais, é liberar-se de toda obediência à Verdade Eterna. Pergunte a um deles se querem seguir os ensinamentos da Verdade? Qual Verdade? Eles não querem aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Eles querem, exigem, e batem pé: nós queremos a verdade de Pôncio Pilatos! Trata-se da verdade relativa, do liberalismo, de você seguir o que você pensa, autônomo, achando-se adulto, responsável... sem Deus, sem Cristo, sem a Igreja! Depois vêm me cantar musiquinhas bonitinhas na televisão para fazer chorar de emoção numa confraternização universal. Chega disso!

Por favor, não venham me dizer que é preciso esquecer certos acontecimentos, e deixar de lado as convicções, pois é noite de Natal. Acho que esse argumento pode ser válido para muitas ocasiões e para muitos natais. Mas se a causa de tantos desastres e tragédias está justamente no esquecimento de Jesus, no abandono da Criança de Belém, como não pensar nisso tudo? Se hoje a Argentina vive um Natal terrível e amanhã qualquer país o poderá viver também; se hoje aviões são lançados sobre prédios porque os loucos assassinos querem matar todos aqueles que não pensam como eles. Se tudo isso acontece porque o Rei Pacífico não tem direito de reinar sobre as nações, então essa paz e essa felicidade que eles desejam é de uma hipocrisia total!

E no entanto... E no entanto há lugar para a Paz, desde que não seja a paz dos jornais. Há lugar para cantar, numa noite de Natal, um cântico novo ao nosso Deus, ao Menino-Deus, desde que nossos olhos sejam olhos de filhos, puros e espirituais. Desde que nossas almas sedentas saibam dobrar os joelhos e rezar no silêncio da noite: Venite adoremus! vinde, adoremos a Criança, Jesus nosso Deus e Salvador, que nasceu hoje para morrer amanhã, para nos dar seu Sangue, para nos dar sua vida. Há lugar para desejar, ao menos para desejar, que o Rei da Paz seja o chefe das nações, o chefe de nossa Pátria; que ela se dobre diante do seu cetro e se deixe governar por seu Evangelho e por sua Igreja.

Então, sim, nesta hora em que nas igrejas soam os sinos, a missa do Galo, a Santa Eucaristia: meu Senhor e meu Deus. Que nossos corações tenham um ímpeto de amor e queiram com todas as forças espalhar pelo mundo as luzes do nosso Bom Deus. Então, sim, mergulhados na oração, saudemos nossos amigos e irmãos, troquemos nossos votos e orações, pois Ele nasceu, ele nos foi dado. "Hodie, filius datus est nobis — hoje, um Filho nos foi dado".

É por isso que desejamos a todos um Feliz Natal e um ano-bom repleto de todas as graças de Deus.

O amor-próprio e o amor de Deus

Eu gostaria de ter alguma profundidade e conhecimento para lhes falar sobre essa busca, sobre essa sede que nos devora, que nos faz procurar uma casa, um repouso, um lugar de delícias...onde moras, Senhor? Vinde e vede... Até a raposa tem sua toca, mas o Filho do Homem não tem onde repousar sua cabeça. Divina Cabeça, cansada e ferida, coroada de espinhos, fez-se o repouso dos homens.
 
Mas não é bem assim que acontece. Vamos em busca do repouso e achamos que o encontramos nas delícias do mundo e nas descobertas da razão. Nas consolações dos homens, no prazer que sentimos de estarmos na companhia dos nossos irmãos. Até a Escritura, falando profeticamente da Encarnação, nos diz que a Sabedoria Encarnada encontra suas delícias em estar com os filhos dos homens.
 
Na verdade, quando Nosso Senhor sente estas delícias, é porque sabe que seu Sangue não será derramado totalmente em vão, que alguns dos seus filhos o receberão e se tornarão Filhos de Deus. Mas, e nós? Vislumbramos o caminho, sabemos que Ele é a nossa Salvação, mas nos inclinamos com tanta precipitação sobre nós mesmos. O amor-próprio é a nossa perdição. Centralizamos nossas vidas em torno de nós mesmos, e passamos a tomar como critério dos nossos atos o que nos agrada ou o que pode nos gerar algum lucro. Dois amores construíram duas cidades: o amor de si, levado até o desprezo de Deus, a cidade terrena; o amor a Deus, levado até o desprezo de si, a cidade celeste.
 
Ficamos no átrio. Somos de fora, estrangeiros. Estamos ali, comendo sobra de comida porque não queremos a adoção de filhos, mediante a qual clamamos: Abba, Pai. Somos eternamente filhos revoltosos que abandonamos a casa paterna e buscamos as alegrias do mundo. E temos vergonha de dizer a todos: sou filho, esta casa de ouro me pertence, sou herdeiro de Deus e co-herdeiro de Cristo. Não, não posso ficar mendigando sobras de comida, se o banquete foi preparado para mim. Voltarei à casa de meu Pai, e lhe direi: Pai, pequei contra os céus e contra Ti.
 
Eu sei que acontece de nós nos inclinarmos assim ao perdão de Deus. De nós considerarmos com alguma Esperança, o rude combate que nos aguarda, todos os dias, ao levantarmos. Mas depois vem a realidade: a pior de todas, que é o convívio com as pessoas que nos empurram para o mal, para o pecado. A cidade está lá fora, como um dragão vomitando fogo e enxofre. E nós temos por obrigação ir até dentro da fétida boca do dragão, trabalhar, tomar uma condução. Bom dia, bom dia, viram o Fantástico, viram o Faustão? Venham, todos, o circo começou! E tem o palhaço e tem o leão, e os malabaristas que te deixarão sem respiração... É nosso mundo, é nossa vida. Um circo, onde nós somos os malabaristas a inventar contorções, onde nós somos os palhaços a divertir a platéia, em busca do aplauso sedutor. Mas quando saímos dele, quando nos voltamos para dentro de nós mesmos, ressoa um eco ensurdecedor. E nós queremos fugir, mas para onde quer que nos voltemos, ele está lá, a repetir, a gargalhar, a nos dizer: não se preocupem, amanhã tem mais.
 
O que falta, na nossa história, o que falta na nossa vida? Como José Maria de Lições de Abismo, ouvindo o personagem sinistro repetir para ele, numa espécie de sonho, toda sua vida, mas falsificada. E ele, desesperado, sem conseguir fazer seu interlocutor compreender que aquilo tudo soava falso, vê, pela boca do vulcão onde se encontravam, a estrela brilhando no céu. E descobre o enigma do mistério, a chave da sua vida. "Já sei o que falta na sua história. É o am..." E quando o sinistro ser o tenta impedir de gritar, ele consegue se desvencilhar e grita por Aldebarã: Amor! Amor! Amor!
 
"Cai então a estrela do céu, e um fogo enorme, uma clara vermelhidão, iluminou a gruta. Ah! agora eu via nos rostos, nos braços, nas pernas, que voavam no ar como folhas dançando nas chamas, o que me faltava naquele sepulcro. Via a dor, a dor viva, a dor viva do amor. O vulcão entrara em atividade." (Lições de Abismo, cap. 12)
 
Dois amores construíram duas cidades.
 
Se não for para construir a cidade de Deus, a cidade do amor, sua Igreja Santa e Imaculada, sua Missa, que é a maior dádiva que Ele podia nos dar, então não vale a pena, não nos aproveita de nada. Nem o grande saber metafísico, nem a genialidade técnica, nem os astros do céu, nem a salvação dos planetas ou das tartarugas, muito menos alguns momentos de prazer fugitivo.
 
De joelhos, de joelhos, prostrados diante da Majestade divina. Venite, adoremus.
Contemplemos, a presença de Jesus em nossas vidas. Ela não é fictícia. Pelo Batismo nós nos tornamos templo da Santíssima Trindade. Não façamos de nossas vidas um terremoto constante que derruba o templo e destrói o Deus que vive em nós.
 
Silêncio, silêncio, que a criancinha dorme. Não façamos de nossas vidas ruídos e agitações, pois podemos despertar o Menino, e ele fugirá chorando, porque preferimos a companhia dos homens à companhia inefável do Filho de Deus. 

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