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Pe. George (2)

Capítulo 1: A pretensa paz do soviete com Deus

Em uma noite estrelada, achava-me eu sentado no jardim de uma Legação Soviética, quando ouvi o novo ministro soltando seu pequeno balão de experiência e percebi que a história se desenrolava naquele lugar. Os pirilampos assinalavam o seu código de Morse na escuridão envolvente e o odor de grama cortada penetrava no ar dessa noite de verão enquanto ele me dava uma mensagem, já determinada, em alguma parte, em qualquer conferência secreta das câmaras desse país sem Deus.

“Os Nazistas — disse-me — mostraram grande estupidez quando começaram a perseguir os judeus. Os judeus de todo o mundo tornaram-se seus inimigos. Com razão. Perpetraram coisa ainda mais perigosa. Os melhores cristãos tornaram-se também seus inimigos. Antagonizaram-se em todo o campo, com toda a espécie de povo generoso que vive para um ideal. Nenhum movimento deve fazer isso. Para alcançar a vitória é preciso ter sobre o inimigo superioridade no sentido moral”.

Ele era um homem de quarenta e poucos anos, moreno, sagaz, maneiroso e disposto a discutir os problemas do dia nos termos da maior importância. Conversar com um comunista bem doutrinado é sempre interessante para um católico; somos, talvez, as duas espécies de homens no mundo hoje a conhecer o valor da filosofia. Enquanto o diplomata falava por alto sobre vários fatos concretos relativos à Rússia e ao Ocidente, o seu verdadeiro alvo era discutir comigo a necessidade de um Absoluto. E esse Absoluto era Deus.

O russo acendeu um de seus longos cigarros. À luz do fósforo, vi que não estava contente e escolhia as palavras com certo cuidado.

“— Nós comunistas — disse — absorvemos a nossa força com todo o mundo pelos idealistas, homens e mulheres jovens, apaixonados pelo sonho de um futuro melhor para a humanidade. Isso é bom. Os fanáticos são os únicos aderentes dignos de se ter numa época revolucionária. Não invejamos aos capitalistas os seus partidários, ou os oportunistas que se prendem, conforme hábito antigo, aos que lhes oferecem melhoria de vida e prosperidade. Estão carcomidos. O capitalismo está falido porque não tem por onde apelar para o ideal do homem”.

E concluiu:

— “Mas os capitalistas não são os nossos únicos inimigos, a sua Igreja também o é”.

Fez uma pausa. “Não queremos cometer o mesmo erro dos nazistas”, disse. “Não queremos ter os idealistas contra nós. Os capitalistas podem ser comprados. Mas homens, como o senhor, não o podem. Não queremos homens generosos contra nós; sentimos que eles devem estar do nosso lado e não com o regime de reação. Estamos prontos a fazer uma concessão generosa para remover essa barreira existente entre as autoridades russas e os verdadeiros discípulos de Cristo”.

— “Isso é bastante interessante, camarada — disse eu. Por que me fala assim? ”

— “Porque o senhor se destacou pelos seus ataques aos nazistas — respondeu. Eles conseguiram alcançar um alto grau idealístico; não em termos de nacionalismo, não como base de expediente, mas nos termos do bem e do mal. O senhor se guia por uma bússola não muito diferente da nossa. O seu norte para onde a agulha se volta, é Deus. O nosso é um mundo futuro, cheio de paz e prosperidade. Ambos, porém, julgamos cada acontecimento por uma cadência que não afeta os nossos próprios interesses. Estou falando com o senhor, porque acredito que o senhor me compreende e me ajudará”.

Esperei. Ele jogou fora o cigarro: calou-se por algum tempo. E continuou:

— “Nós, comunistas, somos pragmáticos. Temos um sonho obstinado e não renunciaremos a ele. Mas estamos prontos a usar qualquer um dos milhares de caminhos existentes para alcança-lo. Se as condições de Pavlov nos ajudassem a penetrar na sociedade dos sem classe, para torna-los fortes, importaríamos todos os psiquiatras dessa escola. Se as teorias de Freud pudessem ajudar-nos, tornaríamos Freud um deus. Se fosse possível fazer isso, por meio da sociologia, gastaríamos uma fortuna, mas o implantaríamos em todas as nossas cidades. Até mesmo se for necessária a religião para introduzir a segurança no estado comunista, permitiríamos a religião e daríamos força”.

— “Sim? ” — Perguntei delicadamente.

— “Sou um ateu — continuou. E todos os chefes do Partido Comunista também o são. Mas descobrimos uma coisa curiosa: as massas não se sentem bem no ateísmo, que para nós, é tão satisfatório. O povo não se sente superior aos crentes, como julgávamos assim sucedesse depois de alguns anos de educação ateia. O povo sente-se mal perante eles”.

Calou-se; depois disse:

— “Quando os nossos funcionários públicos são mandados para fora do país, ao regressarem, fazemo-los cursar aulas de redoutrinação, para eliminar quaisquer ideias capitalistas ou trotskistas que possam ter absorvido. Isto é fácil de remover. O que é difícil é destruir neles a reverência que sentem pela igreja que visitaram. E a maior parte dos nossos mais ardentes jovens sente certa confusão quando confronta o ‘bem’ e o ‘mal’. Não é da nossa vontade que esses assuntos os façam pensar. Se tão facilmente se deixam impressionar ao primeiro contato com o pensamento religioso, temos que enfrentar o problema, reconhecendo ser a religião uma necessidade básica da humanidade e, de qualquer forma, fornecê-la”.

— “Pode o senhor fazer isso, meu amigo? ” — perguntei-lhe. “Os seus filósofos negam a reconciliação entre os dois sistemas. E os nossos também”.

— “Não há necessidade de abjurar abertamente. A Revolução Francesa se opôs a Deus, porém as suas leis antirreligiosas, mais tarde, foram caindo aos poucos. A história se repete. Naturalmente que não queremos importar elementos estrangeiros, os quais possam vir a fazer confusão em nosso povo. (Falo francamente.... O senhor não se ofenda). A consciência do indivíduo é melhor vigia da lealdade do que qualquer polícia secreta”.

— “E o que deseja o senhor que eu faça? ” — perguntei...

Aproximou-se de mim solenemente.

— “Quero isto, padre George: quero que o senhor comunique aos dirigentes de sua Igreja, secretamente, o que acabo de lhe dizer. Quero que me dê a resposta deles. Depois, quero que vá a Moscou e discuta este assunto com as autoridades de lá”.

Esta conversa, em 1940, foi a primeira admissão formal feita a um estrangeiro de que a guerra à religião tinha fracassado. Naturalmente que o diplomata não foi inteiramente franco. O seu governo ainda tinha esperanças de escapulir.

E conforme me pediram, levei essa mensagem às autoridades da Igreja.

Não fiquei de todo surpreso quando o novo ministro soviético, por meios secretos, de mim se aproximou poucos dias antes. Na minha mocidade, fui médico e, mais tarde, professor. Minha matéria especial era a sociologia. E acontecia agora ser a minha zona particular de estudos a experiência soviética.

O mais interessante para mim e o que achava completamente, fantasticamente e vergonhosamente, uma novidade entre os sovietes era a sua filosofia materialista. Por isso os marxistas colocavam o ateísmo num plano de fé nacional. Somente a França, antes, tinha experimentado uma coisa assim e apenas durante 30 dias. Os chefes soviéticos continuavam experimentando, ano após ano, conseguir a obtenção de um grande poder, sem querer reconhecer a Fonte de todo o poder. Queriam pôr em execução leis não admitindo que o seu povo aceitasse a existência de Deus, esquecidos de que em Sua Justiça é que se baseia sempre o respeito à lei humana.

Até mesmo o mundo pré-cristão nunca chegou a tanto. Os mais violentos chefes do passado — os imperadores mongóis, os godos e os hunos, reconheciam a fraqueza humana por pequenos gestos de humildade. Faziam oferendas de um pouco incenso, um boi enguirlandado, algumas frutas do outono, ante o Mistério que todos os homens sabiam existir. Os marxistas impuseram um novo e terrível relicário: a Humanidade colocada em um trono no tabernáculo onde somente Deus deveria estar.

Uma experiência desta blasfêmia social estava sendo feita a poucas milhas de minha residência. Convenci-me de que o ateísmo, uma forma de pensamento estéril e falsa, não poderia ocupar por muito tempo a inteligência criadora do russo. Porque estes meus vizinhos amam a vida com ardor; a sua própria melancolia é devido a sentirem necessidade de uma experiência mais forte do que a que o mundo pode oferecer. Nenhum povo tem menos tendência para viver encerrado na morna e dialética gaiola do materialismo do que o poético e ardoroso povo da Rússia, a quem tanto estimo e admiro.

Caso o Estado de Nova Iorque quisesse proclamar o ateísmo a sua religião oficial, o povo de Connecticut proporia a si mesmo, muito mais vezes do que atualmente, as seguintes questões: será que existe um Deus? E se existe será que Ele é bom? Dará a sua bondade direitos individuais ao cidadão que nenhum Estado possa sobrepujar? Será este um universo cujas leis morais tenham validade permanente fora de qualquer mudança social que possa vir a ocorrer?

Estudando problemas como este e verificando as soluções dadas por outros homens, é que consegui subir do patamar da lógica até ao último degrau da teologia. Um pouco mais tarde na vida, talvez, para tomar uma decisão, me ordenei padre católico.

Sei ler o russo: no “Pravda”, no “Izvestia”, no “Antireligionznik”, no “Bolshevik” e várias outras publicações do governo, verifiquei ser intenção das autoridades russas o querer desterrar Deus na Sibéria, juntamente com os milhares de seus padres. Estudando, lendo, conversando com os refugiados e os turistas do oriente, pude saber, de perto, dos acontecimentos ocorridos dentro dos Estados marxistas até o início da guerra, em 1939.

O ateísmo é a pedra fundamental daquele Estado.

Logo após a revolução, um de seus chefes, V. Stepanov, o tradutor de Marx, determinou os fundamentos que, por mais de um quarto de século, foram seguidos pelo governo russo: “Precisamos lutar contra o padre, seja ele denominado pastor, abade, rabino, ‘mullah’ ou papa. De certa época em diante esta batalha deve se transformar em luta contra Deus, seja Ele denominado Jeová — Jesus — Buda — ou Allah”.

Os chefes comunistas concentravam todas as suas energias nesta campanha. As autoridades russas controlavam despoticamente a imprensa, o rádio, os editores e todo o programa escolar da U.R.S.S. para conseguir que o povo deixasse de acreditar em Deus. Gastou milhares de rublos nessa propaganda a favor do ateísmo. Para que somente uma parte da população ficasse livre, aos domingos, determinou a mudança nos hábitos de trabalho e impôs duras penalidades e até aprisionamento para os que faltassem ao serviço nos domingos, a fim de ir à Igreja. Os seminários foram fechados para que os clérigos, ao morrer, não tivessem substitutos. O ensino de religião às crianças era um crime importante.

Foram além: sentindo que a persuasão não era suficiente, a U.R. S.S. declarou guerra à religião, por meio do Terror. Quantos deram a sua vida pelo Cristo na Rússia, jamais talvez se saberá: só a Igreja Ortodoxa Grega venera como mártires cinquenta e oito bispos e mais de um milhão de padres, mortos antes de 1923.

Depois, sentenças de morte continuaram em número crescente.

Para mim, era evidente que essa guerra contra Deus não podia ter sucesso almejado dentro da Rússia. E certo dia, conversando na Croácia com uns amigos céticos, disse: “O Soviete aventurou-se numa guerra de vinte e dois anos contra Cristo e saiu vencido. As autoridades não ousam fazer face ao que isto quer dizer: sem o ateísmo o completo plano de Marx não poderá subsistir”.

“Os chefes, porém, ainda não aceitam este ponto. Pretendem acreditar que, rejeitando o ateísmo, poderão continuar marxistas, em contradição com tudo o que antes afirmavam”.

“Muito em breve a U.R.S.S. fará a paz com Deus. A espiritualidade russa, hoje escondida, ressurgirá. Na efervescência da guerra com o Ocidente, pode acontecer que o partido comunista tenha que afrouxar as suas cadeias e a verdadeira Rússia, a boa e santa Rússia reviverá”.

Este meu ponto de vista não era segredo. Predisse claramente que a U.R.S.S. em caso de guerra, não poderia continuar a sua batalha intestina e impopular contra a Fé.

O ministro Soviete mexeu a primeira pedra. Pediu-me encaminhar às devidas autoridades a questão que Moscou desejava ver respondida: em que termos poderia o Estado comunista conseguir a paz com o mundo católico? Assim, em 1940, vi-me saindo daquele jardim de legação para levar essa mensagem aos meus superiores.

Logo após ter-lhes confiado essa mensagem, comecei a estudar com afinco os atuais pontos de vista religiosos da Rússia. Rapidamente descobri existir sobre o assunto uma espécie de esquizofrenia atingindo os mais elevados círculos soviéticos. Um primeiro grupo acreditava, fria e cinicamente, no mesmo ardiloso plano manifestado pelo embaixador. O segundo grupo de oficiais, acreditava que o ateísmo continuaria sendo a pedra inicial da fé marxista e que a campanha contra a Igreja deveria continuar. O terceiro grupo reconhecia a religião como necessária ao povo sedento de ideal, mas devia ser-lhe transmitida por uma igreja-fantoche, cujos ensinamentos pervertidos não pudessem entrar em conflito com os fins políticos do Estado, ideias estas que, afinal, prevaleceram em 1948. O quarto grupo (cujos chefes se tornaram depois meus amigos) já acreditava em Deus, secretamente. Eram funcionários do Governo e iniciaram a organização de um movimento de resistência anticomunista dentro do Soviete.

Tais eram as diversas correntes entre os mais elevados membros do partido comunista. Porém, enquanto debatiam sobre a questão: “Devemos deixar que Deus penetre na Rússia? ”, a resposta se apresentava por si mesma. O amor de Deus, que não conhece os limites de expedientes, já tinha conseguido penetrar muitos corações russos.

Estas coisas não as aprendi por intermédio de legação alguma. Sabia-as já. Mas a firme certeza só a tive quando o meu país foi invadido e fui obrigado a viver incógnito como um soldado guerrilheiro, adido ao Exército Vermelho da Ucrânia. Assim disfarçado, visitei a Rússia e ali permaneci durante seis meses, aquartelado com os oficiais do exército russo. Mas, em 1940, além de ser padre, era editor e professor de sociologia de uma Universidade Católica do meu país na Europa Oriental.

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