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Pe. Peter Scott, Fsspx (5)

É permitido a um católico especular na bolsa de valores ou no mercado de câmbio?

A lei natural do direito à propriedade privada traz consigo o direito de comprar e vender, possuir e, conseqüentemente, negociar bens como ações de empresas públicas ou privadas. Esse investimento privado é, de fato, absolutamente essencial para o bem comum, pois sem capital não pode haver produção. O fato de o resultado de tais investimentos ser altamente arriscado não altera a moralidade, desde que um homem não invista os fundos necessários para o sustento de sua família. Tampouco se o ganho de um homem for, paralelamente, a perda de outrodesde que não haja engano, fraude ou que se tire proveito da ignorância dos demais.

Especulação, no entanto, não é a mesma coisa que investimento, mas é a colocação de dinheiro a curto prazo, em ações ou moedas, a fim de obter um ganho rápido com uma venda rápida no momento em que o mercado estiver forte. 

Tal especulação não é contrária à justiça, uma vez que os termos do contrato são mantidos, nem pode ser considerada em si um pecado, uma vez que todos os termos dos vários contratos de compra e venda e os requisitos do direito civil são observados. No entanto, "eles não são moralmente louváveis, a menos que sejam exigidos por alguma necessidade comercial" (Merkelbach, Summa Theologiae Moralis, II, §604).

O princípio é dado pelo Papa Pio XII em uma mensagem de rádio para o mundo inteiro, em 1º de setembro de 1944, na qual ele condena não apenas o comunismo, por sua negação do direito à propriedade privada, mas também “o capitalismo... fundado em uma concepção errônea que arroga para si um direito ilimitado sobre a propriedade fora de toda subordinação ao bem comum", tendo isso sempre sido condenado pela Igreja "como algo contrário à lei natural”1

O católico de reta consciência deve fazer uso do seu capital e de seus investimentos não apenas para seu próprio lucro, mas também para o bem comum da sociedade. É altamente duvidoso que especulações transitórias nos mercados acionários ou monetários redundem em alguma contribuição real ao bem comum. Ao contrário, devem ser supostas como egoístas e prejudiciais ao bem comum.

O Pe. Merkelbach explica o porquê de não considerar a especulação como algo moralmente louvável: 

“[tais especuladores] retém indevidamente seu capital em operações intermediárias que não têm utilidade real; e buscam obter riquezas sem mão de obra proporcional e sem subordinação ao bem comum, com prejuízo aos outros que não se expõem livremente ao acaso, mas são obrigados a fazê-lo por razões comerciais. Além disso, o costume de se preocupar com especulações monetárias leva a um desejo avassalador de ganhos, ao qual subordinam todas as coisas e todas as atividades; engendra uma ansiedade constante e expõe empresas e famílias a um grande perigo de desperdício, ociosidade e ruína financeira." (Ibidem)

É lamentável que alguns católicos tradicionais considerem que esse modo de vida seja compatível com o Reinado Social de Jesus Cristo, engajando-se, como fazem, em tais comércios pela Internet, sem se perguntarem se esse comércio especulativo poderia servir a Cristo Rei, ou talvez seguindo o falso princípio de que os fins justificam os meios. Podemos conhecer o pensamento da Igreja sobre esse ponto na tradicional interdição do Código de Direito Canônico (1917) desse tipo de especulação dessa sorte para todos os clérigos e religiosos, mesmo se feita em benefício da Igreja ou de outras pessoas (Can. 142).

-Fr. Scott, maio de 2007

  1. 1. Disponível no site do Vaticano (em espanhol): http://w2.vatican.va/content/pius-xii/es/speeches/1944/documents/hf_p-xii_spe_19440901_al-compiersi.html

O uso de armas nucleares em tempos de guerra pode ser justificado?

Os princípios tradicionais da moralidade católica expressamente proíbem todo e qualquer uso de armas nucleares em tempos de guerra. A razão para isso é que, como os autores dizem, assassinar inocentes é um ato ilícito e imoral que não pode ser justificado pelo objetivo de vencer a guerra. Os não-combatentes, isto é, aqueles que não contribuem direta ou indiretamente para o sucesso dos atos de guerra do inimigo, devem ser considerados como inocentes. Atacá-los diretamente por qualquer razão, como abalar o ânimo da nação, é um ato imoral. Entende-se que a morte de inocentes pode, ocasionalmente, acontecer como um efeito colateral da guerra, mas não como um efeito primário, diretamente buscado. Nesse caso, não é imoral, mas desde que não seja algo desejado, mas apenas um efeito colateral inevitável de uma ofensiva agressiva ou do bombardeiro de alvos militares.

Porém, as armas nucleares provocam destruição em massa de populações civis inteiras e não podem ser utilizadas para atacar alvos militares isoladamente. Portanto, a morte de civis inocentes e de não-combatentes não é um mero efeito colateral: é o que se busca diretamente. Isso é manifestamente imoral, não importando que a guerra seja justa.

Essa realidade deve, porém, ser modificada em razão da natureza dinâmica da guerra no mundo moderno. Surgiu uma nova forma de barbarismo que responde pelo nome de “guerra total”. Desde a Guerra Civil Americana, as guerras modernas não têm sido um simples conflito entre combatentes de ambos os lados, e essa realidade tem aumentado de maneira cada vez mais intensa. Todos os recursos de um povo passaram a ser direcionados para a guerra e para a destruição total do inimigo, incluindo a indústria, a educação e toda a infraestrutura de uma sociedade. Esse conceito de guerra é manifestamente imoral e não pode, de maneira alguma, ser usado para justificar a morte de inocentes ou de não-combatentes.

A dificuldade surge quando uma nação inimiga passa a empregar a técnica da guerra total. Pode acontecer de a única maneira de se defender contra um agressor injusto em uma guerra imoral como essas seria responder à altura, alocando todos os recursos do país e atacando os alvos civis do inimigo (cf. Fagothey, Right and Reason, p. 572). A justificativa para essa resposta seria que, nesse caso, não existem não-combatentes e que, como a população inteira está envolvida na atividade de guerra inimiga, então todos podem ser alvos de agressão para autodefesa. Apesar disso poder ser admitido como uma possibilidade teórica, seria uma decisão extremamente difícil de se tomar.

Consequentemente, pode-se imaginar uma situação na qual a morte de um grande número de civis através do uso de armas nucleares poderia ser justificado através do princípio do efeito duplo, ou seja, como um meio necessário para se vencer uma guerra justa. Porém, mesmo nessas circunstâncias, teria que haver uma razão proporcional ao mal que a morte de inocentes representa, a saber, o bem desejado. Meu ponto é que, no mundo moderno, essa razão proporcional jamais poderia ser imaginada. O uso de uma arma nuclear acarreteria o uso de outras armas nucleares pelo inimigo ou por seus aliados, e um ciclo de destruição inacreditável seria criado, o que faria a situação geral ser um mal muito maior do que mesmo perder uma guerra justa.

Consequentemente, parece-me que, ainda que se conceda a possibilidade teórica de a guerra total ser respondida com uma guerra total, na prática, o uso de armas nucleares jamais seria permitido.

É patente que o uso de armas atômicas contra Hiroshima e Nagasaki, em 1945, foi imoral. Naquele momento, não havia ameaça às populações civis nos países aliados, nem se poderia dizer que havia uma guerra total. Certamente não havia razão proporcional ao sofrimento dos civis, destruição e miséria que resultaram, sem mencionar o escândalo público e o horror de que uma nação “civilizada” perpetrou um ato tão bárbaro contra inocentes.

 

— Pe. Scott, Maio de 2003.

Pode um apóstata salvar sua alma se morrer no estado de apostasia sem arrepender-se?

Apóstata é a pessoa que já foi católica e que abandonou toda a prática da religião. Por ter recebido e crido na fé católica e por ter conhecido ao menos alguma coisa da ordem sobrenatural da graça, não é possível que tal pessoa esteja de boa fé, como seria possível a um protestante que parou de praticar sua falsa religião. A razão para isso é que a boa fé pressupõe ignorância invencível. Ignorância invencível só é possível para aqueles que não têm possibilidade de conhecer a verdade acerca da revelação divina, e cuja ignorância, portanto, não é culpável. Alguém que já teve a virtude teológica da fé infundida no batismo e que recebeu ao menos alguma instrução na fé católica não pode estar em ignorância invencível. Ele pode, certamente, estar em ignorância quanto à verdadeira Igreja e seus ensinamentos, mas, se ele estiver nesse estado, é por culpa própria, e sua ignorância é vencível. Aparentemente, as únicas exceções a essa regra seriam católicos batizados que nunca receberam ensinamento algum sobre a fé, ou que não receberam exemplos de vidas católicas.

A Igreja Católica recusa exéquias cristãs a todos os pecadores públicos, incluindo apóstatas públicos que não se arrependeram. Se eles deram algum sinal de arrependimento antes da morte, ainda que seja um sinal ao menos provável, como palavras de tristeza pela sua teimosia ou o desejo de receber um Padre, a Igreja pode ter alguma esperança quanto à sua salvação eterna e, portanto, autoriza um funeral cristão. Desnecessário dizer, porém, que apenas Deus pode julgar a alma, então é permitido rezar em privado e oferecer Missas privadas pelos apóstatas que não deram sinais de arrependimento.

 

- Pe. Scott, Agosto de 2005.

 

Tenho um parente na casa dos 30 que não foi batizado. Ouvi falar que qualquer pessoa pode batizar se um padre não estiver disponível.

É verdade que um leigo pode batizar validamente, porém só é lícito a um leigo batizar alguém quando o não batizado está em perigo iminente de morte e quando um padre não estiver disponível. Além disso, um leigo só pode dar a matéria e a forma necessários para a validade do sacramento. Ele não pode administrar as demais cerimônias, que só podem ser separadas da forma sacramental em caso de perigo de morte.

Ademais, um adulto só pode ser batizado se ele acredita e aceita todos os artigos da fé católica, se ele houver estudado e aprendido seu catecismo, se ele estiver arrependido de seus pecados e se houver requerido ser recebido na Igreja Católica. Apenas um padre pode julgar se essas condições foram preenchidas. Se não foram, o batismo corre risco de ser infrutífero e não dar a graça.

Um caso em que um leigo poderia batizar seria aquele em que um não batizado está em leito de morte e não há tempo para chamar um padre, e o moribundo faz atos de fé, esperança, caridade e de contrição, afirmando que crê em tudo que a Igreja Católica acredita, está arrependido de seus pecados e quer tornar-se um católico. Porém, deve-se fazer todo esforço para encontrar um bom padre tradicional que julgue as disposições do catecúmeno.

- Pe. Scott, Agosto de 1999.

Por que os católicos não comem carne nas sextas-feiras?

A prática de abstinência de carne nas sextas-feiras data do início da Igreja. O princípio da prática penitencial de abstinência, para se atingir o domínio de si mesmo, já estava delineado por São Paulo: “E todos aqueles que combatem na arena de tudo se abstêm e o fazem para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, uma incorruptível” (1Cor 9, 25) e “Antes nos mostramos como ministros de Deus nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns” (2Cor 6,5).

Menção explícita da prática de abstinência nas sextas-feiras é feita em um documento do fim do século I (A Didaqué dos Apóstolos), assim como por São Clemente de Alexandria e por Tertuliano no século III. Era um costume universal desde o começo, e a sexta-feira foi escolhida em comemoração da Paixão de Nosso Senhor como um dia em que devemos nos esforçar de maneira especial para praticar a penitência. É em reconhecimento do fato de que Cristo sofreu e morreu e deu sua carne humana e sua vida por nossos pecados em uma sexta-feira que os católicos não comem carne nesse dia. O Papa Nicolau I tornou isso lei da Igreja no século IX. Na Igreja Latina, nos primórdios da Idade Média, esse dia de abstinência não foi considerado suficiente, e a abstinência aos sábados foi acrescentada em honra ao sepultamento de Cristo e ao sofrimento de Nossa Senhora e das santas mulheres no Sábado Santo. Isso foi tornado lei da Igreja por São Gregório VII no Século XI, mas, desde então, caiu em desuso, exceto por parte daqueles que querem professar sua devoção a Nossa Senhora de maneira especial. A Igreja Oriental também tem regras  rigorosas para abstinência, pois, nela, a abstinência de carne é praticada nas quartas e nas sextas-feiras.

As regras acerca do que é ou não permitido em dias de abstinência também variaram conforme o tempo. Santo Tomás de Aquino, por exemplo, indica que ovos, leite, manteiga, queijo e gordura são proibidos em dia de abstinência porque eles vêm de animal e, portanto, têm, em sua origem, algum tipo de identidade com a carne. As regras dos nossos dias restringem a abstinência à carne vermelha apenas.

A abstinência de carne é uma lei eclesiástica, mas que, desde muito tempo, obriga sob pena de pecado mortal. O Papa Inocêncio III deixou isso muito claro no começo do Século XIII, e, no Século XVII, o Papa Alexandre VII anatematizou aqueles que buscavam minimizar o caráter dessa obrigação ao declarar que sua violação seria apenas um pecado venial.

Certamente é verdade que, sendo um preceito eclesiástico, a abstinência das sextas-feiras pode ser alterada pela autoridade soberana da Igreja. Porém, a maneira como esse importante preceito tem sido banalizado pela Igreja pós-conciliar é uma enorme desgraça e vergonha para os Católicos. Não se ensina claramente que ele obriga sob pena de pecado mortal, e a possibilidade de substitui-lo por qualquer outro tipo de sacrifício, dada pelo Código de Direito Canônico de 1983, efetivamente destruiu essa antiga prática. A razão fundamental pela qual os modernistas detestam a abstinência de sexta-feira é que eles negam a necessidade de alguns pequenos atos de penitência para satisfazer o castigo temporal devido aos nossos pecados, além do que eles fazem tudo que podem para esvaziar o mistério da Paixão, isto é, da cruz, e tentam substitui-lo por um Cristo Ressuscitado sem sofrimento ou sacrifício. Porém, foi através do sofrimento e do oferecimento da sua carne e do seu sangue que nosso Divino Salvador se dignou nos salvar, e, consequentemente, é nosso dever associar-nos aos seus sofrimentos através da abstinência das sextas-feiras.

 

- Pe. Scott, Novembro de 2002.

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