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São Roberto Bellarmino (9)

Capítulo 6: O segundo fruto que se há de colher da consideração da segunda Palavra dita por Cristo na Cruz.

O segundo fruto que se há de colher da consideração da segunda palavra é o conhecimento do poder da divina graça e da debilidade da vontade humana; tal conhecimento é o de que a melhor política consiste em depositar toda a confiança na graça de Deus, e em desconfiar inteiramente da própria força. Se algum homem quer conhecer o poder da graça de Deus, volte os olhos ao bom ladrão. Era notório pecador, pecara durante o perverso curso de sua vida até ao momento em que fora subjugado à cruz, i. é, ao momento quase derradeiro de sua vida; nesse momento crítico, com a salvação em jogo, nada havia que pudesse aconselhá-lo ou assisti-lo. Embora estivesse bem próximo a seu Salvador, ouvia tão-somente os sumos sacerdotes e fariseus a declará-Lo sedutor e homem ambicioso que buscava alcançar poder soberano. Ouvia também seu companheiro exprimindo-se perversamente em termos similares. Não havia boa palavra em favor de Cristo, e até o Mesmo Cristo não refutava as blasfêmias e maldições. Contudo, com a assistência da graça de Deus, quando as portas do céu lhe pareciam cerradas, e os adros infernais abertos a recebê-lo, e o pecador tão afastado da vida eterna quanto possível – fora de súbito iluminado desde o alto: seus pensamentos dirigiram-se ao canal apropriado e confessou Cristo por inocente e Rei do Mundo que há de vir e, como ministro de Deus, censurou o ladrão que o acompanhava, persuadindo-o de seu arrependimento, e encomendou-se humilde e devotamente a Cristo. Em suma, foram tão perfeitas suas disposições que as dores da crucificação compensaram todo sofrimento que pudesse guardar para o purgatório, de tal modo que, tão logo morrera, ingressou no gozo do Senhor. Por tal circunstância, fica evidente que se não deve desesperar da salvação, pois o ladrão que entrou na vinha do Senhor à hora duodécima, recebeu o prêmio com os que vieram à hora primeira. Por outro lado, para nos permitir ver a magnitude da debilidade humana, o mau ladrão se não converte nem pela imensa caridade de Cristo — o Qual orou com amor profundo por Seus executores — nem pela grandeza dos próprios sofrimentos, nem pela admoestação e exemplo do companheiro, nem pela escuridão temporã, pelas rochas fendidas ou pela conduta dos que, após a morte de Cristo, retornaram à cidade golpeando o peito. Tudo isso se sucedeu depois da conversão do bom ladrão, para nos mostrar que, se por um lado, um pode se converter sem auxílios, outro, com todos os auxílios, não pôde, ou, em realidade, não quis ser convertido.

Capítulo 5: O primeiro fruto que se há de colher da consideração da segunda Palavra dita por Cristo na Cruz.

Podemos colher alguns frutos, tirados da segunda palavra dita na Cruz. O primeiro fruto é a consideração da imensa misericórdia e liberalidade do Cristo, e de como é bom e útil servi-lo. As muitas dores que Ele, Nosso Senhor, sofria, poderiam ser alegadas como escusa para não escutar a petição do ladrão; mas, em Sua caridade divina, preferiu olvidar Suas próprias dores atrozes a não escutar a oração de um pobre pecador penitente. Esse mesmo Senhor não respondeu nada às maldições e imprecações dos sacerdotes e soldados, mas ante o clamor de um pecador a se confessar, Sua caridade proibira-lhe permanecer em silêncio. Quando é ultrajado não abre a boca, porque é paciente; quando um pecador confessa sua culpa, fala, porque é bondoso. Que dizer, pois, de Sua liberalidade? Os que servem a um chefe temporal com freqüência obtêm uma magra recompensa por muitos labores. Entre esses não raro vemos os que terão gasto os melhores anos de sua vida ao serviço de príncipes, e se retiram em idade avançada com mirrado salário. Mas o Cristo é um Príncipe verdadeiramente liberal, um Amo verdadeiramente magnânimo. Das mãos do bom ladrão não recebe nenhum serviço, exceto algumas palavras bondosas e o desejo cordial de o assistir, e, como galardão, com que grande prêmio o retribui! Nesse mesmo dia, todos os pecados que cometera durante sua vida são perdoados; é igualado aos principais de seu povo, a saber, os patriarcas e os profetas; e, finalmente, o Cristo o eleva para partilhar de sua mesa, de sua dignidade, de sua glória e de todos os seus bens. “Hoje”, disse, “estarás comigo no Paraíso”. O que Deus diz, faz. Tampouco difere essa recompensa para algum dia longínquo, mas, àquele mesmo dia, derrama em seu seio “uma medida boa, cheia, recalcada, transbordante"1.

  1. 1. Lc 6,38.

Capítulo 4: Explicação textual da segunda palavra: “Amém, Eu te digo: Hoje estarás comigo no paraíso.”

A segunda palavra, ou a segunda frase, pronunciada por Cristo na Cruz foi, segundo o testemunho de São Lucas, a magnífica promessa feita ao ladrão, que pendia em uma cruz a seu lado. A promessa foi feita nas seguintes circunstâncias: dois ladrões foram crucificados juntos ao Senhor, um a sua mão direita, outro a sua esquerda; um desses acrescentou a seus crimes do passado o pecado de blasfemar de Cristo, zombando de sua falta de poder para salvá-los, dizendo: “se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!” 1. De fato, São Mateus e São Marcos acusam ambos os ladrões desse pecado, mas é mais provável que os dois evangelistas usem o plural para se referirem ao número singular, como freqüentemente se faz nas Sagradas Escrituras, conforme observa Santo Agostinho no trabalho “Sobre a Harmonia dos Evangelhos”. Assim São Paulo, em sua Epístola aos Hebreus, diz dos profetas: “taparam bocas de leões ... apedrejados ..., serrados ao meio ...; andaram errantes, vestidos de pele de ovelha e de cabra” 2. Sem embargo, um só profeta houve — Daniel — que fechou a boca dos leões; um só profeta — Jeremias — que foi apedrejado; um só profeta — Isaías — que foi serrado. Mais ainda, nem São Mateus nem São Marcos são tão explícitos a respeito desse ponto como São Lucas, que disse de maneira mui clara: “um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra Ele” 3. Pois bem, mesmo se considerarmos que ambos vituperavam o Senhor, não existe razão para que um mesmo homem não haja amaldiçoado em um momento e, já em outro, proclamado seus louvores.

  1. 1. Lc 23,39.
  2. 2. Hb 11,33-37.
  3. 3. Lc 23,39.

Capítulo 3: O segundo fruto que se há de colher da consideração da primeira Palavra dita por Cristo na Cruz

Se os homens aprendessem a perdoar sem murmurações as injúrias que recebem, e assim forçassem seus inimigos a converterem-se em amigos, tiraríamos uma segunda e muito salutar lição da meditação da primeira palavra. O exemplo de Cristo e da Santíssima Trindade há de ser um poderoso argumento para nisto nos persuadirmos. Pois se Cristo perdoou e rezou por seus verdugos, que razão pode ser alegada para que um cristão não atue de modo semelhante com seus inimigos? Se Deus, nosso Criador, o Senhor e Juiz de todos os homens, o qual tem o poder de vingar-se imediatamente do pecador, espera seu arrependimento, e o convida à paz e à reconciliação com a promessa de perdoar as traições feitas à Divina Majestade, por que uma criatura não poderia imitar esta conduta, especialmente se recordamos que o perdão de uma ofensa obtém grande recompensa? Lemos na história de São Egelberto, Arcebispo de Colônia, assassinado por alguns inimigos que o estavam esperando, que, na hora de sua morte, rezou por eles com as palavras de Nosso Senhor: "Pai, Perdoa-lhes", e foi revelado que este gesto foi tão agradável a Deus, que sua alma foi levada ao céu pelas mãos dos anjos, e posta no meio do coro dos mártires, onde recebeu a coroa e a palma do martírio, e sua sepultura tornou-se famosa por realizar muitos milagres.
 

Sobre a Sexta Palavra de Cristo na Cruz

Introdução

Explicação Literal da Sexta Palavra: “Está tudo consumado”.

Capítulo 2: O primeiro fruto que se há de colher da consideração da primeira Palavra dita por Cristo na Cruz

Tendo dado o significado literal da primeira palavra dita por Nosso Senhor na Cruz, nossa próxima tarefa será esforçarmo-nos para recolher alguns de seus frutos mais preferíveis e vantajosos. O que mais nos impressiona na primeira parte do sermão  de Cristo na Cruz é sua ardente caridade, que arde com fulgor mais brilhante que o que possamos conhecer ou imaginar, de acordo com o que escreveu São Paulo aos Efésios: “e conhecer também aquele amor de Cristo, que excede toda a ciência” 1. Pois nesta passagem o Apóstolo nos informa, pelo mistério da Cruz, como a caridade de Cristo ultrapassa nosso entendimento, já que se estende para além da capacidade de nosso limitado intelecto. Pois quando sofremos qualquer dor forte, como uma dor de dente, ou uma dor de cabeça, ou uma dor nos olhos, ou em qualquer outro membro do corpo, nossa mente está tão atada a isto, que se torna incapaz de qualquer esforço. Então não estamos com humor para receber os amigos nem para continuar com o trabalho. Mas, quando Cristo foi pregado na Cruz, usou seu diadema de espinhos, como está claramente expresso nos escritos dos antigos Padres; por Tertuliano, entre os Padres latinos, em seu livro contra os judeus, e por Orígenes, entre os Padres gregos, em sua obra acerca de São Mateus; e portanto se segue que Ele não podia mover a cabeça para trás nem movê-la de um lado para o outro sem dor adicional. Toscos cravos lhe sujeitavam as mãos e pés, e, pela maneira como lhe dilaceravam a carne, ocasionavam doloroso e longo tormento. Seu corpo estava desnudo, desgastado pelo cruel flagelo e pelo intenso ir-e-vir, exposto ignominiosamente à vista do vulgo, aumentando por seu peso as feridas nos pés e mãos, numa bárbara e contínua agonia. Todas estas coisas combinadas foram origem de muito sofrimento, como se fossem outras tantas cruzes. Não obstante, ó caridade, verdadeiramente a ultrapassar nosso entendimento, Ele não pensou em seus tormentos, como se não sofresse, não estando solícito senão à salvação de seus inimigos, e, desejando cobrir-lhes a pena dos crimes, clamou fortemente a seu Pai: “Pai, perdoa-lhes”. Que teria feito Ele se esses infelizes fossem as vítimas de uma perseguição injusta, ou se tivessem sido seus amigos, seus parentes, ou seus filhos, e não seus inimigos, seus traidores e parricidas? Verdadeiramente, ó benigníssimo Jesus! vossa caridade ultrapassa nosso entendimento. Observo vosso coração no meio de tal tormento de injúrias e sofrimentos, como uma rocha no meio do oceano que permanece imutável e pacífica, ainda que as ondas choquem furiosamente contra ela. Pois vedes que vossos inimigos não estão satisfeitos com infligir ferimentos mortais a Vosso Corpo, senão que têm de escarnecer-vos a paciência, e uivar triunfalmente com os maus tratos. E os olhais, digo eu, não como um inimigo que mede o adversário, mas como um Pai que trata com os extraviados filhos, como um médico que escuta os desvarios de um paciente que delira. Vós não estais aborrecido com eles, mas os compadeceis, e os confiais ao cuidado de Vosso Pai Todo-poderoso, para que Ele os cure e os deixe inteiros. Este é o efeito da verdadeira caridade, estar de bem com todos os homens, não considerando nenhum como inimigo, e vivendo pacificamente com aqueles que odeiam a paz.

  1. 1. Ef 3,19.

Capítulo 1: Explicação literal da Primeira Palavra: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem"

 

Cristo Jesus, o Verbo do Pai Eterno, de quem o mesmo Pai dissera: “Ouvi-o” 1, e que dissera de si mesmo: “Porque um só é o vosso Mestre” 2, para realizar a tarefa que assumira, nunca deixou de nos instruir. Não somente durante sua vida, mas até nos braços da morte, do púlpito da Cruz, pregou-nos poucas palavras, mas ardentes de amor, de suma utilidade e eficácia, e em todo o sentido dignas de ser gravadas no coração de qualquer cristão, para ser aí preservadas, meditadas, e realizadas literalmente e em obra. Sua primeira palavra é esta: “E Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” 3. Prece que, conquanto nova e nunca antes ouvida, quis o Espírito Santo fosse predita pelo Profeta Isaías nestas palavras: “e pelos transgressores fez intercessão” 4. E as petições de Nosso Senhor na Cruz provam quão verdadeiramente falou o Apóstolo São Paulo quando disse: “a caridade [...] não busca os seus próprios interesses” 5, pois, das sete palavras que pronunciou nosso Redentor, três foram pelo bem dos demais, três por seu próprio bem, e uma foi comum tanto para Ele como para nós. Sua atenção, porém, foi primeiro para os demais. Pensou em si mesmo ao final.
 
  1. 1. Mt 17,5.
  2. 2. Mt 23,10.
  3. 3. Lc 23,34.
  4. 4. Is 53,12.
  5. 5. 1Cor 13,5.

Prefácio

 

Observai-me, agora, pelo quarto ano, a preparar-me para a morte. Tendo-me retirado dos negócios do mundo a um lugar de repouso, entrego-me à meditação das Sagradas Escrituras, e a escrever os pensamentos que me ocorrem nas meditações, para que, se já não posso ser de utilidade pela palavra de boca, ou pela composição de volumosas obras, possa ao menos ser útil a meus irmãos por meio destes piedosos livrinhos. Enquanto refletia, então, em qual seria o tema preferível tanto para me preparar para a morte como para ajudar os outros a viver bem, ocorreu-me a Morte de Nosso Senhor, junto com o último sermão que o Redentor do mundo pregou da Cruz, como dum elevado púlpito, à raça humana. Este sermão consiste em sete curtas mas profundas sentenças, e nestas sete palavras está contido tudo o que Nosso Senhor manifestou quando disse: “Eis que vamos para Jerusalém, e será cumprido tudo o que está escrito pelos Profetas relativo ao Filho do homem” 1. Tudo o que os Profetas predisseram acerca de Cristo pode ser reduzido a quatro títulos: seus sermões à gente; sua oração ao Pai; os grandes tormentos que suportou; e as sublimes e admiráveis obras que realizou. Tudo isto se verificou de modo admirável na Vida de Cristo, pois Nosso Senhor não podia ser mais diligente ao pregar ao povo. Pregava no templo, nas sinagogas, nos campos, nos desertos, nas casas, e, mais ainda, pregava até dum barco à gente que estava na margem. Era costume seu passar noites em oração a Deus, pois assim diz o Evangelista: “e estava passando toda a noite em oração a Deus” 2. Suas admiráveis obras, ao expulsar demônios, curar doentes, multiplicar pães, aplacar as tormentas, ler-se-ão em cada página dos Evangelhos3. Ainda assim, foram muitas as injúrias que se acumularam sobre Ele, como resposta ao bem que fizera. Consistiam tais injúrias não só em palavras insolentes mas também em lapidá-lo4 e despenhá-lo5. Em uma palavra, todas estas coisas verdadeiramente se consumaram na Cruz. Sua pregação da Cruz foi tão poderosa, que “toda a multidão [...] retirava-se, batendo no peito” 6, e não só os corações humanos mas até as rochas se fizeram em pedaços. Ele orou na Cruz, como diz o Apóstolo, “com grandes brados e com lágrimas, preces e súplicas”, sendo, assim, “atendido pela sua reverência” 7. Sofreu tanto na Cruz, em comparação com o que sofrera no restante de sua vida, que o sofrimento parece pertencer somente à sua Paixão. Finalmente, nunca operou maiores sinais e prodígios do que quando, na Cruz, parecia reduzido à maior fragilidade e fraqueza. Então não só manifestou sinais do céu, que os judeus tinham pedido até ao fastio, senão que, um pouco depois, manifestou o maior de todos os sinais.
 
  1. 1. Lc 18,31.
  2. 2. Lc 6,12.
  3. 3. Mt 8; Mc 4; Lc 6; Jn 6.
  4. 4. Jo 8.
  5. 5. Lc 4.
  6. 6. Lc 23,48.
  7. 7. Hb 5,7.

As sete palavras de Cristo na Cruz (trad. em andamento)

Livro de S. Roberto Bellarmino

Tradução: Permanência

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