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Pe. Manuel Bernardes (32)

Alguns sinais mais raros e certos de grande aproveitamento nas virtudes

1.                   Cair muito raramente em pecados veniais.
 
2.                   Grande horror ao pecado e grande esforço e diligência em evitar até as mínimas imperfeições.
 
3.                   Contínuo ou quase contínuo fervor em fazer com perfeição os exercícios e obras quotidianas.

Amor divino

Do Seráfico Padre S. Francisco.
 
Perguntado uma vez como podia tolerar os rigores do inverno com tão rota e pobre túnica, respondeu: Se a chama da celeste pátria nos forrara por dentro, facilmente suportaríamos maiores frios
 

VI — Os que pertencem ao conflito da alma com o tentador

1. Persuade-te muito deveras que sem especial luz do Espírito Santo e auxílio de sua graça, impossível é conhecer e evitar as inumeráveis traições, astúcias e estratagemas dos inimigos invisíveis. Porque todos os estudos e vigilâncias de todos os homens do mundo juntos em consulta, comprando-se com a arte de fazer mal que sabe qualquer demônio, são como as prevenções de um menino contra os conselhos de um grande político estadista, ou forças de um poderoso monarca. Com esta certeza desenganado disse S. Lourenço Justiniano: Nam spiritualis quis, sine spirituali lumine effugit laqueos? Quis, inquam, aerarum potestatum insidias, et fallacias innumeras inimicorum invisibilium agnovit ad plenum, nisi sapientiae sit splendore perfusus? Non sufficit naturalis acumen ingenii, si non introrsus erudiatur a verbo [Lib. de Obedientia c. 16]. Portanto importa colocar toda nossa confiança no poder, fidelidade e misericórdia do Senhor, que modera e reprime os inimigos, e só permite na tentação quanto é conveniente para confusão deles, exercício nosso e glória do mesmo Deus.

V — Os que respeitam o trato da alma com os próximos

1. Vencer o mal com o bem, e dar retorno de benefícios por agravos, é doutrina Evangélica. Porém adverte, que alguns soberbos que a sabem, nem deste modo quererão que os venças; e ou presumirão não ser a tua caridade pura, senão misturada com apetite de levar-lhes vantagem; ou se poderão exasperar de que sejas mais espiritual que eles. Neste caso é necessário furtar a volta ainda mais por baixo, buscando ocasião em que te mostres necessitado, ou desejoso de algum benefício seu; ou que tu lhes fizeres seja tão oculto, que lhes chegue a utilidade despida da notícia do benfeitor. Pelo menos o benefício de orar a Deus por eles, nunca poderão, se tu quiseres, nem sabê-lo, nem evitá-lo.

IV — Os que respeitam o trato da alma consigo

1. Não te aflijas com cuidados do futuro; porque o tempo desmancha e baralha toda a ordem das coisas que propunhas na imaginação; e de hora para hora tomam os negócios muito diferente aspecto. Lança-te todo na Providência do Altíssimo; e basta ao dia presente a sua malícia. Especialmente se os negócios são de Deus, experimentarás que nunca estão mais ganhos que quando parecem estar perdidos.

III — Avisos e Documentos práticos que respeitam o trato da alma com Deus

 

1. Andar em presença de Deus, observar silêncio e não reparar em faltas alheias, desarraigam da alma inumeráveis imperfeições e lhe granjeiam grandes virtudes.

2. A mosca que se senta no mel, impede o seu vôo; e a alma que busca sabores do espírito, impede a sua contemplação.

II — Algumas outras sentenças notáveis por sua brevidade e substância.

 

Adverte-se que estas sentenças não se põem aqui juntas, para que se leiam juntas; nem se escolheram breves, para se passarem brevemente; porque seria isso causa de que nenhuma se nos imprima, nem sirva de regra prática de nossas ações. Deve-se usar delas como de grãozinhos aromáticos, que se trazem na boca muito tempo e em pouca quantidade.

 

I – Dos que são mais especulativos ou teóricos.

 

1.            Amar a Deus é grande ofício: só este basta para nos levar todo o tempo da vida e todas as forças da alma. Por certo não tem pouco que fazer quem tem a Deus que amar. E assim todas as mais ocupações e ofícios hão de ser ministros deste.
 

Prática da Imaculada Conceição da Virgem Maria Senhora Nossa

 Quaeretur peccatum illius, et non invenietur. (Sl 9, 10)
 
Há umas coisas que se buscam para se acharem, e há também outras, que para se não acharem é que se buscam. A mulher do Evangelho buscava a jóia, e o pastor buscava a ovelha, para achar um a ovelha e outro a jóia. Pelo contrário, aqueles exploradores, que foram em busca de Elias, quando desapareceu da terra, buscavam-no para o não acharem. Foi o caso: sendo arrebatado Elias em um carro de fogo, disseram alguns zelosos que queriam buscá-lo, porque poderia estar aí lançado em algum monte ou vale. Sabia Eliseu muito bem que Deus o tinha transportado para si, e disse-lhes: não há para que o buscar. Eles, pelo contrário, instaram tanto, até que lhes disse: buscai embora: Coegeruntque eum, donec acquiesceret, et diceret: Mittite (4 Rg 2). Partiram cinqüenta homens expeditos, cada um por diferente parte a procurar Elias — três dias andaram por cerros e campos e vales, sem descobrir rastro do que buscavam, até que, cansados, tornaram a Eliseu, o qual lhes disse com grande descanso: Não vos disse eu, que o não buscásseis? Numquid non dixi vobis: Nolite mittere? Pois se Eliseu estava certo que o não haviam de achar, porque ali havia especial mistério e obra de Deus, para que deixou estes pobres homens irem cansar-se debalde? Oh, que obrou como prudente! Se o não buscaram, a qualquer tempo haviam de dizer: Se nós o tivéssemos buscado, pode ser que o tivéssemos achado. Ah, sim. Pois buscai-o, embora: Mittite. Porque se não achareis a Elias, ao menos achareis o desengano. Porque há coisas que se buscam para o mesmo efeito de se não acharem.

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