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Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX (26)

Como controlar o uso de aparelhos eletrônicos e internet?

O computador deve estar em uma área compartilhada da casa – jamais em um cômodo isolado. Dessa maneira, é fácil saber quem o está usando, para que e por quanto tempo. Essa falta de “privacidade” é um bom obstáculo para qualquer uso impróprio.

Nada mais apto a barrar a virtude que distribuir acesso à Internet sem fio para toda a casa, pois isso tornaria fácil que nossas crianças acessassem a Internet em seus celulares, tomassem o nosso emprestado ou o de um amigo que esteja na casa… E, uma hora ou outra, esse uso vai desbordar para o mal.

Limitar o tempo e o propósito do uso. Não podemos nos deixar absorver por esses aparelhos, e precisamos aprender a ligá-los apenas para uma quantidade de tempo especificamente. Quando usamos esses aparelhos, devemos nos perguntar se isso é necessário ou não no momento presente. Como em qualquer comportamento humano onde a paixão poderia dominar, devemos ter um verdadeiro espírito de penitência, e, portanto, devemos restringir-nos em certas coisas.

Na infância, até os 12 anos de idade, não há razão legítima para permitir que uma criança gaste tempo em frente a um computador. Um jogo – um jogo na realidade, se possível fora de casa – é o processo normal de [a criança] despertar para o mundo ao redor dela. Quando ela fica mais velha, acesso ao computador deve servir como iniciação para o que é útil, como trabalhar com editores de texto ou com fotografias. Mas mesmo essas experiências não devem ser prolongadas, nem fora da presença eficiente e atenciosa dos pais.

Restringir o tipo de aparelho ao qual seus filhos têm acesso. Se uma criança tem seu próprio smartphone ou tablet, não deveria ser surpreendente que eles veem filmes ou jogam jogos duvidosos escondidos dos pais!

Um leigo pode ter um diretor espiritual?

O Padre Tanquerey, no seu livro A Vida Espiritual, enumera quatro meios principais de perfeição que, normalmente, são necessários para a santificação das almas. Direção espiritual é o primeiro deles, pois “fornece uma orientação segura” (p. 257). Ele prossegue explicando que, embora a direção espiritual não seja absolutamente necessária para a santificação da alma, ela, ainda assim, é “um dos meios comuns de progresso espiritual” (ibid.).

O erro daqueles que sustentam que não precisamos de direção espiritual, na verdade, está bem refutado pelo Papa Leão XIII, na sua encíclica de 1899 condenando o Americanismo, Testem Benevolentiae. Censurando os inovadores, que colocam as virtudes naturais acima das virtudes sobrenaturais e as virtudes ativas acima das virtudes passivas, ele se baseia no todo da tradição católica sobre a vida espiritual e em como essa inovação é uma recusa de ser dirigido por nossos maiores. Ele invoca, para defender seu argumento, o exemplo de Saul no momento de sua conversão. A ele foi dito que se dirigisse a Damasco, para encontrar Ananias, “e lá vos será dito o que vós deveis fazer” (At 9, 7). O Papa prossegue explicando que Deus normalmente opera sobre os homens através do intermédio de outro homem, assim como o diretor espiritual atua sobre aqueles que confiam nele: “Deus, em sua infinita Providência, decretou que os homens, em sua maioria, devem ser salvos por homens; assim, Ele determinou que aqueles que são chamados a um grau mais elevado de santidade devam ser dirigidos a esse fim por outros homens, ‘para que’, como diz Crisóstomo, ‘sejamos ensinados por Deus por meio dos homens’” (As Grandes Cartas Encíclicas do Papa Leão XIII, p. 447).

Todos os autores espirituais falam sobre a necessidade de um diretor espiritual na vida religiosa, pois esta é um estado de perfeição e o religioso tem a obrigação de tender para a santidade e, consequentemente, [a obrigação] de ter um guia para o guiar e protegê-lo dos perigos e dos enganos do orgulho, da ilusão, do autoengano, de mortificações exageradas, de escrúpulos e coisas do gênero.

A questão é quanto às pessoas no mundo, que dizem não ter a mesma obrigação de tender para a perfeição. Certamente é verdade que eles não têm a obrigação especial dos votos, mas ainda têm a obrigação da vida cristã em si, contida no dizer de Nosso Senhor, “sede em tudo perfeitos como perfeito é Vosso Pai Celestial” (Mt 5, 48). Pois aquele que não avança na caridade, certamente retrocede. A vida interior não é estática.

São Francisco de Sales, o diretor espiritual mais renomado, em sua Introdução à Vida Devota, considera essa uma questão de grande importância: “Quereis avançar no caminho da perfeição e do amor de Deus? Então buscai alguém que possa dirigi-lo. Esse é o conselho mais importante que posso dar-lhe. Busque como quiser, jamais encontrarás a vontade de Deus com tanta segurança quanto no caminho da humilde obediência” (Livro I, Capítulo 4).

A direção espiritual geralmente vem em conjunto com a confissão, e é aconselhado a moças que a façam ali, nessas ocasiões. Ainda assim, não são a mesma coisa: a direção espiritual vai muito além. “A confissão se resume à acusação dos pecados; a direção vai bem além disso. Ela alcança as causas do pecado, inclinações enraizadas, temperamento, caráter, hábitos adquiridos, tentações, imprudências. Tudo isso para descobrir os remédios adequados, para ir às raízes do pecado. Para combater defeitos da melhor maneira; a direção também se ocupa das virtudes opostas aos pecados, das virtudes comuns a todos os cristãos, e daquelas peculiares a cada classe particular de pessoas...” (Tanquerey, p. 262)

Como consequência, o simples fato de ir regularmente à confissão não é uma direção espiritual. Precisamos pedir ao nosso confessor que dirija nossa alma, encoraje-nos adiante, dome nossos impulsos imprudentes e seja médico da alma: “Por que desejaríamos ser diretores de nossas próprias almas se não fazemos o mesmo com nossos corpos? Acaso não percebemos que os médicos, quando doentes, chamam outros médicos para determinar quais remédios são necessários?” (Tanquerey, p. 260).

Uma alma que esteja num momento de tomar decisões importantes na vida, ou uma alma que veementemente deseja crescer na vida interior precisa de um guia espiritual. Ele não precisa ser nosso confessor regular, mas precisa ser um Padre que entenda nossa alma com todas as suas falhas, fraquezas e mesquinharias. De que outra maneira ele poderia ser nosso médico? Embora não possamos esperar ter um Santo como diretor espiritual, que ele ao menos seja um homem de Deus que tem o conhecimento necessário de teologia ascética e mística. Ele também precisa entender as almas em razão da experiência acumulada em anos de confessionário. Finalmente, ele deve ser um Padre cheio de zelo divino que tenha em seu coração nosso progresso espiritual. Dificilmente podemos esperar direção espiritual adequada dos Padres imbuídos dos erros do Vaticano II e do modernismo pós-conciliar, que enfraqueceram toda busca pela santidade.

Membros de Ordens Terceiras devem considerar um meio necessário para o avanço na perfeição que tenham um Padre como diretor espiritual, que entenda profundamente a espiritualidade das suas ordens e que, preferencialmente, seja membro dela. Eles [membros de ordens terceiras] não devem cair na armadilha de buscar direção espiritual entre eles mesmos, mas de alguém que tenha essa responsabilidade perante Deus. Se se diz que o primeiro diretor espiritual de uma esposa é seu bom e prudente marido, também é verdade que uma mulher verdadeiramente espiritual precisa, também, de um segundo guia que, apenas ele, tem a graça de estado de confessor e diretor de almas. Ela avançará na perfeição se encontrar um pai espiritual que, em suas confissões regulares, encorajá-la-á a lutar contra suas falhas e buscar agradar seu marido em todas as coisas.

É possível acrescentar uma intenção a um terço já rezado?

É verdade que, em todas as nossas orações, assim como nas Missas a que assistimos, podemos ter várias intenções e que cada intenção adicional não diminui as outras. No entanto, o bom senso indica que a intenção deve preceder o ato, pois, se assim não fosse, ela não poderia dar o propósito ou a moralidade ao ato, nem poderia ser a causa final pela qual o ato é praticado. Se praticamos um ato de bondade, é pelo fim pelo qual ele foi praticado (finis operantis), que é a principal circunstância que determina seu valor e seu mérito. O mesmo pode ser dito de nossas orações e terços. As intenções são a razão pela qual praticamos esses atos, e, consequentemente, se queremos que elas tenham alguma influência nas nossas orações, devem ser formuladas preferencialmente no início, mas pelo menos antes do fim dessas orações ou terços. De outra maneira, elas não poderão ser consideradas como sendo as intenções dessas orações.
 
Esse princípio é confirmado pelo ensinamento dos teólogos morais acerca das intenções de um Padre que oferece o Santo Sacrifício da Missa. A intenção pela qual a Missa é rezada deve ser formulada antes da Missa. Ela não precisa ser formulada imediatamente antes, mas pode ser formulada com boa antecedência. O mais tardar, no momento em que a essência do sacrifício da Missa acontece, ou seja, durante o Cânon da Missa, antes da segunda consagração. De outra maneira, não se poderá considerá-la uma intenção pela qual a Missa foi rezada (Prummer, Man. Th. Mor: III. p. 183)
 
De maneira semelhante, o fiel deve formular as intenções de seus terços, orações e Missas antes do início, ou ao menos quando começam esses exercícios. É boa coisa ter uma intenção geral além das intenções particulares, como, por exemplo, por tal e tal pessoa doente. Essa intenção geral pode ser por todos aqueles que se recomendam às nossas orações, ou pela Igreja e pelas almas necessitadas. Outro tipo de intenção geral que se recomenda é aquela descrita por São Luís Maria Grignion de Montfort na prática da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora, qual seja, praticar todas as nossas ações e orações por Maria como nosso fim próximo, isto é, pelas intenções dela, pois, assim, damo-lhe o valor de todas as nossas boas ações e entregamos a ela pleno direito de dispor delas. Se essa é nossa intenção geral, não precisamos nos preocupar se não mencionamos uma intenção particular, seja porque nos esquecemos dela ou porque não a conhecíamos. Pois já que Maria, na glória do céu, conhece todas essas intenções, ela pode aplicar os méritos de nossas orações a essas intenções, e jamais teríamos que nos preocupar se houve alguma intenção que deixamos de mencionar e à qual precisamos aplicar nossas orações retroativamente.

É lícita a caça ou a pescaria? Moralmente falando, é preciso obter permissão legal para pratica-las?

Deus deu ao homem domínio sobre todas as criaturas, incluindo animais, o que permite que sejam usados pelo homem para propósitos justos, como alimentação, vestimenta, experimentos científicos, trabalho e mesmo lazer. Caçar e pescar por esporte enquadra-se nesse aspecto de lazer e recreação. Por outro lado, crueldade desnecessária com animais é pecaminosa, não porque viola supostos "direitos" dos animais (que não existem na realidade, pois apenas seres racionais podem ser sujeitos de direitos), mas porque macula a dignidade do homem como ser racional e como administrador da criação de Deus.

Como Deus deu os animais para o uso de todos os homens e também das gerações futuras, as autoridades civis — ministros temporais de Deus — têm o dever de garantir que os animais serão preservados, e não arbitrariamente eliminados, o que facilmente ocorreria se não houvesse regulações.

Nos nossos tempos, esse dever é exercido através das leis civis que regulam o tempo, o lugar e a espécie de animais que podem ser caçados ou pescados. Essas leis são impostas para cuidar de certos elementos particulares do bem comum dos homens — a preservação da vida selvagem, que foi criada para todos nós, e a garantia da vida humana e da propriedade.

Sendo esse o caso, as leis civis regulando a caça e a pesca esportivas são verdadeiras leis, de acordo com a definição tomista: "uma ordenação da razão, criada para o bem comum e promulgada pela autoridade responsável pela comunidade".

Portanto, sim, se alguém pratica pesca ou caça esportiva, há um dever moral de observar essas leis. Elas vinculam a consciência — ou seja, negligenciá-las e feri-las é um ato pecaminoso. Apesar disso, nem todas elas vinculam sob pena de pecado mortal, mas a depender da gravidade da matéria.

Se eu viajar para um lugar remoto no fim de semana, tenho que me deslocar por horas a fio para ir à Missa?

Pela lei natural e pela lei positiva divina, devemos render culto a Deus. A lei eclesiástica determina que essa obrigação deve ser cumprida assistindo à Missa nos domingos e nos dias santos. Esse preceito vincula sub gravi (ou seja, sob pena de pecado mortal) a todos aqueles que atingiram a idade da razão (sete anos de idade). Além disso, qualquer pessoa obrigada a obedecer a uma lei também está obrigada a fazer esforços para evitar qualquer obstáculo ao seu fiel cumprimento.

Como uma lei não pode obrigar ao impossível, a Igreja reconhece que, em certas circunstâncias, alguém pode ser escusado de observar a lei. Assim, uma causa moderadamente grave pode nos escusar de assistir à Missa em um domingo. As principais causas, normalmente, são: 

  1. impossibilidade física ou moral, como, por exemplo, em caso de doença, grande distância de uma Igreja, condições de tempo perigosas, risco de séria perda material, etc; 
  2. caridade que nos obrigue a ajudar o próximo, como, por exemplo, tomar conta de uma pessoa doente, ou estar presente para evitar que alguém caia em pecado; 
  3. obrigação imposta por certas funções ou ofícios, como, por exemplo, soldados, enfermeiras, bombeiras, etc, enquanto em serviço.

Mas, embora Deus não espere de nós que façamos o impossível, Ele espera que suportemos alguns inconvenientes ou obstáculos aos nossos planos para que consigamos cumprir Sua vontade.

Portanto, não nos é lícito criar um obstáculo ao cumprimento da lei, exceto se houver uma causa grave proporcional.

Relaxamento e recreação são, certamente, necessidades humanas legítimas, bem como dons de Deus. Mas, como existem várias formas de relaxar, devemos escolher aquela que não nos force a ausentar-nos da Missa dominical.

Portanto, se escolhemos uma atividade recreacional que nos impossibilite assistir à Missa dominical, a razão para isso deve ser de uma gravidade proporcional à gravidade do preceito eclesiástico. Um motivo dessa gravidade proporcional poderia ser, por exemplo, se acampar num local remoto for aconselhável como a maneira mais útil de fortalecer os laços de uma família que corre o risco de desabar. Outros motivos de gravidade proporcional poderiam ser, por exemplo, se não tivermos oportunidade de tirar férias anuais em outro período, ou se for o caso de uma viagem ao estrangeiro que jamais teremos a oportunidade de fazer novamente.

Em todo caso, devemos evitar fazer de nossas atividades recreacionais o ponto de partida da programação do nosso fim de semana, relegando pensar em Deus e na Missa a um momento posterior.

A Missa é um dom de Deus, e assistir a ela é um privilégio incrível para nós, especialmente na atual crise da Igreja, em que há um número decrescente de Missas e de fiéis indo à Missa para render a Deus o culto que Lhe é devido.

Portanto, não devemos tentar encontrar desculpas para não ir [à Missa de preceito], mas, ao contrário, fazer esforços para ir à Missa mesmo em outros dias da semana.

Com que frequência devo me confessar?

Em consonância com a lei divina, a Igreja enfatiza a necessidade de confessar todo e cada pecado mortal de que se lembre após exame diligente e adequado, com todas as circunstâncias que podem alterar a espécie do pecado. Nos tempos presentes, como consequência da obrigação de receber comunhão ao menos uma vez por ano, temos, também, por preceito eclesiástico, a obrigação grave de confessar, ao menos uma vez por ano, quaisquer pecados mortais ainda não acusados em confissão válida.
 
A Igreja não exige nada mais — nem uma frequência maior, nem a confissão dos pecados veniais — mas tanto a Igreja quanto todos os autores espirituais aconselham e encorajam-nos a duas coisas adicionais. Em primeiro lugar, buscar a absolvição dos nossos pecados mortais o quanto antes e tão frequentemente quanto preciso.
 
Em segundo lugar, também somos aconselhados e encorajados à confissão devocional mesmo de nossos pecados veniais. Como o Concílio de Trento estabelece:
 
"Pecados veniais, que não nos privam da graça de Deus, e nos quais caímos com maior frequência, podem retamente e com benefício ser acusados na confissão, como torna clara a prática das pessoas devotas. [Também] podem não ser declarados sem [que configure] qualquer falta, e podem ser expiados de várias outras formas".
 
A prática piedosa da confissão frequente assegura um progresso mais rápido no caminho da perfeição. Por exigir um exame frequente da consciência e o conhecimento de nossas fraquezas, aumenta o autoconhecimento e o crescimento na humildade; "nossos maus hábitos são corrigidos, a negligência e a tibieza encontram resistência, a consciência é purificada, a vontade fortalecida, um salutar autocontrole é atingido, e a graça é aumentada em razão do sacramento em si" (Pio XII, Mystici Corporis).
 
Se para os religiosos a lei canônica requer a confissão semanal, e para os sacerdotes, ao menos a cada duas semanas, para leigos, confissão “frequente" geralmente significa mensal, de acordo com as possibilidades e as necessidades dos indivíduos.
 
Para avançar na perfeição espiritual, a confissão frequente, ordinariamente, exige um confessor regular. Ele será a pessoa mais qualificada para sugerir a frequência adequada ao desenvolvimento espiritual e às possibilidades físicas e morais do penitente.
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