Skip to content

Pe. Manuel Bernardes (31)

Amor divino

Do Seráfico Padre S. Francisco.
 
Perguntado uma vez como podia tolerar os rigores do inverno com tão rota e pobre túnica, respondeu: Se a chama da celeste pátria nos forrara por dentro, facilmente suportaríamos maiores frios
 

VI — Os que pertencem ao conflito da alma com o tentador

1. Persuade-te muito deveras que sem especial luz do Espírito Santo e auxílio de sua graça, impossível é conhecer e evitar as inumeráveis traições, astúcias e estratagemas dos inimigos invisíveis. Porque todos os estudos e vigilâncias de todos os homens do mundo juntos em consulta, comprando-se com a arte de fazer mal que sabe qualquer demônio, são como as prevenções de um menino contra os conselhos de um grande político estadista, ou forças de um poderoso monarca. Com esta certeza desenganado disse S. Lourenço Justiniano: Nam spiritualis quis, sine spirituali lumine effugit laqueos? Quis, inquam, aerarum potestatum insidias, et fallacias innumeras inimicorum invisibilium agnovit ad plenum, nisi sapientiae sit splendore perfusus? Non sufficit naturalis acumen ingenii, si non introrsus erudiatur a verbo [Lib. de Obedientia c. 16]. Portanto importa colocar toda nossa confiança no poder, fidelidade e misericórdia do Senhor, que modera e reprime os inimigos, e só permite na tentação quanto é conveniente para confusão deles, exercício nosso e glória do mesmo Deus.

V — Os que respeitam o trato da alma com os próximos

1. Vencer o mal com o bem, e dar retorno de benefícios por agravos, é doutrina Evangélica. Porém adverte, que alguns soberbos que a sabem, nem deste modo quererão que os venças; e ou presumirão não ser a tua caridade pura, senão misturada com apetite de levar-lhes vantagem; ou se poderão exasperar de que sejas mais espiritual que eles. Neste caso é necessário furtar a volta ainda mais por baixo, buscando ocasião em que te mostres necessitado, ou desejoso de algum benefício seu; ou que tu lhes fizeres seja tão oculto, que lhes chegue a utilidade despida da notícia do benfeitor. Pelo menos o benefício de orar a Deus por eles, nunca poderão, se tu quiseres, nem sabê-lo, nem evitá-lo.

IV — Os que respeitam o trato da alma consigo

1. Não te aflijas com cuidados do futuro; porque o tempo desmancha e baralha toda a ordem das coisas que propunhas na imaginação; e de hora para hora tomam os negócios muito diferente aspecto. Lança-te todo na Providência do Altíssimo; e basta ao dia presente a sua malícia. Especialmente se os negócios são de Deus, experimentarás que nunca estão mais ganhos que quando parecem estar perdidos.

III — Avisos e Documentos práticos que respeitam o trato da alma com Deus

 

1. Andar em presença de Deus, observar silêncio e não reparar em faltas alheias, desarraigam da alma inumeráveis imperfeições e lhe granjeiam grandes virtudes.

2. A mosca que se senta no mel, impede o seu vôo; e a alma que busca sabores do espírito, impede a sua contemplação.

II — Algumas outras sentenças notáveis por sua brevidade e substância.

 

Adverte-se que estas sentenças não se põem aqui juntas, para que se leiam juntas; nem se escolheram breves, para se passarem brevemente; porque seria isso causa de que nenhuma se nos imprima, nem sirva de regra prática de nossas ações. Deve-se usar delas como de grãozinhos aromáticos, que se trazem na boca muito tempo e em pouca quantidade.

 

I – Dos que são mais especulativos ou teóricos.

 

1.            Amar a Deus é grande ofício: só este basta para nos levar todo o tempo da vida e todas as forças da alma. Por certo não tem pouco que fazer quem tem a Deus que amar. E assim todas as mais ocupações e ofícios hão de ser ministros deste.
 

Prática da Imaculada Conceição da Virgem Maria Senhora Nossa

 Quaeretur peccatum illius, et non invenietur. (Sl 9, 10)
 
Há umas coisas que se buscam para se acharem, e há também outras, que para se não acharem é que se buscam. A mulher do Evangelho buscava a jóia, e o pastor buscava a ovelha, para achar um a ovelha e outro a jóia. Pelo contrário, aqueles exploradores, que foram em busca de Elias, quando desapareceu da terra, buscavam-no para o não acharem. Foi o caso: sendo arrebatado Elias em um carro de fogo, disseram alguns zelosos que queriam buscá-lo, porque poderia estar aí lançado em algum monte ou vale. Sabia Eliseu muito bem que Deus o tinha transportado para si, e disse-lhes: não há para que o buscar. Eles, pelo contrário, instaram tanto, até que lhes disse: buscai embora: Coegeruntque eum, donec acquiesceret, et diceret: Mittite (4 Rg 2). Partiram cinqüenta homens expeditos, cada um por diferente parte a procurar Elias — três dias andaram por cerros e campos e vales, sem descobrir rastro do que buscavam, até que, cansados, tornaram a Eliseu, o qual lhes disse com grande descanso: Não vos disse eu, que o não buscásseis? Numquid non dixi vobis: Nolite mittere? Pois se Eliseu estava certo que o não haviam de achar, porque ali havia especial mistério e obra de Deus, para que deixou estes pobres homens irem cansar-se debalde? Oh, que obrou como prudente! Se o não buscaram, a qualquer tempo haviam de dizer: Se nós o tivéssemos buscado, pode ser que o tivéssemos achado. Ah, sim. Pois buscai-o, embora: Mittite. Porque se não achareis a Elias, ao menos achareis o desengano. Porque há coisas que se buscam para o mesmo efeito de se não acharem.

A inexcedível formosura de Maria, Senhora Nossa

Escreve o Padre Euzébio de Nieremberg, referindo-se a outros autores, o seguinte caso admirável. Um clérigo, devotíssimo de Nossa Senhora, considerando quanta seria a formosura daquela soberana Virgem, que excede incomparavelmente a todas as formosuras que Deus criou no Céu e na terra, se ascendeu em fervorosos desejos de a ver. E como os que nascem do amor santo e sincero tem seus atrevimentos e confianças pias, fez instante e continuada petição à mesma Senhora que o deixasse ver sua formosura, para mais a venerar e estimar. Foi-lhe revelado por um anjo, que não se podia ver tão grande Majestade sem que perdesse a vista, por quanto não era decente que olhos que viram a Senhora se empregassem em outros objetos da terra. O clérigo respondeu, como animoso e namorado, que não importava que ficasse cego, contanto que lograsse tal excessiva dita. Mas, advertindo depois que, perdendo a vista, ficava reduzido a pedir esmola de porta em porta para sustento da vida, lhe pareceu que seria conveniente abrir um só dos olhos, para lograr o favor e reservar outro para a sua necessidade. Assim se fez quando a Senhora se dignou aparecer-lhe: e vendo, ainda que só por um relâmpago, tanta graça e tão aprazível beleza; quis mui depressa abrir ambos os olhos, para melhor lográ-la. E já no mesmo instante, tinha a Virgem desaparecido. E o seu devoto, ainda que se achasse meio cego, dizia consigo, com grande mágoa e sentimento: Que teria importado se eu perdesse mil olhos, se mil tivesse? Ó, se durasse mais aquele favor! Assim vos ausentastes, ó Mãe amabilíssima; vi-vos, e não vos vi, ó beleza incrível: com este pinguinho de orvalho me acendestes mais a sede. Ó, já que não ceguei totalmente de ver, cegue eu agora de chorar! Mas vós, ó Sacratíssima Virgem, mais piedosa sois do que eu posso imaginar. Ora, Senhora, vinde ainda outra vez; vinde, ó formosíssima: eu de boa vontade quero cegar de todo; antes o terei por grande interesse. Estes, e outros semelhantes requerimentos fazia aquele devoto: e é tão pia e benigna a Senhora, que admitiu a petição, e a despachou melhoradamente. Porque a mesma luz excessiva, que no primeiro relâmpago o deslumbrou, e lhe cegou um dos olhos, no segundo lhe deixou a vista restituída e clara.
 
(De "Tratados Diversos", pág. 397-398)

AdaptiveThemes